N.A.: A música "Que se danem os nós", cujo título está sendo utilizado enquanto título do capítulo, é de autoria de Ana Carolina. Esse capítulo faz referência a cena no banheiro de Hogwarts, na qual Harry e Draco se encontram em "Enigma do Príncipe". Algumas as falas e situações aqui descritas foram transcritas da obra de J.K. Rowling.

Vim achei que eu me acompanhava

E ficava confiante

Outra hora era o nada

A vida presa num barbante

Eu quem dava o nó

Draco Malfoy encarava seu reflexo no espelho do banheiro de Hogwarts, ele parecia doente. Não lembrava nenhum pouco aquele Draco altivo e sonserino que fora no ano anterior. No ano passado, Draco havia apoiado fortemente a ascensão do Lorde para que o mundo bruxo ficasse livre dos Sangues Ruins, protegendo o Sangue Mágico. Protegeria a existência, autonomia e superioridade dos Bruxos. Ele havia aprendido isso durante toda a sua infância. Ouviu de seus pais, dos amigos de seus pais, dos demais sonserinos.

No entanto, depois do fracasso de Lúcio no ministério da magia, ficou claro pra Draco que Voldemort estava disposto a punir qualquer família que o desapontasse, por mais puro que fosse o sangue da mesma. Durante as férias aquele ano, o garoto ficara horrorizado com o uso que o Lorde das Trevas estava fazendo da sua mansão. Haviam mortes, torturas nos porões e festinhas onde os Comensais bebiam muito e abusavam de jovens mulheres trouxas capturadas exclusivamente para as ocasiões. Seu pai participava de todas as festas com as belas trouxas e Narcisa apenas observava tudo, o que Draco considerava um profundo desrespeito com a sua mãe.

Draco lembrou-se do dia em que descobriu o seu destino.

- / -

Ele tinha passado toda as férias de verão no quarto, sua mãe o instruiu a assumir essa postura para poupá-lo de ver os horrores que aconteciam na mansão. Em um dia ironicamente ensolarado sua mãe veio visita-lo em seus aposentos. Draco tinha ficado impressionado com a forma como a mãe se encontrava. A sempre altiva Narcisa Malfoy há algum tempo estava se transformando em uma mulher quieta e cansada e já não tinha vaidade alguma. Draco sabia que sua mãe estava viva apenas por ele.

- Meu menino. - Ela disse com amor, por trás das grandes olheiras.

- Mãe. - Ele a abraçou.

A Narcisa se permitiu um sorriso quando deixou-se cair nos braços de seu filho tão amado. Mas o sorriso se desfez quando lembrou-se da notícia que tinha que lhe dar.

- Filho, seu pai conversou comigo essa manhã, veio falar da nova missão que o Lorde ordena à nossa família. - Ela falou.

- Eu devo assumir dessa vez não é mãe? - Draco deduziu, assustado com o seu destino. A mãe assentiu, algumas lágrimas ameaçaram cair de seus olhos. Draco acariciou o cabelo de sua mãe e disse:

- Não se preocupe mamãe, tudo ficará bem. Vamos sobreviver, os dois. Eu te prometo, certo? - ele dizia com certeza na voz.

- O Lorde deseja que você assassine Alvo Dumbledore - Narcisa murmurou. - Ele não acredita que você vá conseguir, ele só deseja puni-lo. Punir nossa família pelo fracasso de seu pai no departamento de mistérios.

- Entendo. E como ele pretende fazer isso? - perguntei.

- Há um armário sumidouro na Sala Precisa em Hogwarts. Por ele você se comunicará conosco e poderá fazer com que objetos escondidos entrem na escola de magia. Visando a morte de Dumbledore. O outro armário está sob poder do Lorde e dos comensais.

Draco apenas assentiu. Não deixou que a mãe soubesse o quanto essa tarefa o aterrorizava. Não queria preocupa-la mais.

- / -

Eu lembrava de nós dois mas já cansava de esperar

E tão só eu me sentia e seguia a procurar

Esse algo alguma coisa alguém que fosse me acompanhar

Se há alguém no ar

Responda se eu chamar

Alguém gritou meu nome

Ou eu quis escutar.

Draco sentia as lágrimas escorrerem por seu rosto enquanto lembrava. Ele queria gritar, gritar por qualquer um que pudesse ir em seu socorro, que pudesse tirar aquele peso de suas costas, que pudesse salvá-lo. Depois percebeu que ele era um perigo, já tinha quase assassinado dois estudantes de Hogwarts, eram os outros que precisavam ser salvos dele. Ele pensou momentaneamente em Potter e nas suas recentes tentativas de descobrir o que ele fazia pelo castelo, lhe irritava tanto aquele garoto bancando o herói.

- Não – de repente uma voz o tirou de seus pensamentos. – Não... me conte qual é o problema... posso ajudar você...

Draco reconheceu a voz de Murta-Que-Geme. Ela deveria ser a mais irritante fantasma do mundo bruxo, mas o garoto não se importava. Era isso que fazia que ninguém frequentasse aquele banheiro. Era isso que o permitia desabar em paz ali.

- Ninguém pode me ajudar. – ele respondeu. – Não posso fazer isso... não posso... não vai dar certo... e se eu não fizer logo... ele diz que vai me matar.

Estava tão transtornado que nem percebeu quando a porta do banheiro se abriu. De repente, através do espelho, ele viu Harry Potter o encarando. Os olhos verdes insondáveis. Mais do que rapidamente Draco puxou a varinha e a apontou para o rosto do seu inimigo de infância. A varinha de Potter já estava em suas mãos, mas para surpresa do sonserino, o menino não o atacou. Simplesmente abriu a mão e deixou que a varinha caísse no chão e então ergueu as duas mãos em sinal de rendição.

Draco arregalou os olhos. Seus lábios se entreabriram e sem pensar ele perguntou:

- Por que?

Vem eu sei que tá tão perto

E por que não me responde

Se também tuas esperas te levaram pra bem longe

É longe esse lugar

Harry sustentou seu olhar durante alguns segundos.

- Porque eu nunca te vi assim antes. – ele disse, simplesmente.

Draco ficou com raiva, não queria que ninguém olhasse pra ele com pena.

- Me poupe, Potter. – ele disse desdenhoso. – Se você pensa que eu sou fraco...

- Não. – o outro o cortou no meio da fala. – Nunca o vi tão forte.

Draco não tinha certeza se havia entendido o que Harry disse. Como ele podia ver sua força em uma situação na qual ele sabia estar tão frágil e vulnerável. Deveria ser alguma besteira grifinória...

- Eu me sinto perdido assim muito constantemente. – o moreno começou a falar.

- Eu não me sinto perdido. – Draco contestou, mas sabia que era exatamente assim que se sentia.

- Se sente sim, eu posso reconhecer porque olhei pra você hoje e vi o meu espelho. – Harry comentou e então sentou-se no chão, apoiado na parede do banheiro, como um convite.

Draco Malfoy nunca soube o que o fez não atacar Harry Potter, não manda-lo embora imediatamente. Nunca soube se o pavor que sentia, se foi o fato do outro ter admitido sua vulnerabilidade. Ele nunca tinha pensado em Potter vulnerável. Sempre pela escola bancando o herói, basicamente correndo atrás de cada perigo que aparecia. Para ele, o menino com a cicatriz na testa era tão forte. Suportara a morte de seus pais, de seu padrinho. Sobrevivera ao Lorde das Trevas tantas vezes. Aguentava todo tipo de especulação e comentários maldosos das pessoas em relação a ele, muitos vindos do próprio Draco. Todas essas coisas passaram pela mente de Draco, o impulsionando. Quando deu por si ele estava sentado ao lado do menino.

- O que você sente? – ele questionou.

Harry o encarou.

- Me sinto sozinho, como se ninguém pudesse me ajudar. – ele disse, nenhum dos dois sabia o que havia feito com que Harry se abrisse daquela forma com o outro. – Sinto que tem algo muito mais poderoso que eu lá fora, pronto para matar a mim e as pessoas que eu amo. Sinto medo da guerra que vem por aí, a qual eu posso não sobreviver. Sinto medo de precisar fazer as coisas que estou destinado a fazer.

Draco olhou para o Menino-Que-Sobreviveu. O que ele sentia era exatamente o que Draco sentia. O sonserino sempre acreditara ser tão diferente do outro. Foi a profunda empatia que sentiu que o fez dizer:

- Eu sinto muito.

- Eu também. – Harry respondeu.

Os meninos ficaram em silêncio alguns minutos.

- Sabe Draco, eu sempre te achei um idiota. – Harry ponderou. – Sei que você pensa exatamente o mesmo em relação a mim. Mas te ver hoje aqui, me fez ver que... você é humano. É só um garoto, um garoto que como eu tem que carregar muito mais do que pode suportar.

- Você sabe? – Draco questionou, apavorado de que Harry soubesse que ele havia recebido a ordem de matar Dumbledore.

- Eu sei que você é um comensal da morte. – Harry afirmou, mas não parecia haver ódio em sua fala. – Mas também sei que não quer ser... Quando vi você aqui hoje tive certeza de que não quer ser.

Vem nunca é tarde ou distante

Pra te contar os meus segredos

A vida solta num instante

Tenho coragem tenho medo sim

Que se danem os nós

Draco estava pronto para discordar. Abriu a boca para dizer a Harry Potter que ele não tinha o direito de dizer o que Draco queria ou deixada de querer. Dizer a ele que o Lorde das Trevas tinha razão, que Draco concordava com a mudança que o Lorde estava causando no mundo bruxo. Mas tudo isso ficou preso em sua garganta, seu peito ardia e ele se dava conta do quão inverossímil era isso que queria dizer a Harry. Porque para ser um comensal da morte, você tem que estar disposto a matar, e Draco Malfoy jamais poderia fazer isso.

- Você tem razão. – ele disse, desapontado consigo mesmo. Se sentindo fraco e assustado. – Eu não quero ser.

Harry ergueu a mão e a apoiou nos ombros de Draco, em uma atitude consoladora. O sonserino pensou em empurrar o outro, mas estava desesperado pelo toque de outro ser humano, de qualquer um que pudesse ser tão gentil.

- O que ele está te obrigando a fazer? – Harry questionou.

Draco quase sorriu.

- Você sabe que eu nunca poderia te dizer. – Ele disse, mas não havia ódio em sua voz.

- Você tem razão. – Harry concordou. - Não vamos falar mais nada. Tudo bem?

Draco apenas assentiu. E então, para a surpresa de Harry, ele se deixou cair para o lado, encostando a lateral do seu corpo no grifinório. Harry o abraçou puxando para si. Assim ficaram por longos minutos. Os dois estavam em lados opostos, nunca foram amigos, mas naquele momento pareciam tão iguais. Eles precisavam desesperadamente de alguém, e então mantiveram o abraço, tentando encontrar algum consolo, alguma força um no outro.

Se há alguém no ar

Responda se eu chamar

Alguém gritou meu nome

Ou eu quis escutar