Capítulo 01 – Era uma vez

Que tempestade, que nevasca ou qual escuridão é que detém um cavaleiro de honra e seu corcel? Um grande e inquebrantável espírito chameja em seu coração. A honra ilumina a vitória gravada em seu brasão, perseguindo-o e abrindo seus caminhos, sempre sussurrando: "ele é virtuoso".

O caminho que ele galga não é o mais fácil.

Por uma estrada ladeando um bosque verdejante e contente com o início do Verão, vinha uma carroça coberta atrelada a um vigoroso alazão branco, um andaluz de crinas muito longas e rabo muito comprido. Ele vinha marchando sereno, a enorme cabeça pendia. Não tinha com o que se preocupar, pois tudo à sua volta era como que sob o seu controle, seus ouvidos estavam sempre atentos a qualquer movimentação estranha. Controlado, firme e imponente, aquele era um cavalo fiel, treinado, e já conhecia a vitória, já conhecia o campo de batalha. Nada mais o preocupava, a vida não lhe era um mistério.

E não era em nada diferente de seu proprietário. Na boleia da carroça ia sentado um rapaz. Ele estava envolto em mantos escuros, segurava as rédeas do cavalo com firmeza. Mas nada podia ser tão firme quanto seus olhos azuis que fitavam a frente com tanta força e afronta, como se ele desafiasse o futuro, mostrando-se sempre pronto. A alma dele era atribulada e negra, viajava sozinho e nunca tivera medo. Não houve batalha que o fizesse fraquejar e retroceder, nenhum perigo jamais o fez se acovardar. Nada lhe era páreo, ele era superior e insuperável. Se você chama isto de coragem, eu chamo de rebeldia. O espírito dele era tanto livre como inconsequente, a vida não lhe tinha valor. E aquela chama, sim aquela consumidora, ardia nele como o fogo do Sol.

Quando era apenas um garotinho, não tinha mais que seis anos, foi lhe apresentado o estilo de vida que levaria por todos os outros anos até que um dia ele recebesse seu desafio final – a manopla que a morte ia atirar perante ele, marcando o fim de sua jornada, seu único inimigo invencível. Ele recebera uma missão e até o momento nunca tinha deixado de cumpri-la. A missão era a sua vida. Nada mais lhe importava.

A estrada estava vazia, a volta toda se encontrava em silêncio. O vento vinha das árvores mover a longa e pesada crina de seu cavalo e esvoaçar seus cabelos castanhos, batendo em seu rosto junto do calor do Sol da tarde. Já estava próximo de seu destino, só uma de muitas das paradas em seu caminho solitário.

A mente estava vazia, mas nunca em paz, toda ferocidade dele o estava perturbando todo o tempo. Ele não soube bem de qual direção, mas ouviu um som melodioso surgir de entre as árvores junto com o vento. Era um canto tão suave como o murmúrio de um riacho e ainda assim tão poderoso como o som da marcha de um exército. Sua atenção foi direcionada para aquele canto, e com ar desconfiado mudou o olhar para o bosque que o rodeava, perguntando-se o que provocava aquela melodia e que criatura mística atrevia-se a lhe despertar de sua indolência e estimular-lhe os sentidos.

Distraído com o intrigante som, desagradou-se ao sentir um grande solavanco. Seu cavalo havia brecado com brusquidão e encolhia-se a retroceder.

_O que há, Wing? –indagou, aborrecido, ao seu cavalo, agitando as rédeas, mas o animal não estava disposto a continuar. –Em frente, Wing! Em frente! –comandou, mas o cavalo olhava os lados com insegurança e dúvida. Seus instintos acusavam que não era seguro continuar.

Wing relinchou contrariado, mas as rédeas foram com brusquidão agitadas e o chicote brandiu em alto estalo, e discordando, Wing resolveu continuar. Seu dono não era razoável.

Com passos cuidadosos foi caminhando, o som de seus cascos eram abafados pela terra fofa. Ele olhava ao redor, sempre desconfiado, ainda o som do canto vinha até seus ouvidos sensíveis, mas sequer prestava atenção. Com a cabeça baixa ele continuava, arisco, e o rapaz que o conduzia observava-o com resguardo.

Subitamente, o cavalo relinchou assustado, e dois homens saltaram do bosque quase em cima do animal. Wing empinou afoito, e debatia-se, relinchando vigoroso, e o rapaz não conseguia controlá-lo.

Era um assalto. Os dois bandoleiros vinham com suas caras malvadas e seus sorrisos astutos. Um deles tomou as rédeas de Wing e tentava acalmá-lo e o outro avançou no rapaz sentado na boleia.

_Vamos, moleque! Desça logo desta boleia! E agora, que eu tô mandando! –um dos bandoleiros, um corpulento, bradou ameaçando.

O rapaz o olhou uma vez, e depois lhe ignorou totalmente, com olhos arrogantes, e meneando a cabeça de um modo imperceptível abriu um meio sorriso desafiador.

_Eu estou falando com você, moleque! Vamos! A não ser que não tenha amor à vida!

_Eu não tenho. –o rapaz apenas disse com um ar ameaçador e pulou da boleia, puxando a espada de sua cintura.

O bandoleiro recuou assustado para trás e por um triz escapou do primeiro ataque, e para escapar do segundo, teve de ser tão ágil como o rapaz. O bandoleiro tomou sua espada e começou a duelar, impressionado com a ousadia do jovem. E enquanto isto, Wing prosseguia dando trabalho para o outro bandoleiro, e buscava dar patadas vigorosas em seu atacante, relinchando como um insano.

A espada do rapaz movia-se como um raio prateado no ar, tão veloz como um tufão, com a mesma força. E o rapaz era impetuoso, manejando a espada com uma destreza que o bandoleiro nunca tinha visto, buscando com tanta sanha acertar o seu desafiante de um modo único e mortal.

Não muito distante dali estava a fonte do misterioso canto. Outra carroça coberta vinha pelo meio da floresta, aproveitando a brisa suave e a sombra agradável. No veículo de madeira um senhor de cabelos brancos estava sentado na boleia, segurando as rédeas de um cavalo baio, magrelo e agitado. Junto vinha um rapaz alto de cabelos dourados bem aparados montado num alazão negro e lustroso, com os pelos da crina quase ao chão, sedosos como cabelo de moça.

Dentro da carroça, junto da carga, havia uma garota de cabelos vermelhos em ondas longas, seus olhos verdes expressavam prazer enquanto ela cantava, com um sorriso nos lábios. E em um momento breve que parou buscando fôlego, ouviu sons que a intrigaram instantaneamente.

_Ouviram isto? –ela perguntou curiosa, tirando a cabeça para fora, e o senhor olhou-a com afetação:

_Sossegue, menina! Não ouço nada! Entre aí! –e empurrou a cabeça dela para dentro.

Ela riu, mas não desistiu. Tornou a pôr a cabeça para fora:

_Mas eu continuo a ouvir algo! Alaric, você não ouve? –ela perguntou ao rapaz no cavalo negro e ele negou. –Ah, pare a carroça, Howie! Não estou louca, estou mesmo ouvindo! Eu quero ir ver o que é!

_Ah, vá lá, menina! –o senhor disse debochado e freou o cavalo.

A garota ruiva saltou da carroça pelos fundos, levando consigo uma espada ainda embainhada. Ela foi caminhando entre as árvores, a luz verde atravessando as folhas. Às vezes enroscava a saia em algum lugar, e puxava com brusquidão, e lá se ia um pedaço da barra.

Quando sem demora chegou próximo da estrada, viu um cavalo se empinando com rebeldia e um combate sendo travado. Foi esgueirando-se por cima de uma colina, aproximando-se mais.

O rapaz ainda digladiava com o bandoleiro corpulento, e finalmente o segundo bandoleiro sossegara Wing e então também ia com sua espada para ajudar o colega vencer o combate. Ele ergueu a espada pronta para acertar seu inimigo pelas costas, mas foi surpreendido por outra pessoa.

Uma garota veio num salto com olhos de veneno empunhando uma espada a cintilar na luz do Sol e defendeu o rapaz travando assim um duelo com o segundo bandoleiro. O rapaz, muito concentrado para protestar, prosseguiu lutando com o primeiro bandoleiro, sem perder a energia ou mostrar-se desavisado. Ambos os jovens manejavam a espada de um modo impressionante, como profissionais, numa grande sincronia e habilidade, era como um dom manifestado pelos dois.

E juntos, o rapaz e a moça derrotaram os salteadores.

_Sumam daqui, seus crápulas! –ela bradou enérgica e afoita, espantando-os com movimentos da espada. O rapaz a olhava invadido, mas ela lhe virou um sorriso cativante, sem importar com a apatia dele. –Tudo bem com você?

Ele olhava-a sem expressão, algo de perverso vinha nos olhos dele, mas ela não se sentia acuada. Com um simples movimento do braço, ele levou a lâmina de sua espada ao pescoço dela, que o olhou chocada e escutou a voz rouca vir:

_Quem é você?

_O quê?!

_Diga-me quem é você, ou irei matá-la.

_Hey, o que está fazendo? Eu acabei de te ajudar, garoto! Você é maluco? –e então ela ergueu a própria espada, se livrando da lâmina que já cutucava sua garganta de tão afiada, se pondo em guarda.

Olhava dentro dos olhos dele com um olhar perfurante, o rapaz nunca tinha visto ninguém que o encarava daquele modo tão destemido.

O lobo voraz encontrava, não uma presa indefesa, mas um segundo lobo.

Ele avançou em cima dela pronto para estocá-la, mas ela defendeu-se, e o duelo foi travado entre o dois. As espadas brandiam com fúria, faiscavam ao rasparem-se ruidosas.

_Pare! Pare! –ela gritava ordenando, enquanto ia defendendo-se somente, já que não via motivos ou queria ter de atacar o rapaz. –O que há com você? Pare!

Porém, ele era surdo aos gritos dela e continuava atacando-a. Wing assistia a cena passivo, sem incomodar-se, e vigiava com atenção se a estrada não guardava mais perigos.

_Hey, garoto! Por favor, recue!

_Jamais recuarei. –ele replicou sério.

_Ok… –disse diante da obstinação dele e começou a atacar. Eram golpes violentos, buscava acertá-lo sem pensar, era súbita com a espada em punho, concentrada. O rapaz a observava com admiração e ia defendendo-se como podia, tentava ainda atacá-la, mas agora era ela quem dominava o duelo.

_Vamos! Está cansado? –provocou com um sorriso irritante ao vê-lo mais contido, mas ele meneou a cabeça, furioso. –Seu mal-agradecido! Lembre-me de nunca mais te ajudar!

_Não, você nunca mais vai me ajudar, porque você irá morrer! –e a espada dele buscou acertar a garganta da garota num só golpe violento, mas encontrou a espada dela com grande força, e o peso que ele aplicava a fazia ir para trás. Ela quase agachava diante do rapaz, embora seus olhos prendessem os dele, sem medo de encará-lo:

_Meu nome é Akane Yora. –pronunciou provocativa e ele olhava-a ainda aplicando força na espada. Por um segundo pensou, e depois, volúvel, guardou a espada, e a moça caiu no chão. –Ah! –e disse, cansada. –O que é que deu em você, garoto? Endoideceu?

_Eu não pedi para vir me ajudar.

_Tudo bem, é verdade, mas isto não é justificativa válida para seu comportamento! –disse irritada com ele, crítica e imperiosa, e ele mal lhe deslizou os olhos:

_Cale a boca.

_Ah, mas o que você ia fazer sem mim, hein? –desafiou-o, levantando-se e batendo o pó da saia.

_Eu não preciso de ninguém, muito menos de você.

_Pelo menos, agradeça! –gritou ultrajada com os modos estúpidos do rapaz.

Ele alisava o cavalo, certificando-se de que o animal estava bem, e mantinha-se de costas para ela. Ela o encarava com uma mão na cintura. Era uma imagem interessante, contemplava com silêncio, mesmo que estivesse insultada.

O rapaz alisava a crina do andaluz, olhando para o rosto do animal, e na mão do outro braço que pendia estava a longa espada tocando o chão. Os olhos dele pareciam muito luminosos atingidos pela luz do início do crepúsculo. Havia algo de tão imponente nele. Akane tinha os olhos presos no quadro, fascinada, entretanto, ainda esperava o rapaz lhe dirigir uma palavra de gratidão.

_Vá embora. –ele virou-se desmanchando o quadro e disse com rispidez, o Sol se punha na frente deles, e o rapaz soltou a crina de Wing para ir até sua carroça certificar-se de que tudo estava lá.

Akane não se cabia diante do desaforo.

_Mas você é chato, hein! –e seguiu-o, reclamando. –Vai, pelo menos me diz seu nome para eu me lembrar de nunca mais falar com você, seu estúpido!

Ele não fazia caso dela e prosseguia indolente, observando o interior de sua carroça com atenção. Ela olhou lá dentro curiosa e se espantou:

_Hey, aquilo é uma armadura, não é? –se fez de inocente.

_Eu já mandei você ir embora! –bradou.

_E quem disse que eu obedeço você? –e a jovem argumentou, arisca, com um sorriso sagaz.

Ele olhou para ela furioso e Wing lá na frente relinchou em advertência. Os olhos dos dois jovens se voltaram para ele, e Akane viu em cima da colina a sua carroça.

_Bem, cavaleiro, ainda vamos nos reencontrar… Então eu saberei seu nome… –os olhos dela emanavam uma onda hipnótica, a voz dela foi tão aveludada e sedutora. Ele olhou para ela sem esboçar nada e ficou assistindo-a afastar-se.

Garota impertinente, pensava ele com desdém. E ainda viu ela parar e voltar-se para ele, provocante, e sorrir. Isso não o incomodou, voltando para a boleia da carroça para prosseguir seu caminho, como se nada houvesse acontecido.

_Ane, quem era aquele rapaz? –o senhor perguntou autoritário, desgostando dos modos dela.

Akane entrou na carroça despreocupadamente e comentou:

_Ah, era um idiota qualquer… –e riu travessa. –E mal-educado!

Alaric olhou malicioso para o senhor.

_Akane, espero que este não acabe como mais um dos seus namoradinhos… –o senhor disse então irritadiço, com uma pitada de deboche. Na verdade, odiava ver a menina metida com rapazes, principalmente os atraentes. Morria de ciúmes dela, e também sabia como ela era dada a causar comoções.

_Ai, Howard, como você é malvado! –reclamou melindrosa, com olhinhos marotos, e Howard riu.

Akane ficou olhando pelo fundo da carroça a paisagem que ia ficando para trás, pensando no rapaz. Quem seria aquele cavaleiro? Estava intrigada, ele era-lhe tão misterioso e interessante.


Boa noite, leitores!

Bem vindos a mais um projeto!

Espero que acompanhem essa fic-saga-épica! :D

"Endless Duel" é um romance que foi iniciado em 2005. Ele esteve pausado desde 2012, mas, esse ano, eu espero concluí-lo!

Estou escrevendo esta nota para prepará-lo para a história que se inicia somente agora para você. A primeira coisa que precisa ter em mente é o estilo de escrita. Em 2005 eu era outra pessoa e praticamente uma escritora iniciante. Minha intenção é corrigir o texto o mínimo possível. Por isso, vai perceber que o texto está muito diferente de "Tentado a Sorte". Até pelo clima da história, eu escrevi tudo bem rebuscado, bem prolixo. Com certeza deve ter algumas breguices, trechos de músicas roubados, exageros e criancices neste texto, mas de novo, eu vou tentar preservar o máximo que der do que escrevi em 2005.

Essa é uma história longa. Muito longa. Se prepare. A parte boa é que está 85 por cento pronta, então não vai ter demora.

Minha personagem Akane aparece nessa fanfic. Outra vez, essa é a Akane de 2005, parcialmente pronta. Eu só consegui encontrar a Akane de verdade em "Tentando a Sorte" e talvez nessa fic ela surja meio irritante e metida. Não tem problema se pensar assim, eu e o Wu Fei também achamos isso dela.

O ambiente que eu quis criar é bem fantasioso. É uma Europa medieval alternativa, com algumas facilidades do nosso mundo moderno, como iluminação a gás e tecidos impermeáveis e resistentes a chuva frequente. Pode ser pouco crível, mas eu não estava tão preocupada com a verossimilhança ou a realidade. É como se fosse um mundo medieval com avanços tecnológicos, ao estilo de Gundam Wing – moda e carros dos anos 90 com colônias espaciais sofisticadas.

Peço que tivesse paciência para suportar esses devaneios que rabisquei nessa fic. Também espero que se divirta bastante e esteja à vontade para comentar o que desejar. Ouvir as opiniões e pensamentos é a parte mais divertida de se publicar um trabalho.

Quem leu "Tentando a Sorte"vai encontrar alguns paralelos…

A proposta dessa fic é contar uma grande aventura que envolve todos os sentimentos humanos mais importantes, levando Heero a outra autodescoberta.

Mas não posso contar demais. ;)

Esse primeiro capítulo é curtinho.

Deixem reviews, semana que vem volto com outro capítulo!

Não deixem também de darem uma olhadinha no meu outro projeto "Pássaro de Fogo".

Aguardem mais novidades.

Beijos e abraços!

13.05.2015