Disclaimer: Inuyasha não me pertence. Esse fanfic tem o único objetivo de divertir.

Comentários e agradecimentos no meu Live Journal (link no profile).

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Tudo Pela Herança

Madam Spooky

Capítulo 17 - Dois Dias

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Kagome aproximou-se da penteadeira lentamente, os olhos fixos no espelho de mão depositado sobre a superfície lisa de madeira do móvel. Não queria ver o reflexo nele da mesma maneira que se recusara a levantar os olhos para o grande espelho do salão de beleza quando Yura acabara de cortar seu cabelo e anunciara que estava terminado, mas ela sabia que isso não a impediria para sempre. De uma forma ou de outra, seus olhos agiriam independente de seus medos e a vontade de certificar-se de que Kouga tinha razão quando dissera que ela estava perfeita para o papel acabaria sobrepujando o receio do que veria.

Sentou-se sem pressa, brincando com os objetos ao alcance das mãos. Sua mente voltou aquela tarde e sorriu ao imaginar que talvez Inuyasha ainda estivesse lá fora, fugindo de Jakotsu sem ter mais onde se esconder. Pensar nele em uma situação embaraçosa era a princípio um balsamo para suas inquietações, mas ela logo se envergonhava por sentir-se assim. Desejar o mal à outra pessoa não era de grande ajuda em sua situação, mesmo que essa pessoa fosse Inuyasha e merecesse um castigo, além disso, quando ela se tornara aquela desconhecida de tão poucos escrúpulos? Primeiro mentia para a mãe e o avô – e omitir naquele caso era o mesmo que mentir –, agora começava a desejar horrores para o homem que até alguns dias atrás ela pensava como uma espécie de melhor amigo.

Alguém que poderia chegar a ser muito mais do que isso...

Com um suspiro resignado, Kagome forçou-se a deixar os pensamentos de lado. Se quisesse levar aquela história até o fim, teria que pelo menos fingir que era uma pessoa forte, a começar daquele momento. Largou uma caixa de grampos de cabelo com a qual vinha ocupando as mãos sem nem mesmo perceber e pegou o espelho rapidamente, sem dar tempo a si mesma de repensar a situação. Olhou para a superfície espelhada, no início com hesitação, mas com mais confiança ao perceber que, apesar do cabelo mais curto realmente a deixar incrivelmente parecida com Kikyou, eram os seus olhos que a fitavam de volta.

Ela seria sempre ela mesma. Aquele medo estúpido de ver Kikyou olhando para ela do outro lado do espelho tinha sido tão irreal quanto as fantasias infantis sobre monstros vivendo no armário ou embaixo da cama. Kagome riu para si mesma, lembrando-se de Kouga e da expressão maravilhada que exibiu ao vê-la após o corte de cabelo. Nada daria errado, ele dissera, porque ela estava exatamente igual a prima de Inuyasha. Talvez ele não a tivesse olhado nos olhos, ou então sua presença fosse algo que apenas aqueles que a conheciam e amavam pudessem perceber. Não tinha importância, afinal. O fato era que aquilo a manteria firme a despeito do que viria.

Largou o espelho no mesmo lugar e levantou-se, dirigindo-se à janela que se abria para um céu coberto de estrelas. Sentia-se melhor agora que tinha a certeza que não importava o que acontecesse, não precisava preocupar-se em se ver como outra pessoa. O disfarce importava tanto quanto as palavras ambiciosas de Kouga ou as armações de Inuyasha. Ela só tinha que se lembrar de que sempre seria ela mesma. Quando a hora finalmente chegasse, não haveria ninguém mais em quem pudesse confiar.

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Kouga destrancou a porta do apartamento devagar, temendo o que poderia encontrar lá dentro. Tinha fugido para o apartamento de Inuyasha no instante em que soubera que Kikyou estava indo pegar Rin. Apesar de isso ter acontecido quase um dia antes, quem garantia que a mulher não tinha simplesmente se instalado em seu sofá, resolvida a esperar por ele?

As luzes estavam apagadas, mas aquilo não queria dizer nada, a melhor maneira de pegar alguém desprevenido era fingir não estar por perto. Abriu a porta e espiou para dentro da sala. As luzes dos prédios vizinhos entravam pela janela de vidro atrás do televisor e iluminavam consideravelmente bem o ambiente, dando-lhe uma boa visão do cômodo vazio. O advogado entrou, trancando a porta rapidamente, escorou-se na parede e respirou aliviado. E pensar que ele cogitara a possibilidade da neta de Kaede ter permanecido ali... Que bobagem. Uma mulher tão refinada como Kikyou era – ou gostava de parecer – jamais esperaria um dia inteiro na casa de outra pessoa, por maior que fosse seu interesse no assunto a tratar.

Ou talvez ela apenas não estivesse desesperada o suficiente...

Ele tirou a camisa e jogou-a sobre o sofá ao mesmo tempo em que largava as sandálias de qualquer maneira no meio da sala. No dia seguinte a faxineira viria e teria que agüentar seus resmungos em ucraniano ou fosse lá qual idioma estranho ela falava, mas não estava com cabeça para se preocupar com detalhes. Pensou em Kagome e seus cabelos na altura dos ombros, na expressão quase angustiada que ela fizera enquanto seus dedos passeavam pelo espaço vazio que as madeixas compridas tinham ocupado antes. Ela estava incrivelmente parecida com Kikyou agora... Se não soubesse claramente sobre a origem das duas, cogitaria a possibilidade de serem gêmeas. Tinha sido uma sorte da parte de Inuyasha tê-la encontrado. Uma vez na vida ele tinha mesmo que servir para alguma coisa.

Dirigiu-se ao quarto, pensando em tomar um banho, olhando para o sofá e se perguntando se Rin estaria bem. Provavelmente Sesshoumaru telefonaria novamente no dia seguinte. Por hora se contentaria em saber que ela estava segura e não era mais seu problema. A casa ficaria silenciosa sem ela e seu estoque de batatas fritas industrializadas duraria bem mais tempo intacto. Kouga sorriu. Até que a menina não era de todo mal e tinha um senso de humor indiscutivelmente interessante.

Já estava a caminho do chuveiro, com a toalha jogada sobre as costas quando o telefone tocou. Praguejou baixo, avaliando se devia atender ou não. Sempre podia ser Kikyou e não queria ter que falar com ela enquanto não tivesse todos os preparativos prontos para o plano. Quando a prima de Inuyasha entendesse o que havia acontecido, ele já estaria bem longe dali, com uma conta recheada e começando a esquecer a existência dela. Decidiu-se por continuar o que estava fazendo e deixar que a secretária eletrônica cuidasse do resto. Deu dois passos para frente quando a costumeira mensagem eletrônica ecoou da sala e uma voz que ele conhecia – e tinha que admitir, temia até certo ponto, respondeu do outro lado:

- É mesmo uma pena. Eu tenho novidades sobre a notícia que está esperando, mas se não está em casa, talvez eu deva tratar diretamente com a senhorita Hayashibara...

Kouga deu um salto de onde estava, derrubando a toalha no chão do quarto e correndo para a sala, completamente esquecido de duas extensões bem mais próximas pelo caminho. Agarrou o aparelho rapidamente, tropeçando no tapete da sala e desequilibrando para trás, batendo a cabeça no chão ao mesmo tempo em que respondia com um fraco "eu estou aqui".

- Oh, vejo que me equivoquei – disse Naraku, e Kouga acreditou tê-lo ouvido rir baixo um instante antes de continuar com o mesmo tom de voz autoritário de antes: – Creio que tenho boas notícias para sua cliente. Os papéis da herança deixada por Kaede finalmente foram postos em ordem.

- Tão cedo? – Kouga perguntou, erguendo-se até sentar-se no sofá, afastando para o lado um saco de salgadinhos meio comido que Rin devia ter deixado por ali mesmo antes de ir embora. – Eu esperava essa notícia para pelo menos daqui a uma semana.

- Estranho... – disse Naraku. – A impressão que sua cliente me deu ao visitar-me foi que tinha pressa com essa questão. Ou por um acaso ela decidiu de repente que há coisas mais importantes do que dinheiro?

Visita-lo?

Kouga abriu a boca para perguntar, mas voltou a fechá-la. Se Kikyou tinha visitado Naraku, mas ainda assim ele lhe telefonara para tratar da herança, ela não tinha dito nada sobre ele não estar ciente daquela visita e não seria bom deixar seu chefe saber sobre isso. Mordeu o lábio inferior, tratando de ignorar a nota de sarcasmo na voz do homem do outro lado da linha. Se tudo desse certo, logo estaria completamente livre dele, assim como de Kikyou e de toda aquela droga de situação que ele estava tendo cada vez mais dificuldade em manter sob controle.

- Kouga? Você está ai?

- Eu estou aqui.

- Muito bem. Estou marcando a leitura do testamento para daqui a dois dias. Você fica encarregado de falar com sua cliente e informa-la de tudo que ela precisa saber.

- Eu farei isso.

- Duas da tarde daqui a dois dias – Naraku repetiu pausadamente, como se estivesse falando com alguém com problemas de memória. – Tente não desaparecer até lá. Tenho certeza de que vai se esforçar, afinal, essa cliente é muito importante para você, não estou certo?

O advogado não respondeu. Esperou ouvir o clique do outro lado e o som da linha soar, anunciando que a escuta estava liberada. Depositou o aparelho em cima da mesinha e cruzou os braços, pensando se deveria começar a correr imediatamente ou tinha tempo para um banho e algumas horas de sono. Quarenta e duas horas para transformar Kagome na herdeira da fortuna de Kaede. Pegou novamente o telefone e discou rapidamente o número de Inuyasha. Esperou que o som de chamada se repetisse meia dúzia de vezes antes de desistir. Provavelmente o idiota ainda estaria escondido em alguma parte da cidade, fugindo de um Jakotsu incansável e saltitante divertindo-se em persegui-lo.

Pensou em telefonar para Kagome e combinar um encontro para o dia seguinte, mas ela provavelmente bateria o telefone na cara dele se ousasse incomoda-la aquela hora depois do dia que tiveram. O melhor que podia fazer era voltar ao plano original: banho e cama. O dia seguinte seria longo. Kagome e Inuyasha que aproveitassem sua última noite de tranqüilidade.

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- Eu não posso acreditar que aceitei vir até aqui com você!

Sango cruzou os braços, ignorando o sorriso envergonhado de Miroku. Eles tinham passado o dia inteiro andando de um lado para o outro na cidade, em todos os lugares que Inuyasha poderia estar na companhia de Kagome e Kouga, mas nem sinal dos três. Acabaram voltando para o apartamento, com a intenção de esperar que voltassem, mas as horas tinham passado e nenhuma notícia chegara para tranqüilizá-los.

Sango estava preocupada com aquela história de que sua amiga tinha aceitado de bom grado participar do plano para roubar a herança de Kikyou e não estava disposta a ir embora até que Inuyasha aparecesse e lhe desse algumas explicações. Tinha ficado andando de um lado para o outro no apartamento, sendo observada por Miroku que dividia sua atenção entre ela e um programa de culinária na TV. Ela estava a ponto de pegar o controle remoto e mudar de canal, gritando sobre que espécie de homem matava o tempo anotando receitas de flores de chocolate quando havia jogos de futebol e filmes de ação barulhentos em pelo menos três outros canais, mas nesse instante o telefone tinha tocado e Miroku corrido para atender.

Menos de cinco minutos depois estavam lá fora; ela pouco a vontade sob os olhares de bêbados e mulheres suspeitas que enchiam as ruas do bairro àquela hora da noite, ele ignorando tudo isso e falando rapidamente sobre como Inuyasha parecera transtornado ao telefone, quando pedira-lhe que fosse buscá-lo em um beco próximo ao centro. Ele pode estar machucado, dissera. Pois sim. Machucado ele ficaria da próxima vez que ela tivesse o desprazer de encontrá-lo. Era uma promessa.

- Eu tenho certeza que ele disse que estaria por aqui – disse Miroku, olhando em volta. – Eu sei que estamos um pouco longe de casa, mas ele é meu irmão.

- Sim, eu sei... – disse Sango sem esconder a irritação. – Os parentes a gente não escolhe, atura.

- Sango!

- O que é?

Ela lançou ao rapaz um olhar tão fulminante que Miroku pode apenas sorrir e voltar ao que estava fazendo: percorrer o beco com os olhos a procura de qualquer sinal de cabelos compridos saindo de uma lata de lixo ou uma mão agonizante aparecendo da dobra de alguma parede.

- Você tem certeza que foi aqui que ele disse que estaria? – perguntou Sango depois de um tempo. Miroku abriu a boca para responder, mas nesse instante ouviram um barulho de latas de lixo sendo viradas vindo mais de trás.

- Será que erramos o beco?

O rapaz começou a andar sem esperar resposta de Sango. Ela o seguiu ainda contrariada, mas mantendo-se convenientemente segura atrás dele. Talvez fosse algum mendigo ou ladrão de rua mexendo nas latas de lixo ao invés de Inuyasha e, àquela hora da noite, todo cuidado era pouco.

Os dois se aproximaram do beco, os ouvidos em alerta.

- Ora vamos, querido, por que está se escondendo de mim?

Miroku estacou. O beco estava escuro e ele conseguia ver apenas a silhueta do homem revirando o lixo. Definitivamente não era Inuyasha, mas aquela voz... A conhecia de algum lugar, mas de onde poderia ser?

- Apareça e nós poderemos ter uma noite especial!

- Esse homem está bêbado – disse Sango. – Não é o seu irmão, vamos sair daqui.

- Sango...

O homem olhou na direção deles, estudou-os por um instante, então se levantou e colocou as mãos na cintura.

- Miroku, ele nos viu...

Sango estava puxando-o pelo braço, mas Miroku estava desconfiado demais para ir embora sem ter certeza. Deu um passo à frente e acenou, esperando que o outro dissesse alguma coisa.

- Miroku, o que pensa que está fazen...

Sango não conseguiu completar a frase, o homem a interrompeu com um grito:

- Miroku!

Tudo o que o irmão de Inuyasha percebeu depois disso foi o estranho saindo do beco aos pulinhos e dando um salto impossível na direção dele. O abraçou de repente, pendurando-se em seu pescoço até deixá-lo sem ar, todo o tempo dando gritinhos com uma voz esganiçada que ele não conseguia decifrar. Os gritos de Sango uniram-se ao do estranho e de repente ele estava livre do aperto, o outro homem caído na calçada enquanto a garota o atingia com a bolsa uma e outra vez.

Miroku respirou fundo, regando os pulmões de ar, então correu e agarrou os braços de Sango, levando-a para longe de Jakotsu que ainda se debatia.

- Ele tentou te matar! – disse Sango. – Você vai deixa-lo escapar assim?

A jovem parou de reagir e encarou Miroku. O rapaz sorriu timidamente, parecendo extremamente envergonhado antes de dizer:

- Sango, esse é Jakotsu, um velho conhecido.

- Você o conhece? – a garota arregalou os olhos. – Um psicopata com fetiche por lixo?

- Ele não é psicopata. E eu sei que há uma explicação racional para a parte do lixo...

Miroku olhou para Jakotsu, dessa vez mantendo-se bem atrás de Sango. Se o outro quisesse voltar a abraçá-lo teria que se ver com ela primeiro. O cabeleireiro levantou-se passando as mãos pela roupa, livrando-se da poeira da calçada, e lançou um olhar sujo para a garota. Cruzou os braços afetadamente e olhou para o lado.

- Miroku, antigamente você não pegava qualquer uma para sair. O que foi que aconteceu com o seu gosto refinado?

Sango ameaçou partir para cima de Jakotsu novamente, mas Miroku a segurou. Era sempre assim quando se encontravam: se ele não o perseguia por toda a cidade com a desculpa de ver quão bem cuidados estavam seus cabelos, fazia isso com Inuyasha. A propósito... Inuyasha!

- Jakotsu, você por acaso viu o meu irmão por ai?

O outro exibiu um olhar magoado.

- Aquele ingrato! – resmungou. – Eu passo o dia inteiro tentando fazer algo por aquelas coisas esticadas e mal cuidadas que ele chama de cabelo e ele foge. Eu não peço nada em troca da minha generosidade... Nada além de um abraço, mas o seu irmão... Aquele calhorda sai correndo de perto de mim como se eu fosse alguma espécie de aberração!

- Imagina... – disse Sango girando os olhos.

- Escuta aqui sua...

- Jakotsu! – Miroku os interrompeu. Aquela era sua melhor oportunidade de descobrir o que o irmão andara fazendo durante o dia e não ia deixar uma discussão idiota estragar tudo. – Onde exatamente você encontrou Inuyasha hoje?

- O que isso importa? O assunto aqui é a maneira rude como ele me trata.

- Jakotsu... – Miroku disse suavemente. Sabia que não adiantava falar rispidamente ou passaria a noite inteira ouvindo gritinhos e lamentos. – É muito importante que eu encontre o meu irmão. Ele andou se metendo com coisas muito... erradas e eu preciso dar um jeito para que isso não volte a acontecer, você entende?

- Você vai dar uma dura nele? – Jakotsu perguntou, balançando-se e fazendo beicinho.

- Eu prometo que ele não esquecerá essa noite enquanto viver.

Os três ficaram em silêncio. O barulho dos carros e de uma música agitada, trazida pelo vento de alguma boate próxima, foi tudo o que ouviram enquanto esperavam. Jakotsu parecia ponderar se devia ou não falar, o que Miroku sabia muito bem o que significava: Inuyasha tinha estado no salão de beleza de Yura e ele estava com medo de falar demais e ela acabar por descobrir e lhe dar um corretivo.

- Jakotsu...

- Ah, que se dane! – Jakotsu descruzou os braços e aproximou-se um pouco mais, o suficiente para falar em voz baixa, mas sem chegar muito perto de Sango. – Ele foi com aquele advogado de lindos olhos azuis e uma fulaninha ao salão de Yura. Queriam cortar o cabeço da moça, sabem? Você nem imagina o susto que eu sofri. Por um instante em jurava que estava vendo Kikyou, a sua prima! – ele balançou a mão com descaso. – Mas claro que não podia ser ela. Kikyou é refinada, chique, uma rainha! Aquela garota era... Como essa garota ai.

Sango fez menção de se soltar de Miroku, mas este a segurou mais firmemente, exibindo um sorriso amarelo.

- Então eles cortaram o cabelo dela? – ele perguntou, fingindo desinteresse.

- Oh, sim, Yura fez um ótimo trabalho. Ela ficou ainda mais parecida com a Kikyou. Se não fossem aquelas roupas de feira... Eu nunca vi um homem tão feliz quanto aquele advogado bonitão ao olhar para ela...

Miroku engoliu em seco. Se Kagome tinha ido cortar o cabelo, acompanhada por Kouga e Inuyasha, queria dizer que ela realmente tinha aceitado participar do plano. Olhou para Sango que, pela expressão incrédula, devia estar pensando a mesma coisa e deu um aperto suave nos braços dela. Devia haver uma explicação racional para aquilo também. Ninguém mudava de garota certinha para ladra sem pudor da noite para o dia. Explicação racional...?

- Jakotsu, o que você estava fazendo mexendo no lixo?

- No lixo? – Jakotsu sorriu e seu rosto adquiriu uma leve tonalidade de vermelho. – Estava procurando o meu queridinho, Inuyasha. Ele se escondeu por aqui, sabe?

- E... Você vai continuar procurando por ele?

- Bem que ele merece – Sango resmungou entre dentes.

- Não – Jakotsu olhou feio para a garota, mas decidiu ignorá-la dessa vez. – Eu vou para casa, tomar um banho de espuma, colocar uns pepinos nos olhos... – aproximou as mãos do rosto e fez uma carranca. – Argh! Eu estou cheirando a lixo, que horror!

- Acho uma ótima idéia – Miroku sorriu.

- Sim, eu vou... – Jakotsu começou a andar na direção de uma praça de táxis próxima. No meio do caminho olhou para trás e acenou: – Se virem Inuyasha por ai, digam que ele pode ir me procurar quando quiser! Terei todo o prazer do mundo em dar um jeito naquele cabelo mal cuidado dele. Sempre pelo mesmo preço...

- Nada mais que um abraço – disse Miroku com um sorriso forçado.

Jakotsu piscou e continuou andando. O irmão de Inuyasha observou quando ele entrou em um dos táxis e esperou que o carro saísse de vista antes de relaxar a expressão e soltar os braços de Sango.

- Ele é sempre assim? – ela perguntou.

- Pior – Miroku respondeu, caminhando devagar na direção do beco.

- E agora, o que está fazendo?

- Se eu estiver certo... – ele improvisou um cone com as mãos e gritou: – Inuyasha, ele já foi, você pode sair agora!

Os dois esperaram lado a lado e não foram decepcionados. Quase imediatamente uma cabeça surgiu de detrás das latas de coleta, o rosto sujo do que parecia graxa e uma casca de banana pendendo presa aos cabelos compridos. Inuyasha sorriu enquanto se levantava, livrando-se do lixo da melhor maneira possível.

- Acho que estou te devendo uma, Miroku.

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Kagome acordou com alguém gritando próximo a ela. Pegou o travesseiro e colocou sobre a cabeça, de maneira a não continuar escutando o que assumiu serem os gritos de Souta e Shippo brincando no jardim. Já quase conseguia adormecer novamente quando o barulho voltou, dessa vez mais alto. A garota jogou o travesseiro para o lado e apoiou-se nos cotovelos, erguendo-se na cama com os olhos semi-cerrados. Olhou em volta e deu com o rosto sorridente do avô acompanhado por um homem alto, cabelos negros, olhos azuis...

- Kouga?

Kagome deu um salto, de repente completamente desperta. Passou a mãos pelos cabelos que estavam sempre terrivelmente desarrumados quando acordava e fitou os dois homens a sua frente como se não pudesse acreditar no que via. O que ele estava fazendo ali, em seu quarto, acompanhado por seu avô? Será que ainda estava sonhando?

- O senhor Abe veio especialmente por sua causa, Kagome – Vovô sorriu. – Ele disse que ficou muito satisfeito com os seus resultados, não é maravilhoso?

- Meus...

- Oh, sim, senhor Higurashi – disse Kouga. – Sua neta é uma jovem extraordinária. Exatamente o que procurávamos em nossa empresa.

- Não, meu nome não é Higurashi. Eu sou o pai da mãe de Kagome – explicou Vovô ainda mais sorridente. Virou-se para Kagome. – E você? Por que não nos contou que tinha feito uma entrevista de emprego?

- Eu fiz? – ela perguntou, sentindo-se extremamente idiota. – Ah, sim, eu fiz... Eu não contei porque era...

- Você queria nos surpreender, não é mesmo?

Vovô parecia realmente orgulhoso. Kagome olhou para Kouga que a encarava com um sorriso pequeno, aquele que ela gostava de chamar de "sorriso de vendedor de seguros" e sentiu o ímpeto de matá-lo. Como se ela já não tivesse se enterrado o bastante, agora ele aparecia com uma história tirada sabe-se lá de onde, obrigando-a a mentir descaradamente daquele jeito.

- Senhor... – Kouga interrompeu, vendo a expressão da garota e não querendo que ela fizesse alguma coisa idiota que o entregasse. – Acho melhor nós sairmos e esperarmos que sua neta se vista adequadamente. Então ela poderá vir comigo onde resolveremos todos os detalhes do novo emprego.

- Oh, sim, claro – Vovô apressou-se em guiar Kouga para fora. – Quem sou eu para querer atrapalhar a vida da minha neta, não? O senhor aceita um copo de mate?

Kagome os viu sair do quarto ainda sem acreditar na cena da qual acabara de participar. O que poderia ter acontecido para o advogado vir pessoalmente acorda-la? Olhou para o relógio ao lado e da cama que marcava oito horas. Já estava mesmo na hora de levantar. Saltou para o chão, calçando as sandálias e olhando em volta, situando-se com o que deveria fazer primeiro. Quanto mais rápido estivesse pronta, mais rápido tiraria Kouga da casa e de perto da sua família.

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- Você está zangada?

Kagome cerrou o punho. Devia ter quebrado o recorde mundial em tempo para se vestir e mesmo assim não fora rápida o bastante para impedir que Vovô contasse alguns casos constrangedores de sua infância e mostrasse a maioria de suas fotografias de bebê, inclusive aquela em que estava no banho, segurando um pato amarelo de borracha e com cara de choro. O que ela tinha feito para merecer aquilo?

- É verdade que você foi suspensa do colégio na terceira série por quebrar o nariz de um garoto que tentou te beijar?

- Kouga...

- Eu pensei que as mulheres gostassem de homens que tomam a iniciativa.

- Kouga.

- Ainda que seja um garoto, não é?

- Kouga!

- O que?

- Eu estou tentando te acompanhar sem tentar quebrar o seu nariz ou coisa pior – Kagome disse entre dentes cerrados. – E você não está ajudando nem um pouco!

- Isso responde a minha pergunta, você está zangada.

O advogado sorriu. Kagome o ameaçava e tudo o que ele fazia era sorrir amigavelmente. Ela pensara que depois do soco que tinha dado nele no outro dia o encontraria menos criativo com piadas e comentários estúpidos, mas, pelo contrário, parecia bastante à vontade com a ameaça.

- O que aconteceu? – Kagome perguntou, acalmando-se. Ele não estaria tão despreocupado sobre ela se não houvesse alguma coisa para ocupar o primeiro plano de sua mente agora. Principalmente, ele não teria ido até a casa dela se não fosse assim.

- Naraku me ligou ontem à noite. Está tudo pronto para a leitura do testamento de Kaede.

- Isso quer dizer... – ela parou de andar, encarando Kouga furiosamente. – Você disse que teríamos tempo ainda!

O rapaz parou mais a frente, mas não se virou. Ficou olhando para os carros passando pela rua como se fossem a coisa mais fascinante que já tinha visto.

- Se dependesse de mim, nós teríamos. Isso foi resolvido por Naraku, meu superior.

Os dois ficaram em silêncio, ambos fitando o asfalto, pensando na mesma coisa. Será que Kagome conseguiria interpretar Kikyou tendo quase nenhum tempo para se preparar?

- Quanto tempo? – a garota perguntou, rompendo o silêncio.

Kouga pareceu encolher-se um pouco antes de responder:

- Dois dias.

Dois dias. Dois dias. Dois dias. As palavras ficaram se repetindo na mente de Kagome. O que ela poderia fazer em um prazo tão pequeno? Cortar o cabelo e vestir roupas caras era muito fácil, mas como aprender a agir exatamente como Kikyou em um espaço tão curto de tempo? Por um instante sentiu uma onda de medo ameaçando tomar sua mente, mas conseguiu sufocar a sensação a tempo. Dois dias. Nenhum espaço para dúvidas. Ela daria o melhor de si em se parecer com a prima de Inuyasha. Medo, remorso rancor, tudo isso deixaria para depois.

O que você acha? – perguntou.

- Não há segunda opção – Kouga respondeu com simplicidade.

Kagome respirou fundo para conter uma nova onda de irritação. Odiava quando o advogado falava daquela maneira, como se ela fosse estúpida e só estivesse ali porque ele não encontrara nenhuma sósia com um Q.I. de 170.

- Vamos para o apartamento de Inuyasha agora. Não consegui falar com ele ontem à noite e achei mais interessante acorda-la primeiro.

Ele riu e recomeçou a andar, mantendo-se um pouco à frente, com as mãos no bolso do paletó que usava em uma postura meditativa. Kagome se perguntou no que estaria pensando. Desde que descobrira sobre o plano, imaginara que Kouga estivesse interessado apenas em dinheiro, mas nunca tinha se perguntado por que ele se envolveria em algo tão arriscado quando tinha uma boa posição como advogado, um cargo que lhe oferecia a chance de um dia se tornar um homem poderoso.

Mas ela não disse nada em voz alta. Fossem quais fossem os motivos dele, não mudavam o que ela tinha que fazer, assim como os dela não tornava o ato menos criminoso. Andaram todo o caminho até o apartamento de Inuyasha em silêncio. A aparência hostil do bairro já não surpreendia nenhum dos dois. Um par de bêbados estava caído na entrada do prédio, mas Kagome sequer prestou atenção neles. À medida que se aproximavam do apartamento, ela ia se sentindo mais e mais nervosa, como se pudesse ouvir o barulho do relógio contando os minutos das quarenta e oito horas que se seguiriam.

Kouga bateu a porta do apartamento urgentemente. Dois minutos depois, um sonolento Inuyasha a abriu. Olhou para os dois visitantes com cara de poucos amigos e entrou, deixando fechar a entrada a cargo de quem passasse por último.

- O que vocês querem a essa hora? – perguntou contrariado, deitando-se novamente no sofá. – Eu mal adormeço, o maldito advogado aparece fazendo da minha porta uma escola de samba.

Kouga ignorou o comentário e limitou-se a passar os olhos pelo lugar. Nada nunca mudava no apartamento, ele sempre se parecia com o quarto menos habitável sobre a face da Terra na opinião do rapaz. Nenhuma surpresa que Inuyasha sempre parecera tão desesperado para sair dali. Suspirou suavemente enquanto se virava na direção do sofá onde seu inconseqüente sócio tinha novamente fechado os olhos como se inconsciente da presença dele e de Kagome.

Kagome...

Ela continuava parada na porta, olhando para todos os lugares menos para Inuyasha. Era uma situação estranha e o advogada se sentia como um expectador que chegara a seção de cinema pouco antes dos créditos finais. Ainda teria que dar um jeito daqueles dois terem uma conversa. Assuntos pessoais mal resolvidos poderiam atrapalhar as coisas quando tivessem que trabalhar mais ativamente juntos e não havia muito tempo para esse tipo de detalhe. Deixou escapar um grunhido irritado vindo do fundo da garganta. O que aquele estúpido desocupado estava pensando? Ele não tinha nada que se envolver com a garota daquela maneira.

Olhou mais atentamente para o rapaz deitado e imóvel e sorriu de lado ao perceber as pálpebras quase imperceptivelmente entreabertas na direção de Kagome. Talvez estivesse imaginando coisas. Inuyasha era teimoso o suficiente para não deixar que uma garotinha levasse a melhor em cima dos sentimentos dele. Ou pelo menos era no que ele gostaria de acreditar agora.

O advogado estava mais tranqüilo quando fez o percurso até o sofá e chutou-o com força por trás, fazendo com que Inuyasha caísse de cabeça no chão.

- Mas o que diabos você pensa que está fazendo? – gritou o rapaz, irritado, massageando a testa e fuzilando o outro com o olhar.

- Te ajudando a levantar – respondeu Kouga inocentemente. – Nós temos dois dias para deixar a sua namorada ali suficientemente apresentável para convencer Naraku de que está falando com a Kikyou – alargou o sorriso ao ver de esgoela a carranca no rosto de Kagome ao ouvir suas palavras. – Ou você dá um jeito de se manter acordado ou – completou em voz baixa com um tom levemente malicioso – eu vou ter que desfrutar do dinheiro e da companhia de Kagome sozinho...

Os olhos de Inuyasha alargaram e por um instante o advogado imaginou que tinha ido longe demais, mas o outro se limitou a levantar-se e passar as mãos pelos cabelos, olhando em volta aparentemente à procura de alguma coisa.

- Me dê cinco minutos e eu estarei pronto – disse em um tom impassível enquanto pegava uma toalha pendurada de qualquer maneira sobre uma cadeira e entrava no único banheiro do apartamento.

-o-o-o-o-o-

Tinha que ser um pesadelo. No dia seguinte ele acordaria na cama macia que ocupava na casa de Kikyou, com a vista das borboletas sobrevoando a janela e as cores brilhantes dos raios de sol batendo diretamente nos lençóis claros sobre seu corpo. Seria mais um dia tranqüilo e feliz na vida de Sesshoumaru. Nada de gritos no meio da noite. Nada de gritos no final da tarde. Sobretudo, nada de gritos o resto do tempo entre ambos.

- Eu já disse que não!

Quando a voz de Rin golpeou estridentemente seus ouvidos, o rapaz cobriu o rosto com as mãos, apoiando os cotovelos nas pernas e afundando-se mais na cadeira. Nada de borboletas e raios de sol ou paz e tranqüilidade, mas com um pouco de sorte ele ficaria ali despercebido, imaginando tudo isso enquanto o mundo desabava do lado de fora da biblioteca.

Silêncio. Sesshoumaru abriu os olhos e ergueu a cabeça. Ausência de som era algo que não experimentava muito quando Rin estava por perto; os anos que passara longe do Japão quase o tinham feito esquecer. Olhou em volta estranhado, lembrando-se do dia anterior, quando a menina entrara na casa seguindo Kikyou a uma distância segura, olhando para ela com desconfiança e qualquer outra coisa que ele não tinha entendido imediatamente, mas depois constatou ser ciúme. Assim que se instalara e ficara sabendo sobre o relacionamento entre ele e a dona daquele lugar, sua pequena irmã postiça parecera tomar a resolução de se esforçar para tornar a sua vida impossível. Reclamava de tudo o que via e gritava com os criados da casa que a atendiam sem nem mesmo se dar ao trabalho de ouvir o que estavam dizendo. A voz dela estava sempre presente em cada cômodo da casa e aquilo o estava deixando maluco. Se chamar a atenção era a intenção dela, tinha conseguido brilhantemente.

O rapaz levantou-se e foi até a janela silenciosamente. O dia estava começando lá fora, com o jardim da grande casa já animado pelo som relativamente alto da música proveniente de um pequeno rádio de pilhas que o jardineiro sempre levava consigo. A visão das árvores ainda molhadas de orvalho e das flores bem cuidadas seria maravilhosa se o espírito de Sesshoumaru não continuasse inquieto. Naquele momento Kikyou estava no quarto dela, sentada perto da janela, observando aquela mesma vista com o pensamento voltado a qualquer outro lugar e inconsciente do barulho que fazia a nova hóspede. Desde o dia anterior ela parecia estranhamente nervosa, quase como se soubesse que algo estava prestes a acontecer. Até então ele tinha sido paciente e esperado que ela tomasse a decisão de vir até ele quando estivesse pronta para dar uma resposta sobre se teriam um futuro juntos, mas a espera estava começando a ficar insuportável. Talvez ele devesse deixar de lado aquele papel passivo e pedir diretamente a ela uma resposta. Se ela estivesse disposta a dar-lhe uma chance, certamente não o condenaria por querer ser informado disso.

- Sesshoumaru!

O grito de Rin o sobressaltou, fazendo-o voltar à realidade.

- O que você quer, Rin? – perguntou tentando soar impassível, mas acabou deixando escapar uma ligeira nota de irritação.

- Por que não vamos dar um passeio? – a menina pediu alegremente. Os únicos momentos em que ela deixava de agir como uma criança mimada era quando estavam sozinhos. Estava começando a temer que as atitudes de Rin tivessem a ver com alguma paixonite tendo ele como figura central.

- Eu estou cansado agora – disse voltando à mesma cadeira onde estivera sentado e pegando o primeiro livro que encontrou a vista. Acomodou-se e abriu uma página qualquer, fingindo ler. – Por que você não vai dar uma volta pelo jardim?

- Casado a essa hora da manhã... – Rin cerrou os punhos e lançou um olhar furioso para o teto como se estivesse vendo Kikyou através da parede. – O que você quer é passar o dia aqui, esperando por aquela mulher.

- Isso não é problema seu.

- Eu não consigo entender você. Se está tão desesperado para vê-la, por que não sobe lá ao invés de ficar aqui, perambulando em meio metro quadrado como um zumbi? Homens... Francamente. – Balançou a cabeça e cruzou os braços. – Eu, sinceramente, pensei que você fosse diferente. Herdeiras milionárias nunca fizeram o seu tipo.

Sesshoumaru quase riu da última observação. Não era como se Rin fizesse a menor idéia de qual era o seu tipo. Na verdade fazia um bom tempo que um não sabia nada sobre o outro. Ele enviava presentes para ela e recebia em retorno cartas de agradecimento que não falavam mais que trivialidades. Tinha que admitir que ela havia crescido em uma garota bonita em sua ausência e duvidava que o comportamento que vinha apresentando desde que chegara aquela casa fosse o normal para ela. Nesse caso Kouga teria se jogado pela janela ou se afogado na pia da cozinha... Talvez mais tarde ele pudesse conversar com a menina e conhece-la melhor. Isso depois que resolvesse as coisas definitivamente com Kikyou.

- Você tem razão – disse largando o livro em cima da cadeira e se levantando.

- Eu tenho?

- Eu vou subir lá e falar com ela.

Sesshoumaru ensaiou uma reverência com um meio sorriso antes de sair da biblioteca, deixando uma Rin confusa observando-o se afastar. Ele juraria ter ouvido alguma coisa cair com um baque alto na biblioteca quando já se encontrava fora de vista, mas deixou que outra pessoa se preocupasse com isso. Andou o mais rápido que pode na direção das escadas evitando correr. Odiava parecer ansioso. Venceu os degraus e fez o caminho até o quarto de Kikyou só parando ao estar frente à porta dela.

Permaneceu parado um longo tempo, apenas fitando a superfície de madeira, imaginando mil e um desfechos para aquela conversa e a sua reação a cada um deles. Por fim, sabendo que era inútil adiar o momento e sentindo uma ponta de irritação consigo mesmo por não ter tomado a decisão definitiva de ir até ali por si próprio, mas aceitado o conselho de uma criança, ergueu a mão para bater na porta. Antes que seguisse adiante, porém, a entrada foi subitamente aberta e Kikyou apareceu com uma expressão tão diferente da estóica que lhe era usual que Sesshoumaru teve que fazer um esforço para não recuar.

- Sesshoumaru – ela disse, carranqueando em confusão. – O que está fazendo aqui?

Os olhos da mulher foram de um lado para o outro como se de repente estivesse sentindo dificuldade em lembrar o que estava fazendo ali.

- Eu vim falar com você – Sesshoumaru franziu o cenho, encarando Kikyou como se a estivesse vendo pela primeira vez. As faces dela estavam coradas e, recuperada da surpresa, seus olhos retomavam um brilho de determinação que ele nunca vira. – Kikyou, você está se sentindo bem? – arrependeu-se da pergunta assim que a fez, mas a estranheza da situação lhe causara um branco momentâneo e foi tudo o que conseguiu formular.

- Eu... Sesshoumaru – Kikyou o fitou intensamente e suspirou. – Você faria qualquer coisa por mim?

Ele teria feito pouco caso da pergunta e a descartado como uma tolice se ela a tivesse feito no tom neutro de sempre, mas não foi o caso. Sesshoumaru se viu assentindo levemente antes mesmo de saber o que estava fazendo. Algo na voz de Kikyou, soando urgente, desesperada e suplicante o arrebatara para longe de seus sensos fazendo-o esquecer até mesmo o motivo de ter subido ali. Mais tarde pensaria no assunto e não encontraria outra explicação, acrescentando apenas que talvez o olhar dela também tivesse contribuído para o momento. Eles nunca se olhavam nos olhos por tanto tempo quando conversavam.

Kikyou sorriu e pareceu aliviada. O aceno do homem a sua frente tinha sido quase imperceptível, mas a satisfez mesmo assim. Avançou relutantemente para a mão dele e a segurou cuidadosamente, como se temendo que ele pudesse afastá-la a qualquer momento.

- Preciso que faça algo por mim. Algo importante que eu não posso confiar a mais ninguém. Sesshoumaru... – ela respirou fundo, os olhos nunca deixando os dele. – Posso confiar em você?

Para o bem ou para o mal, os olhos dele disseram que ela podia.

-

CONTINUA

Por enquanto isso é tudo. Foi um capítulo meio chatinho se alguém leu esperando uma participação maior de Inuyasha e Kagome, mas o plano é parar de enrolar tanto aqui. Agora eles só precisam colocar a mão no dinheiro e o fic acaba... Não que eu esteja dizendo que vão conseguir... Er...

Não vou prometer o capítulo 18 para a próxima semana, mas eu pretendo começar assim que atualizar Quebrando as Regras – antes que ela faça aniversário de hiatus... Eu realmente preciso terminar esses fics!!! T-T

Obrigada por ler e até a próxima.

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