Era uma manhã fria e coberta por um nevoeiro que se negava a deixar que o dia clareasse. Um homem de vestes negras caminha pelas ruas estreitas e sujas de Cokeworth, pertencente ao distrito de Birmingham, olhando para as fábricas fechadas, os grupos de operários desempregados e as gangues de ciganos que se esgueiravam a cada esquina. Odiava aquele lugar, fedendo a esgoto e a fumaça das chaminés, com todas as suas forças. Mas, precisava estar lá... era necessário encontrar o menino e conversar com ele.

Instantes depois, viu a casa onde nasceu e vivera durante toda a vida... rumou até lá, pensando no que poderia encontrar naquele momento. Bateu na porta e ficou aguardando para ver se alguém abriria. Os minutos passaram e nenhum sinal, mesmo que remoto, demonstrava que a residência era habitada. Foi, então, que discretamente falou Alohomora e destrancou a fechadura, obtendo a passagem para entrar no ambiente. Percorreu cada um dos cômodos, olhando para cada detalhe, até ouvir um barulho vindo dos fundos... e lá estava sentado quem ele procurava, o pequeno Severus Snape.

Antes de cruzar a porta que levava ao minúsculo pátio dos fundos, que parecia mais um depósito de lixo, notou que era observado com um misto de curiosidade e aversão. Conhecia bem aquele olhar e sabia o que significava... sua vida inteira encarou as pessoas dessa forma, como um cachorro chutado por alguns que, por isso, acabava culpando o mundo inteiro. Queria sempre se afastar de todos para ficar protegido.

- Dia... seus pais estão em casa ou há previsão deles voltarem? – questionou com os braços cruzados junto ao peito, para impor uma postura arrogante e grave.

- Não estão e não sei quando voltam! Pode ir embora... senhor – respondeu mal-humorado olhando para o homem parado a sua frente.

- Interessante... não lembrava dessa língua afiada aos 7 anos – deu um sorriso de lado mantendo a carranca sem expressão.

- Como? O que disse? – perguntou o encarando fixamente.

- É o que você escutou, Severus, garanto que a sua audição é muito boa e, a sua compreensão, excelente para um menino da sua idade. Então, não haja feito um imbecil com quem mais o conhece – retribuiu o olhar do mais jovem, erguendo a sobrancelha como se estivesse o desafiando.

- Quem é você... o senhor, afinal? O que faz aqui? – inquiriu caminhando para perto do muro buscando uma alterativa de expulsar aquele invasor dali o mais rápido possível.

- Muitas vezes, sou o seu melhor e único amigo. Na maioria do tempo, sou o pior inimigo que terá e o seu juiz mais cruel. Por isso, decidi falar com você - os dois se encararam por alguns instantes erguendo a sobrancelha quase que simultaneamente. Alguns minutos passaram em silêncio com os dois se olhando até que o menino arregalou os olhos com um semblante de completa surpresa.

- Vejo que entendeu! Não lembrava de que eu tinha um pensamento lerdo e agia como um obtuso. Que vergonha... – revirou os olhos com um ar de reprovação absoluta.

- Isso... isso... não é possível! Só acontece nas histórias em quadrinhos e nos filmes – exclamou incrédulo com o que escutava. Aquilo não fazia sentido nem mesmo para a sua mente imaginativa, que se via sempre como um herói cheio de superpoderes, desde que descobriu os seus dons e a suas capacidades mágicas.

- Você sabe que bruxos podem fazer isso... – retorquiu dando de ombros, do modo mais desdenhoso que encontrou para aquele momento. Mesmo que o menino fosse ele no passado, ou ele fosse o futuro daquela criança, não deixaria que o enfrentasse. Afinal, era o adulto ali.

- Só os bruxos das... eu vou ser um? É sério? – sua expressão se modificou para algo entre a admiração e o orgulho com as ideias que passaram na sua mente.

- Sim – respondeu em nenhuma ênfase.

- Porquê eu o fiz? – agora Severus estava, realmente, interessado em tudo o que escutaria do homem. Precisava saber de tudo, conhecer cada detalhe... era fantástico aquilo acontecer, quando a sua vida poderia ser definida como soterrada na merda e sem a menor perspectiva.

- Se tornar um bruxo das trevas? – Snape o olhou interrogativo.

- Não, voltar no tempo – seus olhos negros pareciam adquirir um calor esperançoso. Quem sabe, ele mesmo, retornara ao passado para tirá-lo dali e dar uma vida decente?

- Lembra, nos quadrinhos, quando a Lois Lane morre no acidente de carro? – perguntou esperando a resposta.

- Quando o Superman gira a Terra ao contrário? Sim, mas, o que tem a ver com nós dois? – retorquiu com uma nova questão.

- Exato. Quanto a sua segunda pergunta... – antes que completasse a frase, foi interrompido pela felicidade do menino, que exclamava o fitando:

- Nossa! Eu vou voar também?!

- Vai! Contudo, peço, que nunca pense em usar uma roupa idiota com um S estampado no peito. Nos vestimos de preto, somos maus e só agradamos e mostramos sentimentos a uma pessoa específica, compreendido? – bufou ficando sem paciência. Queria relatar tudo de uma só vez e sair logo dali. Contudo, se via diante da sua versão infantil muito entusiasmada com o que ocorreria. Mal aquele jovem sabia que a sua vida foi repleta de sofrimentos e não de pura emoção como ousava sonhar naqueles segundos.

- Até parece que eu vou ser um idiota... – revirou os olhos com uma expressão de nojo.

- Não é o que os amigos da ruiva, que você começou a observar, vão pensar a seu respeito. Inclusive, vão te chamar de Snivellus e Seboso por conta das roupas, do cabelo e, principalmente, pelo fato de que é pobre e mestiço – falou de um jeito insolente e presunçoso. Detestava recordar de tudo aquilo, porém, era necessário. Severus merecia a verdade e expressava nas suas palavras e semblante de raiva:

- Retardados! Bando de bostas...

- Ela vai apoiá-los e sempre vai dizer "ai Severo, que horror", a cada coisa que você fizer ou disser – garantiu. Não queria passar por uma ilusão de ter encontrado uma grande amiga em alguém que só o usou.

- Ela não é assim! – se enfezou com o que escutara.

- Não? Não esqueça, pequeno Kal-El, que eu sou você no futuro... logo, sei muito bem quem é a Lily Evans para te dar certeza de que jamais será sua amiga – enfatizou querendo encerrar aquele assunto ali mesmo.

- Se não é ela... quem é a "minha Lois"? – indagou como se estivesse tendo um rompante de fúria.

- Hermione... Hermione Black. É por ela que eu girei o globo terrestre ao contrário, usando um Vira-tempo, e voltei até esse maldito ano de 1967 para falar com você ou comigo mesmo em miniatura – replicou, sabendo o que a sua atitude poderia custar. No entanto, pouco importava, se tivesse a sua rainha de volta.

- Dizem que os bruxos enlouquecem quando mexem com o tempo... pelo menos, é o que a minha mãe sempre comenta – o menino ficara pensativo. No fundo, gostaria de ver como era essa menina que fez com que, ele mais velho, voltasse no tempo e quisesse alterar tudo.

- Ela está correta. Só que você, não ficará louco, tenho certeza. Vou te mostrar tudo o que acontecerá e quem nos tornamos no futuro de onde eu venho. Como é a minha vida, relatando tudo a você, eu vou refazê-la! – deu um sorriso triste ao lembrar do rosto dela.

- Como vai executar isso? – perguntou sentindo uma sensação de inquietação e mágoa se expandindo dentro do seu coração. Ainda não possuía os seus poderes totalmente desenvolvidos, então, sentimentos alheios eram percebidos como intuições. Mas, ali, era diferente... como estava diante de si mesmo, o sofrimento que a sua versão mais velha expressava nos olhos, ele sentia lhe cortar o peito, o sufocando e fazendo-o querer chorar.

- Não se faça de inocente e nem tente jogos comigo, arruaceiro! Quer testar a sua Legilimência e descobrir se eu falo a verdade ou não, pequeno mestiço? Quem sabe eu revelo algo que ocultamos de todos a vida inteira por receio? – os olhos dos dois se fecharam como se estivessem se desafiando.

- O quê? – perguntou o afrontando.

- Que aquele bosta do Tobias é meio cigano, como a maior parte das pessoas que vivem aqui e que, nos escondemos para não termos qualquer traço que nos ligue a isso. Embora, nossos olhos, cabelos e roupas nos denunciem. Creia, bandoleiro, que somos melhores. Aprenda a aceitar quem é, que seus traços só demonstram que seus desejos são verdadeiramente indômitos! – argumentou mantendo o seu semblante fechado.

- Que idade você tem, senhor? Aliás, que eu tenho quando cheguei aqui... isso é confuso! – o menino coçava a cabeça como se buscasse organizar todas as ideias. Snape compreendia que era muito para uma criança, entretanto, não encontrara outra alternativa que fosse mais eficaz.

- 37 anos.

- E Hermione? Ela se importava da nossa ausência de pureza no sangue? Como... como ela era? – questionou inseguro. Sentia dentro de si a tristeza crescente quando o nome dela era tocado.

- Tinha 18 anos. Ela era inteligente, honesta e a menina mais doce, linda e teimosa que conhecemos na vida. Nós amávamos a nossa rainha mais do que tudo... Hermis pouco ligava para a ascendência ou para este lugar – os olhos dele marejaram, o que o fez respirar fundo para continuar:

- Gostava da nossa sobrancelha grossa e dos dois diabretes negros que temos no lugar dos olhos. Se eu os fechar agora, eu posso vê-la encantada os encarando, analisando como eles se espreitavam desconfiados de tudo ao seu redor, se agarrando para impedir que as janelas da nossa alma se descortinassem para alguém... Hermione foi a primeira a perceber isso, sempre sorria ao dizer que meus pequenos demônios viviam se esgueirando para espionar cada detalhe sem se revelar - os dois sorriram ao mesmo tempo.

- Eu inventei uma série de apelidos para demonstrar todo o amor que sentia por ela. Tudo para revelar o quanto estava agradecido dela ter o dom de fazer com que os pequenos diabos deixassem de lado o mau humor e se suavizassem. Era a única que os transformava em seres inocentes e confiantes... roubava essa eterna carranca de vira-lata malvado e obscuro, porque aos olhos dela, estava diante de um verdadeiro príncipe – por mais que segurasse, acabou deixando escapar as lágrimas, percebendo que o menino mordia o lábio o olhando atentamente. Aquilo mexia com Severus também, Snape sabia... ele sempre quis ser amado. Permanentemente imaginava com o dia que encontraria uma pessoa que o olhasse como um ser humano e não como lixo. Hermione era o universo e ele a perdeu.

- Ela, realmente, nos amava – sentou do lado da sua versão mais velha e o segurou pela mão, como se estivesse passando confiança. Sentia que era o certo, pelo fato de que precisava daquilo também.

- Não sei se amor é a palavra certa... era mais do que isso. Pense que nos libertou de um prazer sinistro de causar aversão nos outros e de continuarmos nos degenerando pelo ressentimento... nos ensinou que não precisávamos ouvir os mortos e caminhar pelo inferno para nos sentirmos vivos. É, por isso, que Hermione era e sempre será tudo! – disse olhando para o nada, perdido nos seus pensamentos mais profundos e na saudade que sentia dela.

- Vai me mostrar tudo o que houve? O motivo que ela morreu? – perguntou curioso, permanecendo sentado ali.

- Sim... – falou secamente e olhou para o menino.

- Há coisas muito ruins, além dela ter ido embora? – seus olhos estavam com um brilho intenso de expectativa e medo do que veria.

- Como somos a mesma pessoa, com idades diferentes, sei que você já assistiu coisas que homens de 60 anos ficariam horrorizados... então, sim, você verá tudo e há coisas muito pesadas – respondeu, sentando-se no chão para ficar de frente e da mesma altura que o menor.

- Como vamos fazer? – questionou o olhando dentro dos olhos.

- Use a minha varinha, aponte para a minha cabeça e diga Legilimens. Você ainda não controla o suficiente para entrar sem o uso do feitiço. Não obstante, garanto que com o tempo não será necessário – os olhos dele também estavam fixos nos do menino.

- Antes de fazer isso... me responda mais uma coisa, por favor – fez uma expressão de dúvida se deveria ou não falar.

- Pergunte – se manteve encarando para saber onde aquilo iria terminar.

- O que acontecerá depois que me contar? – interpelou com uma sensação ruim dentro do peito.

- Tudo muda. A realidade de onde eu venho deixa de existir e não haverá espaço para que nós dois. É simples! – deu de ombros.

- Vai morrer? – sua preocupação só aumentava, algo lhe dizia qual era a resposta que lhe seria dada. Mas, não queria acreditar.

- Sim, não há como ter dois Severus Snape no mundo e nessa nova realidade. Certamente, eu não vou voltar no tempo aos 37 anos... estarei feliz com a minha Hermione e os meus dois filhos. Não me importo que incendeie o mundo bruxo inteiro! Compreenda, não existe felicidade sem tê-la ao lado, sem a possibilidade de abraça-la e sentir o seu cheiro de baunilha com morango – Snape, instintivamente, passou a mão no rosto da sua versão de 7 anos e o abraçou. Era o abraço que ele sempre quis ganhar do pai, mas nunca foi possível... então, daria a si mesmo naquele momento tão importante em que as coisas se modificariam para sempre.

- Eu... nós... não haverá ninguém além dela? – se mantinha inquieto. Que vida miserável era a sua para ser tão solitário e desesperado por amor.

- Você vai ver... há pessoas que são importantes, que você amará muito, sei que as protegerá também e fará o possível para que fiquem juntas. O destino está nas suas mãos... antes de partir, eu vou leva-lo a um lugar e conhecerá uma pessoa. Certo? – disse segurando o menino com força para passar segurança sobre o que fariam.

- Certo... pronto? – respondeu pensativo, retorquindo o mais velho.

- Pronto! – assentiu.

- Legilimens - sua vida inteira girava diante dos seus olhos detalhadamente e, a partir dali, tudo se modificara.