Existe um certo alento na ideia de um Céu, e até de um Inferno. Não tanto pela continuação da nossa própria vida, por uma recompensação ou punição pelos feitos, mas pelo conceito de reencontro com aqueles que perdemos, e que possamos um dia também nós ser reencontrados.

Nairobi nunca fora uma pessoa particularmente religiosa, mas sinceramente, pouco havia de religião nisto. Era um conceito transcendente à natureza humana; que, depois do fim, pudesse haver algo mais. Para que a ideia de fim não fosse tão assustadora, talvez. Para que houvesse uma luz de esperança num momento tão negro.

É estranho e difícil saber exactamente quanto é uma memória, e quanto é algo mais. Há uma parte sua que lhe diz que, na verdade, não faz qualquer diferença. O que importa se é o antes ou o depois? É o agora.

É familiar e diferente. Está sol, um dia muito agradável, e as cores da relva e do céu estão vívidas e cheias de algo, talvez felicidade, como os dias de verão em que tudo parece estar cheio de vida e que nos fazem querer passear e divertirmo-nos. Talvez por isso pareça e sinta a uma memória, porque parece que já tinha sentido isto. A brisa que lhe toca na cara é tão boa, e Nairobi segura uma flor entre os lábios. Move-a suavemente entre os dedos pouco depois. Há um som de conversa de fundo, mas como não sabe se isto é mais memória ou mais... outra coisa, Nairobi volta-se de lado na manta branca sobre a relva na direcção das vozes. Está de vermelho, mas é um vestido e não um fato de macaco. Gosta bastante de se ver com ele.

Berlim está sentado à mesa com Oslo e Moscovo. Os dois cumprimentam-na com um aceno, e Berlim é o último a voltar-se para ela. Apesar de sentir aquela sensação familiar, como um déjà vu, Nairobi sente outra coisa mais intensa que se sobrepõe: alívio. É acolhedor, reconfortante, e fá-la sorrir a Moscovo e Oslo como velhos amigos que não via há anos.

Essa sensação é maior com Berlim, e talvez por isso fosse mais palpável. Lembra-se da última vez que o viu. Já se passara tanto tempo. Com ele, tinha essa noção clara de tempo porque se lembrava tão bem da raiva e da tristeza que sentira ao perceber que ele ia ficar para trás. Lembrava-se do que sentira quando o vira, sempre tão impassivamente psicopata, mostrar um rasgo de emoção no fim.

- Grande filho da puta.

Berlim solta uma risada. O som é tão estranho porque é tão real e tão familiar, mas tão agradável que faz Nairobi sorrir em retorno de imediato. Moscovo e Oslo também não escondem ou disfarçam os seus risos.

- Ora aqui está a nossa Nairobi. Mas que palavras tão doces, minha querida.

Nairobi resfolega, sorrindo ainda mais. Nunca pensara verdadeiramente que iria sentir saudades de Berlim; afinal, ele era um cabrão, e as suas personalidades chocavam desde praticamente o primeiro dia. E no entanto, mesmo com toda a vida que tivera com Helsínquia, com todas as aventuras com a sua família disfuncionalmente perfeita de assaltantes, Berlim nunca fora esquecido. Nem Moscovo ou Oslo, na verdade. Nairobi não esquecia as pessoa. Mas Berlim era o seu pequeno ódio de estimação, um sentimento que não era corrosivo e sim ameno e quase reconfortante com o tempo, ao ponto de se tornar saudade, de se desejar poder voltar a ter um momento nem que seja para discutir. Acaba por se tornar num género de amizade retorcida.

- Já tinha saudades tuas.

Berlim sorri e acena com a cabeça.

- Também tive saudades de companhia mais perspicaz. Meus caros - diz ele, voltando-se para Moscovo e Oslo - sabem que vos amo, mas não conseguimos ter conversas muito longas.

Os dois companheiros resfolegam, provavelmente já demasiado habituados depois de terem aturado Berlim durante tanto tempo, e Nairobi revira os olhos. Que cabrãozinho, a sério.

- Aproveitei para te desenhar - acrescenta Berlim, voltando-se de novo para ela com aquele caderno de desenhos com que o via tantas vezes em Toledo. - Espero que não te importes.

Nairobi olha para o desenho, pestanejando. Era artístico, sem dúvida, e sem dúvida que era ela naqueles traços, mas o seu gosto de arte era ligeiramente diferente do dele.

- Porque é que estou tão esquisita?

- Minha querida, eu retrato o que vejo.

Nairobi resfolega audivelmente e de forma ofendida apesar de estar a sorrir, apetecendo-lhe atirar alguma coisa para cima de Berlim, mas como a única coisa que tem é a flor na sua mão, decide não o fazer. Em vez disso segura-a perto do peito enquanto ri, sentindo de novo aquele alívio reconfortante. A flor bonita lança uma sombra sobre si.

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fim

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Obrigada por lerem. Inspirado por um gifset do tumblr de raquellmorillo, pelo fic "E questo è il fiore del partigiano, morto per la libertà" de Alley no ao3 e pelo video La Casa de Papel | Wars of Faith (S4) de Aida Dayai. Disclaimer no fim mas obviamente nada na Casa de Papel é meu.