O aroma fresco de café tomava espaço no pequeno casebre de madeira na manhã amena. Seu Lúcio acordava cedo, era no máximo umas 6:30 da manhã e logo já foi ao apertado banheiro para lavar seu rosto com a água pura que coletava das constantes chuvas.

Quando saia do banheiro, com a toalha ainda cobrindo seu rosto envelhecido, acidentalmente pisou no bichano de bigodes retorcidos. Foi apenas um susto para Lúcio, mas um trauma para o pobre gato que, após dar um miado semelhante a um grito de gente, correu em direção a porta, para se livrar de mais alguma futura pisada do dono.

Dirigindo-se à cozinha, ao passo que pegava o antigo jarro de café da cafeteira, Lúcio observou de longe o gato que ficou sentado naquela grama lamacenta próxima ao Tepui Kukenán:

— Deve estar pensando que não tem outro lugar para ele fugir...Vem cá bichano, isso não vai acontecer de novo, eu prometo!

E como se o gato realmente estivesse interessado em fazer as pazes com o "Lúcio pisoteador", foi se aproximando enquanto o velhote pegava a caixa de leite para dar ao gato um agrado em sinal de arrependimento.

Sentou-se na mesa quadrada e logo encheu a xícara metálica com café preto.

Seu Lúcio, amava o lugar onde morava. Não havia nada lá, se não montanhas, neblinas, chuvas e lama. Gostava de acordar cedo e respirar profundo para sentir aquele cheiro fresco que lavava os pulmões. Gostava do calor da lareira durante a noite fria. Gostava da companhia do gato. Gostava da sua vida.

Após comer algumas nesgas de pão, foi para pia lavar a pouca louça, que uma pessoa que mora sozinha deve sujar por dia. Olhava a janela aberta logo a sua frente, via se tudo estava ainda no esquadro, se a madeira aguentaria muito mais tempo. Lembrou-se então de quando construiu o humilde casebre, com Nestor e, Raul:

— Um dia ele aparece...

A decepcionante lembrança não o abalou. Secou as mãos e sentou-se no sofá rasgado.

Fechou os olhos. Quem não o conhecia pensava que, tal qual um senhor de 72 anos normal, iria dormir e roncar em alto tom. Deu um pulo abrupto, agarrou o gato que foi despertado de um modo tão inusitado, e como uma criança imatura, começou a dançar com o gato. Lúcio ria da falta de reações do gato. Como poderia levar um susto, dançar com um velho e continuar com a mesma cara? Lúcio gargalhava e deslizava os sapatos no chão de madeira. Parecia uma patinação no gelo. E pulava, rodopiava e fazia de tudo para não ter uma vida rotineira. Começou a tossir. Sua idade não o permitia mais esse tipo de coisa. Mas quem se importa? Continuou até não ter mais fôlego.

Colocou novamente o gato no sofá e o acariciou como pedido de desculpas. Descansou as pernas no sofá e exausto, conversava com o gato:

— Tu é um bom dançarino, mas nunca superará "Lúcio o rei"! — estava ofegante e levantou dedo indicador com uma pitada de orgulho durante a fala.

Seu Lúcio percebeu que o céu estava forrado de nuvens negras. As chuvas daquela região eram constantes e fortes, sempre acompanhadas de relâmpagos e trovões. Alguns turistas que iam para apreciar os Tepuis ou então a beleza da Salto Ángel, se perdiam e em casos graves, até morriam.

Na temporada de turistas, Lúcio fechava as janelas e portas. Era meio antissocial da parte dele, alguns até o julgariam de grosso. Já chegaram a quebrar algumas vidraças do casebre, por isso, turistas deveriam ser evitados e naquele mês, era época de turistas. Lúcio pegou no sono.