Cap 01 – A Procura do Mais Forte.

Vinte anos atrás, um carro pertencente ao conselho tutelar levou uma dupla de crianças pequenas ao que seria o novo lar delas. A casa era grande e isolada, mas, em contrapartida, tinha espaço suficiente para correr e brincar. Porém, isso não significava muito, já que os irmãos Morais eram frutos da geração que preferia um smartfone a uma bola. Não havia televisão na casa e nem computador, esse era o primeiro baque que atingiu os irmãos. Ter que ajudar na arrumação da casa e nas tarefas da fazenda foi o segundo. Ricardo e João foram acostumados a viver com os mimos dos pais. Graças a empregada da casa eles não precisavam nem arrumar a cama. Dividir um teto sob a tutela do avô materno fez esses luxos caírem por terra.

O sangue oriental que corria nas veias dos irmãos era originário da família da mãe. Já o sangue latino e o sobrenome vieram da família do pai. Ricardo e João Morais foram apresentados pelo avô deles, Akira Yamaoka, às artes marciais. De todos os seus novos hábitos aquele era o melhor. Era puxado e muitas vezes doloroso, mas era muito útil para impressionar as coleguinhas da escola e para afugentar os valentões.

A nostalgia atingiu Ricardo enquanto ele, já adulto, assistia a uma competição marcial na rua. A televisão em exibição na loja mostrava um homem musculoso e de canela fina brigando com uma estrela do mar de, pelo menos, um metro e oitenta. Na base da tela havia uma faixa vermelha com a seguinte frase escrita: "Nova Temporada de O Rei dos Lutadores em breve". Ricardo gostava de assistir aquelas competições, mas raramente o fazia. Quando ainda estava sob tutela do seu avô, o velho sempre o impedia. - Isso não é artes marciais, é barbárie!

Assim que fez dezoito anos e completou o ensino médio, Ricardo optou por sair da aba do avô e estudar gastronomia na capital. O seu irmão, João, fez o caminho inverso. Preferiu permanecer na fazenda e continuar a estudar artes marciais e o domínio do Ki. Falando resumidamente, o Ki é uma energia espiritual presente em todas as formas de vida. Quem tem a habilidade de dominar, nem que só um pouco, o Ki é capaz de fazer algo de enorme valor. Ou fazer um grande estrago.

Faltava pouco para Ricardo se formar, mas, por causa de um imprevisto, ele teve que interromper o seu curso. Em um domingo qualquer, ao ligar para a sua família, Ricardo ficou a par de que o seu irmão havia desaparecido. Alguns dias depois, Ricardo se encontrava no tempo presente, desviando a sua atenção da loja e indo até o guichê da rodoviária.

Era muito tarde da noite, a rodoviária era grande e cheia de becos onde atividades criminosas podiam ser exercidas sem problema. Tudo começou com Ricardo ouvindo um grito abafado, quando ele foi checar o que estava acontecendo viu uma garota recém-saída da adolescência ser cercada por quatro rapazes, um deles se ocupava tapando sua boca. Ricardo pensou que a melhor reação a se fazer era chamar pelos seguranças, mas antes que pudesse ponderar já tinha atingido um dos marginais com uma voadora. Por ter agido de forma tão afoita, Ricardo não conseguiu confirmar se eles estavam armados. Para o seu azar, pelo menos um deles sacou um revólver. Rápido o suficiente para que seus movimentos não fossem corretamente registrados, Ricardo agarrou a mão do bandido armado e o desarmou. Só havia dois bandidos de pé agora, um foi derrubado com um soco de direita no queixo e o outro fugiu sem ter nem a consideração de ajudar os seus colegas.

Ricardo pensou que a moça iria, ao menos, agradecer pela ajuda. Mas, provando que o lutador ainda era muito romântico, ela apenas fugiu parecendo ter tanto medo do seu salvador quanto dos vilões.

Ao amanhecer, Ricardo chegou na casa do avô. Akira demonstrava pouco as suas emoções, mesmo assim o seu neto percebeu que ele estava feliz por vê-lo. No tempo em que ficou ausente, a casa não mudou muito, o quarto em que João dormia estava praticamente inalterado. Nas paredes havia menos pôsteres de bandas e de filmes, o que Ricardo deduziu ser um sinal de que o seu caçula estava amadurecendo. Futucando o armário, Ricardo encontrou roupas amassadas e alguns tênis. Não estava presente ali todo o vestuário do seu irmão, o que indicava que ele preparou sua mala para partir. Em uma das gavetas, Ricardo encontrou um papel interessante, um convite, e com ele em mãos foi ter uma conversa com o seu avô.

- Eu tentei proibir que João se envolvesse com esse tipo de torneio, mas eu não tenho mais o controle sobre ele. João já é um adulto.

- Como João recebeu esse convite?

- Ele chamou atenção de alguns olheiros que assistiram algumas participações dele nos campeonatos da região.

- Tudo bem, segundo a data descrita nesse convite ainda tenho tempo. Eu trarei João nem que seja amarrado.

Akira já tinha setenta anos, mesmo assim ainda era um homem alto e musculoso. Ele dizia que seu porte físico se devia em grande parte pelo seu domínio do Ki. - Não posso permitir que se envolva no Rei dos Lutadores sem estar preparado. Demonstre o mínimo domínio do Ki e eu permitirei que vá em busca do seu irmão.

Os dois estavam do lado de fora da casa, logo não precisavam se conter. Akira começou pegando seu discípulo desprevenido, um chute circular pegou o jovem em sua bochecha direita fazendo-o rodopiar antes de cair. Ricardo nem havia conseguido se levantar direito quando recebeu uma sequência de socos e caiu de novo. - Você sabe que só há um jeito de vencer essa luta, não é?

Ricardo começou a sentir uma eletricidade correr pelo seu corpo e se concentrar em seu punho direito. Sentindo uma fúria a qual não estava habituado a sentir, Ricardo socou o ar e bradou o que seria o nome do seu golpe. - Lightning Plasma! - Uma intensa luz elétrica foi irradiada de seu punho e atingiu o seu avô em cheio. Só quando o efeito do ataque passou, que Ricardo percebeu que podia ter ferido o seu mestre gravemente. - Sensei, perdão!

Akira, contrariando o que era esperado, respondeu ao golpe de seu discípulo com um sorriso. - Não foi impressionante, mas já é um começo. - Akira pediu para que Ricardo esperasse ali e foi até a casa para pegar algo, quando retornou estava com um papel em mãos e o entregou a seu neto. - Eu tentei esconder de você, mas parece que quando o destino quer que aconteça algo não dá para fugir. Você também foi convidado para participar do Rei dos Lutadores. - Enquanto Ricardo analisava o seu convite, o seu avô lhe dava seus últimos conselhos. - O Rei dos Lutadores é uma competição de sobrevivência, vale tudo para vencer. E tome cuidado com os seus adversários, eles usarão das mais esquisitas técnicas.

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Longe dali, dias depois, homens e mulheres dos mais variados tipos e nacionalidades esperavam o seu transporte atracar. O visual da embarcação surpreendeu a todos por ele ser excessivamente simples, basicamente feita de madeira, o barco lembrava as caravelas de séculos atrás. Ricardo chegou na doca tarde demais para ver os primeiros lutadores entrando no barco. Em meio aos competidores, Ricardo esticava o seu corpo na tentativa de encontrar o seu irmão. De duas uma: ou João havia desistido ou ele já havia entrado no barco. Como Ricardo o conhecia bem, ele estava quase que certo de que João já havia entrado. O garoto raramente desistia de algo.

- Que ansiedade idiota. - Disse um homem que comia na área externa de um restaurante. O lugar dava ampla visão ao barco do torneio. - O barco San Asesino só sai daqui a duas horas. Pra que a pressa? - O lutador estava se concentrando para tirar a carne de dentro da carapaça de um caranguejo quando um homem o interrompeu.

- Você é muito magrinho para sobreviver a um torneio como O Rei dos Lutadores. O convite que recebeu deve ter sido um engano. - O troglodita cometeu o erro de tocar no ombro direito do lutador. Lâminas apareceram como que se brotassem da pele do seu oponente e vararam os seus dedos. Após tirar a sua camisa, o guerreiro exibiu uma armadura de couro preta cheia de poros.

- Lembre-se, marginal, meu nome é Spike Johnson, o novo campeão do Rei dos Lutadores. - De cada buraco da armadura de Spike haviam lâminas retrateis. Elas podiam ser utilizadas como facas ou arremessadas como projéteis.

De tão compenetrado em procurar o seu irmão, Ricardo não notou quando o barco desatracou e ganhou o mar. Mesmo estando tão absorto, houve um evento que não pôde ignorar. O San Asesino foi lentamente se desgarrando do mar e ganhando o céu. A expressão de Ricardo foi tamanha que um homem ao seu lado percebeu o seu deslumbramento.

- É informado no convite onde será o torneio. Pelo visto você não leu.

- Vai ser no céu?! - Ricardo ainda não conseguia desmanchar sua expressão. O que fazia com que aos olhos dos outros ele parecesse um matuto. E de fato o era, tendo em vista que a maior parte de sua vida ele passou na fazenda do avô.

- Mais ou menos, será no Mundo Externo. Um planeta não muito distante daqui. - Com suavidade o barco continuou subindo até sair da atmosfera e ganhar as estrelas.

- Estamos no espaço, a céu aberto, e ainda consigo respirar como se ainda estivesse no chão!

- É, a maravilha dos barcos sencientes e da magia moderna. - O homem estendeu a mão para Ricardo e se apresentou. - Me chamo Spike Johnson. - Os dois competidores começaram a caminhar pela área do barco onde tinham acesso e Spike foi introduzindo ao seu novo amigo sobre os cuidados que tinha que ter no torneio. - No O Rei dos Lutadores você vence uma batalha quando mata o oponente, o deixa debilitado demais para continuar ou faz com que ele peça desistência.

Dentre os candidatos haviam poucas mulheres. Entre elas havia uma que chamou a atenção de Ricardo. Sua roupa colada e corpo cheio de curvas fez até que, por um momento, o jovem esquecesse de sua busca pelo irmão. Constrangido, Ricardo só desviou o olhar para não deixar muito evidente que estava desejoso pela mulher. Mas, sua encarada não passou batida pelo seu novo colega.

- Não se meta a besta com essa mulher. A não ser que queira virar um sapo.

- Como assim?

- O nome dela é Helena, a sua beleza escultural esconde o fato de que ela é uma bruxa. Além disso ela é cheia de implantes cibernéticos espalhados pelo corpo. Por isso também é conhecida pelo nome de Cyber Witch.

- Meu avô me avisou que eu enfrentaria adversários esquisitos.

- É, ele não estava errado.

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A cabine do capitão do navio era restrita a ele, ao seu discípulo e a alguns funcionários do barco. Sentado atrás de uma mesa, o dono da embarcação bebia um líquido que parecia com vinho. - O seu irmão está no navio, você já está ciente disso, né?

- Não tenho mais irmão e nem família. Meu único laço é com o clã Aensland.

- Muito bom.