Cap 05 – A Saga de Dois Irmãos.

Para um planeta cuja área verde era semelhante às nossas florestas tropicais, o Mundo Externo tinha uma variedade pobre no que consistia a sua fauna e flora. A maioria dos animais do planeta era de pequeno porte, pouquíssimos deles eram predadores. Desses predadores, menos ainda representavam ameaça a seres do tamanho de um humano médio. Enquanto os bichos do planeta se escondiam em suas tocas, duas entidades poderosas se enfrentavam no céu. Ricardo, convertido em um modo deus, tentava socar a marciana, mas a alienígena alterava a sua densidade até ela ficar tão palpável quanto o ar. Assim que Ricardo se cansou, a marciana esticou os seus braços e com eles amarrou o seu oponente na tentativa de dar um abraço esmagador. Mesmo preso, Ricardo conseguiu lançar um Lightning Plasma e eletrocutou a alienígena. Em resposta a dor do choque, a marciana se desvencilhou de Ricardo e o atacou com um poder mais indireto, que não exigisse contato físico. Os olhos dela se tornaram rubros e brilhantes, Ricardo foi atingido novamente pela onda de calor inumana e tombou. Deitado no solo do planeta, cansado, o guerreiro perdeu sua concentração de Ki e voltou ao seu estado humano.

Vulnerável, bastava mais um raio de energia para que Ricardo fosse derrotado, ou morto. A alienígena já estava pronta para atacar quando um vulto, rápido demais até para os seus olhos captarem, a atropelou. A marciana ficou tonta quando mais daqueles golpes rápidos a atingiram. - Maldito seja! Quem é você?! - Pairando no ar, no mesmo nível da etê, o guerreiro misterioso se deixou visível. Enquanto isso, olhando para cima com dificuldade, Ricardo deu um sorriso. Ele finalmente havia encontrado o seu irmão. Com uma concentração de Ki muito mais monstruosa do que a de Ricardo em modo deus, João disparou um Lightning Plasma que erradicou a marciana de uma vez. Ela não conseguiu se esconder nem tornando o seu corpo intangível.

- Maninho! Procurei tanto por você! Cê não faz ideia! - Assim que João pousou, Ricardo ficou de pé e se preparou para dar um grande abraço no seu irmão. O seu gesto de carinho, no entanto, teve como resposta um soco no estômago que fez Ricardo se encolher no chão de novo. - Porquê?

- Sinto muito. Mas para ser uno com o Dark Ki eu tenho que sacrificá-lo. - Antes de começar a lutar com Ricardo, João contou a ele uma história. Houve um acidente automobilístico muitos anos atrás, João e Ricardo na época ainda eram crianças que brigavam pelo controle de um tablete no banco traseiro. O pai e a mãe daquela dupla morreu na hora. O responsável nunca foi encontrado. Isso porque as autoridades procuravam por um carro. Não por um idoso forte o suficiente para fazer estrago em um automóvel em movimento.

- Nosso avô nunca faria isso! João, você está mentindo!

- O único modo de uma pessoa ganhar poder Dark Ki é matando um ente querido. Foi isso que o vô Akira fez anos atrás e que eu estou fazendo agora.

- Esqueça isso, irmão. Vamos deixar essa loucura de torneio para trás. - Aos berros Ricardo gritou que desistia do torneio. No mesmo instante foi desclassificado. Porém, a rixa que tinha com João não se resumia a um campeonato de artes marciais.

- Você acha mesmo que seria tão fácil? - Como um foguete, João se atirou em direção ao irmão pronto para golpeá-lo outra vez. Antes que pudesse tocá-lo, Ricardo concentrou o seu Ki e voltou a assumir sua forma divina. Os dois então começaram uma luta nas alturas. Como se a gravidade não tivesse efeito sobre eles, os irmãos trocavam socos e chutes em várias direções, as vezes até de cabeça para baixo. Os dois em uníssono gritaram "Lightning Plasma" e fizeram com que raios fossem disparados dos seus punhos. O golpe de Ricardo era dourado e o de João era púrpura. As investidas se cruzaram e Ricardo levou a pior, caindo no chão novamente.

- O que está fazendo? Por que está se segurando? Tem medo do que possa fazer com ele? Não tenha ou ele te matará! - Antes de Ricardo voltar à luta, ele teve a impressão de ter ouvido a voz do Rei Macaco. Seja como for, ele se sentiu revigorado e decidido a brigar sem amarras. Os dois voltaram a cruzar seus Lightning Plasma, mas desta vez Ricardo foi mais feliz. João caiu no solo como um meteoro que devasta tudo ao seu redor. - Maninho! - Ainda preocupado com o irmão, Ricardo foi até ele para ver como estava.

- É, acho que vô Akira tinha razão. Ao usar o Dark Ki eu cruzei um caminho sem volta. - Ricardo colocou a cabeça do seu irmão em seu colo para facilitar que ele falasse. - Não se culpe, irmão. O responsável por esse confronto sou, única e exclusivamente, eu. - João fechou os olhos e não mais os abriu. Ricardo ainda tentou reanimá-lo, mas não obteve sucesso. Mesmo sem ter essa intenção, Ricardo matou um membro da sua família, um irmão, se tornando assim um fratricida. Ricardo olhou para os céus e gritou desesperadamente enquanto lágrimas corriam pelo seu rosto. Foi assim que, quase sem querer, o lutador começou a elevar seu Ki de uma maneira sombria. Ricardo largou o seu modo divino e assumiu o assassino. Os seus cabelos de prateado foram para o negro e comprido.

- Estou a procura de um sucessor. Eu pensava que seu irmão seria ele, mas você parece ser bem mais promissor. - Disse Dimitri. Vestido como um vitoriano a caráter, ele apareceu no cenário flutuando no ar, falando com Ricardo de cima para baixo. Assim que o viu, Ricardo deduziu que ele tinha uma parcela de culpa na morte de João, e o atacou. Como um míssil, Ricardo voou até Dimitri com o seu punho direito fechado e pronto para desferir o maior soco que já deu em sua vida. Ricardo chegou perto, mas Dimitri com a palma de uma mão, conseguiu agarrar e bloquear a investida. Sorrindo, Dimitri recuou só o bastante para ter espaço para lançar um dos seus ataques. A bola de energia vermelha surgiu dos seus dedos e atingiu Ricardo no rosto. O local onde o guerreiro havia levado o ataque ficou arroxeada.

A frustração de Ricardo fez com que ele concentrasse mais energia negativa. Dimitri, que não queria ficar para trás, começou a fazer o mesmo. O choque entre os dois usuários de Dark Ki provocou no pequeno planeta um abalo sísmico forte o suficiente para fazer com que o astro mudasse de eixo.

Enquanto Ricardo e Dimitri brigavam em uma luta egoísta, os lutadores sobreviventes do campeonato tentavam se proteger. Javier, Spike e Helena Correram para fora do castelo Aensland, pois acharam que em céu aberto estariam mais protegidos. A opinião deles mudou quando testemunharam crateras se abrindo no chão. - Tive uma ideia. - Disse Helena. - Vamos usar o San Asesino para dar o fora daqui!

- E como você planeja fazer isso?! - Perguntou Javier. - Você sabe pilotar um barco?

- É um barco mágico. Não deve ser tão difícil. - Enquanto o trio conversava sobre qual fuga seria viável ou não, um homem vestido de preto apareceu diante deles. O homem era velho e, Helena notou, também portava uma varinha.

- Me chamo Abaris. Sou um dos idealizadores do O Rei dos Lutadores.

- Então essa bagunça é de sua responsabilidade! - Argumentou Spike.

- Isso não vem ao caso. O importante é que a moça tem razão. Corram em direção ao barco, não se preocupem, eu o guiarei.

- E os outros?! - Perguntou Helena, preocupada.

- De qualquer maneira, não devem haver muitos. Mesmo assim, eu levarei os sobreviventes ao barco. - Em tempo recorde, menos de vinte minutos, Abaris conseguiu reunir todos os guerreiros restantes e colocá-los no barco. Havia pressa em partir, por isso o bruxo não conferiu se todos os vivos estavam presentes. Mesmo com a dúvida, ele "ligou" o San Asesino e o fez ganhar os céus.

Quando a embarcação ganhou certa distância, Helena pôde ver o tamanho do estrago que as lutas do campeonato fizeram ao planeta. - Que pena! - Disse Cyber Witch. - Um lugar tão bonito, agora está acabado.

- Talvez ainda não. - Disse Abaris assim que se aproximou da bruxa. - Você foi a última a abandonar o torneio, o que te torna a campeã.

- O que você quer dizer com isso? - Helena sabia da resposta daquela pergunta antes mesmo de fazê-la. Porém, com o prêmio vinha uma dúvida. Recuperar o Mundo Externo ou trazer de volta a escola de bruxaria dos seus sonhos.

Quando o San Asesino já se encontrava longe, deslizando no cosmo, a briga entre Ricardo Morais e Dimitri Aensland chegava ao fim. - Você está maluco?! Assim vai explodir o planeta! - Ignorando a súplica do seu adversário, Ricardo concentrou Dark Ki em seu punho direito o suficiente para concretizar uma catástrofe.

- Lightning Plasma! - Gritou Ricardo. O seu golpe surgiu acompanhado por uma tormenta forte o suficiente para mudar os polos magnéticos do Mundo Externo. Mesmo sabendo que morreria, Dimitri não se deu por vencido e liberou o seu mais poderoso ataque. Uma bola energética rubra do tamanho de uma pequena montanha. Os dois golpes se chocaram, e com ele o planeta foi consumido pelo ódio. Rochas pairando pelo espaço foi o que restou.

Ao menos por ora.

- Você tem certeza do seu pedido? - Perguntou Abaris.

- Sim. Estou convicta.

Quando Ricardo recobrou sua consciência, ele estava deitado em uma região de grama baixa. O seu coração estava calmo, nem pendendo para o seu modo deus ou para o assassino. Ricardo estava normal, com o nível de Ki compatível com o que estava acostumado por toda a sua vida. Dimitri, porém, não teve a mesma sorte. Talvez porque ele já soubesse que seu fim estava próximo, ele se deixou levar pela morte.

O San Asesino foi embora, deixando para trás Ricardo. O homem que se tornou o último habitante consciente do planeta. Dias viraram semanas, semanas viraram meses e meses viraram anos. Graças ao seu conhecimento de gastronomia, Ricardo se tornou apto para preparar as comidas que o sustentariam. Devido a sua vida na fazenda, ele sabia o básico do que se referia ao plantio e a colheita. Sua vida era solitária, mas nem por isso era insuportável. Em outro quadrante do universo, Akira Yamaoka recebeu a notícia de que seus netos haviam morrido. João realmente havia perecido, mas Ricardo foi dado como morto só porque não foi resgatado pelo barco voador.

Em um dia qualquer, Akira se encontrava em casa meditando quando alguém bateu em sua porta. Quando ele atendeu encontrou uma mulher de meia idade acompanhada por uma jovem. - Sim? Em que posso ser útil? - Perguntou Akira, ainda sem entender o porquê da senhora estar com um semblante tão enraivecido.

- Toma que é teu!

- Desculpa, eu não entendi.

- Seu neto, Ricardo, engravidou minha menina e sumiu! - Akira ouviu a notícia com grande felicidade. Em sua mente ele já se imaginava treinando artes marciais com o guri. Seu sonho se tornaria ainda mais brilhante quando, duas semanas depois, foi atestado que a garota esperava gêmeos.