Eclipse Vermelho
Madam Spooky

Retratação: As personagens de Inuyasha não me pertencem. Não tenho intenção de violar nenhum direito com este fanfic, apenas divertir.

Classificação: PG-13 para cenas de violência. Qualquer coisa estarei avisando.

N/A: Oi, gente! Depois de um longo período longe daqui, voltei com uma história que me ocorreu já há um bom tempo. Ultimamente vinha pensando muito nela e resolvi escrever antes que ela me escapasse de vez – ou tomasse alguma forma mais complicada do que esta já terá... Eu só quero avisar que apesar do que possa parecer no início, esse é um fanfic Inuyasha e Kagome! Eu sei mais ou menos o que vou fazer com Inuyasha e Kikyou, não tenho nada contra o casal, mas prefiro o Inu com a Kagome. ^__^

Prólogo
Tempestade Iminente

Kagome Higurashi seria uma princesa como outra qualquer se em seu destino não estivesse um dia governar a metade do mundo.

- Está vendo, Kagome? – perguntava seu pai do alto do palácio, segurando-a em um abraço de urso como se ela ainda fosse uma menina pequena e não estivesse preste a completar seus quinze anos.

Ele apontava para um muro enorme de pedras, de mais de um quilômetro de espessura e tão alto que mesmo no ponto mais elevado do palácio real eles não conseguiam enxergar o que havia do outro lado.

- A partir desde muro – e nesse ponto ele elevava o dedo ainda apontando, fazendo com o braço um movimento elipsóide até os dois estarem olhando para o outro lado – até onde a vista alcança e muito mais além é o grande...

- Reino do Norte. – Kagome o acompanhou em coro como sempre. Nos lábios se formava um grande sorriso.

- Isso mesmo, Kagome. E um dia, quando eu estiver velho e cansado demais para me apoiar nas pernas, ou mesmo em uma bengala, o parlamento vai me aposentar e você será a rainha.

A maneira como o pai pronunciava aquelas palavras, como se fosse a maior honra, a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer a uma jovem como ela, enchia o coração da princesa de orgulho.

E como ela amava aqueles momentos. Somente os dois a observar a paisagem e fazer planos para um futuro ainda distante. Ali não havia servas, nem guardas, nem conselheiros, nem mesmo os velhos do parlamento que pareciam onipresentes, aparecendo com súplicas e reclamações nos momentos mais inoportunos. Aquele era seu paraíso. Só dela e do pai. Onde não havia uma princesa e um rei cercados de deveres, mas um pai e uma filha compartilhando sonhos.

- Mas agora eu já tenho quase quinze anos. – ela disse. A expressão feliz deu lugar a lábios cerrados com força e um cenho franzido em preocupação. – Apenas mais dois dias...

A frase não foi completada por nenhum dos dois. Ambos sabiam o que aconteceria dali a dois dias. Quando o herdeiro do trono de Higurashi chegava à idade de assim se proclamar oficialmente, precisava provar que era digno de seu destino fazendo uma viagem para além do grande muro. Kagome, como última descendente, teria logo a sua vez e seu pai recusava-se a dizer o que ela encontraria além de seu mundo.

- Você não precisa ter medo. Será uma viagem de autoconhecimento, apenas isso. – disse o ele em um tom de voz brando e tranqüilizador. – Eu tive a minha vez e o seu avô antes de mim.

- E o pai dele e o pai do pai dele... E todos voltaram sãos e salvos.

- Exatamente.

Kagome sorriu. Seu pai cuidara para que ela fosse treinada para quando o dia da viagem finalmente chegasse. Eles estavam sempre andando pela floresta juntos, treinando técnicas de espada por entre as árvores. Por anos, além de seus deveres de princesa, ela tivera um duro treinamento com armas, fora ensinada sobre técnicas de sobrevivência na floresta e tivera aulas sobre os povos dos muitos reinos que existiam no sul, para o caso de precisar passar por algum deles.

- Você será testada, Kagome, mas não precisa se preocupar. Você tem o sangue nobre da nossa linhagem e nada parecerá difícil quando chegar o momento.

O sol estava se escondendo atrás do grande muro. Ainda seria dia claro durante horas, mas a construção gigantesca não devolveria o astro até que fosse manhã outra vez.

O rei, seu pai, dizia que ela não precisava se preocupar, mas Kagome sabia que ele mesmo temia por ela. Em sua época o grande youkai, como era chamado àquele que governava do outro lado do muro, não tinha nenhum problema grave com os humanos como estava acontecendo agora. As histórias sobre guerras entre reinos, revoluções de aldeões e o uso de youkais como escravos em povoados de humanos aumentavam a cada dia. O caos que se instalava no sul não tinha motivos conhecidos, mas o rei do grande Reino do Norte tinha seus receios. Ele temia que a coisa ficasse mais séria, que líderes com grandes exércitos se levantassem para unificar o sul como ocorrera em um passado distante.

- Se a guerra estourar do outro lado do muro, nós também estaremos em perigo. – Kagome disse em voz alta. Um calafrio de medo desceu por sua espinha e de repente a sensação de estar em um paraíso particular desapareceu completamente largando-a de volta em uma realidade incerta.

- Se isso acontecer, nós nos defenderemos. – respondeu Higurashi fitando o horizonte do lado onde não havia muro, perdido em seus próprios pensamentos.

Com um suspiro de resignação, Kagome se virou para a escadaria atrás de si. Não adiantava discutir com o pai. Ele nunca admitiria que algo estava errado a não ser que as provas do contrário estivessem diante de seu nariz. Em todo caso, dali a pouco um servo apareceria anunciando o jantar e se ela tivesse mais alguma pergunta, teria que fazê-la imediatamente. Havia apenas uma coisa.

- Se a guerra começar, o país estará instável sem um herdeiro, não é?

A pergunta foi feita. Aquilo que ela desejara saber sempre que a questão vinha à tona nos últimos tempos. Bastava o pai, não o rei, entender o que realmente estava sendo perguntado.

Ele não a decepcionou.

- Está querendo saber sobre Souta, não é? – a pergunta foi feita com pesar. Higurashi depositou as mãos sobre os ombros da filha e olhou dentro dos olhos dela. – Não há possibilidade para ele, Kagome. Se houvesse uma tragédia e... você não pudesse voltar, o reino estaria a mercê do parlamento. Para a lei, você é minha única filha e herdeira absoluta de tudo o que eu tenho.

- Metade do mundo... – disse Kagome.

- Metade do mundo. – confirmou o pai.

Cinco minutos depois, o servo apareceu avisando que o jantar seria servido, exatamente como Kagome imaginara, e os dois desceram as escadas com ar pensativo. Nenhum dos dois olhou para trás.

* * *

Enquanto o rei Higurashi e sua filha aproveitavam o que seriam os últimos dias de tranqüilidade no mundo por um longo período, em uma aldeia do outro lado do muro, algo sem precedentes acontecia.

Kaede, uma sacerdotisa de idade avançada, que vivia no templo com um casal de jovens irmãos dos quais cuidava desde crianças, educando-os a fim de que seguissem seus passos, foi a primeira a dar o alarme. Ela mandou Miroku subir a montanha o mais rápido que pudesse e acendesse uma fogueira, sinal que avisaria a todos os habitantes do vale que se encerrassem em suas casas, que alguma coisa estava acontecendo.

O rapaz não fez perguntas, correu como se sua vida dependesse disso e logo desapareceu por entre as árvores, deixando Kaede e sua irmã mais velha, Kikyou, olhando para a nuvem negra que se espalhava pelo céu.

- O que acha que é? – perguntou Kikyou. Parecia perfeitamente calma, mas suas mãos apertavam-se em volta de algumas amoras que colhia fazendo com que algumas se rompessem, enchendo a mão dela com um líquido vermelho e viscoso que escorria de entre os dedos.

- Mau presságio. – foi tudo o que Kaede disse, desviando os olhos para o poço e fazendo menção a continuar a levar água para dentro como fazia antes da nuvem aparecer.

Kikyou pensou em perguntar no porque dela ter dado o alarme se não pensava em proteger a si própria, mas acabou nada dizendo. A velha senhora andava agindo estranhamente nos últimos dias e se nada dissera, era porque não julgava ainda haver algo que merecesse sua preocupação. Mesmo que fosse diferente, naquele momento ela já tinha muito em que pensar. Uma nuvem de energia maligna não era percebida por todos, mas certamente seria por...

- Eu estraguei todas as amoras... – ela disse alto, se dirigindo a Kaede. – Prometi a Miroku que faria aquele doce que ele gosta tanto. Vou pegar mais algumas.

A velha senhora apenas balançou a cabeça, mas Kikyou viu um brilho de entendimento passar pelos olhos dela. Teria sido imaginação?

- Voltarei rápido.

A jovem sacerdotisa correu para a floresta, seguindo pelo lado oposto ao qual Miroku havia ido pouco antes. Se tivesse olhado para trás, teria visto o rosto triste de Kaede ao olhar para o céu e para ela, lamentando qualquer coisa sobre tempos difíceis e não haver como interferir com o destino, em voz baixa.

Enquanto corria apressada em direção a clareira onde o tinha encontrado, Kikyou só conseguia pensar no que faria se ele tivesse acordado e decidido ir embora. Fora um grande erro tê-lo acolhido devido ao que ele era, mas ela não podia deixar uma criatura viva ferida, jogada na floresta sem nenhum cuidado. Ainda que ele fosse um youkai com traços humanos.

Youkais são criaturas poderosas, que vivem na floresta e são donas de suas próprias vidas. As palavras de Kaede voltavam a sua mente. As mesmas que ela dissera quando os ensinara sobre os monstros que tinham causado a morte de seus pais. Eles são inteligentes como nós e mais poderosos do que nós. Apenas o grande youkai que governa nas sombras é capaz de controlá-los e é por isso que não invadem aldeias nem acabam com os humanos de uma vez por todas.

O youkai que os atacara em casa, em uma noite gelada de inverno como há muito tempo não havia igual, não se parecia com animais como os que costumava ver perambulando pela floresta depois do pôr-do-sol. Ele não parecia menos humanos que ela, ainda que sua pele fosse tão branca quanto a neve que cobria o mundo lá fora e os cabelos de um negro pálido, completamente sem brilho. A bondade de seu pai fora tanta que o impediu de ver a maldade nos olhos assustadoramente exangues do visitante. Mas ela jamais esqueceria aqueles olhos enlouquecidos, sorrindo tão descaradamente quanto os próprios lábios quando tudo terminou.

Youkais que têm forma humana são raros nos tempos de hoje, mas são os que vocês realmente devem temer. Eu duvido muito que se encontrem..., nesse ponto Kaede suspirara com tristeza, voltem a se encontrar com um deles, mas se acontecer, não lutem. Fiquem quietos e fujam o mais rápido possível na primeira oportunidade. É o único conselho que posso lhes dar.

A dor que as lembranças provocavam deu lugar à apreensão do que encontraria quando seus pés saíram de entre as árvores e ela finalmente se viu em uma conhecida clareira. A cabana abandonada, suja e de aparência rude, cujas paredes tinham sido muito castigadas pelo tempo, permanecia quieta como ela a deixara na noite anterior. Não havia indícios que ele tivesse acordado, mas aquilo não queria dizer nada. Se tivesse ido embora, talvez problemas pudessem ser evitados, mas também havia a possibilidade dele estar escondido por perto, só esperando que ela aparecesse para atacar.

Apesar do medo, algo não a deixou fazer dar volta e retornar para a aldeia. Talvez tivesse sido a lembrança de como os ferimentos do aparentemente jovem – quem sabe quantos anos teria – youkai pareciam graves. Ela já ouvira falar que eles cicatrizavam rápido, mas se fosse embora com aquela justificativa e depois o descobrisse morto, nunca se perdoaria. Por um instante tentou associá-lo aquela imagem que tinha de youkai com traços humanos, mas isso não foi possível. A criatura que acolhera no dia anterior não aparentava nenhuma maldade. Seus cabelos eram prateados e seu rosto parecia a de uma criança enquanto dormia. Por um instante ele abrira os olhos e ela pode ver um par de pupilas negras sobre um oceano dourado. Ele era sem dúvidas a criatura mais fascinante que já vira e associá-lo ao maldito carrasco preso em seu passado parecia mais do que injurioso.

Perdida em seus pensamentos e receios, Kikyou só percebeu que tinha estado andando quando quase bateu com o rosto na porta da cabana. No céu, a nuvem negra parecia se afastar lentamente, mas naquele ritmo ainda ficaria lá durante um bom tempo e ela tinha impressão de que aquilo era o que a deixava ainda mais inquieta sobre com o que se depararia.

- Olá! – ela se ouviu gritando em direção a passagem entreaberta. A porta sempre ficava assim, uma vez que estava torta e era impossível fechá-la direito. Sua voz ecoou para dentro do cômodo único parecendo tão alto que a fez sobressaltar-se.

Ninguém respondeu. Pelos longos minutos que ela esperou, ouviu apenas o som sibilante do vento que ficava cada vez mais frio a medida em que o sol enfraquecia.

- Você está acordado? – ela perguntou novamente, achando-se tola por estar parada ali, esperando que um youkai se desse ao trabalho de dizer que estava bem e convidá-la a entrar. Ela nem sabia que tipo de youkai ele era... Assim como os humanos, eles podiam ser bons e gentis, ou calculistas e perversos e era tolice pensar que aquele seria o primeiro tipo apenas porque parecia ser.

Agora havia as opções de antes, voltar para a aldeia ou abrir aquela porta. Era sua última chance de escolha.

Kikyou teve mesmo a intenção de voltar. Chegou a dar um passo para trás, mas por mais rápido que ela pudesse haver feito isso, não teria sido o bastante para se esquivas das mãos hábeis que em uma fração de segundo abriram a porta e a agarraram pelos ombros puxando-a para dentro. Ela sentiu seu corpo chocar-se com um baque contra o de outra pessoa e em seguida alguma coisa afiada ser encostada em seu pescoço.

- Me diga... – uma voz baixa e rouca soou bem atrás dela, em meio a uma respiração ofegante. Se ela estava preocupada com o paradeiro do youkai, agora não tinha mais por que pensar nisso. Não que isso fosse um consolo... – Quem é você?

Kikyou abriu a boca para gritar, mas a lembrança de que estava sozinha no meio da floresta sem ninguém que pudesse ouvi-la surgiu a tempo e ela decidiu que não seria boa idéia fazer qualquer coisa que pudesse irritar o youkai de cabelos prateados. Talvez com um pouco de tato, fosse capaz de fazer com que ele a soltasse. Pelo jeito que ofegava, os ferimentos não deviam ter melhorado muito e não havia ninguém além dela com quem ele pudesse contar.

- Kikyou. – ela respondeu o mais calma que julgava ser possível estando nos braços de um youkai, com alguma coisa preste a cortar seu pescoço. – Eu sou uma sacerdotisa do templo aqui perto. – apressou-se em explicar, pensando que talvez ele a poupasse por isso. Sacerdotisas eram respeitadas até mesmo por reis humanos. Talvez acontecesse o mesmo com a raça dele. – Eu o encontrei ferido ontem à noite, perto do rio... Eu só quis... ajudar...

A última palavra soou sufocada. Ela sentiu aquele objeto apertar-se contra seu pescoço e no instante em que fechou os olhos, com a certeza de que ia morrer, ele se afastou completamente dela largando-a de joelhos no chão e sentando-se do outro lado da cabana, agachado junto à parede, com a mão por cima da atadura manchada de sangue que tinha no ventre.

Levantando-se depressa, Kikyou apoiou-se na porta e estava a ponto de sair quando o barulho da respiração do youkai se tornou ainda mais difícil. Perguntando-se se depois do que acontecera não seria mais inteligente chamar alguém, ela se virou novamente para ele e pôs-se a observá-lo. Estava tão sujo quanto quando o deixara e ainda usava as mesmas roupas rasgadas, com exceção da parte de cima da estranha roupa vermelha que usava sobre um gi que um dia fora branco, mas agora estava amarelado pelo tempo; este estava jogado de qualquer jeito no chão perto dele. Tinha os cabelos prateados caídos sobre o rosto e os olhos dourados fitavam o chão sem expressão alguma. Kikyou não podia deixar de pensar que se não fosse um par do que pareciam orelhas de cachorro em sua cabeça, ele poderia se passar por um rapaz absolutamente normal.

- Por favor, deixe-me ajudá-lo. – ela pediu, sem, no entanto, fazer movimento algum para se aproximar.

O youkai levantou a cabeça e a mão descobriu o ferimento enquanto ele se apoiava na parede, levantando-se lentamente. As mãos dele estavam arranhadas e os cortes pareciam mesmo piores que no dia anterior. Quando ele finalmente conseguiu ficar de pé, levantou novamente os olhos e perguntou da mesma maneira ofegante:

- Por que...? Por que você me ajudaria?

- Porque é o meu destino.

A resposta soou sincera. Ela era uma sacerdotisa e ajudar a todos era seu dever. O jovem ferido pareceu reconhecer isso. Ele largou-se novamente no chão, soltando um grito de dor e isso fez Kikyou esquecer-se completamente do medo que ele lhe causara antes e correr para perto dele.

- O que você andou fazendo hoje o dia todo? Está pior do que estava ontem.

- Eles... Aqueles que trazem a nuvem negra... Eles continuam por perto...

- Não fale, me deixe apenas ver isso.

Ela ergueu a mão dele para olhar os cortes e foi com horror que entendeu que o que ele tinha encostado em seu pescoço pouco antes era nada menos que as próprias unhas. Garras descreveria melhor.

Mesmo assim, ela não parou. Levantou-se e pegou um pouco do ungüento de ervas que Kaede preparava. Sempre deixava um pouco na cabana para o caso de algum acidente na floresta. Havia menos do que ela esperava, tinha usado muito dele no dia anterior e esquecido completamente de repor, mas teria que bastar.

Durante a meia hora que se seguiu, Kikyou trocou as ataduras e cuidou dos hematomas que ele tinha nos braços e nas pernas. Aparentemente andara brigando e não se saíra nada bem.

- De que homens você falava? – perguntou a sacerdotisa enquanto cobria o ferimento do ventre, o mais grave de todos.

- Esqueça. – o youkai respondeu balançando a cabeça como se não tivesse nenhuma importância.

Kikyou não insistiu no assunto. Apenas fez uma última pergunta:

- Você me perguntou quem eu era e eu disse meu nome. Você tem um nome?

Ele não respondeu imediatamente e ela já estava perdendo a esperança quando o ouviu dizer:

- Sim. Eu me chamo Inuyasha.

* * *

Naquela noite, no grande Reino do Norte, ninguém avistou a nuvem de energia maligna que tomou parte do céu do sul como se uma terrível tempestade estivesse preste a desabar – e no futuro, ao falarem sobre aquilo, muitos diriam que foi exatamente o que ela veio anunciar –, mas na manhã seguinte, todo o povo parecia já saber o que acontecera além do muro. As mulheres no mercado comentavam aquele novo presságio com tensão e expectativa, não havia outro assunto entre os homens nas cavalariças, tavernas ou onde quer que se reunissem, e os mais velhos, cheios de ardor, comentavam entre si sobre os outros tempos, associando fatos passados as notícias que chegavam cada vez com mais freqüência no presente.

Diante de tão pouca discrição, os acontecimentos logo chegaram aos ouvidos do rei e não foi com alegria que este recebeu as estranhas novas. No mesmo instante, correu disparado para a sala do parlamento onde encontrou dois únicos membros jogando xadrez com total concentração.

Ao perceberem sua presença, os dois se levantaram e fizeram uma reverência.

- Majestade. – cumprimentou o primeiro. Era tão velho que dava a impressão de ter visto séculos passarem. O próprio rei pensava assim sempre que o via. – Já esperávamos sua visita.

- Infelizmente as notícias sobre uma nuvem negra sobre o sul parecem ser verdadeiras. Nosso mensageiro confirmou que aldeões a viram se mover na direção do muro, mas parece que desapareceu completamente sem atingir nossas terras. – disse o segundo, um homem de uns cinqüenta anos, calvo e quase tão baixo quanto um anão.

Malditos velhos que pareciam saber tudo antes mesmo que acontecesse e nada o informavam.

O rei andou de um lado para o outro visivelmente nervoso. Tanto os parlamentares quando os guardas reais presentes na sala o observaram com uma ponta de apreensão. Higurashi era um otimista incorrigível. Se aquele assunto estava a preocupá-lo tanto, o caso tinha que ser levado a sério.

- Amanhã Kagome parte a fim de encontrar-se com o grande youkai que governa o Sul... – disse ele. – Eu não devo impedi-la de partir, ainda que eu queira muito, mas não há nada que possamos fazer para que ela esteja segura? Mandar minha única filha para além do reino, onde energias perniciosas flutuam sob as cabeças do povo não me parece muito apropriado.

- Não é questão de ser ou não ser apropriado, majestade. – disse o mais velho humildemente. – Sua filha não será conhecida como herdeira legítima enquanto não voltar dessa viagem. E o senhor sabe que um reino sem um herdeiro é um reino instável.

- Isso sem falar em Souta. – o outro revirou os olhos discretamente, longe da vista dos outros. Em todo o reinado de Higurashi, aquele menino fora seu único erro.

O rei, que já tinha muito com que se preocupar, se absteve de comentar sobre mais aquele problema. Souta, seu filho ilegítimo, aos onze anos já andava por ai espalhando a ridícula idéia de que Kagome, por ser mulher, jamais seria uma boa rainha. Higurashi já tinha tentado minar, sem sucesso, pelo menos parte de toda aquela ambição pela qual o coração do filho tinha sido tomado, mas o rapaz estava decidido a lutar pelo que julgava ser seu lugar.

- Antes de ser herdeira do trono, Kagome é minha filha! – ele gritou. A lembrança do comportamento do caçula não contribuiu em nada para acalmá-lo, pelo contrário. – Prometi a ela que tudo ficaria bem, que ela estaria segura, e eu vou cumprir nem que para isso tenha que quebrar uma dúzia de tradições milenares.

Àquelas palavras chocaram os senhores parlamentares.

- Eu estou certo que Lady Higurashi ficará bem, ela teve um treinamento impecável...

- Que não incluía batalhas mortais com youkais rebeldes! – o rei parou de andar e se mover e apontou para os dois com autoridade. – Vocês são o parlamento, têm também a obrigação de me aconselhar. Ou pensam em uma maneira que me faça sentir mais seguro com minha filha do outro lado daquele muro ou eu cancelo a partida de amanhã.

Desta vez pareceu que o choque foi ainda maior. Os dois senhores se entreolharam brevemente e se afastaram para confabular em voz baixa.

Foi à vez de Higurashi revirar os olhos. Por que eles não podiam parar de rodeios e falarem as claras? Velhos conspiradores! Já estava ficando impaciente quando ambos voltaram tendo algo a dizer.

- Então...?

- Ela pode ter um acompanhante. – disse o velho.

O rei ergueu as sobrancelhas em aprovação. Antes que ele pudesse manifestar o que estava pensando em palavras, o outro acrescentou:

- Mas para não violar as regras, é importante que ela não fique sabendo.

- Quer dizer que vamos mandar alguém segui-la? – perguntou o rei. E os parlamentares prenderam a respiração, assustados que ele não gostasse do plano.

- Bom...

- Tudo bem, eu fico mais tranqüilo! – Higurashi assumiu o sorriso otimista de sempre. Em seguida, voltou-se para um dos guardas. – Chame os melhores homens disponíveis na guarda à sala do trono. Escolherei um deles para acompanhar a princesa.

O guarda se curvou e apressou-se em obedecer à ordem.

Sozinhos novamente, o rei sorriu para os velhos, curvou-se zombeteramente e saiu na direção da sala do trono.

- Mal posso esperar para que ela seja rainha. – disse o mais velho com um suspiro de alivio.

- Positivamente. – respondeu o outro não menos satisfeito.

E voltaram ao jogo de xadrez.

CONTINUA

Então, continuo? Espero que tenha dado uma idéia, ainda que não muito clara, do que está por vir.

Ah, antes que eu esqueça, essa nova história não quer dizer que eu tenha abandonado Tudo Pela Herança ou mesmo os fics de Rurouni Kenshin. Andei meio ocupado com o site e outras coisas e acabei descuidando um pouco dos fics (um pouco?). Devo terminar o capítulo 11 da herança para esse fim de semana. Não é uma promessa, mas farei o possível.

Muito obrigada por ler e, por favor, comentem! ^_^

Até breve!

spooky_rae@terra.com.br (www.spookyworld.05c.net)