Capitulo XIII

Por alguns segundos, as palavras de seu criado pareceram não fazer sentido a Sakura. Esperara, sim, encontrar Hideki e Fuutie ali; havia tomado cuidado para agastar-se de Shoran nos últimos momentos daquela viagem, enquanto ainda não tinha algum tipo de alternativa quanto a isso, porque imaginava que, ao reencontrar o sobrinho e Fuutie, logo deveria separar-se de Shoran. E agora que lhe diziam que o casal estava caminhando calmamente pelos jardins, não sentia alívio nem a satisfação que imaginara.

-Assim que Hideki e a srta. Li retornarem de seu passeio, mande avisar-me de imediato, sim, Eito?- recomendou- E diga ao chefe dos cavalariços que meu sobrinho não deve pegar nenhum dos cavalos sem minha permissão.

-Nem mesmo os dois animais que ele trouxe na carruagem alugada, senhora?

-Esses, em especial!- Sakura passou os olhos ao redor e viu Shoran diante dos cisnes da fonte.- Quero ser avisada de todos os passos de Hideki.

-Como queira, senhora.- Eito afastou-se para certificar-se de que as ordens de sua patroa fossem obedecidas a risca por todos os criados da casa.

-Lady Kinomoto!- Tsuki chamou, descendo da carruagem.- Quer que eu leve as malas para dentro, senhora?

Ela se voltou, com uma resposta afiada na ponta da língua. Era obvio que a bagagem deveria ser levada para dentro, avaliou, irritada. Mesmo se não tivesse encontrado seu sobrinho em Tóquio, não deixaria sua casa para seguir novamente atrás dele, pelo menos não antes de ter duas boas refeições e uma noite de sono reparador. E, antes que pudesse dizer qualquer coisa a seu jovem criado, viu-o abafar um bocejo, tão cansado o pobre rapaz daquela viagem. E foi como se pudesse ouvir as palavras que Shoran lhe dissera antes, sugerindo que, apesar de serem criados, aquela gente merecia consideração de sua parte.

Ela sorriu de leve, lembrando-se, ainda de outras palavras de Shoran, agora referentes sobre o esposo de Shiefa, dizendo que a primeira esposa dava-lhe ordens como se ele fosse um criado.

Ergueu os olhos e viu que Tsuki segurava impaciente suas ordens.

-Sim, eu gostaria que minhas malas fossem levadas para dentro, obrigada- murmurou.- E, assim que o fizer, você e Himura podem ir ate a cozinha e avisar Kuki que eu quero que ela lhes prepare um bom bule de chá e torradas.

Os dois criados se afastaram, levando a carruagem, sorrindo, satisfeitos. Era obvio que as ordens de Sakura lhes tinham agradado sobremaneira. Que eles se foram com o veiculo, Sakura voltou-se para a fonte, onde Shoran ainda estava, e seguiu ate ele com passos calculados e atitude artificial.

-São lindo, não são?- perguntou, olhando com orgulho para os magníficos cisnes.- O bisavô de Percy trouxe um famoso escultor da Itália para faze-los.

-É, de fato são maravilhosos- ele concordou, mas em tom um tanto alheio, como se seus pensamentos estivessem em outro assunto.

E, numa vontade súbita de chamar-lhe por completo a atenção, Sakura pensou no que dizer, no que fazer, mas logo repreendeu-se, mantendo-se casual.

-O escultor demorou a completar o trabalho- explicou, forçando um tom animado na voz, que ia contra o que sentia.- Foi ficando por aqui ate que o avô de Percy ameaçou não paga-lo pelo serviço, dizendo que ele já tinha recebido casa e comida suficientes para valer o que fizera. Pelo menos, foi essa a historia que me contaram da primeira vez que vim para esta casa.- Ela não conseguiu resistir a tentação de olhar para ver se Shoran agora prestava atenção as suas palavras. E animou-se quando viu que ele a olhava.

-O que aconteceu, então?- ele quis saber.- O escultor terminou o serviço?

-Ele foi embora na manha seguinte- Sakura revelou, saboreando o fim picante da historia.- E levou a filha mais velha do dono da casa com ele...

-Ah, entendo!- Shoran sorriu, malicioso.- Já ouvi dizer que muita gente paga verdadeiras fortunas por trabalhos de arte, mas... uma filha! Que preço alto, não?

Sakura ate podia imaginar o que acontecera. A moça e seu amante encontrando-se as escondidas pelos cantos da propriedade, já que havia dezenas de lugares propícios a encontros amorosos por ali. E, sem querer, começou a imaginar-se nos braços de Shoran nesses mesmos locais recônditos, tão especiais para quem se amasse muito.

-Vamos entrar- sugeriu, para afastar tais pensamentos.- Podemos tomar um refresco enquanto esperamos por Hideki e Fuutie. Eles não devem demorar em seu passeio pelos jardins.

Mais imagens apareceram em sua mente e Sakura não conseguiu afasta-las. Era como se pudesse ver a tia-avó de Percy ansiosa, tensa, conforme chegava o dia em que seu amor teria de partir. Talvez ele lhe tivesse implorado que o seguisse de volta a Itália. E ela devia ter ficado absolutamente dividida. Deixaria a família e seguiria numa vida de incertezas com o seu amor? Trocaria regalias de luxo e da riqueza pela liberdade e incerteza do futuro nos braços daquele artista?

-Bem... lady Kinomoto... não vai entrar?

Sakura sentiu-se arrepiar, despertando de seu devaneio, vendo que Shoran a esperava alguns passos a sua frente.

-Claro...- murmurou, passando por ele e sentindo um pingo de chuva cair sobre seu ombro.- É melhor entrarmos, sim, antes que comece a chover.

Cruzaram o piso de pedriscos e subiram para o pórtico enquanto Sakura retirava as luvas e o casaco, deixando-os nas mãos do criado que aguardava ao lado da porta principal.

-Gostaria que eu mandasse alguém chamar o sr. Hideki e a moça, senhora?- indagou Eito.

Ela hesitou. Sabia que deveria dar tal ordem, mas queria ter ainda alguns momentos de privacidade com Shoran antes que seu romance acabasse de uma vez.

-Não há necessidade- disse apenas.-Tenho certeza de que eles voltarão logo que começar a chover.

O criado assentiu, sem contestar a ordem, e acrescentou:

-Gostaria demais alguma coisa, senhora?

-Sim, sim. Por favor traga chá para mim e para o sr. Li na sala Rajah.

-Sr. Li?- estranhou Eito, mesmo sabendo que não deveria interferir em nada que dissesse respeito aos assuntos de sua patroa.

-Sim. O sr. Li é irmão da moça que chegou com meu sobrinho- Sakura explicou, mas num tom que deixava bem claro que não gostara da indagação.

-Ah, Eito, diga a Kuki que eu e o sr. Li estamos famintos e que queremos um bom acompanhamento para o chá.

O criado fez uma mesura, deixou o hall e desapareceu por trás da escadaria. Sakura, então, voltou-se para Shoran, que olhava ao redor, ainda maravilhado com o luxo que havia dentro da casa. Como ela, na primeira vez em que estivera ali, ele estava fascinado pela decoração elegante e de extremo bom gosto que havia em cada canto da casa.

Sakura voltou-se para um enorme quadro que pendia na parede oposta a escadaria e que retratava o primeiro lorde da família de Percy. Ele parecia olhar para todos os que entravam na casa, com jeito majestoso, imponente.

-Um tanto pedante, não acha?- comentou, num sorriso.

-E gigantesco- Shoran acrescentou.- Sempre achei que as casas dos ricos, em Pequim, fossem majestosas, mas não é quase nada comparada com as de Tóquio. Quanto a minha casa em Hong Kong, acho que cabem mais de doze delas aqui dentro, obrando ainda muito espaço.

-Pois eu acho que esse é o tamanho ideal para uma casa, sabe?- Ela o chamou ate a ala sul da mansão.- Não tenho bem certeza se alguém, de fato, possui uma propriedade como esta, tão grande. Na verdade, a propriedade acaba possuindo o seu dono...

Mas essa casa não a possuiria por muito mais tempo, analisava consigo mesma. Assim que o assunto com Hideki e Fuutie estivesse resolvido, encontraria um comprador para a propriedade, depois seguiria para longe dali e compraria uma casa mais aconchegante no interior, onde poderia criar seu filho em paz. Num lugar bem distante da casa de Shoran, aqui no Japão.

-Bem, e o que é exatamente a Sala Rajah?- ele indagou, seguindo-a por um longo e largo corredor onde havia mais retratos nas paredes, todos de ancestrais da família Kinomoto.

Sakura parou diante de duas portas duplas.

-Isto é a Sala Rajah- explicou.- O bisavô de Percy fez sua fortuna por intermédio da Companhia das Índias Orientais e, mais tarde, importou uma serie de objetos curiosos de lá.

Fora por isso que Sakura decidira tomar chá ali com Shoran. A sala fornecia combustível suficiente para um conversa de horas de duração, evitando silêncios embaraçosos que precisavam de palavras que ela não estava disposta a proferir.

E Shoran fez exatamente o que Sakura esperava, andando pela sala, fazendo todo tipo de perguntas impessoais sobre as peles de tigre penduradas pelas paredes e sobre os sofás e a belíssima escrivaninha de ébano e adornada com estatuas de marfim que representavam deusas com numerosos braços e elefantes sagrados.

-E quanto a esta cesta aqui no canto?- indagou ele, aproximando-se do objeto.- Vejo que a trama é muito bem feita, mas me parece uma peça modesta se comparada a riqueza das demais.

-Ah, isso...- Sakura riu, começando a relaxar os nervos. Estava tão envolvida na conversa que quase se esquecera de que, em breve, Shoran estaria gora de sua vida para sempre.- Diziam que o bisavô de Percy manteve uma cobra aí dentro durante anos, ate o dia em que ela picou um dos criados encarregados de alimenta-la.

Shoran deu um passo prudente para trás, agastando-se da cesta.

-É, não há duvidas de que sua casa tem historias interessantes- comentou.

E, antes que Sakura pudesse lhe contar mais algumas, um criado entrou trazendo a bandeja com o chá. E deixou-a sobre uma mesa de pedra sustentada por quatro elegantes de jade. Sakura sentiu a boca encher-se de água ao aspirar o aroma suave do chá e do bolo de baunilha.

Por trás das portas duplas abertas, o movimento no corredor chamou-lhe atenção. Prcebeu-lhe oubir passos apressados de homem. Sem perder tempo, ela passou pelo criado e chamou:

-Hideki! Venha ate aqui um instante, sim? O sr. Li e eu temos algumas coisas para conversar com você!

O rapaz parou abruptamente e depois voltou-se para a porta da sala. Por um longo momento, Sakura apenas encarou-o, incapaz de reconhece-lo. Aquele não era seu sobrinho! E estava com o rosto ferido! Havia três arranhões profundos em uma de suas fazes e, na outra, um inchaço deformava suas feições como se estivesse com uma inflamação dentaria terrível. E o rapaz segurava sua mão esquerda com a direita, como se a primeira estivesse machucada também.

-Okita Yasutoko?- Sakura arriscou, surpresa e confusa.

Aquele era o mais importuno dos rebentos de seu falecido marido, e jamais o vira num estado tão lastimável.

-Mas o que aconteceu a você?- indagou, atônita.- E o que está fazendo em Tóquio? Não devia estar em Seul?

-Bem... lady Kinomoto... também é estranha sua volta para cá, tão cedo...-Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. E o olhar insistente de Sakura acabou por faze-lo responder, um tanto embaraçado:- O que aconteceu comigo? É que... eu e um cavalo nos desentendemos, nada mais.

Sakura sentiu a presença de Shoran logo atrás de si, e ele comentou, estranhando aquela historia:

-E os cavalos tem garras? Porque, se assim for, terei sempre o cuidado de evitar me aproximar dos estábulos.

O semblante do rapaz, já tão desfigurado, carregou-se ainda mais.

-Acabei caindo entre uns galhos secos- explicou, tentando cobrir os arranhões em seu rosto com a mão que não estava ferida.

Como sempre, estivera aprontando das suas, Sakura tinha certeza. Devia ter arranjado alguma briga com um dos criados e acabara machucado, sem querer contar a verdade por estar envergonhado da surra que levara. Ou talvez tivesse tomado liberdades com alguma moça e fora surrado pelo namorado dela ou por ela mesma, já que as garotas locais eram fortes e valentes.

E, com tantas emoções enchendo seu coração nesse dia, Sakura estava disposta a coloca-lo para fora de sua propriedade quanto antes. Mas sabia que havia coisas mais importantes a fazer primeiro.

-Viu meu sobrinho, Hideki, por aí, acompanhado da moça que veio com ele de Tomoeda?- quis saber.

O jovem cafajeste estava ansioso por desviar o assunto de seus ferimentos e respondeu, animado:

-Ah, eu os vi, é claro! Seu sobrinho estava dizendo a ela que iria lhe mostrar um ninho de pombos e o jardim silvestre.- Ele moveu a cabeça em direção as janelas que davam para a parte externa da casa.- Imagino que só estarão de volta perto da hora do jantar.

Mesmo sem entender por quê, Sakura sentiu seu coração se aliviar. Virou-se de leve para Shoran e comentou:

-Hideki deve achar que desistimos de persegui-los e que regressamos a Tomoeda. E, quando eles voltarem, há será tarde para você e Fuutie saírem de viagem.

Ele assentiu, pensativo, enquanto ela continuava:

-Não precisa se preocupar. Hideki e Fuutie não vão fugir no meio da noite.- Pelo canto dos olhos, Sakura viu Okita afastar-se para ir cuidar de seus ferimentos.- Vou colocar sentinelas do lado de fora dos quartos deles, se for necessário. Você merece pelo menos uma boa noite de descanso antes de seguir para a sua casa. Assim, poderá partir pela manha com as irmã sentindo-se bem melhor. Será um bom começo de viagem.

Para ela, a manha seguinte também seria um bom começo. Deveria etar feliz com isso, mas o estranho era que não estava...

Enquanto observava o rapaz que desaparecia pelo corredor um tanto sorrateiramente, Shoran tentava entender a emoção forte que se apoderava de seu peito devido ao que acabara de ficar estabelecido.. iria ficar em Tóquio, junto de Sakura, por mais algum tempo!

-Quem é esse sujeito?- perguntou, tentando ignorar o que sentia, mas percebendo que a presença de Okita naquela casa era algo de, no mínimo, estranho.- E que direito ele tem de ficar entrando assim em sua casa como se fosse também dono do lugar?- Era estranho, porem em sua voz havia um tom de ciúme que só percebia agora.

Sakura o encarou, surpresa por seu tom mais brusco que o usual.

-E que direito você tem de me perguntar isso de forma tão ríspida?- rebateu.- A presença de Okita aqui não é da sua conta!

Não, ele não tinha direito algum de perguntar, Shoran reconheceu. E esse era, exatamente, o grande problema. Percebeu que o criado que trouxera o chá retirava-se discretamente para a cozinha, então baixou a voz:

-Imagino que seja da minha conta da mesma forma que foi da minha conta segui-la quando deixou Tomoeda. Porque eu me preocupo com você.

A expressão dela suavizou com a explicação e, por instantes, Shoran chegou a pensar que Sakura fosse chorar. Se isso acontecesse, talvez completasse sua humilhação juntando-se a ela nas lágrimas.

E apegou-se aquele espécie de raiva que estava sentindo para deixar de lado a sensibilidade aguçada. Não devia importar-se em magoar Sakura agora, ela já o dispensara uma vez antes, e ele sabia que logo estaria fora de sua vida de uma vez por todas. Assim, apontou para o lugar por onde o rapaz se fora e acusou:

-Um bobo como aquele jamais lhe causaria problema algum, não é mesmo?

Os olhos muito verdes de Sakura abriram-se mais, no ultraje que sentiu diante de tais palavras.

-Ora, como ousa!- murmurou, zangada, passou por ele e entrou novamente na sala.

Shoran a seguiu e bateu a porta atrás de si. Podiam estar de novo naquela sala esquisita, cheia de ornamentos exóticos, mas a sua irritação só fazia aumentar.

Sakura parou diante da lareira e sua expressão era, no mínimo, feroz, embora, curiosamente, vulnerável, ao mesmo tempo. E tão linda que Shoran sentia seu peito doer ao imagina-la nos braços de qualquer outro homem.

-Como ousa questionar a companhia que eu venha a escolher?- desafiou ela, sem encara-lo. Mas parecia prestes a agarrar uma das peças da coleção de esquisitices da sala para arremessa-la contra a cabeça de Shoran.- Justamente você, que pode, a qualquer momento, escolher uma dessas virgenzinhas de boa família para casar-se com ela, enche-la de filhos e constituir uma prole enorme para herdar sua inexistente fortuna!

-E o que mais espera que eu faça?- ele retrucou, brusco.-Quer que eu desista de qualquer chance de encontrar a felicidade no futuro para passar o resto de meus dias chorando por sua causa! Sou um homem pratico e nada romântico, Sakura! Você sabe muito bem disso. Passei minha vida inteira tentando fazer o melhor possível daquilo que o destino me entregou, e vou faze-lo sempre!- Mas ele sabia que, fosse quem fosse a esposa que um dia viria a ter, e os filhos que teria com ela, sempre haveria um grande vazio em sua alma.

Talvez tivesse chegado o momento de deixar de lado sua resignação, avaliou. Talvez devesse arriscar tudo, ate mesmo seu coração, seu orgulho, numa ultima e desesperada tentativa de obter o que mais queria.

Sakura ergueu os olhos para ele, sentindo que a armadura de indignação que criara para si mesma começava a fraquejar.

-Você faz com que tudo pareça tão... frio...- queixou-se ela.

Aquela palavra calou fundo em Shoran. Engoliu em seco e olhou-a profundamente para dizer, com voz bem mais baixa:

-Uma vida sem você seria de fato fria, Sakura. E agora que conheço suas duas casas, compreendo porque não consegue confiar num homem e acreditar que ele só a queira por seus encantos, embora eles sejam tantos.

A resposta dela foi apenas um assentimento, que o fez desejar toma-la nos braços ali mesmo e beija-la com paixão. A principio, apaixonara-se pela vivacidade e alegria que via nela. Mas o tempo lhe mostrara uma outra Sakura, que ele amava ainda mais: uma mulher vulnerável, que não tinha tanta confiança assim em si mesma, que procurava esconder suas fraquezas. E estava fascinado por ela. Mais do que nunca. Amava ate suas imperfeições, porque cada uma delas a tornava mais acessível a um homem como ele.

Sakura não protestou quando Shoran tomou-lhe as mãos. Mas seus dedos finos e delicados estavam trêmulos e frios nos dele.

Por momentos, Shoran sentiu a voz presa na garganta e forçou-a soar clara e firme:

-Não há dúvidas de que seja ainda mais difícil você acreditar num homem que esteja em minha situação, mas, creia, é verdade. Eu gosto de você, Sakura. Muito. Não me interessa sua fortuna nem a casa onde mora, nada... Quero apenas você.- Ele baixou a cabeça e beijou-lhe as mãos com suavidade.-Quero apenas seu toque, sua voz, seu sorriso.

Sakura sorriu muito de leve.

-Meu querido Shoran- sussurrou-, é claro que acredito em você e em seus sentimentos. Sei muito bem que a minha fortuna não lhe interessa. Nunca duvidei disso.

Uma inesperada ponta de esperança surgiu no coração de Shoran, e foi com ansiedade que buscou os lábios dela para um beijo profundo. Mas a sentia relutante, mesmo quando aceitava seus lábios. No entanto a aceitação desse beijo, como ela costumava fazer, dominada pelo desejo, veio só depois de alguns instantes. E Shoran deixou-se levar pela intensa paixão que corria por suas veias e as aquecia.

Tinham feito amor por duas vezes na noite anterior, mas ele sentia como se não a possuísse havia muito tempo. Não fosse pelo senso de pudor que Shoran tinha muito forte dentro de si, ele ateria deitado ali mesmo, numa daquelas peles horríveis de tigre, e a possuído com toda a força que paixão colocava em seu corpo.

-Por favor, sejamos sensatos...- Sakura pediu, afastando-se um pouco.- Não vamos tornar esta situação ainda pior do que já é. E não finja que a minha fortuna é a única coisa que se interpõe em nosso relacionamento.

Shoran não se afastava. Pelo contrario, beijava-lhe o pescoço e os ombros com paixão crescente.

-Estou cansado de ser sensato- ele confessou, sem voz.- Quero que seja tão difícil para nós nos separarmos que faremos qualquer coisa para ficarmos juntos. Qualquer coisa! Não me importa o que há entre nós. Não suporto a idéia de que possa haver outro homem em sua vida. E não consigo imaginar minha vida sem você. É simples, não?

Sakura afastou-se ainda mais uma vez, olhando-º havia um brilho intenso em seus olhos, como se estivesse feliz pelo que acabara de ouvir, mas Shoran percebia que havia também algo mais naquelas pupilas tão verdes. Era como se ela mantivesse a vaga esperança de uma criança que olhava, encantada, para uma bolha de sabão soprada pelo vento.

-O rapaz que viu no corredor- disse Lea, quebrando a intensidade do momento- não é o que você pensou.

-E... quem é ele, então?

Uma sombra de dor e humilhação passou pelo semblante de Sakura.

-A mãe de Okita foi uma das inúmeras amantes de meu falecido marido.

Shoran respirou fundo, avaliando a gravidade do que Sakura dissera. Lembrava-se das referencias que ela fizera, havia algum tempo, aos filhos ilegítimos de Percy, mas ver um deles e sentir o eco da angustia que Sakura sofrera por causa das muitas traições do marido, era algo muito diferente, muito mais profundo.

-E... você permitiu que ele vivesse aqui?- perguntou, sem acreditar que isso fosse possível.

Sakura assentiu com relutância. Depois acrescentou:

-Ele parece achar que tem mais direito a casa do que eu.

-Mas que canalha!- Shoran murmurou entre os dentes.- Que diabo, Sakura, esse sujeito é um insulto vivo a sua pessoa! Como pode permitir que isso aconteça!

-O fato é que esta casa é o único lar que ele teve em muito anos, Shoran. Não consegui priva-lo de um certo conforto, já que sofreu tanto quando menino.- O tom que ela usava era como se estivesse admitindo uma espécie de vicio.- Imagino que, por baixo desse ar de sofisticação que eu tento mostrar, acabo sendo uma boba sentimental.

-Pois eu a aviso, moça.- Ele tocou-lhe de leve a ponta do nariz.- Não vou ficar parado e ver a mulher que amo ser tratada mal seja por quem for.

-A mulher que você ama?- Ela saboreava aquelas palavras como se fossem o néctar dos deuses.- Mas que mulher afortunada é essa!

-Não mais do que eu, se você pudesse retribuir meus sentimentos.

-Pois saiba que ela receia já os estar retribuindo.- Sakura suspirou antes de prosseguir.- E há ainda tantas outras coisas a recear! Você pode não se importar com a fortuna que eu tenho, mas há tanta gente que acha o contrário! E um homem respeitável como você poderia suportar ser o objeto de comentários terríveis?

Shoran não respondeu de imediato, hesitando.

-Entende o que digo?- indagou Sakura, acariciando-lhe o rosto.- Pois eu me sentiria mal também se ouvisse dizer que, como herdeira muito rica, tivesse comprado um segundo marido.

Shoran negou com a cabeça, alegando:

-Ninguém com bom senso poderia acreditar que uma mulher maravilhosa e bela como você precisasse comprar um marido.

Sakura apenas sorriu. Depois de alguns segundos replicou:

-E ninguém com bom senso poderia acreditar que você fosse capaz de qualquer ato desonroso.

-Nesse caso, se todas as pessoas sensatas e inteligentes soubessem o que pensar, quem seríamos nós para nos importarmos com o que os tolos poderiam especular?

Ele se inclinou para buscar-lhe os lábios mais uma vez, porem Sakura se afastou.

-Ainda há o problema dos filhos, Shoran, não se esqueça. E não finja que pode esquecer a sua vontade de tê-los.

-Não, não posso. Não vou negar que quero ter minha família. E quero muito. Acredito que serei um bom pai, um dia.

Talvez fosse exatamente por isso que ele se importava tanto em ser pai, Sakura imaginava. Porque era um homem bom e queria ser o pai que nunca tivera.

-No entanto- ele prosseguiu- a idéia de perder você, de tira-la da minha vida... é terrível demais, e acho que pesa mais do que o fato de querer uma família.

Ela o encarou, incrédula.

-O que... o que está dizendo?- indagou, sem voz.

-Olhe, Sakura, sei muito bem que há muitos outros empecilhos ao nosso amor. sei que o nosso futuro não será fácil se teimarmos em ficar juntos... mas, se colocarmos tudo numa balança, acredito que, ainda assim, teremos uma vantagem a nosso favor. Não... nos separe, Sakura. Não queira afastar-se de mim, por favor! Case-se comigo!

Um silencio intenso, pesado caiu entre ambos, terrível como uma tempestade. Havia alegria e esperança nos olhos de Sakura, Shoran podia ver, mas havia também duvidas e receios. E ele começou a recriminar-se por haver feito um pedido de casamento precipitado, repentino, que nenhuma mulher de classe aceitaria, pensou. Quanto mais uma mulher que tinha muitos motivos para desconfiar dos homens em geral.

Shoran arrependeu-se do que dissera. Da forma como o dissera. Acabava de fazer o pedido mais importante de sua vida, e ele saíra da forma errada... Controlava-se, sabendo que ouviria um sonoro 'não' a qualquer momento e já se angustiava por isso, quando Sakura disse-lhe a segunda palavra mais bela de seu idioma:

-Talvez...


Pessoas! Me perdoem o atraso de sei lá quantos meses ¬¬

To muito atolada aqui...

Mas bem, falando da fic. Gostaram do pedido de Shoran? Só falta vocês me baterem de quanto eu estou enrolando ne? XD

Eu ja completei a fic inteira, ja tenho ela toda. Vai ter ao todo 20 capítulos, entao faltam 7para vcs saberem o que vai ser de Saki e Shoran heheh

Posso demorar pra caramba pra atualizar, mas não esqueço de vocês! Vou terminar ela!

faz muito tempo que nao agradeco a algum comentário, então hoje eu vou fazer isso:

A.C. Lennox: Mãe! Que bom que ainda está gostando da fic e não tenha de abandonado! heheheh! Muitas saudades! Eu nunca mais te vi no msn TT

Miaka: Sim, Sakura é uma cabeça dura ¬¬ Não precisa se defender sobre o porque você não gostou do capítulo anterior, eu mesma nem gostei! heheheh E preciso concordar... está meio triste a situação dos dois. Mas espero que tenha te agradado esse capítulo, quebrei um pouco do gelo deles pela conversa e pelo pedido do Shoran no final (bem, pelo menos eu acho!) Aguarde os próximos capítulos que vou tentar fazer a relação deles melhorar um pouco mais... mas não prometo nada!

Littledark: Eu agradeço o seu elogio do capítulo, mas mesmo assim eu ainda não gosto muito dele ¬¬ Sou difícil de agradar, pelo menos em relaçao a livros e agregados. Saki e Shoran vão se entender sim... pode demorar, mas vão.

Miaka Hiiragizawa: Oi querida! Não precisa se desculpar pela demora, eu é que tenho. Demoro muito pra atualizar, as coisas aqui tambem tão meio complicadas. Foi de passagem o capítulo mesmo, eu detestei, poderia te-lo feito melhor. Eu adoro o Li Ele é um de meus preferidos junto com o Eriol. Não me atrevi nem irei me atrever a desistir, tanto que atualizei e deixei o número de capítulos finais pra isso aqui ¬¬ Que triste... ta chegando no final! hehehe Não preciso de ajuda não querida, mas obrigado pela oferta! Não me abandone! hauhauah

Beijo a todos,

Warina-Kinomoto