Por algum motivo bem idiota, o site andou deletando alguns capítulos de minha história. Estarei repondo-os da maneira como foram publicado, sem tirar nem pôr :)


Capítulo 1

Sakura Kinomoto curvou-se diante do público, depois de mais uma apresentação fogosa e ousada. Seus dias como meretriz eram sempre assim. A manhã calma, à tarde de preparações e muita pressa, à noite de shows e compromissos com seus cavalheiros. Já devia estar acostumada, mas ao olhar para o bordelCandy Pleasures, a herança recebida da mãe, ainda se lembrava de que a vida poderia ter tomado um rumo diferente. Mas, naquele momento, não devia se lamentar. Seu destino era vender o corpo e sobreviver mantendo garotas que faziam o mesmo que ela.

"Sakura!".

Kate Denninton foi até ela, erguendo a barra de seu vestido rosa choque. A jovem, de 18 anos, por quem nutria grande simpatia, já estava sendo preparada para aquela vida boêmia. Mas será que uma garota com grandes sonhos, sardas no rosto e brilhantes olhos azuis poderia querer um destino assim? Esqueceu o que refletia para dar ouvidos a garota que, ofegante, parecia pronta para contar as novidades.

"O marquês de Bronway acaba de chegar, e parece procurá-la com o olhar. Também já me perguntou onde você se encontrava!", ela sorriu, parecendo se divertir com aquele tipo de situação. "Desde que se deitou com ele, na última estadia do marquês, ouço rumores de que ele não via a hora de voltar para seus braços!".

"Apesar de eu não apreciar muito essa tarefa, não posso negar que me renderá uma boa quantia", murmurou, olhando para o alto e robusto marquês, que levantava o pescoço, parecendo ainda procurar por sua cortesã.

Caminhou por entre as mesas, sentindo o típico cheiro de perfumes fortes femininos, fumaça de charutos e o uísque, presentes todos os dias. Ao chegar perto de seu alvo, uma mão forte agarrou seu braço, a obrigando a parar.

"Tristan Sinclair", ela sorriu para o loiro, que também o fez, soltando o braço dela. Sentado numa cadeira, ele a avaliava e parecia satisfeito com sua aparência.

"Há quanto tempo, minha querida japonesa", ele murmurou, com a voz rouca e sedutora.

"Sinto por não poder conversar, mas há um cliente em especial que não deve ser deixado em espera", ela avisou, mas os olhos azuis pareceram não aprovar a atitude.

"Não é desta maneira que quero minhas boas-vindas".

"Pois é desta maneira que as terá", ela respondeu, o encarando com os olhos verdes astutos. Ele sorriu, os lábios masculinos curvados em uma linha tênue de divertimento.

"Está brava porque parti de Londres sem lhe avisar? Ora, não fique ressabiada. Minha intenção não era magoá-la. Negócios são negócios, e como Conde de Auberville, não posso me dar ao luxo de negligenciar meu título", ele explicou, puxando uma cadeira para que ela sentasse.

"Não me deve satisfações, conde. Faça o que quiser, pois para mim, não é mais do que um cliente", ela rebateu, e mesmo assim, se sentou.

Os olhos azuis a fitaram intensamente. E Sakura se viu recordando da época em que fora apaixonada por aquele homem. Inocente e boba, acreditara num amor verdadeiro que a salvaria dali. Porém, como tantos outros, Tristan queria apenas ser mais um em sua cama, e não em seu coração. Desviou o olhar, temendo que a evidência de sua tristeza estivesse presente em seus olhos. Tristeza que não deveria existir, mas que a acompanhava dia a dia.

"Não sou um mero cliente. Tenho estado há um bom tempo ao seu lado, e agora me considero um... deixe-me ver... amante seria a melhor palavra. E mais, somos amigos. Não nego sentir um grande carinho por você e detestaria saber que não gosta de mim", ele replicou, com gentileza. Sakura levantou-se, temerosa com o rumo da conversa.

"O marquês aqui se encontra, e eu devo lhe dar a atenção. Então, se me der licença...".

"Sakura", ele a chamou, desta vez com a voz firme e a expressão de quem não admitia ser desobedecido. "Quem dividirá sua cama, esta noite, serei eu. Somente eu. Não leve o homem para seu quarto, se não quer que haja um assassinato aqui".

Ela estremeceu, pensando em declinar a ordem do homem. Mas sabia que Tristan não falhava em suas promessas e o que menos queria era uma confusão no bordel. As noites já eram por si só bastante agitadas sem as brigas que alguns homens insistiam em provocar. Sorriu aliviada ao ver Charity, uma de suas melhores prostitutas, achegar-se ao marquês e lhe dar a atenção.

O marquês subiu as escadas, certa promessa de que dividiria a cama com a loira. Ela, por sua vez, caminhou até Sakura, os olhos castanhos brilhando de satisfação.

"Parece que consegui o homem da noite", ela desdenhou, enrolando os cachos loiros com as pontas dos dedos brancos.

"Fico feliz por você, Charity. E infeliz pelo homem, que sinceramente, terá uma decepção".

Certamente não teria, mas aquela garota provocava Sakura a um ponto que a santa paciência dela chegava ao limite. Charity lhe deu as costas, bufando de raiva.

Decidiu se retirar, notando que os homens tinham suas mulheres e que nenhum deles precisava dela. Subindo as escadas, caminhou por um corredor e entrou em seu quarto, suspirando aliviada ao fechar a porta.

Aquele quarto, decorado em tons rosas e vermelhos, pertencera a sua mãe Kelly, uma prostituta invejada pelas inglesas e desejada pelos homens. Seu pai era um general japonês, que em uma viagem a Londres, engravidara a meretriz. Por isso seu nome, sua mistura de raças e sua beleza tão diferente.

Viu Matt entrar em seu cômodo, com um sorriso tímido nos lábios. Retribuiu o sorriso.

"Bela música, Matt", ela o elogiou. Matt e o piano formavam uma dupla tão perfeita que ela não imaginava um sem o outro.

"Obrigado Sakura. Mas foi sua voz que fez a melodia sair completa e sem erros. Sou o coadjuvante, que serve apenas para que a estrela verdadeira brilhe mais", ele disse, com os olhos negros brilhando.

Sakura sabia o porquê daquele brilho. Apesar de, anos atrás, ser tola e sensível, agora já era experiente na arte dos sentimentos, notava que aquele homem loiro e de olhos profundos se apaixonara por ela. Com 23 anos de idade, ele tinha a mesma idade que ela, porém, sua mentalidade sonhadora indicava que ele ainda sofreria muito por confiar sem limites na palavra das pessoas.

"Matt, eu lhe peço...", ela começou, não sabendo como falar sem magoar o coração bondoso do jovem. "Tristan está vindo, e eu não quero problemas. Você o conhece, por isso, acho que basta para que me atenda e se retire".

"Ah, lógico!", apesar do sorriso, ela sabia que ele estava triste. Nem ao menos a encarava nos olhos. Em passos vagarosos e dolorosos, ele saiu de cabeça baixa e fechou a porta atrás de si.

Sozinha novamente, ela pôs-se a arrumar, vestindo uma bela camisola e penteando as cascatas a que nomeava de cabelos suavemente. A beleza exótica se devia ao fato da mãe ser uma lindíssima mulher e o pai, um homem atraente e com um charme natural.

Ouviu a porta se abriu, para em seguida, se fechar novamente. Virou-se e encarou o conde Auberville, com seu inconfundível e carismático sorriso. Era um homem muito bonito, traços fortes e aristocráticos. Os olhos azuis e os cabelos loiros significavam antecedência nobre. O físico vigoroso, devido aos anos de treinamento e de guerra, era bem definido em suas roupas finas e de classe. Sem dúvida, um homem digno de respeito e de admiração.

"Vejo que já recuperou o bom senso e notou que quando estou aqui, você me pertence", ele comentou, retirando os sapatos com os próprios pés e afrouxando a gravata, para retirá-la logo em seguida.

"Não pertenço a ninguém, querido. Se quiser uma mulher para ser sua, case-se. Aqui, ninguém assume compromisso".

"Não me imagino indo até o altar com uma dessas loiras magricelas e sem graça, interessadas em títulos e nobreza. Prefiro me divertir enquanto posso, visto que logo terei de me casar e garantir a continuidade de minha linhagem", ele riu com gosto, e ela não pode deixar de sorrir também. Tristan era feito para as noitadas, as mesas de pôquer e as belas cortesãs. Filhos, amor e casamento não eram os planos na vida daquele homem intrigante.

"Bem, enquanto o dia em que nos deixará não chega, tratemos de assuntos mais urgentes", ela disse, aproximando-se, os lábios quase colados aos dele.

Beijaram-se como sempre. Paixão e desejo, sem sentimentos maiores. O prazer de estar nos braços daquele homem já era conhecido, mas não menos agradável. Deixou que ele fizesse o que quisesse com a sua boca, com seu corpo. Afinal, ele pagaria por uma noite deliciosa e satisfatória...

-o-o-o-

Acordou, desperta com as batidas insistentes na porta. Espiando pela janela, notou que o céu estava escuro. Não devia ser muito cedo. Mas, mesmo assim, Sakura se desvencilhou do braço possessivo de Tristan, antes no seu quadril, para cobrir sua nudez com a camisola e com o penhoar. Atendeu a porta, notando os olhos marejados e desesperados de Kate.

"Ela se foi!", ela exclamou, não contendo o grito. Sakura olhou de relance para Tristan, que tampava a cabeça com o travesseiro e resmungava um impropério, tentando dormir. Fazendo um sinal de silêncio, a ruiva saiu e fechou a porta atrás de si, com todo cuidado para Tristan não acordar.

"Quem se foi, Kate?".

"Tomoyo! Ela foi embora!".

Sakura já sabia disso. A partida da prima estava prevista em sua mente desde que Eriol Hiiragizawa entrara no Candy Pleasures. Um homem educado, gentil e atencioso, que se apaixonara perdidamente por Tomoyo. Os dois tinham mantiveram um romance em que Eriol não pagava as noites juntos. Ela não permitia, pois o amava demais. E, um dia antes da fuga, ele lhe dissera para se encontrarem na estação, a fim de irem para o Japão, onde o lorde havia nascido. Estava contente, e ao mesmo tempo, penosa. Perdera uma confidente e melhor amiga. Nasceram naquele lugar e partilharam de alegrias e problemas juntas, como a verdadeira família que eram.

"Você não parece surpresa, Sakura. Está contente ao saber que ela partiu?".

"Ora, não diga asneiras, Kate! Sabe que eu, mais do que ninguém, sentirei falta de minha prima. Porém, não tenho direito de julgar a atitude dela, e nem de me sentir triste. Com a felicidade dela, nada mais importa", ela explicou.

As duas caminharam em silêncio até o quarto de Tomoyo, descobrindo-o intacto. As roupas no mesmo local, os perfumes e maquilagem perfeitamente organizados, o reflexo da mania de perfeição da jovem de olhos violetas. Sakura foi até a penteadeira, notando os broches e as jóias polidas, apesar de anos em uso. Observando mais detalhadamente, notou um papel em seu nome, já aberto.

"Kate?", ela perguntou, desconfiada. "Foi você que mexeu nesta carta?".

"Eu?! Imagine, eu só entrei neste quarto para ver o que havia acontecido com Tommy, já que ela não desceu esta noite!", a jovem se defendeu, visivelmente ofendida.

Apesar da fama de curiosa, Sakura tinha a certeza de que não fora Kate que remexera nas coisas de Tomoyo, pois a jovem apreciava muito a morena e jamais poderia fazer algo que lhe desagradasse, mesmo na sua ausência. Voltando novamente sua atenção para carta, a abriu e começou a lê-la.

Para minha prima, Sakura...

Parti sem me despedir, mas presumo que você me entenda, pois conhece a história e o porquê de eu estar fazendo tudo isso, tomando esse rumo tão radical em minha vida. Mas, mesmo assim, me desculpo com Matt e com Kate, meus outros amigos. Nada lhes falei, pois sabia que tentariam impedir minha loucura. Por isso, quero que mande um recado a eles.

Para Matt, meu adorado amigo, eu deixo o bem mais precioso que possuo. Meu piano, herdado de minha mãe, e minhas pautas, com músicas jamais mostradas para ele. Espero que ele as use e que goste de algo simples, mas dado de todo o coração.

Para Kate, minha colega travessa, deixo algo que será útil no futuro. Minhas roupas e meus perfumes. São bens muito caros e peço a aquela desastrada que tome cuidado, pois se um dia voltar a vê-los, quero todos da mesma forma que deixei.

E para você, amiga querida e preciosa, eu deixo meu diário. Sei que, talvez, não lhe interesse ler, e acho até plausível, visto que tive uma vida muita parecida com a tua. Porém, não confio em mais ninguém para deixar aquele caderno pequeno, repleto de sonhos, que parecem enfim, se realizar... Eriol também manda lembranças, pois adora a todos e afirma que um dia, voltaremos para contar a maravilhosa vida que levamos e para ajudarmos vocês a sair desta sina que me trouxe tantas tristezas.

Deixo-lhe também as luvas de minha mãe. Aquelas rendadas, que você namorava horas e horas quando pequena. As escondi para que não as usasse, pois elas significavam muito para mim. Mas, antes de partir, compreendi que também elas eram um pedaço da sua infância, e que eu não podia ficar com elas, sendo que tinha que esquecer o passado e seguir adiante, pensando no futuro. As deixei guardada em uma pequena caixa, embaixo do primeiro degrau da escada, aquele solto. Cuide dela e só a use quando sair deste lugar, para respirar uma vida pura. Meu maior desejo é que encontre a felicidade como eu encontrei.

Bem, meu amigos, aqui os deixo. Mas quero que saibam que em meu coração, os bons e maus momentos jamais serão esquecidos, visto que eu os amos. São minha família, não importa os anos. Vocês me ensinaram a ser essa garota que apesar de maluca, adora vocês. E apesar de tudo, Candy Pleasures também foi meu lar. E espero que seja o de vocês por muito pouco tempo...

Como gostaria de ser dotada do otimismo da prima, Sakura pensou, enxugando as lágrimas. Ao contrário dela, Sakura e provavelmente Matt e Kate viveriam naquele mundinho para todo o sempre. Conformara-se com o fato, mas as palavras de Tomoyo, de uma maneira ou de outra, acendiam uma esperança que apesar de muito pequena, ainda existia em algum lugar em seu coração.

"O que ela escreveu?", Kate perguntou, tomando-lhe a carta das mãos sem a mínima cerimônia. Enquanto a lia, a boca delicada começava a sorrir. "Oh, Deus! Ela deixou tudo isso para mim! Que a Virgem te proteja, Santa Tomoyo".

Saiu do quarto, ainda digerindo o que lera. Tomoyo lhe deixara o diário, que leria com todo o prazer, e aquela luvas magníficas, um trabalho da tia, Sonomi, que morrera anos atrás.

Desatenta, acabou por tombar com alguém, que a segurou, com as mãos fortes. Ergueu os olhos e viu Tristan, lhe sorrindo docemente.

"O que houve, minha pequena Saki?", ele perguntou.

Ela se deliciou com o apelido. Dito na voz dele, sempre tão especial para ela, tornava-se delicado, encantador. Adorava aquele homem. Não mais o amava, mas nele encontrava forças e a amizade que não tinha em mais nenhum outro.

"Tomoyo partiu", ela disse, simplesmente.

"Como assim, partiu?", a testa de Tristan se enrugou, sinal de que ele se irritara com o fato e se preocupava da mesma maneira.

Tristan cultivava um amor paternal por Tomoyo. Jamais se deitara com ela, considerando-a especial e cuidando dela como um pai cuidava de uma filha. E era por isso que ele se mostrava tão alterado com fato de Tommy deixar o lugar.

"Conhece Eriol Hiiragizawa?", ela inquiriu. Ele refletiu por um momento, e depois respondeu.

"Sim. Um lorde honrado. Mas o que ele tem a há ver com isso tudo?".

"Ele chamou Tomoyo para que fugissem da Inglaterra. Daqui a alguns dias estarão embarcando em um navio para o Japão". Ela o observou cerrar os punhos, parecendo impotente e zangado.

"Não posso crer que Tommy acreditou na conversa de um lorde! O que ele haveria de querer daquela garota, por Deus!".

"Amor, Tristan", Sakura replicou, notando que a expressão dele se indignava ainda mais, chegando à beira da incredulidade.

"Você acredita no amor, Saki?", ele perguntou, irônico. Aquela ironia a machucou, mas ela não demonstrou. "Eu jamais imaginei".

"Você nada sabe sobre mim, Tristan. O amor pode sim, acontecer, mas comigo, duvido", ela explicou, simples. Ele sorriu, a abraçando com carinho.

"Quem a deixou tão descrente nos sentimentos, minha querida? Que homem te desiludiu? Me diga, para que eu possa lhe dar uma boa lição", ele sussurrou, gentil.

Sakura não respondeu, apenas meneou a cabeça. Tristan lhe iludira. Fora gentil, amoroso e carinhoso. Dissera poemas e não a usara as vezes que ela não queria. E isso alimentou o amor. Mas agora, ciente de que ele jamais a amaria, não nutria mais nada por ele. Só uma amizade e a cama, ambas inevitáveis.

"Um homem que jamais soube o que fazia", ela murmurou, sorrindo levemente. "Não o culpo, pois fui tola. Não devo crer que para mim, uma cortesã, tão mal vista, o amor chegará".

"Não diga isso, Saki. Um dia, você provara o sabor especial do amor. Como todos os seres humanos normais. Ser concubina não faz você diferente do resto do mundo".

"E você, conde? Não provará deste sabor que diz ser tão especial?", ela perguntou, divertida. Ele a soltou, e a encarou com bom humor.

"Um leviano como eu? Ah, gostaria de saber qual mulher maluca me amaria. E eu, mesmo assim, não ofereço sentimentos a elas. Se quero uma esposa, é apenas para assegurar que meu reinado tenha herdeiros".

"Pestinhas loiros e de língua afiada", ela brincou, notando ele rir, descontraído.

"É por isso que te adoro, Saki. Sabe levar com bom humor as minhas desgraças".

E com um aceno de mão, ele desceu as escadarias, assobiando uma cantiga francesa. Sakura permitiu-se soltar um risinho, enquanto caminhava para o quarto. Mas, ao entrar, viu a prova de que a vida lhe fora injusta. Não havia lhe permitido desfrutar do carinho familiar. Uma prova que julgava a vida que levava: uma nota de 100 libras... O dinheiro de uma noite que para ela significava tanto, e para ele, provavelmente nada.

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5 dias depois...

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A última vez que caminhara pelo Dunny Coast, bairro mais perigoso de Londres, o lugar era mais agradável, lembrou-se, rindo do próprio pensamento. Aquele bairro, cheio de bordéis e locais de má fama fora lar de muitas de suas confusões e travessuras. Syaoran Li finalmente voltava para um lugar que passara os últimos sete anos tentando esquecer.

Oferecera o dobro de dinheiro para que o cocheiro o levasse até ali, mas o idoso condutor se recusou a seguir viagem. Agora ele via o porquê. Como um coche poderia andar sobre aquelas ruas esburacadas e lamacentas? Não podia culpar o homem. Contente, seguia para a única delegacia daquela parte da cidade, lembrando-se de bons e ruins momentos. Porém, aquele posto policial era mais uma figura decorativa. Os policiais dali não davam conta de todos os problemas que Dunny Coast enfrentava. Quando estivera ali, pela primeira vez, fora delinqüente e preso inúmeras vezes. Aproveitava do dinheiro de sua família com mulheres, jogos e apostas. Coisas que antigamente eram-lhe tão valiosas, e que naquele momento, voltavam muito raramente a sua cabeça.

Passou em frente ao Candy Pleasures, notando que o lugar estava adormecido, com o som de poucas pessoas conversando. Tivera bons momentos lá. E muitos maus também. Principalmente quando se referia a aquela prostituta loira por quem se apaixonara. Nem sabia ao menos se Charity trabalhava lá ainda. E nem queria saber.

A dona, Kelly, era uma grande amiga. Foi através de conselhos sábios dela que conseguiu partir da vida boêmia e subir na vida. Agora, na China, era um famoso detetive. Resolvera todos os casos a que fora obrigado, e o único que não conseguira era porque o assassino se entregou de livre e espontânea vontade.

E era por isso que estava ali. Um velho amigo policial, Robin Breedon, o chamara para resolver casos que estavam assombrando Londres. Olhando para as paredes desbotadas, a porta de madeira azul, muito mal pintada, Syaoran meneou a cabeça. A delegacia em nada mudara. Bateu uma vez, e logo em seguida, escutou uma voz falar, revoltada. Robin, pensou, sorrindo.

"Já disse que não quero pão! Malditos comerciantes!", ele gritou, e ao abrir a porta, sorriu desconcertado.

"Bem, então fico feliz em não ser um vendedor", Syaoran brincou, notando o rubor nas faces brancas de Robin. Trocaram um forte aperto de mão, contentes de poder se ver depois de sete anos de distância.

"Entre, amigo chinês. Não imaginei sua vinda tão cedo! É louco de andar por estas bandas à noite? Não sabe que tem um assassino a solta?!", o inglês disse, dando passagem para o outro entrar.

Syaoran abafou um sorriso, notando com o local era desorganizado. Havia comida e garrafas em todas as mesas e papéis amassados no chão, enquanto a lata de lixo permanecia vazia. Alguns guardas dormiam, roncando e sem se importar com a sujeira ao seu redor.

"Vejo que arrumaram tudo para me receberem. Estou honrado", ele ironizou. O amigo o fitou, novamente sem graça.

"Sabe que não organizamos isto, e a empregada que o fazia está grávida, e não pode trabalhar em suas condições", ele justificou, envergonhado. Syaoran sorriu para Robin.

"Não se preocupe. Não estou aqui para corrigir seu modo de vida, e sim para resolver o caso que tanto os intriga. Seja breve, pois ainda não sei onde passarei a noite", Syaoran disse, sentando-se numa velha cadeira e observando Robin fazer o mesmo.

"Passe no bordel de Sakura. Ela certamente cederá um lugar para você ficar, por uma pequena quantia. É só afirmar que é amigo de Robin Breedon, que ela lhe sorrira e arranjara um preço que lhe agrade", ele sugeriu, animado. Syaoran franziu o cenho, confuso.

"Que bordel é esse?", ele indagou, curioso. Robin sorriu com satisfação.

"Candy PleasuresKelly faleceu há dois anos, e Sakura, sua filha, tomou a direção. Devo confessar que não há garota mais bela em toda redondeza. Eu a adoro".

"Cuidado para não se apaixonar", Syaoran o advertiu, sério. Sabia bem o que significava se envolver emocionalmente com alguém que vendia os carinhos por dinheiro. "Mas, me diga, como minha querida Kelly morreu?".

"Uma tragédia. Parece que houve um tiroteio dentro do lugar. E uma bala perdida a acertou no coração. Eu também a adorava, você sabe muito bem. Mas a filha dela, Sakura, foi quem mais sofreu. Começou a trabalhar dias depois e logo, o lugar fervilhava por causa de sua beleza", ele contou. Syaoran assentiu, triste. Kelly lhe fora muito adorada, e devia tudo que tinha aos conselhos da bela mulher de olhos verdes. Acometido por uma dúvida, novamente inquiriu.

"Por que Sakura? O nome dela não é ocidental, é asiático".

"O pai da garota era japonês. Devo confessar que ela é a cópia da mãe. Mas, mesmo assim, nossa falecida Kelly resolveu nomear a garota assim. Surpreende-me que não a conheça, já que era tão íntimo da morta".

"Sim", Syaoran anuiu, muito de leve. "Kelly me dizia que não me deixaria ver a garota, pois eu poderia me encantar por ela. Jamais me preocupei em conhecê-la, já que era tão novinha. Tinha 16 anos".

"Ah, mas agora se tornou uma bela mulher. Devia ir conhecer a ruiva".

Não, não devia. Mulheres eram problemas, não importava o quanto aparentassem não ser. A menos que fosse extremamente necessário, jamais conheceria a garota.

"Bem, me diga o que há".

"Um assassino. Eu realmente estou intrigado. Ele deve ser um conhecedor de anatomia humana, pois dilacera os corpos das vitimas, deixando algumas partes intactas".

"Quantas mortes?", Syaoran perguntou, cada vez mais interessado.

"Quatro prostitutas. Todas acabadas e sem trabalho. O último caso nos chocou, pois ele matou Catherine Eddowes e nos mandou metade do rim dela, em um papel de jornal. Escrito: Do Inferno. Nós o apelidamos de Jack, o Estripador".

"Será impossível achá-lo só com isso. Provavelmente, haveria de ser um médico ou um açougueiro, já que ambos conhecem bem o corpo e seus órgãos. Mas inúmeros destes trabalhadores em toda Londres. Em minha opinião, precisaremos de mais pistas", Syaoran refletiu. Robin assentiu, voltando a falar.

"Mas, antes deste caso, quero que me resolva outro".

Syaoran desconfiou. Robin deveria querer o crédito pela captura do tal Jack, o Estripador. Mas, não podia se irritar. Era o convidado, recebendo ordens. "Qual caso?".

"Ontem, uma jovem foi encontrada junto a um corpo de um rico lorde. Ela é uma prostituta do bordel de Sakura. Ela estava machucada e inconsciente. O homem, morto. Junto ao corpo de ambos, uma mensagem, que apenas dizia: Bem feito".

"A garota está bem?".

"Melhorando. Eu a conheço, pois é prima de Sakura. Tomoyo Daidouji, uma das mais belas cortesãs", ele comentou, e logo continuou. "Eu não consigo falar com ela, pois ela se recusa a pronunciar algo".

"Eu falarei. Pode deixar comigo".

Minutos depois, ele se dirigia a uma velha pensão. Estava exausto e ainda assim, tinha muito no que pensar. Assassinatos geralmente não eram tão importantes em Dunny Coast, já que ocorriam com muita freqüência. Porém, uma série de homicídios gerava polêmica. E mais, o outro caso. Agora, notava que de uma maneira ou de outra, estaria obrigado ir até o Candy Pleasures

Continua