Olá. Espero que todos estejam bem.

Essa é a segunda parte do capítulo Esperança, decidi postá-la rapidamente porque já está pronta e acho que quem tem interesse no texto, e ainda não leu a primeira parte, não vai se importar em ter duas para ler, já que uma completa a outra.

Quero agradecer as reviews. Não vou citar nomes agora dos que deixaram comentários no capítulo 100, pois seria injusto com quem ainda não teve tempo, afinal estou atualizando em tempo recorde. Ainda assim, sou muito grata a essas pessoas maravilhosas que nunca deixam de comentar e ver as nuances nos meus textos, cujo brilho nem eu mesma me dou conta. Às vezes para se ver uma paisagem com plenitude é preciso que um amigo lhe abra a janela. Obrigada a essas boas amigas que deixaram reviews abrindo inúmeras janelas maravilhosas para mim. É por pessoas assim que eu ainda me atrevo a postar minhas loucuras.

Esse capítulo é dedicado a minha irmãzinha de coração Nimrodel. Ela vai saber o motivo.

Obrigada novamente a minha mestra Myriara, pela revisão do texto e pelos comentários que o tornaram melhor.

Beijos,

Sadie


O presente é a sombra que se move separando o ontem do amanhã. Nela repousa a esperança.

Frank Lloyd Wright


101 – ESPERANÇA – PARTE II

Se Síne estava certa sobre como seu pai chegaria ao campo de Thranduil ninguém soube dizer. Eleazar parecia estar completamente imerso na determinação e coragem que sempre o movera na época na qual era conhecido como Thorongil, Águia das Estrelas, e chegou de cabeça erguida e olhos fixos no líder daquele povo, sem deixar-se abater pela emoção e o alívio que sua chegada despertaram na família, ainda mais com cerca de uma lua de atraso pelo prazo que havia determinado.

Thranduil olhou-o igualmente resoluto, o rosto altivo, o peito inflado de quem já sabe pelo que esperar. Estavam em pleno pátio central, cercados pela família e por muitos habitantes locais, curiosos por notícias do mundo do qual haviam se exilado.

"Eu e os meus rogamos por um espaço em seu território, Grande Tigre," Estel usou da diplomacia que sabia caber para a ocasião na qual estava.

"Quantos o acompanham, Escolhido?" Thranduil também seguiu o protocolo.

"Muitos. Infelizmente minha contagem vem se perdendo pelo caminho. Mas meu último olhar sobre meus irmãos constatou mais de setenta adultos e por volta de cinquenta crianças, talvez mais. Temos algumas gestantes, pelo menos dez devem dar a luz ainda nesta estação."

Thranduil apertou sutilmente o maxilar.

"Todos sãos?" ele cuspiu a pergunta com visível desprazer e procurou ignorar o desconforto que esta produziu no caçula de Elrond. Estel encheu o peito para responder e para Thranduil pareceu que ele queria gritar algo a plenos pulmões. Ele bem sabia o que seria, mas a resposta que veio foi pacífica, como ambos sabiam que a situação exigia.

"Os que nos aguardam às fronteiras de sua terra são aqueles a quem a mão da peste não alcançou. Os enfermos estão a mais de cem quilômetros daqui acampados, outros já não estão mais conosco. Éramos mais de duas centenas quando saímos, a morte foi nos apanhando em suas armadilhas."

Thranduil soltou um suspiro fraco, mas seus ombros continuavam rígidos.

"Que assim seja por enquanto," ele apenas respondeu e Estel envergou o cenho sem compreender. "Seu povo permanecerá mais duas luas acampado nas fronteiras, lhe forneceremos os suprimentos necessários. Depois poderão se juntar a nós."

A informação gerou um pequeno burburinho à volta deles no qual se ouvia toda sorte de comentários, mas Thranduil ergueu uma palma e o silêncio voltou a imperar. Só Estel nada disse, ele apenas fixou seus olhos azuis nos de Thranduil, permitindo que o antigo rei lesse em seus traços cansados a indignação que aquela última exigência, agora que enfim haviam chegado a seu destino, lhe despertava.

"Desconfiamos que a peste tenha um período de incubação de dez a quinze dias," Thranduil informou. "O que faço é necessário e inquestionável. Já estão perigosamente próximos daqui. Como líder desse povo, eu não posso me arriscar."

Estel encheu os pulmões novamente, girando enfim os olhos para os que estavam à sua volta. Danika segurava seu braço com força, ignorando o estado de suas vestes e dele próprio. As crianças faziam o mesmo, agarradas nele como se julgassem que o pai fosse desaparecer. Darian segurava sua outra mão e lançava a Thranduil um olhar que o antigo rei achou por bem ignorar.

"Temos feridos," Estel apenas disse, um tanto atordoado com aquela notícia.

"Irei vê-los," Elrond prontificou-se e quando Estel se dispôs a olhar para o pai pela primeira vez, sentiu exatamente o que imaginava e que o fizera impedir-se de fazê-lo antes. Elrond concordava com Thranduil e, pior do que isso, diante daquela nova informação, ele mesmo se via obrigado a dar razão ao Grande Tigre. "Você fica aqui com sua família, filho," ele ainda ouviu a cadência conciliadora da voz do pai adicionar.

"Se meu povo está em quarentena também eu devo ficar." Estel respondeu hesitante agora. "Na verdade foi um erro vir até aqui, posso estar infectado também."

As crianças agarraram-se mais ao pai, antes mesmo que ele terminasse a sentença, algumas já começavam a chorar. Aquilo pareceu trazer-lhe de volta o mesmo espírito com o qual entrara naquele acampamento. Ele respirou fundo então, olhando os filhos um a um.

"Lembram-se do que o pai de vocês lhes disse quando nos separamos?" ele usou seu tom mais forte para repreendê-los, mesmo com os olhos já revelando o que isso lhe despertava. "Ainda não acabou, pequenos. Ainda preciso contar com vocês."

"Mas papai..." A vozinha de Síne tentou retrucar, enquanto Mona e Myrna continuavam agarradas as pernas do pai. Nora e Úna estavam logo atrás delas, segurando no casaco empoeirado que Estel usava e resmungando baixinho suas queixas.

"Mas nada!" Darian foi o primeiro a afastar-se, puxando as irmãs uma a uma com visível indignação. "Papai disse e está dito." Ele foi empurrando as pequenas para longe, escondendo ele mesmo as lágrimas que queriam lhe brotar. "Vem logo Síne!"

"Darian!" Estel chamou-o em seu instinto de pai, mas quando o menino virou seu rosto atordoado para ele quase se arrependeu. Estel soltou os ombros, depois apenas moveu a cabeça em um breve movimento de agradecimento, no qual se lia o orgulho que estava sentindo daquele filho mais velho que o destino lhe ajudara a reencontrar. Às vezes quando o menino agia de forma tão decidida, alguns flashes da vida adulta do antigo Eldarion, já em vestes do príncipe que aceita, ainda que entristecido, um trono herdado, mas não desejado daquela forma, vinham fazer-lhe visitas breves demais.

Darian respirou fundo, mordendo o canto da boca, mas não teceu qualquer comentário, ele só olhou novamente para a irmã. Síne compreendeu o chamado reiterado, assim como compreendeu as poucas chances que teria de não atendê-lo, sua mão escorregou então da jaqueta do pai, mas antes de se afastar buscou pelo olhar deste mais uma vez.

"Vá, minha princesinha," Estel enxugou uma lágrima que escorria pelo rosto alvo da filha. "Sabe que seu irmão não é dos mais gentis com os pequenos. Você precisa ficar de olho nele para mim," ele sussurrou com os lábios erguidos em um sorriso fraco que a menina retribuiu, antes dela mover seu olhar mais uma vez para Thranduil, como se julgasse que aquele líder poderoso pudesse mudar o destino deles todos.

O antigo rei nada disse, mas seu rosto perdeu ligeiramente a cor. Por sorte Celebrian adiantou-se, vindo ela mesma segurar a mão da pequena, sabendo que a filha custaria mais um pouco para conseguir a coragem que Darian havia usado e se afastar do marido.

"Venha com a vovó, princesinha," a elfa loura puxou a menina carinhosamente pela mão. "Vamos juntar um pouco do que tem de melhor na dispensa para que seu pai leve aos que esperam. Acho que ainda há bastante daquele achocolatado que você tanto gosta, não há? Os pequeninos que estão lá acampados por certo vão adorar, não acha? Podemos mandar um pouco daquele biscoito amanteigado também." Ela foi dizendo, enquanto se afastava com a neta, já gesticulando para as outras crianças, chamando-as também para ajudá-la. Darian arrastou o passo na direção indicada, dessa vez sem olhar para trás.

Estel respirou fundo, acompanhando a cena, e ofereceu um pequeno sorriso de gratidão quando, já de longe, Celebrian olhou disfarçadamente para trás e mandou-lhe um beijo. A preocupação da mãe adotiva estava bem disfarçada, mas não para ele, que a conhecia tão bem. Celebrian sempre fora e sempre seria seu anjo de luz.


"O senhor não precisa ir vê-los, ada," Estel acompanhava os passos apressados de Elrond enquanto o curador reunia seus suprimentos de primeiros-socorros e mais alguns itens para deixar no acampamento quando voltasse. "Posso não ser um médico formado, mas o senhor sabe que sei usar o que me ensinou e posso lidar com muitos dos males que assolam esse meu povo. Só usei esse artifício para tentar conseguir amolecer o coração de Thranduil." Ele baixou os olhos. "Agora, infelizmente, percebo que ele tem razão em me fazer a exigência que fez."

"Minha ida até sua gente tem outro objetivo, ion-nîn," Elrond parou diante do caçula e o segurou pelos ombros. Estel já havia se banhado e tratado de seus próprios ferimentos de jornada e já estava se preparando para fazer o triste caminho de volta. "Quero averiguar se a peste está entre os seus."

"Ela está, mas não entre esses que me acompanham. Pelo menos assim espero." Aquela lembrança fez Estel puxar o ar para dentro do peito com dificuldade. "Deixei muitos febris e castigados pelas chagas para trás... Deixei-os... à própria sorte," admitiu então o que todos sabiam ser fato, como também sabiam a quem atribuir a culpa de tal barbaridade.

"Não teve escolha, El..." Danika aproximou-se do marido, segurando-lhe a mão. "Era isso ou a doença ia se alastrar."

"Deixá-los para trás não impede que isso ocorra, Nika. Você sabe."

"Mas nos garante mais tempo... Ada está trabalhando em uma medicação mais eficaz. Ele tem tido progressos, não tem Ada?"

Elrond encarou os olhos esperançosos da filha com um rosto inexpressivo. Depois lhe escapou um suspiro quase imperceptível, antes que ele voltasse a ajeitar seus pertences.

"Qualquer experiência é válida agora," ele disse pensativo. "Estou desenvolvendo uma vacina e preciso de voluntários. Acha que os conseguirei entre os seus?"

Estel intrigou-se.

"Por que não a testa aqui?"

"Porque em sua composição está o próprio vírus que consegui isolar. Existe um risco do voluntário desenvolver a doença. Não seria sensato arriscar o acampamento de Thranduil e mesmo que assim eu desejasse, ele não me permitiria fazê-lo."

Estel procurou disfarçar a indignação.

"Então pode colocar os meus em risco, mas não os que aqui estão?"

Elrond suspirou.

"Os seus já estão em risco, criança," ele disse cabisbaixo, fechando a última mala que montara, nela havia uma caixa de isopor com os medicamentos necessários. Depois se voltou novamente para o caçula e seu olhar estava abatido como poucas vezes Estel havia visto antes. "Não nos coloque em lados opostos nessa guerra, Aragorn. As experiências de um curador não são fáceis, principalmente no que concerne à tomada de certas decisões."

Estel sentiu-se atingido pelo tom do pai, e por aquele nome que raras vezes Elrond usara nessa ou em sua outra vida, quase sempre o fazendo em momentos de repreensão ou duros ensinamentos. Naquele instante ele se viu dividido entre qual dos dois propósitos Elrond tinha para tê-lo feito dessa vez.

"Quantos voluntários o senhor precisa para testar essa sua vacina?" ele preferiu ignorar tanto o comentário que ouvira, quanto o que estaria por trás dele.

"Ainda não sei," Elrond respondeu pensativo.

"Teste-a em mim."

"Eleazar!" Danika não se conteve.

"Não vou arriscar meu povo, Nika. Já somos os mais fracos, os menos favorecidos. O clima de tensão está palpável entre nós. Não vou colocá-los agora como cobaias porque um povo, que já não quis recebê-los, ainda deseja arriscar-lhes a saúde a qual apenas o Criador os está ajudando a manter."

Danika nem respondeu, afastando-se do marido como quem busca por ar, seus lábios ainda murmuraram suas queixas, como se ela não estivesse certa da altura no qual desejaria proclamá-las ou se valia a pena de fato fazê-lo. Mas Elrond continuou olhando o filho com cuidado, notando-lhe o nervosismo, a palidez.

"A viagem foi difícil, não foi, criança minha?" O curador mudou seu tom, mas Estel parecia tão atingido por tudo o que estava acontecendo que nem se apercebeu. Ele passou a mão pelos cabelos crescidos, depois esfregou a barba por fazer.

"A cada dia enterrávamos um... O senhor sabe o que é isso? Um dia era uma mãe entre seus filhos chorosos, no outro um pai, em seguida duas crianças, depois um bebê ainda de colo... Os pais desse perderam o desejo de nos acompanhar... ficaram para trás, despejando orações sobre terra com a qual cobrimos o filho." Estel parou seu relato emocionado, seus olhos azuis pareciam de puro cristal. Ele respirou fundo então, e seu rosto ganhou uma seriedade assustadora. "Se o que Einarr ouviu daqueles homens no aeroporto for de fato verdade, eu não vou descansar enquanto não colocar minhas mãos no pescoço desses dois demônios. Eu não vou descansar... Não vou descansar mesmo..."

Elrond olhava o filho com pesar, enquanto este passava a andar pela câmara do pai dentro da caverna, para por fim apoiar-se nas costas de uma cadeira. Ele soltou os ombros e um suspiro baixo que fez o coração do curador pesar ainda mais.

"Não posso pedir a meu povo que se sacrifique mais, ada..." disse sem se voltar. "O que tiver que fazer faça comigo. Eu confio no senhor."

Elrond baixou os olhos, depois se aproximou do filho, pousando devagar a mão em seu ombro. Estel enrijeceu o corpo, estava contrariado demais para aceitar aquele afago. Não era uma criança, na verdade sentia como se nunca houvesse sido. Estava sendo atormentado por sensações que só se lembrava de ter sentido com aquela gana quando ainda era interno naquele lugar horrível que alguns insistiam em chamar de orfanato.

"Ada... Faça o que estou pedindo," foi o que sua voz embargada por aquela emoção pôde pedir.

"Não posso, ion-nîn."

"O senhor pode. Se meu destino for ser aquele que todos insistiram em me fazer acreditar, desde que eu nem sabia que um ninguém como eu podia ter um destino de verdade, nada me acontecerá. Se não for... se não for, nada mais fará diferença mesmo."

"Nada lhe acontecerá, criança minha."

"Eu sei." Estel ergueu o rosto e respirou fundo, procurando disfarçar o ar de total descrença que transformava sua voz em uma marcha fúnebre. "É o que tenho ouvido desde sempre... Se não acreditar nisso agora será melhor me deitar e esquecer-me de levantar."

"Estel..."

"Teste a vacina em mim, ada." Estel virou-se e encarou os olhos cansados do pai. "Deixe-me ser de alguma utilidade para estes que só fazem sofrer. Deixe-me sentir que posso fazer algo que não apenas assistir-lhes a partida."

"Você já tem seu papel na vida deles, filho. E não é este."

"Deve ser este também, ada. Qual é o valor de um líder que não se arrisca por seu povo?"

"Tudo o que você tem feito é arriscar-se por nós, Eleazar." Danika voltou a aproximar-se. "Que vida teve, El, desde que se convenceu de que estava destinado a ser líder desse nosso povo?" Ela indagou com olhos brilhantes e quando o marido moveu o rosto em outra direção, ela o segurou com ambas as mãos para que não ignorasse o que estava lhe dizendo. "Essa terra que você defende, que quer ver unificada, só nos tem dado as costas desde quando ainda éramos crianças, El. Mesmo assim você não a esquece. Mesmo assim você quer dar tudo de si por ela."

"Não sente afeto por essa terra dividida, Nika?"

Danika apertou os lábios e seus olhos marejaram, lustros por aquele sentimento indisfarçável.

"Eu cresci na pobreza de Nova Cillian, onde conheci o bem e o mal. Depois me mudei para cá, onde percebi que o dinheiro infelizmente não muda os hábitos, não engrandece os homens. Para mim só havia as crianças... Só por elas eu via propósito para lutar e fazia daquilo minha vida." Ela baixou o rosto então, jogando-o um pouco de lado de modo a poder ver o único leito ocupado daquele lugar. "Mas vocês me ensinaram a ver mais... a ver além... fora de mim e... dentro de mim também..."

Estel acompanhou o olhar da esposa, tendo a mesma gélida sensação que tivera quando percebera que Legolas ficaria naquele leito por muito tempo, sentindo a mesma saudade quase insuportável com a qual estavam tendo que lidar.

"Resta pouco dessa sensação agora..." ele lamentou quase para si mesmo. "Mas eu quero lutar pelo que resta..."

"Eu também quero," Danika disse em um sopro de voz. "Deixe-me arriscar-me agora."

"Como assim?"

"Deixe que ada teste a vacina em mim."

"Não." Estel afastou-se indignado, mas a esposa caminhou a seu encontro, mesmo quando, instintivamente, ele se afastou dela recuando alguns passos de costas. "Não vou permitir sequer que você repita o que me disse."

"Por quê?" ela questionou, a doçura de sua voz comprometida pela indignação daquele eterno sentir-se de mãos atadas diante do destino. "Por que tenho que me sentar e assistir sua dor? Por que estou condenada a ser uma espectadora muda de seu sofrimento. Para que tudo seja como antes? Para que depois de tudo você me deixe só?"

Estel sentiu seu queixo amolecer com aquelas palavras, com o significado milenar que estava camuflado atrás de cada letra, no tecer de cada recordação. Ele caminhou em direção da esposa, tomando-a nos braços com uma convicção tão grande que restou a Danika revelar o pranto que já a dominava por dentro. Ela pousou a cabeça no ombro do marido e envolveu-o com afeto e urgência.

"Eu não quero perder você, El. Não quero que as crianças fiquem sem o pai delas..."

"Isso não vai acontecer," Estel puxou a esposa para olhá-la nos olhos. "A vacina há de funcionar e pelo menos esse castigo vai ter fim."

"Se de fato acreditasse nisso, me deixaria ser voluntária para o teste..."

Estel torceu os lábios com aquele argumento, mas quando ia responder sentiu novamente a proximidade do pai. Elrond apoiou a mão por sobre os ombros dos dois.

"Não posso testá-la em nenhum de vocês, crianças minhas. Nem nesses que agora vocês chamam de filhos uma vez mais," ele disse, olhando-os com seu carinho de sempre, no rosto um pequeno sorriso cujo significado tanto as lembranças de Aragorn quanto as de Arwen traziam de volta perfeitamente bem, era aquele sorriso que o pai lhes oferecia quando algo de inegável importância estava passando despercebido por eles.

"Por que não, ada?" eles indagaram em quase uníssono.

"Estão reencarnados... Lentamente se lembram da vida que viveram. O mesmo acontecerá com seus filhos quando a idade certa chegar."

Danika ergueu as sobrancelhas e ela e Estel disfarçaram a surpresa. Aquela era a primeira vez que Elrond se dispunha a falar sobre aquele assunto tão abertamente.

"O que isso quer dizer?" ela ousou o questionamento.

Elrond afastou o olhar deles por um instante, mas suas mãos continuaram a acariciar lentamente os ombros dos filhos.

"Até onde sabemos a reencarnação, nesses moldes que vemos em vocês, ionath-nîn, é uma dádiva dos primogênitos de Ilúvatar. Esse renascer desde o berço, esse relembrar vagarosamente do passado..."

Estel e Danika se entreolharam confusos.

"Aonde o senhor quer chegar com esse comentário, ada?" Estel impacientou-se. "Se tem alguma conjectura ou certeza, por favor nos diga, que de tanto andar na escuridão temo não reconhecer mais o brilho do sol."

Elrond voltou a baixar os olhos.

"Creio que o que os trouxe de volta foi a missão que tinham, mas o que possibilitou esse retorno foi o sangue que corre nas veias de vocês, crianças."

"Sangue?" Estel inquiriu.

"Sangue Eldar, fortificado pela herança dos homens de Numenor... Pela herança de meu irmão Elros, mas também pela herança dos que ouviram a canção do criador antes de seus caçulas. Sangue Eldar. O mesmo que impede que eu e os demais elfos sejam contagiados. A vacina não mostraria efeito em vocês, pois o vírus não lhes pode fazer mal."

Estel franziu a testa, como se aquela informação lhe descesse indigesta demais.

"Acha que estamos imunes à doença? Que ela não nos afeta como não afeta a vocês elfos?"

Elrond respirou fundo, assentindo apenas com a cabeça.

"Mas isso é uma mera conjectura, certo?" Estel parecia confuso. "Pode estar enganado, não pode?"

"Não, criança. Não é uma mera conjectura."

"Como pode ter certeza?"

"Sou um curador, ion. Sei muito da energia que emana de cada povo."

"Consegue sentir que nosso sangue tem... essa porção élfica ou algo assim?" ele questionou e aguardou visivelmente impaciente por aquela resposta. Quando Elrond simplesmente assentiu com mais de seus breves movimentos de cabeça, Estel se afastou, como se precisasse de ar.

"Isso não faz sentido algum, me desculpe," ele falou francamente. "Minha infância foi tal e qual a de qualquer outra criança que cresceu naquele orfanato maldito. Tanto eu quanto Nika adoecemos de outros males como todo mundo, ada. Eu mesmo conheci toda sorte de febres e outras doenças quando estava no orfanato."

Elrond tornou a encher o peito de ar, agora com as mãos soltas ao lado do corpo e um semblante cujos traços eram de difícil interpretação. Seu olhar vagou então pelos dois filhos por um instante, mas depois ele apenas apertou quase imperceptivelmente os lábios, como se decidisse guardar para si o que estava para dizer e limitou-se a oferecer outro de seus sorrisos e afastar-se na direção do leito de Legolas.

"Nem tudo me é revelado agora, crianças. As poucas certezas que tenho não foram de fácil decifração," ele pontuou, apoiando a mão na testa do arqueiro e olhando-o com carinho.

Estel e Danika se entreolharam novamente e um pôde ler no olhar do outro o significado daquela revelação e a importância do que ainda parecia estar recolhido à penumbra dos dias futuros, para só então permitir-se atingir pela luz do amanhã. Seus pensamentos foram interrompidos, no entanto, pelo tom suave da voz de Elrond, conversando displicentemente com o paciente adormecido, oferecendo-lhe as garantias de sempre de que tudo ficaria bem e de que ele logo despertaria para aquele mundo confuso no qual eles estavam. Só então Estel lembrou-se de algo que o fez aproximar-se rapidamente do pai.

"Meu senhor... Esqueço-me de que ele pode estar nos ouvindo..." ele disse preocupado, já apoiando a mão na cabeça do amigo. "Desculpe-me, Azrael. Sabe o quanto gostamos de discutir por motivos pequenos. Não se preocupe. Tudo vai ficar bem. Eu prometo."

Danika deu a volta lentamente no leito do elfo louro, depois lhe segurou a mão.

"Você podia despertar, anjinho," ela queixou-se baixinho, trazendo a mão fria de Legolas para junto de seu rosto. "Estamos com saudades de você. Não há quem ocupe seu lugar em nossas vidas."

Elrond soltou um suspiro breve, em seu rosto havia uma expressão triste que ele achou por bem não permitir que o filho visse. Já não tinha tanta certeza assim que Legolas poderia se aperceber de alguma forma do que acontecia a volta dele. Sentia-o cada vez mais distante, cada dia mais ausente.

"Tem certeza que pode deixá-lo só todos esses dias, ada?" ele ouviu o filho indagar a suas costas e parou sem se voltar, fingindo ater-se a bagagem que acabara de preparar.

"Pedirei a Thranduil que não se ausente da caverna por muito tempo e que me chame se algo no estado de Legolas se alterar. Estarei a uma distância que me permitirá estar aqui em tempo mínimo. Além disso, Elvéwen e a mãe de vocês estarão se revezando junto a ele."

Danika soltou os ombros, ela ainda olhou o amigo mais uma vez, antes de se afastar.

"Vou preparar as crianças..." disse, já de saída

"Para quê?" Estel intrigou-se.

"Vamos com você."

"Não." Estel a segurou gentilmente. "Serão só quinze dias, Nika. Não há razão para deixarmos as crianças em um ambiente mais inóspito do que esse."

"Inóspito é o adjetivo do ano," surgiu a voz de Elrohir. Ele entrava na câmara do curador acompanhado de Darian e Sine, as crianças correram em direção ao pai quando Estel lhes abriu os braços. "Por que estão conversando aqui? Insistem que o coitado ali participe de todas as discussões que têm?"

Danika soltou um riso breve.

"É verdade..." ela lançou um novo olhar de desculpas ao elfo adormecido. "Acho que no fundo temos esperança de que, nos ouvindo, ele se apiede de ver-nos em nossos conflitos menores e desperte para mostrar-nos a verdade como sempre fazia."

Elrohir esboçou um sorriso fraco, observando agora Darian e Sine aproximarem-se daquele paciente do qual ainda não conseguiam se lembrar por completo. Darian era o único cuja imagem do incidente na árvore era plena, mas havia entre as crianças algo de lúdico e fantástico relacionado àquele príncipe adormecido. A pequena Myrna chegou a dizer que ele estava apenas esperando uma princesa vir beijá-lo para despertar.

"Ei, nada de peraltices perto do Las," Elrohir foi logo se lembrando de usar seu recém-adquirido tom de pai, tom este que fez com que Estel soltasse sua risada característica, principalmente depois de perceber os dois filhos pararem, já a poucos passos do leito de Legolas, ao ouvirem o comando do tio.

"Capitão, Capitão... você devia ter seus próprios filhos," ele provocou.

"Pra quê? É bem mais útil educar os seus a quem não tenho que alimentar, apenas ensinar bons modos. Algo muito difícil, diga-se de passagem, haja vista o péssimo exemplo que eles têm como figura paterna. Ainda bem que ao menos você se banhou." Elrohir atentou enquanto o caçula se aproximava, indiferente às provocações do irmão elfo, e o envolvia pelos ombros em um abraço fraternal.

"Tenho outras lições para dar a eles que não só higiene pessoal," Estel respondeu por sobre o queixo erguido e por trás de um riso mal contido.

"Claro, claro... como se vestir principalmente," Elrohir provocou um pouco mais, puxando a gola da camisa do caçula e ajeitando o botão que já escapava da segunda casa. "Vamos e convenhamos Estel, você é um poço de maus exemplos, acho melhor deixar os pequenos aqui mesmo."

As crianças riram, parecendo já acostumadas com as brincadeiras do tio.

"Você não vai para o acampamento também com a gente, tio?" foi a pequena Síne a perguntar, já abraçada novamente na mãe.

"Tio Einarr tem muita coisa para fazer aqui na cidade e também em outros lugares," Danika esclareceu, enquanto descia os dedos pelos anéis dos cabelos da filha. "Ele é o nosso melhor soldado, lembram? Fez-nos um favor ficando conosco até seu pai chegar."

"E pelo jeito já roubou o meu lugar no coração deles..." Estel fingiu-se melindrado com o questionamento da filha. "O que andou fazendo? Comprando-os com guloseimas enquanto estive fora?"

"Não mesmo. O tio Einarr nem deixa a gente comer nada. Ele acha que tudo é porcaria," Darian queixou-se, disfarçando um riso nervoso quando Elrohir lançou-lhe aquele olhar de poucos amigos que só ele sabia dar.

"Só tem coisas enlatadas e ensacadas aqui," Elrohir argumentou sem muito empenho. "Enquanto o pessoal não conseguir fazer brotar algo comestível naquilo que eles chamam de horta, plantação ou sei lá o que, vamos nos ver tendo que encarar toda a sorte de porcaria aromatizada, colorida e conservada em coisas cujos nomes eu nem me atrevo a repetir."

Desta vez até o riso de Elrond, que continuava a checar suas bagagens, foi ouvido.

"O povo insiste em plantar no descampado," esclareceu o curador. "O local no qual estamos era parte da floresta virgem, uma vez sem seus abetos, ciprestes, faias, carvalhos e outras árvores naturais da região o solo fica improdutivo."

"Mas por certo há o que comer na própria floresta," Estel observou intrigado. "É bastante próxima daqui."

"Próxima até demais," Elrohir explicou, com os lábios torcidos de desprazer. "O que não há são caçadores ou outras pessoas experientes para enfrentá-la, principalmente nessa época do ano. A mata não é das mais amistosas, você percebeu bem, não?"

"Não vim pelo caminho da mata," Estel admitiu. "Havia muitos feridos e histórias tristes o bastante para eu ouvir além dos muitos contos sobre a Floresta Tenebrosa."

Elrohir soltou um som de contida surpresa.

"Por isso demoraram essa eternidade! O que fizeram depois que desceram dos trens de carga? Arriscaram-se vindo pelas planícies? Não me diga que foram pela Federal? Vocês são um bando de suicidas mesmo. Eu devia ter ido ao seu encontro."

"Fiz de tudo um pouco. Estávamos em muitos, na maioria das vezes andamos em grupos menores, cada qual em um caminho alternativo. Voltamos a nos encontrar a um dia de viagem daqui, desde então cruzamos a planície o mais próximo das árvores que podíamos. Sorte a minha que tenho bons guias. Muitos do meu grupo nasceram nessa região. Por causa deles não me atrevi a trilhar a floresta."

Elrohir sacudiu a cabeça.

"Bando de covardes," ele disse com um pequeno riso de provocação. "A Floresta não é tão inóspita quanto dizem... Ou é, sei lá. Mas existe vantagem em se estar perto dela. Hoje pela manhã reuni um grupo e fomos caçar. Estou tentando ensinar uns infelizes aqui, mas não é fácil. Pelo menos carne a Floresta nos daria se o pessoal soubesse acertar o alvo ao invés de correr dele."

Todos riram novamente, especialmente Estel, que lançava ao irmão um olhar saudosista que só fazia motivar Elrohir a continuar fazendo seus discursos de sempre, mesmo sem estar totalmente motivado àquilo.

"Por isso não o vi depois que cheguei?" indagou.

O gêmeo deu de ombros.

"Pegamos um javali. Mas os idiotas que levei estavam tão amedrontados que quando conseguiram apontar aquelas espingardas, que por certo são resquícios da Segunda Guerra, sobrou pouco do pobre animal para os cozinheiros. A criatura levou mais tiros do que certos ditadores deveriam levar quando caem do poder."

Estel soltou um riso amargo.

"Nana disse que você caça sozinho às vezes. E que sempre traz um cervo e meia dúzia de coelhos. Isso quando não encontra sobreviventes perdidos na floresta e os traz para o acampamento."

Elrohir voltou a sacudir os ombros displicentemente.

"Meu trabalho sempre rendeu melhor sozinho."

Estel baixou a cabeça com aquele comentário.

"Nem sempre," Elrohir corrigiu-se, lendo os sentimentos do caçula de forma que este não esperava e fazendo Estel sorrir amistosamente. "O que acha de caçarmos juntos?"

"Quando, agora? Já está anoitecendo."

"Não, seu bobalhão. Quer que sua esposa me arranque a pele? Amanhã pela manhã antes de voltarem ao acampamento e depois que você tiver dormido e tirado o atraso com a família," ele brincou, lançando um olhar insinuante para a irmã que a fez avermelhar-se e aplicar-lhe um soco bem dado no ombro esquerdo. "Ai. Quanta violência! Você precisa mesmo dar um trato nessa mulher. Ela anda muito estressada."

"Einarr..." Danika o advertiu por entre os dentes, escorregando os olhos em direção aos filhos que observavam a cena com largos sorrisos, mesmo sem entenderem muito bem agora o rumo daquela conversa.

"Posso ir também?" Darian foi logo perguntando.

"Nem pensar." Elrohir fingiu não ver o ar decepcionado do sobrinho. "Eu tive que esperar chegar à altura do ombro da minha mãe para poder caçar. Você não é melhor do que eu."

"Mas vou ser um dia." Darian não conteve a malcriação, quando o tio já estava à porta. Elrohir voltou-se e lançou-lhe aquele olhar fulminante de sempre.

"Melhor mesmo. Pois eu vou te cobrar isso, homenzinho."

O menino correspondeu ao olhar desafiador o quanto pôde, mas logo seu rosto enrubesceu e ele baixou a cabeça. Nesse momento não viu o tio sorrir e dar uma piscadela matreira para o pai, antes de dizer "ao nascer do sol" e desaparecer pelo corredor escuro.


Elrohir e Estel caçaram juntos naquela manhã e em muitas outras que se seguiram, pois o gêmeo acabava por aparecer no acampamento do irmão praticamente todas as manhãs, trilhando com destreza a distância que separava o povo do caçula com sua moto de muitas décadas. Elrond também ficara por lá, cuidando dos feridos e das gestantes, procurando garantir àquele povo tão sofrido algumas poucas certezas. A peste ainda não havia dado sinais entre aqueles, nem mesmo os que haviam aceitado fazer parte da experiência do curador demonstraram qualquer reação ou sinais de contágio.

Apesar daquele bom presságio, Elrond lamentava não ter o medicamento para todas as dores daquele povo. A tristeza se instaurara na alma daquelas pessoas como poucas vezes Elrond havia visto em toda a sua existência e não havia nada mais difícil para um elfo, especialmente um curador, do que encarar aquele tipo de dor, aquela que nasce de um sentimento de perda, aquela a quem nada ou ninguém parece ser capaz de aplacar.

Quando Estel tocou-lhe o ombro ele estava concentrado nos movimentos singelos que um bebê fazia dentro da barriga de sua mãe por sob suas mãos. Ele visualizava a imagem completa, os pesinhos, as mãozinhas encolhidas, os pequenos joelhos dobrados. Tudo em seu perfeito estado, exceto pelo fato da criança estar na posição inversa àquela que deveria a poucos dias de sua hora de vir ao mundo.

"Tudo bem, pai?" o caçula leu-lhe a preocupação, ainda que bem disfarçada, e o mero aceno de sua cabeça não o satisfez. Ninguém enganava Aragorn, aquela era a primeira certeza que Elrond tivera sobre seu filho adotivo nesta e em sua outra vida. Estel disfarçou suas sensações, no entanto, olhando para a paciente a quem o pai examinava. "Como vai, Rebecca?"

A mulher moveu seus olhos escuros para as mãos agora apoiadas no pequeno ventre e alisou-o como quem não se sente com energia nem mesmo para isso. Seu olhar abatido se moveu então para uma direção específica que Estel conhecia muito bem. Rebecca era uma das "viúvas de esposo ausente" como os demais costumavam dizer. O marido e o filho mais velho haviam ficado no acampamento dos enfermos, dois condenados pela peste. O marido de Rebecca, mesmo são, decidira ficar com o filho até que chegasse o fim deste ou de ambos, decisão que, apesar de conjunta com a esposa, fora a mais difícil que já haviam tomado em suas vidas.

"Rebecca vai ganhar uma menina," Elrond anunciou, recebendo no mesmo instante o olhar surpreso daquela mãe. Ele sorriu pacientemente. "É uma menina saudável, que parece bastante ansiosa para ganhar seu lugar nos braços da mãe."

Estel sorriu e seu sorriso se alargou ao ver os olhos escuros daquela mulher refletirem pela primeira vez o pouco desejo de viver que lhe restava. Elrond tomou-lhe ambas as mãos então e, mesmo enrubescida pelo gesto afetuoso, a mulher continuou olhando para aquele médico tão diferente de todos os que já conhecera na vida.

"Como vai se chamar essa sua pequena benção, Rebecca?" ele indagou com tanta seriedade, que para ela foi como se o médico estivesse questionando-a sobre seu colesterol ou algo do gênero.

"Larissa..." ela respondeu, lembrando-se do nome feminino que o próprio filho escolhera, caso fosse confirmado que ganharia uma irmã e não um irmão, como ele desde sempre julgava que fosse acontecer.

"Pelo que sei, Larissa quer dizer alegria," Estel acrescentou.

Rebecca sorriu timidamente, mas seus olhos insistiam em vagar para aquela direção da qual, inconscientemente, ela parecia esperar que o marido e o filho aparecessem como que por milagre. Ela sabia que eles não viriam. Temia até imaginá-los agora, distantes dela, quiçá mortos e a mercê de toda sorte de predadores. Se todos os demais que haviam se deixado ficar para trás apenas para ajudar os enfermos houvessem adoecido como muitos temiam, não haveria sequer alguém a enterrar os mortos.

"Amanhã irei até o acampamento do pai de Larissa," Elrond anunciou e Rebecca voltou a fixar seus grandes globos nele. "Levarei medicamentos e trarei, quem sabe, notícias melhores do que os temores que ocupam seu coração."

"Doutor... Doutor..." Rebecca só soube dizer, agarrando agora as mãos do médico e derramando lágrimas como se não as houvesse derramado há tempos. Ela nada mais disse, limitando-se a trazer as mãos de Elrond para perto de seu rosto e após beijá-las várias vezes, segurá-las junto à face e não mais as largar.

Estel respirou profundamente, mas foi inútil, quando Elrond ergueu seus olhos o filho já compartilhava, disfarçando-o como podia, o pranto daquela a quem buscava proteger. Ele cobrira os olhos com a mão direita, como se olhar para aquela cena fosse a pior tortura a qual fora sujeitado. Elrond segurou-o pelo pulso, fazendo agachar-se perto dos dois.

"Escute, filho. Olhe para mim," ele pediu e só então Rebecca lembrou-se porque o Escolhido de seu povo era tão adorado por todos os que estavam à sua volta. Ela quis dizer uma palavra qualquer, algo que soou como um pedido de desculpas ou clemência, mas Estel apenas ergueu a mão, contendo o que quer que aquela mulher pudesse lhe implorar e forçou um sorriso, antes de cobrir-lhe em um gesto afetuoso o ombro com a mão direita.

"Também eu anseio saber o que o destino reservou a nossos irmãos, Rebecca. Irei com meu pai até eles."

"Meu senhor Eleazar... Não... Por favor... Meu coração aflito quase para só de imaginar que vou ter uma resposta..." Rebecca disse entre soluços. "Mas se algo acontecer ao senhor e ao doutor... Eu não vou me perdoar... O acampamento é um grande risco..."

Elrond apertou sutilmente a mão da mulher.

"Confia em meu filho então, Rebecca?"

"Sim..." ela respondeu de imediato, enxugando o rosto. "Confiaria minha vida a ele, doutor..."

"E a vida de sua filha?" Elrond questionou e, quando a mulher empalideceu, voltou a apertar a mão que segurava. "Amanhã você e seu povo vão seguir viagem até o acampamento do Grande Tigre. Eu não estarei com vocês, mas meu filho é um bom médico, embora jamais vá admitir isso a alguém," ele continuou, já calando os protestos de Estel com um breve movimento da mão esquerda. "Nossa pequena Larissa está em uma posição difícil dentro de seu ventre, minha cara. Não posso virá-la porque o cordão está prendendo-lhe um dos membros. Você terá que fazer uma cesariana e terá que confiar que seu bom líder aqui se incumba de ser o primeiro a ter sua filha nas mãos. Terá que confiar a ele o parto de sua criança."

Rebecca desprendeu os lábios e seu queixo pendeu levemente para baixo sem que qualquer som saísse de sua boca. Nem a Estel parecia ocorrer o que dizer, igualmente petrificado com a recente informação e incumbência. Elrond jamais proferira inverdade alguma a ele ou a qualquer paciente, mas aquela Estel desejava que fosse a primeira vez.


"O senhor não está falando sério, está?" Foi a primeira coisa que Estel disse quando conseguiu recuperar sua voz, após deixarem Rebecca e as demais mulheres com a boa notícia que partiriam ao amanhecer. Elrohir, que acabara de ouvir a história, acompanhava o passo rápido do pai e do irmão sem saber o que dizer.

"A jovem Eleonora estará com você. Ela é anestesista."

"Eleonora é uma menina que mal chegou a se formar, pai. Todos do staff do HF estão no acampamento de Ami. O senhor mesmo pediu que fosse assim. Clare chegou a implorar que permitisse que ficasse aqui, mas o senhor ficou insistindo que não havia feridos nem outros casos graves entre o povo do Grande Tigre e que sua presença já seria suficiente..."

"Eleonora auxiliou-me bem na última cirurgia que realizei."

"Mas o senhor sequer precisa de uma anestesista em suas cirurgias aqui, pai..." Estel parecia tão desolado que Elrond teve que sorrir.

"Você também não precisará, se fizer uso das ervas como lhe ensinei no passado. Eu as recuperei uma a uma, encontrei muitas delas na própria floresta. Estão bem acondicionadas, só a sua espera."

"Mas eu não sou médico... Deixe-me mandar uma mensagem para Ami. Ele pode me mandar um dos médicos. Anselmo o trará aqui e tempo hábil, tenho certeza. "

"Já fez partos antes, filho. Alguns mais problemáticos do que esse e com menos recursos ainda. Seus tempos de guardião fizeram-lhe acumular muita experiência. Foram suas descobertas, associadas ao conhecimento que lhe passei que salvaram muitas mulheres das mortes por hemorragia depois do parto, algo que infelizmente era mais comum do que gostaríamos naquela época."

"Mas não me lembro, pai. De que me adianta um conhecimento que não consigo resgatar e..."

"Há de se lembrar. Eu confio em você."

Estel bufou então e parou o passo, segurando o pai bruscamente para que este fizesse o mesmo. Elrond ofereceu-lhe seu olhar paciente de sempre, olhar este que Estel às vezes desejava não conhecer tão bem, cujo significado desejava não saber.

"Você está ferrado, Eleazar. Não tem jeito. Pare de chorar e vá logo usar seus dons surreais de medicina para ajudar aquela menininha encalhada a nascer." Elrohir aproveitou o clima pesado para puxar habilmente a última viga de sustentação do caçula. Também ele estava com um humor terrível, não podia perder aquela oportunidade de atentar contra os nervos de outro alguém.

"Você quer que eu parta a sua cara agora, Einarr? Posso usar meus dons surreais de medicinapara resolver o problema depois."

"Melhor cortar a barriga daquela mulher primeiro. Pode ser que não tenha muito sucesso em sua investida contra a minha cara e deixe a pobre criança com um médico com dedos quebrados para fazer o seu parto."

"Elrohir!" Elrond impacientou-se enfim com a discussão sem fundamento dos filhos e seu descontentamento cresceu de forma tão rápida que, ao manifestá-lo, o curador acabou se esquecendo dos protocolos de segurança que usavam quando não estavam em ambiente seguro. "Vocês dois parem de me tirar do sério e façam o que devem fazer. Einarr, você acompanhará seu irmão."

"Eu não vou acompanhar ninguém. O senhor bem sabe como eu gosto dessas cenas de açougue de periferia. Vou com o senhor ao acampamento dos doentes. Com certeza vai precisar de mais mãos para enterrar os mortos."

Estel bateu os braços ao lado do corpo para, naquele momento, conter-se a não fazer pior, e pôs-se a caminhar em círculos em volta do pai e do irmão como um leão enjaulado. Elrond lançou ao gêmeo um olhar que dispensava qualquer comentário seu sobre o que o rapaz havia acabado de dizer, mas Elrohir apenas torceu os lábios, parecendo ele mesmo cansado de buscar outra malcriação à altura para completar de desandar aquele caldo que já estava para entornar.

"Sério, pai. Por que cargas d'água o senhor está deixando essa tarefa do cão para o coitado do Eleazar?" ele enfim percebeu que a falta de sentido daquela decisão do curador o estava incomodando demais.

"Porque ele é capaz."

"Tá. E exatamente agora, no meio de uma guerra com a pior escassez de recursos possível e a peste correndo por fora, o senhor decidiu que seria o momento mais apropriado para Eleazar mostrar ao mundo que, além de ser o Escolhido para ser o líder de uma nação reunificada, ele também tem outras habilidades?"

Elrond olhou o filho profundamente e por tempo o suficiente para que Elrohir percebesse que o momento das brincadeiras, bem vindas ou não, precisava terminar. Ele conhecia o gêmeo caçula e sabia exatamente porque ele estava tentando levar tanto o pai quanto o irmão à loucura daquela forma.

"Vai dar tudo certo, criança." Ele segurou disfarçadamente a braço do filho e pressionou os lábios ao senti-lo esfriar-se ao seu toque. "Não precisa temer por seu irmão. Ele precisa dessa experiência."

"Mas o senhor podia ao menos estar com ele. Ele se sentiria mais seguro e..."

"Preciso ir ao acampamento."

"Por quê?" Elrohir não se conteve. "A essa altura estão todos mortos... Com sorte vai encontrar alguns quase mortos tentando enterrar a outros. É isso que o senhor quer ver?"

Dessa vez Estel parou onde estava, lançando ao irmão um olhar capaz de derrubar um dinossauro. Mas o olhar que Elrohir lhe devolveu dessa vez, bem como a súbita palidez em seu rosto, acabou por despertar mais preocupação do que revolta no caçula.

"O que foi, irmão?" Estel aproximou-se rapidamente, segurando Elrohir pelo braço. O gêmeo afastou o olhar, como se só naquele instante tivesse percebido que sua máscara caíra. Ele baixou o rosto e distanciou-se, dando alguns passos aleatórios antes de se voltar para o pai com uma súbita interrogação no olhar.

"O que se passa?" Elrond não custou a indagar.

"Por que não quer que eu o acompanhe ao campo dos enfermos?" Elrohir indagou, sua voz sem qualquer resquício de ironia ou provocação.

Elrond tombou levemente a cabeça para o lado, tentando entender o motivo da pergunta.

"Mais de uma centena de pessoas chegará ao nosso vilarejo. Você terá que ajudar a fazer com que tudo funcione, criança. Há pouco mantimento restante e, apesar do povo do Grande Tigre ser o mais pacífico dos três grupos, esses momentos costumam ser de grande tensão."

Elrohir pressionou o maxilar, de alguma forma parecendo insatisfeito com aquela resposta.

"Por que, filho?" Elrond curvou as sobrancelhas. "Julgava que houvesse outro motivo?"

Elrohir não respondeu, mas seus olhos escorregaram na direção dos do irmão e ele e Estel trocaram um olhar breve, antes das pupilas do gêmeo voltarem a se fixar no pai.

"Julgava que houvesse outro motivo, menino?" Elrond repetiu o questionamento, ainda mais intrigado.

"Sempre há..." Elrohir disse então e o tom profético de suas palavras fizeram Estel estremecer, mesmo sem conhecer a razão. "Eu posso não saber... Nem o senhor... Mas sempre há um maldito motivo para tudo..."


Realmente a chegada do povo de Eleazar não foi tão bem aceita quanto seria em outras ocasiões. O grupo do vilarejo de Thranduil, que já vinha crescendo desproporcionalmente, se viu bastante desgostoso com a chegada daqueles sem-teto que, ainda por cima, precisavam ser alimentados com o pouco que o lugar dispunha.

Thranduil calou os protestos habilmente, como era de seu estilo peculiar e inimitável, dando a Estel mais uma das melhores lições de como conter a rebeldia de um grupo tamanho e deveras descontente com apenas um olhar e um mero aceno de mão. Logo o povo se movimentava, ainda que a contra gosto, ajudando idosos, direcionando crianças sem abrigo, executando outras manobras. Por sorte o antigo rei já havia se adiantado e organizado pequenos mutirões para a construção de novos abrigos improvisados de diversos tamanhos.

"Todas essas crianças são órfãs?" Celebrian acompanhava a filha que caminhava pelo lugar com uma verdadeira horda de pequenos, agitados diante do novo cenário no qual estavam. Danika conversava com eles, chamando alguns pelo nome, puxando outros pela mão. Duas senhoras de idade a acompanhavam em passo lento executando as mesmas tarefas.

"Algumas são..." Ela respondeu em tom baixo, sorrindo de volta quando alguns apontavam o dedo em uma direção qualquer, apenas para mostrar-lhe algo e chamar-lhe a atenção. "Outras são o que o povo chama de 'órfãos de pais ausentes."

"Que horror..." Celebrian compreendeu bem o significado da expressão, balançando a cabeça em desaprovação. "Seu pai há de trazer muitos desses pais de volta do acampamento dos enfermos."

Danika ergueu as pontas dos lábios em uma sombra de sorriso, mas não convenceu ninguém.

"Na verdade não sei por que ele foi até lá, mãe. Pelo que sei a vacina é para os sãos e os medicamentos não estão revertendo quadros graves como os que deixamos para trás... A senhora não faz ideia do que essa peste faz às pessoas... Pelo que ouvi dizer nenhum quadro se agravou aqui... Sei que ele já viu muito em sua carreira... mas mesmo assim... Essa peste é o que há de mais terrível para ser visto..."

Celebrian segurou a mão da filha com determinação, seu olhar seguindo displicentemente as evoluções dos pequenos, que corriam e pulavam, alguns se empurrando aqui e ali, outros puxando os amigos em diferentes direções. Manter aquele grupinho junto seria uma tarefa e tanto. Mas o sorriso no rosto da mãe permanecia, o mesmo sorriso singelo que ela vinha dando nos últimos tempos, um sorriso que Elrohir certa vez apelidara de 'o sorriso da batalha'.

E Danika soube que para seu comentário triste a mãe não ofereceria qualquer resposta.

Quando Elrohir conseguiu organizar o que havia para ser organizado e se desvencilhar de outros problemas menores, ele decidiu procurar por Eleazar, que depois de todas as manobras de chegada, ordens a seus homens, instruções ao resto do grupo e a execução de um breve relatório ao Grande Tigre desaparecera da visão de todos. O horizonte ganhava seus contornos rubros e ele já havia indagado a muitos sobre o paradeiro do irmão, menos a Arwen, a quem não estava disposto a incomodar naquele momento.

O gêmeo chegou enfim à grande caverna que lhes servia de abrigo e entrou em seu passo rápido. Praticamente todos estavam no campo, exceto os soldados que guardavam a entrada do lugar e alguém que raramente saía de lá. Foi essa pessoa que ele avistou, caminhando pelo corredor principal, carregando uma cesta de roupas e mais alguns pertences.

"Minha senhora," ele saudou a antiga rainha com uma leve mesura. "Precisa de ajuda?"

"Não, Einarr, sou-lhe grata," Elvéwen sorriu-lhe com carinho. "Alegra-me vê-lo de volta. É um grande alívio saber que o grupo de Eleazar está finalmente entre nós. Como foi a jornada?"

"Sem grandes eventos, senhora. Algo pelo qual só posso agradecer."

O sorriso de Elvéwen esmoreceu um pouco e Elrohir a percebeu fazendo o que todas as mães fazem com seus próprios filhos ou com os daqueles a quem amam.

"Está cansado. Sabe que não é de ferro, não sabe, Capitão?"

Elrohir sorriu amavelmente.

"Dera o fosse, minha senhora. Mas hoje tenho que admitir que uma cama qualquer há de me ver antes da lua alcançar o topo do céu."

Elvéwen riu, reforçando sua aprovação com um breve movimento de cabeça.

"Se fizer a gentileza de ocupar um dos leitos ao lado do de Lazarus, ousando me aproveitar de seus serviços de vigia e proteção, posso liberar sua mãe de velar o sono de meu filho pelo menos essa noite. Gilah se recusa a me deixar adentrar a madrugada na câmara do consultório de seu pai, alegando que devo ter um tempo que seja para estar ao lado do Grande Tigre."

Elrohir sorriu mais largamente. Aquilo era tão próprio de sua mãe que nem o surpreendia.

"Pode contar comigo, senhora. Como ele passou esses dias?"

Elvéwen suspirou.

"Como tem passado todos os outros." Ela baixou os olhos para o cesto que trazia nas mãos. "Separei algumas peças minhas para as mulheres que chegaram e, já que Lazarus está aos cuidados de Eleazar agora, vou tentar ser útil em algum lugar. Seu irmão disse que pode ficar com ele por um tempo."

Elrohir ergueu as sobrancelhas.

"Estava mesmo à procura dele."

"Ah. Vai precisar levá-lo consigo?"

"Não, minha senhora. Pode ir em paz. Estaremos os dois aqui por um tempo."

"Está bem então, Einarr. Obrigada. Por favor, peça que me procurem se precisarem se ausentar."

Elrohir apenas assentiu, observando a esposa de Thranduil continuar o trajeto em seu passo elegante. Por certo o rei a recriminaria por sair desacompanhada da caverna, mas depois que ele ficara sabendo que a frágil rainha havia presenteado com uma chave de braço um homem de intenções duvidosas no acampamento, desistira de compartilhar as preocupações do antigo rei.

Elrohir ainda ficou parado ali, amarrado àquele desejo de não sair do lugar que assola àqueles que ainda têm muito que fazer e quase nenhuma energia para isso. Ele estava mesmo cansado, mas seus pensamentos continuavam voltados para o pai a quem o cansaço parecia jamais abater. Aquilo o deixou um tanto envergonhado, podia ter a garra de um guerreiro, podia ter a força, o desejo de arrombar as portas que lhe faltavam, mas os anos ainda não haviam trazido a ele a fé que parecia ser combustível maior para o antigo lorde de Imladris. Aquela fé que conservava uma serenidade impossível no rosto do curador, uma paciência inabalável, uma esperança... além de tudo, acima de tudo. Uma esperança que, para quem estava à sua volta, brilhava como se tivesse outro nome, uma esperança que transpirava a mais absoluta confiança, a mais plena convicção.

Elrohir pousou a mão sobre o coração e pressionou-a com um pouco de força, fechando os olhos. Já tivera períodos maiores distante do pai, mas aquele inexplicavelmente estava sendo um dos mais difíceis. Tudo o que ele queria era um resquício daquela fé... um sopro que fosse...

"Adar-nîn..." ele centrou os pensamentos na imagem do pai, buscando nela o consolo de sempre. "Ajude-me a acreditar... Ensine-me a ser como o senhor..."

"Cada um propaga a fé que lhe cabe, ion-nîn... Para cada poema, sua pena... Para cada canção, seu cantor..."

Elrohir reabriu surpreso os olhos, girando bruscamente o corpo em busca da imagem do pai. Sua pele esfriou, primeiro de apreensão, depois pela certeza da solidão daquele momento. E assim ficou, na penumbra oferecida por aquelas paredes escavadas há tantos anos, naquele novo esconderijo que tinha até o odor dos velhos tempos. Ele voltou a apoiar a mão sobre o peito, a respiração acelerada pela surpresa de um contato tão distante, que somente Elladan fora capaz de fazer com o pai. Ele jamais se arriscara, jamais admitira seu desejo de tentar, jamais aceitara a possibilidade de não ser capaz. Enquanto Elladan passara a vida abrindo sua mente e seu coração para todos, expandindo suas próprias fronteiras, ele dedicara seu tempo construindo suas muralhas, pregando ferrolhos em suas portas, enclausurando-se, sem saber que alguns, se de fato desejassem, o alcançariam com a mais simples das armas, com o mais antigo dos poderes.

"Eu amo você, ion-nîn. Está tudo bem. Vá descansar..."

Elrohir fechou os olhos e o ar escapou-lhe do peito enquanto uma lágrima escorreu por seu rosto. Foi assim que Estel o encontrou, parado com os braços soltos e a cabeça inclinada para frente no mais profundo silêncio. Ele nem sequer ouviu o caçula chamar por ele, nem sequer sentiu os braços a sua volta, quando deu por si o irmão humano que tinha o abraçava com força, oferecendo-lhe a mesma garantia da qual custava a se lembrar, talvez por prevenção, talvez por julgar-se longe de merecê-la; a de que ele era amado, e esse amor era tão grande que chegava a ser assustador.


"Tem certeza que quer tomar essa porcaria?" Estel estendeu-lhe o copo de café.

Elrohir aceitou com a careta menos convincente que já havia dado em toda a sua vida. Estava sentado em uma cadeira do lado oposto da câmara de onde podia ver a cama de Legolas. O outro afastou-se um pouco, apenas para apanhar outra cadeira e vir se sentar ao lado do irmão.

"Por que não se deita um pouco? Fazemos dois turnos como nos velhos tempos? Eu te acordo daqui a algumas horas e você fica no meu posto."

Elrohir apoiou a cabeça na parede atrás de si e fechou os olhos, após abandonar o copo no chão ao seu lado, tendo-o provado apenas um gole.

"Sou um elfo. Não preciso da droga de uma cama para dormir," ele reencontrou rapidamente seu tom provocativo, mas Estel só fez sorrir complacente.

"Se de fato fosse dormir um sono élfico..." ele também provocou, percebendo a facilidade com que o irmão adormeceria em qualquer lugar do modo como estava. "Há quantos dias não dorme?"

Elrohir estalou a língua, torcendo os lábios sem sinal de que pretendia responder àquilo. Ele continuou com os olhos fechados. Quem o conhecia bem, sabia o motivo.

"Não vai descansar enquanto ada não voltar, não é?" indagou e, diante da ausência de respostas, segurou o pulso de Elrohir. Quando gêmeo abriu os olhos, indagou. "Como poderemos contar com você se estiver desse jeito, gwador-nîn?"

O uso da expressão tão antiga, que até então o novo Eleazar raramente usava, apanhou Elrohir no contrapé. Antes que pudesse responder, no entanto, Estel já se levantou disposto a arrastá-lo para a cama se fosse preciso.

"Espere, humanozinho bobo," ele segurou ambos os braços do irmão e eles se olharam nos olhos novamente. "Não sou eu quem vai passar uma faca de açougueiro na barriga de uma mulher amanhã," ele lembrou, satisfazendo-se por roubar um pouco daquele ar seguro atrás do qual o caçula tentava se esconder. "Acho que ambos podemos dormir sem que o elfinho do mato ali nos dê a alegria de sair daquela cama para alguma peraltice como ele gostava de fazer."

Estel soltou os lábios, ainda com as mãos presas nos braços do irmão. Elrohir também o segurava e eles ficaram assim algum tempo, até que o gêmeo se ergueu por conta própria, empurrando o caçula sem muito empenho. Quando olhou o irmão percebeu-o novamente preso a uma imagem, só que daquela vez Elrohir sabia bem qual era. Ele olhava a cama de Legolas, como se imaginasse se aquela brincadeira que ouvira podia vir de fato a concretizar-se um dia.

"Acha que ele vai despertar?"

"Sei lá. Despertar para quê? Gente pra fazê-lo sofrer aqui não falta. Nós somos as pessoas mais indigestas e problemáticas do mundo." Elrohir cuspiu sinceridade como um dragão. "Deixa o coitado assim. Quem sabe ele nem sequer nos escuta, o que seria uma benção muito grande pra ele."

Estel sorriu com o canto direito dos lábios, incapaz dessa vez de levar o comentário do irmão a sério, principalmente vendo o brilho dos olhos dele quando, ainda que rapidamente, se atreveu a olhar para Legolas, enquanto destilava aquele veneno como quem na verdade busca se exorcizar. Ele aproximou-se do gêmeo e apoiou a mão pesadamente em seu ombro.

"Ro..."

"O quê?" Elrohir perguntou, disfarçando mais aquela surpresa. Seu olhar habilmente fixado em outra imagem qualquer. Havia tempo que ninguém o chamava assim, nem mesmo Arwen.

"Não vou conseguir dormir."

"Problema seu," Elrohir se afastou prudentemente. "Eu vou me jogar, imundo mesmo, em uma dessas lindas camas engomadas e esterilizadas e ter meus sonhos horríveis de sempre. O que me resta fazer em um lugar desgraçado como esse?"

Dessa vez Estel não respondeu, nem mesmo ficou observando a trajetória displicente do gêmeo por todas as camas, como se estivesse escolhendo o trabalho mais bem acabado para arruinar com botas enlameadas e tudo. Quando deu por si, Elrohir o olhava de soslaio, novamente distante dele.

"Por que não vai conseguir dormir, humano bobo? Quer tomar um daqueles chás horríveis, quer?"

Estel apenas balançou a cabeça.

"Eu os fico ouvindo," ele admitiu enfim e seus lábios tremeram depois daquela resposta.

Elrohir envergou as sobrancelhas.

"Quem? Os mortos? Os infelizes a quem a peste levou? Sabe que não foi culpa sua, não sabe?"

"Os vivos... Os que importam de verdade, Ro... Eu os fico ouvindo... Eu ouço o pranto deles até quando estão em silêncio... Eu passo por cada um... E a dor deles ecoa dentro de mim... Eu conheço cada perda, cada angústia, cada dificuldade... Eu..."

Ele não pode continuar, pois um par de vozes conhecidas vinha pelo corredor chamando seu nome. Quando Danika apareceu junto com a mãe na porta da câmara, Estel já estava indo em seu encontro.

"O que houve, Nika?"

"Rebecca! A bolsa rompeu. Você precisa vir urgente."

E foi a vez de Elrohir envolver o irmão com ambos os braços, dado o estado de total surpresa no qual se converteu o semblante do caçula.

"Ilúvatar..." Estel disse, sentindo a mão da mãe tomar a sua.

"Bem, ele já está clamando como no passado," Elrohir provocou, apertando os braços em volta do irmão com força proposital, a fim de que a dor o impedisse de desfalecer, como o rosto dele dava a entender que aconteceria. "Só falta se lembrar do resto."

"Elrohir, tenha piedade!" A própria Celebrian pediu, algo que de tão raro só fez Estel estremecer.

"Nana... Eu não posso... Eu não me lembro..."

"Vai se lembrar, querido. Confie no que seu pai lhe disse."

"Eu não vou conseguir."

"Tem que acreditar, como se acreditou capaz de todo o resto."

"De que resto? De que resto, nana?" Estel explodiu de nervosismo, passando a andar por aquele lugar como se desejasse na verdade correr em qualquer direção. Ele afastava os cabelos crescidos dos olhos empurrando-os com ambas as mãos. "Existiam três acampamentos. Olha o que restou do meu? Olhe a vida que dei para o meu povo. Sinta a dor deles por um só instante e vai perceber que sou o pior líder que eles tiveram na vida. Se eu não tivesse começado essa revolução infeliz, se não tivesse me atrevido a sonhar com essa reunificação cada vez mais distante, por certo todos estariam em suas casas... abraçados as suas famílias, àqueles que a peste maldita carregou... Rebecca por certo teria um hospital... um médico..."

"Claro. Estariam em suas casas vivendo suas vidas politicamente corretas. Se estariam!" Elrohir abriu os braços para enfatizar o tom sarcástico de sua resposta. "Acha mesmo que essa revolução aconteceu por sua causa, Escolhido?"

"Elrohir... Não piore as coisas." Celebrian quis contê-lo.

"Piorar, nana? A coisa já tá pra lá de piorada há tempos. Há milênios!" ele chegou perto de Estel e começou a cercá-lo conforme o irmão tentava se afastar. "Se você se lembra de todos os outros conflitos que participou, incluindo o último que, nas devidas proporções, levou quase tantos jovens de sua Cidade Branca quanto essa peste maldita, Elessar, vai ver que infelizmente tanto eu quanto você estamos condenados a ser parte de um jogo maior. Você ainda está numa situação pior do que a minha. Eu sou mera bala de canhão... Você é o maldito pilar em cima do qual eles querem novamente reerguer uma maldita nação."

"Ro, por favor..." Danika implorou então e seu tom era tão sofrido que o gêmeo se conteve para não bater a própria cabeça em uma daquelas rochas maciças. "Ele precisa de ajuda... Por favor..."

Elrohir olhou a irmã por um instante e viu a mesma Arwen de sempre, exposta em suas dores. A pele alva, os olhos de cristal, o peito arfante. Ele virou-se então para Estel. O irmão parara de frente para ele, o rosto cansado, a barba por fazer, os cabelos perdendo a cor aqui e ali. Estel envelhecera visivelmente e mais rapidamente do que se esperava.

"Gwador-nîn... Precisa cumprir seu dever... Goste ou não."

Estel soltou os ombros.

"Eu sei... Afinal... se não conseguir, tudo o que ouvirei é o que já tenho ouvido todos os dias; Pranto e lamento."

Elrohir apertou os lábios.

"Vá e faça o que deve fazer. Eu lhe prometo que o pranto e o lamento estarão atenuados quando trouxer essa menina ao mundo."

Estel riu cansado.

"Larissa quer dizer alegria..." ele lembrou. "Acha mesmo que um nome pode ter tanta força?"

"Não... Mas já é um começo... Só preciso de um começo para tudo, você bem sabe. Para o fim, eu sou especialista."