Olá. Espero que todos estejam bem.

Sinto que o ano de 2013 vai ser atribulado para muitos de nós, mas também espero que seja um ano de renovação, de recuperação, de inovação. Esse capítulo é para os que estão nessa luta diária, independentemente do que estejam fazendo.

No entanto, quero dedica-lo em especial às mães, cuja luta é sempre mais árdua. Elas saberão o motivo.

Minha sempre prestativa beta Myriara está igualmente atribulada, por isso talvez o capítulo saia com alguns problemas, pois senti necessidade de alterá-lo e não encontrei coragem para pedir que ela o lesse mais uma vez. Peço que me perdoem.

Algumas canções inspiraram esse capítulo, mas dessa vez decidi guardar seus nomes para mim e permitir que cada um imagine Elrohir cantando o que desejar. O mundo fica mais vasto assim.

Obrigada a todos que deixaram reviews para o capítulo 101: Rafinha Gomes, Morwen Eledwhen, Idril Anarion, Flavinha, Sora Black, Marina Oliveira, minha irmãzinha Nimrodel, Katsucchi Talento, Lourdiana (com sua fantástica fic sobre Thórin), Selene-san, Phoenix-Eldar, Lais, Hanajima-san, minha gêmeas Cris e Leka e Ane Sekhmet e que continuam visitando a página em busca de atualizações. Eu posso demorar, mas prometo que não deixarei o projeto inacabado. Sou muito grata pela paciência de todos.

Beijos

Sadie


"Ficam intimados os humanos a interromper as dores, a esquecer as mágoas, a adiar as dívidas, a perdoar os outros…"

Caio Fernando Abreu


102 - UMA VOZ NA ESCURIDÃO

Eleonora era mesmo uma menina até para os olhos de Estel, mas ela tinha as mãos mais fortes que ele já havia visto em uma mulher e o olhar mais determinado que ele já havia visto em alguém. Quando ele e Celebrian chegaram à sala de cirurgia que ficava em uma das casas centrais, a jovem já tinha tudo preparado à espera deles. Mesmo assim, ela movia seu corpo volumoso com destreza pela minúscula sala como que em busca de mais algum item que estivesse faltando ou fora do lugar.

"Doutor Eleazar!" foi como ela o saudou; sua voz de contralto a fazia parecer anos mais velha, porém isso não foi o que impressionou Estel, mas sim o título que ela atribuía a pessoa dele naquele instante.

"Como vai, Eleonora?" ele sorriu como pôde, esperando que seu nervosismo não estivesse tão à vista a ponto de abalar a confiança que via. Já havia se vestido, assim como a mãe, que se dispusera a ajudá-lo nos primeiros procedimentos com a bebezinha assim que nascesse. Desde que Elrond assumira os cuidados médicos do acampamento Celebrian o acompanhara em todos os partos para receber os bebês e oferecer-lhes a assistência inicial. A elfa sorriu para a jovem de pele escura e maçãs do rosto salientes, ainda que por trás da máscara cirúrgica.

"Tudo pronto para a nossa Larissa nascer, Doutora Eleonora?" ela questionou em seu bom humor de sempre e a jovem médica apenas assentiu convicta.

"Sim, senhora," disse satisfeita, saindo do campo de visão para que os recém-chegados se aproximassem da cama na qual Rebecca já estava deitada, procurando controlar a respiração. Seus olhos não deixaram a figura de Estel desde que este entrara.

"Meu senhor Eleazar..." ela o chamou e sua voz trazia tanto temor que as pernas de Estel estremeceram mesmo sem ele assim o desejar. Celebrian foi a primeira a aproximar-se, já apanhando um pedaço de gaze e enxugando carinhosamente a testa da moça.

"Olá, Rebecca. Eu sou Gilah, esposa do Doutor Herodotus. Estamos muito ansiosos para conhecer sua princesinha. Vamos começar o quanto antes, está bem?"

"Sim... Eu acho que sim..." a paciente forçou-se a responder, mas logo lágrimas escorriam por seus olhos. "Senhora... se algo me acontecer... meu marido... ele não está aqui... ele..."

"Vai dar tudo certo," Celebrian garantiu, seus olhos brilhavam de tal forma que Rebecca se sentiu inclinada a acreditar naquilo. "Como é o nome de seu marido, Rebecca?"

"Robbie... Robbie, senhora... Ele... Ele não é daqui..."

"Tenho certeza que gostaria de estar."

Rebecca esboçou um sorriso triste.

"Nós nos conhecemos em uma viagem ao oriente..." ela disse com um olhar distante. "Ele era tão gentil... tão gentil... Nós nos casamos e... ele se mudou para cá... para que eu vivesse perto da minha família... mas meus pais... eles não aceitaram... eles não... aceitaram nem quando nosso filho nasceu..."

Celebrian balançou a cabeça solidariamente.

"Mas têm um outro filho já?"

"Sim..." A maternidade, ainda mais expressa nos olhos de Rebecca, era inquestionável. "Koppel..."

Celebrian ergueu as sobrancelhas e, embora não quisesse parecer injusta - afinal ela mesma não tinha um nome dos mais comuns - agradeceu em seu íntimo a escolha do nome Larissa, que parecia bem mais simples do que o do irmão.

O rosto úmido de Rebecca ganhou um sorriso, como se ela houvesse lido os pensamentos da elfa.

"Robbie foi quem escolheu... Quer dizer o protegido do Senhor", ela contou, mas aquela lembrança pareceu entristecê-la. "Acho que significados não... não têm tanto valor... assim... Ele está no campo... está doente... eu nem sei se está..."

"Shhh, nada disso." Celebrian enxugou-lhe as lágrimas. "Desconhecer algo não quer dizer que esse algo não seja real."

"Mas ele estava... muito doente, senhora..."

"Protegido do Senhor, você disse, não foi? Se confiou seu filho ao Criador de tudo não pode vacilar agora, pode? Precisa continuar tendo fé."

Rebecca respirou fundo, mas assentiu.

"Será mesmo que essa é a hora de eu ganhar o bebê? Não estou sentindo nada... além de medo..."

Celebrian suspirou, um sorriso paciente ainda em seu rosto. Ela olhou então para Estel que se posicionara diante dos instrumentos cirúrgicos como uma estátua de pedra, depois olhou para Eleonora. A jovem médica estava parada diante dela, aguardando silenciosamente.

"Acho que podemos administrar a medicação sedativa do doutor, não podemos Eleonora? Ele lhe ensinou a dosagem, certo?"

A médica apertou os lábios, enchendo o peito. Ela ainda custava a aceitar aquele método tão primitivo, sem pulsões nas veias, sem soro, sem aparelhagem para checar os sinais vitais, mas nas condições de absoluta restrição de recursos na qual o acampamento estava, chegava a agradecer ter encontrado um médico com tamanho conhecimento de medicina alternativa, conhecimento este que livro algum jamais havia lhe mostrado na graduação.

"Sim, senhora. Já separei a infusão e os chás..."

"Então vamos começar enquanto o doutor se concentra," ela propôs e sorriu complacente ao ver os ombros de Estel quase desmoronarem com aquele comentário.

Eleonora nada viu, já concentrada em oferecer a Rebecca o medicamento que a moça aceitou receosa, fazendo suas orações e clamores enquanto perdia vagarosamente a consciência.

Celebrian encostou-se ao lado do filho e esperou, observando as pupilas azuis dele examinarem milhões de vezes aquelas ferramentas como se as estivesse tentando memorizar, ou talvez delas tentando se lembrar.

"Se ao menos as vozes se calassem... se ao menos se calassem por um momento..." ele sussurrou para si mesmo.

"Que vozes, querido?"

Estel fechou os olhos.

"Os lamentos deles..."

"De quem?"

"De todos... Pode parecer loucura, mãe... mas eu ouço os lamentos do meu povo. Ultimamente... eu os tenho ouvido... Eu ouço o desespero de suas vozes, chamando pelos que deixamos para trás, pelos que deixamos à própria sorte... Até a dor de Rebecca consigo ouvir, ouço-a na própria voz dessa mulher sofrida... Eu devo estar enlouquecendo..."

Celebrian continuou olhando o filho, mesmo depois do desabafo, mas em virtude daquele silêncio, Estel virou-se na direção dela, procurando entender por que o semblante da mãe ficara tão sério.

"Diga o que está pensando, mãe, por favor. Acha que enlouqueci?"

A elfa suspirou, depois balançou a cabeça.

"Não querido... Isso pelo que está passando, infelizmente, é normal."

Estel fechou os olhos e respirou fundo, contendo a reação de insatisfação absoluta que o comentário da mãe queria arrancar dele.

"A senhora é boa para mim, mãe..." ele apenas disse. "Sempre foi paciente com meus rompantes e agora está tentando sê-lo novamente..."

"Não, querido..."

"Eu entendo... Tem que me convencer que é normal se desesperar e ficar ouvindo vozes etc, porque eu tenho que fazer isso e..."

"É normal para um curador. De tudo pelo que eles passam até se tornarem mestres na arte de cura, segundo minha mãe certa vez mencionou, seu pai acabou por me confirmar mais tarde e eu mesma vi Elladan passar, o obstáculo mais difícil é esse."

Estel envergou as sobrancelhas.

"Este? Este qual?"

"Peneirar entre todas as dores do mundo, aquela a qual pode realmente vencer..."

Estel encurvou mais o cenho, mas seus lábios se apartaram devagar, como se as palavras da mãe estivessem em um idioma estrangeiro e só aos poucos ele estivesse conseguindo decifrá-lo.

"Você é um curador, meu caçulinha," Celebrian sorriu por sob a máscara que usava. "Mas não tem o tempo que seu pai e seu irmão tiveram para aceitar o fato, para superar as barreiras. Quase não teve antes. Tem muito menos agora. Para você tudo sempre foi mais difícil."

"Nana..." Estel escorregou para suas tradições sem querer, atordoado com o que implicava toda aquela revelação da mãe, ele não via como não se desesperar agora. "Como vou... Como vou fazer então? Como... como vou conseguir isolar a dor que preciso tratar? Como posso neutralizar as outras em minha mente?"

"Não pode... Ainda não... Mas um dia vai poder," ela disse e quando percebeu uma agonia querendo roubar o brilho daquele par de olhos azuis ela o empurrou levemente com o ombro, já que não podia tocá-lo com as luvas estéreis que usava. "Mas vamos ajudá-lo. Não é para isso que estamos aqui desde tanto tempo?"

"Ajudar-me como, nana?" Estel engoliu forçosamente sua descrença. "A senhora é a melhor pessoa que eu conheço nesse mundo. Mas será que sua doçura conseguirá fazer com que eu simplesmente não escute a dor que estou ouvindo?"

"Não. Eu não sou capaz de tirar de você essa habilidade, nem mesmo enganá-la. A dor terá que ser calada de verdade... pelo menos por um tempo..."

"Como? A senhora é capaz de fazer isso? Calar a dor de uma multidão?"

Celebrian sorriu novamente, mas Estel percebeu que seus olhos estavam tristes.

"Eu não... Mas alguém é..."

Estel desprendeu os lábios, mas quando o questionamento que estava em sua garganta estava prestes a ganhar liberdade, ele ouviu a voz de Eleonora.

"Estão ouvindo?"

"Ouvindo o quê?" ele a olhou intrigado.

"Uma... uma canção... uma canção... longe... mas perto..."

"Canção? Que..." Estel tentou indagar, mas então também percebeu. Alguém cantava uma canção longe dali, mas inexplicavelmente tanto ele quanto os demais presentes a ouviam com extraordinária exatidão.

"Meu Senhor..." Eleonora soltou os lábios. "Que... maravilha... Que... que voz é essa? Quem..."

Aqueles questionamentos, Estel não tinha, pois, apesar de surpreso, ele reconheceu não só a voz, mas a canção por esta entoada, traduzida e adaptada com maestria para a língua comum. Uma canção especial da qual jamais se esqueceria.


Estel virou-se para o lado ao ouvir a porta do quarto se abrir. Sabia quem seria e estava cansado de ver-se analisado pelo olhar consternado da Gilraen. Ele estava arrependido por ter cedido às provocações dos outros rapazes, sabia que no final só faria magoar a mãe como todas as vezes.

Mesmo assim ele sentiu o colchão ceder um pouco com o peso de alguém se sentando em sua cama. A princípio estranhou o movimento brusco, sua mãe devia estar mesmo muito zangada e nem o fato dele ter quebrado o braço em dois lugares, em sua desastrada manobra para tentar alcançar os galhos mais altos de um dos carvalhos da região, e ter um ferimento na cabeça que, apesar da lua inteira passada do ocorrido, não parava de latejar, parecia ter apaziguado a indignação da mãe.

"Já disse que não vou mais fazer isso, mãe. A senhora ainda vai ficar muito tempo sem falar comigo?"

"No lugar dela em nem perderia meu tempo deixando de falar contigo. Você é um caso perdido, adanzinho tolo."

Estel voltou-se rapidamente e encontrou um irônico par de sobrancelhas erguido em sua direção.

"Além de péssimo escalador de árvores, você é um vigia muito distraído. Eu podia ter cravado minha adaga em suas costelas, antes que você percebesse não se tratar exatamente de sua mãe zangada com uma travessura."

Estel franziu as sobrancelhas, entre a surpresa e a incompreensão, mas logo se ergueu irritado. Já não bastava o ridículo que tinha feito? Elrohir tinha que vir até ali provocá-lo?

"Sua expedição não podia ter durado mais uma estação?" ele sentou-se desgostoso do outro lado da cama, já apoiando a mão sobre a cabeça envolta em bandagens. Aquela maldita dor de cabeça nunca ia passar? "Elladan também voltou?"

"Está nas casas de cura, lidando com o amontoado de ervas que trouxe. É tudo o que ele faz durante nossas viagens, fica juntando mato para nosso pai. Eu digo que ele não consegue se divertir. É oficial."

Estel quis sorrir. Estava com saudades dos gêmeos, mas preferia tê-los reencontrado em outra ocasião. Logo a mão de Elrohir já envolvia um de seus braços.

"Ada disse que você precisa de repouso por mais um tempo. Será mais aconselhável que obedeça às ordens dele, em especial para que a culpa de qualquer piora que venha a ter não recaia sobre mim. Já tenho problemas o bastante."

Estel respirou fundo, mas depois se desprendeu da mão do irmão e, ao invés de seguir seu conselho, ergueu-se como que para mostrar ao irônico elfo que ele não era um desvalido que mal conseguia ficar em pé. Logo percebeu que estava enganado.

"Teimoso como todo adan. Deve ser hereditário. Faça-nos o favor de nunca ter filhos," Elrohir ergueu-se em seu socorro ao vê-lo cambalear, trazendo-o de volta para a cama. Estel até pensou em reagir, mas o elfo ainda tinha alguns bons centímetros a mais que ele; e a estatura não era o único fator que os diferenciava. Ele se deixou levar insatisfeito para a cama a qual quase não abandonara desde o acidente.

"Você também pensa como eles, não pensa, Elrohir?" O rapaz indagou em um desabafo. "Também acha que nós edain somos repletos de defeitos. Não sei por que me trouxeram para viver nesse lugar," ele completou, mesmo sabendo que provocar a língua afiada de Elrohir não era a melhor das manobras. Mal terminara sua queixa já estava arrependido do que dissera, sabendo inclusive que mais arrependido ficaria quando o gêmeo mais novo começasse seu discurso e o colocasse no devido lugar.

Mas o discurso não veio, nem qualquer outra resposta. Por isso Estel virou-se receoso agora para Elrohir. Um pensamento ainda mais incômodo do que sentir que havia bancado a criança mal criada com o elfo, era o que estava sentindo agora; o de que agia como a mais ingrata das criaturas.

Para sua surpresa Elrohir não parecia nem zangado, nem chateado com o que ouvira, na verdade ele estava bastante distraído com algo que tinha nas mãos, uma das pequenas estatuetas que Estel havia ganhado de um dos artesãos locais e colocara no criado mudo. O gêmeo simplesmente a apanhara e a estava observando displicentemente como se nem sequer o houvesse ouvido.

"Por que às vezes acho que você não se importa com nada, Elrohir?"

"Por que perde seu tempo pensando no que importa ou não importa aos outros, Estel?" Elrohir devolveu a pergunta, colocando novamente a estátua no lugar e olhando-o com uma seriedade que não lhe era característica.

"Acha que estou errado?"

"Depende."

"Depende do quê?"

"Depende de quem se beneficia com o pensamento."

"Como assim?"

"Tudo tem dois lados, Estel. Se apenas um lado se beneficia com algo isso não pode ser bom; pode ser justo, pode ser correto, mas não pode ser bom. Não a meu ver."

"Não compreendo."

"Estel, você precisa parar de tentar ser como os demais elfos que às vezes agem como se tivessem a sua idade, mas na verdade não têm – embora sejam capazes às vezes de criancices piores do que os edain da sua idade. Tem que parar de se importar com o que eles classificam como bom ou ruim, parar de se obrigar a ser outro alguém apenas para ser aceito por eles. Eles não importam, Estel. Seja você e ponto final."

Estel desprendeu os lábios surpreso. Tudo o que havia ouvido desde sempre era que fizesse o possível para se adaptar àquele reino e aproveitasse tudo o que pudesse ser aprendido ali.

Elrohir aproximou mais seu rosto do dele então.

"Seja você e ponto final," ele repetiu. "Depois desse ponto final, vai acabar percebendo que os próximos parágrafos vão mostrar a você que na verdade não é tão diferente deles assim. Pelo menos não nos quesitos que precisa para ser alguém de valor. Em alguns deles vai perceber que é até melhor do que nós."

Estel ficou em silêncio, vendo-se refletido nas pupilas escurecidas do elfo. Ele conhecia Elrohir, sabia que algo mais o estava incomodando, que não apenas aquele acidente banal do irmão humano encrenqueiro que arrumara para si. Uma hipótese incômoda tomou-lhe repentinamente as ideias.

"Elladan está mesmo só verificando ervas na casa de cura?" ele arriscou receoso, era estranha aquela visita de Elrohir assim, sozinho. Raramente os irmãos se separavam, principalmente chegando de uma jornada. Elladan gostava de acompanhar o gêmeo, ouvi-lo contar ao caçula sobre os detalhes da viagem. Quando percebeu que seu questionamento fez o irmão estremecer, Estel se preocupou ainda mais. O silêncio que se seguiu o fez querer levantar-se novamente, dessa vez o elfo o segurou. "Aconteceu alguma coisa com ele? Ele está bem? Diga Elrohir."

"Ele está bem," Elrohir segurou-o pelos ombros para que ficasse deitado. "O cavalo o derrubou, é só isso. Com sorte nem vai precisar de uma tipoia abominável como essa sua." Ele lançou um olhar de asco para a faixa que o rapaz usava. "Sério, Estel. O que anda fazendo, limpando o nariz com essa imundície?"

Estel nem sequer se deu ao trabalho de cair no velho jogo de distração do gêmeo mais novo. Sua mãe o incomodava todo o santo dia para que trocasse a maldita tipoia, caso contrário talvez estivesse mesmo no estado no qual o gêmeo a classificara.

"Por que ele caiu do cavalo?"

"Ele não caiu. O cavalo o derrubou. Estava cavalgando um animal que não lhe pertencia. A égua dele está prenha, lembra-se?"

"E o animal o estranhou?" Estel franziu a testa descrente. "Conte-me outra história mais crível, Elrohir. Vocês dois são os melhores cavaleiros da cidade. Podem montar um lobo enlouquecido que ele não os derrubará."

Elrohir moveu os olhos para a porta do quarto então e Estel viu naquilo a melhor reação de defesa do gêmeo. Ele sabia bem quão complicada ficaria aquela conversa agora e a manobra que teria que fazer para conseguir qualquer informação do irmão elfo.

"Conte-me o que aconteceu, Ro, por favor," ele recorreu então a uma artimanha que Elrohir classificara certa vez como 'jogo desigual de irmão caçula', mas que nunca falhava. Seu tom clemente, mas paciente, fez com que o gêmeo enchesse insatisfeito o peito de ar.

"Já estávamos quase chegando e discutíamos por causa de uma bobagem da qual eu nem me lembro bem. Algo sobre esse hábito dele de parar a cada instante para verificar um espécime qualquer. Estava cansado e não queria mais ter que esperar Elladan verificar outra planta que via no caminho. Ele vinha na frente pela parte rasa do rio perto da margem e... acho que se virou para mim muito rápido... ou se distraiu em um momento... ou eu o tirei do sério... Eu não sei... Só vi que cavalo escorregou em uma das pedras lisas do lugar. Caíram ambos."

"Elbereth... Ele só feriu o braço mesmo?"

"Ele bateu a cabeça... Ficou inconsciente até aqui. Sangrou tanto que minha túnica foi para a lareira..."

Dessa vez Estel segurou a mão do irmão com força, mas Elrohir só ergueu o queixo, lançando a ele aquele irônico olhar de canto que lhe era tão característico.

"Vê? Não são apenas os edain imundos e desastrados que fazem tolices e batem suas cabeças duras e ocas no chão."

Estel torceu os lábios com o comentário, mas depois balançou a cabeça.

"Mas Elladan não estava tentando provar nada a ninguém."

"Elladan se acidentou pelo mesmo motivo que você. Cedeu à provocação de alguém por quem tinha mais consideração do que devia. Se importou com a opinião de outro alguém, ao invés de se preocupar em ser ele mesmo e só."

Estel baixou os olhos. Ele não sabia o porquê, mas o comentário de Elrohir lhe pareceu deveras injusto. Elladan era o mais prudente dos guerreiros. Pelo que sabia já havia enfrentado batalhas de todos os tipos. Mas o olhar perdido de Elrohir só fazia transparecer que a opinião do gêmeo mais novo não era de todo diferente da dele.

"Ele melhorará em breve, certo?"

"Claro. Já havia recobrado a consciência quando eu saí de lá..."

"Por que saiu?"

"Por que seria? Ada me direcionou aquele olhar, com direito a sobrancelhas e que você desejar acrescentar. Sorte que seu único conselho foi que eu viesse visitá-lo e não o que por certo ele gostaria de me dizer para fazer, principalmente após ter descoberto o motivo do acidente."

Estel sorriu então, embora não fosse um sorriso dos mais convincentes.

"Está preocupado que Elladan esteja zangado com você?"

"E você já viu Elladan zangado com alguém? Ele já estava colocando panos quentes na indignação de nosso pai, dizendo que eu não tinha culpa e que ele havia se distraído e aquelas outras coisas que ele acaba sempre fazendo quando quer me proteger. Fiquei com vontade de bater a cabeça dele de novo para ver se ele acordaria diferente um pouco, se aprenderia a não me dar tanto crédito assim."

Estel soltou um riso dessa vez e foi tão sincero que Elrohir se viu rindo também.

"Fiquei com vontade de bater a minha cabeça, isso sim," o elfo admitiu. "Quem sabe eu acordaria diferente."

"Nem me fale em bater a cabeça." Estel colocou a mão por sobre suas bandagens. "Espero que Elladan não fique tanto tempo com dor de cabeça quanto estou."

Elrohir ofereceu um sorriso sutil agora. Aquele sorriso de irmão mais velho que poucas vezes ele dava. Ele apoiou então a mão por sobre a bandagem do caçula.

"Ada disse que já era para você estar se sentindo melhor. Disse que você só está tenso."

"Tenso... Eu não saio dessa cama."

"Não tem serventia permanecer deitado, mas não relaxar, Estel. Esqueça o que aconteceu. De que valem as experiências que temos se as usamos como martírio e não como ensinamentos? Aconteceu e acabou. Pronto, amanhã você fará melhor."

"Você vai seguir o seu conselho?" Estel provocou e Elrohir deixou um riso debochado escapar-lhe, pego em sua própria armadilha.

"Vou tentar. Afinal tenho que dar oportunidades para meus erros de amanhã."

Estel riu então, mas foi outro riso fraco que só o fez voltar a apoiar a mão na cabeça.

"Está tomando a medicação?"

"Só para dormir à noite. Se não durmo o dia inteiro, para depois acordar com a maldita dor de cabeça de novo."

Elrohir suspirou cansado, olhando o irmão com carinho.

"Você será um grande guerreiro. Nossa terra ainda vai se orgulhar de ter sido seu berço."

Estel fechou os olhos com o comentário.

"Pode voltar a me provocar, está bem?" ele brincou. "Eu prefiro quando você é sincero."

"Estou sendo sincero, adanzinho tolo e implicante," ele disse e quando Estel reabriu apenas um olho provocativamente para olhá-lo, o gêmeo teve que rir. "Quando vai acreditar mais em si mesmo?"

"Quando essa dor de cabeça das trevas passar," Estel disse, voltando a descer as pálpebras. Uma coisa o convívio desde a infância com Elrohir havia lhe ensinado; a arte de fugir de situações constrangedoras.

"Quando a tristeza passar também, não é Estel? Para essa medicamento algum pode ter efeito," ele observou e seu tom sério fez o irmão voltar a olhá-lo. "Sua mãe me disse que não quer mais comparecer aos treinos com os elfos de Glorfindel. Ada se queixou também de sua ausência nas Casas de Cura. O que se passa?"

"Disse para eu ser eu mesmo, não disse? Acho que esse é um bom caminho."

"Qual? Deseja trabalhar na cozinha com Celboril? Na Estrebaria com Elrochian? Não, não, espere! Seu intuito agora é praticar a harpa com Lindir! Isso! É claro! Tocar harpa o dia todo é mesmo um futuro perfeito para você."

"Pare de me provocar ou vou pedir que nosso nobre trovador lhe mostre o que suas mãos de harpista fazem com uma espada nas mãos." Estel defendeu o menestrel com vigor.

"Ah... É verdade, não é? Pois é..." Elrohir girou os olhos em uma atuação tão descarada que Estel sentiu vontade de esmurrá-lo. "Pois vejam só... Acho que nosso igualmente nobre Celboril se defende bem, até mesmo usando como armas aquelas panelas se necessário... Por que será? Não seria porque todos treinaram arduamente quando jovens para a guerra? Humm, não sei... Talvez treinem ainda até hoje, não é? Eu vejo Lindir no campo de treinos com Glorfindel até hoje... Claro... Ele não é tolo... Nos dias difíceis que vivemos... O que acha, Estel?"

"Por que você não vai ver se estou na estrebaria, Elrohir?"

"Você deve ter estado por lá, afinal sua cabeça anda cheia de estrume de cavalo."

Dessa vez Estel bufou e ele só não se levantou porque seu súbito nervosismo só lhe fez doer mais a cabeça.

"Você é a pessoa mais cruel que eu conheço, Elrohir," ele lamentou com um careta de dor. "Vá embora, vá. Não sei por que nosso pai mandou-o vir até aqui. Acho que para irritar mais alguém. Você gosta mesmo de fazer isso, não é?"

Elrohir virou a cabeça com um ar inocente no rosto que fez com que Estel se apercebesse o quão inútil seria provocar o irmão. Ele conhecia Elrohir, quando estava anestesiado daquela forma com algum pensamento muito grande a incomodá-lo, nada mais podia tirá-lo do sério. Por esse motivo, Estel decidiu que aquela era uma batalha perdida, uma batalha para a qual ele não tinha nem energia, nem disposição. Quando soltou os braços ao lado do corpo e moveu o rosto sobre o travesseio, Elrohir voltou a olhá-lo com complacência.

"Façamos um acordo," propôs o elfo.

"Eu não gosto dos seus acordos."

"Seja inteligente e escute primeiro antes de responder."

Estel bufou baixinho, depois assentiu a contragosto.

"Você me promete que voltará às práticas com Glorfindel e com nosso pai e eu faço sua dor de cabeça passar."

Estel soltou um riso descrente.

"Como?"

"Primeiro me prometa."

"Isso é fácil. Você sabe que eu voltarei de qualquer modo. Eles não me deixarão em paz..."

"Não. Voltar de verdade."

"Como assim?"

"Voltar em espírito e não apenas mente."

"Do que você está falando, Elrohir? Eu me dedico ao que faço. Posso ser um confuso e desastrado, mas..."

"Você acha que se dedica. Mas passa o tempo todo encenando. Fingindo ser outro alguém."

"Eu não faço isso."

"Você não luta como um adan."

"Luto como o quê, então?"

"Como um elfo. Não pode lutar como um elfo. Tem que lutar como alguém do seu povo, do seu sangue. Tem que sentir o que herdou. Descobrir as vantagens que só você tem por ser um adan."

"E quais são essas vantagens?"

Elrohir apertou os lábios.

"Persistência," ele disse com olhos escurecidos novamente. "E medo do desconhecido. O medo faz dos homens fortes; e melhor, faz deles adversários que valorizam cada golpe como se fosse o único, como se fosse o último. Acredite em mim, lutar contra um elfo é muito mais fácil do que contra um adan."

Estel ponderou um instante sobre aquele ensinamento.

"Você se sente dividido, Ro?"

"Dividido?"

"Sim. Meio elfo, meio adan..."

As sobrancelhas do gêmeo fizeram um ligeiro vai e vem, mas depois ele compreendeu o propósito do questionamento.

"Quer saber se eu tenho medo?"

Estel mordeu o canto dos lábios apreensivo.

"Tenho. Tenho medo o tempo todo. Mas o medo é mais uma ferramenta em nossas vidas. Ele pode ser o nosso escudo ou nossas correntes. Nós é que nos decidimos que utilidade queremos dar a ele."

Estel baixou os olhos então, mas logo os reergueu.

"Pode mesmo dar fim nessa maldita dor de cabeça?"

Elrohir exibiu um sorriso triste, mas assentiu.

"Posso tentar..." ele disse.

"Como?"

"Fazendo algo que sei fazer, desde que você me jure solenemente jamais contar a alguém. Ninguém mesmo."

Aquilo era uma novidade que fez Estel voltar a franzir o cenho.

"Algo?"

"Faça-me um juramento solene, adanzinho tratante."

"Sentirei dor?"

Outro riso escapou do gêmeo.

"Já disse para encontrar outra utilidade melhor para o seu medo, não disse?"

Estel estalou a língua.

"Certo. Eu prometo."

"Jure solenemente."

"Elrohir!"

"Jure, vamos!"

"Eu juro solenemente não contar a ninguém como Elrohir fará com que minha dor de cabeça pare. Juro solenemente também cortar-lhe as tranças na primeira oportunidade se ele estiver me fazendo de bobo ou me colocar em alguma situação constrangedora para tanto."

"Certo..." Elrohir respondeu depois de soltar um riso breve diante daquela provocação. "Fique confortável e feche os olhos."

"O que você vai fazer?"

"Quer confiar em mim?"

"Querer eu não quero, mas estou sendo obrigado."

Elrohir não disse mais nada, ele apenas apoiou a mão por sobre os olhos do irmão e esperou. Estel procurou relaxar então o quanto podia. Estava acostumado a ser tratado por Elrond ou por Elladan, aceitava o toque dos dois sem qualquer constrangimento ou temor. Mas ver Elrohir agindo como curador simplesmente era algo incabível, por mais que ele tentasse fazer de conta, controlar o desconforto, esperar pela brincadeira que viria. Sim, porque aquilo só podia ser mais uma das peças que Elrohir gostava de pregar em quase todas as pessoas. Ele não conseguia sequer acreditar que o gêmeo mais novo conseguisse ficar sério e concentrado por tanto tempo como estava fazendo. Aquele era um lado de Elrohir que ele não distinguia. Que simplesmente não combinava com o Elrohir ora irritado ou debochado que ele conhecia.

Estel administrou todos aqueles pensamentos, enquanto procurava relaxar como o irmão havia lhe pedido. Se aquela acabasse por ser uma brincadeira, não lhe restava outra atitude que não aguardar pelo desfecho e esperar que o humor de Elrohir não estivesse muito exagerado naquele dia.

Mas o que se deu a seguir não foi o que Estel esperava, convertendo-se então em uma das experiências mais marcantes de sua vida. Ela começou com a voz do gêmeo murmurando uma canção, a princípio tímida, mas que foi crescendo em força e potência lentamente. Elbereth, nem Lindir o havia feito ter uma sensação daquelas. Estel sentiu seu corpo desprender-se devagar do leito no qual estava, a temperatura quente amenizou-se, o aroma das flores invadiu delicadamente o quarto e a dor, qualquer dor, simplesmente perdeu o significado.

Era uma canção suave, que falava sobre sorrisos e esperança, sobre o desejo de continuar, de desacreditar em um coração de fato partido, de olhar além das nuvens, de sobreviver a mais um dia.

E o gêmeo parecia sentir cada palavra, e não apenas as entoar como quem declama a esmo um verso qualquer. Ele subia tom a tom, parecendo crer no que cantava, crer que um sorriso afastaria o medo e a tristeza, desfaria as trevas, secaria as lágrimas, reestabeleceria o valor da existência, acalmaria espíritos, traria a luz de um novo amanhecer.

Elrohir cantou aquela canção mais de uma vez, Estel nem soube dizer quantas, pois adormeceu sentindo as pontas dos dedos do irmão passarem suavemente sobre sua testa, roubando-lhe as dores e os maus pensamentos.


Naquela manhã no vilarejo que agora era seu lar. Estel se reencontrou ouvindo a voz do irmão e exercendo a função que seu pai lhe atribuíra e que só agora ele compreendia – Elrond não queria que ele apenas trouxesse a pequena Larissa ao mundo, ele queria que ele trouxesse a si mesmo de volta. Ele se reencontrou definitivamente, deslizando o bisturi em uma incisão transversal sobre a pele da Rebecca, abrindo lentamente os tecidos, separando músculos, chegando enfim à parede uterina.

Quando a pequena Larissa passou para as mãos de Celebrian, a voz de Elrohir cantava algo sobre guerras e conquistas, uma canção que Estel não conhecia, cujas palavras falavam sobre a luta de um filho usando a arma de seu pai, mas cujo refrão discorria sobre barcos que velejam a noite, sobre estar ao lado dos justos e sobre voltar para casa uma vez conquistada a paz desejada.

Estel gostou daquela canção ainda mais do que das anteriores, mas não se deixou levar pela imagem que criara para si ao ouvi-la: a de Danika, os filhos e ele vivendo pacificamente em algum paraíso idílico diferente dali. Ainda havia muito que fazer e agora Estel estava feliz por isso, por ser útil, por ver a vida brotar e, principalmente, pelo menos uma vez, por sentir a felicidade de seu povo.

Que o bom Ilúvatar abençoasse seu irmão e que eles nunca mais duvidassem de seus dons e do bem que poderiam fazer.


Estel continuou ao lado de Rebecca pelo resto da noite, aguardando por seu despertar. Em uma cadeira ao canto da sala a jovem Eleonora também permanecera, recusando polidamente a dispensa do médico, mas permitindo que seus olhos vagassem por aquelas paredes como se seu pensamento estivesse longe dali. Um sorriso de paz estava em seu rosto.

"O senhor sabe quem está cantando, doutor?" ela enfim indagou, quando Elrohir dava uma pausa em outra canção, mais serena que a anterior agora.

Estel deixou-se ficar um pouco ali, esperando pela próxima estrofe. Era uma canção informal e a voz do irmão parecia relaxada agora, como se aquela fosse apenas uma brincadeira. Nela Elrohir cantava algo como não ser do tipo que se socializa, nem que dá atenção às canções de amor que sussurravam em seus ouvidos. Nas notas finais ele terminava dizendo que os anos passavam, mas ele continuava a ser o louco que sempre fora.

Estel soltou um riso fraco, cansado, mas feliz.

"É meu irmão..." ele apenas disse.

Eleonora, que estava igualmente distraída com as últimas notas da música, custou ainda um pouco para se aperceber da resposta à sua indagação.

"O Capitão?" ela perguntou descrente. Poucos ali conheciam Elrohir pelo nome que usava, o apelido se devia ao fato do Grande Tigre sempre chamá-lo dessa forma em público.

"Sim," o sorriso de Estel se alargou. "O próprio."

"Mas..." Ela parecia realmente surpresa. "Eu jamais imaginaria que ele fosse um cantor."

Estel balançou a cabeça.

"Então continue não imaginando, Eleonora, pois esse é o último título que ele almeja."

"Mas cantando assim? Ele deve ter sido um profissional um dia. Deve ter estudado muito. O que ele faz com a voz é inacreditável..."

"Não... não..."

"Mas cantou a noite inteira praticamente sem pausa, doutor... E essa voz dele..."

Estel apertou os lábios e seu coração entristeceu-se pela primeira vez naquela noite. Conhecendo Elrohir como conhecia, sabia bem o que isso havia lhe custado. O silêncio se prolongou, dando a entender então que o gêmeo enfim decidira que já fizera o bastante pelo caçula e estava deixando seu posto. Estel pensou em levantar-se e ir até ele, mas queria ao menos ver Rebecca despertar antes disso. Em um bercinho improvisado ao lado do leito, a pequena Larissa dormia serenamente segurando o dedo indicador de Celebrian em sua mãozinha. Ela nem sequer chorara, parecendo inclusive ter um belo sorriso no rosto quando Estel olhou-a pela primeira vez. Já nascera abençoada a pequena Larissa, abençoada pela voz de Elrohir.

Celebrian havia apoiado a cabeça na grade do berço agora, cantarolando baixinho uma pequena cantiga de ninar, ela escorregou os olhos em direção do filho e, quando viu que estava sendo observada, sorriu-lhe.

"A senhora é a melhor mãe do mundo, sabia?" Estel sussurrou-lhe, sabendo que a elfa não teria qualquer dificuldade de ouvi-lo, mas Celebrian apenas sorriu novamente como resposta, oferecendo-lhe uma breve piscadela, antes de voltar a acompanhar o sono da pequenina.

Estel soltou os ombros enfim, concentrado naquele silêncio que para ele era o melhor presente nos últimos dias. A dor de seu povo continuava silenciada, mesmo depois do término da canção de Elrohir, fazendo Estel indagar-se sobre o que acontecia lá fora. Teria o gêmeo adormecido uma multidão?

"Mãe..." ele ia chamando por Celebrian, intencionado a indagar a elfa se os ouvidos mais poderosos dela conseguiam captar o que ocorria lá fora, quando os olhos de Rebecca finalmente se abriram.

"Doutor..." ela disse ainda meio zonza, roubando dele qualquer outra intenção que não colocar-se ao lado dela para verificar se tudo estava bem.

"Estou aqui, Rebecca. Como está se sentindo?"

"Meu senhor Eleazar... Deu tudo certo?"

"Sim, sim," ele fez um sinal para Celebrian, que já se adiantara em pegar a bebezinha e trazê-la rapidamente para os braços ansiosos da mãe. Os olhos de Rebecca brilharam e suas mãos trêmulas receberam a filha com grande emoção.

"Ah, minha bebezinha... Olá, minha Larissinha," ela exibia um sorriso brilhante agora, enquanto Estel a ajudava a sentar-se. Eleonora se adiantou a tomar o lugar do médico que se afastou então, enquanto as duas mulheres aprontavam a paciente para que fizesse o que o instinto acabava por induzi-la a fazer. Logo a pequena Larissa ganhava não só o afeto, mas o seio de Rebecca, ao qual segurava com ávidas mãozinhas e sugava com surpreendente vigor.

Estel afastou-se então, encostando-se em uma das paredes do cômodo e soltando um suspiro aliviado. Ali ficaria, observando aquela cena terna, se não sentisse uma mão apoiar-se sobre seu ombro e fosse surpreendido pela imagem de alguém que não esperava encontrar tão cedo.

"Pai?" ele viu-se diante do olhar sereno do curador, que o puxou para um breve abraço, antes que ele pudesse tecer-lhe qualquer questionamento. Celebrian também se surpreendeu, erguendo-se e vindo ganhar seu lugar nos braços do marido.

"Não esperava seu retorno tão cedo!" ela disse com alegria e não se importou em beijá-lo diante de todos os presentes.

Elrond a manteve junto a si, envolvendo-a pela cintura com um braço e mantendo o outro nos ombros do filho. Ele agora olhava a cena que tinha diante de si com visível satisfação, até que Rebecca arredondou os olhos ao vê-lo.

"Doutor!" a voz da moça mal saiu de sua boca. "O senhor já voltou? O senhor foi ao acampamento? O senhor... Oh... por favor..."

Elrond soltou-se então dos braços da família e veio em direção da paciente. Erguendo a mão e já segurando a que ela lhe oferecia.

"Venho do acampamento do pai de Larissa, minha cara."

"Ah, por favor, por favor, conte-me deles... por favor..."

"Precisava saber como você estava antes de fazê-lo, Rebecca."

"Eu..." Rebecca arredondou novamente os olhos. "Oh... eu... eu preciso saber, senhor. Não importa como estou... não importa," ela dizia, trazendo instintivamente a bebezinha para junto de si como se imaginasse que algo fosse levá-la para longe.

"Está com dores fortes?"

"Não... Não... Eleonora... Ela me ajudou... Ela acabou de me dar um daqueles chás e..." Rebecca olhou rapidamente para a jovem médica, que assentiu ao curador.

Elrond ainda analisou a paciente por um instante, apoiou a mão por sobre a cabeça da bebezinha, depois pareceu parar para refletir. Rebecca estava tão nervosa que começou a tremer e simplesmente não conseguia parar.

"Doutor... por favor..." ela o chamou então, estranhando ver o médico se afastar em direção à porta.

"Vai ficar tudo bem," Elrond sorriu-lhe, já com a mão por sobre a maçaneta. "Confie em mim."

Dizendo isso ele abriu a porta, fazendo um pequeno gesto de concordância para quem estava depois dela. Surgiram então dois rostos relutantes. Um homem e um menino, ambos de cabelos escuros e cacheados. Eles ofereceram um sorriso sincronizado ao ver a paciente, que primeiro empalideceu como se estivesse defronte dois fantasmas, depois ergueu o braço livre, esticando-o o quanto podia em direção aos recém-chegados.

"Oh! Robbie! Robbie!" ela disse enquanto o homem dava ligeiro a volta e ajoelhava-se diante dela. Ela olhava alternadamente para ambos. "Meu filho, venha aqui, venha aqui com a mamãe, meu filho..." O menino aproximou-se também, mas quando quis agachar-se junto ao pai, a mãe segurou sua mão, o fez sentar-se na cama e o puxou para deitar a cabeça em seu peito, cobrindo-o de beijos. "Eu não acredito que estão aqui... Eu não acredito que estão bem... Eu não acredito que estamos juntos novamente..."

Estel acompanhou a cena com um sorriso largo nos lábios. Robbie ainda direcionou-lhe um breve cumprimento de cabeça ao qual ele retribuiu e Rebecca ofereceu-lhe um olhar de agradecimento inestimável, antes que Elrond o puxasse sutilmente para fora do cômodo. Celebrian os acompanhou.

"Acho que nossa boa Eleonora pode dar prosseguimento aos cuidados necessários agora. Ajuda não faltará a ela," disse o curador, enquanto esperava a passagem da esposa pela passagem que abrira e conduzia o perplexo filho para fora do recinto. Quando a porta se fechou atrás deles, Estel cravou seus olhos questionadores no pai.

"Ada! Como Koppel se curou? O senhor desenvolveu algum medicamento novo sobre o qual não me falou?"

Elrond balançou a cabeça, trazendo o filho consigo enquanto caminhavam em direção à praça principal. Logo Estel pôde ver que havia uma multidão reunida no local e, pelo contrário do que podia ser imaginado, nenhum deles parecia disposto a sair de lá tão cedo. Era uma espécie de celebração.

"Meu Senhor!" ele exclamou surpreso. "Elrohir foi capaz de fazer isso com seu canto? De trazer tanta alegria?"

Alguém se aproximou então, abraçando-o com vigor. Era Danika. Darian e Síne estavam com ela.

"Como está Rebecca e a bebezinha?" ela foi logo indagando. "Deu tudo certo?"

Estel assentiu, mas foi a única resposta que conseguiu dar ao questionamento, pois os dois filhos pareciam ansiosos a lhe contar as novidades.

"Você ouviu, papai? Ouviu o tio cantar?" a filha segurava sua mão animadamente. "Ele tinha prometido pra mim, lembra? Nossa, papai, ele canta mesmo como você falou. Ele subiu ali depois que o Grande Tigre falou com todo mundo, pediu licença e começou cantando uma canção, depois outra e outra."

"É, pai. Foi incrível!" Darian que nunca parecia empolgado com nada tomou a palavra. "Eu não acreditava que ele cantava assim. Todo mundo foi parando o que estava fazendo, gente veio de longe para ver. Eles ficavam pedindo mais, implorando mesmo pra ele continuar."

"Ele cantou a noite inteira, não foi, mamãe?" Síne continuou, buscando a concordância da mãe que apenas moveu a cabeça para reforçar as palavras da filha. "As pessoas foram ficando felizes como você falou que acontecia. Até as que estavam chorando porque a música era bonita também estavam felizes."

"Foi mesmo." Darian era todo orgulho. "Você precisava ter visto, pai. Todo mundo se sentou e ficou ouvindo. Nem as crianças quiseram brincar. É mágica, não é pai? Ele faz mesmo um tipo de mágica, não é?"

Estel esboçou um sorriso cansado.

"É..." ele disse. "É um tipo de mágica."

"Então no fim ele cantou uma música bem bonita e fez umas brincadeiras conosco, então parou e agradeceu. Disse que estava cansado e precisava dormir. Ele falou umas coisas bonitas antes de ir, não foi, mamãe?" Síne voltou a acrescentar.

"Foi, filhinha," Danika sorria com o entusiasmo dos filhos. "Ele pediu que guardássemos aquelas alegrias de hoje como armadura para os dias difíceis e todos o aplaudiram."

"E um velho, quer dizer, um senhor o chamou por um nome engraçado. Qual foi mesmo, mãe?" Darian indagou e Danika soltou um suspiro.

"Bardo... Ele o chamou de O Bardo."

"Isso. Ele gritou 'Salve o Bardo' e todo mundo repetiu um monte de vezes." Darian relatou, mas depois se voltou para Elrond com um ar interrogativo. "Vovô, o que Bardo quer dizer?"

Elrond colocou a mão na cabeça do menino com carinho.

"Bardo é o trovador, um poeta medieval, uma pessoa que conta a história de um povo através da música, do canto. Existem muitas lendas sobre bardos, cujo canto especial tinha grandes poderes."

"Ah, o do tio Einarr tem, não tem, mamãe?" Síne disse resoluta.

Danika olhou para a família sem saber o que responder, por sorte Darian parecia ainda ter muito que contar.

"O mais incrível foi que, quando o tio Einarr se despediu e agradeceu, dizendo aquelas coisas sobre a gente ser feliz sempre que pode e que tudo pode melhorar quando a gente menos espera, o grupo do vovô chegou com as pessoas do campo dos doentes."

"É mesmo! E foi uma confusão de gente contente, não foi?" Síne ficou tão feliz com a lembrança que segurou a mão do irmão com força. Darian apenas assentiu. "Se foi! Todo mundo correu e abraçou os que tinham chegado. O avô do Adino, os pais da Isolda, o marido da Rebecca e o filho dele, o Koppel! Todos vieram. Não tinha mais ninguém doente. O vovô curou todos eles."

"Não foi bem assim..." Elrond tentou explicar, mas Estel já movia surpreso os olhos pelo acampamento, constatando a verdade do discurso dos filhos, reconhecendo os enfermos já com suas famílias. Grupos continuavam reunidos, casais abraçados, alguns cantavam e dançavam, outras pessoas estavam simplesmente sentadas em um canto, quase adormecidas. Alguns o viram de longe e sorriam e acenaram.

"É verdade!" Estel disse surpreso. "O que... o que aconteceu, pai? Como os curou?"

Elrond moveu a cabeça em um incômodo bastante visível, mas seus olhos procuravam agora por outro alguém.

"E onde está o tio bardo de vocês, crianças?" ele indagou, mudando propositalmente de assunto, e os dois irmãos giraram a cabeça pelo acampamento.

"Acho que ele foi dormir..." Síne disse incerta. "Ele parecia com bastante sono..."

"É." Darian olhava a sua volta ainda em busca. "Ele passou por mim, bagunçou meu cabelo, mas eu não me lembro de ter dito nada. Estava uma confusão de gente se abraçando."

"Ele se aproveitou do pequeno momento no qual deixou de ser o centro das atenções e foi para casa," Danika comentou com um sorriso carinhoso voltado para a imagem que tinha na mente. O irmão deslizando sorrateiro pela multidão em busca de um pouco de paz. "Ele passou por mim e se despediu, dizendo que precisava dormir. Me pediu para ver se tudo tinha dado certo no parto de Rebecca. Ele parecia mesmo muito cansado. Eu ia acompanhá-lo, mas as crianças tinham desaparecido na multidão. Ainda tenho que buscar as meninas que estão com as senhoras do abrigo."

Estel olhou o pai preocupado.

"Ele deve estar em minha câmara com Lazarus," Elrond comentou. "Vá buscar seus filhos. Nos encontraremos lá."

"Darian e Síne me ajudam. Já que esses pimentinhas não estão dormindo mesmo," Danika leu a preocupação do marido. "Vá encontrar Einarr , El. Nos vemos na caverna."

Estel sorriu para a esposa, que o beijou rapidamente, já acenando para que os filhos a acompanhassem.

"Digam boa noite a seus avós, crianças."

"Boa noite, vovó!" Síne esticou-se para poder beijar Celebrian. "Boa noite, vovô," ela fez o mesmo, mas Elrond ergueu-a um pouco para desejar-lhe boa noite. Darian apenas acenou de longe.

"Boa noite, pequenos," Estel despediu-se também. "Eu vou dar-lhes um beijo de boa noite assim que chegar, certo?"

"Certo, papai," as crianças ainda disseram, caminhando cada qual segurando uma das mãos da mãe. Estel as ficou observando por um tempo, sentindo o corpo leve, como se houvesse acabado de acordar. Só então se voltou para o pai, que já tomava a direção da caverna.

"Pai, o que houve no acampamento dos enfermos?" ele acertou seu passo ao dele e da mãe. "Não há mesmo mais resquícios da peste entre eles?"

"Não, criança. Cheguei e já estavam visivelmente melhores. A maioria das chagas já curadas ou em estágio avançado de cura. Quando aqui chegamos não havia mais qualquer sinal da peste em nenhum deles."

Estel teve um momento de estupefação, antes de indagar:

"Quer dizer que o senhor não tem participação nisso?"

"Minha única participação foi, como médico, declará-los curados e livres da quarentena, prontos para serem aceitos no acampamento do Grande Tigre, o que já foi o bastante para enchê-los de alegria, devo admitir."

"Mas eles não se medicaram? Devem ter feito algo diferente."

"Conversei com muitos durante o caminho. E a única história que se repetiu foi a da água do riacho claro que corre por trás das pedras."

"Riacho?"

"Há dois dias um grupo de desvalidos chegou ao acampamento. Eram moradores de rua na cidade e fugiram do tratamento que a polícia local está dando a essa gente. Havia entre eles toda a sorte de deficientes de nascença e outros mutilados pelos atentados, além de idosos e órfãos. Estavam tão cansados e desiludidos que não se importaram em aceitar o alimento e o abrigo de um grupo de doentes terminais infectados. Por certo se julgavam condenados ao mesmo fim; serem perseguidos ou morrerem no abandono."

Estel estalou a língua, insatisfeito.

"E então?"

"Disseram-me que uma senhora desse tal grupo, uma anciã de idade avançada, contou-lhes que se bebessem a água de um pequeno riacho que corria por entre as árvores da Floresta Tenebrosa poderiam se curar. A princípio alguns duvidaram, mas por fim, vendo a visível melhora dos demais, arriscaram-se também. Psicológica ou não, também eles queriam usufruir daquela esperança, vã que fosse. Mas pelo que vi a cura através daquela água é mais do que outra lenda da floresta."

"Conversou com a tal senhora?"

"Sim. Trouxe-a conosco, na verdade. O grupo todo de desvalidos nos acompanhou. A senhora disse-me que ouviu a conversa de outra pessoa e esta me deu a mesma justificativa, indicando-me outro alguém. Por fim, depois de um tempo havia falado com praticamente todo o grupo sem conseguir descobrir a origem da história."

"Não descobriu então como o grupo descobriu sobre a água?"

"Não. Mas isso não me incomodou tanto quanto quando fui eu mesmo averiguar as propriedades desse líquido milagroso."

"O que o senhor encontrou?"

"Água... E algo mais que não consigo classificar."

Estel envergou o cenho.

"O quê?"

"Nada que meu conhecimento determine. Mas eu não tenho todo o conhecimento do mundo, filho. Você sabe disso. Trouxe um pouco da água para analisar e já pedi à Teodor que mande homens trazerem mais por precaução. Seja o que for que o lugar tenha de particular, pode ser temporário. A natureza tem um mistério milenar com o qual não vale a pena arriscar."

Estel torceu os lábios, ainda acompanhando o casal.

"Pai... Precisamos saber onde esse riacho nasce e em que lugar suas águas encontram as de outro rio..."

"Eu sei, criança. Também pedi a Teodor que verificasse isso."

"Quando o encontrou?"

"Assim que cheguei. Não pudemos conversar por muito tempo porque o marido de Rebecca estava ansioso por notícias dela. Eu também estava. Você se saiu muito bem, criança."

Estel baixou a cabeça, esfregando a nuca, constrangido com o elogio do pai.

"As crianças disseram que ele conversou com o povo. Terá ficado para ouvir Einarr cantar?"

"Eu ouvi seu irmão cantar antes mesmo de chegar ao vilarejo. Duvido que Teodor não o tivesse ouvido."

Estel balançou a cabeça.

"Como ele faz isso pai?"

"Quem, criança?"

"Einarr... Como ele consegue fazer o que faz com sua voz?"

Elrond encheu o peito e seus olhos encontraram os da esposa antes de responder.

"O canto é poderoso em nossa família, Eleazar, em nossa história. Nossos antepassados já o usaram como armas de batalha inclusive. Se seu irmão tem o poder que julgamos que tenha, o que você viu hoje pode ser apenas a superfície de um rio, um rio bastante profundo e de difícil navegação."

Estel estancou o passo então e quando Elrond virou-se para ele, lamentou que seu tom houvesse roubado toda a alegria do rosto do caçula.

"Não se preocupe com ele, filho. Diferente de outros guerreiros que conheci, seu irmão sempre teve total ciência do que era capaz de fazer e de onde seria capaz de ir em qualquer manobra que desejasse executar. Não é porque você nunca o viu fazer algo em sua vida que ele não seja capaz de fazê-lo e que, acredite se quiser, ele não saiba exatamente como." Elrond aproximou-se do filho depois desse comentário e segurou-lhe o braço para fazê-lo andar novamente, mas antes completou: "Apenas não o questione, pois tudo o que receberá dele serão evasivas ou inverdades. Não creio que seu irmão um dia admitirá quem é ou o que é capaz de fazer para nenhum de nós. Nem creio que tenhamos a chance de presenciar muito do que ele luta para esconder desde sempre."

"Mas... quem ele é, ada. O que ele é?" Estel indagou em tom tímido e preocupado e o ar que seu questionamento trouxe ao pai também não o agradou.

"Eu lhe diria se soubesse, filho."


A caminhada até a caverna não foi tão rápida quando eles gostariam. Mais de uma vez Estel teve que parar para cumprimentar alguns recém-chegados, ouvir elogios sobre a presteza do pai e o talento do irmão. Se o povo já julgava que aquele homem simples tinha nascido com um destino traçado, conhecer os dons da família dele pareceu só reforçar o afeto e a consideração que tinham por seu Escolhido.

"Nem acredito que chegamos..." Estel disse para si mesmo quando se viu enfim diante da entrada da caverna. "Einarr devia estar muito cansado. Ele nem acendeu os lampiões," comentou, girando os botões que traziam luz ao largo corredor de entrada conforme ia passando por eles. "Acho que Teodor também não voltou para casa."

"Ele tem muito em que pensar..." Celebrian disse em tom entristecido. "Raramente vem à caverna, só mesmo quando Ivana se dispõe a ir até lá buscá-lo. Ultimamente anda difícil convencê-la a fazê-lo. Eles acabam muitas vezes passando a noite na casa central."

"Infringe as próprias regras de segurança que criou para nós," Estel balançou a cabeça inconformado. "Tudo porque não consegue mais ver o filho no estado que está."

"Todos lidam com suas dores como podem, Eleazar," Elrond apoiou a mão no ombro do filho enquanto caminhavam. "E contra algumas o canto do seu irmão infelizmente não foi o remédio que foi para outros."

Estel apenas assentiu. Thranduil era um dos elfos mais poderosos que ele já conhecera. Ele nunca deixaria de admirar a capacidade daquele líder de convencer um povo inteiro de uma esperança que ele mesmo não tinha.

"Teria sido mesmo uma sorte muito grande se as benesses do canto de Einarr se estendessem a nós também..." ele foi dizendo, mas silenciou-se quando viu o pai erguer-lhe a mão. Elrond parou um segundo, mas logo acelerou o passo, só então Estel percebeu o motivo. Elrohir estava caído no corredor, sentado de lado com o ombro apoiado em uma das paredes frias, a cabeça pendida para frente, os olhos firmemente fechados.

"Ion-nîn?" Elrond agachou-se diante dele, erguendo-lhe gentilmente a cabeça com ambas as mãos. Elrohir apertou os olhos com o movimento, mas não os abriu.

"Minha doce Varda." Celebrian segurou-lhe a mão fria. "Ele não tem mais energia alguma em si, Elrond..."

"Ele vai ficar bem, não se preocupe," garantiu o curador, já o envolvendo com o braço esquerdo, trazendo-lhe a cabeça para apoiar-se em seu ombro, enquanto cobria-lhe o peito com a palma aberta. "Vamos lá, ion-nîn. Deixe-me ajudá-lo."

"Estou bem..." ele murmurou quase sem desprender os lábios. "Só estou cansado..."

Celebrian riu um riso de alívio então.

"Seu menino travesso. Quer parar meu coração?" ela pousou a mão em seu rosto, sentindo-o recuperar lentamente o calor conforme Elrond devolvia a ele um pouco da energia que precisava, logo ele já reerguia as pálpebras devagar, encontrando o olhar preocupado da família.

"Que foi? As regras da caverna me proíbem de dormir no corredor?" ele disfarçou a fraqueza de sua voz em um simulado tom descontente, que trouxe um sorriso conformado aos rostos inquietados que o observavam.

"Claro que não," foi Estel quem decidiu dar vazão à brincadeira do irmão. "Mas da próxima vez, acenda a luz para que os outros não tropecem em você no caminho, não é, elfo bobo?"

"Luzes afugentam o meu sono..." Elrohir ainda teve espírito de responder, enquanto o pai o ajudava a se erguer agora. Uma vez em pé, ele libertou-se das mãos de Elrond, dando a entender que conseguiria caminhar sozinho.

"Deixe de ser o orgulhoso de sempre ou vai voltar a cair nesse corredor," Estel quis segurá-lo, mas Elrohir apenas balançou a cabeça, parecendo indisposto até a responder a mais aquela provocação. Ele apenas encostou-se à parede mais um pouco e pôs-se a respirar longa e profundamente.

Estel buscou o olhar de Elrond, mas o pai só fazia analisar o semblante do gêmeo com cuidado, seu rosto parecia ainda preocupado.

"Tem que aprender a administrar sua energia, filho," ele disse por fim. "Não pode se exceder dessa forma sem estar preparado."

"Não vou me exceder dessa forma nunca mais," Elrohir disse de olhos fechados. "Esse povo que encontre outra distração daqui para frente."

"Vai ser difícil depois da alegria que você deu a eles hoje..." Estel disse e quando Elrohir reabriu os olhos e os focou insatisfeitos nele, o caçula sorriu complacente. "Obrigado, gwador-nîn, até a pequena Larissa nasceu com um sorriso nos lábios hoje."

Elrohir chegou a soltar os lábios para oferecer a resposta bastante amarga que parecia só estar à espera do término da frase do irmão, mas fosse qual fosse, ela acabou engolida pelo significado das palavras de Estel. Ele apenas baixou a cabeça, movendo-a em uma fraca negativa.

"Alegria... Podia ter restado um pouco para nós também..." ele disse em um tom tão desolado que surpreendeu aos demais. No entanto, uma voz surgiu do fim do corredor escuro impedindo qualquer outro comentário.

"Se nos trazer alegria era o que lhe faltava na noite de hoje para sentir-se completamente bem sucedido, Capitão, posso atestar-lhe que seu trabalho está completo," Elvéwen disse. Seu vulto quase desaparecido no corredor à frente, ainda na mais completa escuridão. Ela estendeu o braço devagar, acendendo enfim o lampião ao lado do qual parara. Quando a luz resgatou sua bela imagem das trevas, todos foram assolados pela mesma sensação: a de que haviam sido transportados para algum outro lugar, para um sonho talvez, um sonho muito bom.

"Senhor das palavras..." Legolas surgiu junto a ela. Ele apoiou a mão sobre o peito e inclinou o corpo em uma elegante reverência. "Conduza-me sempre como me conduziu hoje no caminho das trevas e eu o seguirei por toda a eternidade, meu Capitão."