O DESTINO DE MUITOS

O futuro em Valinor prometia a paz, mas ela não veio e Legolas não sabia o porquê. Uma revelação finalmente surgiu para lhe indicar o que ainda o impedia de aquietar seu coração. Ele tinha uma última missão. Voltar a Terra Media renovada e, ao lado de Elrond e a família do curador, ajudar novamente seu amigo Aragorn, a quem o destino encarregara de mais uma difícil missão.

Obs:

1. Não possuo nenhuma das personagens e agradeço infinitamente ao professor por tê-las criado.

2. A idéia futurista dessa fic foi baseada em "Memórias de um passado distante", da talentosa Chell, a quem também agradeço por dividir essa inspiração comigo.

3. Algumas referências dessa fic estão associadas à "Vidas e Espíritos", minha outra fic, mas não é necessária a leitura desta para a compreensão desse texto.

4. Algumas palavras em sindarin: ada – papai; nana – mamãe; mellon-nîn – meu amigo; tithen pen – pequenino.

DESCOBERTAS

& O passado e o futuro em um só dia &

"Legolas!" Veio uma voz distante obrigando-o a concentrar novamente seu olhar perdido. Ele não queria fazê-lo, envolvido como estava em recordações doces como se pudesse tocá-las com as pontas dos dedos. "Legolas!" Mas a voz insistia e ele apertava os olhos fechados agora, sem querer sequer identificar a quem a voz pertencia, mesmo porque não importava a quem ela pertencia, ele já aprendera depois de tantos anos cruzando os verdes gramados das Terras Imortais, que qualquer voz era apenas mais uma, pois as pessoas importantes de sua vida não estavam lá. "Legolas, se me fizer subir até aí eu juro que vou trazê-lo pelas orelhas aqui para baixo!"

Ele sorriu inconscientemente, sabia quem era dotado de tamanha impaciência.

"Mestre Erestor." Riu então, pensando que talvez pudesse se prender mais tempo ali apenas para ver se realmente o nobre elfo viria cumprir o que ameaçara. Seria até divertido ver o conselheiro tentando escalar tamanha árvore em seu elegante robe.

"Legolas." Repetiu o elfo e seu tom pareceu se agravar. "Pode descer, por favor?"

O arqueiro estendeu o pescoço o suficiente para ver o que se passava no solo tão longe dele agora. Lá embaixo o sábio elfo mantinha a palma erguida, protegendo os olhos dos raios do fim de tarde. Ele agitou-se discretamente ao ver a imagem do rapaz.

"O dia está belo, nobre Erestor." Respondeu o príncipe tentando ganhar tempo, enquanto pensava se havia feito algo errado que pudesse, de repente, fazer com que o conselheiro se aborrecesse a ponto de querer falar-lhe cara a cara.

"Sim. De fato." Concordou o lorde elfo. "Pode descer, por favor?" Repetiu virando levemente a cabeça. "Muito me incomoda manter a cabeça em tal posição para poder falar-lhe."

O jovem elfo sorriu e suspirou. Pelo visto não teria outra escolha senão abandonar seu esconderijo favorito.

"É urgente minha presença, meu senhor?" Ele insistiu uma vez mais. Sentia-se indisposto a conversar com quem quer que fosse. "O sol logo vai se pôr e eu gostaria de apreciar o entardecer."

Erestor largou os braços ao lado do corpo. Gesto que por si só representou mais do que qualquer sentença que o lorde elfo pudesse proferir. Legolas soltou mais um suspiro, jogando depois as pernas para fora do grande galho no qual estava e deslizando graciosamente por ele e pelos muitos outros que o separavam do chão. Erestor acompanhou o movimento do rapaz com atenção. Ele jamais se acostumaria a vê-lo praticar tais peripécias. Os vários anos de dias e noites na Terra Média faziam parte de um passado muito distante agora, mas o jovem Legolas ainda parecia o mesmo. O mesmo príncipe de Mirkwood, cujo habilidoso jogo de cintura desequilibrava o poderoso rei Thranduil, o mesmo arqueiro valente cujas armas ajudaram o rei Elessar a encontrar seu destino. Mas acima de tudo, para ele Legolas ainda era o mesmo elfinho teimoso que parecia dedicar sua existência para tirá-lo do sério, mas também a eterna criança que dominara o coração de um amigo de quem o conselheiro sentia muita falta, um amigo que amava aquele rapaz como a um filho. Elrond.

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"Prometa que vai olhar por ele, mellon-nin." Disse o curador apoiando uma mão no ombro do conselheiro.

"Tem certeza, Elrond?"

"Tenho." Respondeu o antigo lorde de Imladris com um nó na garganta. "Nem ele e nem eu agüentaríamos encarar a despedida... principalmente pelo motivo que move nossa partida."

"Ele vai sofrer, pobre menino. Vocês são..."

"Por favor, mellon-nin." Pediu Elrond com os olhos úmidos e os lábios trêmulos, ele quase implorava. "Não posso levá-lo comigo... é arriscado e ele já fez muito... foi quem mais fez... não seria justo impedi-lo de encontrar a paz finalmente aqui neste lugar abençoado."

Erestor acenou em concordância, baixando a cabeça e engolindo todas as preocupação com o futuro que subitamente pareciam assemelhar aquele lugar a terra onde haviam vivido durante longos anos.

"Prometa, Erestor. Prometa, por favor. Ele não tem mais ninguém."

O conselheiro se permitiu sorrir então.

"Eu prometo, mellon-nin." Respondeu balançando suavemente a cabeça. "Mas já lhe adianto que esse menino continua o mesmo irrequieto animal disfarçado de gato manso de sempre... de sempre." Ele finalizou com tristeza embora sua pequena brincadeira não tivesse esse objetivo.

Elrond sorriu.

"Então cuide dele para mim, Erestor, mellon-nin" Pediu mais uma vez com um sorriso triste. "Cuide do meu irrequieto animalzinho."

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"Em que posso ser útil, nobre lorde Erestor." Disse o arqueiro depois de fincar seus pés no chão e fazer-lhe uma breve reverência.

Erestor despertou dos devaneios que tinha e olhou o jovem elfo a sua frente com angústia. Viver em Valinor significava não se preocupar mais com destinos e previsões, mas, já há algum tempo, essa teoria parecia não estar sendo tão eficaz na prática quanto o era nas velhas canções.

"Sua presença é solicitada, meu rapaz." Ele respondeu vendo o príncipe franzir os olhos e virar levemente a cabeça.

"Por quem?" Indagou o rapaz confuso. Quem poderia querer falar com ele e por que motivo? Há muito tempo, desde a partida de Elrond e sua família, ele não se sentia parte de mais nada naquele lugar.

"Pelos senhores do grande lago, lorde Celeborn e lady Galadriel." Respondeu o elfo adicionando um valor quase sagrado às palavras que dizia.

Legolas franziu as sobrancelhas e deu um passo para trás em um estranho instinto. Erestor lhe sorriu.

"Sabe que não é conveniente deixá-los esperando."

"O que eu fiz, Erestor?" Indagou o rapaz com os lábios entreabertos.

Erestor riu. Aquele menino nunca se acostumaria com o lugar onde estava? Ele nunca se lembraria de que aquele não era um lugar para castigos ou recompensas?

"Por que julga ter feito algo de errado, menino?" Indagou com a ponta dos lábios ligeiramente erguidas, enquanto encarava o rapaz.

"Por que... por que haveriam de me querer ver?"

Erestor soltou uma risada musical e balançou a cabeça inconformado. Em seguida laçou o rapaz pelos ombros conduzindo-o para fora da floresta. Legolas custou alguns instantes para sincronizar seu passo ao do lorde, pois suas pernas não queriam obedecer-lhe. Eles chegaram finalmente ao grande Lago de Cristal, como era chamado o local onde Celeborn e Galadriel gostavam de ficar. O casal passava horas ali. A bela elfa costumava pentear seus cabelos, auxiliada pelos reflexos das águas cristalinas enquanto o antigo senhor de Lorien cantava antigas canções. Legolas conversara de fato com o casal apenas duas vezes desde que chegara. A primeira, no dia que seu barco alcançou a terra, a outra, no dia em que seu amigo Gimli deixou seu velho corpo e seus amigos para trás. Legolas estagnou-se involuntariamente próximo ao acesso principal e suas pernas tremeram. A solidão era um fardo difícil, mas o convívio com certas pessoas ilustres era ainda mais árduo.

Erestor olhou para o rapaz com pesar. Sabia, pelos olhos do antigo príncipe, que recordações não muito doces o estavam visitando.

"Venha." Ele disse apoiando uma mão no ombro do menino. "Não há com o que se preocupar."

Mas Legolas sabia que aquelas eram inverdades de um tamanho ainda maior do que poderia conjeturar. Se o casal o havia chamado era para um propósito. Eles sempre tinham um propósito para tudo. Seu coração cresceu no peito de uma forma que ele não se lembrava mais como seria. Por que estava se sentindo tão inseguro na terra de toda a segurança?

Erestor enlaçou o rapaz com o braço esquerdo e voltou a puxá-lo levemente, mas Legolas reagiu, endurecendo o corpo.

"Venha, menino." Impacientou-se o conselheiro.

"Mestre Erestor..." Veio a voz aflita do jovem, em um tom nitidamente diferente do que vinha usando, o tom inseguro de uma criança que se vê obrigada a encarar algo muito maior do que ela.

"Está tudo bem." Ele assegurou voltando a tentar conduzir o rapaz.

"Diga-me o que querem comigo."

"Por que está tão aflito? Eles só querem falar com você."

"E por que? Por que iriam querer falar comigo?"

O conselheiro encheu os pulmões. Aquele era o Legolas que ele conhecia. O dom de roubar a paciência das pessoas de uma forma rápida e decisiva parecia ainda lhe favorecer.

"Legolas..." Ele mudou seu tom, tentando temperar a voz com um certo autoritarismo. "Não temos tempo para..."

"Só quero saber, mestre Erestor... por que... por que não posso ser informado..."

"Por que precisam de sua ajuda." Declarou finalmente, visivelmente contrariado por tê-lo feito.

Legolas empalideceu.

"Minha ajuda?" Repetiu ainda mais confuso.

"Sim." Limitou sua resposta o cansado conselheiro voltando a puxar o rapaz com um pouco mais de força agora. Detestaria ter que ficar explicando a Celeborn o porquê de tamanha demora. Ele mesmo não sabia qual era o assunto que pedia a presença do antigo príncipe, mas não parecia ser realmente algo que pudesse esperar a boa vontade do rapaz.

Legolas cedeu voltando a acompanhar os passos do nobre elfo, eles finalmente cruzaram os baixos e dourados portões que davam acesso ao local. Não havia muros, portas ou outros limites em Valinor, mas certos locais ainda guardavam uma sacralidade reservada a poucos. As árvores no jardim da luz pareciam ter um outro brilho, serem de um outro verde. Legolas deixou-se levar pela cor expressiva que se fazia presente ali e ocorreu-lhe finalmente que aquela era a primeira vez que entrara naquele lugar divino. Eles contornaram uma árvore cujo tronco era tão grosso que um oliphante poderia se esconder atrás dela, mas do outro lado nenhum animal cruel os aguardava, apenas a surreal imagem daquela tão cantada lagoa, e dentro dela, a senhora Galadriel molhava seus longos cabelos.

Legolas ficou estagnado com a beleza daquela cena. A bela senhora fazia-se parte de mais aquele brilho, com o corpo mergulhado até a cintura em suas vestes muito brancas, ela agora deslizava as palmas das mãos por sobre as águas quase sem tocá-las, como se quisesse sentir algo, ou ver algo. Ele não sabia. Ele nem sequer queria conjeturar sobre o que seria, pensava apenas em ficar ali observando tão bela pintura se formar.

"A mais bela luz..." Disse o príncipe comovido por perceber o quão bom Iluvatar era para com seus primogênitos, conservando-lhes a juventude, a beleza e a oportunidade de serem felizes. Bem... pelo menos lhes oferecia oportunidade para tal. Embora para alguns a felicidade fosse um sentimento ainda difícil de ser concebido. Ele então se voltou para o amigo ao seu lado e surpreendeu-se ao perceber que estava só. Erestor se afastara sem sobreaviso, deixando o arqueiro com uma desagradável sensação de ter sido pego em uma estranha armadilha. Tal sensação ainda se fez mais forte quando ele se voltou e encontrou os olhos claros da grande senhora fixos nele.

"Folha Verde." Ela disse. Em seus lábios leves não havia nenhum sinal de emoção, nem um sorriso, mas sua voz transmitia uma estranha calma e paz. Legolas sentiu-se aliviado ao perceber que ela não o considerava um intruso. Mas voltou a preocupar-se quando a viu fazendo sinal para que se aproximasse. Ele deu alguns passos indecisos até a beira da lagoa, uma coisa que elfo algum jamais conseguira fazer fora negar um pedido da grande dama, fosse ele verbal ou não-verbal. "Tire os sapatos e a túnica." Ela instruiu-lhe então. "E venha nos fazer companhia aqui."

O arqueiro franziu o rosto olhando a sua volta. Ele sabia a quem a dama se referia, mas não conseguia avistar o nobre Celeborn em lugar algum onde sua visão fosse capaz de observar.

"Venha, tithen pen." Ela disse oferecendo-lhe finalmente um sorriso singelo, quase irreal. Legolas soltou um suspiro preocupado, mas se viu mais uma vez obedecendo às ordens da bela dama. Ele descartou os sapatos e tirou a camisa sentindo-se ligeiramente constrangido pelos olhos da senhora ainda o estarem observando. "Tithen pen" Ela repetiu estendendo as mãos para ele. Legolas não tinha mais a coragem necessária para olhá-la nos olhos, mas ao ouvi-la repetir aquele tratamento, ao ouvi-la chamá-lo de "pequenino" mais uma vez, ele não pode fugir de uma triste lembrança, a de alguém que muito lhe agradava ouvir dizendo aquelas mesmas palavras.

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"Nana?" Disse o principezinho entrando no quarto escuro. A pouca luz das estrelas não era o suficiente para iluminar aquele cômodo imenso onde seus pais dormiam. Por que não haviam acendido os lampiões? O brilho entrava timidamente, refletindo-se quase imperceptivelmente nos cabelos dourados de Elvéwen que agora estava deitada em lençóis de cetim branco, seus cabelos desfeitos por sobre os travesseiros macios, os olhos voltados para o nada, a pele clara ignorando compartilhar o brilho que a banhava. Em pé em frente ao terraço e de costas para ele, outros cabelos claros aceitavam o reflexo da luz, que deslizava pelas tranças bem feitas, pelos cachos cujos tons de amarelo mesclavam-se em uma mistura quase mágica. "Ada?" Ele indagou. "Ada, porque nana está dormindo?"

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"Quanto pesa a solidão, tithen pen?" Indagou a voz doce de Galadriel com ambas as mãos ainda estendidas para ele. Legolas sentiu-se tragado das recordações que tinha e voltou a encarar à senhora.

O príncipe soltou os lábios como se um estranho cansaço o abatesse.

"Ela não tem peso, minha senhora." Ele respondeu não conseguindo evitar que sua voz transmitisse a amargura que tanto procurava esconder. "Mas é opressora mesmo assim."

"Então venha." Pediu a dama, oferecendo-lhe um novo sorriso. "Venha aplacar essa dor por algum tempo."

Legolas baixou os olhos. A tristeza da imagem que vira fora capaz de afastar qualquer temor ou dúvida que ainda incomodavam seu coração. Fossem quais fossem as intenções da loura dama, nada poderia lhe ser mais penoso ou pesaroso, haja vista que tudo o que lhe era caro e do qual poderia recear que lhe fosse tomado, já não povoava sua vida mais. Ele não possuía nada a perder.

"Venha, tithen pen." Repetiu mais uma vez a dama, recebendo o olhar distante do rapaz como resposta. "Venha..." Ele insistiu voltando a erguer os braços.

O jovem elfo deu então alguns passos, mergulhando finalmente os pés devagar, sentindo o calor daquelas águas transparentes. Após mais alguns movimentos ele também já estava sentindo a água atingir-lhe os músculos do abdome, oferecendo-lhe uma agradável sensação de prazer. Mesmo dentro da lagoa, ele ainda manteve uma distância razoável da senhora Galadriel. A figura do mito ainda criava em sua mente uma estranha dificuldade de distinguir o que era de fato real, daquilo que as imagens das canções tinham fixado em suas lembranças.

"Por quem seu coração mais clama?" Indagou a voz doce de Galadriel, seus olhos claros pareciam querer vasculhar a alma do rapaz. A bela senhora estava de fato em busca de algo, mas o confuso arqueiro não conseguia aquietar seu coração suficientemente para descobrir o que seria.

"Pergunta cruel a senhora me faz." Respondeu o arqueiro observando o leve ondular das águas.

Legolas havia pensado no pai, na mãe, em Mirkwood. Ele pensava todos os dias de sua existência neles. Mas ao ouvir a pergunta da senhora, o primeiro nome que inexplicavelmente lhe veio à mente, foi um nome que há muito tempo ele não ousava pronunciar.

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"Agora você vai, mellon-nin." Disse a voz fraca que acompanhava aqueles olhos azuis em um cenário triste.

"Depois de você, mellon-nin." Retrucou o príncipe.

"Tudo já fez por mim. Mais do que muitos. Mais do que todos. Cumpriu sua promessa".

"Meu coração não quer partir." Disse Legolas com a voz embargada.

"Prometeu que não derramaria lágrimas por mim." Respondeu a voz de Estel, no corpo envelhecido de Elessar.

Legolas baixou os olhos envergonhado, mas sentiu uma mão tomar a dele levemente. Ele desviou o olhar para a luz que invadia o local sem qualquer restrição, em seguida encarou novamente aquele amigo que o estava deixando para sempre.

"Não me verá deixar esse corpo." Decretou o rei de Gondor. "É assim que desejo que seja e é assim que será."

"Estel..."

"Minha vontade, Legolas...." Ele disse em um tom muito sério. "e não a sua. Estel já se foi há muito tempo, permita agora que Elessar o acompanhe."

O príncipe baixou os olhos e as lágrimas escaparam deles.

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"As flores nascem e crescem muito belas." Disse a senhora despertando-o mais uma vez. Legolas ergueu os olhos e a percebeu muito próxima dele. "É doloroso vê-las perderem as pétalas murchas."

O arqueiro fechou os olhos e não respondeu. Em seguida sentiu os dedos finos da senhora deslizando suavemente por seu rosto.

"Não cumpriu o que lhe foi pedido." Ela disse. "Ficou até que a última pétala caiu."

"Não podia deixá-lo." Admitiu o príncipe sentindo as lágrimas caírem por seu rosto. Estava tudo tão vivo dentro de si como se fosse um acontecimento da véspera.

"Não acreditava..."

"Fui convencido..." Declarou o arqueiro com amargura, o olhar novamente perdido nas imagens tristes que via, piras queimavam, lágrimas inundavam um reino forte, e depois disso outras despedidas quase tão difíceis se sucederam.

"Aonde a guarda?" Indagou a dama recebendo mais uma vez o olhar intrigado do príncipe.

"Peço seu perdão..."

"Aonde guarda tamanha dor que agora estou vendo inundá-lo?"

Legolas não respondeu. Ele não compreendia o propósito de tal pergunta. Aliás ele não compreendia o propósito de nada que ocorria agora. Por que motivo a grande senhora o chamara? Para torturá-lo com o passado que já o torturava todos os dias de sua vida? Para, em sua felicidade e harmonia poder saborear um pouco da dor que ainda pode existir em Valinor? Legolas sentiu seu coração endurecer-se com aqueles pensamentos, mas depois foi assolado por um resquício de vergonha por estar levantando tais questionamentos associados à imagem de alguém como a antiga Senhora de Lorien, alguém cujos propósitos jamais esconderiam sentimento vil qualquer.

"Não a guardo, minha sábia senhora." Ele respondeu por fim, tentando esquecer-se de que o mal pode existir em qualquer lugar, desde que a ele seja dada permissão. "Eu a trancafio, amordaço-a, sufoco-a."

"Se lhe dissesse, tithen pen." Ela iniciou o que parecia ser uma questão de primordial importância. "Se lhe dissesse que aquele dunedain a quem você dedicou sua amizade, precisa novamente de seus votos de confiança e de sua proteção..."

"Como assim?" Interrompeu o rapaz. Jamais interrompera ninguém em sua vida, mas aquela tarde estava se mostrando como um pesadelo do qual não se consegue acordar, mesmo se desejando isso de todo o coração.

"Aquele que nasceu Aragorn, transformou-se em Estel pela bondade dos que o amavam e terminou seus dias como Elessar..."

Legolas balançou a cabeça confuso. Teria aquela água algum efeito estranho em quem quer que se arriscasse a desfrutar de seu calor?

"Largaria a paz de Valinor para partir em seu socorro?" Ela indagou.

"Senhora eu..."

"Arriscar-se-ia em uma terra estranha?"

"Estel... Estel se foi..."

"Diga-me, tithen pen. Pois esta é a questão que norteia o seu hoje e que talvez guiará o seu amanhã com igual importância"

Legolas balançou mais a cabeça, afastando-se então alguns passos e apoiando as mãos no rosto. Seu coração tamborilava no peito com um ritmo que parecia não querer se calar tão cedo. Por que a senhora o estava torturando assim? Que mal ele teria feito?

"Preciso de sua resposta." Ela reforçou e Legolas apertou mais o rosto nas mãos.

"A solidão..." Ele disse. "As imagens que vêm e vão em minha mente... A saudade... A agonia... Tudo isso não me enlouqueceu, minha senhora. Por que quer que isso aconteça agora?" Indagou o rapaz sentindo os soluços subirem-lhe a garganta enquanto voltava a balançar a cabeça confuso. "Por que me tortura? Qual foi o grande crime que cometi para estar merecendo tal castigo?"

Galadriel baixou finalmente e os olhos e sentiu seus braços caírem ao lado do corpo úmido, as mãos imergiram criando uma leve onda na água morna. O cansaço tomava-lhe o espírito, mas ela ainda tinha fé e sabia que não poderia regressar de onde estava.

"Deixe-o ir, minha dama." Surgiu uma voz e a água voltou a se agitar. Legolas virou-se e encontrou a figura de Celeborn juntando-se a eles na lagoa. "A visão que teve, luz minha, está provavelmente ofuscada pela preocupação que nos atormenta. Ele não tem forças para tal missão, ainda não encontrou a paz que os outros de nós encontramos aqui."

"Porque não pertence a esse lugar." Ela afirmou e Celeborn franziu a testa. Legolas olhou para o casal que agora unia suas mãos no centro da lagoa. O lorde dos cabelos prateados sorria com carinho parecendo ler belos poemas nos olhos da amada, seus dedos deslizavam pelas mãos dela, enquanto o brilho das estrelas atribuía a cada um o valor diferente da cor que lhes cabia. Legolas sentiu-se subitamente cansado e indiscutivelmente sozinho, uma vez mais. Ele voltou-se então e preparou-se para sair daquela água cujo calor parecia não se dissipar, mas não lhe oferecia a mesma sensação de antes.

"O que Galadriel diz é verdade, Thranduilion." Disse Celeborn antes que o rapaz pudesse dar o segundo passo. Legolas voltou a olhar para ele.

"Há muitos anos Elrond se foi." Lembrou a bela elfa. "E com ele aqueles que têm o meu sangue e o de Celeborn, mas o espírito ligado ao sábio curador."

O arqueiro apertou os lábios, atingido por mais aquela lembrança, por mais aquela perda. Ele nunca entendera porque o curador e sua família deixaram Valinor sem sequer permitir-lhe a graça de uma despedida. Aquele fora o último elo que se rompera, depois disso apenas os vazios da solidão lhe cantavam.

"Nunca soube para onde foram... e nunca entendi o porquê." Admitiu o arqueiro, uma pergunta expressa em uma afirmação fragmentada.

"Foram procurá-lo..." Declarou a senhora. "Protegê-lo."

"A quem?"

"Àquele que voltou a ter um destino, destino traçado e ligado a um povo que sofre. Àquele que voltou a se chamar esperança."

Legolas balançou a cabeça mais uma vez e Celeborn apertou os lábios apreensivo. Ele confiava nos dons da amada, mas em seu coração ainda temia estar oferecendo um fardo muito pesado a tão frágeis ombros.

"Mas algo vai acontecer a ele. E seus protetores não vão estar lá para poderem impedir."

Dúvidas. Pensou Legolas. Ele mal entendera a primeira parte daquele delírio e a senhora prosseguia com a lição sem dar-lhe chances de respirar.

Galadriel fechou os olhos enfim e ergueu ambas as mãos. Ela parecia transtornada com a incompreensão das palavras que proferia. Tecia um bordado complicado e trabalhoso, mas precisava ser rápida, pois o tempo envelhecia os fios, desfavorecia os arremates. A senhora então suspirou e ansiou por uma ajuda. Quando detentora do anel as águas lhe ofereciam o auxilio certo sempre que a necessidade surgia. Mas agora apenas Iluvatar dominava as imagens que iam e vinham. Mas ela tinha confiança, sabia e sentia que o momento era aquele.

E estava certa.

Em instantes a água em que estavam se tornou turva, escura. Legolas ergueu os braços em um sobressalto, mas Celeborn fez sinal para que ficasse onde estava. O arqueiro obedeceu receoso, quando finalmente percebeu algo que fez ainda maiores seus questionamentos sobre estar ou não estar vivendo um sonho estranho. Na água uma cena se formava, e ele pôde ver a imagem de um rosto, um rosto conhecido.

"Estel?" O príncipe se sobressaltou mais confuso ainda, erguendo as palmas por sobre as águas em um instinto de tocá-las como se fossem um espelho. Mas havia algo errado com a imagem. Aquele era Estel, mas estava diferente. Os cabelos presos em um único laço, as roupas escuras e estranhas, o mesmo passo largo que lhe atribuíra o apelido de guardião Strider, os mesmos olhos claros. De repente ele fugia por um ambiente que o arqueiro nunca vira e era perseguido por outros dois homens igualmente vestidos de forma estranha. Estel corria, pulava grandes caixas, empurrava outras, enquanto sons estridentes de explosões eram ouvidos. Os homens carregavam algo nas mãos, uma estranha arma, não era um punhal, embora brilhasse, não era nada que ele conhecesse, e era dela que o estrondo das explosões parecia vir. Eles a apontavam agora para Estel, encurralado em um canto escuro, costas pressionadas em uma parede úmida.

"Viemos de longe, dar cabo dessa sua vida inútil, Eleazar. E que essa escória suja que te quer para líder aprenda de uma vez por todas onde é o seu lugar."

Estel não respondeu, seu peito arfava, mas ele enfrentava o inimigo com coragem. O homem a frente aproximou-se um pouco mais e encostou a estranha arma na testa dele. E sorriu. E riu alto de prazer. Estel apertou os lábios, em seguida cuspiu acertando em cheio o rosto de seu opressor.

"Cale minha voz, se quiser, verme de alma vendida." Disse ele entre os dentes muito brancos. Seu tom era assustadoramente corajoso, inexplicavelmente assombrante. Os dois homens ainda se entreolharam incrédulos. "Cale minha voz e outras virão, até que fiquem surdos de tanto ouvir nossos clamores!"

O homem a frente enfureceu-se. Mesmo se não estivesse armado tiraria a cabeça daquele rebelde insolente com as próprias mãos. Ele trouxe de volta o sorriso frio aos lábios apertados pelo ódio e moveu os dedos na arma que segurava proporcionando outro som pavoroso. Mas nenhum grito foi ouvido e tudo o que o assassino recebeu foi o sangue vermelho que espirrou em seu próprio rosto, como a última afronta do corajoso líder que não se acovardaria em situação alguma, nem minutos antes de seu último suspiro.

"Não!" Gritou Legolas caindo de joelhos naquela água que agora não parecia aquecê-lo mais. Celeborn aproximou-se rapidamente e envolveu-o nos braços para que não submergisse. "Não... eles... não..."

"Não o fizeram..." Garantiu a senhora também se aproximando, o casal agora mantinha suas mãos no assustado príncipe tentando oferecer-lhe alguma certeza de que o que vira não era real. "Mas o farão..."

"Não... não entendo..." Lamentou-se o rapaz sentindo a energia de seu corpo escapar-lhe. Celeborn puxou-o para mais perto de si e permitiu que o jovem elfo encostasse a cabeça em seu ombro, oferecendo-lhe o pouco apoio de que se julgava capaz. O líder de Lorien lançou um olhar preocupado à companheira, que o retribuiu. Era um jogo de riscos, grande, grande demais.

"Você pode impedir... se quiser." Ela arriscou.

Legolas ergueu o rosto, olhos redondos de surpresa e dúvida. Peças estavam faltando naquele quebra cabeças, peças demais, mas a pequena cena que se montava já lhe tirava qualquer escolha, fosse qual fosse aquela guerra, ele estaria nela.

& Antes da tempestade &

Aquelas palavras todas agora o assustavam ainda mais, porém ele decidira fechar seu coração para o medo que sentia. Sentir medo não lhe era peculiar, mas, nem em seus mais terríveis pesadelos ele se vira em situação tão adversa.

"O mar vai estar calmo nessa noite." Disse Círdan em uma conversa árdua que tinha com Celeborn. O antigo senhor de Lorien apoiava uma mão no ombro do mestre dos barcos e lhe sorria. Agradecimentos eram desnecessários uma vez que o lorde do mar apreciava imensamente mais essa oportunidade de voltar a ver a costa que deixara há tantos anos.

"Barcos grandes navegam por aquelas encostas pelo que sei, nobre Círdan." Disse o lorde dos cabelos prateados. "Toda cautela faz-se necessária."

O outro elfo riu balançando a cabeça.

"Bem os vi da última vez que me aventurei um pouco mais longe." Ele respondeu com os olhos presos a imagem que via e parecia agradá-lo de uma forma muito particular. "Cada dia estão maiores e mais velozes. Os edains realmente são dotados de um cérebro de invejável competência. É uma pena que seus corações não tenham a grandeza de suas mentes."

Celeborn baixou os olhos e acenou em uma breve concordância. Em seguida voltou-os para o filho de Thranduil que ouvia atentamente as instruções de um dos arautos de Círdan. Ambos estavam sentados na escadaria da entrada do porto

"Não falam nossa língua?" Ele ouviu a voz angustiada do príncipe indagar.

"Não." Respondeu Rhunien. "Nem idioma algum que conheçamos."

"Mas... mas..." Legolas sacudiu a cabeça preocupado, erguendo-a em seguida em busca de Celeborn. O lorde elfo ofereceu-lhe um sorriso complacente e se aproximou.

"Eu lhe disse que seria uma tarefa árdua, menino."

Legolas engoliu o nada que se formava em sua boca, mas que parecia querer sufocá-lo.

"Mas... como lorde Elrond..."

"Ele teve tempo..." Disse Celeborn apoiando uma mão no ombro trêmulo do rapaz. "Estudamos juntos, nossos batedores nos trouxeram informações e os olhos de Galadriel vislumbraram na lagoa algumas outras luzes muito importantes. Mas infelizmente, pelo que podemos prever e sentir, o tempo não lhe favorece como favoreceu ao bom Elrond, meu amigo, e você bem sabe o porquê."

Legolas apertou os olhos, amargando o gosto daquela imagem que lhe voltava à mente. Celeborn tinha razão. Ele tinha uma missão que ia muito além do que as palavras ou expressões pudessem traduzir. Acenou então em sua simplicidade e voltou a prestar atenção às poucas informações que Rhunien poderia lhe oferecer.

"Tudo é muito novo... estranho..." Continuou o arauto. "Coloque isso em sua mente, Legolas, grave em seu coração. Tudo o que verá, você nunca viu antes. Tudo é possível, nunca questione o que seus olhos vêem ou seus ouvidos captam."

O rapaz voltou a acenar com a cabeça e apertou levemente os lábios. Celeborn lançou-lhe um olhar brando, sentindo um imenso carinho por aquela criatura corajosa e uma comoção de igual tamanho por ver o quão longe o rapaz se dispunha a ir para ajudar àqueles a quem amava, o quão disposto estava a correr um risco indescritível.

Rhunien pegou então um pequeno punhal e colocou as mãos nos ombros de Legolas, dando a entender que queria que o rapaz se virasse.

"O que vai fazer?" Indagou Círdan aproximando-se.

"Cortar-lhe um pouco os cabelos, para que possa escondê-los melhor por debaixo do gorro. Estão muito longos, muito mais longos do que os de qualquer um de nós."

Legolas ofereceu um sorriso triste. De fato nunca mais se importara com eles, sequer trançava-os desde a última perda que tivera. Círdan deslizou os dedos por entre os fios dourados e suspirou com tristeza.

"Certo." Disse o mestre dos barcos. "Mas não os corte demais, permita que tenha alguma lembrança de quem é, e alguma esperança de um dia retornar."

Rhunien parou por alguns instantes e seus olhos ganharam um brilho de consternação. Depois acenou positivamente e segurou uma das mechas louras de Legolas cortando-a pouco abaixo da altura dos ombros.

"Suas orelhas... Mantenha-as sempre cobertas..."

"Não se preocupe." Respondeu o arqueiro vendo os longos pedaços de seu cabelo caírem por sobre o colo e pernas, algumas mechas eram levadas pelo vento escorregando escada abaixo ou flutuando com a brisa. Legolas acompanhou os fios perdidos enquanto se distanciavam dele e sentiu um estranho aperto em seu peito.

"Os edains são muito curiosos, tem que tomar cuidado Legolas, se desconfiarem..." Rhunien forçou o silêncio garganta à dentro, impedindo a frase de atingir o seu fim, fim este que ele sequer conseguiria conjeturar. "Tome cuidado apenas..." Ele encerrou apoiando ambas as mãos nos joelhos então.

"Eu sei esconder os traços de nossa raça." Declarou o rapaz ainda com os olhos perdidos no horizonte, as ondas batiam vivas e brilhantes naquela noite de lua inteira e dourada. "Fiz isso por muitos anos."

Rhunien não respondeu, procurando envolver-se novamente com a tarefa que executava. Ele, como todos os outros amigos, conhecia a história do corajoso príncipe Legolas Thranduilion. O arqueiro, em sua ingenuidade e modéstia, não sabia, ou fingia desconhecer, a fama que tinha e a admiração que despertava por aqueles que conheciam seus passos do passado. Ele era mais uma das lendas de Valinor, o último membro da Irmandade do Anel, o último elfo a regressar e ainda por cima, o único a trazer consigo um anão com quem fizera uma grande amizade, algo raro nos últimos dias da Terra Média. Era lamentável vê-lo perdido e distante como estava nesses últimos anos e Rhunien chegava a sentir um certo conforto em ver o valente arqueiro disposto a enfrentar um novo combate uma vez mais. Ele só lamentava sentir que, como tudo na vida do bravo Legolas, ele teria que fazer o que nunca ninguém havia feito e tinha que fazê-lo sozinho dessa vez.

"Tenha cuidado, mesmo assim." Ele apenas repetiu o conselho amigo.

"Terei." Garantiu o jovem elfo.

"Pronto." Declarou o arauto levantando-se e puxando Legolas consigo. O príncipe ergueu-se com um gemido seco e sacudiu a cabeça para livrar-se dos últimos fios soltos. Celeborn e Círdan lhe sorriam.

"Veja." Ofereceu o Rhunien aproximando-se com um pequeno espelho. "Diga-me se ficou de seu agrado."

Legolas aproximou-se de seu reflexo e segurou instintivamente uma das mechas, entristecendo-se mesmo sem o desejar. Ver sua imagem no espelho era algo que também não fazia há anos e aquele ato, por si só, sempre lhe remetia a estranhas cenas de seu passado, cenas nas quais checar sua aparência sempre estava associado ao ato de checar sua própria identidade.

"Não ficou bom?" Indagou o arauto receoso.

O príncipe levantou os olhos para o outro elfo e sorriu timidamente.

"Ficou muito bom, Rhunien. Agradeço-lhe."

O arauto sorriu, olhando mais uma vez para os dois lordes que os observavam. Celeborn suspirou incomodado com as imagens do futuro que não conseguia ver, mas Círdan apenas sorriu abanando a cabeça em concordância.

"Vá providenciar o resto então, Rhunien." Disse o mestre dos barcos.

"Sim, mestre." Assentiu o jovem elfo apoiando uma mão no ombro do príncipe. "Venha, Legolas."

"Aonde vamos?"

Mas o outro elfo não respondeu, puxando Legolas gentilmente pelo cotovelo agora. O arqueiro olhou uma vez mais para Celeborn que lhe sorriu.

"Vá, menino. Estarei aqui a sua espera."

Passaram então pelo cais e em poucos instantes estavam à porta de um velho casebre escuro. Rhunien ergueu o lampião para ver melhor a tranca da grande porta e a abriu oferecendo passagem para o arqueiro a seu lado. Legolas ainda hesitou por alguns instantes, mas entrou. O arauto colocou o objeto de luz por sobre uma velha mesa e apressou-se em abrir as janelas ao ver o príncipe enlaçar o corpo com os braços como se estivesse incomodado.

"Guardamos algumas coisas aqui." Disse o arauto abrindo um grande baú.

Legolas não parecia dar-lhe ouvidos, tudo o que fez foi aproximar-se da janela e manter o corpo para fora o tanto quanto podia. Com o passar dos anos sua aversão a lugares fechados ficara ainda pior. Ele só dormia por sobre as árvores desde que Gimli se fora.

"Está tudo bem?" Ele ouviu o arauto indagar preocupado.

"Sim." Respondeu o outro enchendo nervosamente o peito de um ar que parecia mais pesado do que realmente deveria ser. "Só não sou muito adepto a lugares fechados."

Rhunien sorriu solidariamente. Aquele também era um detalhe do qual todos sabiam.

"Precisa superar isso... Há muitos lugares fechados para onde vai."

Legolas voltou-se sobressaltado para o outro elfo. Mais um empecilho, quantos mais viriam?

"Muito fechados?" Ele se arriscou.

Rhunien apertou os lábios e torceu as sobrancelhas em uma careta de dúvida. Em sua mente estavam as imagens daquelas estranhas máquinas que ele vira correndo pelo chão do cais quando o espionava ao longe. Se sua visão élfica não o estava enganando, havia um edain dentro delas, fazendo o que ele não sabia ao certo, mas parecia um local deveras apertado.

"Mais ou menos..." Respondeu o arauto virando levemente o rosto e tentando esconder a preocupação, enquanto os traços do rosto do príncipe a sua frente não conseguiam disfarçar a dele. "Se achar que não pode..." Arriscou então, achando que deveria oferecer ao outro elfo uma última chance de desistir. "se achar que não deve ir..."

"Eu irei." Interrompeu-lhe o arqueiro, sacudindo a cabeça e dando alguns passos nervosos dentro do pequeno cômodo, enquanto tentava provar a si mesmo que era capaz de refugiar-se em um local fechado se assim se fizesse necessário. Mas as paredes o oprimiam como se quisessem se abraçar sufocando-o, sua respiração ficou difícil e ele voltou a encostar-se diante da janela.

Rhunien pensou por alguns instantes. Depois respirou fundo.

"Tudo tem seu tempo, meu bom príncipe." Ele disse enfim, buscando um sorriso que não queria favorecê-lo. "Agora vista isso. Acho que deve lhe servir."

Legolas voltou-se. Rhunien segurava duas peças de roupa. Ele aproximou-se intrigado e tocou o tecido rústico franzindo as sobrancelhas.

"Habitue-se." Sorriu o arauto aliviado por ver a cor voltar às faces do arqueiro. A esperança parecia querer lhe dar algum sinal de sua presença. "Vamos, tire a camisa."

Legolas franziu a testa ainda mais, fazendo com que o arauto a sua frente não conseguisse conter um riso, porém obedeceu. O amigo então passou o tecido por sua cabeça.

"Não tem laços?" Indagou confuso olhando para o pano leve sem saber o que fazer.

"Não." Respondeu Rhunien não conseguindo mais dominar os risos. "Vamos, passe seus braços por aqui."

E Legolas o fez sentindo então a estranha vestimenta cair-lhe por sobre o tórax. Ele deslizou mais uma vez a mão pelo tecido branco. "Estranha..."

"Habitue-se." Repetiu o outro rindo um pouco mais. "Acha que consegue colocá-la sozinho da próxima vez?"

"A parte de colocar a cabeça nesse buraco aqui..." Ele disse segurando a gola da camiseta. "é fácil... o complicado é a parte dos braços..." Ele admitiu compartilhando a risada que Rhunien voltava a oferecer.

"Ah, Legolas..."

"Já sei... já sei..." disse o elfo em um sorriso amável... "Vou me habituar..."

"Perfeito. Agora as calças... essa é a parte pior." Voltou a rir muito o arauto vendo o modo desconfiado com que Legolas olhava para o brim azul. "Vou ensinar-lhe a tomar cuidado com algo muito perigoso, chamado zíper."