Olá. Espero que todos estejam bem.

Demorei um pouco a postar esse capítulo porque, para ser sincera, não estava satisfeita com ele. Mas acho que sofro da síndrome de quem já leu e releu um texto mais vezes do que seria aconselhável. Está na hora de deixar o filho partir, não importa que rumo siga.

Queria agradecer às maravilhosas Carol, Kiannah, Hanajima-san, Phoenix Eldar, Gaia Syrdm, Ane Sekhmet e Myriara (que também corrigiu pacientemente minhas maluquices) por seus comentários sobre o capítulo. Fiquei feliz porque cada uma delas tem seu ponto de vista particular e suas reviews sempre me acrescentam uma sensação nova e marcante. É uma benção não ter perdido leitoras assim. Aliás, os leitores que ainda têm tempo e coragem para continuar lendo essa história depois de tantos capítulos e tantos anos deveriam ser premiados.

Obrigada realmente.

Beijos

Sadie.


Que me deixem passar - eis o que peço

diante da porta ou diante do caminho.

E que ninguém me siga na passagem.

Não tenho companheiros de viagem

nem quero que ninguém fique ao meu lado.

Para passar, exijo estar sozinho,

somente de mim mesmo acompanhado.

Mas caso me proíbam de passar

por ser eu diferente ou indesejado

mesmo assim passarei.

Inventarei a porta e o caminho.

E passarei sozinho.

Lêdo Ivo, inO Rumor da Noite


99 – PLANOS FALHOS

Elrohir percorrera astutamente todo o saguão principal. Havia entrado por um dos terminais de passageiros, cuja energia readquirida fizera com que o mecanismo conseguisse afastar as duas folhas de uma das portas automáticas. Não a abrira por completo, apenas o suficiente para que o elfo escorregasse com algum esforço por entre elas. As demais nem sequer se moveram, ignorando o retorno da luz como se soubessem que o aparecimento daquela energia seria como o uso de um desfibrilador para um coração há tempos desprovido de qualquer resquício de vida.

Elrohir caminhou alguns passos com as costas encurvadas e ajoelhou-se protetoramente perto das esteiras de bagagem. Sobre elas ainda restavam algumas malas desfeitas, visivelmente não por seus próprios donos; roupas espalhadas, vidros partidos de perfume há tempo sem aroma e outras coisas que por certo não interessavam aos poucos que se arriscavam em um lugar como aquele.

Alguns desses aventureiros ainda estavam ali, adormecidos pelos cantos do saguão com seus cachimbos, seringas e garrafas vazias. As roupas esgarçadas expunham braços e tornozelos sempre à mostra, como se a espera da eventual oportunidade de uma nova picada. Elrohir os olhou por sobre a esteira, dobrando as sobrancelhas para averiguar se estavam realmente vivos. Tão entregues ao destino assim, pareciam mais zumbis do que seres humanos. Ele já lamentara por eles, cuja onipresença parecia significar uma população inteira. Estavam em praticamente todos os lugares pelo qual passara, refletiam praticamente todo o povo que tentavam salvar. Mas eram inalcançáveis, logo ele percebera isso, logo ele lamentara sua descoberta, logo ele se conformara, logo concluíra que talvez fosse melhor assim. O homem entorpecido não via no que sua terra estava se tornando, o homem entorpecido não sentia qualquer dor.

Às vezes ele até os invejava.

De qualquer forma não era em busca deles que Elrohir se arriscava naquele lugar, nem de fortificar a verdade de suas conclusões acerca do que acontecia. Ele viera averiguar uma desconfiança do amigo Cailin, a quem a roda desavergonhada de pessoas com as quais era obrigado a conviver fizera, em um momento de embriaguez e estupidez, uma revelação estarrecedora, deixando escapar o que o excesso de dinheiro de certas criaturas sem escrúpulos estava conseguindo comprar.

Elrohir já vira muita barbaridade naquela Terra-média renovada, principalmente depois do golpe. Conhecera, antes até, o sentido da palavra tráfico e cedo descobrira que a moeda de barganha deste consistia em praticamente tudo o que fosse possível e imaginável comercializar; desde o que não tinha alma alguma, até o que para muitos não precisava ter.

Pedras preciosas, metais, animais, pessoas, tudo virava mercadoria, inclusive crianças, estas últimas eram uma presa ainda mais fácil agora com o país atirado no conflito e no caos. Eram em sua maioria filhos pequenos que haviam largado a mão de seus pais, gente como aquela que Elrohir vira abandonada naquele saguão, e seguiram rumo próprio, mesmo sem idade o suficiente para conhecerem o sentido da palavra rumo, mesmo sem saberem que para elas talvez não houvesse rumo algum.

Elrohir apertou os lábios, olhando mais uma vez para algumas daquelas figuras maltrapilhas e pensando no que Cailin descobrira. Se usar e abusar de um ser vivente já era um absurdo para o elfo, roubar-lhe a vida para cedê-la em fatias e pedaços, para colocar seus órgãos em uma balança e vendê-los a peso como em um açougue, garantindo mais sorte aos filhos e netos daqueles de cuja presença infame até aquele mundo perdido buscava se libertar era algo inconcebível mesmo para ele, que a cada dia se importava menos com o que via.

Viera até ali com uma mistura de ansiedade e receio. Ansioso por encontrar e libertar tais vítimas, mas, ao mesmo tempo, receoso de constatar que tamanho absurdo estava longe da ficção ou dos meros pesadelos ocasionado pelo mundo caótico no qual estavam. Ele não se conhecia mais e esse desconhecimento de si mesmo e do que era capaz de fazer, várias vezes lhe trazia temores acerca da reação que teria diante de verdades tão atrozes.

Para sua surpresa, entretanto, não havia vítima alguma dentro da agência de viagens. O que seus ouvidos élficos captavam não era tão contundente quanto à certeza da necessidade de se resgatar crianças inocentes, porém era igualmente perturbador.

"As luzes funcionam bem," dizia uma voz. "Com certeza colocaremos o lugar em funcionamento novamente."

"Certo," outra voz assentia sem grandes traços de emoção.

"Senhor... Sabe que os demais aeroportos estão fechados, não sabe?"

"Sim."

"Sabe que não está sendo permitido o tráfego aéreo de qualquer espécie sobre Rórdán desde a constatação da epidemia... Os aliados temem que o mal se transforme em uma pandemia... Se o senhor deseja ver o lugar reaberto para tirar alguém do país, devo informá-lo que isso não será possível, mesmo desembolsando qualquer quantidade de dinheiro e..."

"Cuide de sua parte no nosso trato, meu amigo. Eu cuidarei do resto."

"Sim, senhor... Senhor?"

"Sim?"

"Se realmente conseguir tirar alguém de Rórdán... Minha... minha família, ela está... está fora da área de risco... Não estão infectados... São, são saudáveis... Então... Pelo menos minha filha... minha esposa se possível..."

"Veremos, meu caro. Tudo dependerá de quando conseguiremos colocar o lugar em atividade e dos engenheiros e outros profissionais que me prometeu conseguir para habilitar aquele nosso pequeno avião, no qual, evidentemente, haverá espaço para algumas pessoas especiais e, é claro, a família das mesmas."

"Sim! Claro, meu senhor! Trabalharemos de sol a sol, o senhor se surpreenderá com a rapidez com a qual verá o lugar terminado."

Elrohir tentava a todo custo acompanhar aquele estranho diálogo a uma distância segura o suficiente para que conseguisse sair se fosse descoberto. Com o tempo, começou a perceber que tal conversa era importante demais para que seus interlocutores não ganhassem rostos e nomes. Ele teria que se aproximar mais, o suficiente para tentar ver através da porta entreaberta da agência, quem era aquela criatura que barganhava a lealdade das pessoas em moeda tão vil.

Ele andou rente ao chão, depois saltou um balcão de vendas e escondeu-se em tempo suficiente para que um homem de camisa e calça social, segurando um computador portátil, saísse da sala e passasse do outro lado sem aperceber-se de sua presença. Elrohir apertou-se contra a mureta, arriscando-se, porém, a esgueirar-se e olhar mais uma vez o estranho que se afastava, no passo decidido de quem fizera uma grande conquista. Ele o observou atentamente, procurando memorizar tudo o que podia a seu respeito.

"Não acha cedo para tamanha empreitada?" outra pessoa saiu pela mesma porta, alguém que ele ainda não ouvira e Elrohir encolheu-se novamente. Dessa vez sem conseguir ver nem sequer uma nuance do dono daquela voz.

"Quanto mais cedo atingirmos o continente melhor," esclareceu a outra voz que barganhara há pouco.

"Não está mesmo falando sério, está, Harald?"

"Agora não é o momento."

"Mas o continente não estava em nossos planos. Não precisamos sacrificá-lo. Uma vez tendo esvaziado o arquipélago, teremos tempo o bastante para nossas buscas. Ninguém ousará pousar uma aeronave que seja aqui. A doença é incontrolável, você sabe disso. Ela será nossa defesa."

"A doença é nossa maior descoberta. É nosso trunfo. Por que pararmos aqui se podemos livrar todo o mundo dessas criaturas malditas?"

"Livrar... livrar o mundo? Mas com o que teremos em mãos não precisaremos fazê-lo... Eles... eles nos obedecerão, nos temerão até... Serão fieis..."

"Lá vem você com essas suas ideias... E quem disse que desejo a fidelidade dessas criaturas? Nem se fossem capazes de oferecer-me qualquer gratidão, o que duvido muito, eu desejaria recebê-la. Por que insiste em demonstrar simpatia por esses seres? Eu sei bem o que o anda influenciando. Estou arrependido daquela criaturinha desprezível que lhe dei. Ao invés de fazê-lo curvar-se anda você se curvando diante dele."

"Curvando-me? Chama curvar-se o que fiz com ele? Realizei toda sorte de experimentos, Harald. Você mesmo viu e até participou. Não pode negar que a experiência está sendo no mínimo interessante."

"Você não me engana mais, Erastus. Está fascinando pelo que criou, pelo que fez surgir nessa sua aberração. Mas vou-lhe avisando, estou a um passo de sacrificá-lo, não me dê motivos para dar esse passo."

"Sacrificá-lo? Nosso pássaro? Vai desperdiçar a chance de ter tamanho controle sobre as coisas?"

"Eu não vejo esse controle que você diz ter ou termos. Estou vendo uma bomba prestes a explodir, isso sim. Escute o que digo. Estamos abusando da sorte que temos."

"Que bobagem. Já lhe disse que ele é inofensivo."

"Fique de sobreaviso. Dei-lhe essa sua cobaia para que pudesse realizar esse experimento que tanto desejava, mas..."

Houve um silêncio então e Elrohir encurvou as sobrancelhas, intrigado com o término brusco da conversa, mas ainda amarrado ao que ela podia significar. Ele apertou um pouco mais o corpo contra o balcão que o protegia e apurou seus sentidos. Já ouvira falar de Erastus Zydras vagamente e de toda a desconfiança acerca desse nome. Agora, diante do discurso que escutara, começava a crer que toda a desconfiança possível ainda não seria o bastante.

Sim. Toda a desconfiança ainda era pouca... Ele pensou, percebendo uma antiga sensação tomar conta de seu corpo.

Toda a desconfiança ainda era pouca... A certeza ecoava por sua mente outra vez. Ainda era risco demais...

Elrohir pulou então o balcão, em um movimento que sabia ser arriscado, mas que seu espírito de guerreiro classificava, quase aos berros, como sendo o mais preciso. E ele estava certo, pois quando caiu do outro lado percebeu que os dois homens já estavam a poucos passos de seu esconderijo. Ele ainda pôde perceber a surpresa deles ao vê-lo e chegou a ter a tola ideia que aquela surpresa continha mais do que apenas a de alguém flagrado por um estranho.

Não havia, entretanto, tempo para pensar naquilo, pois logo a voz de um deles gritou uma ordem de comando e vários homens surgiram dos extremos daquele saguão correndo em seu encalço. Por sorte ele era um dos elfos mais rápidos de sua terra. Seu avô chegara a dizer que ele era o mais rápido de toda a Terra-média, o próprio Tulkas em carne e sangue élficos.

Bem, aquele era um bom momento para crer nas palavras de seu avô.

Concentrando-se naquela certeza ele atirou-se por sobre uma das esteiras de bagagem, derrubando malas, desorganizando o que já parecia uma desordem perfeita. Quando caiu do outro lado sentiu, um estampido passar por seu ouvido direito, seguido de uma certeza inegável; Aqueles homens não estavam brincando. Tampouco estavam interessados em fazer reféns.

Ele sacou enfim sua própria arma, enquanto corria em direção à única saída ainda aberta do lugar. Matar alguém naquela Terra-média renovada não tinha o mesmo sentido do que em suas lutas no passado, mas ele não tinha muita escolha. Outro tiro passou perto dele quando já estava alcançando a porta entreaberta pela qual entrara e ele voltou-se rapidamente para retribuir o favor e derrubar o inimigo mais próximo. No entanto, passar por aquele acesso estreito pareceu bem mais difícil dessa vez do que da primeira, principalmente quando uma das outras balas que vinham em sua direção enfim encontrou-lhe a perna direita, roubando-lhe um doloroso grito de dor. Ele puxou o corpo mesmo assim, amaldiçoando a má sorte, mas continuou tentando se locomover, enquanto outros tiros davam conta de acabar com os vidros restantes daquela passagem.

Quando os homens conseguiram enfim vencer a mesma saída, Elrohir já buscava esconderijo por entre os carros abandonados no estacionamento. Podia puxar o celular e chamar seus amigos, mas duvidava que aquele carnaval todo já não tivesse servido como um alerta mais eficiente do que qualquer coisa que ele pudesse dizer. Ele deixou cair o corpo no cimento rústico, atrás do pneu de uma grande caminhonete de vidros estilhaçados e posicionou a arma com a mão esquerda, disposto a tentar se defender enquanto pensava no que fazer com aquele ferimento, haja vista que se não o estancasse, o sangue que agora corria em cascata por sua perna em breve o colocaria em uma posição de desvantagem ainda pior.

Foi quando outros tiros foram ouvidos. Elrohir sabia de quem eram. Quando dois dos seus algozes tiveram seus joelhos despedaçados, o gêmeo reconheceu a pontaria certeira de Anselmo, que desde o começo de todos os conflitos conseguira defender os seus sem roubar uma alma sequer. Outros não tinham com o inimigo a mesma consideração. Aidan acertava-os sempre por entre as vistas, desfigurando-lhes o rosto, enquanto Bearach e os demais também preferiam a certeza de não deixarem qualquer lembrança para trás.

Elrohir aproveitou o momento para desfazer-se da jaqueta que usava e arrancar-lhe uma das mangas, improvisando um torniquete enquanto ouvia os tiros ricochetearem na lataria que o defendia. Ele abaixou-se um pouco, tentando ver o cenário por sob o veículo, mas sua visão enevoada pela perda de sangue queria fazê-lo ver mais inimigos do que na verdade havia. Ele procurou se concentrar novamente, e não custou a perceber que seus olhos não o estavam enganando tanto assim. Homens e mais homens saiam por todas as portas como se aquele lugar fosse uma máquina de produzi-los. O jogo parecia estar pendendo perigosamente para o lado inimigo, em número visivelmente superior agora e inegavelmente mais bem armados.

Elrohir respirou fundo e, diante de todas aquelas incertezas, decidiu fazer o que era o seu melhor. Ele moveu o corpo alguns centímetros, o suficiente para ter acesso ao campo de guerra que aquele estacionamento havia se tornado e dispôs-se a atirar, a tentar atingir mais alguns daqueles borrões nos quais a imagem do inimigo no momento se convertia para ele. Nem sequer tinha agora uma precisão exata de em que lugar os alvejara. Ele apenas os via caindo pesadamente.

Mas ainda eram muitos e a única coisa que percebia é que estavam cada vez mais perto, retribuindo sua ofensiva e a de seus amigos com a precisão de um exército dos mais bem treinados soldados. Estavam agora igualmente amoitados atrás de outros automóveis, mas bastante dispostos a não ver a batalha encerrada tão cedo.

Elrohir sobressaltou-se quando outro tiro acertou a lataria da caminhonete e uma certeza tomou-lhe a mente: Elbereth, aqueles não eram os Chacais. Nem o exército do governo tinha tantos homens disponíveis para uma só missão. O que mais o preocupava era não conseguir ver onde estavam seus companheiros. Ouvira mais tiros do que desejava e à sua audição élfica chegaram, infelizmente, alguns lamentos de dor cujas vozes lhe eram conhecidas.

Ele atirou mais uma vez, acertando em cheio a mão armada de um adversário que se escondia atrás de uma das cabines de segurança do lugar. A adrenalina da batalha ainda fazia dele um bom soldado, mas os tiros não cessavam, mesmo com a inutilização de mais aquele adversário. Elrohir tentava localizar outros deles, astutamente protegidos atrás de outros automóveis e cuja munição, ao contrário da dele, parecia não ter fim.

Foi aquela ideia que o fez perceber o que o grupo estava fazendo. Ele olhou a própria arma, era uma pistola semiautomática de qualidade e origem duvidosas, mas o único equipamento ao qual ainda tinha acesso. Ela comportava menos balas do que o elfo achava sensato carregar e sua recarga não era das mais simples, mas ele rapidamente se tornara hábil nisso. Era o que estava fazendo agora, enquanto apertava os dentes cerrados, tentando ignorar a dor do ferimento e o som indecifrável que os outros tiros ouvidos geravam.

Em meio àqueles sons, no entanto, percebia um em particular, os passos rápidos de um inimigo bastante corajoso que parecia disposto a arriscar-se a abatê-lo, nem que para isso comprometesse a própria vida. Elrohir fechou os olhos, calculando os passos do homem, sentindo os atalhos que pegava, os locais no qual se escondia, enquanto esperava o momento certo para se defender. Foi quando percebeu algo além daquele som peculiar: o homem o fazia ouvindo instruções bem claras no que ele julgou ser uma espécie de transmissor qualquer.

"Tenha certeza de que o matou, soldado. Traga-me uma prova."

"Sim senhor," sussurrava a voz amedrontada do outro, voz esta que transparecia mais o receio juvenil e aflito de um principiante tentando provar seu valor no momento errado, do que de um homem experiente.

"Traga-me uma prova, entendeu? Eles o querem morto. Que todos os demais escapem, não há problema, mas este não pode fugir, entendeu? Se deixá-lo escapar farei com que se arrependa tremendamente."

Elrohir encheu o peito, pensando que mais prazeroso seria acertar o dono daquela voz no transmissor do que o menino que ele encaminhara para fazer o trabalho sujo. Infelizmente ele não tinha outra opção que não aquele jogo sem vencedores, por isso, quando percebeu o rapaz próximo o bastante, ergueu-se e apontou a arma na direção do desconhecido.

Foi quando algo estranho aconteceu: o rapaz, um jovem oriental de no máximo vinte anos, empalideceu como se visse um fantasma. Ele olhou para Elrohir e seus lábios se partiram em uma surpresa tão grande que o gêmeo simplesmente não conseguiu alvejá-lo. Igualmente preso naquela situação inusitada. O estranho deu um passo para trás, envergando as sobrancelhas.

"Como veio parar aqui? Como escapou deles?"

Elrohir intrigou-se com o questionamento, baixando a arma, mas devia ter sabido que um campo de guerra não é lugar para questionamentos ou troca de argumentos. Ele só apercebeu-se de seu erro quando o outro atirador surgiu por trás do primeiro e sentiu o corpo ser arremessado por outra bala, dessa vez ganhando espaço em seu ombro esquerdo e dele saindo para continuar sua trajetória.

"Não atire nele, senhor," ele ouviu a voz do rapaz suplicar.

"Saia da minha frente, idiota. Não ouviu as instruções do tenente? Eles o querem morto."

"Devem estar enganados. Eles o conhecem. Eles não fariam mal a ele."

"Do que está falando?"

"Ele me salvou. O senhor se lembra? Eu estava entre os atingidos pelo gás tóxico, mal podia respirar. Ele me salvou."

"Saia da frente. Você enlouqueceu, foi? Quer que arranquem a nossa pele?"

Foi essa a estranha conversa que Elrohir, lidando com o fruto de sua atitude impensada de guerra, pôde entender. Ele havia conseguido se arrastar agora e apoiava as costas em outro automóvel, tentando arranjar um modo de se levantar e conter a dor. Quando o inimigo, que o julgava abatido, fez a volta no veículo para verificar o estrago de seu tiro preciso, encontrou um escurecido e ensandecido par de olhos negros que provavelmente foi o mais assustador que sua carreira de mercenário viu.

Elrohir ainda manteve a mão erguida, mesmo depois do tombar de mais aquele inimigo, à sua volta continuava a ouvir o ensurdecedor som da artilharia incessante. Parecia haver ainda mais homens naquele estacionamento do que há pouco. Ele ficou a espera que surgissem de onde viera o outro, era tudo o que suas condições agora o permitiam fazer.

"Merda..." balbuciou, enquanto buscava tentar se levantar. "Idiota. Idiota. Deixou-se atingir de novo. Deixou-se atingir, elfo retardado..." Ele continuou, apoiando agora a cabeça contra o apoio no qual se encostara e tentando manter a arma erguida. Fora atingido no ombro esquerdo, restava-lhe a mão menos hábil para usar a arma. "Que se dane..." ele disse por entre os dentes, apontando para a direção de onde ouvia novos passos. "Se eu errar dessa distância vou merecer que o infeliz me acerte bem na testa..."

Por sua sorte, no entanto, ou para a de quem estava se aproximando, no último instante Elrohir percebeu que o som de passos que seus ouvidos captavam não eram iguais aos demais. Eram passos élficos.

A certeza se fez quando o rosto preocupado de Glorfindel surgiu, portava a arma em uma posição de defesa como a sua, mas diferente dele, o elfo louro parecia já ter percebido quem encontraria naquele lugar. Ele apenas arredondou os olhos diante do quadro que viu e apressou-se em seu socorro.

Elrohir não soube dizer por que aquilo mexeu com ele diferentemente das outras vezes em que o mentor viera ajudá-lo por algum motivo. Ele se afastara tanto das pessoas que amava que sentia uma estranha inadequação para com tudo, até para com o afeto que todos ainda queriam demonstrar por ele. Por esse motivo, quando Glorfindel ajoelhou-se já colocando suas mãos sobre ele, Elrohir segurou-o pela jaqueta com a mão direita, como se desejasse impedir tal proximidade.

"Não vou lhe fazer mal, menino," Glorfindel não soube interpretar tal atitude e Elrohir, preso naquela dor que só fazia aumentar e sem sentir-se preparado para receber qualquer consolo, limitou-se a sacudir a cabeça, indisposto a explicar o que nem ele mesmo entendia.

De qualquer forma, não havia tempo para isso, não havia tempo para muitas coisas.

"Precisamos... Precisamos de Cailin aqui..." ele apegou-se, como vinha fazendo desde então, aos problemas que tinha para resolver, ao que sua força, seu gesto, sua palavra, podiam ajudar a solucionar. O resto que esperasse por uma solução qualquer, ou que nunca se resolvesse, como ele achava que acabaria acontecendo.

Glorfindel envergou as sobrancelhas douradas.

"O que quer de Cailin?"

"Quero... quero que ele destrua... os aviões... as unidades... tudo... tudo aqui... Quero que ele exploda esse lugar... "


Elrohir forçou os olhos a se abrirem mais uma vez. Estava sentado no banco de passageiro da caminhonete de Glorfindel. O elfo pisava fundo no acelerador, adquirindo uma velocidade elevada, para o veículo antigo e comprometido que dirigia. Uma vez renegados, escondiam-se da forma que podiam, usavam o que tinham às mãos, convertiam em dinheiro o que era possível. Por essa razão estavam agora desprovidos dos veículos possantes que anteriormente dirigiam.

Mas Glorfindel não parecia se importar com o equipamento que tinha disponível, muito menos com o som absurdo que estava arrancando do motor da caminhonete para fazê-la cumprir, o quanto antes, a tarefa que lhe destinara. O veículo rodava pela complicada estrada de terra, espantando pedras, acentuando buracos, enquanto seu motorista mantinha as mãos firmes no volante, os olhos fixos nos espelhos e no caminho que tinha a seguir, o coração preocupado. Ele virou-se para verificar o estado de seu passageiro mais uma vez, mas Elrohir desviou o olhar, disfarçando a dor por trás da corriqueira máscara inexpressiva que assumira para si.

"Estamos chegando... Aguente firme."

"Estou bem... Já estive em situações piores..." Elrohir respondeu impaciente, olhando agora pelo espelho lateral, enquanto imaginava o que haviam deixado para trás. "Devíamos ter esperado o Cailin... Ele podia precisar de ajuda..."

"Você está mesmo em condições de ajudá-lo," ironizou o guerreiro louro.

O gêmeo não respondeu, mas seu coração ainda estava preocupado demais com aquilo que ouvira e com o significado que poderia ter.

"Elbereth... eles querem levar a doença para o continente... Que espécie de problema mental tem esses desgraçados?"

"Não pense mais nisso," Glorfindel baixou a voz, mas suas palavras não escondiam a preocupação evidente que estava em seu rosto. Ele olhou o relógio de pulso. "A essa altura já frustramos os planos desses diabos."

Elrohir fechou os olhos novamente, mas logo os reabriu, uma ideia também o estava incomodando naquela descoberta toda.

"Devem ter o antídoto... Ou então não se exporiam dessa forma..." ele foi dizendo.

"Quem há de saber? Há loucos de todo o tipo nessa terra de Mordor. Eu já vi de tudo um pouco..."

Elrohir apertou os lábios, enquanto outra fisgada corria-lhe pelo ombro machucado. Ele tentou se posicionar melhor no banco.

"Pare de se mexer, elfinho," Glorfindel o olhava agora. "Vai comprometer a bandagem que consegui fazer," ele completou, esticando o braço para averiguar o ferimento.

Elrohir empurrou-lhe a mão, evitando o contato, seu olhar ainda divagava pela ideia que lhe preenchia a mente agora.

"Há um antídoto... Deve haver... Eles não iam se arriscar... Não pareciam gente louca ou algo assim..."

"Se há seu pai vai descobrir. Dê-lhe tempo."

"Ele não tem tempo. As pessoas estão morrendo..."

"Na quarentena que está aos cuidados dele não perdemos ninguém na última lua."

"Então por que disse a Eleazar que deixasse os seus para trás? Por que não permitiu que trouxesse os doentes?" Elrohir indagou, seus olhos negros cobrando aquela resposta de forma ainda mais contundente do que o tom de sua voz.

Glorfindel trancou o maxilar. Ele agora se limitava a olhar apenas o caminho que tinha pela frente.

"Não acredita que meu pai vai descobrir tal antídoto, não é?"

Glorfindel respirou fundo antes de responder.

"Não acredito que tal antídoto exista... Creio que nem seu pai acredite..."

Elrohir surpreendeu-se com aquele comentário e com o que sentia em seu peito a respeito dele. Conhecia os instintos de guerreiro do antigo mestre. Gostaria de não conhecê-los tão bem.

"Então... Por que ele trabalha de sol a sol... nisso? Por que continua a fazer aqueles experimentos estúpidos e...

"Por que está tentando ganhar tempo."

"Tempo?" Elrohir indignou-se. "Tempo para quê?"

Glorfindel encheu ruidosamente o peito de ar, ainda encarando a estrada à frente.

"Tempo para um milagre. Tempo para um milagre, criança tola."

Elrohir sentiu o sangue aquecer-se em suas veias com a resposta à sua pergunta. Já estava arrependido de tê-la feito. Volta e meia tinha esses retrocessos e esquecia-se do que tinha aprendido, do que tinha prometido a si mesmo fazer. Volta e meia voltava a se preocupar...

Por que se importava? Ele voltou a repetir seu mantra, ansiando que ele calasse aquela maldita voz em sua mente. Que tolice importar-se com mais aquele problema sem solução. Que tolice estar ali. Que tolice tudo aquilo.

"Milagre..." ele deixou a palavra e a revolta que tentava esconder escapar-lhe pelos dentes cerrados. "Ada não vai salvar ninguém... Eles vão morrer... Legolas vai morrer... Vamos todos para o inferno mesmo. Quem se importa? Ninguém se importa. Que se dane..."

"Seu pai se importa." Dessa vez Glorfindel o olhou decidido, daquela forma que Elrohir não gostava de ser olhado. "Não deixe que sua indigesta falta de perspectiva contagie a ele, elfo tolo, ou vamos nos entender como há tempo eu não me entendo com alguém."

Elrohir retribuiu o olhar, dessa vez sem sequer sentir a dor de qualquer um de seus ferimentos. Era dominado por uma dor maior, uma dor que para ele não era tão fácil ignorar. Mesmo assim ele fechou o cenho, escondendo-se como podia enquanto pensava em uma resposta a altura para a ameaça de seu mestre.

Mas Glorfindel não cedeu, focando sua atenção e energia nele como há muito não fazia. Eram raros os momentos em que o poderoso elfo se dispunha a travar aquele tipo de batalha com alguém, mas Elrohir não se lembrava de nenhum em que tal batalha não acabasse ganha pelo mestre. Por esse motivo ele fez o que mais odiava ser obrigado a fazer, moveu os olhos para outra direção, conhecedor das chances que tinha.

Quando isso ocorreu já haviam entrado no campo administrado por Thranduil. Era um vilarejo com casas de madeira improvisadas e outras construções. Alguns recém-chegados ainda aproveitavam o tempo quente e se abrigavam em barracas até que o grupo de apoio conseguisse construir mais casas. Das três vilas, no entanto, a de Thranduil era a que mais crescia dada à relativa proximidade com a capital e ao aumento da repressão no toque de recolher. Famílias inteiras, fugindo da violência do governo, da perseguição absurda contra alguns e até mesmo da fome, abandonavam a cidade em busca daquele acampamento, que para muitos era mais uma lenda do que um lugar real. Muitas pereciam no caminho, vítimas da peste ou de outras armadilhas da estrada. Muitas se perdiam na densa floresta, mas aquelas que os grupos de resgate do antigo rei conseguiam localizar na mata, acabavam ali, participando daquela comunidade que funcionava como o mais preciso relógio inglês.

Glorfindel olhava o lugar de modo indefinido, enquanto continuava a administrar praticamente a mesma velocidade que o trouxera ali, passando sem cerimônia pelas trilhas recém-cortadas, levantando poeira, espantando pedestres. Seu destino não era uma casa como aquela, nem uma barraca de acampamento. Seu objetivo era chegar a um lugar especial que Thranduil decidira tornar habitável por uma série de motivos: uma caverna cujos túneis de acesso na montanha formavam quase um labirinto.

Ninguém além dos elfos conhecia o caminho correto uma vez passando pela pequena entrada e nenhum outro habitante do lugar se aventurava a tentar descobrir qual seria, mesmo nunca sendo desencorajado a fazê-lo ou ameaçado de alguma forma. Apesar das pessoas do vilarejo não saberem da verdade, havia um respeito quase idólatra por Thranduil, Elvéwen, Elrond e Celebrian no lugar, e o fato deles passarem muito tempo dentro da escuridão daquela montanha, principalmente quando o sol se punha, só somava às lendas locais novos motivos para curiosidade e admiração.

Glorfindel chegou enfim à entrada, parando com um ruidoso cavalo de pau. Ele apressou-se em saltar do veículo e ir auxiliar Elrohir a fazer o mesmo, já completamente esquecido do desentendimento dos dois. O gêmeo, no entanto, já havia descido por conta própria e agora procurava administrar a dor, apoiado em uma perna só.

"Rapaz lá. Deixe-me carregá-lo," ele disse, mas Elrohir balançou veementemente a cabeça, agora sem nem mesmo responder. Glorfindel torceu os lábios, conhecendo bem aquele comportamento arredio do antigo pupilo. "Não vai apoiar essa perna, entendeu? É um caminho difícil até chegar à câmara de seu pai."

"Não," o elfo moreno forçou-se a dizer, por fim, já tentando se mover e passar pelo mestre que lhe tomava o caminho. Glorfindel aborreceu-se e já ia efetivando o que se propusera a fazer, mesmo sem a concordância do rapaz, quando outra pessoa surgiu pela entrada, vindo rapidamente na direção deles.

"O que aconteceu?" Elrond posicionou-se junto a Elrohir, já o segurando por um dos braços e o olhando atentamente.

Glorfindel pensou em responder, falar àquele pai sobre a coragem do filho, sobre como ele lutara com fervor, sobre as descobertas importantíssimas que fizera, sobre as coisas que Elrohir simplesmente se recusava a ver. Falar também sobre a teimosia do rapaz, é claro, sobre sua recusa de ser ajudado. No entanto, o mesmo instinto que trouxera Elrond rapidamente para fora da caverna, mesmo desconhecendo o que havia ocorrido, a mesma sensação que, naquele momento, era mais um instinto de pai do que de curador, parecia contar ao lorde elfo aquilo e muito mais, por isso tudo o que Glorfindel dispôs-se a fazer foi observar o que já previa que iria acontecer. Elrond trouxe o filho mais junto a si, fez seus questionamentos de sempre, sorriu com tristeza diante da tentativa sempre frustrada do gêmeo caçula de esquivar-se, de esconder-se. Logo Elrohir já apoiava com um suspiro contrariado a cabeça no ombro do pai e este o erguia nos braços, tomando o rumo para dentro do lugar que agora habitavam.


Quando Glorfindel chegou à câmara para a qual Elrond levara Elrohir, encontrou o rapaz já prontamente atendido, seus ferimentos tratados e protegidos e suas pálpebras pesadamente fechadas. Havia ido ter com Thranduil antes, contar-lhe as descobertas, ouvir sua opinião, e voltara por aqueles sinuosos atalhos de pedra com o indigesto sabor da incredulidade do rei. Desde que Legolas perdera-se naquele sono indecifrável, Thranduil tratava todos os acontecimentos como se tivessem a mesma gravidade, ou melhor, como se não tivessem gravidade alguma. Seu rosto corria os dias inexpressivo, de seus lábios poucas palavras surgiam. Ainda assim ele era um bom líder, ainda assim aquele novo povo que tomara para si parecia amá-lo tanto quanto qualquer outro que o elfo tivera sob sua liderança. Aquilo era algo que Glorfindel não entendia, mas que lhe despertava uma admiração que ele jamais admitiria.

Elrond voltou-se em sua direção quando o viu. Estava checando mais uma vez a bandagem na perna do filho. Os dois amigos de longa data trocaram olhares cansados e Glorfindel enfim esvaziou o peito, olhando os demais leitos daquela câmara secreta. Havia mais de dez, mas apenas outro estava ocupado, ao lado deste uma bela elfa de longos cabelos dourados estava sentada, observando o paciente com seus olhos sempre tristes.

"Senhora," Glorfindel saudou-a com uma breve reverência e Elvéwen esboçou um sorriso, mas nada disse. Celebrian passou por ela com outro sorriso igualmente abatido e se aproximou, trazendo uma xícara de café.

"Ami," ela ofereceu-lhe a bebida. "Obrigada por tê-lo trazido em segurança."

Glorfindel apertou os lábios, um pouco surpreendido pelo agradecimento desnecessário. Celebrian fora anos a senhora das terras na qual ele vivera, aquela que trouxera um sorriso diverso ao compenetrado lorde de Imladris, alguém por quem o guerreiro louro sempre teria uma profunda admiração e por quem tudo o que fizesse nunca seria para ele o bastante.

"Lamento não ter chegado a tempo de protegê-lo do ataque inimigo," ele disse, olhando novamente para o elfo ferido. "Eram muitos e ele lutou bravamente. Se o que ele descobriu hoje for verdade, seu filho salvou muito mais vidas do que ele esperava salvar quando decidiu acompanhar Bearach naquela manobra, minha senhora."

Celebrian soltou um leve suspiro, depois baixou os olhos, aproximando-se do filho e escorregando os dedos pelos cabelos negros dele.

"É o que move os dias dele... A batalha..." ela disse pensativa. "Fico feliz que desta vez ele não tenha trazido só a morte em seus ombros..."

Glorfindel silenciou-se, mas olhou para Elrond como que se desejasse ler no rosto do amigo alguma informação que não estava ao seu alcance no momento. Mas o curador apenas retribuiu o olhar. Depois, em um involuntário movimento sincronizado, ambos se voltaram para a mesma direção. Elvéwen e Celebrian estavam cada qual ao lado do leito de seus filhos desacordados. Elas acariciavam-lhes os cabelos, mas tinham o olhar perdido em preocupações evidentes. Em um momento se entreolharam e Celebrian ofereceu um sorriso solidário à amiga, compreendendo bem a diferença da situação na qual estavam. Elrohir despertaria cedo ou tarde, já Legolas era a cada dia uma dúvida maior e mais dolorosa.

Elrond soltou sutilmente os ombros, depois percebeu o olhar preocupado que o amigo louro dirigia a Elrohir.

"Ele perdeu uma quantidade significativa de sangue, mas vai se recuperar," Elrond informou a ele. "Faço minhas as palavras de minha esposa, meu amigo. Agradeço-lhe pelo que fez por ele," completou. Depois, quando Glorfindel se mexeu desconfortável com mais aquele agradecimento dispensável, sentiu a mão de Elrond puxá-lo sutilmente pelo cotovelo.

Ambos se afastaram então, até saírem por um dos sinuosos corredores daquela caverna e alcançarem um local onde poderiam conversar. Glorfindel parou e olhou para o amigo moreno. Já imaginava o que estava na mente de Elrond.

"Seu filho contou-lhe a conversa que ouviu, não foi?"

"Sim, contou-me. Foi-me de um desagrado sem precedentes ouvir novamente o nome de Erastus Zydras. Mas estou deveras intrigado com o que pode ser lido nas entrelinhas da conversa desses dois estranhos."

"Também estou."

"Isso quer dizer que não tem nada a me dizer? Nenhuma suposição ou conjectura?"

Glorfindel suspirou.

"Quisera eu. Mas tudo o que me vem à mente assemelha-se mais a essas infames teorias de conspiração com as quais o cinema e a imprensa de segunda nos bombardearam durante tantos anos..."

Elrond acompanhou o desabafo atentamente, depois indagou:

"E Teodor? Contou-lhe?"

Glorfindel estalou a língua.

"Se Teodor tem alguma opinião a respeito não parecia disposto a compartilhá-la comigo. Aliás, ultimamente ele me parece indisposto até mesmo a respirar."

Elrond baixou os olhos, em seguida moveu-os em direção ao caminho de onde haviam vindo, como que para oferecer ao amigo a razão para aquele comportamento. Glorfindel baixou também os dele, desejando não compartilhar daquela certeza.

"Se Lazarus cair, não poderemos mais contar com ele..." disse.

Elrond engoliu em seco, depois respirou fundo.

"Lazarus já me surpreendeu positivamente em uma série de situações. Espero que esse seja mais um dos momentos que irei adicionar a essa lista."

"Gostaria que Teodor compartilhasse sua esperança."

Elrond balançou a cabeça.

"Para mim nunca foi muito claro o que estava no coração e na mente de Teodor. Não creio que esse momento seja diferente dos outros."

Glorfindel concordou com a cabeça, mesmo sem estar bem certo se realmente acreditava nas palavras do amigo. Ele sentiu Elrond voltar a segurar em seu braço então.

"Falando em compartilhar esperanças..." ele disse. "Preciso pedir-lhe um favor."

"O que precisar. Sabe disso," Glorfindel não tardou a dizer.

Elrond tomou fôlego, depois ergueu a mão direita e apoiou as pontas dos dedos na têmpora do amigo. Glorfindel reconheceu a atitude. Embora há muito tempo não trocassem aquele ato de confiança, ele abriu a mente sem pestanejar, intrigado com o segredo que o amigo parecia ter urgência em compartilhar com ele.

"Dagoruth"

Glorfindel envergou as sobrancelhas, mas Elrond já rompeu o elo, olhando a sua volta. Parecia temer manter-se naquela posição de vulnerabilidade, na qual o nível de concentração era tão grande que comprometia seu entendimento do que pudesse estar acontecendo ao redor de si.

"O que foi isso?" O elfo louro indagou intrigado.

"É uma senha, meu amigo. Uma palavra-chave."

"Para quê?"

"Para que você acorde Elrohir se algo me acontecer."

Glorfindel ainda esperou intrigado mais um tempo, como se mais algum esclarecimento fosse lhe ser concedido, até que uma ideia absurda lhe ocorreu.

"Colocou-o sob feitiço élfico?" ele estava tão surpreso que se esqueceu do protocolo de segurança que haviam selado.

Mas Elrond apenas assentiu com a cabeça.

"Lembra-se do que o medicamento adan fez a ele quando lhe dei aquela injeção, não se lembra? Ele dormiu por quase quatro dias e não respondia a qualquer estímulo que lhe desse. Não quero correr esse risco. Tendo controle sob sua mente posso acompanhar seu progresso, fazê-lo alimentar-se sem risco, e voltar a despertá-lo quando estiver recuperado."

Glorfindel prendeu o ar no peito e Elrond percebeu sua discordância praticamente desenhada nos traços do rosto.

"Ele ficará em paz. Não se preocupe."

"Trancou-o com seus próprios pesadelos, Elrond. É o que o feitiço faz. Você mesmo disse diversas vezes que em mentes em turbulência tal procedimento é totalmente desaconselhável."

Elrond baixou os olhos, depois voltou a olhar o amigo pacientemente.

"Creia em mim como sempre fez, meu amigo. É só o que lhe peço," ele disse. Apesar do pedido, não parecia entristecido com a dúvida levantada pelo outro. Suas palavras, no entanto constrangeram o elfo louro, que se apercebeu fazendo de fato algo que nunca fizera antes.

"Rogo por seu perdão, meu amigo," ele jogou a cabeça para frente, apoiando a mão no ombro de Elrond. "Esses momentos nos quais vivemos são tão atípicos que..."

"Eu entendo," Elrond retribuiu o gesto de amizade e os dois elfos se olharam novamente. Dessa vez, o curador segurou o olhar do amigo no seu. "Tenho me dado o direito de ir além no processo que a mim foi ensinado. Posso agora deixar o paciente em um estado de semi consciência que apesar de ser menos eficaz em sua recuperação, preserva a mente dos desconfortos da inconsciência total."

Glorfindel ergueu surpreso as sobrancelhas, mas depois voltou a franzir o cenho.

"Menos eficaz?"

"Sim. Em algumas circunstâncias. Como não está de todo adormecido, em determinadas situações pode sentir e até ouvir o que ocorre à sua volta. Por essa razão devemos agir da forma mais cautelosa possível quando estivermos em sua presença. Se conseguirmos fazer com que não se estresse, que permita que seu corpo descanse, ele pode se recuperar no mesmo prazo ou até mesmo antes, mas para tanto precisamos de algum esforço."

"Ele sabe disso? Contou-lhe sobre o processo antes de fazê-lo?"

"Contei-lhe. Desagradou-se, mas por fim concordou. É de seu interesse recuperar-se o quanto antes. Estarei de olho nele mesmo assim, pois sei o quanto o subconsciente de Elrohir custa a obedecê-lo, principalmente em liberdade como estará."

Glorfindel ouviu atentamente, mas depois balançou a cabeça, parecendo ainda desconfortável com a ideia.

"É a primeira vez que me revela a senha. Sempre me disse tratar-se de algo de estrema gravidade fazê-lo."

Elrond concordou.

"Dizia isso porque as palavras-chaves de entrada e saída eram sempre idênticas, então uma vez reveladas poderiam ser utilizadas por outros em outras situações. Agora sou capaz de criar eu mesmo palavras distintas de entrada e de saída, próprias para cada paciente e inutilizáveis para outros."

Dessa vez Glorfindel surpreendeu-se de fato. Na loucura que viviam havia se esquecido de que Elrond era um curador sempre em busca de novos procedimentos de cura, não devia surpreendê-lo que enfim ele tivesse se decidido a dedicar-se àquele procedimento hipnótico.

"Pelo que vejo tal prática deixou de ser tão condenável quanto era no passado," ele comentou intrigado, lembrando-se que Elrond era o único curador a quem os Valar haviam permitido a utilização de tal ferramenta e mesmo assim seu uso tinha uma série das mais rígidas restrições. "Recebeu algum tipo de autorização para mudar as regras do jogo?"

Elrond respirou fundo.

"Estamos em guerra," ele disse, e seu tom pareceu demonstrar pela primeira vez desesperança ou algo assim. "Se todas as regras que nos favoreciam parecem estar sendo burladas, atrevi-me a concluir que outras também possam ser atiradas ao fogo com as demais."

Glorfindel soltou os braços então, mas Elrond continuou com a mão apoiada no ombro do amigo até que ele voltasse a olhar para ele.

"Temos que usar as armas que estão em nossas mãos," ele disse. "Receio que estejamos mais sós do que jamais estivemos..."

Embora Elrond não tivesse tido qualquer segunda intenção naquele pequeno desabafo, suas palavras fizeram o amigo louro unir fortemente os lábios, erguendo o queixo em seu ar austero e impetuoso de sempre.

"Sabe que está seguro aqui, não sabe?" ele assegurou então, demonstrando o que concluíra e o desagradava naquela situação; o que ele julgava ser o motivo que fizera com que o curador lhe revelasse tal segredo. "Lamento dizer-lhe, inclusive, que se algo lhe acontecer não vai ter sido de grande valia ter me revelado o que me revelou, pois se chegarem até você, será porque já terão passado por cima de mim."

Elrond soltou um riso então, o primeiro de muito tempo, depois sacudiu um pouco o ombro que segurava.

"Compartilhei o segredo com minha esposa também, apenas por precaução," ele confessou em um tom provocativo que também não usava há tempos. Glorfindel primeiro envergou o cenho, pego de surpresa pela revelação inesperada, mas depois também riu.

"Fez bem, meu amigo. Eu também não confiaria em minha sanidade se fosse você."


"Sabia que haviam escapado, Harald?"

"Tinha uma vaga desconfiança. A energia ainda está equilibrada demais..."

"Mas me fez crer o contrário! Por quê?"

"Porque se não fosse assim não conseguiria convencer seu animalzinho de que a família estava morta. Você se conhece, Erastus. É um péssimo blefador. Precisa acreditar antes de convencer a outros."

Erastus endureceu o rosto, não parecendo satisfeito com o que ouvia. Harald sacudiu inconformado a cabeça. Estavam em pé, lado a lado, sob o céu sem estrelas de seu ponto de refúgio, diante do mesmo lago perto do qual conversavam há muitos anos.

"Não era o que queria? Que ele se abrisse como o fez?"

"Era... Mas podia convencê-lo de outra forma..."

"Não havia outra forma de trazê-lo para perto de você."

"Podia conquistar o afeto dele. Já estava conseguindo. Já o tínhamos afastado deles e..."

"Conseguindo, Erastus? Não podia concorrer com o que ele julgava que tinha. Sabe disso. Por que teima em não acreditar no que lhe digo? Eu conheço essas criaturas temperamentais cheias de devoção. Não tomaria o lugar da família dele nem que o aprisionasse em uma masmorra sem janelas."

"Não era minha intenção tomar o lugar de ninguém."

"Se não era ainda é mais tolo do que imagino, Erastus. Como ele se abriria se não confiassem em você como confiava nos dele? Para isso precisava acreditar que havia perdido tudo. Precisava conhecer toda a dor possível, sentir-se sem razões para não se entregar a ela, para que só então você pudesse entrar em sua vida, fazê-lo ver que havia outro caminho, que ele podia ser da dor o maior oponente."

Erastus mordeu o lábio inferior, parecendo pouco convencido.

"Não queria um castelo construído na areia da praia, sujeito à maré dessa forma. Queria construir algo efetivo. Do modo que está posso perder tudo o que conquistei."

"Como?"

"Como, Harald? Não viu hoje o destino rir de nós? O destino colocar a figura do pássaro cantor bem diante de nossos narizes? E se Elladan estivesse conosco naquele momento?"

Harald torceu os lábios então, como se aquela lembrança tivesse lhe trazido um gosto amargo à boca.

"Pois meu único lamento é o de não ter tido maior presença de espírito para tê-lo sentido antes. Se minhas mãos tivessem tido a oportunidade de quebrar o pescoço daquele canarinho maldito, meu dia teria sido completo."

Erastus voltou a sacudir a cabeça, dando um passo a frente e mirando a própria imagem no lago parado. Acima dele o reflexo da lua cheia por trás das nuvens escuras parecia tornar as coisas mais sombrias.

"Nossos homens o pegaram, pelo menos?" ele indagou sem se voltar. "Ainda sente a presença dele?"

"Graças ao bom Ilúvatar não sinto a presença dele com tanta facilidade assim. Teria enlouquecido se fosse diferente, pois não há nada mais desagradável do que a energia que emana daquele espírito conflituoso. Como os Senhores dão tamanho poder a uma criatura desprezível como aquela é algo que não compreendo."

Erastus respirou fundo então, ainda mais incomodado.

"Diga-me o que acha então? Acredita que pelo menos do irmão nos livramos hoje? Porque se o rapaz escutou o que presumo que tenha escutado podemos ter problemas incalculáveis e..."

"Eram homens o bastante para eliminar um exército de elfos. A companhia que contratei é das mais bem treinadas. Quero crer que além de colher bons frutos hoje, extirpei os podres... ainda que não todos..."

Erastus encheu o peito novamente, sem sentir a mesma certeza do amigo. Para ele não importava se conseguiriam ou não levar a doença para fora do país. O que temia apenas era que aqueles elfos viessem a querer tomar dele o que lhe pertencia depois de todo o trabalho que tivera. Não, ele não permitiria tal coisa.

"Mesmo que o irmão esteja morto, ainda temos que caçar os demais. Será que escaparam todos do atentado ao hospital?" ele indagou então, olhando o outro por sobre o ombro.

Harald moveu o olhos para o céu, como se estivesse tentando sentir algo. Algumas habilidades do amigo eram desconhecidas para Erastus, algumas lhe despertavam admiração, outras, algo um tanto diferente disso.

"Sinto bastante conflito no ar. Duas das maiores forças estão comprometidas. Uma bem mais do que a outra."

"Quais?"

Harald deu alguns passos então, aproximando-se e encarando o mesmo lago.

"Há tempos sinto o Poikaer enfraquecer. Parece que o destino fez por mim o que eu mesmo gostaria de ter feito. Ao invés de descobrir seu poder, ele está sendo consumido por ele. Isso foi inesperado e completamente satisfatório."

"Não era de se admirar. Uma criatura daquelas não pode ser Senhor de coisa alguma, muito menos dos pesadelos das pessoas. Seu espírito não tem a força necessária para tal... É imaturo..."

"Sim. Será uma fruta a morrer verde no pé. Algo pelo qual aguardo ansiosamente. Admiro-me do mesmo não ter acontecido àquele pássaro maldito. Sem o devido direcionamento ele também deveria estar perecendo, engasgando-se com o próprio poder como acontece com aquela criatura dourada. Mas parece que aquele canarinho arredio pouco se importa com o poder que tem, é ainda pior do que o irmão."

"Elladan aprendeu a valorizar seu poder," o tom de Erastus mudou então. Ele parecia extremante orgulhoso. "Ele cresce dia a dia. É deliciosamente assustador."

Harald voltou a apertar o maxilar, sentindo o mesmo gosto amargo que o incomodara a pouco, seguido de sensações desagradáveis que estavam a cada dia mais difíceis de contornar.

"Mais um motivo para não tirar-lhe as correntes, não se esqueça. Não se esqueça do que tem nas mãos, Erastus. Ou seu animal de estimação poderá surpreendê-lo negativamente."

"Ele não fará nada de errado. Não se preocupe."

Harald escondeu como podia a sensação negativa que crescia em seu peito em relação àquele elfo, o primeiro empecilho que tiveram, a primeira coisa que os dividira.

"É bom mesmo que não faça," ele respondeu, estreitando os olhos. "Para o seu próprio bem e para o dele também. Porque se aquele seu animalzinho escapar de suas rédeas, meu amigo, eu nem sequer indagarei sobre as intenções dele. Na verdade, eu não responderei por mim."

Erastus olhou-o no mesmo instante, mas o comentário que lhe ocorria fazer foi abafado pela aproximação de um dos homens da equipe que Harald reunira. Para ele era estranho ter aquele local que desde sempre tinha sido paisagem exclusiva apenas para os olhos dele e de Harald agora infestado daquelas figuras de preto. O homem esperou autorização para aproximar-se mais e esta veio em forma de um breve aceno do chefe.

"Sr. Weald. Trago-lhe o relatório da empreitada no aeroporto."

"Diga-me, meu caro. Trouxe-me a cabeça de meu inimigo?" Harald disfarçou a ansiedade. Haviam saído às pressas do lugar assim que se viram descobertos, deixando para a equipe de segurança a limpeza do local.

A palidez no rosto do homem não foi exatamente a resposta que Harald esperava, mas a informação que se seguiu conseguiu surpreendê-lo ainda mais.

"Outros chegaram, senhor. Reforços do Ardal. Ami Bradach os estava liderando. Tivemos muitas baixas e..."

"E?"

"Tivemos que evacuar a área, pois estávamos em desvantagem... Mas..."

"Diga."

"Explodiram tudo, senhor..."

"Como assim explodiram tudo?" Erastus foi quem indagou, haja vista que Harald havia emudecido.

"Explodiram... o lugar inteiro... Não... Não restou nada... Nada senhor..."