Ela estava observando o céu escuro pela janela, enquanto a chuva caía forte, fustigando os campos verdes de Hogwarts. O rosto estava impassível, mas o olhar dela parecia tão perdido, tão necessitado de consolo, de carinho...

Voltou-se uma vez mais para a carta que estava aberta em seu colo, observando a letra delicada que traçara versos no pergaminho amarelado. Versos para ele.

Por várias vezes me dissesseste o que sentias
E em todas de ti fugi, sem resposta dar ao teu apelo.
Não quis me magoar e em silêncio fiquei,
Retirando de ti o direito a ouvir-me.

Lily esfregou os olhos de leve, enquanto afundava cada vez mais na cadeira. Com o canto dos olhos, ela o observou. Ele estava absorvido na leitura de um pergaminho. O seu pergaminho.

Suspirou. Não precisava observá-lo para saber o que ele fazia. Podia sentir cada movimento dele, como se fosse o seu próprio.

Ela recostou-se na cadeira, cerrando as orbes verdes. Não assinara o poema. Mas ele sabia que fora ela. Ele a conhecia bem demais, apesar de toda a distância que ela sempre impusera entre eles.

James respirou fundo, enquanto se esticava no sofá que elegera para acolhê-lo naquela noite chuvosa. Os outros marotos estavam ao seu redor, mas ele não estava realmente interessado na conversa de Sirius e Remus, que estavam discutindo por alguma coisa.

Embora seus olhos ainda estivessem no pergaminho, não precisava ler para saber o que estava escrito. Desde a primeira vez em que batera os olhos naqueles versos, eles se tinham marcado a ferro e fogo na sua memória.

Enquanto teus olhos me envolviam de carinho
Eu abaixava os meus com medo de perder-me
Tentava ignorar o teu eterno pedido mudo.
Privei-te da visão.

Embora sua consciência lhe dissesse que era melhor subir para seu dormitório e se manter lá em segurança antes que a sala comunal se esvaziasse por completo, o corpo não lhe obedecia.

Estava à espera.

Evitei o teu toque como se tu fosses um leproso
Decidida a não ceder às tuas carícias.
Ignorando até mesmo a educação,
Furtei de ti o tato.

Remus resmungou mais alguma coisa antes de finalmente se levantar e sumir em direção aos dormitórios. Peter o seguiu pouco depois. Por fim, só ficaram ele e Sirius na sala comunal, em silêncio, sem se encararem.

E, não muito distante deles, Lily Evans.

Mesmo assim, insististe em inebriar-se em mim.
Desgostosa, reprimi minha essência.
Meu perfume não mais a ti chegou.
Fiz-te perder o olfato.

'- James, você está me ouvindo? - Sirius perguntou, despertando-o de seus devaneios.

'- O que foi agora, Padfoot?

Sirius suspirou.

'- Esquece. - o rapaz levantou-se finalmente, observando a sala comunal vazia - Acredito que você queira ficar sozinho para afinal dar vazão a todo esse sentimentalismo patético que te acometeu desde que se apaixonou por aquela Evans.

James apenas deu de ombros e Sirius partiu, deixando os dois grifinórios sozinhos afinal.

Teimoso como és, não desististe
E eu, em minha fraqueza, por uma única vez,
Deixei-te provar de meus lábios.
Sobrou a ti, então, o paladar.

Qualquer um diria que ela dormia profundamente. Mas ele sabia que ela estava acordada. Mesmo que ela não tivesse se mexido na poltrona, ele podia sentir a tensão que ele provocara nela com sua aproximação.

'- Evans? - ele chamou com a voz firme, sentando-se de frente para ela.

Lily reabriu os olhos, encarando-o com frieza.

'- O que quer, Potter?

Ele estendeu o pergaminho para ela, enquanto se recostava contra a própria poltrona.

'- Acho que estou com algo que lhe pertence.

Ela recebeu o papel, e seus olhos passaram brevemente pelos versos que tinham borbulhado de sua pena na noite anterior.

'- Espero que esteja satisfeito. - ela respondeu, dobrando o pergaminho.

Ele sorriu tristemente.

'- Eu nunca vou estar satisfeito.

Lily observou-o em silêncio por alguns instantes antes de se levantar.

'- Com licença, eu vou dormir.

Já estava de costas para ele quando a voz grave soou no salão vazio.

'- Até quando você pretende fugir de mim, Lily Evans?

Ela fechou os olhos, soltando um suspiro resignado.

'- Até que o sol brilhe à noite e a lua impere durante o dia. Até que os rios invertam seu curso, que as aves todas emudeçam, que o próprio tempo deixe de passar. Até que me faltem forças para controlar meu coração... - ela respondeu, quase num sussurro.

James se levantou, caminhando até ela, parando apenas quando ela se virou para encará-lo.

'- E não foi isso que aconteceu naquele dia, no baile? - ele perguntou baixinho - Não era a febre, nem a bebida, muito menos algum delírio louco de nós dois.

Lily não respondeu. Apenas encarou os olhos dele, sentindo o seio arfar. Desejava tanto senti-lo novamente junto a si que chegava a ser dolorido.

Ele aproximou-se até que seus narizes se tocassem. Sentiu o hálito quente dela quando a ruiva entreabriu os olhos, como se disposta a falar alguma coisa. A repeli-lo, quem sabe?

Mas ele não deixaria mais essa chance passar.

Antes que ela pudesse fugir dele mais uma vez, James a puxou pela cintura, sentindo todo o corpo de Lily contra o dele ao mesmo tempo em que roçava seus lábios na boca dela. Lily ainda tentou resistir, mas já estava irremediavelmente perdida.

Agora sou eu que anseia, que espera, que sente, que chora
Acabei com todos os teus sentidos sem perceber
Que, a cada dia, mais me enredilhava na tua armadilha
Até, por fim, esquecer-me da razão.


Agora acabou em definitivo. O poema que dá nome ao capítulo é de minha própria autoria. Se quiserem copiar, tudo bem, mas dêem os créditos e me avisem, ok?

Até a próxima, pessoal!

Silverghost.