Capítulo 01: Vapores embriagantes


Lily piscou os olhos com força, observando o teto sobre sua cama. Levantou-se preguiçosamente, afastando de leve as cortinas que envolviam sua cama. Os pés escorregaram para longe do cobertor e logo estavam dentro das confortáveis sandálias de pano que ela havia ganho da avó há alguns anos. Espreguiçado-se uma última vez, ela finalmente pôs-se em pé.

O dormitório ainda estava às escuras, exceto pela fraca luminosidade proveniente do abajur que descansava na mesa de cabeceira de Madeline. A ruiva penteou os cabelos com os dedos, sorrindo ao pensar no medo infantil de escuro que a amiga conservava mesmo aos dezessete anos. Pé ante pé, ela passou pela cama das outras colegas de dormitório até chegar à janela.

A lua ainda estava no céu. Mas na linha do horizonte ela já podia ver a claridade do novo dia. Como se o Autor de todas as coisas estivesse brincando com uma aquarela, o céu mesclava o laranja e o vermelho da aurora com os tons de azul e lilás da noite. Uma brisa fria soprava, anunciando a madrugada, balançando as frondosas copas das árvores da Floresta Proibida e arrepiando os verdes gramados que circundavam o castelo.

Respirando fundo, ela abandonou a janela e encaminhou-se para o banheiro. Tomou um demorado banho frio, vestiu-se e voltou para o dormitório. A essa altura, o sol já tinha deixado sua morada por inteiro e brilhava solenemente sobre o lago onde a Lula Gigante se requentava. Prendendo os cabelos num coque frouxo, Lily observou o relógio. Seis horas. Ainda era muito cedo para acordar as meninas.

Desceu calmamente as escadarias, deixando o dormitório feminino. Ao passar pela sala comunal, percebeu que está também estava vazia. Nem por um momento refletiu que alguém poderia estar se escondendo atrás de alguma poltrona; ao invés disso, cantarolando para si mesma uma canção trouxa, ela deixou a torre dos leões, seguindo seu caminho até a cozinha.

Lá o dia parecia já ter nascido há muito tempo. Elfos e mais elfos corriam para todos os lados carregando travessas fumegantes e enormes caldeirões de onde saía um cheiro delicioso. Sorrindo, ela observou em silêncio aquela correria até sentir que alguém puxava sua saia. Olhando para baixo, deparou-se com um dos elfos, também sorrindo para ela.

'- Bom dia! No que posso servi-la, senhorita Lily?

'- Bom dia para você também, Silas. Pode me trazer alguns biscoitos e um copo de leite?

'- Será um prazer! - ele exclamou com a voz fina, logo correndo para obter aquilo que ela pedira.

Pouco depois ela estava sentada à mesa que correspondia a sua, saboreando uma fornada ainda quente de cookies e tendo uma enorme jarra de leite a sua frente. Silas ainda providenciou um prato de waffles cheios de calda de chocolate e outro menor com torradas fresquinhas.

Lily saboreou seu café da manhã sentindo-se a mais feliz dos mortais. Era segunda-feira, em poucas horas teria aula de adivinhação, sua preferida. Adorava passar a aula fantasiando futuros nas cartas e xícaras de chá enquanto a velha professora Lerouge andava de uma lado para o outro, com seus cabelos brancos presos em uma trança caindo até os joelhos.

A ruiva sorriu ao lembrar-se do apelido que ela e Cecille tinham dado à professora... Rapunzel.

Nesse momento, a passagem abriu-se novamente e ela ergueu os olhos. Seu semblante anuviou-se levemente ao reconhecer o rapaz que estava agora parado diante dela. Mesmo assim, ela deu um sorriso fraco, acenando com a cabeça para que ele se sentasse.

'- Bom dia, Potter. O que faz acordado tão cedo?

'- Caí da cama. - ele respondeu, bocejando e roubando um dos waffles do prato dela - Não sabia que conhecia a passagem da cozinha.

'- Desde o primeiro ano. - ela respondeu, dando um gole em seu leite - Eu sempre sinto fome à noite e segui um dos elfos tão logo soube que eram eles que cuidavam da nossa comida.

Ele assentiu, agora surrupiando algumas torradas. Lily o observou disfarçadamente. Desde o começo do ano letivo, o sétimo e último deles na escola, os dois haviam feito uma trégua. Ela não se metia nas peças dele se ele nãs as fizesse debaixo de seu nariz e ele não "atazanava" mais a vida dela com incessantes convites para sair. O acordo fora intermediado por Remus e Nicole, outra das amigas dela, em nome de toda a turma de grifinórios do sétimo ano. As brigas dos dois tinham feito a Grifinória perder seguidamente o Campeonato das Casas apesar de todas as vitórias no quadribol. E Nicole, que agora era monitora-chefe, tinha como ponto de honra a conquista da Taça em seu último ano em Hogwarts.

Lily observou o relógio de pulso. As pilhas tinham acabado há anos, mas ele continuava a funcionar graças a alguns feitiços muito úteis que ela tinha aprendido com Flitwick nas aulas extras que tinha desde o quinto ano, quando fora a única aluna a fechar tanto o exame teórico quanto prático da matéria. Eram sete horas. A essas alturas, o salão principal já estava cheio de alunos tomando seu café da manhã.

A garota levantou, disposta a se despedir, mas antes que pudesse fazê-lo, reparou que os olhos de James estavam fixos nela, com um estranho brilho de... esperança? Ela mordeu os lábios. Conhecia aquele olhar. Era o mesmo que Sirius fazia quando queria pedir ajuda a Nicole para acobertar alguma coisa. E como Nicole tinha uma certa tendência para descumprir regras; mesmo sendo monitora-chefe, sempre acabava por ajudá-lo.

'- Você quer alguma coisa, Potter? - ela perguntou com a voz cansada.

'- Hum... Se eu pedir, você vai me ajudar?

Ela arqueou a sobrancelha.

'- Ajudar? O que andou aprontando dessa vez?

Ele sorriu, meneando a cabeça.

'- Eu não aprontei nada. E se tivesse aprontado, eu ia falar com a tenente monitora, não com você.

Lily meneou a cabeça, não conseguindo se impedir de sorrir e voltou a se sentar.

'- O que quer?

'- Você sabe se 'line gosta de alguém? - ele perguntou, engolindo metade do nome da colega.

'- Madeline? Bem, que eu saiba... - a ruiva estranhou a pergunta - Para que você quer saber disso?

'- Você acha que se eu a convidasse para o baile de formatura, ela iria comigo?

Lily sentiu o coração acelerar.

'- Você quer convidá-la para o baile? - mordendo os lábios de leve, ela voltou a se levantar - Não está querendo brincar com minha amiga, não é, Potter?

Ele meneou a cabeça rapidamente.

'- De maneira alguma! Eu só... Erm... Eu acho que...

A ruiva abanou as mãos, impedindo-o de continuar.

'- Não, ela não está gostando de ninguém. Agora, se me dá licença...

Ela deu as costas a ele e já estava quase saindo da cozinha quando ele voltou a chamá-la.

'- Evans, será que... Será que você poderia sondar terreno para mim? Quer dizer, ver se existe alguma possibilidade dela...

'- Depois, Potter, agora eu tenho que ir para a aula. - ela respondeu, com medo que ele continuasse - Com licença.

Logo a passagem se fechou atrás dela e Lily apoiou-se de leve na parede, respirando fundo, antes de começar a caminhar. Maravilha. Era só o que faltava a ela. Não bastava ter que lidar com a descoberta que gostava de James; descoberta essa que a atormentava desde o Natal, quando a família dos Potter fora atacada e o rapaz passara uma semana no St. Mungus. Agora tinha que conviver com sua paixão platônica e, quem sabe, ajudá-lo a conquistar uma de suas amigas.

Merlin, como a vida pode ser injusta...

Ela chegou antes de todos à sala de adivinhação. Sentou-se em um pufe longe da mesa da professora, observando o céu claro pelas frestas das janelas fechadas. O cheiro de incenso dominava todo o ambiente e Lily começou a se sentir zonza com a mistura de calor, vapor e silêncio. Tanto que nem notou quando a porta que dava acesso aos aposentos de Madame Lerouge se abriu.

Quando deu por si, ela estava deitada no chão, tendo a face preocupada da boa senhora sobre ela. Lily voltou a piscar os olhos.

'- O que aconteceu? - ela perguntou, ainda sentindo vestígios da tontura.

'- Você entrou em transe. - a professora respondeu, traindo certa ansiedade na voz - Você se lembra de ter visto alguma coisa, minha jovem?

Ela fechou os olhos por alguns instantes, meneando a cabeça em seguida.

'- Eu estava olhando para a janela, e, de repente, estava deitada com a senhora olhando pra mim. Foi muito rápido, eu não posso ter entrado em transe...

A professora assentiu, ajudando-a a se levantar. A grifinória observou-se em um pequeno espelho que estava sobre a mesa. Não o tinha percebido antes. Os olhos verdes a encararam com atenção do reflexo e ela percebeu que estava muito pálida. Pouco depois o alçapão abriu-se e os poucos alunos de adivinhação penetraram na sala. Lily sentou-se novamente e logo outra garota se juntou à ruiva.

'- Bom dia, Lily. Madrugou hoje, não?

Lily observou a garota que sentara-se ao seu lado. Cecille Hellern era prima em terceiro grau de James. Tinha os mesmos olhos castanhos do rapaz, mas os cabelos eram mais claros, caindo em cachos mais ou menos definidos sobre os ombros dela. A ruiva sorriu, agradecendo pela penumbra da sala, que não permitiria à amiga perceber o quão pálida ela estava.

A aula se passou na rotina habitual. Lily esqueceu o incidente do início da aula, divertindo-se com as previsões estapafúrdias que Cecille fazia à meia voz com a bola de cristal. Era por isso que gostava tanto de adivinhações. Aquela aula servia como uma espécie de bálsamo para todas as suas preocupações; Madame Lerouge, apesar de ensinar a matéria, não parecia acreditar muito no que ensinava, e sempre os deixava à vontade para tentar encontrar seu "olho interior" enquanto fazia castelos de cartas. Tudo o que precisavam fazer era inventar, usar da criatividade e da imaginação para descobrir o que lhe viria no futuro.

E imaginação era com Lily. Dificilmente haveria naquele castelo alguém mais imaginativo do que a ruiva.

'- Então, você vai se deparar hoje com grandes provações, já que há uma mosca como obstáculo nas névoas do seu destino... - Cecille continuou, observando a bola de cristal - A mosca significa alguma coisa?

'- Talvez haja alguma resposta alada para as dificuldades que aparecem... - Lily respondeu pensativa - Ou talvez eu deva ter cuidado com o lixo... Quem sabe alguém não vai atirar uma lixeira em mim? Bem, agora é a minha vez.

Ela puxou a bola de cristal para si e observou a espiral enevoada que parecia preencher a orbe. Cecille observou a amiga, segurando o riso, enquanto os olhos verdes de Lily pareciam refletir as espirais da bola de cristal. A ruiva fechou os olhos, deixando que as imagens viessem à sua cabeça, como sempre fazia.

'- Você está em um baile... - ela sussurrou para Cecille, ainda com os olhos fechados, os lábios curvados em um tênue sorriso - Todos pararam para observá-la dançando com um rapaz... Pelos olhos eu diria que é o Bagnold... O filho da ministra...

Cecille suspirou audivelmente. Tinha uma paixão antiga pelo colega de infância, que se formara no ano anterior e era seu vizinho. Lily continuou.

'- O restante do pessoal está lá também. E pelos trajes que todos estão usando... Eu diria que é uma cerimônia de casamento!

'- Quem está se casando? - Cecille perguntou ansiosa?

Lily voltou a abrir os olhos.

'- Sinto muito, os poderes superiores interromperam o contato. Devo pedir à telefonista que tente novamente?

'- O que é telefonista? - Cecille perguntou com um meio sorriso.

A ruiva suspirou, dando de ombros.

'- Esquece...

Nesse momento, a sineta tocou e os alunos se levantaram, deixando a sala. Lily e Cecille ficaram por último, arrumando suas coisas. Elas já estavam quase descendo as escadas quando Madame Lerouge as chamou de volta.

'- Não estão esquecendo alguma coisa?

Lily virou-se primeiro e viu nas mãos da professora o pequeno espelho em que se mirara antes da chagada da amiga.

'- Isso não é nosso, professora. - ela respondeu, jogando a mochila nos ombros.

'- Tem certeza? Ele não estava aqui antes de você chegar. - ela virou o espelhinho para si e seus olhos se estreitaram. Pelo silêncio que se seguiu, as duas garotas pensaram que já tinham sido liberadas, mas a professora as interrompeu novamente - Senhorita Evans, por favor, leve o espelho com você. Acredito que logo encontrará o verdadeiro dono.

A ruiva arqueou a sobrancelha enquanto a professora lhe dava o espelho. Sem entender, ela simplesmente enfiou o objeto na bolsa e voltou a se despedir da professora, seguindo Cecille para a aula seguinte. Feitiços.

'- É por isso que eu adoro a segunda-feira... - Lily falou pensativamente.

'- Pessoas normais não costumam gostar da segunda-feira... - uma voz observou atrás delas.

Lily e Cecille se viraram, dando de cara com Nicole Barton e Madeline Ogden.

'- Bom dia para você também Nicole. - a ruiva respondeu, sorrindo.

A garota sorriu, jogando para trás a trança dourada. Antes, porém, que uma delas pudesse falar, um grito veio do fim do corredor.

'- NICOLE!

As quatro garotas se viraram, a tempo de ver um borrão negro passar por elas correndo e cair em cima da loira. Ela titubeou por alguns instantes para recuperar o equilíbrio, o rosto agora escondido junto ao peito de Sirius Black.

'- Mmmm mmm mm...

'- O quê? - Sirius perguntou, abaixando a cabeça.

Madeline aproximou-se.

'- Não acha que seria interessante deixá-la respirar?

O moreno sorriu, afrouxando o abraço, de modo que Nicole pode afinal dar uma grande sorvida de ar.

'- O que aprontou dessa vez, Black? - ela perguntou, fechando a cara, tão logo pode voltar a falar.

'- Bem... Eu preciso conversar com você. Pode vir comigo? - ele virou-se para as outras garotas - E Cecille, acho que vou precisar de você também.

Lily virou-se para Madeline assim que elas ficaram sozinhas.

'- O que terá sido agora?

'- Hum-hum.

Remus pigarreou, parando ao lado das duas, com James e Peter logo atrás. Lily mordeu os lábios, uma sirene começando a tocar na sua cabeça. Alguma coisa lhe dizia que algo estava para acontecer.

'- Bom dia, garotos. - Madeline acenou com a cabeça, sorrindo - O que estão fazendo?

'- Indo pra aula. - Remus respondeu, dando de ombros - Podemos acompanhá-las?

A moreninha sorriu, assentindo, enquanto Lily suspirava. Algo não estava cheirando bem naqueles aparecimentos e desaparecimentos dos marotos. Os cinco caminharam em silêncio ao longo do corredor até que Madeline parou de repente, batendo com a mão na testa.

'- Droga! Esqueci meu material na sala. - ela girou nos calcanhares, pronta para começar a correr - Já volto.

'- Eu vou com você. - James se apresentou, sorrindo galantemente.

Remus também abriu um sorriso ao perceber que Lily, ao seu lado, mordia os lábios. Pouco depois, Madeline e James sumiam no corredor. O grupo de setimanistas, agora reduzido a três, voltou a caminhar. E já estavam quase na sala de feitiços quando Peter também se despediu, alegando que precisava ir à cozinha.

'- Remus... Está acontecendo algo que eu deveria saber?

O rapaz meneou a cabeça.

'- Porque você acha isso? - Remus sorriu - Sabe, Lily, acho que você está precisando descansar um pouco. Está ficando paranóica.

Ela suspirou novamente.

'- Bem... Talvez você tenha razão...

Os dois entraram na sala, onde Nicole, Sirius e Cecille já tinham tomado assento. Lily observou que os três tinham olhares muito estranhos. E na cabeça imaginativa dela, logo uma nova cena começou a se formar.

Aquela história de "ter caído da cama" do Potter certamente era papo furado... Ele colocou alguma coisa na minha comida. Por isso eu tive aquele lapso de memória na sala de adivinhação. E esse povo todo cheio de segredinhos... Eles estão aprontando alguma coisa...

Peraí! A Madeline e o Potter foram sozinhos para a sala de aritmancia... E ele disse... Ele disse... ELE VAI AGARRAR MADELINE! Merlin me ajude, o que eu faço agora?

'- Lily, você está se sentindo bem?

A ruiva voltou-se para Nicole, que agora a observava preocupada. Provavelmente fizera uma careta enquanto mergulhava em seus pensamentos.

'- Nada não...

Ai, Merlin, eles agora devem estar se agarrando em alguma sala por aí... Eu não acredito que aquele idiota fez isso comigo...

Se bem que ele não sabe que eu...

DROGA, DROGA, DROGA! Eu tenho que parar com essas teorias de conspiração ou vou acabar enlouquecendo! A Madeline não vai deixar acontecer nada, ela não cairia tão fácil na lábia do Potter...

Nesse momento, James e Madeline entraram na sala, estranhos sorrisos em seus rostos.

...ou cairia?


E aí está um pouco de humor para vocês... Espero que gostem dessa fic. Mais um dos meus surtos incompreensíveis... Beijos a todos!

Silverghost.