AUTORA: Yumi Sumeragi.

Onagatas(Otoko gueishas):são gueixas masculinas, consideradas raras e de alto luxo, com quem os filhos de famílias muito ricas geralmente tinham suas primeiras experiências sexuais. Seriam tipo garotos de programa, só que cultíssimos, educados, belos e graciosos. Geralmente eram também atores de teatro Kabuki, cantores e musicistas excelentes e dançarinos. Essa fic Milo e Camus nasceu do meu desejo de ambientar uma história no Japão medieval e do meu fascínio com o mundo das gueixas, femininas e masculinas.Espero que vocês gostem. As gueixas de todos os gêneros, vivas ou mortas, do passado, do presente e do futuro minha sincera homenagem e meu eterno respeito.

Onagata (ou Otoko geishas) Prologo

Japão, 1537.

Milo não poderia ter nascido em família mais humilde ou em vila mais pobre. A vila era localizada entre encostas rochosas, perto do mar. A pesca era o sustento dos aldeões. Pouco do que se plantava crescia, devido ao solo duro e infértil. A luta contra a fome era incessante e mobilizava todos os moradores.

Filho mais novo de três irmãos, Milo teve a mesma infância difícil que tinham todos os meninos da vila. Aos cinco anos já ajudava sua mãe a pegar mariscos na praia. Aos sete, seu pai começou a ensina-lo a pescar. Mas apesar da miséria, ele era feliz. Seu pai era um homem muito estimado na aldeia, o melhor dos pescadores, o mais saudável e forte homem da vila. O pai de Milo estava sempre de bom humor, sorrindo. Em compensação, a mãe, uma mulher bem parruda, sempre dava cascudos bem fortes nos filhos se os via parados, sem trabalhar. Ela dizia que a preguiça era o pior dos defeitos e a economia a maior das virtudes.

Havia, porém, uma única tristeza que rondava a vila. Dependente daquilo que o mar lhe dava, bastava que uma temporada de pesca fosse fraca para que faltasse comida. O único comércio que os moradores eram capazes de fazer era a troca de peixes secos por grãos na aldeia vizinha, que ficava a três dias de viagem a pé. O único meio de manter a família viva nessa situação era se vender alguém da família como servo por alguns anos, a um intermediário na cidade portuária, que ficava a sete dias de viagem, a pé.

Ver parentes partindo para três, sete, ou até dez anos de servidão longe de casa era a dor de todos. Poucas eram as famílias que não tinham um parente trabalhando de servo nos portos. Quando voltavam da servidão, o trabalho pesado e abusivo a que eram submetidos freqüentemente os deixava irreconhecíveis. Essa era a grande dor daquela vila.

Capítulo1- A vida na vila.

Milo se levantou feliz pouco antes do raiar do sol. Aquele era o dia: completava já onze anos.Logo seria um homem feito.Só mais quatro anos e seria considerado adulto pelas leis da vila. Os seus irmãos se levantaram logo depois dele.Era hora de lançar os barcos ao mar. O pai, como de costume já havia se levantado e saído para se preparar para ir pescar. Milo queria muito ser um pescador tão bom quanto o pai, um dia.

Bom dia!- disse Milo alegre aos irmãos.

Bom dia pirralho! Que dia é hoje, hein, Aioria? Tinha algo de importante hoje, mas eu não consigo me lembrar do que seria...- disse dissimulado Aioros, o primogênito dos três filhos, que tinha dezesseis anos.

Milo ficou enfezado.

Eu não sei... para mim acho que hoje é só mais um dia comum...- disse Aioria, que tinha quinze anos, entrando na brincadeira do irmão mais velho.

Milo ficou fulo da vida por ter seu aniversário ignorado.

Seus bestas! Burros! É meu aniversário! Meu aniversário!Faço onze anos, sabiam!- falou Milo, bravo.

Ah, é. Onze anos...sabe o que isso me lembra meu caro irmão Aioria?- disse Aioros com cara de quem estava aprontando alguma.

Milo ficou desconfiado.

O que, caro Aioros?- disse Aioria, percebendo as más intenções do irmão mais velho.

CALDO NO MAR!- gritaram os dois, pegando Milo, que se debatia xingando os irmãos de tudo quanto é nome. Os dois levaram Milo arrastado até a praia, onde os barcos se preparavam para sair pro mar. O pai de Milo, que já estava lançando o barco na água, parou para ver a cena. Aioria e Aioros tamparam o aniversariante na água, com tudo. O pai riu, alegre. Os pescadores que viram a cena também.

Milo saiu da água fulo da vida tentando socar os irmãos, que fugiam dele, rindo. O pai foi até eles.

Feliz aniversário Milo! Hoje você sai para pescar comigo.- disse o pai, ganhando de pronto a atenção de Milo.

Milo sorriu. Ir pescar com o pai era um presente e tanto. Os irmãos continuavam rindo.

Desculpa Milo, mas tínhamos que te pregar uma peça.Gomen nasai!- disse Aioros ainda rindo e nem um pouco convincente.

É! Feliz aniversário! Só mais quatro anos e você ganha seu próprio barco de pesca. Vai poder desocupar um pouco o meu.- disse Aioria, bagunçando os cabelos fartos do irmãozinho.

Ganhar o direito a ter seu próprio barco era um privilégio dos adultos. As crianças pescavam na companhia de um pai, irmão ou tutor, nunca por conta própria. Milo sonhava com seu próprio barco, com ser reconhecido como um igual pelo pai e pelos seus petulantes irmãos. Também em ser respeitado pela mãe como um provedor da família, com direito até a tomar o raro e precioso vinho feito de arroz, iguaria reservada para ser servida só no Ano Novo, pelas mulheres, somente para os provedores efetivos da família.

O pai parecia ter um olhar melancólico, diferente do habitual. Aioria e Aioros entendiam o olhar do pai. A pesca fora fraca demais naquele ano. O pai se venderia como servo em breve. Dependendo do tempo de contrato, ele não estaria em casa para comemorar a passagem de seu caçula para a idade adulta ou lhe fazer um belo barco de um só tronco, tirado da pequena floresta que ficava a um dia de viagem da aldeia. Aioros e Aioria nada comentaram com Milo. Distraído como sempre, Milo não havia percebido a gravidade da situação que se desenhava no futuro, com tão poucos peixes sendo pescados e secos ao sol nos últimos meses.Os irmãos prometeram fazer um belo barco para Milo, mas isso não diminuiria a dor de um pai ausente. Não eram poucos aqueles que morriam na servidão e nunca mais viam sua aldeia. Milo ficaria arrasado com a partida do pai, que tanto admirava.

Vamos Milo! Os ventos favoráveis devem ser aproveitados.- disse o pai ao alegre Milo, indo em direção ao barco.

Ambos saíram para o mar. Os demais pescadores também partiram.

Em silêncio, pai e filho pescavam polvos, com um gancho, perto dos recifes.

Milo, vou partir.- disse calmo o pai.

Milo se sobressaltou, chocado. Como assim, seu pai ia embora?Então, subitamente, Milo entendeu a situação.

A pesca não foi suficiente. Vou para a servidão, mas não se preocupe. Sou muito forte, vou voltar. Preciso que você cuide de sua mãe. Pode fazer isso por mim?--- continuou o pai com seu sorriso calmo e generoso.

Os olhos de Milo ficaram marejados com lágrimas.Mas com um gesto de cabeça, ele concordou.

Que bom. Assim vou mais tranqüilo.- disse o pai.

Pó...posso pedir uma coisa ao senhor?- disse Milo, com a voz falha.

Claro! Peça. Se puder, atenderei seu pedido.- disse sincero o pai.

Quando o senhor for á cidade falar com o intermediário do porto, posso ir junto.Podemos ir todos juntos, como família.- pediu Milo.

Quem vai tomar conta da casa? E pescar? Não podemos parar, Milo. A vida é difícil aqui. A fome sempre nos ronda.Não podemos ir todos á cidade e esquecermos de nossas obrigações. – disse sério o pai.

Milo compreendeu, mas ficou arrasado.

Façamos o seguinte então: escolha um de seus irmãos para acompanhar-nos na viagem. Vamos nós três: eu, você e um dos meninos mais velhos. Um dos dois vai ter de ir mesmo, para ajudar a trazer os grãos que vou ganhar de pagamento para casa. Você também ajuda e tudo fica bem.- propôs o pai ao ver a tristeza do filho.

Milo concordou, mais animado. Nunca havia ido á cidade. Porem preferia ter o pai em casa a ir a cidade.

Quando dia morreu no horizonte, eles voltaram á praia.

Chegaram em casa. Os dois mais velhos já estavam sentados no chão de terra batida, Aioros consertando alguns instrumentos de pesca, Aioria cuidando de por lenha no fogo onde a mãe deles já preparava o jantar.

Todos olharam para o pai, que com um meneio de cabeça avisou que Milo já estava a par de toda a situação. Todos ficaram aliviados. Um clima triste de despedida estava no ar.

Parto amanhã.-alertou o pai - Milo vai comigo.

A mãe, mulher forte, apenas assentiu com a cabeça, sem chorar. Aioros e Aioria estavam desolados.

Milo é muito fraco para trazer os fardos de grãos. Eu vou com vocês.Sou forte. Agüento dois fardos.- disse resoluta a mãe.

O pai não discutiu. Sua esposa era muito cabeça-dura, e quando cismava que ia fazer algo não havia quem lhe mudasse as idéias. Mulher trabalhadora, ela fiava e tecia as roupas da família, cuidava da parca plantação que tinham e ainda encontrava tempo para pegar mariscos na praia.

Milo ficou feliz por ir junto com a mãe. Apesar dos cascudos freqüentes que ela lhe dava, gostava muito dela. Sabia que ela queria que ele fosse um homem trabalhador. A preguiça era o pior dos pecados naquela vila.

Quero que o Aioros vá conosco. Ele é forte...- disse Milo, pensando nos fardos de grãos que precisariam ser carregados nas costas por sete dias de viagem de volta à aldeia.

Aioria ficou emburrado. Ele também nunca fora na cidade e queria muito ir.

Vamos todos! Pediremos ao chefe da aldeia para zelar por nossa casa, pai. Ele vai entender...precisamos de gente para trazer os fardos de grãos, e todos queremos adiar uma despedida. Seria injusto deixar Aioria aqui. –disse Aioros, tentando ser convincente.

Mas isso é imprudente...- disse calmo o pai.

Só desta vez, pai. Não o veremos por anos...- argumentou Aioros.

Milo olhou para o pai, mostrando todo o seu desejo de manter a família unida por mais algum tempo.O pai suspirou, vencido. A mãe voltou a cozinhar, botando mais grãos e peixe na sopa de todos. Se iam viajar, que fossem bem alimentados.

O dia raiou. A família de Milo se preparou para a viagem. Membros de outras famílias também iam partir para a servidão. Uma pequena caravana se pôs a andar na trilha que levava para além das encostas rochosas. O vento assobiava entre as pedras. Milo pôs seu chapéu de junco e puxou sua grande aba para frente, para proteger seus olhos da ventania. O caminho era difícil e cansativo.

Dias se passaram. Choveu, ventou, fez sol. Milo ficou triste ao ver quem ia embora para a servidão: o alegre Aldebaran, Shura, que tinha a idade de Aioros e era o melhor amigo deste, June, uma jovem que provavelmente voltaria para aldeia velha demais para se casar, Seiya, que tinha acabado de completar a maioridade, Ikki, que tinha dezessete anos, e seu pai, claro.

Aioros estava visivelmente triste: estava perdendo o pai e o amigo de uma vez só. Mesmo assim ele não chorava. Sabia que já era um adulto e tinha de ser forte.

June chorava muito sua desgraça. Já Ikki, Aldebaran e Seiya estavam descontraídos, riam e faziam brincadeiras junto com o sempre alegre pai de Milo. Milo entrou nas brincadeiras...rir era melhor que chorar. Certa noite da viagem Milo conseguiu colocar uma salamandra dentro das calças de Aioria enquanto ele dormia, sem que esse percebesse. O susto que ele levou ao acordar sentindo aquela coisa gelada e gosmenta na perna, andando, foi histórico. Todos riram...Exceto a sempre dramática June. Shura costumava estar sempre sério e fechado, como era o usual de sua pessoa.

Passaram pela aldeia vizinha. Passaram por regatos e floresta. A cidade se desenhou frente a eles no entardecer do oitavo dia de viagem.

Capítulo 2 – Encantos da cidade.

Aquela não era uma cidadezinha. Era uma próspera cidade portuária, funcionando a todo vapor. Milo nunca vira tantas cores, tantas luzes coloridas vindas das lanternas de papel penduradas nos estabelecimentos comerciais, tantas coisas diferentes, tanta gente diferente.

As ruas eram apinhadas de gente, isso porque o anoitecer se prenunciava. Aquilo era maravilhoso! Milo viu damas de quimono, samurais vestidos a caráter, comerciantes de coisas exóticas, até mesmo um ocidental de estranhas roupas alaranjadas ( um padre português). Aquele lugar era mágico!

Pai...- disse Milo estupefato.

O que é?- disse o pai, sempre sereno.

Tudo aqui é tão diferente da nossa aldeia.

Sim, é. Para o bem e para o mal. Há belezas e amarguras, como em todo lugar.- disse o pai, sábio.

Não vejo as pessoas daqui passando fome como em nossa aldeia. Aqui deve ser melhor de se viver. – disse Milo, observando como as pessoas a sua volta pareciam despreocupadas e as invejando.- Eles não devem precisar se vender em servidão para alimentar a família.

Não seja tolo, Milo. Existem coisas piores do que ser servo. Sou feliz por minha vida e por morar em nossa aldeia. Não escolheria para mim destino diferente.- disse o pai pensativo. Dos filhos que tinha, Milo era o mais diferente de si na maneira de pensar, mas o mais interessado em entender o mundo.

Por que? Nós quase passamos fome, trabalhamos o tempo todo! Eu queria uma vida melhor, com comida farta, futon limpo e macio, e folga.- disse Milo raivoso - E sem ninguém tendo que ir embora!

Milo, escolha seus objetivos e lute dignamente por eles. Mas sempre tenha em mente que pelo menos, nós temos uns aos outros. Ninguém na vila mente, engana ou trai o próximo. E cuidado com o que deseja. Tenha sempre a certeza de que luta por algo que vale a pena.- disse melancólico o pai.

Pelo que o senhor luta?- perguntou Milo curioso.

Por nossa família, claro. Vocês são mais valiosos para mim do que todo o ouro de um senhor feudal.- disse o pai sorrindo melancólico.- Não me esqueço do dia em que conheci a mãe de vocês.

Milo ficou embasbacado. Gostava da mãe, mas sempre a vira como uma mulher seca, dura e sem grandes atrativos.Nunca imaginara o quanto seu pai gostava dela, apesar das brigas que tinham, do trabalho sempre árduo que os drenava, da pobreza e da falta de gentileza dela.

Você é jovem. Um dia vai entender que o mais importante na vida é estar feliz com suas escolhas, sejam elas quais forem.- disse o pai, com os olhos brilhando.

Quero que o senhor volte pra casa.- disse Milo sincero. Queria aprender mais com o pai.

Vou voltar. Pode ficar tranqüilo.- disse o pai, seguro de si.

Todos os outros também estavam maravilhados com a cidade, exceto a mãe de Milo, que dizia que a cidade era enganadora e cheia de pecados. Para variar, ninguém lhe deu muita atenção. June até parou de chorar.

Aqui é lindo!- disse Aioria encantado.

Aioros riu da cara de bobo do irmão.

Onde vamos ficar pra passar a noite?- perguntou a sempre prática mãe de Milo.

Na casa do intermediário. – disse o pai de Milo, que sabia onde ficava a casa do tal homem.

Nas vilas que mandavam os seus para a servidão nos portos, que não eram poucas, o intermediário fora apelidado de Máscara da Morte. Isso mostrava bem o fim de muitos dos que partiam.A servidão não era feita para os fracos.

As lanternas ganhavam novo brilho com o cair da noite alta. A cidade parecia não dormir nunca.

Milo caminhava agora um pouco afastado do grupo, despreocupado e perigosamente distraído. Foi quando ouviu risos delicados como o soar de sinos de cristal. Foi ver o que era.

Milo ficou completamente maravilhado com o que viu. Aquelas criaturas não podiam ser humanas! Suas roupas eram da mais bela e fina seda, quimonos de graça e elegância sem par.Seus cabelos, todos cor da noite e extremamente compridos, estavam presos em complicados arranjos formais. A pele parecia com leite fresco, branca e suave. Os lábios pareciam tintos de sangue. Os seres usavam belas jóias, e leques com acabamento de marfim trabalhado.Seus gestos pareciam uma dança, sua fala, uma requintada melodia. As unhas compridas brilhavam como vidro sob a luz das lanternas.Seus olhos pareciam conter mistérios insondáveis. Milo chegou mais perto dos seres, para melhor vê-los. Mesmo bem de perto não conseguia distinguir se os seres eram homens ou mulheres...pareciam mesmo pertencer a uma terceira raça, muito mais pertinente ao céu que os meros mortais.

E como riam!

E então ele escorregou e caiu, no palco! Foi um escândalo! No meio do segundo ato, em plena performance. Ele não nasceu para o teatro.- disse um dos seres, que tinha um ar mais malicioso.

Não seja venenoso com o próximo, Suzako. Nunca se sabe as voltas que a vida dá. E ela já é bem difícil naturalmente, para a isso somarmos uma crueldade gratuita.- disse um dos seres, que parecia ser o mais velho e sábio e tinha um olhar sereno.

Você é tolerante, Shion, porque tem MUITA sorte. Soube que só não deixa o "Mundo flutuante" porque não quer.- disse o "ser" Suzako, ainda venenoso.

Os outros seres pareciam concordar com o último comentário do tal Suzako.

O "ser" Shion suspirou, como se concluísse que não valia a pena discutir com aqueles outros seres.

Milo reparou que Shion tinha muito mais graça e uma beleza muito mais sofisticada que os outros seres. Era alguma coisa que vinha dos olhos dele, de sua alma. Apesar de ser claro que estava numa idade bem mais avançada que os outros, Shion tinha algo que os outros não possuíam, uma coisa misteriosa que fazia toda a diferença. Milo soube então que fosse o que fosse que Shion havia conseguido, não fora sorte, fora conquista.

Os outros seres voltaram a conversar, Suzako mais venenoso do que nunca. Shion olhou para Milo. Milo fez pose de orgulhoso...afinal era pobre mas era alguém de valor. Shion sorriu. Milo baixou um pouco a "guarda" e se aproximou.

Os alguns dos outros seres pareceram ficar enojados com a presença de Milo, em especial Suzako. Outros não. Havia cerca de dez seres ali. Quatro deles com visível nojo de Milo. Afinal o menino estava sujo, suado da viagem, e trajava uma roupa simples feita com o fio grosseiro que se extraia da casca fervida de uma arvore chamada tília, que era abundante na floresta perto da aldeia.

--- Konichiwa, pequenino. - disse cortês Shion, com um brando sorriso - Se perdeu de seus pais?

Oi.Meu nome é Milo. E ...me perdi mais ou menos...- disse Milo bem sincero.

Meu nome é Shion. Seus pais vieram das vilas?- perguntou Shion, chegando bem perto do garoto.

Até que ele é bonitinho! Mas precisa de banho! – disse um outro dos seres, que parecia ser bem eufórico e animado.

Credo! Detesto gente pobre. Esse menino pode até ser é um eta.-disse Suzako, venenoso.

Milo se sentiu muito ofendido. Eta era o nome da pior das classes sociais, e eram considerados impuros, sujos até a alma.Eram a escória da escória. Eram geralmente coveiros, catadores de lixo, limpadores de fossas... assumiam os piores trabalhos possíveis, os mais sujos.

Shion deu olhar de reprimenda para Suzako.

Gomen nasai, jovem. Suzako fala demais e pensa de menos.- disse calmo Shion.

Não sou eta! Sou de uma aldeia próxima, filho de pescador, não coveiro ou catador de lixo!- disse Milo realmente furioso com o tal Suzako.

Tudo bem. Acalme-se.-disse Shion.

Meus pais estavam indo para casa do intermediário...o Máscara da Morte.Meu pai vai para a servidão.-disse Milo cabisbaixo.

Sinto muito por seu pai. Vou pagar para um jirinquixá levar você até lá.- disse Shion cordato.

Não precisa...-disse Milo corando. Não estava acostumado a ganhar presentes. Para um jovem tão pobre, andar de jirinquixá (que é uma espécie de carroça pequena, puxada por um homem em vez de um cavalo, uma espécie de táxi do Japão antigo) era um luxo.

Precisa sim. Para remediar os disparates de Suzako devo ser gentil com você.- disse sério Shion.

O que são vocês? Espíritos?- perguntou Milo, causando um riso geral.

Somos onagata, meu jovem. Sugiro que pergunte ao seu pai ou irmãos mais velhos o que é onagata. Mas somos humanos e bem vivos, posso garantir.- disse Shion descontraído, abrindo seu lindo leque com um estalo seco.

Onagata...como se vira isso?- perguntou Milo curioso. Mais um acesso de risadas geral, por conta da inocência do garoto. Shion era o único que realmente estava levando o garoto a sério.

Somos educados desde muito cedo. Geralmente desde o berço. Porém são muito poucos os de nós que, uma vez treinados, chegam ao status de onagata. A maioria tem fins bem mais amargos e sombrios. – disse Shion pensativo - Você, por exemplo, poderia ser educado para onagata toda a sua vida, mas não conseguiria ser um. Seu físico é inadequado a essa função.Você é muito moreno e masculino demais.

Ah, tá...-disse Milo entendendo apenas que jamais seria parecido com aqueles seres e que, portanto, não podia almejar ser um deles.

O que você almeja ser, Milo?- perguntou Shion, pensativo.

Vou acabar sendo pescador, como meu pai. – falou Milo diretamente.

Mas você quer isso?-insistiu

Não sei o que quero.Queria mesmo é que ninguém da minha vila jamais passasse fome ou virasse servo.- disse sincero o menino.

Shion concordou com um meneio.

De que classe social vem os onagatas? – perguntou Milo, investigando.

Geralmente das mais baixas. Somos vendidos ainda crianças por nossos pais a donos de casas de chá e entretenimento e educados por um tutor que sempre é um onagata mais velho e mais experiente. Somos selecionados por quesitos como talento, beleza, graça, cultura, habilidades musicais e atuação satisfatória no teatro. Os que passarem por essa seleção são sagrados onagatas aos quinze anos, por meio de um ritual que se chama mizu-age. Sugiro que pergunte a seu pai o que é mizu-age, se quiser mesmo saber. – disse calmo Shion enquanto os outros onagatas davam risinhos.

Vou perguntar. Você é uma espécie de líder?– disse Milo com expressão muito curiosa pra saber o que era esse tal de mizu-age, pois sua mera menção fizera os onagatas mais novos corarem.

Sou só um dos poucos onagatas que subiram ainda mais de posição social. Atualmente sou o dono de uma casa de chá e entretenimento.A "Chinji no Ai" (no japonês, Amor insensato). –disse Shion, sorrindo – Mais alguma pergunta, intrépido investigador mirim?

Não...Vou pra casa, dormir. Estou com sono.E meus pais devem estar preocupados comigo. Obrigado pela conversa.– disse Milo, bocejando.

De nada. Se quiser e tiver tempo, venha até a Chinji no Ai. O receberei feliz para outra conversa. Preciso de alguém para trabalhar na limpeza de meu estabelecimento, e se a proposta lhe interessar estarei às ordens.- disse Shion, com classe. Suzako fez uma cara de contrariado.

Shion parou um jirinquixá e pagou a corrida. Milo fez uma reverência longa para Shion em agradecimento pela gentileza.

Espera! Posso perguntar só mais uma coisa?- disse Milo, já de dentro do jirinquixá.

Claro, jovem curioso.- disse Shion.

Vocês são homens, não são?- perguntou Milo meio inseguro.

Sim, somos, meu jovem.-disse Shion dando as costas ao jirinquixá, que logo depois partiu.

Quando Milo chegou na casa de Máscara, todos de sua caravana ficaram aliviados. A mãe de Milo deu um belo e bem dado cascudo na cabeça do filho.Aioros e Aioria até deixaram a implicância de lado e foram abraçar o irmãozinho, ambos aliviados de vê-lo bem. O pai também o abraçou, aliviado.

Onde você se meteu? O que te aconteceu?- perguntou Aioros, tenso.

Não aconteceu nada de mais. Eu só fiquei papeando com os onagata e...- disse Milo na maior naturalidade do mundo.

VOCÊ O QUE?- disseram todos em uníssono, espantados. Até Máscara da Morte foi pra perto ouvir a conversa.

A mãe deu outro cascudo colossal em Milo.

AII, MÃE! O que eu fiz dessa vez?- perguntou Milo sem entender lhufas.

Você viu mesmo onagatas? Como eles eram? – perguntou Aioria animadíssimo, para logo em seguida ganhar um cascudo e um olhar assassino vindo de sua mãe.

Vi sim. Eram...lindos.A pele deles parece neve.- disse Milo se lembrando.

E as roupas? Eram como? – perguntou June empolgada.

Eram de seda muito boa. Brilhavam na luz das lanternas. A que o Shion usava era azul marinho com desenhos de cerejeira em floração. Tinham leques também. E a boca deles era vermelho sangue.- tentou descrever Milo, em vão.

Você falou com Shion...O Shion...o dono da Chinji no Ai?- perguntou Máscara, incrédulo.

A Chinji era uma casa freqüentada apenas pela elite da elite. Mesmo Máscara, que não era nenhum pobretão, não tinha cacife para entrar num lugar daquele. Ali só entravam samurais de primeira linha, senhores feudais, políticos proeminentes, comerciantes muito cheios da grana ou artistas ricos e famosos.

É. Falei. – disse Milo com a simplicidade típica de uma criança.- Ele me pagou uma corrida de jirinquixá. E é uma boa pessoa.Gostei de andar de jirinquixá! Um dia vou ter um jirinquixá só para mim.

O pai sorriu da inocência do filho. "Que os deuses conservem meu filho assim, puro e tolerante".– pensou o pai.

O que vocês conversaram, afinal?- perguntou Ikki.

Sobre o que é onagata. Sobre, sobre o que quero ser na vida...é foi isso.- disse Milo exausto.- Pai ,posso te fazer umas perguntas depois?

Claro. – respondeu o pai - Amanhã.

Ah, tudo bem.- disse Milo decepcionado. Queria saber o que era, afinal, um onagata. Queria saber o que era mizu-age.Queria saber se podia levar a sério a proposta de emprego feita por Shion.

O que mais o Shion te disse? – perguntou MdM.

Que eu não sirvo pra onagata.- disse Milo. Todos riram. Milo já estava fulo da vida de tanto ver os outros rirem dele.

Vou dormir!- disse Milo, nervoso, indo se deitar no chão de terra batida.

Todos foram dormir também, certos de que no dia que viesse, encheriam Milo com perguntas.

Milo levantou antes do nascer do sol, acordado por seu pai. Todos ainda dormiam. Os dois foram para fora da casa. A cidade, embora não de todo adormecida, estava bem mais calma do que no dia anterior. Uma brisa matinal passava suave por entre os ramos das cerejeiras.

O que você queria me perguntar, Milo?- falou o pai, calmo como sempre.

São três coisas. Pai, o que é um onagata? O que é mizu-age? Recebi uma proposta de trabalho, como faxineiro, lá na casa de chá do tal Shion. Devo levar essa proposta á sério?- disse Milo, impaciente, despejando tudo de uma vez só.

Calma lá. Uma resposta de cada vez. Onagata são homens que, uma vez vendidos para as casas de chá, são educados para entreter, conversar e se deitar com outros homens, que por sua vez pagam ao dono da casa de chá por esses serviços. Costumam também ser atores de teatro. É muito caro, pagar um onagata. Eles são raros e melhores que gueixas convencionais...pelo menos é o que dizem. Ser protetor de um onagata então, é caríssimo. Só gente muito rica pode se dar tamanho luxo.-disse pedagógico o pai, sem fazer qualquer pré-julgamento.

Protetor?

Protetor é o mesmo que dono, Milo. Eles bancam um onagata em todas as suas necessidades. Geralmente pedem exclusividade de serviços quando estão na cidade. Quando voltam a seus castelos ou mansões longe da cidade, perdem esse direito, mas se quiserem tê-lo com exclusividade quando estiverem de volta, tem de continuar bancando o onagata em questão, mesmo estando distantes.Quando estão distantes o onagata volta a trabalhar pelo melhor preço oferecido.Mas não confunda: um onagata não tem vontade própria. Antes de tudo, eles pertencem ao dono da casa de chá.É o dono da casa de chá que firma os contratos de uso e proteção. É o dever de um onagata se sujeitar á vontade de seu patrão em primeiro lugar, em segundo á vontade de seu protetor e em terceiro á dos de seus clientes arranjados.Essa é a etiqueta deles, o que o costume determina.

Nossa! Quer dizer que se eu for rico posso comprar um onagata pra mim?- disse Milo, gostando um pouco da idéia de ter alguém tão bonito assim para conversar e cuidar de si.

O pai riu. Sábio dos costumes, o pai fora muitas vezes à cidade quando jovem. Isso explicava seu imenso conhecimento.

É Milo, pode. Mas o que você faria com um onagata?- perguntou o pai, ainda rindo.

Ele poderia me ensinar cultura, ler, escrever e tudo o mais. Tocaria música para mim. Me levaria ao teatro.- falou o menino empolgado.

Eles são acima de tudo Milo, prostitutas.- afirmou o pai.

Milo ficou vermelho. Tinha esquecido um pouco disso. Era difícil para Milo associar um tipo tão digno quanto Shion á prostituição. Para o menino, prostitutas eram as mulheres sujas, de rostos pintados de branco com fuligem, que ficavam nos becos da aldeia vizinha, com quem alguns moços de sua vila diziam ter tido uma experiência sexual. Eram as mulheres que sua mãe dizia que passavam doenças estranhas para adolescentes destrambelhados e sem-vergonha, não seres que pareciam anjos.

Mizu-age, Milo, é a primeira vez de um onagata. Geralmente alguém realmente muito rico paga para ser o primeiro violador de um onagata.Depois desse ritual sexual um onagata começa a trabalhar efetivamente.- continuou o pai explicando, vendo que era melhor mudar de assunto para não constranger tanto o seu filho.

Ah, ta! Não acredito que gente tão bonita e limpa possa passar doenças...- disse Milo ainda encabulado.

Bem, é mais difícil eles passarem alguma doença. São homens, são limpos e a casa de chá costuma ter um médico particular que avalia os clientes e onagatas antes de firmado o contrato de uso. Nenhum dono de casa de chá quer perder um artigo tão raro quanto um onagata ativo.- disse o pai alheio.

Ainda bem! E o assunto do emprego? Eu não quero deixar a nossa aldeia, mas ás vezes é melhor eu ficar aqui do que o senhor. Faxineiro é trabalho mais leve do que servo. Se eles pagarem bem...- disse Milo, pensando em sua família.

Milo, você tem de decidir isso de acordo com o bom-senso. Se a proposta lhe interessa vá ver com o tal Shion os termos do contrato.Não fique por mim. Eu agüentarei bem a servidão. Não se preocupe.- disse o pai, diplomático.- E se quiser ficar, fique. A família sentira sua falta e você enfrentará vários riscos, mas é preciso arriscar. Faça a escolha que melhor lhe convier. Não tema: você será menos um provedor na casa, mas será também menos uma boca para alimentar. Um paga o outro. Você está livre para decidir seu destino.

Pensei que fosse muito criança para decidir essas coisas...- murmurou Milo, pensativo.

Sim, você é. Mas a oportunidade não escolhe hora certa.-concluiu o sábio pai.

Milo se pôs apensar. É difícil para uma criança escolher de pronto o seu caminho, porém aquela era uma oportunidade única de ser algo diferente do que pescador.

Posso voltar para casa se quiser?- disse Milo, pensando.

Claro. Eu jamais exilaria meu próprio filho!- disse o pai com um sorriso.

Vou ver o tal contrato...- disse Milo em voz baixa.

O pai assentiu. Talvez o lugar de Milo não fosse entre os pescadores, pensou o pai.

Pela primeira vez estou fazendo um fic em capítulos. Espero não errar a mão. Tive de fazer vários trechos explicativos, mas logo a história vai ficar mais dinâmica. O que eu usei como referência são livros como "Gueixas" de Liza Dalby, que é uma antropóloga muito conceituada em cultura japonesa. Espero receber coments e sugestões a respeito desse fic. Ele dá muita abertura para mexer com vários casais, e embora já tenha cá minhas idéias, estou aberta a sugestões.Principalmente quero saber se posso continuar a escreve-lo, se ele está ficando bom. Mexer com história japonesa é muito difícil. Eu devo ser louca pra me meter a fazer algo do gênero!

Kisses a todos.Obrigado por lerem!

Yumi Sumeragi E-mail: yumi.