Capítulo 26 – Histórias fantásticas

What are little boys made of?
"Snips and snails, and puppy dogs tails
That's what little boys are made of!"
What are little girls made of?
"Sugar and spice and all things nice
That's what little girls are made of!"

– Quadrinha infantil

– E então havia o leão, a bruxa e o guarda-roupa, e mais quatro crianças. Lucy, Edmund, e mais o... – A menina franziu o rostinho profundamente, esforçando-se para se lembrar. Depois ela deu de ombros e voltou-se para a bonequinha. – Eu esqueci os nomes das outras crianças, Anitra. Mas tinham quatro, eu sei. Mas foi a Lucy quem abriu o guarda-roupa primeiro e aí...

Um barulho a interrompeu. A porta bateu no outro quarto e ela sentiu uma onda de excitação a percorrê-la. Isso queria dizer que seu outro papai já tinha chegado em casa, e ela raramente o via de noite, porque ele trabalhava como "oror no Mistério". Pelo menos era isso o que Serena entendia. Mas ela era muito pequena ainda e não entendia muita coisa.

Com os pezinhos descalços e vestindo uma camisola de flanela com florezinhas azuis, ela saiu de seu quarto sem fazer barulho e foi até o quarto de seus papais. Era tarde da noite e os aposentos estavam todos em silêncio.

– Você finalmente resolveu voltar para casa, então.

Papai Sev'rus estava com a voz de bravo, notou Serena. Será que Papai Harry tinha deixado de guardar seus brinquedos? Geralmente era isso que fazia Papai Sev'rus brigar com ela.

– Tive um dia difícil hoje, por isso demorei. Fui ter uma conversa com Kingsley, e ele não gostou de saber que vou me afastar. Ele é chefe do esquadrão de Aurors, disse que eu faria falta. Mas no final, ele me entendeu.

– Ah. Gentileza sua me avisar com antecedência de que vai largar seu emprego. Algo mais que gostaria de compartilhar, Harry?

Serena sentiu que aquilo era conversa de adulto e ela tinha sido ensinada a jamais interromper seus papais e outros adultos nessas horas. Mas ela queria abraçar Papai Harry. Talvez Anitra também quisesse um abraço dele. Ela foi buscar a bonequinha, sempre em silêncio.

Quando voltou, ela ia entrar no quarto, já que a porta estava meio aberta. Mas o grito a fez parar, assustada:

– E isso? Quando planejava me contar sobre isso?

Papai Sev'rus estava muito, muito bravo, mais bravo do que Serena jamais o vira. Ele sacudia uma sacola na mão.

– Shhh! Você vai acordar Serena!

– Felizmente ela tem sono pesado, e não vai saber sobre as atividades a que seu pai se dedica depois do expediente! Isso aqui, Harry – ele sacudia a sacola –, é roupa de mulher. Foi comprada numa boutique Muggle. Agora me explique. Você decidiu que afinal prefere o sexo oposto? Ou simplesmente se cansou de seu marido velho e com passado comprometedor? Porque obviamente, se você já está comprando presentes para a sua amiga e agora diz que vai se afastar do emprego, não vai demorar muito para me comunicar que também vai abandonar a mim e sua filha!

Serena sentiu um aperto no peito. Ela não entendia muito o que estava acontecendo. Seus papais estavam brigando, e eles nunca brigaram antes. Nunca tinham gritado assim, nem com ela, nem um com outro. Ela abraçou Anitra com força, assustada e confusa.

– Severus, não é nada disso que está pensando, deixe-me explicar...

– Isso estava escondido, Harry. No fundo do armário, para que eu obviamente não o encontrasse. Vai negar isso?

– Severus, tenha calma. Está bem, eu admito, eu não queria que você encontrasse essa roupa – Papai Sev'rus lançou uma exclamação abafada. – Mas não é o que você está pensando. Essa roupa não é para nenhuma amante. Eu não tenho nenhuma, e não planejo ir embora daqui. Não vou sair.

Sair? Papai Harry ia embora?

E o que era amante?

Será que Papai Harry não a amava mais? Ele sempre dizia que a amava, mas ultimamente ele chegava muito tarde. Será que ela tinha sido uma menina má, e por isso Papai Harry agora ia embora?

Serena estava muito assustada, como nunca tinha estado antes.

– Não! – Serena gritou alto, assustada. – Papai Harry, não vá!

Os dois se viraram, abismados.

– Serena?

– Filhinha, o que você está fazendo acordada?

A menina correu e se jogou nos braços de Harry, com lágrimas nos olhos, o coraçãozinho acelerado.

– Não vá embora, Papai Harry! Não vá!

Ele a pegou no colo com cuidado e garantiu:

– Querida, papai não vai embora para lugar nenhum. – Ela ficou bem agarradinha a ele, como se ele fosse escapar se ela o soltasse. – Eu não deixaria você nem Papai Severus.

– Eu prometo ser boazinha, papai. – Ela tremia, chorando. – Foi sem querer. Eu não faço mais, não faço mais. Mas não vá embora, por favor.

– Querida, você não fez nada de errado – garantiu ele, acariciando-lhe as costas. – Está tudo bem.

– Promete? – Serena engoliu um soluço, as lágrimas caindo pelo rostinho como cristal líquido. – Promete não ir embora?

– Prometo. – Ele a beijou e olhou para Papai Sev'rus. – Você e seu pai são as coisas mais preciosas que eu tenho. Eu jamais deixarei vocês por nada nesse mundo.

Serena chorou mais um pouco, o susto se dissipando. Ela soluçou e repetiu:

- Não vai embora mesmo?

- Não, eu já prometi que não ia.

– Então por que Papai Sev'rus ficou tão bravo?

Os dois se entreolharam como sempre fazia cada vez que Serena fazia uma pergunta que eles não esperavam. Papai Harry olhou para ela e respondeu:

– Porque eu quis fazer uma surpresa para ele.

– Uma surpresa? – Serena fungou e enxugou as lágrimas, agora curiosa. – Como um presente?

– É, isso mesmo, um tipo de presente. – Ele se sentou na cama grande e a colocou no colo, olhando dentro dos olhos dela como ele fazia quando falava coisas importantes. – Um presente para ele e para você também. Lembra que nós já conversamos sobre isso? Quando nós fomos visitar a tia Ginny? Ela tinha um bebê.

Serena olhou para ele:

– O bebê da tia Ginny? Vai comprar um bebê para o Papai Sev'rus, Papai Harry?

– Não se compram bebês, querida. Lembra que a tia Ginny ficou com a barriga grande? Era o bebê que estava dentro dela. Depois ele ficou pronto para sair da barriga e aí ele nasceu.

– Tio Neville me deu uma balinha naquele dia e ele virou papai também. – Serena viu Papai Sev'rus sentar-se ao lado deles, e ele não parecia mais tão bravo. – O senhor quer dar um bebê para o Papai Sev'rus?

– Sim, querida, é o que eu quero. O bebê vai ser seu irmãozinho. Não quer ter um?

Serena pensou. O bebê da tia Ginny era bonitinho, mas ele não fazia nada, não falava, nem brincava. Papai Harry disse que ele era chamado de Frank, que ele ia crescer e que um dia ela também tinha sido um bebê.

– Papai, ele vai crescer como eu cresci?

– Ele vai ser grande e bonito, eu tenho certeza. Como você é. E você, que já é grande, vai poder cuidar dele, protegê-lo. Ele vai ser seu irmãozinho pequeno, vai precisar de sua ajuda.

– E quando ele vai chegar?

– Vai demorar um pouco. Primeiro eu e o Papai Sev'rus precisamos encomendá-lo.

– Encomendar?

– É, é assim que os papais e as mamães conseguem os bebês. Primeiro nós encomendamos você, e você cresceu dentro da barriga do Papai Sev'rus. Depois você saiu, era uma bebezinha linda, e agora cresceu, está uma mocinha. Quando ficar uma criança grande, vai poder ir à escola em Hogwarts.

– Que nem você e o Papai Sev'rus? – Os olhinhos brilharam.

– Isso mesmo. Seus tios todos também foram a Hogwarts.

– Até o tio Fred e o tio George?

– Até mesmo eles dois.

– Mas a Vovó Molly vive dizendo que eles não têm educação.

– Ah, mas eles estiveram em Hogwarts, sim. O vovô James e a vovó Lily também estiveram.

– Até o vovô Albus?

– Até o vovô Albus! – Harry sorriu. – E você vai para Hogwarts também, tenho certeza. Afinal de contas, você já até mora aqui!

Serena riu-se alto, divertida, os sons de sua risada infantil ecoando pelos aposentos. Depois ela olhou para o Papai Harry, a quem ainda estava agarrada.

– O irmãozinho pode ficar no meu quarto?

– Se você quiser, ele pode ficar sim. O tio Hagrid pode fazer um outro para ele também.

– Ele pode brincar com Anitra! – A menina mostrou a bonequinha. – E com meu dragão verde, aquele que tio Charlie me deu.

– Tenho uma idéia: um dia desses, nós vamos passear no Beco Diagonal, e você me ajuda a escolher brinquedos novos para seu irmãozinho novo. O que você acha?

– Legal! – Ela franziu o cenho – Será que ele vai me deixar brincar com os brinquedos dele também?

– Ah, eu tenho certeza que sim. Ele vai ser um irmãozinho muito legal que vai adorar a irmã dele. Porque a irmã dele é esperta e a garota mais legal de todo o mundo.

Serena olhou para ele com atenção. Seus papais a olhavam. Ela percebia que aquilo era importante. Depois ela olhou para o Papai Sev'rus.

– Papai, você quer ter um bebezinho?

Papai Sev'rus olhou para Papai Harry e sorriu:

– Isso me deixaria muito feliz, sim, Serena.

– Ainda está bravo com Papai Harry?

– Não, não estou mais. – Papai Sev'rus pegou a mão de Papai Harry e Serena sabia que isso era um carinho. Ela ficou feliz. – Eu não sabia que era uma surpresa. Desculpe se nós assustamos você.

– Você gostou da surpresa, não foi, papai? Foi uma boa surpresa, não foi?

– Foi, sim.

– Agora sua barriga vai crescer feito a da tia Ginny?

– Não, Serena – corrigiu o Papai Harry. – A minha é que vai. Por isso eu comprei aquela roupa. É uma roupa especial quem está esperando um nenê na barriga.

– Harry, você tem certeza? – Papai Sev'rus parecia preocupado. – Vai precisar se afastar do Ministério, e você acabou de entrar no esquadrão de aurores.

– Eu quero isso, Severus. Você sempre diz que Serena foi um bebê tão tranqüilo e hoje vocês dois têm uma conexão especial. Quero experimentar também.

– O que é conexão? – Serena perguntou. Ela tinha sido instruída a perguntar qualquer coisa que não soubesse, e a nunca ir dormir com uma dúvida.

– É esse amor do Papai Sev'rus por você – respondeu Papai Harry. – Você é a garotinha dela. E é a minha garotinha também. Minha garotinha muito especial.

Ele a envolveu em seus braços, e Serena se sentiu aquecida, por dentro e por fora, Anitra também.

– E você não vai mais pro Mistério?

– Ministério – corrigiu ele. – Não, isso só quando o bebê estiver próximo de chegar. Aí eu vou ficar mais em casa, para poder esperar o seu irmãozinho. Ou irmãzinha.

– Pode ser uma menina feito eu?

Papai Harry sorriu de um jeito estranho, olhando para o Papai Sev'rus:

– Olhe, isso pode acontecer. Precisamos estar preparados para isso também. Não ia ser legal?

– É! – Serena ficou entusiasmada. – Ia ser legal!

– Mas eu acho que agora está ficando muito tarde para menininhas ficarem acordadas. – Ele beijou o topo da cabeça dela. – Você já devia estar na cama, mocinha.

– Tá bom, Papai Harry. – Ela desceu do colo de Papai Harry e se jogou nos braços do Papai Sev'rus. – Leva a Anitra e eu para cama, Papai Sev'rus?

– Claro. – Ele a ergueu no colo, a bonequinha apertada contra o peito. – Dê boa-noite para seu pai.

Ela se esticou para dar um beijo na bochecha do Papai Harry:

– Eu te amo, papai.

– Eu também te amo, querida. Durma bem e sonhe com os anjos.

– Dá boa-noite para Anitra. – esticou a bonequinha para ele.

– Boa-noite também, Anitra. – Papai Harry se inclinou e deu um beijo carinhoso na boneca.

Papai Sev'rus ajeitou Serena no colo e levou-a para o quarto. Assim que eles entraram no quarto, os bichinhos encantados acenaram da prateleira para a menina, mas Papai Sev'rus avisou:

– Agora é hora de Serena dormir.

Era a voz de Papai Sev'rus para ser obedecido e ninguém desobedecia ao Papai Sev'rus quando ele fazia aquela voz. Imediatamente os bichinhos começaram a bocejar e a se ajeitar para dormir: os patinhos, cachorrinhos, ursinhos, unicórnios, cisnes e dragões se enrodilharam nas prateleiras construídas por Hagrid no quartinho que às pressas tinha sido pintado de rosa. Papai Sev'rus depositou Serena na cama e ela se enfiou debaixo das cobertas, ajeitando Anitra do seu lado.

– Conta uma historinha, papai?

– Querida, já está muito tarde para histórias.

– Mas Anitra não está com sono – biquinho.

– Anitra deve fechar os olhos, para que o sono venha. – A voz dele se suavizou. – Amanhã eu prometo contar duas histórias.

– Você não está mais bravo com Papai Harry, está, papai?

– Não, querida, não estou. Eu só fiquei bravo porque não sabia da surpresa. Desculpe se assustei você.

– E o Papai Harry não vai embora, não é?

– Não, ele nunca quis ir embora. Além do mais, ele prometeu. Algum dia ele já deixou de cumprir o que prometeu?

– Não. Você também não vai embora, não é, papai?

– Claro que não. Não vou deixar você nunca. Quantas vezes já falei como você salvou minha vida?

– Eu lembro! – Serena sorriu, entusiasmada. – Foi a poção do bruxo mau, que virou venveno, mas aí eu fiquei pertinho de você, e aí acabou o venveno!

– Veneno – corrigiu Papai Sev'rus, que era um papai muito esperto e sabia todas as palavras difíceis. – Ele lançou um feitiço tão malvado que nem o vovô Albus conseguiu tirar, mas você me salvou quando eu estava morrendo. Por isso você é minha garotinha especial, e eu nunca vou embora, nem o Papai Harry.

– E a gente tem conexão!

– Isso mesmo. – Papai Sev'rus sorriu do jeito dele, não com a boca, mas com o coração. Serena podia ser pequena, mas ela via quando Papai Sev'rus sorria com o coração. Aí ele se inclinou e beijou a testa de Serena. – Boa noite, filhinha. Papai ama muito você.

– Eu também amo você muuuuito, papai. Boa-noite.

– Feche os olhos que eu vou apagar a luz – Ela obedeceu. – Nox.

Agarradinha a Anitra, Serena manteve os olhos fechados mesmo quando ouviu Papai Sev'rus se levantar e sair do quarto. Como já ia fazer quatro anos, Serena não tinha medo de dormir sozinha, mesmo porque ela sempre podia ir até o quarto de seus papais se tivesse algum sonho ruim. Seus papais tinham derrotado juntos o grande bruxo mau, e eles eram famosos, por isso sempre tinha umas pessoas chatas chamados repórteres querendo falar com eles e tirar fotos dela. Ela só gostava de tirar fotos com o tio Colin, que tirava fotos desde que ela era bebezinha.

Agora ia chegar um outro bebezinho, seu irmãozinho. Serena não sabia se gostava mais de um irmãozinho ou de uma irmãzinha, mas depois ela pensava nisso. Ela sabia que agora ela estava ficando criança grande, e logo iria para Hogwarts, como Papai Sev'rus prometera. E ela ia surpreender, como ela sempre fizera. Todo mundo achava que ela ia ter os olhos verdes da vovó Lily e ela tinha os olhos pretinhos do Papai Sev'rus. Quem sabe ela também um dia entraria não na casa do Papai Sev'rus nem na de Papai Harry, mas na casa da tia Luna, a que tinha um passarinho preto?

Serena abraçou Anitra com força e bocejou, o sono chegando. Ela tinha que pensar em quais duas histórias o Papai ia contar para ela no dia seguinte. Será que ele ia deixar Serena dar para o irmãozinho o nome de Aslan, que nem o leão da historinha da bruxa?

Papai Sev'rus era muito legal, mesmo que às vezes ele fizesse cara de muito bravo. Papai Harry era também muito querido, e sempre que podia levava Serena para andar de vassoura, ir brincar e fazer coisas divertidas. Eles também a protegiam para nada de mal acontecer com ela. Serena sabia que algumas pessoas tinham morrido (isso significa que tinham ido morar com os anjos), como o tio Sirius, o vovô James e a vovó Lily. Bruxos maus tinham machucado os três, mas Papai Sev'rus e Papai Harry não iam deixar nada disso acontecer com ela.

O irmãozinho ia gostar deles, ela concluiu, adormecendo. E sonhou com um menininho bem pequenininho de olhos verdes, e cabelo preto que nem o dela, cujo nome era John.

Isso. John também era um bom nome.

THE END