Capítulo 01: Londres


- E agora eu gostaria de chamar nossas duas beneméritas protetoras... Senhoras Lily Potter e Susan Black!

James observou a amiga e a esposa se levantarem de seus lugares e avançarem para o pequeno palco improvisado do hospital que elas tinham ajudado a construir. O diretor do hospital fez uma reverência enquanto Lily sentava-se ao piano e Susan tirava de uma caixa de veludo um belo violino. Ele se recostou na cadeira, sorrindo.

Geralmente aquelas noites de gala o deixavam entediado. Mas a inauguração do hospital Dumbledore era um evento para o qual ele jamais deixaria de ir. Primeiro por causa da platéia, repleta de crianças carequinhas, que sorriam encantadas para as duas belas mulheres sobre o palco.

Desde o nascimento de Lyncis, a filha mais velha de seu velho amigo Sirius, ele descobrira que gostava muito de crianças. Especialmente aquelas que jamais se davam por vencidas e que sempre ostentavam um sorriso no rosto. Sentia falta da época em que o filho e a sobrinha eram crianças.

Em segundo lugar, ele nunca perderia uma apresentação das duas ex-noviças. Tinham aprendido música juntas, no convento, sob os cuidado do avô de Lily. Raramente elas tinham oportunidade de tocarem juntas, mas quando o faziam, a cumplicidade das duas amigas sempre lhes proporcionava um show inesquecível. Era realmente uma pena que os outros não estivessem ali...

Sirius tivera que viajar para o continente a fim de resolver alguns problemas para os valetes. Remus e Hestia estavam ocupados demais na Scotland Yard. E Harry e Lyn não estavam em Londres.

Ele sorriu novamente. Eles ainda não estavam em Londres. Mas em breve estariam...


A lua já estava alta no céu quando o avião pousou. O aeroporto estava quase vazio quando os dois jovens afinal desembarcaram em solo inglês.

- Você acha que eles vão estar aqui? - a moça, de cabelos negros e olhos muito azuis perguntou, enquanto retirava as delicadas luvas de seda.

Ele passou as mãos pelo cabelo, ajeitando os óculos para observar o vazio que tinha à frente.

- Receio que não. Se muito me engano, hoje era o dia da inauguração do hospital... E Sirius ainda está na França.

- E como vamos para casa?

Harry deu um sorriso misterioso, como se já tivesse combinado aquilo com alguém e dirigiu-se até o balcão de informações do aeroporto. Lyn observou-o em silêncio até que ele voltasse, trazendo dois rapazes com ele, que logo recolheram as bagagens.

- E então? - ela perguntou, cruzando os braços.

- Meu pai deixou a chave do carro. - Harry respondeu - Vamos.

Lyn cruzou os braços.

- Harry, faz três anos que andamos em Londres. Nós vamos nos perder.

Ele meneou a cabeça.

- Tem tão pouca confiança na minha capacidade de direção? São as mulheres que sempre se perdem, Lyn...

- As mulheres? - ela repetiu, revirando os olhos - Claro, como eu não tinha pensado nisso...

Harry notou o tom de ironia na voz da amiga e suspirou.

- Vamos, Lyn, você não pretende passar a noite aqui no aeroporto, não é?

- Até que seria uma boa idéia...


Susan sentiu os dedos arderem ao pressioná-los sobre as cordas do violino. Estava um tanto enferrujada... Mas não podia se furtar àquela apresentação. Observando com carinho as faces ansiosas das crianças à sua frente, ela pôs toda sua técnica em ação.

Sorriu ao perceber que era observada com admiração. Ao lado dela, Lily se perdia entre as teclas do piano, os olhos fechados e os lábios curvados em um sorriso sereno. Sabia que a amiga estava pensando na mãe e no avô.

A idéia de construir um hospital para crianças com câncer partira da ruiva, que perdera Geneviéve para a doença. Desde que tinha voltado da Alemanha com James, Lily passara a se dedicar de corpo e alma a projetos como o daquele hospital. A fortuna dos Evans, que era quase que gerenciada totalmente por Lily, fora aplicada em inúmeras obras da reconstrução alemã e em diversos fundos de ex-combatentes pela Europa.

Deixando-se embalar pela música, Susan também fechou os olhos. Sentia uma felicidade estranha naquela noite, uma mistura de alegria e compaixão que só experimentara nas primeiras visitas de Sirius ao convento, quando ainda se negava a entregar seu coração ao rapaz de cabelos negros.

Ela sorriu. Parecia fazer tanto tempo... Quem diria que poderia ser tão feliz ao lado de Sirius Black? Não se deixara enganar pelo ar cínico dele em suas primeiras visitas, mas não conseguia entender como mudara todas as certezas de sua vida de uma hora para a outra, por conta de um beijo roubado...


- Eu disse que sabia o caminho. - Harry sorriu vitorioso.

Lyn apenas fez um muxoxo de descrença enquanto deixava o carro.

- Muito bem, você estava certo, eu errada. O que vai fazer agora?

- Hum... - o rapaz pareceu pensativo por alguns instantes antes de ruborizar levemente e menear a cabeça - É melhor eu ir pra casa. Acredito que nos veremos amanhã, não?

A morena deu de ombros.

- Se vocês não vierem almoçar aqui, é provável que nós apareçamos para almoçar lá. Nossos pais estão sempre se convidando, então, acho que é desnecessário perguntar, Harry. - ela completou com um sorriso irônico.

Harry suspirou. Detestava quando Lyn conseguia deixá-lo sem resposta. E isso acontecia com uma certa freqüência... Seria muito mais fácil se ela fosse tímida... Meneando a cabeça novamente para espantar esses pensamentos, ele voltou a ligar o carro.

- Até amanhã então, lady Black.

- Até, sir Potter.


Lily respirou fundo, tocando os últimos acordes antes de voltar a abrir os olhos, deparando-se com sua sorridente platéia.

As crianças começaram a bater palmas e ela sorriu, enquanto Susan guardava cuidadosamente seu querido violino, relíquia de família. Lily sorriu para ela e ergueu-se, encontrando os olhos do marido.

James tinha um sorriso displicente no rosto e piscou o olhou para ela enquanto se levantava. Ele certamente tinha planos para aquela noite...

Com o fim da apresentação e uma breve entrevista para alguns jornalistas que tinham ido ao evento, eles se despediram e entraram no carro, James no banco de motorista.

- Eles já devem ter chegado. – Susan observou, recostando-se contra o assento do carro.

Lily sorriu.

- Harry deve ter deixado sua pequena dama em casa, Su, não se preocupe. Lyn já deve estar na cama a essas alturas...

Susan sorriu ao mesmo tempo em que James estacionava junto ao portão dos Black.

- Está entregue, minha cara. – James sorriu para ela, acenando com a cabeça – Mande lembranças à Lyn.

- Vocês virão almoçar conosco amanhã? – Susan perguntou, fechando a porta do carro e inclinando-se junto à janela da ruiva.

Lily apenas assentiu, sorrindo, e Susan rapidamente atravessou o portão e subiu as escadarias, sumindo pelos portões da propriedade.


Deitado na escuridão do seu quarto, Harry observava a noite. Ele espreguiçou-se, revirando-se na cama para encontrar o relógio. Já passava da meia noite.

Fechou os olhos, sorrindo. Com o fim da guerra e do ano letivo na Suíça, seus pais tinham decidido que já era hora dele voltar para casa, para Londres. E agora, lá estavam ele e Lyn, para estudar na Real Academia Inglesa, o mesmo lugar onde James tinha se formado.

Uma melodia doce veio do andar de baixo e ele se levantou. Seus pais tinham chegado.

O salão estava imerso na penumbra quando eles entraram. Lily tirou o casaco, depositando-o sobre um divã, debruçando-se em seguida sobre um dos janelões para observar a lua crescente no céu.

James observou-a em silêncio por alguns instantes antes de colocar um disco na antiga vitrola. Uma melodia suave preencheu o salão e ele se aproximou da ruiva com um sorriso.

- Concede-me essa dança, minha esposa?

Lily sorriu em resposta.

- Com prazer, meu esposo.

Sentado nos últimos degraus da escadaria e protegido pela escuridão, Harry observava os pais valsarem. O vestido de noite da mãe produzia um farfalhar de seda enquanto o pai rodopiava com ela pelo salão. Ele sorriu.

Foi nesse instante que Lily percebeu a presença de Harry. Ela parou de dançar, correspondendo ao sorriso dele e James também se virou.

Harry levantou-se, deixando as sombras da escadaria para aproximar-se dos pais.

- Como foi a noite? – ele perguntou.

- Longa. – James respondeu, soltando a esposa, que imediatamente abraçou Harry.

- Estávamos com saudades.

- Eu sei, mamãe. – Harry sorriu, correspondendo ao abraço da ruiva – Mas agora estamos todos reunidos.

- E em casa. – James completou, antes de também abraçar o filho.


E aí está o primeiro capítulo... A tão esperada continuação de Mistérios de Londres. Não vou me alongar muito nessas notas para deixar vocês com o gostinho de quero mais da história...

Beijos,

Silverghost.