NA: Gravitation não me pertence.

A música "Nada pra mim" pertence a cantora Ana Carolina.


Eu, não vim aqui pra entender

A porta do escritório bateu com força, mas o homem não se abalou com o barulho estridente que ela causou, mantendo os seus olhos dourados presos na tela do computador como se nada do que tinha acontecido a pouco o afetasse. Afinal, ele estava certo, sempre estava certo, e aquele moleque tinha que entender que ele tinha coisas mais importantes para fazer do que perder tempo com ele. Por isso, como sempre, quando ele começou a aborrecê-lo demais o colocou para fora de casa.

Soltou a fumaça de nicotina por entre os lábios finos e voltou o seu olhar janela afora. O tempo parecia estar fechando sobre os céus de Tóquio. Será que o idiota ao menos tinha levado um guarda chuva? Não que se importasse, não é mesmo? Apenas que um Shuichi resfriado era mais irritante que um com saúde perfeita. Deu de ombros. Realmente não lhe interessava isso. O cantor era crescido o suficiente para saber se cuidar. Os olhos retornaram a tela do computador e os dedos voltaram a digitar mais linhas do novo livro.

Ou explicar

A chuva caía com força das nuvens carregadas e esse cenário seguiu-se pela madrugada inteira. Eiri esticou-se sobre o sofá de couro negro, fumando o seu décimo cigarro da noite. A madrugada estava passando com lentos tiques e taques do relógio e o idiota ainda não tinha voltado. Mirou o telefone, cogitando a hipótese de ligar para números familiares, mas não daria esse gosto a Shuichi. Além do mais, ele não se importava onde o vocalista do Bad Luck tinha se enfiado, não é mesmo? Ele não se importava.

Apagou o cigarro no cinzeiro sobre o braço do sofá e em poucos segundos outro canudo estava em sua boca. Ele realmente não se importava… Mas onde afinal estava aquele idiota?

Nem pedir nada pra mim

Não quero nada pra mim

Seus dedos aproximaram-se hesitantes do telefone, mas recuaram com a mesma velocidade que chegaram perto do aparelho. Já foram quarenta e oito horas. Aquele imbecil nunca tinha ficado fora de casa por tanto tempo, exceto naquela vez…

Resoluto catou o telefone e digitou o número de seu rival. Com certeza Nakano arrancaria a sua cabeça fora pela extensão, mas estava disposto a se arriscar. E, além do mais, ele não se importava, apenas queria ter certeza que o moleque não tinha se matado ou coisa parecida. Não queria ninguém batendo na sua porta mais tarde lhe lançando acusações.

Depois de dois toques a voz do guitarrista do Bad Luck soou um pouco rouca do outro lado da linha.

-Nakano. – disse com o seu usual tom frio.

-Yuki. – só em saber quem era a pessoa o incomodando parecia ter tirado Hiroshi de qualquer estado de torpor em que ele estava.

-Onde está aquele imbecil? – perguntou com pouco caso e a linha ficou em silêncio por longos e torturantes minutos. Ele não se importava só estava… curioso.

-Ele não contou? – era impressão sua ou a voz de Nakano parecia conter um leve tom de contentamento?

-Me contou o quê? – perguntou Eiri com desagrado.

-Ele voltou para a casa dos pais. Agora eu quero ver o que você vai fazer para tirá-lo de lá. Creio que uma letra de música não será o suficiente, não é mesmo? – soltou uma risada de apreciação e desligou o telefone na cara do escritor, que ficou encarando o aparelho por alguns segundos antes de acender outro cigarro. Tinha voltado para a casa dos pais, hum? Bem, isso era problema dele então. Porque ele não se importava.

Eu, vim pelo que sei

E pelo que sei

Ele não se importava. Repetiu para si pela enésima vez. Porém, se não se importava o que estava fazendo em frente à porta da casa dos Shindou? Acendeu um cigarro e ficou encarando a madeira da porta. Depois de minutos de indecisão, resolveu tocar logo aquela maldita campainha e resolver todo esse problema.

Repassou o que iria dizer mentalmente. Iria mandar esse idiota tirar as tralhas dele da sua casa, já que ele finalmente foi embora. Sim, era isso o que estava fazendo ali. Inspirou profundamente quando a porta abriu-se e uma garota o olhou de cima a baixo, com uma expressão confusa.

-Sim? – perguntou Maiko, mordendo o lábio inferior para impedir-se de rir. Não podia realmente acreditar que Yuki Eiri estava na porta da sua casa e, com certeza, para falar com Shuichi. Pelo visto ele se importava.

-Hunf! – foi tudo o que o escritor respondeu e a garota abriu mais a porta, cedendo passagem a ele.

-Ele está no quarto. Segunda porta a esquerda. – Eiri nada disse e apenas passou pela garota, subindo as escadas e seguindo as indicações dela. Parou em frente à porta do quarto, que tinha uma plaqueta com o nome "Shuichi" presa na madeira e um enorme aviso de papel com o rabisco: "afaste-se". Respirou profundamente e bateu. Só queria que o moleque tirasse as tranqueiras dele da sua casa, porque ele, Yuki, não se importava.

Você gosta de mim

É por isso que eu vim

A porta abriu-se vagarosamente como se a cena estivesse passando em frente aos seus olhos dourados em câmera lenta. Uma cabeça de fios rosados apareceu no batente, seguida por grandes olhos azuis que miraram o homem a sua frente com espanto. E, diferente da velocidade com que a porta se abriu, ela se fechou com um estalo no rosto de Yuki. O escritor soltou um baixo grunhido entre os dentes e bateu com mais força na madeira escura.

-Abra essa porta idiota! – ordenou e novamente a porta abriu-se vagarosamente, com um Shuichi chocado aparecendo por detrás dela. Ele não poderia crer no que os seus olhos estavam vendo. Era realmente Yuki na sua frente, em carne, osso e cigarro. Não estava alucinando ou coisa parecida. O homem realmente estava ali mas… por quê? Pensava que ele não se importava.

-Yuki? É realmente você? – perguntou ainda chocado e o loiro soltou um resmungo por entre os dentes. Até onde poderia ir o nível de idiotice de uma pessoa?

-Não! Você está alucinando. – respondeu ácido e Shuichi piscou os grandes olhos azulados, torcendo logo depois o nariz arrebitado. É, com esse "bom" humor usual, era ele mesmo.

Eu não quero cantar

Pra ninguém a canção

Que eu fiz pra você

-Por que você está aqui Yuki? – perguntou incerto, abrindo um pouco mais a porta e dando um passo para o lado, o convidando claramente para entrar. O escritor pisou dentro do quarto e os seus olhos dourados rapidamente começaram a vasculhar o lugar que por todos os cantos gritava a personalidade de Shuichi. Eram alguns vídeos do Nittle Grasper espalhados sobre uma estante, um teclado conectado a um velho computador. Um velho caderno escolar com vários desenhos e riscos na capa. Era a cama desarrumada a um canto e as roupas espalhadas. Tudo nesse quarto era a mesma zona familiar que existia em seu apartamento há um ano. Um ano, ponderou. Como ele aturou aquela tempestade tropical rosada por um ano?

-Yuki? – a voz melodiosa do cantor o fez sair de suas avaliações e voltar o seu olhar severo para o rapaz mais novo que, instintivamente, recuou vários passos até bater com o joelho no pé da cama e cair sentado com um baque abafado sobre o colchão.

-Eiri. – disse seco e Shuichi piscou os olhos confuso.

-O quê?

-Você me atormenta há um ano com a sua voz irritante gritando Yuki pra lá, Yuki pra cá. – explicou, dando uma tragada em seu cigarro. –Acho que está na hora de me chamar de Eiri. – disse calmamente e o jovem cantor sentiu seu coração parar. O chamava de Yuki porque achava que era isso que o escritor queria: manter uma certa formalidade no relacionamento deles. Chamá-lo de Eiri denotaria uma intimidade que, apesar do tempo que passou, parecia que eles não tinham. Ou será que tinham?

Que eu guardei pra você

Pra você não esquecer

Que eu tenho um coração

-Você não respondeu a minha pergunta... Eiri. O que você está fazendo aqui? – mais uma vez Yuki deu uma olhada ao redor do quarto até finalmente encarar o rapaz de cabelos rosados sentado na cama.

-Estou sem inspiração, apenas isso. – deu de ombros e sentou-se ao lado do garoto no colchão macio. Shuichi entendeu menos ainda. O que ele queria dizer com isso? Estava sem inspiração? O que isso significava? Que ele não sabia o que fazer com o livro que tinha começado a escrever?

–Para escrever uma música e pedir mais favores ao Tohma. Por isso resolvi vir aqui pessoalmente para... – pausou um pouco, olhando ao redor do quarto a procura de alguma coisa, até que viu uma lata de refrigerante sobre a cômoda ao lado da cama. A pegou, a sacudindo um pouco e vendo que o líquido estava quente e pela metade. Jogou o cigarro usado dentro da lata e exalou longamente a nicotina que ainda restava em seus pulmões. -... pedir que você volte para casa. – com isso, Shuichi congelou.

Que é seu

-Por quê? – conseguiu balbuciar diante do choque que recebeu com a declaração de Eiri.

-Porque... – passou uma mão pelos cabelos loiros e fixou seus olhos dourados nos azuis do cantor. -... porque eu me importo. – disse com a voz quase sumida e Shuichi pela segunda vez sentiu o seu coração parar. Não era muito, mas com certeza era o mais perto que ele conseguiria de uma declaração de amor. Sorriu, segurando no colarinho da camisa do escritor e o puxando para mais perto do seu rosto.

-Eu também te amo Eiri. – sussurrou antes de beijá-lo com paixão e suavidade.

-Então... Volte para casa. – pediu o loiro e Shuichi deu um aceno positivo com a cabeça, o vendo erguer-se da sua cama e estender a mão para si, a recebendo e se deixando levantar do colchão, encolhendo-se sob o braço protetor sobre os seus ombros.

Tudo mais que eu tenho

Tenho tempo de sobra

-Ah... Shuichi. – Eiri chamou quando eles estavam em frente ao carro do escritor, retirando algo de seu bolso e entregando ao rapaz. Shuichi abriu a pequena caixa de veludo, sorrindo ao ver a corrente de ouro branco, com um pingente que era uma nota musical, que estava dentro da caixa. –Feliz aniversário. – declarou e abriu a porta do carro para ele, a fechando assim que o cantor entrou.

É, não tinha sido tão ruim assim e agora Yuki tinha que admitir que sim, ele se importava.

Tive você na mão

E agora

Tenho só essa canção