NA: Harry Potter & Cia são propriedades de J.K Rowling. Está fic é apenas para entretenimento meu e dos demais leitores.

NA2: Eu gostaria muito que as pessoas não colocassem spoilers do livro 6 nas reviews. Esta fic só tem spoilers até o livro 5 e eu não li HBP. Agradecida. XD

De Uma Cidade Distante

Capítulo I

A primeira coisa que sentiu quando finalmente recobrou a consciência, foi dor. Seu corpo todo doía, exceto a sua perna esquerda que parecia estar dormente. A segunda coisa que sentiu foi uma mão quente sobre a sua testa. Tentou piscar os olhos, mas as suas pálpebras estavam muito pesadas. Esperou alguns segundos e tentou novamente, dessa vez conseguindo alcançar o seu intento. Contudo, foi algo inútil, pois a sua visão estava embaçada e a única coisa que ele conseguiu identificar foi alguém debruçado sobre si e mais um mar de cor branca.

-Ah, você acordou! - uma voz suave chegou aos seus ouvidos e o rapaz piscou mais ainda, mas continuou vendo tudo turvo. Onde estavam os seus óculos afinal? -Você esteve dormindo por cinco dias, mocinho, nos deixou preocupados. Dr. Hart não sabia mais o que fazer com você. - continuou a voz que aparentemente era feminina.

-Meus óculos... - sussurrou rouco e quase inaudível, porém eficiente o suficiente para sentir os seus óculos serem empurrados contra o seu rosto. Quando finalmente a sua visão entrou em foco e ele pôde ver quem estava sobre si. Era uma mulher de meia idade e com cabelos castanhos grisalhos presos e um coque firme, tinha um rosto simpático e gentil e usava um impecável uniforme branco de enfermeira, onde na etiqueta do bolso estava escrito: "Enfermeira Johnson".

-Como se sente meu filho? - perguntou quando o viu piscar mais vezes para poder focalizar melhor a visão, depositando mais uma vez uma mão quente sobre a testa dele.

-Onde eu estou? - olhou a sua volta e não reconheceu a decoração peculiar que os quartos do hospital que ele estava acostumado tinham.

-Está na Clínica Withinburg. - o rapaz entendeu menos ainda. Que lugar era esse? -Bem, - continuou a mulher ao ver que ele parecia extremamente desorientado. - eu vou chamar o Dr. Hart. Por favor, não se mexa. - pediu a enfermeira, dando um sorriso confortador para ele e saiu do local.

Assim que a porta do quarto se fechou atrás da mulher, Harry mexeu-se na cama, conseguindo se sentar lentamente nela e tentando se lembrar do que tinha acontecido. Fazia uns dez anos que Voldemort havia sido derrotado, mas ainda sim existiam alguns Comensais errantes pelo mundo bruxo e entre eles estava Belatrix Lestrange, a mulher que ele mais odiava no universo. Havia jurado a si mesmo que a mandaria para os Dementadores brincarem nem que isso fosse a última coisa que ele fizesse na vida. E era isso o que ele estava fazendo. Tinha a encontrado e a perseguido, duelaram e, de alguma maneira, ele perdeu e ela escapou mais uma vez de suas mãos.

Foi tirado de seus devaneios quando a porta do quarto novamente se abriu em um homem alto e loiro, trajando um jaleco branco, passou por ela, olhando intensamente para a prancheta que estava em suas mãos.

-A enfermeira Lucy me disse que você acordou sr. Doe. - falou o homem e Harry piscou. Doe? O nome dele não era Doe. Torceu um pouco o nariz ao perceber que estava sendo taxado de John Doe, pois com certeza não havia sido identificado pelos médicos.

-Aparentemente sim. - respondeu com a voz ainda rouca e o homem ergueu os olhos da prancheta, dando um leve sorriso para o seu misterioso paciente. Harry viu orbes cinzentos o miraram e arregalou os próprios olhos de susto, conseguindo balbuciar apenas uma palavra:

-Ma-Ma-Malfoy?


Elliot David Hart era um jovem inteligente, estudioso e simpático, conhecido por todos os moradores da pequena cidade Refuge. Era neto dos fazendeiros Elisabeth e Owen Hart e o grande orgulho dos avós, embora tivesse uma história de vida triste para um rapaz tão novo.

Elliot, ou Ed como é conhecido pela população da cidade, havia nascido e sido criado em Londres até os quartoze anos. Isso até que um acidente de carro matou os seus pais e foi à causa de ele ter ficado em coma por dois anos. Depois que acordou, ficou um pouco desorientado, levando um certo tempo para lembrar-se de sua vida, família e de seus avós, até que finalmente recebeu alta do hospital e mudou-se de Londres para Refuge, no interior da Irlanda. Lá construiu uma nova vida, fez novos amigos, conhecidos, namoradas, até que finalmente cresceu e embarcou para Oxford para estudar medicina. Mas como o próprio jargão da cidade dizia: "Refuge é um lar para onde você sempre vai voltar". Depois de formado viveu apenas um ano em Londres antes de voltar para a casa e assumir a direção do único hospital da pequena cidade: a Clínica Withinburg. E, até alguns dias atrás, nada de novo acontecia em Withinburg e então esse misterioso homem apareceu.

Era uma manhã clara de quarta feira e Elliot estava atendendo uma menina de dez anos, filha da sra. Adams, que tinha como diagnóstico um anzol de pesca cravado no dedão da mão, quando Rocky e Marty, dois rapazes que trabalhavam na lanchonete que era o ponto de encontro dos jovens da cidade, entraram carregando um estrangeiro nos braços. Segundo o que eles relataram, eles ouviram um barulho no beco atrás da lanchonete e quando foram verificar o homem de roupas esquisitas estava caído lá e aparentemente muito ferido. Deixando a filha da sra. Adams nas mãos da eficiente Lucy, Elliot foi atender o homem sem nome e de roupas estranhas. Por dias ficou ao lado de sua cama, tentando entender como alguém que apenas apresentava escoriações pelo corpo, algumas costelas quebradas e uma perna fraturada parecia estar adormecido em um coma profundo quando nem uma concussão ele havia sofrido. E ainda ponderava esse fato até que, quando entrou essa manhã na clínica, Lucy o abordou dizendo que o paciente sem nome havia acordado.

-Esse é o seu nome senhor? Malfoy? - perguntou Elliot, piscando os olhos cinzentos para o paciente e prendendo uma mecha dourada do cabelo atrás da orelha. Harry recostou no travesseiro, olhando o homem a sua frente. Viu em seu jaleco uma etiqueta escrita "Dr. Elliot D. Hart", mas o que via no seu rosto era toda a fisionomia e os trejeitos de Draco Malfoy, seu ex-inimigo de escola. Draco Malfoy, filho de um Comensal da Morte. Draco Malfoy, o mesmo que estava enterrado no cemitério Paradise Park ao lado do túmulo dos pais. -Senhor? - Elliot chamou quando percebeu que o estranho o olhava demais e respondia de menos. Largou a prancheta em cima da mesa ao lado da cama e retirou uma mini lanterna do bolso, aproximando-se do moreno que instintivamente recuou quando sentiu o médico tocar nos aros dos seus óculos.

-O que você está fazendo? - perguntou desconfiado e Elliot sorriu.

-Estou vendo se o senhor está com uma concussão. - respondeu suavemente, retirando os óculos de Harry e mirando a luz da lanterna nos olhos dele. -Aparentemente os exames não acusaram danos cerebrais, mas o senhor ficou apagado por cinco dias... - lançou a luz do olho direito para o esquerdo. -... Um quadro peculiar, mas não anormal. - e desligou a lanterna, a guardando novamente no bolso. Harry recolocou os óculos, ainda olhando um pouco abobado para o homem que estava na sua frente. -O senhor me parece bem. E já que está bem poderia me dizer qual é o seu nome. - pegou a prancheta e a caneta para poder preencher o nome correto do paciente na ficha dele. -Quero dizer, o senhor lembra do seu nome, não lembra? É Malfoy de quê? - perguntou, pronto para escrever o nome correto. Harry, ainda com a mente confusa e se sentindo dentro de um sonho, sacudiu a cabeça e rapidamente respondeu:

-Harry Potter. - Elliot piscou confuso. Achava que o nome dele era Malfoy. Deu de ombros e rabiscou Harry Potter no lugar de John Doe. Harry não estava entendendo mais nada. Pelo que parecia estava em um hospital trouxa, sendo tratado por um médico que poderia se passar por irmão gêmeo de Draco Malfoy, no meio de... Algum lugar que ele não fazia a mínima idéia de onde ficava. –Onde eu estou? – perguntou pela segunda vez, tentando achar alguma pista de onde estava na decoração simplista do quarto do hospital.

-Em Refuge. – respondeu o médico prontamente, voltando o seu olhar para o seu misterioso paciente. –Na Irlanda. – Harry arregalou os olhos. Havia ido parar na Irlanda? O que aquela psicótica da Lestrange havia feito com ele? Melhor, o que ele havia feito? Tentou mais uma vez puxar na memória e a única coisa que se lembrava era… Isso! Uma maldição imperdoável foi lançada contra ele em um momento de falta de atenção e, já ferido e tentando escapar dela, Harry acabou aparatando. E aparatando para longe, pelo que parecia. Elliot viu confusão e reconhecimento cruzar os olhos verdes do rapaz, mas tão rápido como apareceram, sumiram das expressões do rosto dele e essa ganhou um traço ilegível. Soltou um longo suspiro, tendo a sensação de que esse paciente ainda lhe daria muita dor de cabeça, por mais intrigante que ele fosse e por mais curiosidade ele lhe despertasse. Ainda sim, ele cheirava a problemas. –Sr. Potter, em casos como o seu é procedimento do hospital informar a polícia sobre o ocorrido. – tentou rapidamente entrar no assunto que o estava corroendo desde que botou os pés na clínica essa manhã.

-Polícia? Mas eu não fiz nada de errado. – defendeu-se Harry.

-Talvez não sr. Potter. Mas o senhor me apareceu subitamente do nada, nem dessa cidade faz parte, ferido e inconsciente e nós queremos saber o porquê. Se foi atacado, precisamos capturar o seu agressor. – Harry mordeu a bochecha e sentiu como se uma pedra de gelo tivesse escorregado para a boca do seu estômago. Com certeza esse homem, esse sósia de Draco Malfoy, nunca havia encontrado um bruxo na vida e não fazia a mínima idéia de que estava lidando com um. Então, como iria explicar para ele que ao fugir de uma maldição imperdoável acabou aparatando mais longe do que pretendia? Não poderia dizer isso ao homem, senão com certeza seria transferido para a ala psiquiátrica da clínica.

-Eu não me lembro. – foi a primeira saída que lhe veio à cabeça e viu os olhos cinzentos do Dr. Hart brilharem desapontados. Lutou para reprimir um suspiro. As peças do quebra cabeça pareciam se juntar a cada minuto que passava. Com o nome de Refuge com certeza aquela deveria ser uma cidade bem pequena, onde todo mundo conhecia todo mundo, e Harry, o estranho que apareceu subitamente, deveria ser a nova atração do lugar.

-Entendo. – murmurou o jovem médico, abrindo um sorriso logo em seguida. Era quando ele sorria que Harry via que essa era a única diferença entre esse tal Elliot Hart e Draco Malfoy. Malfoy nunca deu um sorriso genuíno e as suas feições sempre estavam distorcidas com um sorriso escarninho, diferente do jovem loiro a sua frente. -Informarei isso à polícia então. Mas se lembrar de alguma coisa me diga imediatamente. – falou em um tom suave e recolhendo a sua prancheta saiu rapidamente do quarto.

Harry ficou observando a porta fechada por longos segundos, tentando entender mais uma vez o que estava acontecendo. Até onde tinha capturado as informações, havia ido parar em uma cidade de interior, uma cidade trouxa, ficou apagado por cinco dias e estava sob os cuidados de um jovem médico que era o espelho do seu ex-inimigo de escola. E, o pior de tudo, estava sem os seus pertences. Onde estavam a sua varinha e as suas roupas? Seu distintivo de Inominável? Mas, principalmente, o seu celular? Porque tinha certeza que a essa altura do campeonato, Ron e Hermione deveriam estar arrancando a cabeça de alguém por causa do seu sumiço.


Dr. Hart fechou a porta do quarto e recostou-se nela, mordendo intensamente a ponta de sua caneta enquanto olhava vez ou outra por cima do ombro para a madeira esbranquiçada. Sacudiu o corpo como se para afastar um arrepio que havia lhe descido pela espinha, e começou a caminhar em direção a recepção da clínica. Havia algo nesse tal de Harry Potter que o intrigava. Nunca havia visto o homem na vida, mas ele certamente lhe lembrava alguém. Bem, talvez ele tenha visto o sr. Potter em Londres, já que pelo modo de falar ele era definitivamente britânico. Mas também tinha a sensação de que não era apenas isso.

-Dr. Hart? – o chamado o fez piscar os olhos e voltar ao mundo terreno para mirar o jovem delegado que estava na sua frente. Rocco Snipes era o seu melhor amigo desde que ele tinha vindo morar com os avós e entrado na escola municipal da cidade. E a amizade perdurou inclusive quando ele foi embora para Oxford para estudar medicina e Rocco foi para Dublin para a Academia de Polícia. E, coincidentemente, os dois voltaram no mesmo ano para Refuge para assumir os postos que agora trabalhavam.

-Delegado Snipes. – cumprimentou formalmente e, depois de segundos de silêncio, os dois homens começaram a rir. Eram grandes amigos e por isso consideravam extremamente estranho chamarem um ao outro pelo cargo que ocupavam.

-Certo Ed meu caro, me conte uma boa nova, o que você conseguiu arrancar do nosso aparecido? – caçoou Rocco e Elliot torceu um pouco o nariz. Às vezes não gostava do ar debochado do melhor amigo, ainda mais quando esse estava se referindo aos seus pacientes.

-Ele se chama Harry Potter. Me parece ser inglês e não se lembra do que aconteceu.

-Que conveniente. – novamente provocou e Elliot ergueu uma sobrancelha indagadora. –Ele aparece do nada, usando roupas muito esquisitas, e não se lembra do que aconteceu. Para mim é extremamente conveniente.

-Para mim é apenas um quadro normal de perda de memória pós-trauma. Sempre acontece. Dê tempo a ele e com certeza ele poderá responder as suas perguntas. No momento apenas peço que não o importune. O rapaz está bem, mas ainda sim pode oferecer complicações. O ferimento nas costelas foi feio e quase perfurou um pulmão. A perna quase nos levou a uma mesa de cirurgia. A única coisa que eu posso dizer sobre o senhor Potter é que ele teve muita sorte, isso sim. E quanto ao semi-coma… danos cerebrais tardios podem aparecer causados por estresse excessivo. – e olhou significativamente para o delegado, que soltou um muxoxo. Elliot o conhecia bem demais. Sabia que ele não iria descansar enquanto não desvendasse o mistério por detrás desse estranho. Mas, com a mesma intensidade que Rocco defendia a segurança da população de Refuge, Elliot defendia a privacidade de seus pacientes. E ninguém sabia quem era mais teimoso: o médico ou o policial.

-Você sabe tirar os prazeres de um homem. – resmungou o policial e Elliot riu.

-Minha especialidade. – rebateu, dando leves tapas no ombro do amigo enquanto via por cima desse pessoas entrando na recepção do hospital. Sorriu mais ainda ao ver a sua avó entre essas pessoas. Elizabeth Hart era voluntária na clínica junto com outras senhoras da comunidade. Sendo uma cidade pequena, com um hospital pequeno, deve-se saber que o mesmo era mantido por um médico – o Dr. Hart – três enfermeiras e várias voluntárias. Poderia ser um local pequeno, mas extremamente freqüentado.

-Nana! – o loiro abriu um grande sorriso, caminhando com os braços abertos em direção a senhora baixa e rechonchuda, a abraçando fortemente. As outras senhoras ao lado de Elizabeth soltaram longos suspiros sonhadores. Elliot era o sonho que qualquer mãe ou avó tinha para as suas filhas e netas. Médico, com uma boa posição na cidade e extremamente bonito e simpático. Porém, infelizmente tão dedicado à profissão que nunca tinha tempo para dar um segundo olhar as meninas que suspiravam pelos cantos diante do belo e jovem doutor.

-Estamos aqui para as nossas tarefas do dia, querido. – Elizabeth sorriu para o neto, erguendo uma cesta de quitutes que as senhoras sempre faziam para os pacientes. Comida saudável e nutritiva para eles se recuperarem mais rapidamente. E alguns doces, visto que a maioria dos pacientes eram crianças arteiras que sempre estavam aprontando uma coisa ou outra nas vastas terras cultivadas em Refuge. Já que todo mundo conhecia todo mundo, os fazendeiros não se importavam que as crianças brincassem em suas terras, desde que elas não quebrassem ou prejudicassem nada, elas estavam livres para ir e vir dentro das fazendas e por isso sempre viviam se machucando em rios, pedras e árvores.

O loiro correu os olhos para as mulheres que estavam atrás de sua avó e viu que elas pareciam mais arrumadas que o habitual para exercer a tarefa de enfermeiras voluntárias. Que traziam mais cestas de guloseimas que o usual e pareciam ansiosas com algo. O rapaz quis rir. Com certeza elas estavam doidas para ver o jovem estranho que estava na cidade. Se não fosse a insistência de Elliot e a reprimenda dele, o moreno teria sido matéria do jornal e rádio local por semanas.

-Eu sinto muito senhoras, mas ele só pode receber uma visita por dia. – cortou prontamente as esperanças delas e viu divertido um rubor surgir na face das mulheres. Rocco soltou uma longa gargalhada e apoiou uma mão no coldre da arma em sua cintura.

-Realmente, adora estragar o prazer de uma pessoa. – provocou quando um chamado em seu rádio o requisitou a voltar à delegacia. –Bem, eu tenho que ir Ed. Qualquer novidade me avise. Senhoras. – despediu-se com um aceno de cabeça e sumiu pelas portas de entrada do hospital.

-Tenho certeza que as jovens Meredith e Judit adorarão vê-las. – falou o loiro com um largo sorriso. As duas meninas eram as sobrinhas do prefeito e estavam passando as férias de verão com o tio na cidade e como eram bastante arteiras, cometeram a façanha de quebrarem uma perna e os dois pulsos, respectivamente. Resignadas, as mulheres foram em direção a ala infantil da clínica visitar as duas meninas e dar um olá as outras enfermeiras e ajudá-las nos afazeres administrativos da clínica. –Nana? – Elliot voltou-se para a avó que havia ficado para trás. –Acho que senhora poderia ficar de olho no Sr. Potter enquanto eu resolvo alguns problemas do clínica. Estamos com uma entrega atrasada de materiais para o atendimento da emergência. – soltou um longo suspiro, passando as mãos pelos cabelos platinados. –Refuge ainda pode ser uma cidade tranqüila, mas cresce na questão turística a cada dia. – murmurou chateado. No verão muitos cidadãos urbanos procuravam a tranqüilidade das cidades do interior para poder se esconder do caos das cidades grandes e Refuge, ultimamente, estava se tornando a rota preferida de muitos e por isso o comércio e o eco turismo estava aumentando, assim como o número de entradas no hospital. –Acho que vou entrar com um pedido na prefeitura de solicitação de mão de obra. Nós quatro não estamos mais dando conta de tudo. – resmungou para si mesmo e Elizabeth lançou um olhar condoído ao neto. Ele era o único médico do hospital e assumia todas as funções. Ele era cirurgião, clínico geral, pediatra, geriatra e derivados, e isso estava cansando o jovem de vinte e sete anos. Ele quase não tinha tempo para se divertir. Vivia mais dentro daquele hospital do que fora dele. E, embora gostasse muito do que fazia, ainda sim Elizabeth e o marido se preocupavam com o rapaz.

-Por isso que você tem voluntárias, querido, para ajudá-los no que precisar. – disse a velha mulher e Elliot deu um grande sorriso para ela.

-E eu aprecio muito a sua ajuda, nana, mas eu preciso de gente formada. – acariciou os cabelos dourados e quase grisalhos e deu as costas para ela, com o estetoscópio quase caindo dos ombros. –Ele está no quarto 102. – murmurou e sumiu na esquina de um corredor.


Harry tentou pela enésima vez sair da cama e arrumar um modo de sumir daquele lugar com a mesma velocidade com que apareceu, mas cada vez que tentava mover um músculo seu corpo todo doía, principalmente as suas costelas. E cada vez que tentava praticar alguma magia, tudo o que conseguia era fagulhas e alguns objetos levitando. Era simplesmente perfeito, pensou desgostoso, não só o seu corpo estava exausto, mas também a sua magia. Levaria um tempo para ter o seu poder de volta e enquanto isso estava preso naquela cidade, com a polícia atrás de si e pensamentos confusos sobre o porquê de seu médico se parecer com o seu falecido ex-colega de escola. Claro que ele poderia esquecer esse assunto e se esforçar em recuperar-se e seguir com a sua vida caçando Comensais da Morte, mas havia algo o incomodando dentro de si desde que pôs os olhos nesse Dr. Hart. Algo no loiro não estava certo. E isso era o que Harry chamava de intuição, e ele nunca ignorava a sua intuição. Afinal, ela já lhe salvou a vida várias vezes, assim como também o meteu em várias encrencas.

-O que você pensa que está fazendo, rapazinho? – por um breve momento Harry teve a sensação de que estava ouvindo a tom de reprimenda da professora McGonagall, mas quando ele ergueu os olhos para o que jurava ser a diretora da Grifinória, tudo o que viu foi uma mulher com vários fios brancos na cabeça loira e duros olhos azuis cristalinos.

-Er… tentando me levantar? – respondeu sem jeito e sentiu seus músculos retesarem diante da força do olhar que a mulher lhe lançou.

-O senhor quer é arrumar complicações, não é mesmo? Suas feridas ainda estão se curando e isso significa que o jovenzinho não pode se erguer da cama. – caminhou a passos pesados até ele, depositando a cesta de guloseimas sobre a mesa de cabeceira e começou a ajeitar as almofadas atrás de Harry, o empurrando delicadamente e o ajeitando mais uma vez sobre o colchão. –Meu neto teve muito trabalho para consertá-lo, senhor Potter, não estrague os esforços dele. – consertá-lo? Pensou ironicamente. Ele ainda estava todo dolorido e com faixas apertadas em seu dorso e um maldito gesso pesando em sua perna. Na sua concepção isso não era "consertar alguém". Porém, por outro lado, estava tão acostumado com os feitiços rápidos de cura que já havia se esquecido como era cicatrizar da forma trouxa. E não sentia saudades da época em que isso acontecia, pois doía extremamente curar-se de forma natural.

-Seu neto? – perguntou depois de um tempo, olhando mais intensamente para a mulher.

-Oras, que rudeza a minha. Sou Elizabeth Hart. – estendeu uma mão para ele e com muita dificuldade Harry conseguiu erguer o braço e cumprimentar a mulher.

-Harry Potter. – respondeu, sentindo-se estranhamente aliviado quando não recebeu aquela famosa olhada direta para a cicatriz em sua testa.

-Bem, senhor Potter, bem vindo a Refuge. Eu sinceramente espero que o senhor se recupere logo. Enquanto estiver aqui eu estarei te ajudando nesse processo. – sorriu para ele de uma maneira afetuosa, como as vovós de livros infantis velhos que ele leu de Duda.

-Obrigado sra. Hart. – disse sinceramente, se sentindo um pouco mais confortável na presença da senhora, diferente de quando estava na presença do Dr. Hart. Era difícil, nos poucos minutos que ficaram frente a frente, olhar para o médico e não esperar uma tirada sarcástica vinda da boca dele.

-Me diga uma coisa senhor Potter, o senhor não tem ninguém para contatar, nenhum conhecido, alguém que possa estar preocupado com você? – Harry enrijeceu um pouco. Ter ele tinha, tinha Hermione, pois somente de maneira trouxa que conseguiria contatar alguém para avisar ao Departamento de Mistérios que ele estava vivo. Mas a questão era que só de pensar em ligar para a morena, já poderia sentir a dor de cabeça chegando diante do sermão que ouviria dela.

-Na verdade eu tenho. – disse com pesar e sra. Hart sorriu, prontamente providenciando um aparelho de telefone para o rapaz. Resignado, Harry pegou o aparelho e discou o número conhecido.


Hermione Granger não era uma mulher extremamente paciente e isso era um fato que qualquer um que a conhecia sabia muito bem. Apesar de ser uma das bruxas mais brilhantes da atualidade, uma cientista especializada no ramo de Fusão Mágica, ainda sim ela era muito arredia e com um temperamento difícil. Se não fosse pelo seu brilhantismo com certeza o seu superior já a tinha demitido há muito tempo. E, nesse momento, a Dra. Granger estava mostrando o quão estressada era pois não parava de caminhar de um lado para o outro dentro de uma das salas de acesso público do Departamento de Mistérios.

Uma das portas da sala retangular se abriu e a mulher ergueu os olhos ansiosos, vendo um homem alto e ruivo sair de dentro da porta e caminhar até ela. Mal ele aproximou-se da morena e essa já estava na sua frente, o sacudindo intensamente pelos ombros e exigindo respostas imediatas do Inominável.

-Onde ele está Ronald? – gritou dentro da recepção do Departamento e recebeu um olhar torto da secretária que lá estava e que por muitas vezes havia pedido a mulher para se sentar.

-Eles ainda estão procurando. Veja pelo lado bom Mione, se ele estivesse morto já estaríamos sabendo. – respondeu calmamente e Hermione quis estapear o melhor amigo. Como ele poderia estar tão calmo quando a terceira parte do famigerado Trio de Ouro da Grifinória estava desaparecido há uma semana?

-Mas ele pode estar ferido, preso e sendo torturado por um Comensal. Pode estar perdido, desmemoriado, qualquer coisa…

-HERMIONE! – Ron gritou, agora ele sacudindo a mulher para ver se ela parava com o falatório histérico. –Ele é um dos melhores do Departamento. Ele está bem e com certeza vai entrar em contato a qualquer momento, basta esperar. – mal terminou de falar e o celular de Hermione começou a tocar intensamente. A mulher rolou os olhos, querendo jogar o aparelho pela janela. Se fosse o Dr. Crowe, um sujeito que estava há semanas tentando levá-la para jantar mesmo depois de ter recebido vários não's na cara, com certeza ela amaldiçoaria o homem via linha telefônica.

-O que é? – respondeu grosseira e uma voz hesitante começou a gaguejar do outro lado da linha.

-M-M-Mione? – perguntou em um tom mínimo e os olhos da mulher se arregalaram, para depois se estreitarem significativamente.

-HARRY JAMES POTTER, ONDE DIABOS VOCÊ SE METEU? – Harry encolheu-se contra os seus travesseiros do outro lado da linha e Elizabeth ergueu as sobrancelhas ao pé da cama dele, pois com certeza tinha ouvido o grito que saiu do telefone.

-Mione eu tive um imprevisto. – disse com a voz quase sumida e suspirou aliviado quando ouviu outra voz lhe responder no telefone.

-Harry? – Ron falou depois de ter arrancado o aparelho das mãos da morena que estava fumegando ora de raiva, ora de preocupação. –O que aconteceu? – perguntou tranqüilamente e Harry sorriu um pouco. Os anos como Inominável tinha estranhamente acalmado o fogo Weasley que Rony possuía, o que ocasionava muitas piadas de seus irmãos sobre a sua pessoa. Harry não sabia direito o porquê disso ter acontecido, mas suspeitava que era o resultado de muitas aulas de controle emocional e várias reprimendas da chefe deles dizendo que o agente Weasley era estourado demais.

-Eu… - começou incerto, mas ao ver a sra. Hart perambulando pelo quarto, ajeitando uma coisa aqui e acolá, o fez perceber que não poderia dizer muita coisa sem deixar escapar a verdade. –Anote aí Ron. Eu estou na cidade Refuge, na Irlanda. Estou na clínica… - torceu os lábios tentando se lembrar do nome da clínica.

-Whitinburg, querido. – sra. Hart ajudou solícita.

-Whitinburg. – respondeu para o ruivo que apenas acenava positivamente.

-Não se preocupe companheiro, estou indo para aí. E é melhor se preparar para levar bronca. – murmurou com um tom de pesar ao ver uma morena de cabelos cheios parada na sua frente e com as mãos na cintura esguia, batendo o pé nervosamente e lançando um olhar a ele que dizia claramente: "eu vou com você".

-A chefe está irritada comigo? – sussurrou quase inaudível.

-Quem disse que eu estou me referindo a chefe? Falo da Mione. – e sorriu para a mencionada cuja expressão ficava mais feia a cada segundo. –A gente se vê companheiro. – e desligou antes que Harry pudesse falar qualquer coisa e antes que Hermione tomasse o telefone das mãos dele e continuasse o esporro.

-Seus amigos, querido? – perguntou a sra. Hart quando Harry colocou novamente o telefone no gancho. Ele apenas assentiu positivamente com a cabeça e viu a senhora sorrir. –Eles estão vindo para cá? – novamente um aceno positivo. Elizabeth sorriu mais ainda e pegou uma guloseima de dentro da cesta e ofereceu ao rapaz. –Bem, com isso resolvido, que tal comer um pouco. Precisa se alimentar para poder se recuperar mais rápido. Elliot é um ótimo médico, - a expressão dela ficou extremamente orgulhosa. – mas não faz milagres. – e deu uma suave risadinha, entregando para ele a comida. Harry apenas deu de ombros e soltou um suspiro resignado. O jeito era esperar e deixar as coisas acontecerem e se preparar para o furacão que seria Hermione Granger.


O ônibus parou na rodoviária de Refuge e seus poucos passageiros desembarcaram do veículo, rapidamente encontrando amigos e conhecidos na plataforma e que vieram lhes dar as boas vindas. Um casal desceu do ônibus, olhando ao seu redor com extremo interesse, principalmente o homem ruivo que acompanhava a jovem mulher de cabelos castanhos cheios. Nunca tendo viajado em um ônibus trouxa em sua vida, Ron achava fascinante o fato de que o veículo não andava a mais de 80 km por hora e realmente desviava das coisas e não o inverso.

-Vamos Ronald. – Hermione segurou na manga do casaco do amigo, o puxando para dentro da rodoviária enquanto o ruivo carregava as únicas duas malas que os dois tinham trazido. Assim que souberam da localização de Harry rapidamente o rapaz informou ao superior deles sobre o agente perdido e pediu autorização para ir atrás dele. Porém, o que seria uma simples missão de busca tornou-se um martírio quando Hermione apareceu cedo pela manhã na porta de seu apartamento com a mala arrumada e dizendo enfaticamente que iria com ele. Resignado, ou ruivo teve que alterar todo o seu modo de viagem, conhecido apenas pelos Inomináveis, e optou por uma chave de portal até Dublin e um veículo trouxa até essa tal de Refuge.

-Eu estou indo, eu estou indo. – suspirou diante da impaciência dela. Não era a toa que ainda estava solteira. Hermione era uma mulher bonita, mas a pessoa tinha que ser tão ou mais cabeça dura do que ela para poder agüentá-la. Pararam na entrada da rodoviária, olhando ao seu redor em busca de alguma direção. Hermione soltou um longo suspiro e pegou novamente na mão de Ron, o levando para fora do lugar e atravessando a rua com ele, parando em uma bela e conservada praça onde crianças brincavam sob os olhos atentos das mães. Decidida, a morena soltou-se do ruivo e caminhou até uma das mulheres que estava sentada no banco da praça, conversando com outras senhoras.

-Com licença? – chamou educadamente enquanto Ronald parava ao seu lado, olhando com muito interesse a cidade ao seu redor. –Onde fica a Clínica Withinburg? – sorriu e a mulher ergueu uma sobrancelha para a jovem, a olhando de cima a baixo. A morena gritava "garota de cidade grande" por cada poro do corpo. Mas não estranhou muito. Deveria ser uma turista, ou alguém visitando algum turista internado na clínica.

-Basta descer a rua principal minha jovem. É um grande prédio branco, o maior que tem no centro da cidade, depois da Prefeitura. – Hermione sorriu e agradeceu a mulher, arrastando um Rony rua abaixo.

-Quer ir devagar Hermione, creio que a clínica não vai sair do lugar.

-Rony, você não parou para pensar que se Harry está lá é porque ele está ferido? – continuou resmungando enquanto levava o amigo pela mão, atraindo a atenção daqueles que passavam por eles.

-E eu também conclui que já que ele estava forte o suficiente para falar ao telefone, é porque ele está bem. – respondeu exasperado, rolando os olhos azuis. A jovem ainda não se conformava com o fato dos amigos terem escolhido carreiras tão "perigosas" para seguir. Na opinião do jovem Weasley carreira perigosa era aquela que a mulher seguia. Afinal, ela criava e testava novos feitiços. Quer coisa mais perigosa do que isso? Vai que ela mistura acidentalmente um avada kedrava com um cruciatus? Com certeza iria sair uma coisa bem dolorosa dessa combinação.

-Chegamos. – quase tropeçou quando a jovem parou abruptamente em frente a um largo prédio de três andares onde na fachada estava escrito o nome da clínica. Rapidamente entraram e se dirigiram a recepção, onde uma jovem estava atrás do balcão conversando com uma enfermeira. –Com licença. – chamou e as duas mulheres se viraram em direção aos recém-chegados. –Estamos aqui para visitar um paciente. – pediu Hermione.

-Nome, por favor? – perguntou a recepcionista, virando-se para o computador ao seu lado.

-Harry Potter. – declarou e as duas mulheres imediatamente olharam melhor para os recém-chegados. Então eles conheciam o estranho que apareceu subitamente ferido e usando roupas e pertences esquisitos? Mas, os olhando atentamente, eles pareciam normais.

-Por favor, me acompanhem. – falou a enfermeira, dando as costas para o casal e entrando em um corredor paralelo. Ron e Hermione deram de ombros e seguiram a mulher até a porta do quarto 102. –Senhor Potter? – a mulher chamou enquanto entrava no quarto. –O senhor tem visitas. – e cedeu passagem aos dois estrangeiros.

Harry, que estava lendo uma revista trazida pela sra. Hart, ergueu os olhos da matéria que lia e abriu um sorriso para os dois melhores amigos. Rapidamente Hermione cruzou o quarto em duas passadas e abraçou com força o rapaz que estava deitado na cama, fazendo esse soltar um doloroso grito de protesto.

-Devagar senhorita, as costelas dele ainda estão cicatrizando. – advertiu a enfermeira, afastando a mulher do paciente e depositando uma mão na testa dele, medindo a temperatura. –Parece que o senhor está um pouco quente, sr. Potter. – declarou, tirando um termômetro do bolso e o colocando sob a língua do rapaz. –Informarei isso ao Dr. Hart. Volto em alguns minutos. Não se exceda. – falou em um tom firme e saiu do quarto. Assim que a mulher fechou a porta, Hermione voltou-se para o amigo com uma expressão extremamente desgostosa e Harry encolheu-se na cama.

-Sinceramente Potter, você quer me matar do coração, não é mesmo? – falou com uma voz arrastada e as mãos na cintura esguia, enquanto batia a ponta do pé no chão azulejado demonstrando que estava extremamente irritada diante da preocupação que ele a fez passar.

-Mione… - conseguiu dizer por entre a língua presa com o termômetro.

-Não fale! – comandou a mulher e Ron, atrás dela, deu um sorriso simpático para o amigo e parceiro.

-Como você se sente Harry? – perguntou, tentando livrar o moreno de um tremendo sermão e esse sorriu agradecido para o amigo.

-Bem. – a porta do quarto novamente se abriu depois de um longo silêncio entre os três amigos e, esperando ver a enfermeira que tinha saído de volta, Ron e Hermione se surpreenderam ao ver um rapaz loiro, de jaleco branco, que terminava de retirar umas luvas de borracha e as colocar no bolso do uniforme.

-Lucy me disse que o senhor está com febre, sr. Potter. – caminhou inabalado até Harry, tirando o termômetro da boca dele e não reparando nos olhares estupefatos sobre a sua pessoa. –Trinta e nove. Está mesmo alta. Deve ser efeito colateral dos analgésicos, ou talvez alguma infecção interna por causa dos ferimentos. De qualquer modo farei uma coleta do seu sangue para ser examinado. – disse, sacudindo o termômetro e finalmente reparando nos outros ocupantes do quarto. –Ah, vejo que tem visitas. – sorriu para os dois jovens, com certeza da mesma idade que ele, pelo que via, mas esses pareciam muito abobados olhando para o seu rosto como se estivessem vendo um fantasma.

-Gente… - Harry os interrompeu, tirando primeiro Hermione do estupor. -… esse é o meu médico, Dr. Elliot Hart. Esses são Hermione Granger e Ronald Weasley, meus melhores amigos.

-Prazer. – Elliot sorriu, mas a tal da Hermione parecia hesitar em receber a mão que ele lhe oferecia enquanto o tal do Ronald ficava pálido a cada segundo que passava e balbuciava incessantemente uma única palavra:

-Ma-Ma-Malfoy?