O guia da coleira
por A. Black

(com comentários absolutamente necessários de T. Potter)


Tiago?

Ouvi as notícias, Andie... Então, você conseguiu... Está namorando o Ted... Pelo que Adriane contou para Marlene que contou para Sirius que contou para mim... Foi uma cena antológica, não? Você quase matou o professor Pokeby.

Eu tenho esse dom...

Se não me engano... Faltam poucas horas para começar o baile.

Eu sei...

E por que você não está se arrumando com as outras?

Só queria saber como você está.

Enfiado debaixo do cobertor, tentando me sufocar com o travesseiro.

Ela não foi falar com você ainda?

Não. E nem vai falar. Acabou, Andie. Beco sem saída. Não há mais como voltar.

Eu não acredito... Isso não é justo!

Esqueça isso, Andie. Agora, vá se arrumar para o baile. Ted merece depois de todas essas confusões...

Você não vai ao baile?

Por que eu deveria ir?

Tudo bem então. Eu falo com você mais tarde.


Capítulo 05: Dança comigo


- Lílian... Nós podemos conversar?

A ruiva levantou a cabeça, me encarando com uma expressão muito parecida a que eu vira no rosto de Tiago semana passada, em nossa última aula de dança. Aquilo também não estava fazendo bem a ela. Só que, conhecendo a fama da moça à minha frente... Ela não daria o braço a torcer se não fosse chamada à razão.

E, naquele dia,EU seria a voz da razão.

- Claro, Andrômeda.

Ela retirou os livros que ocupavam a cadeira ao seu lado na biblioteca e eu me sentei.

- Como foram os N.I.E.Ms? – eu perguntei, sem saber exatamente como começar a conversa.

Ela respondeu com um sorriso cansado.

- Não foram o bicho de sete cabeças que eu tinha imaginado que seria. Na verdade, acho que vou passar em tudo com louvor.

- Na verdade, você vai ganhar uma medalha de melhor estudante essa noite no baile. – eu completei, me recostando na cadeira.

Lílian piscou os olhos, confusa.

- Medalha?

- Adriane faz parte da comissão de formatura. Ela me contou.

Lílian deu um sorriso de lado, como se achasse aquilo uma idiotice, e se concentrou no tampo de madeira da mesa da biblioteca.

- Pensei que você ia dar pulos de alegria quando soubesse. – eu observei após alguns instantes de incômodo silêncio.

Ela deu de ombros.

- Talvez todo mundo tenha essa imagem um tanto distorcida de mim, achando que eu só vivo para estudar e adoro tirar notas altas. – ela respondeu, baixinho – Mas a verdade é que eu me esforcei tanto por muitos motivos alheios ao simples desejo de ser a melhor ou qualquer coisa do tipo.

Estreitei os olhos. Eu nunca tinha sido exatamente uma amiga íntima da Lily. Basicamente, o que tínhamos em comum era o fato de termos os marotos como amigos. Isso nos tinha aproximado já quase no final do sétimo ano, quando ela começou a sair com Tiago.

Foi nesse momento em que eu me lembrei de uma conversa que Tiago tinha tido comigo há muito tempo, depois de uma confusão que minha querida irmã Bellatrix fez por causa de umas fotos do Snape... Eu nunca entendi muito bem o que foi aquilo, mas...

"- Então, você finalmente conseguiu sair com a ruiva... O que teve que fazer para realizar essa façanha?"

Tiago estava sentado sozinho sob uma das árvores à beira do lago, jogando pedrinhas cada vez mais longe para vê-las quicar na água. Eu me joguei ao lado dele, repousando as mãos na barriga e ele me respondeu com um sorriso cansado.

"- Nem queira saber, Andie... Nem queira saber..."

"- E ela é realmente tudo o que você pensou que fosse? Espero não ter se desencantado depois de tanto tempo correndo atrás dela..."

O sorriso dele dessa vez foi bem mais autêntico. Os olhos dele brilhavam quando ele se virou para mim.

"- A Lily é muito mais do que a gente imagina que ela seja... Quando você penetra naquele encouraçado que ela teceu ao redor dela, percebe que a garota mal humorada, sempre com o nariz arrebitado dentro de um livro empoeirado na verdade não existe. Ela só faz tudo isso para se defender..."

"-Defender?"

"- A Lily é mais frágil do que aparenta ser. Embora finja não se importar com aquilo que os ditos 'sangue-puro' dizem sobre sua origem trouxa, ela se esforça de modo quase sobre-humano para provar que pode ser tão boa quanto qualquer um de nós... E, muitas vezes, acaba sendo melhor..."

Naquela época, eu não tinha entendido muito bem o significado dessas palavras, mas, ao ver a face de Lílian Evans à minha frente, dando de ombros ao ser informada que vai ganhar uma medalha por ter sido a mais exemplar estudante do nosso período aqui em Hogwarts... Eu compreendi bem o que Tiago tinha querido dizer.

- De qualquer maneira... – eu recomecei, um tanto receosa por saber que estava pisando em terreno minado (adoro essas expressões que aprendi nas aulas do Ted...) – Você deveria estar pelo menos um pouco alegre com a notícia, não?

- Eu deveria? – ela me perguntou, séria.

Assenti, sorrindo. Pelo rumo que a conversa estava tomando e pelo tom que Lílian usava, acredito que até ela mesma já tinha percebido que tinha feito uma grande burrada.

- Sabe, o Tiago também não estava muito animado hoje...

Os olhos dela imediatamente se acenderam.

- Onde você o viu?

- Eu não o vi hoje. Ele não sai do dormitório desde que as provas terminaram. Sirius me contou que está trazendo comida para ele da cozinha porque, se for pela vontade de Tiago, ele morre de fome. Mas eu estive com ele semana passada, dando aulas de dança...

Lílian meneou a cabeça, sorrindo de leve.

- Seu amigo é muito dramático.

- Se a pessoa que eu amasse dissesse para mim que nunca mais queria me ver, eu faria o mesmo. – respondi um tanto sem pensar.

Ela abriu um pouco mais o sorriso.

- Você também é muito dramática. Creio que entrará para o folclore de Hogwarts a maneira como sua prova de Estudo dos Trouxas terminou.

Cocei o queixo, sentindo minhas bochechas queimarem de leve.

- Bem, assim, é que...

- E que história é essa de aulas de dança?

Eu sorri, agradecida pela mudança de assunto.

- Tiago estava desesperado para aprender a dançar de verdade para não fazer feio com você no baile.

Ela se levantou, o rosto um tanto rosado e os olhos brilhando de uma maneira muito diferente da que eu a havia encontrado.

- Tudo bem, Andie. Eu já entendi o recado. Não se preocupe, eu já tinha tomado uma decisão acerca desse assunto.

- É uma boa decisão? – eu perguntei, me levantando também – Você não vai se arrepender dela, não é?

Lílian deu de ombros.

- Acho que a hora dos arrependimentos já passou há um bom tempo.

E, com essa frase enigmática, ela simplesmente puxou os livros que tinha colocado sobre a mesa e deixou a biblioteca. Lílian é uma pessoa estranha. Se as pessoas me acham contraditória, o que diriam depois de uma conversa daquelas com a ruiva?

Em todo caso, eu fiz minha parte. Agora era melhor eu voltar para a minha torre e começar a me arrumar para o baile. E também começar a me preparar psicologicamente para o choque que seria quando toda a família estivesse aqui...

Afinal, hoje se formam TRÊS Black... Eu, Sirius e... Bellatrix...

Por que eu tenho a ligeira impressão de que essa noite vai ser muito divertida?


- Você tem certeza que não vai ao baile? – Remo perguntou, segurando uma toalha no braço e olhando para mim preocupado.

Pedro tinha acabado de sair do banheiro e agora seria a vez de Remo. Sirius tinha sido sorteado por último – ele e Remo tinham tirado a sorte no par ou ímpar enquanto Rabicho simplesmente escapava para o banheiro - e decidido usar uma das passagens secretas para o banheiro dos monitores e a qualquer momento estaria de volta.

- Pra quê, Aluado? Meus pais não vão estar lá... Eu sou o último Potter da família. Não há nada de particularmente interessante para mim lá embaixo.

Remo suspirou em resposta. Nesse momento, Sirius entrou no quarto, já arrumado e com os cabelos ainda molhados.

- Boa noite, rapazes! Prontos para a festa?

- Você está muito animado para o meu gosto... – Remo observou, cruzando os braços – O que andou aprontando?

- Por que eu contaria para você? – Sirius perguntou, sorrindo.

- Talvez por sermos uma confraria de malfeitores e, portanto, merecemos alguma confiança da sua parte. Mesmo porque, se você não contar as imbecilidades que apronta, não podemos livrar o senhor das enrascadas em que costuma se meter com tanto entusiasmo.

- Eu? – Sirius respondeu, apontando para o próprio peito dramaticamente – Calma aí, Aluado, não estou aprontando nada! Além disso, eu não confio em ninguém mais do que em mim mesmo. Afinal, eu sou o melhor!

- Seus ataques de modéstia são tão consoladores, Almofadinhas... - Remo observou, meneando a cabeça.

Sirius apenas respondeu com uma de suas risadas caninas, jogando-se na cama dele enquanto Remo entrava no banheiro. Eu me arrumei no travesseiro, olhando para meu caro Almofadinhas, que se ajeitava entre os muitos travesseiros que enchiam a cama dele.

- Então... Será que nem eu mesmo vou poder saber o que você está aprontando?

- Estou pensando em ajudar a Andie... Sabe como é, acho que ela não ia gostar muito de apresentar o namorado à nossa querida família... É segredo, mas, se você for ao baile, vai poder assistir de camarote. – Sirius respondeu, olhando para mim com certa ansiedade.

- Então acho que vou ter que saber dos detalhes amanhã pelo Remo.

Depois dessa resposta, o dormitório ficou em silêncio e eu fechei os olhos, começando a me sentir um tanto sonolento. Acabei caindo no sono e comecei a sonhar com uma certa ruiva... Afinal, se eu não podia tê-la na vida real, pelo menos nos sonhos eu tinha que ter alguma compensação, não?

- Tiago, a Lily está na porta. - eu ouvi Sirius murmurar junto da minha cama.

Eu já tinha experiência suficiente com Almofadinhas para saber o que aquilo significava. A velha técnica de acordar o Pontas...

- Eu não caio mais nessa, Almofadinhas. - eu respondi, virando-me para o outro lado, sonolento.

- É uma pena, porque eu realmente estou aqui desta vez. Mas, se você prefere dormir... - eu ouvi a voz da minha ruivinha e imediatamente me sentei na cama, encontrando-a encostada ao umbral da porta.

- Li-lily?

Ela deu um passo para dentro do quarto e eu percebi que ela já estava usando o vestido de baile.

- Sirius, você pode nos dar licença? - ela perguntou com a voz suave, como há tempos eu não a ouvia fazer.

Resmungando, Almofadinhas passou por ela.

- Essa pouca vergonha... Cadê um monitor quando a gente precisa deles? Não se pode mais ter privacidade por aqui... Vocês são muito egoístas, sabiam?

Lílian apenas sorriu, fechando a porta após a partida de Sirius. Ela me encarou por alguns instantes e se aproximou da minha cama. Eu, por minha vez, me sentei, tentando não parecer um completo idiota por conta do belo pijama com estampa de pelúcios.

- Por que você ainda está enfiado nessa cama? Não vai se arrumar para o baile?

- Por que eu deveria me arrumar? Não é suficiente você ter acabado comigo? Ainda quer que eu vá assistir...

- Eu estava conversando com a Andie hoje à tarde... – ela me interrompeu – Ela me fez perceber algumas coisas bem interessantes.

Eu fiquei quieto, emburrado no meu canto. Ela se sentou na beirada da cama, bem perto de mim, e apertou minhas mãos de leve.

- Eu sinto muito per ter sido tão dura com você. Eu estava estressada com os exames e, mesmo que estivesse realmente brava com você... Bem, quando eu aceitei sair com o senhor Tiago Potter, aceitei também o senhor Ego de Tiago Potter e o senhor Confusões de Tiago Potter.

- Devo me sentir traído por que, ao mesmo tempo em que você estava comigo, estava com o senhor ego e o senhor confusões?

Lílian revirou os olhos e eu arrisquei um sorriso. Mas logo fiquei sério de novo.

- Bem, isso não faz diferença, não é verdade?

- Faz sim. – ela respondeu – Em primeiro lugar, eu quero pedir desculpas.

- Já está desculpada. Nem precisava vir aqui para isso. Eu nunca conseguiria ficar com raiva de você.

Ela sorriu e se debruçou ligeiramente sobre mim, até ficar com o rosto perigosamente próximo ao meu.

- Em segundo lugar... – ela respirou fundo, como se medindo as palavras que estava para dizer – Você quer namorar comigo?

- Se eu quero... Se eu quero namorar com você? – senti meus olhos se estreitarem, começando a achar que ainda não tinha acordado – Você está brincando comigo?

Os lábios dela agora estavam a poucos milímetros dos meus. Era raro Lílian tentar me provocar daquele jeito, mas eu decidamente adorava quando ela fazia aquilo...

- Eu pareço estar brincando? – ela murmurou com a voz rouca.

Eu sorri, passando a mão pela nuca dela.

- Definitivamente, não...

É engraçado com essa maluca consegue me levar do total desespero para a completa felicidade. Eu ainda podia me lembrar da noite em que finalmente nos acertamos, quando eu a puxei no meio de um corredor vazio e me tranquei com ela numa das muitas salas escuras que existem nesse castelo para deleite de pessoas como eu... Quando tanto eu quanto ela confessamos que perdíamos a cabeça sempre por causa do outro...

Acabo de chegar a uma conclusão interessante... A gente definitivamente se merece...

Eu a envolvi pela cintura, puxando-a para cima da cama, fazendo com que ela se deitasse do meu lado. Considerando que ela estava arrependida e tinha acabado de me pedir desculpas, talvez eu pudesse me aproveitar um pouquinho das disposições de ânimo dela e...

- O que vocês pensam que estão fazendo? Não têm vergonha, não? Já pensaram se entra uma criança inocente aqui dentro? O que ela iria pensar?

Eu rapidamente me aprumei na cama, dando de cara com Remo, em pé no meio do quarto, as mãos na cintura, nos olhando com um sorriso divertido. Lílian demorou um pouco mais para se sentar, mas, quando o fez, tinha um sorriso ainda maior do que o do meu amigo estraga-prazeres.

- A não ser que você esteja se referindo a si mesmo, Remo, eu não estou vendo nenhuma criança inocente por aqui. – ela respondeu, se levantando e alisando meticulosamente a saia do vestido antes de se voltar para mim – Você tem quinze minutos para se aprontar. Eu vou estar esperando lá embaixo.

Eu apenas assenti, minha boca aberta demais para fazer qualquer comentário pernicioso à minha saúde. Remo apenas riu, meneando a cabeça, talvez chegando à mesma conclusão que eu chegara minutos antes... Eu e Lily definitivamente nos merecemos.

Eu já estava deixando meus cobertores para me pôr em pé e começar a cumprir as ordens da minha doce e tirânica namorada quando ela pôs novamente a cabeça para dentro do quarto.

- E não precisa tentar arrumar o cabelo. Se não vamos ficar por aqui a noite toda.

- Eu não reclamaria de passar a noite toda aqui se fosse com você. – respondi, sorrindo.

Remo passou pela porta, suspirando.

- Por favor, poupem-me dessa cena...

Lílian apenas riu, piscando o olho e fechou novamente a porta. Ótimo, eu tenho quinze minutos. Por onde começo?


- Boa noite, Lene. – eu cumprimentei com a cabeça – Andie.

Minha prima e minha acompanhante apenas sorriram para mim, meneando a cabeça. Estendi o braço para Marlene, que apenas arqueou a sobrancelha e voltou-se para Andrômeda.

- Acha mesmo que é seguro para a minha saúde acompanhar esse cavalheiro ao baile?

Andie olhou para o teto, pensativa, embora tivesse um risinho de galhofa nos cantos dos lábios. Eu não acredito que elas estão rindo de mim? Onde foi para meu respeito próprio?

- O que me diz, Sirius? – minha prima voltou-se para mim com um sorriso – Promete que vai cuidar direitinho da minha amiga?

- Não é muito difícil de prometer isso. Duvido que Marlene vá reclamar de alguma coisa quando a noite acabar. Muito menos você, Andie - completei, piscando o olho.

As duas coraram, certamente pensando besteira. Vê se pode! Eu sou um santo!

- Sirius, se você pensa que vai... – Marlene começou com as mãos na cintura.

- Eu vou me comportar, Lene. – respondi, piscando o olho – Prometo que você não terá nenhuma reclamação a fazer ao final do baile. Eu vou ser um cachorrinho muito obediente.

Assenti com a cabeça para reforçar minhas palavras e finalmente Marlene, ainda um tanto relutante, aceitou o braço que eu oferecia.

Eu estava sendo absolutamente sincero. Marlene não teria absolutamente nada para reclamar de mim. Outras pessoas, porém...


Eu já estava devidamente posicionado de acordo com as ordens de Sirius, entre o palco e a mesa reservada para a família Black. Magdalen ainda não tinha chegado, então, por hora, eu só tinha a companhia de Gorgon, que se remexia inquieta em meu bolso, como se ansiosa pela hora da ação.

Sorri, feliz, enquanto me servia de bolinhos de queijo. A banda que fora contratada para animar a festa já estava tocando e alguns pares ocupavam a pista. Naquele momento, Bellatrix Black e o namorado dela, Lestrange, entraram no salão e se encaminharam para a mesa onde o restante da família do Almofadinhas estava reunida.

Os pais de Sirius estavam lá. Os pais de Andrômeda, Bellatrix e Narcisa – irmã caçula das duas formandas - também. Assim como os avós deles. E Lúcio Malfoy e o pai dele. Enfim, todas as belas cobras, reunidas num único lugar.

Aquilo ia ser divertido... Muito divertido...

- Boa noite, Pedrinho. – a voz de Magdalen me arrancou dos meus pensamentos e eu sorri para ela.

- Ótima noite, Mag... Ótima noite...


Eu juro que se Sirius Black me arrastar para um armário, eu mato ele! Quer dizer... Primeiro eu tenho um ataque de claustrofobia, depois mato esse maroto irresponsável. Onde ele pensa que está me levando?

- Sirius, o salão principal é pra lá! – eu apontei pela décima vez para a direção contrária a que estávamos indo.

- Eu sei, Lene.

- E para onde você acha que está me levando?

- Não se preocupe, eu fiz uma promessa, lembra? – ele sorriu daquela maldita maneira que faz todo coração fraco se derreter. Especialmente o meu – Nós só estamos indo ver se uma certa encomenda já chegou.

- Encomenda?

Ele parou diante de um quadro de frutas – uma natureza morta, se muito me engano – e fez cócegas na pêra, que riu pouco antes do quadro abrir, revelando uma passagem.

Olhei curiosa para o interior do aposento que se revelava aos meus olhos.

- Sirius Black, o que você está pretendendo fazer na cozinha?

Ele sorriu. De novo.

- Você vai ver, Lene. Pode deixar que você vai ver...


- Remo, você está se sentindo bem? – Hestia me perguntou pela terceira vez.

Assenti, afrouxando ligeiramente a gravata. Finalmente chegamos ao salão principal. Observei as várias mesinhas dispostas em torno da pista de dança. Perto do palco, Pedro fez um sinal para mim.

Quase arrastando a pobre Hestia, que não tinha culpa nenhuma do que estava para acontecer, eu me aproximei da mesa onde meu caro amigo estava com Magdalen.

- Pedrinho, o Sirius já apareceu?

Ele meneou a cabeça.

- Ainda não.

Desabei na cadeira, um tanto atordoado.

- Merlin, que não seja tarde demais...

Olhei para a taça vazia à minha frente e a inclinei de leve. Um líquido dourado a preencheu quase imediatamente e eu afundei na cadeira.

- Acho que é tarde demais...

Pedrinho sorriu.

- Firewhisky?

Eu experimentei um gole para confirmar minhas suspeitas. Senti todas as minhas entranhas queimando com a bebida e me recostei na cadeira, suspirando. Firewhisky é uma bebida ilegal em Hogwarts. Nem mesmo para a formatura ela tinha sido liberada. A própria professora McGonagall redigira a proibição.

De acordo com ela, firewhisky subia muito rápido à cabeça... E ela não queria confusões na festa. Pobre Minnie... Acho que ela se esqueceu que está lidando com os marotos...

Bem, é como se diz por aí... Já que estamos no inferno, abracemos o capeta!

- Um brinde pessoal! – eu propus, levantando minha taça.

Acho que Minnie estava certa... A coisa já subiu à cabeça...


- Você está atrasado cinco minutos. – eu observei sem sequer me voltar.

Ouvi os passos que desciam a escadaria do dormitório dos meninos aproximarem-se da poltrona em que eu estava sentada e, em seguida eu senti todo o meu fôlego desaparecer quando Tiago simplesmente caiu sentado no meu colo, me abraçando pelo pescoço.

- Você está tentando me matar? – eu perguntei com a voz abafada, tentando erguer a cabeça para respirar.

Tiago simplesmente riu e escorregou para o assento ao meu lado, mantendo um braço sobre os meus ombros.

- Relaxe um pouco, senhorita Evans. Vai acabar tendo um infarto antes do tempo. Foram só cinco minutos...

Eu revirei meus olhos, mas sorri. Infelizmente, esse já é um movimento involuntário quando eu estou com Tiago.

- Certo, tudo bem, eu sou mesmo um pouquinho exagerada... – resmunguei brincando enquanto me levantava – Podemos ir agora?

Tiago me puxou pelo pulso, fazendo com que, dessa vez, eu caísse sentada no colo dele.

- Só um pouquinho exagerada? – ele perguntou, aproximando o rosto do meu.

Senti o tradicional calor no pé da barriga quando ele me provocava daquele jeito. Antes que eu pudesse responder, no entanto, ele tirou alguma coisa do bolso e puxou minha mão para ele.

Ele enfiou o mesmo anel que eu jogara aos pés dele há algumas semanas (eu sou mesmo uma pessoa horrível, não?) no meu anelar e me beijou suavemente, quase sem encostar os lábios nos meus.

- A partir de agora, a senhorita é minha noiva. – ele murmurou baixinho no meu ouvido, fazendo um carinho entorpecedor na minha nuca.

Não havia muita coisa a fazer além de fechar os olhos e deixar ele fazer o que bem entendesse... Como eu disse uma vez... Eu já tinha perdido completamente a razão por causa dele. E, pelo visto, o efeito tinha sido permanente...


Sirius, Marlene, Tiago e Lílian chegaram ao mesmo tempo aos portões de entrada do salão principal. Eu estava logo atrás, junto com Ted, ainda pensando se era seguro para ele entrar comigo no mesmo salão em que meus queridos parentes se encontravam.

Bem, na verdade, naquela hora, eu estava muito ocupada para pensar na minha família, mas ninguém precisa saber disso, não é mesmo?

Em todo caso, depois de intermináveis minutos de atividade intensa (e não me perguntem que atividade era essa que eu NÃO vou responder), eu decidi que não era justo passar toda a minha festa de formatura num corredor escuro por causa de certas pessoas extremamente preconceituosas.

Assim, arrastei Ted comigo para a festa. E, no momento em que meus olhos se acostumaram com a luz intensa do salão, eu fui brindada com a mais inesquecível cena de toda a minha vida.

Acabara de entender porque Sirius me dissera que eu não poderia reclamar daquela noite...


- Firewhisky? – eu perguntei, enquanto puxava Lily para se sentar, de novo, no meu colo.

Sirius sorriu, oferecendo uma taça à Marlene. Lily olhou para mim com a sobrancelha arqueada, mas depois de um dos meus olhares carentes, ela não ofereceu mais resistência e se deixou sentar.

Tudo bem que tinha cadeiras sobrando... Mas, depois de passar tantos dias longe dessa ruivinha, eu necessito de um suprimento reforçado de Lílian Evans. Então, eu prefiro que ela fique exatamente entre os meus braços, de onde não possa mais fugir. Nunca mais.

- Eu tinha pensado em contrabandear firewhisky para a festa... – eu observei, tomando um gole da bebida.

Sirius sorriu maliciosamente enquanto eu sentia o líquido descer queimando goela abaixo. Aquilo não era firewhisky normal... Havia alguma coisa errada com aquela bebida...

Quando ergui os olhos e dei de cara com o professor Slug sentado no colo da Minnie, eu entendi o que Sirius tinha feito. Quando Dumbledore, rindo e muito vermelho, tascou um beijo em Madame Pomfrey, então, até Lily, que tinha acabado de beber um gole da minha taça, me olhou um tanto divertida.

- Isso é alguma espécie de afrodisíaco? – ela perguntou para mim em voz baixa – Não é uma poção do amor, mas, se muito me engano, eu já vi uma coisa parecida com essa no estoque do professor Slughorn...

Eu apenas sorri em resposta.

- Seja lá o que for... Agora já era...


- Pedrinho... – eu sussurrei, observando Bellatrix por cima do ombro, tentando não notar os círculos que Marlene fazia com o dedo na minha perna – É a hora.

Pedro apenas sorriu e se levantou, pedindo desculpas à Magdalen e dizendo que tinha que ir ao banheiro. Foi então a minha vez de sorrir, e eu me recostei na cadeira, abraçando Marlene pelos ombros.

- Só mais um pouquinho, Lene, e depois podemos procurar um armário.

A respiração dela acelerou e eu senti os pêlos da minha nuca se eriçarem.

- Não ouse me levar para um armário. – ela respondeu, com os olhos faiscando.

Dois ratinhos passaram correndo por mim nesse exato instante. Eu observei o salão, notando que quase todo mundo a essas alturas estava se agarrando com alguém. Aquela, com certeza, seria conhecida como a festa de formatura mais "amorosa" de todos os tempos...

- Eu não te levo para um armário então. – eu respondi, tentando não notar os efeitos que a poção já estava começando a dar em mim.

Meus pais e meus tios tinham sumido há alguns minutos e eu me perguntava se minha doce mãezinha conseguiria dominar seus instintos mais primitivos depois de uma dose reforçada da minha mais recente aquisição.

Eu só tinha colocado um pouquinho da poção no firewhisky e entreguei para os elfos servirem. Naquela quantidade, tudo o que poderia acontecer era as pessoas ficarem um tanto calorosas e ultrapassarem a timidez. Só a mesa dos Black tinha recebido uma dose reforçada.

Não à toa, Bellatrix estava agora protagonizando um dos beijos mais... intensos que eu já presenciei. Se é que aquilo pode ser chamado de beijo e não de uma tentativa de antropofagia... Uma pena que não seja comigo, mas isso é um mero detalhe, já que eu realmente prefiro a companhia que está praticamente pulando no meu colo nesse exato instante.

Eu me levantei antes que pudesse me deixar levar pela "calorosidade" de Marlene. Nesse momento, as luzes da pista foram apagadas, deixando o salão numa penumbra extremamente convidativa.

- Vamos dançar!

Não apenas Marlene se levantou, como também Lílian, Tiago, Remo e Hestia, que estavam sentados à mesa, cada um mais vermelho e ofegante que o outro.

E, ao mesmo tempo em que entrávamos na pista, dois ratinhos subiam pelas pernas de Bellatrix e Rodolfo. Levantei a cabeça para a entrada e dei de cara com Andrômeda, que entrava de braço dado com Ted.

Pisquei o olho para ela, como se dissesse "caminho desimpedido" e ela me devolvei a piscadela, balbuciando alguma coisa que só fui entender no dia seguinte, quando ela veio me cumprimentar pessoalmente.

Belo trabalho.

E, se me permitem acrescentar... Um trabalho magnífico realmente... Afinal, não se poderia esperar menos de Sirius Almofadinhas Black...

You doing that thing you do!
Breakin' my heart into a million pieces
Like you always do.
And you, don't mean to be cruel.
You never even knew about the heartache
I've been going through.
Well I try and try to forget you girl
But it's just so hard to do.
Every time you do that thing you do!

Eu enlacei a cintura de Lílian com cuidado, trazendo-a mais para perto de mim enquanto rodopiava pelo salão, agora mergulhado na penumbra.

- Eu estou com calor. – ela resmungou baixinho, enquanto colocava os braços ao redor do meu pescoço.

- O efeito da poção não deve demorar muito mais a passar. – eu sorri – E, em último caso, eu conheço um ou dois lugares onde podemos resolver essa questão.

Ela arqueou a sobrancelha e meneou a cabeça. Apesar da penumbra, eu sabia que ela havia acabado de corar.

- Seria um grande desperdício das suas aulas de dança.

Foi a minha vez de ficar vermelho.

- Andie tem realmente a boca muito grande...

Lily sorriu.

- Estou honrada com sua preocupação em aprender a dançar para não fazer feio comigo.

- Pois é... Se você preferir, podemos começar um tango agora! E depois, uma salsa. E uma valsa. E…

- Eu já entendi… - ela respondeu, rindo.

É isso aí... Tudo acaba bem quando termina bem! E eu sou o cara mais feliz da face da terra!

I know all the games you play
And I'm gonna find a way to let you know
That you'll be mine someday.
Cause we, could be happy can't you see?
If you know me let me be the one to hold you
And keep you here with me.
'Cause I try and try to forget you girl
But it's just so hard to do.
Every time you do that thing you do!

Bellatrix caiu sentada no chão, a face muito vermelha, enquanto Rodolfo se contorcia em seu assento, tentando se livrar das duas coisas que tinham entrado por debaixo da sua capa.

Devo acrescentar que era realmente uma pena o salão estar na penumbra. Apenas as pessoas mais próximas da mesa dos Black assistiram Lestrange dançar como nunca um ser humano dançou antes.

Eu e Gorgon caímos da manga da camisa dele pouco depois da música ter começado. Considerando que, depois de toda aquela vergonha, aqueles dois provavelmente seguiriam o caminho da família e sumiriam a festa, eu mexi o focinho, indicando para Gorgon que devíamos voltar para os nossos lugares.

Cinco minutos depois, eu estava de volta à mesa em que Magdalen, sozinha, ainda me esperava.

- Hei, Pedrinho, vamos dançar!

E, antes que eu pudesse responder alguma coisa, ela saiu praticamente me arrastando para a pista.

I don't ask a lot girl but I know one thing's for sure.
It's the love that I haven't got girl.
And I just can't take it anymore.
Cause we, could be happy can't you see?
If you know me let me be the one to hold you
and keep you here with me.

- Então, Andie, quais são seus planos agora que está devidamente formada? –Ted me perguntou, colocando as mãos ao redor da minha cintura.

Ergui os olhos, pensativa, observando as estrelas que brilhavam no teto enfeitiçado de Hogwarts. Eu ia sentir um bocado de saudade de tudo aquilo...

- Bem, para começo de conversa, pretendo providenciar a papelada para o casamento.

- Casamento? – ele perguntou, divertido.

Assenti com a cabeça.

- E depois, vamos comprar um livro de astronomia.

Ted estreitou os olhos.

- Para que você quer um livro de astronomia?

- Meu nome será riscado da tapeçaria dos Black daqui a algumas horas, tão logo minha família chegue a Grimmauld's Place. Uma grande alegria para mim, se quer saber a verdade...

- E o que isso tem a ver com astronomia? – ele perguntou curioso.

- Apesar de não concordar com minha família em muitos pontos... Há uma tradição que eu gostaria de manter... – eu sorri, inocentemente – Já percebeu que todos os meus familiares têm nomes ligados a estrelas?

Novamente ele estreitou os olhos.

- Você não está querendo dizer que...

- Bem, se for um menino, eu estava pensando em Archnard... E, se for menina, que tal Ninfadora?

- Andie!

Cause it hurts me so just to see you go girl
Around with someone new.
And to find that you, you're doing that thing.
Every day just doing that thing.
I can't take you doing that thing you do.


Daqui a duas horas, estaremos embarcando pela última vez no expresso...

É, eu sei... Um belo final, não?

Andie, o que você aprontou com o Ted para ele ter saído do baile com os olhos vidrados?

Hum... Se você me contar o que estava cochichando para a Lily quando ela ficou não apenas vermelha, mas completamente roxa de vergonha, eu posso pensar em te contar.

Não posso... Segredo, sabe como é...

Tudo bem. Eu também não ia contar para você mesmo.

Andie?

O que é?

Você vai ser madrinha do meu casamento com a Lily. Junto com o Sirius.

Você a pediu em casamento?

Eu não pretendo deixar aquela doida escapar de mim de novo.

E ela aceitou?

E quem resistiria a mim? Em todo caso, eu vou ser seu padrinho de casamento e você vai ser madrinha do meu. Uma troca justa, não acha?

Com certeza. Esse é um ótimo final, não é mesmo?

Não apenas um ótimo final... É também um ótimo começo...

.FIM.


Terminou... HUAHUAHUAHUA... Eu confesso que me diverti um bocado escrevendo essa fic...

Vamos lá, pessoal, no coro: PARABÉNS PRA VOCÊ, NESSA DATA QUERIDA! MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDAAAAAAAAA!

BelleBelle, esse capítulo é especialmente em sua homenagem! Agradeça à sua mãe, que comentou no capítulo passado. E fala ela comentar de novo, ou ninguém mais ganha presente da tia Silver!

Vamos aos não-aniversariantes agora... Agradeço a todos vocês que leram e acompanharam a fic, que riram, que deixaram comentários, que ficaram tentando imaginar o que eu ia aprontar no próximo capítulo... Para todos vocês, eu tiro o chapéu e dedico esses meus surtos.

Beijo grande a até sexta, com capítulo novo de NdJ!

Silverghost.