Capítulo um - O palácio de Halcyon

A voz masculina gritando foi o que acordou Duo de seu sono profundo, "Adam, Adam, o que diabos você explodiu dessa vez? Eu senti o estrondo lá de cima." Houve um curto silêncio antes que o homem gritasse novamente em um japonês cheio de sotaque. "Adam, responda quando eu falar com você?" Duo cuidadosamente abriu um olho violeta, e então o outro. Ele estava na cama e nu. A cama estava limpa e cheirava, ele respirou fundo, a pólvora. De fato, o quarto todo fedia a pólvora e enxofre queimado. Ele tateou a cama e encontrou um outro corpo quente, um que agarrou seu pulso em um aperto esmagador. Seus olhos encontraram um par de intensos olhos cobalto que o incitaram a ficar calado. Típico, ele acordou em um lugar estranho com um homem estranho gritando e estava na cama com o soldado perfeito.

"Adam!" O homem gritou. Houve um período de silêncio, durante o qual Duo aproveitou a oportunidade para dar uma olhada pelo quarto. A cama na qual eles haviam acordado possuía postes em cada canto com um dossel e cortinas, e três das quatro estavam esticadas pela corrente de ar. Havia uma pequena janela com um vaso de bronze com flores, e a luz sugeria que era de manhã cedo. "Você está surdo novamente? Qualquer dia desses seu ouvido não volta ao normal."

"Você comprou pra mim." Um outro homem gritou. "Não ficou preto por causa da explosão, ficou?"

"Mas eu disse ouvido." O primeiro homem corrigiu. "Não brinco." Ele deu um pequeno suspiro, "o que você explodiu dessa vez?"

"Eu criei uma fenda temporal." O homem chamado Adam gritou com orgulho, "eu convoquei demônios do éter." Ouviu-se uma pancada de som arrastado.

"De novo, Adam!" O homem murmurou algo que Duo não conseguiu escutar.

"No outro quarto." Adam gritou, obviamente ele não percebia o quão alto estava gritando porque o estouro o havia ensurdecido. Aquilo havia acontecido a Duo uma ou duas vezes então ele compreendia perfeitamente. "Eles estavam inconscientes então eu os coloquei na cama. São apenas garotos, quão perigosos podem ser?"

O outro homem disse algo que soava muito como baka. Então a porta do quarto se abriu, e com alguns passos largos e firmes o homem cruzou o quarto e puxou a cortina aos pés da cama. "Acordem." Ele disse. Ele era um homem alto e largo com uma faixa branca em cada têmpora, que o faziam parecer um texugo; ele usava um uniforme preto com uma insígnia de prata no peito e uma aura de poder o envolvia, o que fez Duo se manter estático por um momento.

"Adam diz que vocês são demônios." Ele disse bruscamente, "que ele os trouxe da dimensão demoníaca. Isso é verdade?"

Foi Heero quem respondeu. "Somos viajantes." Ele disse, "estávamos no meio de uma explosão e acordamos aqui, não somos demônios." Ele sempre economizava nas palavras, e tinha que tomar cuidado com o que dizia, caso isso fosse uma armadilha da Oz querendo levá-los a sentirem um falso senso de segurança, para ver se eles revelariam ou não informações importantes. "Acho que esse tal de Adam nos salvou da morte iminente."

"Temos que agradecer por isso." Duo acrescentou, jogando sua trança por cima do ombro com um olhar de indiferença, uma mão prendia o lençol a seu ombro, Heero não tinha tal pudorem relação a sua nudez. "Se pudermos ter nossas roupas de volta, iremos embora logo."

"Onde vocês vão?" O homem perguntou, "Eu arranjarei transporte, esta não é a primeira vez que os experimentos do Adam têm conseqüências inesperadas ao dar errado. Sou Alister D'Cevni, Secretário Real, posso providenciar transporte até onde quiserem."

"Onde estamos?" Heero perguntou.

"Este é o palácio de Halcyon, na cidade de Dathyl dos Quebra-Mares¹ no país de Dathyl. Aonde precisam ir?" O homem estava tão sério que Duo soube naquele momento que aquilo não era uma cilada da Oz, ou, se era, o plano era enlouquecê-los. Não fazia o estilo da Oz brincar com suas mentes daquela forma.

"Precisamos chegar ao reino de Cinq." Heero disse, "o soberano de lá garantirá nosso retorno seguro. Se puder nos arranjar uma nave²"

O homem estranhou a palavra. "É algum tipo de magia demoníaca?" Ele perguntou. "Naveta² é uma peça de tear. Eu posso providenciar uma carruagem,

mas terei de consultar meu irmão Tobin sobre a localização do reino de Cinq, ele é muito mais viajado que eu; mandarei meu irmão Terenz com roupas, ele é médico e se certificará de que a interferência do Adam não fez mal nenhum a vocês."

"Se puder dar algo pra gente comer." Duo disse, "não sei do Heero aqui, mas eu tô a ponto de comer um cavalo."

O homem largo que havia se apresentado como Alister franziu a testa. "Não será problema, sinto muito, fui relapso em relação a minhas boas maneiras, apesar de ter me apresentado me esqueci de perguntar seus nomes. Acredito que o senhor seja Heero." Ele olhou para Heero; era culpa de Duo que ele houvesse deduzido aquele nome, "e creio que esta seja a senhora sua esposa."

Duo caiu na gargalhada enquanto Heero passou por sete tons de vermelho. "Isso tá tão errado." Ele uivou. "Primeiro de tudo e mais importante, ele me odeia, e b, eu não sou uma garota."

A expressão no rosto de Alister se endureceu. "Minhas desculpas, mestre." Ele deixou em aberto, esperando que lhe dissessem o nome.

"Duo Maxwell." Ele disse com orgulho, "mas a maioria me chama de Shinigami."

A palavra significava algo para Alister, pois ele franziu a testa. "Isso complica as coisas. Mandarei Terenz vir vê-los, e nossa governanta irá providenciar aposentos para sua estadia em Halcyon. Sugiro que não saiam andando por aí sozinhos."

"Isso é uma ameaça, Alister?" Heero perguntou, tentando parecer o mais ameaçador possível para alguém preso à cama por vergonha e com apenas um lençol para protegê-lo.

"Não, de maneira alguma, Mestre Heero, significa apenas que Halcyon é muito grande e labiríntica, guarda muitas memórias sombrias e eu não os quero perdidos em seus corredores quando os ofereci minha proteção." Ele se virou. "O que fez desta vez, Adam?" ele murmurou baixo.

"Não esqueça a comida." Duo o lembrou.

Heero caiu de costas na cama com um suspiro.

O homem chamado Alister era tão bom quanto sua palavra; em meia hora um homem alto e loiro apareceu com roupas, "não se incomodem comigo," ele disse, "Alister disse que vocês estavam me esperando, sou Terenz, o médico Real, vou só dar uma olhada em vocês, depois os deixo se vestirem e os guiarei às cozinhas, Rachel está fascinada com a idéia de que Adam tenha conseguido convocar demônios tão belos e então ela começou a cozinhar, ninguém cozinha melhor que a Rachel, embora eu não more em Halcyon quase sempre faço minhas refeições aqui."

Heero piscou ante a diarréia verbal, mesmo Duo em seus melhores dias não falava tanto assim. O homem não parou para respirar, apenas continuou e continuou e continuou. "Então, qual dos lindinhos é Heero," ele tinha o nome escrito na mão, "juro que se o meu Val pudesse ver vocês dois ele se plantaria à porta para ter certeza de que eu não os roubaria e fugiria para Duramatsen e faria os dois de escravos do meu prazer, mas amo muito meu Val então vocês podem ficar tranqüilos que eu não vou fazer isso, então Heero, se quiser colocar uma camisa eu posso te examinar e verificar se está tudo em cima e depois podemos ver sobre arranjar algo para vocês comerem, e vocês provavelmente estão exaustos."

"Uau." Duo disse, "você respira pelas orelhas?"

"Duo." Heero sibilou em ameaça, mas o estranho homem apenas riu.

"Sabe, todos perguntam isso, Braea, a Primeira Espada de Garvem, vive ameaçando cortar fora minha língua e fica hiperventilando quando estou por perto porque ele respira por mim. No fim acho isso muito engraçado, se não tivesse tantas pessoas determinadas a me manterem seguro tenho certeza de que seria mudo. Agora vamos, vocês dois, vistam alguma coisa enquanto eu preparo meu equipamento." Duo caiu na gargalhada e Terenz teve a educação de se parecer fingidamente ofendido. "Se continuar assim, jovenzinho, terei que mandar Grace e algo me diz que vocês não a querem examinando vocês." Os dois garotos empalideceram ante aquela possibilidade. "Agora venha, Hero, " ele não prolongou o e como deveria e Duo teve a distinta impressão de ter sido deliberado. "Vista a camisa e nós podemos acabar logo com isso."

Heero puxou a estranha camisa por sua cabeça e depois saiu da cama; ela chegava a seus joelhos cobrindo-o bem, exceto que a luz proveniente da janela fazia a camisa ficar transparente. Duo riu divertido ao puxar a segunda camisa sobre sua cabeça. "Adam disse pra pedir desculpas, mas as roupas de vocês estavam uma bagunça quando ele os encontrou, vocês estavam cobertos em algum tipo de fuligem e uma gosma clara e elas estavam esfarrapadas, então era mais fácil dar roupas novas a vocês, mas elas estão sendo remendadas. Achamos que vocês fossem querer ficar com elas, agora, Hero, se puder me dar sua mão." Heero cerrou os dentes.

"Terence," Duo pronunciou deliberadamente o nome de forma incorreta. "Se pronuncia Heero, você tem que alongar o e."

Terenz sorriu enquanto media o pulso de Heero, "agora ponha a língua pra fora." Heero o fez, ele pôs a mão na extensão de seu pescoço. "Algum desconforto?" Ele perguntou. Heero chacoalhou a cabeça. "Você está ótimo, agora venha você, Duo."

Duo saiu da cama e ofereceu sua mão ao doutor. "Cicatrizes interessantes." Ele disse, afastando a gola da camisa de Duo. "Nós vamos conversar sobre isso depois, elas são tão precisas que eu diria que foram feitas por uma vara de ferreiro ou um chicote quente. Agora ponha sua língua pra fora." Ele olhou a língua. Depois colocou a mão em seu pescoço. "Algum desconforto?" Ele perguntou.

"Bem, doutor, tá ventando um pouco debaixo desse vestido aqui, e isso me deixa meio nervoso." Duo respondeu com uma risadinha.

"Está com fome, Duo?" Terenz riu, Heero bufou, "e você dormiu pouco, aposto, e provavelmente está perdendo mais desse seu lindo cabelo que o normal. Bom, não é coisa pra se preocupar, vou falar para o Adam fazer alguma mistura para te ajudar com isso, ele é super saudável e você está apenas um pouquinho pálido, na verdade acho que sob estresse e possivelmente depressão, mas nada que um descanso não cure."

Duo olhou horrorizado para o homem. "E você adivinhou tudo isso só de olhar pra minha língua?" Ele perguntou.

"E suas cicatrizes, seu pulso está irregular e sua pele está viscosa, mas como eu disse, não há nada com o que se preocupar, agora vista alguma coisa, querido, e eu o levarei às cozinhas e darei de comer a esse saco sem fundo que é seu estômago. Tenho a impressão de que nossa Rachel vai alimentar vocês dois até que não consigam andar e eu ter que levá-los rolando até os quartos que a Dieina separou para vocês." Heero levou 0.2 segundos inteiros para que vestisse as calças justas de couro e começasse a vestir o pesado casaco de lã que haviam dado a ele, antes que Duo tivesse ajeitado as calças. "Eu amo seu cabelo." Terenz disse tocando a trança de Duo, "o meu não cresce assim, você precisa conhecer nossos outros irmãos, o cabelo do Tobin cresce assim, mas a mim sobrou essa coisa loira fofa, todos os meus irmãos são morenos mas eu sou loiro como um maço de trigo, não que eu fosse o único mas sou o único que restou." Ele se calou por um momento, e então se iluminou, "estão prontos? Se estiverem, levarei vocês às cozinhas, Alister os avisou para não saírem por aí sozinhos, porque Halcyon é enorme e seus caminhos nem sempre levam aonde deveriam? Vocês lêem? Alister me disse que vocês podem usar à vontade todas as instalações e a biblioteca em Halcyon é a melhor do mundo."

"Eu gostaria de usar sua conexão em linha³." Heero disse abruptamente.

Terenz testou as palavras, "conexão em linha?" Ele deu de ombros, "se tivermos uma você pode usá-la, mas não faço idéia do que seja isso. Um de vocês joga Lakros, há uma Liga aqui no palácio e tenho certeza de que eles não se incomodariam se vocês jogassem, imagino que a algum momento o rei vá querer ter uma palavrinha com vocês, não sendo demônios nem nada." Ele riu disso, "E o Val vai querer uma palavrinha porque eu vou ficar exibindo vocês por aí, mas um conselho, não se metam com Tobin, ele não é boa companhia no momento."

"E por quê?" Duo perguntou.

"Ele está de luto." Terenz respondeu alegremente, "e tomem cuidado com Lorde Matherion, acredito que o Serafim terá algumas perguntas a fazer a vocês.

"O Serafim?" Heero perguntou.

"Um grupo militante da igreja." Terenz disse, "eles caçam bruxas e demônios." A boca de Heero se abriu em um 'Ah' ao entender. "Eles não os machucarão diretamente se estão sob proteção de Alister, mas farão o que puderem para tirá-los dela."

O palácio de Halcyon era enorme, Duo notou conforme iam saindo dos porões onde Adam havia vivido e adentrando o palácio propriamente dito, era facilmente tão grande quanto Peacemillion e o ar aqui era cheio de ozônio e outros odores do mar. Havia outros odores que ele não reconhecia. O palácio era feito de grés dourada e decorado com tapeçarias, cortinas e armas. De fato, parecia o tipo de palácio que se vê em livros de História, livros de História muito antigos. Ele os conduziu por um lance de escadas grudado à parede e sem corrimões até um pátio e à cozinha, onde uma grande senhora mexia uma panela. Ela era uma mulher grande com mãos como fatias grossas de carne e braços como os de um urso. Usava um vestido utilitário que havia tido dias melhores e seu avental branco estava manchado de sangue.

"Vocês devem ser os demônios." Ela disse com um sorriso, "pele e ossos vocês dois, sentem-se, fiquem à vontade e eu vou fazer com que vocês comam tudo o que quiserem e mais, ninguém morre de fome na minha cozinha, eu sou Rachel, e não importa o que a Dieina diga minha missão não é engordar vocês, apenas deixá-los agradavelmente rechonchudos." Ela riu de sua própria brincadeira enquanto pegava dois pratos de estanho em um armário e os pousava sobre uma enorme mesa de trabalho, "sentem-se, rapazes, vamos, e sirvam-se de leite e cerveja," ela pegou duas tigelas e colocou nelas um pouco do que estava na panela e empurrou-as para eles. "Podem comer, não é veneno, é frango." Duo levantou sua colher cautelosamente, ele sabia que não se devia confiar em estranhos com comida, mesmo estando faminto, e tomou um pouco da sopa, avaliando se possuía veneno e seu sabor, e então mergulhou nela com vontade. Heero foi mais cuidadoso, observando se Duo se sentia mal.

"Heero," Duo disse, olhando-o, "se você não comer, eu como."

"Bobagem," Rachel disse sorrindo, "tem muito mais de onde isso saiu, mas eu tenho pãezinhos doces de canela no forno, e tem bastante pão, e eu tenho guisado de peixe para mais tarde. Me dê sua tigela e eu colocarei mais para você."

"Rachel," Duo disse com um sorriso largo na cara enquanto entregava a ela a tigela, "uma mulher tão bela como você é casada?" Heero revirou os olhos ante a risadinha da mulher.

"Ah, não sei," ela disse sorrindo, "os jovens de hoje." Ela atravessou a cozinha rebolando como alguém que, em seus melhores dias, havia sido bastante galanteadora e que se lembrou, com os elogios de um jovem atraente, de como era ser jovem e bela.

Nota da autora:

Isto é uma fic com universo alternativo, obviamente, ambientado no mundo de Dathyl, que é um experimento para mim já que o criei para uma fic original, e todos os personagens foram postos no final daquela fic exceto nossos rapazes, então o plano era inseri-los para praticar caracterização e montagem de cenário, mantendo meu toque pessoal ali.

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Nota da tradução:

¹ Quebra-mar: estrutura ou barreira natural que protege um ancoradouro ou uma praia contra a agitação produzida por ondas ou correntes marítimas. Sinônimo: talha-mar.

² O sentido fica um pouco estranho aqui pois (no original) Heero pergunta a Alister se uma 'shuttle' pode ser providenciada. Pois bem, 'shuttle' assume dois significados distintos e cabíveis à tradução. O 1º é justamente 'naveta', que é uma das peças em um tear (como explicado pelo próprio Alister); o outro significado remete a viagens relativamente curtas feitas repetidamente, como os trens de metrô, por exemplo, que cruzam a linha à qual pertencem de ponta a ponta, ou seja, vão de uma estação final à outra na respectiva linha. Heero pedia por uma nave que fizesse esse tipo de trajeto.

³ Ele está falando da Internet, obviamente.