Capítulo seis - O frio de Dathyl

Duo acordou com alguém a sacudi-lo insistentemente pelo ombro, "vai 'mbora," ele murmurou se virando novamente para o travesseiro quentinho, as cortinas ao redor da cama a haviam mantido bem aconchegante, uma delícia, ele estava aquecido e confortavelmente aboletado embaixo da montanha de cobertores e peles que havia na cama.

"Duo," uma mulher disse claramente, "Duo, você tem que acordar."

"Num é manhã." Ele resmungou, se ajeitando ainda mais sob as cobertas.

"Duo," a voz era calma e suavemente repreensiva, "Duo, você tem que acordar."

"Num quero." Ele protestou.

"Duo." Ela repetiu, "Duo, você tem que acordar."

"Vai 'mbora." Ele rosnou.

"Duo Maxwell, saia já dessa cama, ou que Deus me perdoe, eu vou." Duo se sentou, esfregando os olhos e bocejando ao mesmo tempo. A mulher não lhe parecia familiar, ela estava agachada ao lado da cama, e possuía pés dignos de serem mencionados já que havia passado pelo divã onde Heero dormia e por suas defesas. Ela possuía cabelos escuros curtos e revoltosos e grandes olhos de forma amendoada que eram de um penetrante e deveras frio azul, sua boca possuía uma linha linha firme, e ela vestia um macacão. Ele não havia visto ninguém em Dathyl que se vestisse daquele jeito. "Você precisa ajudá-lo, Duo, você precisa ajudá-lo."

"Ajudar quem?" Duo rosnou, "foi o pequeno Timmy que caiu no poço, talvez? Ou a Lassy foi atacada por um canguru assassino?"

"Não," a mulher disse, esticando a mão até Duo para retirar carinhosamente a franja de seu rosto, bagunçada por ele ter dormido em cima dela. "É o Heero, ele está morrendo."

Duo piscou repetidamente, enquanto seu cérebro tentava entender a mensagem mas falhava. "O quê?" ele disse.

"O Heero está morrendo, é o frio, ele está adormecido, não vai acordar. Ajude-me, Duo, por favor, ajude-me."

"O Heero é forte, não acho que um arzinho frio vai matá-lo." Ele se levantou, ficando de pé sobre a escada encarpetada que cercava a cama, e abriu as pesadas cortinas de veludo. Soltou uma baforada pelos dentes, formando uma nuvem de vapor no ar frio. A temperatura no quarto estava instável, há muito havia se dissipado o calor gostoso da lareira acesa na noite anterior, e parecia que ninguém pisava naquele quarto há uns dez anos de tão frio que o chão estava. "OK, talvez esteja mais frio do que eu pensava," ele vociferou para a mulher dos incríveis olhos, "e o que é que eu faço? Eu não sei acender uma lareira." Havia um círculo ao redor da Lua, e onde ela estava no céu estava da mesma cor que os olhos da mulher. "E é muito tarde pra encontrar um criado que faça isso por mim."

"Sua cama está aquecida." Ela disse, "ponha-o na cama com você."

"Você tá doida, dona?" Duo perguntou, encostando uma mão na bochecha de Heero; a respiração dele estava vagarosa e desregulada, e sua pele parecia pedra. "Você tem idéia do que ele vai fazer quando acordar?"

"Não," ela respondeu, "você sabe quem eu sou, por favor Duo, eu não posso ajudá-lo, só você pode, por favor, aqueça-o."

Revirando os olhos e segurando um bocejo Duo se inclinou e tentou acordar Heero às sacudidas. Não houve resposta, e ele não tinha certeza se esperava alguma. Com um resmundo abafado ele pegou o soldado perfeito no colo - ele era mais leve do que Duo esperava -, e o carregou até a cama, com cobertores e tudo. "Se ele me matar de manhã, dona, eu juro que vou atrás de você."

A mulher sorriu e esticou o braço para mexer na franja de Heero; ele murmurou com a pressão, mas não acordou. Duo sabia que se Heero não estivesse tão adormecido teria quebrado o pulso da mulher só por sua imprudência. Ninguém tocava o soldado perfeito exceto se ele tivesse expressado três vezes sua permissão e assinado em sangue. "Ele não irá matá-lo, Duo," o sorriso dela ao olhar para Heero era notadamente carinhoso, "eu prometo." Ela se inclinou e deu um beijo na parte da testa da qual havia retirado a franja. "Obrigada, Shinigami," ela disse e beijou a palma de Duo em um gesto de veneração. E então ela se foi.

"Se você ainda estiver vivo pela manhã, Heero, eu vou te contar sobre o sonho bizarríssimo que eu acabei de ter, e depois vou te amaldiçoar por ter vindo dormir comigo." Ajeitando as cobertas até que elas cobrissem a ambos antes de se esticar para fechar as cortinas novamente, Duo permaneceu deitado e pensou sobre o que acabara de acontecer. Aquilo tinha que ser um sonho, ele pensou rolando na cama até virar-se para Heero. Heero era insensível ao frio, não era, e não era provável que ele tivesse hipotermia por causa de umas horinhas em um quarto absurdamente gelado e cheio de correntes de ar e neve, era? Ele esticou a mão e tocou o braço de Heero, ele ainda estava gelado.

"Bem, amigão, se você acordar, tem que prometer que não vai me matar por isso." Duo inspirou fundo antes de se arrastar até Heero, envolvendo suas coxas. "Alguns dias eu fico tão feliz por ter tido que prestar atenção no Howard me ensinando a ser um Varredor¹." Falava para que caso Heero acordasse não decidisse matá-lo antes e depois fazer perguntas. "Sabe, ele perdeu um homem pro frio intenso certa vez, num navio selvagem, em uma hora, então ele aprendeu tudo sobre como o frio mata." Ele cuspiu nas mãos e começou a esfregar fortemente os braços de Heero, forçando a circulação a voltar a correr pela pele fria, "e como impedi-lo, vê o que eu estou fazendo, estou tentando fazer o calor que tem dentro de você vir à superfície, é mais fácil com algum fluido, porque, caramba, tem coisa que é mais fácil com lubrificação, cê sabe, e do jeito que vai nós dois vamos ficar com boljhas horrendas." Ele cuspiu novamente nas mãos e começou a esfregar o outro braço. "Se tivesse alguém por perto eu te colocaria num banho quente pra fazer isso, mas não tem ninguém, então eu me contento com o que tenho." Ele começou a esfregar o peito, que mal mal subia e descia com a respiração de Heero, e se não tivesse visto o vaporzinho exalado teria certeza de que ele estava morto. Ele se abaixou e retirou seu calção de dormir, deixando apenas a roupa íntima que haviam dado a ele. "Eu tô bem quentinho, hey, você costumava resmungar que eu era muito quente o tempo todo, e embora eu não goste de me gabar, vou ser sua garrafa de água quente esta noite," ele começou a esfregar fortemente as pernas de Heero, de cima para baixo, através do tecido. "Sinto muito, amigão, mas até eu receber uma proposta melhor você vai dormir comigo."

Heero acordou com um Duo quase nu dormindo esparramado sobre seu peito e com uma estranha formigação em quase todas as extremidades de seu corpo. Fez o que podia para tentar processar a informação. Ele havia feito o possível para manter o fogo queimando, não estando acostumado a tais instrumentos, e depois foi dormir no divã. A última coisa da qual se lembrava era se encolher por causa do frio. Supunha que tivesse ido dormir.

Definitivamente não estava no divã, na verdade estava na cama baixa que Duo havia reinvidicado no dia anterior, e o mais perturbador era Duo estar usando-o como colchão. Duo também estava roncando e com um joelho absurdamente próximo da virilha de Heero e pressionando sua bexiga, lembrando-o das muitas garrafas de vinho que os dois haviam bebido e que ele precisava se aliviar. Incapaz de pensar em algo para dizer, balbuciou um "hn" mal humorado.

"Desculpa," Duo balbuciou parcialmente adormecido, depois saiu de cima de Heero e sem permissão se encolheu a seu lado no colchão, agarrando seu braço e voltando ao profundo estado de sono no qual estava antes.

"Baka." Heero murmurou e retirou seu braço devagar, escorregou pela cama em seu caminho para o banheiro. Abriu as cortinas e viu que ainda estava escuro do lado de fora, as cortinas eram grossas, pesadas e escuras, então muito pouca luz conseguia atravessá-las. A criada, Primaverra, fazia preparos para acender uma fogueira e corou ao vê-lo, e fez uma pequena reverência. Avaliando a rejeição imediata de seu próprio corpo ao frio, puxou uma das peles da cama e colocou os pés nos chinelos que estavam no degrau e fez uma viagem bem rápida ao banheiro antes de decidir que o melhor a fazer era voltar para a cama quentinha e deixar o mundo sumir até o quarto ser aquecido.

Ele voltou para a cama com Duo, ainda muito sonolento e provavelmente não registrando o porquê de estar enroscado nele de novo. "Pelos deuses," Duo blasfemou, sentando-se. "Você ficou todo gelado de novo, deita aí." Ele pressionou seu ponto com uma mão no plexo solar de Heero e uma perna desnuda jogada sobre sua coxa. "Agora dorme."

"Duo," ele disse, "por que eu estou na sua cama?"

"Frio demais lá fora, maldita mulher me acordou, disse que você tava morrendo, frio infernal lá fora, te trouxe pra dentro, tive que esfregar você, não acordou, teimoso demais pra morrer." A voz de Duo ia ficando mais incompreensível conforme ele ia se afundando mais em um sono profundo.

"Quem era a mulher?" Heero perguntou, preocupado que alguém tivesse passado por ele.

"Sua mãe," Duo respondeu. "É igualzinha a você." Heero não perguntou mais nada depois dessa.