AVISO ----> Essa é uma fanfic slash/shounen ai/yaoi, seja lá a forma que vc preferir chamar. Se vc não aprova, por favor não leia! Esteja avisado! Aos corajosos, boa leitura! D

Appassionata


Capítulo 1 - Seus dedos

Ignorância é não perceber a verdade...

- Hum, hum, hum... isso! Novamente! Mantenha o compasso! - e o professor acompanhava a melodia permanecendo de pé ao lado do piano, ora ou outra fechando os olhos para avaliar a precisão da colocação musical, mas sem deixar de estar atento ao movimento das mãos de seu aluno. - Sr.Black, cuidado com o seu polegar esquerdo, ele sempre escorrega no penúltimo trecho.

E enquanto o velho enfadonho continuava a fazer sons estranhos com a garganta, olhando para a postura de Sirius como uma ave de rapina, este apenas movia os dedos na sua tentativa mais precisa de tocar uma simples sinfonia.

Maldição!

Ele só queria ir embora. Não agüentava mais o "Sr. Black, endireite-se no banco, nenhum músico que se preze se sentaria diante de seu instrumento com tanto desrespeito." ou "Sr. Black, por favor, Sr. Black, isso são teclas, não pregos que devem ser martelados."

Aquela lenga, lenga não tinha fim. Continuava até as seis da tarde, e ele só conseguia sair da aula com os dedos doloridos e as costas das mãos avermelhadas pelos tapas que seu mestre insistia em lhe dar com a partitura, na tentativa de corrigir efetivamente seus terríveis erros.

- Mais uma vez, Sr. Black! Concentresse nas oitavas, você sempre se perde nelas!

E quando a sineta do colégio finalmente tocou ele mal acreditou que aquela tortura chegara ao seu fim.

- Treine em casa, Sr. Black! O recital é daqui a algumas semanas, não queremos que você faça uma péssima apresentação, certo?

E ele só conseguiu grunhir para o velho, já se imaginando do lado de fora, respirando o ar puro da tarde.

Desde seus quatro anos de idade vinha tendo aulas de piano. Não é que não gostasse de tocar. Na realidade era até relaxante, mas com aquela coruja velha dando voltas ao seu redor era impossível sequer desfrutar de qualquer melodia. Até aquele dia não compreendia o porque de seus pais darem tamanha ênfase ao fato de que ele deveria ser um exímio pianista. Sua família era dona de uma das maiores empreiteiras do país, ele não via motivos para ter que aprender a tocar como um profissional.

De qualquer forma ele fazia aquilo mais para agradar sua mãe do qualquer outra coisa. Adorava vê-la sorrir quando se apresentava para os convidados de alguma festa, ou quando treinava para os recitais no piano de casa. E aquele era o maior prêmio que poderia desejar. Quanto ao seu pai, odiava tocar nas teclas madre-pérola quando ele estava por perto. Edward Black era a simbologia da pessoa perfeita, não havia nada que ele não conseguia fazer, e desde pequeno, mesmo na música, ele sempre ridicularizara Sirius quando este fazia alguma tentativa de agradá-lo.

Era sempre:

"Ridículo, a segunda parte da sinfonia poderia ter sido mais rápida e clara!" ou "Você venceu o último jogo da sua escola? Não ache que você ganhará algum elogio por causa disso, você não fez nada mais do que o seu dever!"

E as críticas continuavam a crescer a cada ano que se passava. Ele sempre desejara que seu pai simplesmente dissesse um:

"Muito bem, filho! Estou orgulho de você!"

Mas agora, depois de tanto tempo achava impossível agradar aquele homem, e por mais que não quisesse admitir, isso o entristecia, pois ele admirava o pai, de uma maneira estranha e até mesmo raivosa, mas não podia deixar de querer seguir seus passos.

- Talvez seja por esse motivo que até hoje eu não desisti do piano... Talvez eu não queira ouvi-lo me chamar de fraco por me render... - murmurou para si mesmo. Apanhando seus materiais no local onde sempre os deixava antes das aulas de música, dirigindo-se logo em seguida para a saída.

- Boa tarde, Sr. Sirius! Como foram suas aulas? - o motorista de sua família perguntou de maneira polida e ele apenas entregou-lhe seus materiais, entrando logo em seguida no carro.

- Mortalmente entediantes! - retrucou de cara fechada, e enquanto o dedicado empregado guardava suas coisas no porta mala, ele fechou a porta do carro e recostou a têmpora no vidro fume do automóvel.

Observando o portão da escola, confortavelmente sentado no banco de couro, ele só podia imaginar qual era o motivo para que todos aqueles rapazes e garotas estivessem sorrindo. Vendo seus colegas de classe conversando e se divertindo juntos, sentia como se estivesse perdendo alguma coisa, alguma parcela muito cara de sua vida.

Mas ele era um Black, era superior, e na sua rotina não havia espaço para coisas estúpidas como amizade e brincadeiras. Não havia futuro nessas atividades, elas não lhe acrescentariam nada, e era bem melhor continuar sozinho como estava, refletindo os próprios problemas e tentando atingir a perfeição em todos sentidos. Aquilo era por seu orgulho, pelo seu próprio bem e pelo bem de sua família.


Ele não conseguiria ficar mais naquele lugar. Não suportava o rosto dos outros alunos, não suportava suas risadas, suas vozes alegres. Queria sumir, que o deixassem em paz, que ficassem todos em silêncio. E foi por isso que no mesmo instante em que a sineta para intervalo tocou, ele saiu correndo porta a fora, dirigindo-se para o único lugar ao qual sabia que encontraria o momento de paz perfeito.

O Anfiteatro.

Respirando com um pouco de dificuldade ele subiu as escadas que davam para a entrada. Queria poder deitar no meio do palco no reconfortante escuro daquele local. Gostava da sensação de amplitude que o anfiteatro lhe dava. Ele era tão pequeno em comparação as cortinas, as inúmeras fileiras de cadeira... Era como se por alguns instantes todo o peso que precisava carregar lhe fosse retirado de suas costas.

Rezando para que o local estivesse aberto, ele dirigiu-se para a porta que dava para os camarins, sabendo que a entrada principal estaria fechada àquela hora.

Empurrando-a com as mãos espalmadas e respirando profundamente o novo ar, com seu cheiro diferente e suas promessas de liberdade, por alguns instantes ele se viu no escuro. Pensou em tatear afim de encontra algum interruptor para que pudesse se guiar melhor na direção do palco, mas como ele já conhecia bem o local, acabou desistindo e esperando que suas pupilas se acostumassem ao escuro.

"Porque aqueles garotos precisam ser tão barulhentos? Era só um maldito trabalho em grupo!", ele começou a refletir caminhando com as mãos no bolso, relembrando o mau bocado que passara, só por não conseguir entrar por mérito próprio em nenhum grupo que seus colegas de classe haviam formado.

"- Sr. Black, o senhor fará seu trabalho junto com o grupo do Sr.Mewn!", o professor anunciara depois de um breve tumulto. E Sirius até agora não conseguia esquecer o olhar raivoso dos rapazes ao saber que teriam que passar o tempo com ele.

"Idiotas! Como se eu também estivesse pulando de felicidade por ter que ficar perto de vocês!", pensou de mal gosto.

Ele sabia que grande parte da escola, se não ela toda, não gostava dele. Quando passava pelos corredores podia ouvir muito bem os murmurinhos, chamando-o de metido, mal-educado e arrogante.

"- Ehhh... o pai dele pagou para ele tocar no recital!

- Sério? Mas ele toca tão mal assim?"

E os boatos e infâmias continuavam se proliferando como uma praga por toda a escola:

"- Dizem que ele foi suspenso ontem por bater em um professor! Andam falando que ele só não foi expulso ainda porque o pai dele é rico.

- Ora, mas o Malfoy também é rico e sempre foi tão gentil com todos!

- O que dizer? Educação vem de berço!"

E seu dia estava bom demais para ser verdade até aquele momento infernal no qual o sobrenome de Lucius lhe veio à memória.

Malfoy, uma das famílias mais antiquadas, orgulhosas, trapaceira, trambiqueira... e qualquer outro adjetivo pejorativo que lhe viesse a cabeça.

Na frente de todos Lucius Malfoy era o perfeito anjo de cabelos loiros, que fazia as meninas suspirarem e cativava a amizade dos rapazes. Mas Sirius conhecia sua verdadeira face, pena que lhe era proibido expô-la, afinal, o que acontecia na alta sociedade, ficava sempre entre a alta sociedade, e dessa forma era simplesmente impossível narrar às peripécias do desgraçado para qualquer um que quisesse ouvir.

Ele conhecia o loiro aguado desde que era pequeno. Freqüentavam os mesmos restaurantes, iam às mesmas festas e ele já estava cansado de vê-lo bebendo, usando drogas, indo para quartos de hotel no final das festas, grande parte das vezes acompanhado de um outro rapaz que conseguira dopar e que provavelmente iria ser forçado a fazer coisas que Sirius não gostava nem de imaginar.

"Simplesmente nojento!", grunhiu em pensamentos, relembrando a última vez, na festa de Margaret Clampton, quando vira Lucius saindo do salão apoiando com os braços um garoto mais novo que ele, um que estava claramente bêbado e praticamente desmaiado.

ltima vez, na festa de Margaret Clampton, quando vira Lucius saindo do saluira dopar e que provavelmente iria ser forçado a faz

"- Virou pedófilo agora, Malfoy?", ele provocara no dia, dando um sorriso de canto de lábios enquanto bebericava um pouco de seu vinho.

"- Não precisa ficar com ciúmes, não, Black! Quando você quiser, se eu estiver animado, sempre vai ter um pouco para você!", e depois disso Malfoy passara a língua nos lábios no gesto mais obsceno que ele já vira na vida e que ele gostaria de esquecer.

É, vendo por aquele ângulo poderia se dizer que sua existência não era tão entediante quanto imaginava. E se as coisas eram ruins do jeito que estavam, no final das contas ele ainda tinha aquele último refúgio, certo? Ali, nada nem ninguém poderiam perturbá-lo.

E foi quando ele se aproximou das cortinas do palco que ele notou que as luzes dele estavam acesas, e que bem no centro estava o piano mais caro da escola, já posicionado para o recital que aconteceria daqui alguns dias.

"Será que alguém esqueceu de desligar as luzes?", ele se perguntou aproximando-se do local só para de repente se assustar com o vulto de uma pessoa, que acabara de se sentar no banquinho e parecia se preparar para tocar alguma coisa.

No mesmo instante o som acionado pelas teclas preencheu o local. Sirius piscou um pouco os olhos surpresos. Não esperava por aquela melodia, por aquelas notas e compassos. Era sua música preferida, a Appassionata de Beethoven, tocada por um completo desconhecido da forma mais bela que ele já vira em toda sua vida.

Empurrando um pouco as cortinas vermelhas da sua frente ele viu o perfil do estudante, que parecia embalado pelo próprio êxtase musical. Sirius podia sentir a paixão que ele depositava em cada nota, sentia o som tocando sua alma, como se a acariciasse e a convidasse para dançar.

E foi aí que seus olhos viajaram dos cabelos castanhos do estranho rapaz para suas mãos e por fim pousaram em seus dedos.

"Perfeitos!", ele observou maravilhado, vendo aquelas maravilhas pálidas percorrer todas as teclas, sugando toda sua beleza, imprimindo perfeição a obra-prima de Beethoven.

Ele sentiu o próprio coração acelerar. Ele estava apaixonado por aquele som, pelo espírito que o jovem dava ao simples ato de tocar.

"E os dedos... Gostaria de possuir estes dedos, estas mãos..."

E ele suspirou sentindo cada célula de seu corpo vibrar, fechando os olhos e acompanhando cada mudança de tom, cada ínfimo detalhe. Pela primeira vez alcançara um estágio pleno de completo prazer, algo que nunca experimentara, e era como se simplesmente pudesse morrer feliz, ali e agora.

Mas seu devaneio musical de repente foi interrompido abruptamente e os dedos do rapaz abandonaram o piano, fazendo com que ele sentisse um grande vazio no peito.

- Remus, você ainda está aqui? - ele ouviu alguém perguntar.

- Achei que precisava praticar mais um pouco! - a voz do rapaz respondeu a pergunta do desconhecido indagador, e Sirius se assustou ao ver que até mesmo o timbre do tal Remus soava como sua música.

- Ora, você sabe muito bem que você tocar melhor do que todos desta escola, certo? O professor mesmo disse que não vê a hora de ouvi-lo diante de uma platéia.

O som do banquinho sendo arrastado pode ser escutado no silêncio do anfiteatro.

- Ainda assim acho que não é o suficiente! - Remus retrucou e o outro riu de leve.

- Lupin, você realmente não tem jeito. Mas esqueça isso um pouco. Você já lanchou hoje? Que tal irmos até a cafeteira ver se sobrou alguma coisa gostosa? O zelador deixou a porta principal aberta, ficará mais perto se formos por ela!

- Er, Ryan... você sabe que eu... bem... - o pianista começou a dizer se enrolando com as palavras.

- Bah, deixa disso, será um prazer pagar para você!

E essa foi à deixa para que Sirius ouvisse passos se afastando, assim como o anjo que conseguira tocá-lo com sua música.

"Remus Lupin!"

Definitivamente ele precisava conhecer aquele rapaz.


N/A: Alowwww! E aew pessoas! Bem, essa ´uma pequena experiência minha! Nem sei se ficou bom , mas sempre imaginei escrever algo do gênero, por isso sejam bons meninos e deixem reviews dizendo o que achara para eu saber se vale a pena continuar, sim?

(.) Kissus!