Capítulo 04: Time of your life


E no capítulo anterior...

- Talvez sim, talvez não. Eles são inteligentes, poderiam ter chegado a essa conclusão sozinhos. E Minnie é um belo apelido.

Ela revirou os olhos e suspirou aliviada ao perceber que a música terminara.

- Podemos voltar para a mesa agora?

Ele assentiu, guiando-a de volta para a mesa, onde Moody e Albus agora jogavam cartas. Aberforth fez uma pequena mesura com a cabeça para ela, enquanto Minerva se sentava, e voltou-se para Pomona, convidando-a também para dançar.


O resto da noite foi passado em meio às cartas que Albus conjurara. Aberforth ainda a tirara para dançar mais uma vez, mas não tocou em mais nenhum assunto constrangedor.

Passava das três da manhã quando eles se despediram de Moody e desaparataram em Hogsmeade. A carruagem dos testrálios ainda os esperava nos fundo do Cabeça de Javali.

- É véspera de Natal... – Pomona observou, sonolenta, antes de entrar na carruagem, ajudada por Minerva.

Albus sorriu, virando-se para o irmão.

- Ela tem razão. É véspera de Natal. Eu gostaria que você se reunisse a nós mais tarde, para o banquete em Hogwarts.

Aberforth observou-o pensativamente.

- Você sabe que, assim como você ama aquele castelo, eu o detesto. Hogwarts roubou você de nós; não me peça para perdoá-la. – o homem sorriu – De qualquer forma, eu não posso deixar o Cabeça de Javali. Sempre existirá algum solitário que deseja afogar as mágoas numa mesa de bar e, quem sabe, desabafar com o garçom.

O diretor assentiu tristemente.

- Mesmo sem desejar, eu o compreendo. – ele respondeu, voltando-se para o carro – De qualquer maneira, o convite continua em pé.

Sem mais palavras, Albus entrou na carruagem. Em silêncio, Aberforth observou os sinistros contornos dos testrálios levando seu irmão, até que eles desaparecessem numa última curva antes de deixar Hogsmeade.

E, dando as costas, ele entrou no bar.

- Você está bem?

Aquela frase já se tornara uma constante desde o início do trabalho do casal de grifinórios. Três tentativas de antídoto já tinham sido descartadas até a hora do almoço e a quarta agora sibilava furiosamente em seu caldeirão, espalhando na masmorra uma fumaça densa que cheirava a hortelã.

A gata deslizou pela porta entreaberta da despensa pessoal de Slughorn – lugar que elegera para esconderijo quando chegara à sala, antes mesmo dos dois jovens – tentando se aproximar para descobrir o que acontecera dessa feita.

Os dedos de Lily estavam muito vermelhos e ela gemia baixinho de dor, enquanto pequenos filetes de lágrimas tentavam escapar dos olhos brilhantes. A poção borbulhara em sua mão, mas não chegara a queimá-la. Em todo caso, aquilo certamente estava doendo. James aproximou-se cuidadosamente dela, tomando as mãos da ruiva entre as suas.

Por diversas vezes desde que eles tinham chegado ali, surpreendera um olhar de carinho e preocupação nos olhos de James. Se estivesse em sua forma humana, Minerva certamente não teria deixado de sorrir, enternecida para a cena que se desenrolava diante dos seus olhos.

- Talvez você devesse passar na Ala Hospitalar. – ele observou, retendo com delicadeza os dedos que ela tentava tirar de suas mãos.

- Não será preciso, Potter. – ela respondeu, novamente tentando se afastar.

Ele meneou a cabeça, empurrando-a de leve para uma das carteiras, fazendo com que ela se sentasse, antes de puxar um frasco de poção de cima da mesa de ingredientes, completamente tomada pelas experiências deles.

Lily ainda protestou por alguns instantes, mas finalmente calou-se ao sentir a dor passar enquanto ele mergulhava seus dedos na poção. Quando a pele dela voltou à coloração normal, ele tomou novamente a mão da ruiva entre as suas e, conjurando gaze, pô-se a enrolar dedo por dedo, pacientemente.

Minerva voltou para as sombras, deixando a masmorra silenciosamente. Assim que se viu longe da sala, ela voltou a sua forma humana e encostou-se melancolicamente à parede, os olhos fechados, a respiração profunda, a testa junto à pedra fria.

Tudo aquilo estava deixando-a mais sensível. A interação entre seus alunos, as palavras de Aberforth na noite anterior, a véspera de Natal... Talvez o fato de que dormira pouquíssimas horas apesar de todo o cansaço também estivesse conspirando para acentuar aquela nostalgia que ela começava a sentir.

- Hey?

Ela abriu os olhos, deparando-se com as orbes cinzentas de Sirius Black. O nariz dele ainda estava um tanto vermelho por causa do resfriado, mas de resto, ele parecia completamente curado. Os dois se encararam por alguns instantes e, pelo sorriso que o rapaz ostentava, ela duvidava que ele a tivesse reconhecido.

- Está tudo bem com você? – ele perguntou, tentando se aproximar.

- Está tudo ótimo, senhor Black. – ela respondeu, reassumindo sua postura professoral.

Os olhos dele traíram uma leve surpresa, mas ele não deixou de sorrir.

- Tem certeza, Minnie?

- Absoluta, senhor Black. E da próxima vez que utilizar esse apelido comigo, eu vou providenciar... – ela meneou a cabeça – Vá para as masmorras. Acredito que seus colegas já o estejam esperando.

Sem dar tempo para que ele respondesse, ela voltou a caminhar ereta, rapidamente percorrendo o caminho até a entrada do escritório de Dumbledore, onde as gárgulas agora discutiam sobre a possibilidade de usarem visgos sobre suas cabeças em comemoração ao natal.

- Boa tarde, professora. – a primeira gárgula cumprimentou – O que a senhora acha de...

- Doce de abóbora. – ela a interrompeu, séria.

- Com certeza, professora. – as gárgulas se empertigaram e deram passagem a ela.

Minerva pôs-se a correr pela escadaria, notando vagamente que até o dia anterior não seria capaz dessa façanha sem sentir estranhas dores no peito. Parou diante da porta, respirando fundo para recuperar o fôlego e bateu.

Não demorou a que o convite para que entrasse fosse feito e novamente ela se viu diante de Albus Dumbledore, os cabelos ruivos um tanto espetados para uma engraçada touca de dormir azul, repleta de sóis prateados.

- Ora, professora Minerva. Bom dia!

- Na verdade, já é boa tarde, professor. – ela respondeu, séria.

- É? Bem, acho que perdi a hora... O que é estranho. Faz mais de cinqüenta anos que eu me perdi a hora pela última vez... Aceita um chá, Minerva?

Ela meneou a cabeça.

- Não. Na verdade, Albus, eu gostaria de lhe pedir uma permissão especial para me ausentar do castelo até amanhã.

Dumbledore observou-a por cima dos óculos, entendimento nos olhos claros. Ele assentiu.

- Você não precisava sequer ter vindo pedir essa permissão, Minerva. Pode ir, eu sei que ficará bem.

- Obrigada, professor. – ela agradeceu, dando as costas a ele e voltando-se para a porta.

- Deixe algumas flores para ele por mim. – foi a última coisa que ela ouviu antes de deixar o escritório, voltando-se dessa vez para seus próprios aposentos.

Em menos de dez minutos ela estava pronta. Vestira mais uma grossa capa por cima do vestido e colocara uma saca de biscoitos de gengibre no bolso. Enquanto dirigia seus passos para fora do castelo, ela se deixava perder em memórias.

Ao passar pelos portões, acabou por se surpreender ao perceber que Dumbledore estava lá fora e que havia uma carruagem pronta logo atrás dele.

- Ela levará você até Hogsmeade para que possa aparatar. – ele murmurou em voz baixa – Boa sorte, Minerva.

- Obrigada, professor. – ela agradeceu mais uma vez, dando um breve sorriso para Albus antes de entrar na carruagem.

Mais dez minutos e Hogwarts agora se tornava apenas uma silhueta ao longe, enquanto Hogsmeade se aproximava, com seus belas casas pintadas com a neve que caíra de manhã. Ela deixou a carruagem à altura da Casa dos Gritos. E, com um suspiro, aparatou.

Quando reabriu os olhos, estava diante de portões de ferro enferrujados, no meio de uma encruzilhada fria. Soprava um vento frio e ela podia ouvir de longe o barulho do mar batendo contra as rochas do penhasco.

Estava a alguns quilômetros de Aberdeen, no sul da Escócia, diante de um cemitério antigo – muito mais antigo que as povoações trouxas que tinham crescido tanto nos últimos anos.

Respirando fundo o ar de sua terra natal, Minerva retirou suas luvas e forçou a passagem do portão, que brilhou por alguns instantes ao contato com a pele fria dela antes de destrancar-se silenciosamente.

Túmulos antigos, cobertos de hera, repousavam ali. O cheiro de maresia era onipresente, mas ela não se importava com isso. Há muitos anos que não visitava aquele lugar, mas não sentiu grandes dificuldades em encontrar o que procurava.

Maximo M. McGonagall

1887 – 1945

A foto na lápide estava praticamente apagada. Mas ela não precisava vê-lo para saber quem estava ali.

Limpando parte da hera que recobria o túmulo, ela sentou-se sobre a tampa, sentindo o granito frio como se não houvesse tecido algum para proteger sua pele. Abaixando a cabeça, ela deixou uma única lágrima escapar dos olhos cansados.

- Eu imaginei que encontraria você aqui quando vi sua carruagem.

Minerva rapidamente pôs-se em pé, encarando Aberforth, que agora a observava com um meio sorriso triste, as mãos mergulhadas nos bolsos da capa. Os olhos dele brilharam por trás das lentes dos óculos e ele passou uma mão enluvada pelos cabelos brancos desgrenhados.

- O que está fazendo aqui? – ela perguntou com a voz firme, após alguns minutos de silêncio.

- Você também perdeu seu irmão para ela. Para Hogwarts. – ele agora encarava a lápide – Eu me lembro de Maximo. Ele estava com Albus quando ele veio se despedir. Antes de procurar Grindewald.

- Hogwarts não é culpada por nada. – ela respondeu à meia voz.

- Vamos acabar perdendo você também para ela. – ele observou – Hogwarts consome todos aqueles que passam por ela. Vocês, professores, amam tanto aquele lugar e aqueles alunos, que acabam por se sacrificar sem medir conseqüências. Maximo se sacrificou por Hogwarts. Albus acabará indo pelo mesmo caminho.

Havia um tom indiscutível de amargura na voz do homem. Ela parou ao lado dela, sem tirar os olhos do túmulo.

- Você nunca mais foi a mesma depois da morte dele.

- Eu já disse que você deveria parar de falar como se me conhecesse. – ela respondeu, calma, tirando o pacote de biscoitos do bolso – Aceita? Eram os preferidos dele.

Aberforth deu um meio sorriso, estendendo a mão para tirar um biscoito da saca que ela lhe oferecia. Os dois permaneceram em silêncio, mastigando os biscoitos, como se assim estivessem prestando uma homenagem ao bruxo que estava enterrado ali.

- Vamos voltar. – ele falou quando o saco afinal estava vazio – Eu estou precisando de uma boa xícara de chá agora.

Ela assentiu e os dois deixaram o cemitério para trás, não sem antes Minerva conjurar algumas viçosas margaridas, depositando-as sobre o túmulo do irmão. Apesar do frio, elas não murchariam tão cedo.

Os dois voltaram a aparatar, dessa vez para o interior do Cabeça de Javali. Minerva se sentou numa mesa alquebrada, enquanto Aberforth sumia atrás do balcão, procurando xícaras limpas e colocava água no fogo para preparar o chá.

- Aberforth... – ela chamou, fazendo-o parar em seu caminho entre o forno e a despensa – Você tem farinha por aí? Acho que vamos precisar também de mais uma fornada de biscoitos.

Era Natal. Manhã de Natal. Uma radiosa manhã que cheirava a biscoitos de gengibre. Exatamente como em sua infância, quando sua mãe gritava da cozinha para que acordassem e eles corriam para junto da árvore atrás de presentes.

Ela se mexeu preguiçosamente no sofá que conjurara em algum ponto da noite, aconchegando-se às mantas que repousavam sobre ela. Uma panela cheia de biscoitos estava sobre a mesa de madeira, assim como muitas xícaras vazias.

Deitado em outro sofá, estava Aberforth, com muitos biscoitos caídos ao redor dele. Minerva sorriu, meneando a cabeça e sentou-se, só então percebendo que não acordara porque era Natal, ou por causa do cheiro nostálgico de gengibre.

Lorde Vertinari estava à janela, bicando impacientemente o vidro. Ela se levantou, abrindo a janela, dando passagem para sua coruja. Desamarrou o pergaminho, lendo uma mensagem curta, escrita de próprio punho pelo diretor de Hogwarts.

"Eles conseguiram."

Mais uma vez, ela sorriu. Seus alunos. Ela tinha muito orgulho dos seus alunos. Talvez Aberforth tivesse razão. Todos aqueles que passavam por Hogwarts acabavam por se perder diante dela.

Ela deixou o bilhete sobre a mesa, em meio à última fornada de biscoitos e às xícaras de chá. Com um aceno da varinha, retornou o sofá a sua forma original – duas cadeiras velhas e quase mancas. Em seguida, abriu a porta.

Ao longe, a silhueta de Hogwarts lhe dava bom dia. A promessa de um ótimo dia.

.Fim.