Uh – A Série

Capitulo 1

Just business –Só negócios

Acordou, cedo como costume. Sozinha, como costume também. O quarto era grande, de casal, bem como a cama. Mas eram raras as vezes em que ela acordava acompanhada. Não que isso a preocupasse. Nada a preocupava além do trabalho.

Trabalho era a palavra que mais utilizava, seguida de negócios, reuniões e viagens. Trabalho, trabalho e trabalho, eram essas as palavras que regiam a sua vida.

Começou então a sua rotina diária, escolheu a roupa, tomou banho, vestiu-se, aprontou-se e desceu as escadas até ao escritório. Arrumou os últimos papéis na pasta e olhou em volta por um segundo. Depois pegou numa pena, num pedaço de pergaminho e escreveu uma mensagem rápida.

"Nem sei para quê."- Pensou colocando o bilhete em cima da secretária do outro escritório da grande casa.

Olhou em volta, reparando em cada pormenor daquele escritório, tão diferente do seu mas no entanto tão parecido. Tudo ali 'gritava' trabalho e organização. Nas estantes centenas de livros organizados por temas, na secretária as penas e os tinteiros ordenados por alturas e as pilhas de folhas por importância de assunto.

Entrava ali todos os dias, com o mesmo intuito, deixar-lhe uma mensagem, mensagem essa que sempre via respondida quando chegava a casa, em cima da sua secretária.

Abanou a cabeça tentando não se dispersar e aparatou, atrasada.

"-Sra. Ginevra." – Chamou a velha secretária da empresa – "Os relatórios estão todos no seu gabinete, bem como o horário das reuniões de hoje."

"-Obrigada Helga. Mais alguma coisa que eu deva saber?"
"-Nada de surpresas hoje Sra."

Entrou no escritório da sua empresa, Companhia Weasley, e olhou para o horário daquele dia. Apertado, como o de todos os outros dias. Mal teria tempo para almoçar e jantar, e pela hora da última reunião ficaria naquele escritório até tarde. Até bem tarde.

Suspirou, cansada. Não era aquela a vida que tinha em mente aos dezoito anos, não era a que tinha em mente quando começou nos negócios, mas era a que tinha em mente quando se casara.

Levou as mãos à cabeça e fechou os olhos, permitindo-se não ser forte por uns momentos. E tudo o que fez foi chorar, durante longos minutos.

"Estás a ser parva" –Dizia-lhe a voz da consciência –"Tens a vida que muitos desejariam, tudo o que alguém pode querer."

Limpou as lágrimas e respirou fundo, pronta a recomeçar o dia. Olhou para a pilha de relatórios. Tinha de começar por algum lado.

"Relatórios mensais. Se as acções da empresa continuarem a subir…"

Batidas na porta interromperam a sua linha de raciocínio.

"-Sim?"

"-Ginevra."

"-Sim Blaise?"

"-A Helga acaba de desmarcar todas as tuas reuniões até ao final da semana."

"-Mas hoje é Segunda! Estamos no final do mês, as reuniões…"

"-Tens uma viagem importante. O presidente daquela grande empresa na Alemanha quer-te lá amanhã de manhã para fecharem o negócio. Tens o dia de hoje para organizar todos os relatórios e informações que necessitas. Terei um botão de transporte pronto para as horas que quiseres."

"-Prepara-mo para uma hora antes da reunião na Alemanha. Envia-mo com um bilhete."

"-Claro que sim." – Respondeu saindo da sala – " Não te esqueças de avisar o teu marido." – Foi a última coisa que disse antes de fechar a porta do escritório dela.

"Como se ele se importasse."

Aparatou cansado no seu escritório. Para não variar aquele tinha sido um dia estafante. Tinha voltado de viagem e chegara a casa bem depois da meia-noite, bem depois de muitas reuniões.

Pousou a pasta no chão e olhou para a sua secretária. Lá estava o costumeiro bilhete. Sentira falta deles durante a sua viagem. Não sentira falta por nenhuma razão em especial, apenas pelo simples facto de se ter habituado a eles.

A noite passada fechamos um negócio milionário que quase dobrou as receitas do mês passado.

Achei que gostarias de saber disso.

Ginevra

Então ele fez o que fazia todas as noites, pegou num outro pedaço de pergaminho e escreveu-lhe a resposta.

A viagem correu bem. Nevava em New York. O negócio com a York's Deal correu como tínhamos esperado. Os lucros do mês passado foram triplicados.

Rabiscou o pergaminho com uma assinatura ilegível e saiu do seu escritório. Deixou o bilhete em cima da secretária dela e caminhou até ao quarto principal, esperando encontrá-la a dormir.

"-Ainda a pé?" – Perguntou vendo-a pentear-se de frente para espelho da cómoda.

"-Já em casa?" – Rebateu sem se desviar da sua tarefa.

"-Esta noite as reuniões acabaram mais cedo." – Respondeu despindo o casaco e afrouxando a gravata – "Que malas são estas?"

"-Vou viajar." – Pousou a escova na grande cómoda e caminhou até à cama.

Não pode deixar de reparar na marca de batôn na camisa do marido.

"-A viagem foi boa?" – Perguntou um tanto sarcástica.

"-Foi produtiva. Triplicamos os lucros…"

"-Não era disso que estava a falar." – Comentou apontando casualmente para a camisa dele.

"-Vais viajar para onde?" – Perguntou desviando o assunto.

Sabia dos casos do seu marido. Sabia das mulheres com quem se divertia, as amantes, os affaires durante as viagens, mas não poderia importar-se menos.

"-Para a Alemanha. Vou fechar o negócio com a Geschäft."

"-E quando voltas?"

"-Quando fechar o negócio. Espero que seja ainda amanhã."

"-Estás certa demais que o vais conseguir…"

"-Eu confio nas minhas capacidades de negócio. E tu também, ou não terias casado comigo."- Respondeu-lhe deitando-se na cama, de costas para ele.

"-Nisso tens razão."

"-Admite que eu tenho sempre razão Malfoy."

"-Por enquanto Weasley, por enquanto." – Respondeu deitando-se também ele na cama de casal, de costas para ela.

E eram assim as conversas deles. Curtas e sobre negócios. Era essa a razão do casamento deles. Não por amor, não por atracção, apenas pelo simples facto de ambos terem excelente relação com o mundo dos negócios. Eles superavam-se diariamente naquilo que faziam, e a prova disso era o casamento deles. Cada um era dono de uma das duas empresas que lideravam o mundo do negócio. Muitos eram os associados das suas empresas, mas acabava sempre por faltar a empresa rival, a empresa que tinha tantos lucros como a deles.

E ela tomara a iniciativa. Não fazia sentido juntarem simplesmente as empresas, ficariam a perder. E ele tivera a ideia. Já que uma simples fusão não era o suficiente teriam de recorrer às antigas leis do mundo mágico. E que lei mais antiga que o casamento? Casados eles continuariam a dirigir as suas próprias empresas, mas tendo acesso à fortuna um do outro.

Fora um casamento simples, como uma qualquer outra reunião de negócios. Assinaram os papéis, fizeram o juramento, consumaram o casamento. Estavam casados. Tinham direito à fortuna um do outro. Mal se falavam. Pouco se importavam.

Partilhavam a mesma casa e o mesmo leito mais por comodidade do que por outra coisa qualquer. Até porque cada um deles, individualmente, possuía fortuna que lhes permitia ter casa em qualquer parte do mundo. Já para não falar no resto dos quartos da grande casa que ocupavam.

Aquele tinha sido um acordo silencioso entre eles, acordo esse estabelecido depois da desastrosa noite de núpcias deles.

Ö – Ö – Ö

Olhou para o quarto de casal, de um estilo simples, mas ainda assim digno de um Malfoy. A cama era enorme, aliás, não se lembrava de alguma vez ter visto uma cama tão grande. Mas ele era um Malfoy, não podia esperar menos dele do que a opulência exagerada.

"-Vamos fazer isto logo de uma vez?"

Ele olhou-a de cima abaixo. Depois despiu a camisa.

"-Vamos."

Desapertou o fecho do vestido e deixou-o deslizar até ao chão.

"-Podes andar logo com isso, Malfoy?"

"-Weasley, eu preciso de me concentrar. A tarefa é difícil."

"-Ah sim, claro, eu devo imaginar que és virgem e não sabe o que fazer na primeira vez."

"-Eu não sou virgem!"- Exclamou indignado.

"-Apenas anda logo. Estar aqui com contigo não é algo que eu queira."

"-Eu também não quero, Weasley,"

Draco ostentava uma expressão de repugnância no rosto, ao mesmo tempo que suas acções mostravam-se desajeitadas diante da situação constrangedora de ter de fazer sexo com uma Weasley.

E então ele perguntava-se, quando fazer sexo se tornara algo tão mau?

"-É para hoje?"

"-Weasley, não está funcionando."

"-Malfoy, precisas de fazer isso para parecer real. Então, faz o teu querido e repugnante Malfoyzinho funcionar antes que eu definhe com tanto tédio e durma."

"-Mulher nenhuma dorme quando eu estou no controle."

Ginevra olhou um instante para baixo e gargalhou. Uma gargalhada no mínimo sádica.

"-Controle? Querido, se olhasses para baixo verias que não estás no controle, então, eu vou ser a primeira mulher a dormir diante do teu... uhm... descontrole."

Ele fechou os olhos. Ela estava a irritá-lo. Estava a desconcentrá-lo.

"-Dá para estar calada Weasley? Eu não estou a conseguir concentrar-me com tua voz irritante."

"-Mas querido, nem que eu estivesse calada. Parece que vais demorar muito para te concentrar."

"Se não fossem os milhões de galeões…"

Beijou-a, de forma violenta. Talvez assim se conseguisse esquecer da imposição que precisava de ultrapassar. E o beijo nem era assim tão mau. Na realidade não era nada mau. Ela tinha entrado no seu jogo, retribuía o beijo com a mesma violência, cravando as unhas no seu pescoço.

"Até que a Weasley não é tão má assim…."

Mas ao pensar nela afastou-se imediatamente.

"-Olha os lucros Malfoy. Depois disto vais ter o dobro da fortu…" – E não acabou a frase porque ele a beijou de novo.

Queria acabar logo com aquilo. Consumar o maldito casamento e possuir o dobro da sua fortuna. Mas a culpa era sua! Afinal ele fora o idiota que tinha proposto o casamento. Tudo era um plano perfeito. Só se esquecera dum pequeno pormenor. Pequeno mas irritante pormenor. Aquele pormenor.

"A pele dela até que é macia…"

"O perfume dele até é cheiroso…"

"Mas é uma Weasley!"

"Mas é um Malfoy!"

O corpo dela estava tenso, tanto que ela mal sentia os toques dele.

"-Não estás a facilitar Weasley."

"-Não estou habituada a homens assim."

"-O que queres dizer com isso?" – Perguntou parando de a beijar.

"-Ora! Homens que não conseguem cumprir com o seu dever."

"-Eu também não estou habituado a mulheres irritantes e não é por isso que me vês a reclamar."

"-Não estás a reclamar, mas estás a dar razões para que eu o faça." – Suprimiu um gemido quando sentiu o corpo dele a encaixar-se no seu, de forma brusca.

"-Disseste alguma coisa Weasley?" – Perguntou sarcástico.

Ela afastou os olhos do ponto que fixava no tecto e focou o seu olhar no dele.

"-Disse que te julgava mais competente nesta área Malfoy."

Começou a mover-se sobre ela, num ritmo desajeitado, descoordenado, bruto. Então ela cravou as unhas nos ombros dele, mostrando que também sabia ser violenta. Não se conseguiam entender. Quando ela tentava passar os braços por baixo dos dele ele movia-se de tal modo que ela acabava por tão ter como se mexer. E quando ele pretendia beijar os lábios dela a ruiva desviava-se e ele acabava por beijar o seu ombro.

"-Vamos combinar…uma coisa…"- Falou coma respiração acelerada – "Eu não te tento abraçar… e tu não me… tentas beijar. Ok?"

"-Ok."

Ginevra apoiou os braços no colchão, enquanto Draco permanecia com o rosto a certa distância do dela. Ambos se olhavam mutuamente, e mostravam eventuais expressões esquisitas no rosto.

É claro que a situação era constrangedora. E mais claro ainda que era humilhante. Ambos tinham consciência disso desde o começo. Entretanto, de alguma forma, o momento lhes dava prazer.

Nenhum dos dois jamais admitiria isso, simplesmente porque se tratavam de um Malfoy e uma Weasley a fazerem sexo, então, ter prazer não fazia parte do acordo de casamento.

"-Quando é que isto termina?" – Ginevra tentou parecer séria e entediada, mas a respiração descompassada tornava tudo inútil.

"-Acho que está na hora de tu fingires." – Ele disse, da mesma forma que ela.

"-E por que não tu?"

"-Por que mulheres fingem melhor. Está comprovado isso, Weasley."

Ele movimentou-se um pouco mais rápido sobre ela, enquanto afundava suas mãos nos cabelos dela. Quase sem perceber, Ginevra fechou os olhos, tentando por tudo não sentir o que estava sentindo. E ela não percebeu quando ele próprio fechou os olhos com a mesma intenção.

Não queriam sentir seus corpos quentes e suados, envolvidos de alguma forma com aquela situação repugnante. Não queriam sentir seus corpos tremerem com os movimentos mais rápidos, e muito menos relaxarem, ao mesmo tempo, depois de alguns minutos. E muito menos, queriam ouvir aqueles gemidos tão verdadeiros, mas que eternamente julgariam fingidos, saírem de suas gargantas.

Ambos ficaram parados por alguns minutos. Draco ainda manteve-se sobre ela, tentando recuperar o fôlego ao afundar seu rosto nos cabelos dela. Ela ainda tinha os lençóis presos entre os dedos, tentando voltar ao seu estado normal.

"-Tu finges bem, Weasley."

"-Acredita, Malfoy, tu também. És o melhor fingidor do mundo nestas horas. Mas agora, se não te importas, sai de cima de mim e vai pra bem longe. A cama é grande, tem espaço para ficares bem afastado."

"-Quanto mais afastado de ti, Weasley, melhor para mim!"

"-Para nós, querido. Para nós."

Draco afastou-se e virou de costas para ela, ao mesmo tempo que puxava o lençol para se cobrir. Ela fez o mesmo em seguida.

E aos poucos as respirações se tornaram mais lentas, os corpos arrefeceram, mas ambos permaneceram acordados por muito tempo, tentando por tudo esquecer o que acabara de acontecer.

Ö – Ö – Ö

Suspirou ao lembrar aquela cena. Tinha sido o momento mais constrangedor e humilhante de sua vida, mas mesmo que não admitisse nem para si própria, tinha sido também o mais prazeroso.

Não podia deixar de reparar que sempre que ele segurava a sua mão ou que enlaçavam os braços durante as festas das empresas, sentia um arrepio na espinha. Não podia deixar de notar que os comentários maldosos que ele fazia ao seu ouvido sobre os convidados a faziam tremer profundamente. E não podia ignorar os pensamentos que tinha em relação a ele, quando o via chegar a casa a afrouxar a gravata ou a sair do banheiro com a toalha em torno da cintura.

Virou-se na cama, ficando voltada para as costas dele. Nunca naquele ano e meio de casada tinha sentido tanta vontade de o tocar como sentia naquele momento.

Não entendia o próprio sentimento. Achava-o patético, ridículo. Mas era o que sentia na verdade. Não gostava dele, não o amava. Mas tinha o desejo de sentir os lábios dele nos seus, o desejo de sentir os toques que não tinha aproveitado.

Então ele voltou-se para ela e encarou-a.

"-Não devias dormir? Tens de viajar cedo."

"-Eu não tenho sono." – Respondeu tentado não olhar directamente nos olhos dele.

"-Eu não vou morder se olhares nos meus olhos, sabias?"

"-É difícil prever…." – Comentou casualmente caindo no silêncio.

Ele olhava-a sério, como se a analisasse, e ela não estava a gostar.

"-Como é ter muitas amantes?" – Perguntou um tanto curiosa, para saber como iria ele escapar à conversa.

"-Como é ter muitos amantes?"

"-Não faço ideia. Não tenho tempo para amantes. Foi por isso que perguntei…"

"-Tornam os negócios e as viagem longas menos aborrecidas."

"-Elas sabem que és casado?"

Ele levantou a mão esquerda mostrando-lhe a aliança de ouro branco.

"-Não faço questão de esconder. É algo de que me orgulho."

"-Foi o melhor negócio das nossas vidas, não foi?"

"-Até agora." – Ele afastou uma madeixa ruiva da face dela e depois murmurou – "Vê se dormes."

"-Isso é preocupação?"

"-Não quero que a minha mulher, a minha maior sócia perca o negócio do ano por não ter dormido o suficiente." – Sussurrou antes de se voltar novamente na cama, ficando de costas para ela.

Ginevra suspirou e voltou à posição inicial. E foi assim que adormeceu, alguns minutos depois, enrolada nas cobertas.

Fim do Capítulo 1


N/A:

Kika is back!

Desta vez com uma fic que começou por ser uma short… mas que o deixou de o ser assim que ultrapassou as 40 páginas do Word em Verdana 10.

Agora é uma fic de oito capítulos com um título invulgar.

Mas tudo bem… Aqui fica ela, hoje porque a Bequinha faz anos!
Por isso Bequinha, juízo, que com a tua idade já precisas! Muitos gajos loiros e bons e muita felicidade! Aqui fica a Uh, para ti… Porque tu é que me aguentaste todas as madrugadas…E que me ajudaste nas nc's! Não te esqueças do 'eu carrego toda a culpa blá blá blá…'

Enquanto o fim não chega comentem e deixem a Kika feliz D

Kika
06/03/06