Além do amor

Capítulo 1 - Mas afinal, o que foi que eu vi nele?

Kagome Higurashi era uma moça adorável de cabelos escuros que alcançavam-lhe a metade das costas, e vivia no Japão na década de 1940. Kagome nascera numa família conservadora, e era muito amada; também tinha um irmãozinho mais novo, o Souta. Como toda família tradicional daquela época, Kagome começou a ajudar sua mãe no trabalho doméstico desde pequenininha, e tinha muitos dotes diferentes; sabia costurar perfeitamente (seu passatempo preferido era, nas noites de inverno, sentar ao pé da cadeira de seu avô e ouví-lo contar histórias sobre o Japão, enquanto costurava junto da mãe), sabia cozinhar e tinha um jeito especial com animais.

Era um dia de sol muito tranqüilo, em 1945, e Kagome, com seus 16 anos completos, resolvera dar um passeio pelo campo, perto de sua casa. As árvores sacudiam levemente à brisa mansa de uma tarde maravilhosa; os pássaros cantavam enquanto voavam serenos pelo céu azul.

"Que dia lindo! Vou colher algumas flores e levar para enfeitar minha casa" pensou ela, enquanto andava pelos campos verdes e floridos.

Kagome passeava alegremente perto do lago de águas límpidas, enquanto ia colhendo flores coloridas e cheirosas e brincava com as borboletas. Kagome estava bem na beirinha do lago, e, como estava distraída, não viu alguém que se aproximava rapidamente, igualmente sem perceber. Até que de repente... TCHIBUM! Era água por todo o lado.

Atordoada, Kagome sentou-se no lago (ainda bem que fora na parte rasa...!), onde acabara de cair, e olhou em volta; ela colidira com alguém, que estava encharcado e também estava se levantando, tirando o cabelo do rosto e parecia muito nervoso.

- Por que não olha por onde anda, hein? - disse ele. Então, ele virou-se e viu Kagome caída.

Então, esse alguém ficou de pé de frente para Kagome, e ficou lá, olhando. Nem mesmo estendeu-lhe a mão. Sem graça, Kagome apoiou-se no chão lamacento do lago e levantou, espalhando bastante água.

- Puxa! Me desculpe. - disse ela, desajeitada, torcendo a barra de seu vestido, numa tentativa fracassada de fazê-lo secar.

- Humpf! - bufou o rapaz, agora encarando-a de frente, parecendo irritado. Ele tinha longos cabelos prateados, e profundos olhos dourados, que eram tão claros que pareciam amarelos.

- A culpa foi minha. Eu é que estava andando sem olhar pra frente, e... - Argumentou Kagome, torcendo agora o cabelo.

-Bah...! Vê se presta mais atenção por onde anda! - disse o rapaz. Então, resmungou: - Baka...

- Er...tá legal - disse Kagome, armando um sorrisinho amarelo. "Que grosso!" pensou ela. Então, ela olhou mais atentamente pra ele e percebeu que ele não tinha orelhas humanas, mas orelhinhas de cachorro. Provavelmente era um Youkay! Mas ele não tinha jeito de youkay, era até bem humano... Então só podia ser um Hanyou! Youkais eram comuns por aquelas bandas, mas hanyous eram mais raros. Então, Kagome sugeriu:

- Vamos saindo do lago, então?

- O que você acha que eu estou fazendo? - respondeu ele, grosso, enquanto caminhava até a margem, com uma expressão de desprezo em seu rosto.

Kagome estranhou o jeito dele. Enquanto caminhava até a grama de volta, Kagome ficou pensando nisso, em como ele era antipático. Que jeito mais arrogante de falar, de olhar, de conversar...

- Qual o seu nome mesmo? - perguntou ele, interrompendo os devaneios de Kagome.

- Kagome, Kagome Higurashi. E o seu? - disse ela, feliz por ter alguma conversa decente com ele.

- Inuyasha. - respondeu ele com agressividade, olhando para os pés.

- Certo, Inuyasha. Foi um prazer conhecê-lo! - disse Kagome, estendendo-lhe a mão.

- Humpf. - Bufou novamente Inuyasha, voltando a encará-la. Como ele percebeu que não adiantaria ser grosso com ela novamente, resolveu TENTAR ser simpático.

Acontece que não era muito de seu feitio ser gentil com as pessoas, ainda mais com garotas. - Então tá, dona Kago...

- Dona? Não, não, só Kagome, por favor - disse ela, acanhada, tentando ajeitar seu cabelo (no momento encharcado e colado na cabeça).

- Ahhh, então tá, Kagome. - Então, Inuyasha pegou sua mão, num gesto parecendo que ia dar um beijo... mas ele só a sacudiu num aperto de mão forte e desajeitado. - Nos vemos por aí, Kagome Higurashi! - completou, virando as costas e se afastando.

- Não, não vá ainda... - falou Kagome, mas ele já estava indo embora, com seu kimono vermelho-sangue encharcado espalhando água pela grama.

Inuyasha andava rapidamente, e pensava sem parar no encontro que acabara de ocorrer. "Que boba essa menina... imagina, tentar ser simpática comigo". Então, parou, e olhou por cima de ombro. Ela ainda estava lá, tentando andar com aquele vestido todo encharcado. "Se bem que... ela não é tão desprezível assim... Mas... ela me lembra de alguém... me lembra alguém que eu conheço...".

- Quanta grosseria. Imagine, foi só um acidente... - resmungou Kagome, para sim mesma. - Se bem que... ele... até tentou...

"Engraçado esse Inuyasha. Parece ser estúpido e grosso, mas acho que ele não é assim. Até tentou ser simpático depois!" pensou Kagome, enquanto ia pra casa. Ficava muito difícil andar com aquele vestido molhado grudado no corpo, mas sua casa não era longe e daria pra agüentar até lá.

Ao chegar em casa, Kagome trocou seu vestido por algum seco e penteou os cabelos. Sempre pensando no Inuyasha.

"Mas afinal, o que foi que eu vi nele?"