Capítulo 7 - Amores esquecidos

No dia seguinte, aquela atmosfera tempestuosa ainda permanecia, porém, o dia estava claro.

Kagome acordou bem mais cedo do que de costume, e avisou à Yoko que daria uma volta por aí, para Kouga ficar despreocupado. Então, aproveitou para fazer uma pergunta:

- Yoko, essas feiras aí que tem no vilarejo, duram quanto tempo?

- Ah, as feiras desse vilarejo duram cerca de um mês, por aí. Só que eles escolhem o pior mês, escolhem sempre os mais chuvosos...

- Ahn... E ficam aí até que horas?

- Mais ou menos até o final da manhã, mais ou menos até ao meio dia.

- Ah... obrigada Yoko.

Ela saiu para a brisa fresca da manhã, e caminhou decidida até o vilarejo em que estivera com Hikaru no dia anterior.

A feira estava montada já, porém, com menos pessoas. Kagome avistou a barraca da Kikyou. "Será que ela fecha mais cedo?"

Para evitar que Kikyou a visse, ficou disfarçando, observando outras barraquinhas, passeando pelo vilarejo... mas sem tirar os olhos dela.

Kagome observou que vários caras desocupados mandavam beijos pra ela e passavam umas cantadas, e ela dava sorrisos sensuais em resposta. "Que safada!" pensava Kagome, indignada. Então, finalmente, algumas horas depois, Kikyou começou a recolher suas coisas e desmontar a barraca. "Finalmente!".

Kikyou pegou suas coisas e saiu do centro, com Kagome em seu encalço. Passou por várias casinhas, todas iguais, e subiu uma pequena encosta, onde havia uma casa um pouco desmantelada. "Que lugar horrível! Será que é aí que eles moram?" Pensou Kagome.

Ela observou Kikyou entrar na casa desmantelada e fechar a porta. Silenciosamente, Kagome seguiu-a, foi até a janela e abaixou-se, de modo que ninguém pudesse vê-la do lado de dentro da casa.

O interior do sobrado era também meio relaxado, mas até bem cuidado. Aquela janela era a janela da sala, ou foi o que pareceu; haviam umas cadeiras desparelhadas, e no canto, uma mesa com um monte de velas, incensos e as tais ervas de Kikyou. Kagome observou Kikyou deixando as coisas num canto da sala, e indo ao encontro de alguém...

- Inuyasha! - Kagome sussurrou, com um frio na barriga.

Sem dúvida, era ele mesmo. Tinha os mesmos cabelos compridos, se bem que agora estavam um pouco mais embaraçados; tinha os mesmos olhos maravilhosos, o mesmo sorriso, as mesas orelhinhas que Kagome tanto amava... e, surpresa; o mesmo kimono vermelho de sempre. "Ele não tem outra roupa não?" pensou Kagome. Ficou bem quieta para escutar o que eles diziam:

- Tudo bem Inu? - dizia Kikyou. "INU? Quem ELA PENSA que é pra chamá-lo de Inu?" pensava Kagome, emburrada.

- Sim. E como foi o movimento hoje? Vendeu bastante coisa? - perguntou Inuyasha, sereno.

- Não. Acho que ninguém é muito ligado à essas ervas medicinais aí. - suspirou Kikyou, desapontada.

- Não ligue, meu amor - dizia o hanyou, tomando Kikyou pela mão; -, eles já se contentam com seu lindo sorriso - dizendo isso, ele beijou a mão dela. Kagome sentiu algo horrível, um ciúme gigantesco, como um animal violento e mortífero, que sempre fora mantido preso, mas agora estava se soltando. "O Inuyasha dando bola pra ESSA daí?"

- Bom, Inuyasha, só vim deixar as coisas em casa. Agora eu sairei novamente - disse Kikyou.

- Pra onde você vai? - indagou ele.

- Er... dar umas voltas por aí, er... pegar mais plantas pra vender - disse ela, mas sua voz estava meio vascilante. "Ela está mentindo" pensou Kagome, desconfiada.

- Posso ir com você? - perguntou ele, todo mimoso, fazendo beicinho.

- Por que pergunta? Você já sabe a resposta. Sinto muito, mas não dá. - negou Kikyou.

- Nem se eu te der um beijinho?

- Aí eu posso pensar no caso... - murmurou Kikyou. "SAFADA!" pensou Kagome, furiosa.

- Vamos ver então... - dizendo isso, Inuyasha pegou-a pela cintura e beijou-a... "AAAAAAAAHH QUE HORROR! NÃO ACREDITO QUE ELE BEIJA ESSA CRETINA!" Kagome pensou. Então, fechou os olhos com força, para não ver aquilo, pois estava fazendo mal ao seu coração. Então, com cautela, abriu um olho. Finalmente estavam separados, e Kikyou dizia:

- Apesar de ter sido um beijo e tanto, não dá pra você ir, Inu - disse Kikyou, fazendo Kagome quase explodir ao som daquele "Inu".

- Que pena. - respondeu Inuyasha, desapontado. - Então vou te esperar ansioso...

Kikyou virou as costas e preparou-se para sair. Mas antes, pegou um pacote, que parecia conter velas, colocou-o num bolso, e encaminhou-se até a porta. "Ops! Ela vai me ver! Melhor sair daqui" pensou Kagome, movimentando-se rapidamente até um lugar longe das vistas da 'sacerdotisa'. Ainda escondida, ficou observando Kikyou afastar-se da encosta. Quando percebeu que estava seguro, levantou-se, decidida. "É agora ou nunca, Inuyasha!".

Dando uma ajeitadinha nas vestes, foi até a porta de entrada e bateu de leve, três vezes. Esperou alguns segundos, e a porta se abriu. Ao vê-lo na sua frente depois de tanto tempo, o coração de Kagome parecia que ia saltar de seu peito e voar por aí.

- O que deseja? - perguntou ele, sem nenhum sinal de reconhecimento.

Kagome ficou estática. "Eu mudei tanto assim? Será que ele não me reconhece?"

- Er... oi - começou ela, sem jeito. -, sou eu, a Kagome, lembra-se?

- Kagome? - indagou ele. - Não... não me lembro de você não...

- Er... Kagome Higurashi, sabe! - disse ela, gesticulando nervosamente.

- Nunca te vi na minha vida.

- Não me conhece? - indagou ela, incrédula.

- Eu deveria?

- Como... eu... há três anos atrás, eu e você... sabe, o Kouga me raptou lembra? - continuou ela, desesperada, numa tentativa frenética de fazê-lo demonstrar algum sinal de reconhecimento. "Não é possível que ele não se lembre!".

- Kouga? Três anos atrás? Com licença, mas se você quer esmolas é só falar - disse ele, friamente.

- Inuyasha! Você tem que se lembrar de mim - exclamou ela, as lágrimas agora escorrendo por seu rosto.

- Acho que você andou bebendo demais, ou tá me confundindo com alguém, porque nunca te vi na vida.

- Inuyasha, eu..

- Com licença. - E bateu a porta.

Kagome levou a mão ao rosto. As lágrimas vinham que não paravam mais. "COMO ELE NÃO SE LEMBRA? O que aconteceu com ele?"

Seu coração doía tanto, mas tanto, que ela pensou que teria um infarte. Ela foi cambaleando até o fim da encosta. Então, seus joelhos cederam, e ela ficou lá, ajoelhada, no chão, chorando até não aguentar mais, durante vários minutos.

Quando chorou tudo o que tinha pra chorar, ela levantou-se.

- Inuyasha. Você me paga - diss ela a si mesma, furiosa, seu coração destroçado. - Ou melhor; aquela Kikyou idiota. Sei que ela fez algo à você. E vou descobrir tudo.

Kagome quis ir pra casa, todos deviam estar preocupados por lá. Resolveu passar pelo vilarejo, para conhecê-lo um pouco mais. Ela passou pelo centro, onde ficavam as barracas da feira; passou por muitas casinhas, e chegou num cemitério pequenino. Os portões enferrujados estavam abertos para visitantes. Kagome parou e ficou observando aquele cenário. Ela sentiu um frio na espinha, arrepiando-lhe toda. Ela queria passar reto e ir logo embora, mas algo a fez continuar ali parada. Ela não sabia por que, mas algo dentro dela dizia pra ela entrar no cemitério.

"Acho que só uma visitinha não fará mal a ninguém" pensou ela. "Mas que besteira. Dar volta pelo cemitério... brr!"

Kagome queria ir embora, mas ela sentia que devia entrar. Era sua intuição que lhe dizia isso. E sua intuição nunca falhara. Então, tomou fôlego e cruzou o portal.

Ela deu uma volta, observando todos os túmulos, alguns bem cuidados, outros totalmente abandonados. Ela tropeçou numa cruz de mármore quebrada, e levou um susto com a sombra de uma árvore seca, que ela achou ser uma pessoa. "O que estou fazendo aqui? Tenho que ir embora..." pensou ela. Mas algo a fez parar.

No centro do cemitério, onde havia uma cruz de pedra enorme, estava Kikyou, acendendo várias velas e fazendo orações fervorosas ( - chuta que é macumba! -), usando folhas. Kagome ficou horrorizada. "Então essa tal aí além de ser uma ladra de homem é macumbeira!" pensou Kagome. Então, antes que fosse vista, resolveu sair dali o mais rápido possível...

- Aonde esteve a manhã toda?

- Fui dar uma volta sozinha.

- Por que não avisou à ninguém? - perguntou Kouga, todo bravinho.

- Porque - começou Kagome, cansada -, estavam todos dormindo. E outra, avisei a Yoko.

- Mas...

- Kouga, eu acho que fiquei cansada desse meu passeio. Por que você não vai brincar com o Hikaru enquanto eu costuro um pouco, que tal? - sugeriu Kagome, entediada.

- Ahn.. tá bom.

Kagome sentou-se e pegou umas costuras, que havia deixado sem terminar há muito tempo. "Que saudade de costurar! Quem sabe fazendo algo que eu gosto eu tiro tudo isso da minha cabeça...!"

Apesar dela estar um pouco mais calma agora, os acontecimentos daquela manhã deixaram Kagome super preocupada. Será que Kikyou estava mantendo Inuyasha com uma... poção do amor? "Impossível" pensava Kagome. "Essas coisas só existem em livros e histórias". Mas Kagome ficara muito alarmada com o que vira aquela manhã. E também ficara muito chateada com a reação de Inuyasha. Kagome sempre fora hiper sensível, e agora estava tão frágil como uma teia de aranha ante uma ventania.

Mas ela tiraria tudo a limpo. Só não sabia como! Inuyasha se esquecera completamente dela, a tal da Kikyou prendia-o com macumba, e já desconfiara de alguma coisa. Não tinha jeito de fazê-lo lembrar-se. Mas quem sabe só mais uma tentativa...? Agora ela já sabia os horários que poderia ir até a casa de Inuyasha sem que Kikyou estivesse por perto para atrapalhar... Agora difícil mesmo era achar uma desculpa para sair sem que Kouga viesse interrogá-la...

- Sabe Kagome - começou Kouga, despertando-a de seus devaneios -, acho que você anda muito distraída, nem aí pra mim e pro Hikaru. - completou ele, olhando de relance para o garoto, que brincava um pouco afastado de onde eles estavam.

- Er... não diga isso.

- Mas é serio. Você está muito fechada. E saiu a manhã toda, sem dar nenhuma explicação.

- Sabe o que é, Kouga? - começou ela, sem saber como dizer - Mas estou precisando de um tempo sozinha. Apesar de tudo, não estou acostumada à idéia de não poder mais ficar só, organizando meus pensamentos, como fazia antes. Acho que todos precisam de um tempinho, nem que sejam alguns minutos, para colocar sua mente em ordem. Eu, como mãe, esposa, princesa, blá blá blá, não tenho tempo pra isso. Eu sou muito jovem ainda Kouga. Tudo o que peço é que me deixe um pouco em paz.

Ante esse desabafo, Kouga apenas encarou-a, com uma expressão de solidariedade no rosto. Então, respondeu:

- Sabe, Kagome. Entendo o que você sente. Sei que você quer ter sua vida de volta, você era apenas uma garota quando se casou comigo. Mas agora é uma mulher casada, com um filho, e tem responsabilidades a cumprir... se acalme - emendou ele, ao notar que Kagome ia interrompê-lo - Se você quiser um tempo sozinha, eu respeito isso, Kagome. Acho até muito bom pra você. Sei que não foi fácil passar por tudo o que você já passou. Mas eu só lhe peço uma coisa. Conte a mim, pelo menos a mim, aonde você vai refletir, ou a que horas você vai. Só pra mim não achar que você fugiu de mim.

- Está bem Kouga - respondeu ela, depois de um momento.

- Obrigada - murmurou ele em resposta, dando um sorriso sereno.

Kagome sorriu também em resposta, e segurou na mão de Kouga, com ternura. "Ele é mesmo um bom amigo".

Naquela noite, Kagome resolveu esperar uns dias antes de voltar novamente a falar com Inuyasha. Do jeito que ele era, poderia até xingar Kagome de tudo quanto é nome. Resolveu que iria na semana seguinte, e pensou em tudo o que diria a ele... Mas agora tinha um problema maior a resolver: Como fazê-lo se lembrar de Kagome?

Na semana seguinte, ela levantou um pouco temerosa, pois seria hoje que iria falar com Inuyasha. Dessa vez, deixou um bilhete na mesa de cabeceira de Kouga, explicando que iria dar uma volta pelos arredores.

Ela vestiu-se; depois desceu para a cozinha, e tomou seu café, isolada de todos. Não estava com ânimo àquela manhã.

Então, fez novamente aquele mesmo trajeto até o vilarejo. A feirinha já estava montada, como sempre. Porém, Kikyou ainda não havia chegado. "Está atrasada hoje..."

Kagome ficou esperando que a sacerdotisa chegasse. Mas ela não vinha. Kagome começou a ficar alarmada. Foi até uma senhora de aspecto alegre, que cuidava de uma barraca que vendia amuletos, e perguntou:

- Hoje a moça que vende ervas medicinais não vem?

- Ela não virá mais - respondeu a senhora.

- Como?

- Ah, imagino que não tenha sabido, mas essa moça aí quase nunca vêm. Ela passa uns dias em cada vilarejo, sabe, acho que ela é uma andarília.

- Ahh... obrigada.

Kagome estava completamente tonta. E se ela fora embora? "Calma. Ainda resta uma esperança." pensou ela, tentanto acalmar-se. "Vai ver ela não veio só hoje." Então, tomou o rumo da encosta onde estava a casa de Kikyou. Foi até lá numa caminhada acelerada e ansiosa, cheia de aflição. Até que ela chegou à encosta. Diminuiu o ritmo, e quando deu por si estava já batendo na porta. Silêncio. Outra batida. Parecia não haver vivalma lá dentro.

Kagome experimentou uma sensação de aflição e medo. Hesitante, estendeu a mão até a fechadura da porta. Seus dedos se fecharam sobre a maçaneta gasta. Ela deu um suspiro e abriu a porta.

Qual não foi seu espanto quando encontrou...

Nada.

Não havia nada. O cômodo estava vazio. Não havia Inuyasha, não havia Kikyou, não havia nenhum móvel, nada.

Kagome segurou-se na parede da casa para ela não desmaiar. Eles haviam ido embora. Ela perdera a única chance de encontrá-lo novamente. Ele não sabia sequer quem era agora, a macumbeira o tinha sob seu poder, e não havia nada que Kagome pudesse fazer. Então, ela cedeu e ficou sozinha, no chão imundo daquela casa vazia. E chorou.

- Papai - cochichou Hikaru -, a mamãe está triste?

- Não, filho - respondeu Kouga, preocupado -, ela só está muito cansada.

- Mas papai...

- Deixe-a, Hikaru. Venha, eu brinco com você. - murmurou Kouga, pegando Hikaru pelo braço.

- Mas eu quero ficar com a mamãe! - insistiu o menino.

- Agora não dá, filho. Vamos, faça o que eu mando.

- Mas eu...

- Deixa ele ficar comigo, Kouga - interrompeu Kagome, inesperadamente, do outro lado do quarto.

- Mas Kagome.. você... - e, abaixando o tom de voz - está muito abalada. Por que eu não sei, mas que você está ruim, ah, isso você está.

- Não importa. Eu quero é ficar com o meu filho. - respondeu Kagome, séria. Contrafeito, Kouga soltou o braço do menino, que saiu correndo para os braços da mãe.

Kagome abraçou o pequeno por um longo tempo. Ela agora havia tomado a decisão. Não dava mais pra ter Inuyasha, isso era óbvio. Então, ia tentar amar Kouga como um marido, não como um amigo, e não deixaria aquele maldito hanyou voltar aos seus pensamentos. Nunca mais! Chega de sofrimento. Bom, na verdade, Inuyasha fora seu primeiro amor. E será que se esquece um primeiro amor assim, desse jeito? "Bem", pensou Kagome, irritada, "do mesmo jeito que ele me esqueceu, eu vou esquecê-lo. E ponto final".

Mas algo em seu coração dizia que não seria tão fácil assim.

Oi gente!

Espero que estejam gostando da fic. Esse capítulo ficou meio curto, mas como ele já estava concluído resolvi postar logo xD

Bom... a Kagome tá sofrendo pra caramba, coitada... Mas não parem de ler, muito pelo contrário xD Essa história terá muitas reviravoltas...

Ah, e não parece, mas eu apoio totalmente KAGOME E INUYASHA viu? Não é só porque ela está com o Kouga nessa fic é que eu apoio o amor deles, eca... hehehehe! Ah, e espero que as que gostam da Kikyou fiquem calmas; eu não gosto muito dela não, mas também não a odeio...! É só uma ligeira aversão, ok? xP

Bom, é só!

Até o próximo capítulo!

Beijos!