ALGO CHAMADO DESTINO

Capitulo 6 – Bem vinda, eu?

"Você deixou uma boa gorjeta para eles?" – cochichei para Shaoran no momento que finalmente saímos do restaurante, acenando para a equipe reunida na porta.

"Sim" – afirmou Shaoran

"Ótimo. Eles foram legais"

Fiquei rindo o tempo todo enquanto subíamos as escadas para sair do restaurante, e ri mais ainda quando saímos no ar frio da noite.

"Que legal. Foi muito divertido" – disse me apoiando em Li

"Ótimo" – disse ele – "Agora comporta-se caso contrário não conseguiremos pegar um táxi!"

"Desculpe, Shao, acho que estou meio bêbada, mas me sinto tão feliz..." – disse dando uma voltinha.

"Que bom, mas Sakura, por favor, pode fechar a boca um minutinho!"

Um táxi parou. O motorista estava com cara de irritado.

"Sorria" – disse eu, abafando riso. Entrei quase de gatinhas e Shaoran bateu a porta depois que entrou.

"Para onde?" – perguntou o taxista.

"Para onde o senhor quiser..." – respondi com ar sonhador.

"Hein?..."

"Quando quiser e para onde quiser" – disse eu. – "O que importa? Daqui há cem anos o senhor não vai mais estar aqui, eu não vou mais estar aqui, ele não vai mais estar aqui" – apontei para Shaoran. – "E o seu táxi com certeza não vai mais estar aqui"

"Pare com isso, Sakura" – Shaoran me cutucou, quase aos risos. – "Deixe o homem em paz. Itabashi, por favor."

"É melhor parar em uma loja de bebidas e comprar alguma coisa para levar para a festa"

"O que podemos levar?" – perguntou Shaoran

"Que tal vodca? É meu drinque preferido hoje."

"Certo"

"Não, acho melhor não"

"Por quê?"

"Porque já estou bêbada o suficiente"

"E daí? Você não está se divertindo"

"Estou, mas é melhor eu parar"

"Eu tenho que parar. Vamos comprar outra coisa menos forte."

"Cerveja?"

"Tanto faz"

"Ou você prefere uma garrafa de sakê?"

"O que você quiser."

"Que tal uma caixa de cerveja Kirin Ichiban?"

"Você é que sabe."

"Sakura, por kami-sama! Pare de ser tão submissa e diga o que você prefere. Por que você sempre fica assim concordando com tudo e..."

"Não estou sendo submissa nem concordando com tudo" – ri – "É que realmente tanto faz. Você sabe que não sou muito de beber"

O motorista do táxi soltou uma risada de deboche. Acho que ele não acreditou em mim.

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Dava para ouvir a música alta assim que o táxi virou a esquina.

"Parece que a festa está boa" – disse Shaoran.

"É mesmo." – concordei – "Será que vai dar polícia? Essa é a verdadeira marca de uma grande festa."

"Ah, não ... Pelo barulho, os vizinhos logo vão acabar chamando a policia. Então é melhor entrarmos logo para começarmos a nos divertir, antes os guardas acabem com a festa"

"Não se preocupe" – disse eu, tranqüilizando-o. – "Está escrito a respeito dos guardas: Muitos são chamados, mas poucos são efetivos"

Shaoran riu. Mais do que devia, achei. A vodca pelo visto, ainda estava fazendo efeito. Tivemos uma pequena discussão entre nós, quando quis pagar o táxi. No final Shaoran deu o dinheiro ao homem, com ar de rabugento.

"Você atura muito dessa garota, cara." – disse o taxista no seu comentário de despedida. - "Detesto mulher insolente e tagarela" – e o táxi foi embora.

Fiquei na calçada, olhando cheia de ódio para a traseira do táxi que desaparecia na rua.

"Que atrevimento o dele. Eu não sou insolente e tagarela"

"Sakura, relaxa"

"Ah tá legal"

"Para falar a verdade, ele tinha um pouco de razão. Você é bem insolente e tagarela, às vezes"

"Ah, até você!"

Tentei parecer chateada, mas não consegui prender o riso. Aquele era um comportamento muito incomum para mim. Mas também aquela noite toda estava sendo muito incomum.

Tocamos a campainha da casa onde a festa estava rolando. A porta se abriu e um rapaz de camisa azul ficou parado, olhando para nós.

"Posso ajudá-los?" – perguntou o rapaz com educação.

Foi aí que eu me toquei de não fazia a menor idéia sobre quem estava oferecendo a festa.

"Hãa .." – disse Shaoran

"Humm ... Hiroshi nos convidou" – murmurei

"Ah, certo" – disse o rapaz, sorrindo, e subitamente mais amigável. "–" Quer dizer que vocês são amigos do Hiroshi? Ele é um porra louca mesmo, não acham?

"Hã, sim" – concordei, jogando os olhos para cima – "Porra louca mesmo"

Aquilo era a resposta certa a se dizer, por que a porta se escancarou na mesma hora, fomos aceitos e convidados a passar pelo portal, a fim de participar da animação que desenrolava no lado de dentro. Reparei, com tristeza que havia um terrível amontoado de garotas lá. Umas mil para cada homem, a proporção que normalmente havia nas festas de Tóquio, e todas começaram a olhar para Shaoran com interesse.

"Quem é esse tal de Hiroshi?" – cochichou Shaoran enquanto me empurrava para a sala encharcada de estrogênio.

"Você não ouviu? Ele é um porra louca;"

"Sim, mas quem é ele?

"Sei lá" – sussurrei, disfarçando e olhando em volta para me certificar de o rapaz de camisa azul não estava ouvindo por ali por perto. – "Achei que havia uma grande chance de haver alguém chamado Hiroshi aqui, ou de um Hiroshi ser amigo de um dos moradores. Lei das probabilidades e tals ..."

"Sakura, você é maravilhosa" – disse Shaoran em tom de admiração.

"Não sou, não" –expliquei. –"É que você vive saindo com mulheres muito burras. Posso até exemplificar, como a Saori, Akio. Shaoran realmente são várias! "

"Você está sendo muito cruel comigo" – e me lançou um olhar amargo

"Não, não estou." – argumentei de forma razoável – "Estou falando para o seu próprio bem. Dizer isso magoa mais a mim do que a você"

"Sério?"

Nossa pequena discussão mal havia começado e foi interrompida por uma voz vibrante e alegre.

"Que ótimo vocês terem chegado!"

Kykio, com seu olhar agudo e penetrante, vinha em nossa direção, atravessando com dificuldade a multidão que estava em pé na sala, com latas de cerveja nas mãos. Ela devia estar vigiando a porta de entrada a noite toda, pensei, de forma generosa, e na mesma hora me senti culpada. Não era crime achar Shaoran atraente, apenas uma terrível falta de bom gosto e discernimento. Kikyo estava linda, bem ao jeito de Shaoran. Se ela atacasse do jeito certo e conseguisse fingir que era burra, eu tinha certeza de que havia muita chance de ela ser a próxima namorada de Shaoran.

Kykio, toda exuberante, nos contou o quanto estava feliz por nos ver ali e começou a metralhar perguntas em cima de nós com a velocidade de um carro de formula 1. Por alguns momentos, fui tola para acreditar que era uma conversa real e que eu fazia parte dela. Até que reparei que Kykio recebia minhas histórias com um silencio sepulcral, mas toda vez que Shoaran abria a boca ela se escangalhava toda de tanto rir. E sempre que eu e ela olhávamos nos olhos uma da outra, ela franzia a cara de forma significativa e enérgica. Foi então que notei que ela estava fazendo algum sinal com os lábios. Apertei os olhos para ver melhor. Ela fez de novo. Como que é? ... O que poderia ser? ...Tem som de que? ...Tem duas sílabas?

"Cai fora!"

Ela se inclinou ligeiramente na minha direção cochichou na minha orelha enquanto Shaoran estava ligeiramente distraído, tirando o casaco.

" Pelo amor de Kami Sama! Cai fora!"

Eu sabia quando não era bem vinda. Na verdade, eu era muito boa nisso, às vezes sacava antes até mesmo da outra pessoa. Estranhamente, meu desconfiômetro estava desligado naquela noite. Fiquei vermelha de vergonha. Detestava a sensação de ter feito algo errado.

"Eu ... hã ... vou dar uma volta por aí" – Saí de campo discretamente, me afastei dos dois e fiquei em pé, no meio da sala.

Nenhum dos dois fez objeções a minha saída. Senti um fisgada de desapontamento por Shaoran não tentar me manter ali, ou perguntar para onde eu ia. Senti um pouco. Estava ali, sozinha, não havia ninguém que eu conhecesse em volta, ainda continuava de casaco e tinha certeza de que todo mundo estava olhando para minha cara, achando que não tinha amigos. A euforia induzida pela vodka acabara, e o agudo constrangimento retornara. Subitamente me senti muito sóbria, até demais.

Eu passara quase a vida toda achando que a existência era uma festa para qual não eu não fora convidada. Naquele momento, eu estava realmente em uma festa para qual não fora convidada e era quase reconfortante descobrir que todos os sentimentos que me acompanharam pela maior parte da minha vida – isolamento, inadequação – eram o tempo todo, as emoções certas para sentir.