Eu não tinha planejado escrever outra fic enquanto me ocupava com SS. Não tinha nem me passado pela cabeça essa possibilidade para não me sobrecarregar... Mas existem certas coisas que não dá para escapar...

Tenho certeza que vocês já ouviram falar em um velho ditado que diz "ser mãe é padecer no Paraíso". Me pergunto que tipo de mãe serei no futuro... E em que tipo de mãe sou agora. Qualquer dúvida, acho que eu deveria perguntar à Tha...

Muito bem... É por causa da Tha que eu estou aqui. Minha filhota, minha pequena, que hoje completa 17 aninhos (e não me perguntem como posso ser mãe de uma garota de 17 anos tendo apenas 19. São mistérios perversos...).

"Na sua estante" é um presente para ela. Eu não deveria estar aqui, sabe? Deveria estar estudando para o concurso do MP, deveria estar cuidando da minha gastrite que não me deixa em paz, deveria estar ensaiando para a apresentação de dia das mães do coral... Mas é minha filha. Alguma mãe é capaz de negar alguma coisa à sua filha quando está ao seu pleno alcance atendê-la?

Espero que gostem dessa fic, apesar dela ter sido escrita com uma certa pressa e em meio a muitas rodadas de café e remédios para gripe e estômago... Não estou muito no meu normal hoje. Aliás, não estou no meu normal há muitos dias... Estou falando coisa com coisa? Acho que não...

Bem, então melhor eu ir, antes que comece a babar em cima do teclado. Minha mãe me dopou aqui com remédio... Assim que possível (não sei quando, mas algum dia), vem o próximo capítulo...

Beijos para todos e, obviamente, uma benção especial para a filhota (e eu falo com a senhorita mais tarde...),

Silverghost.


Na sua estante - parte 1


Ela parou diante do portão branco em que tantas vezes se pendurara durante a infância, usando-o quase como gangorra, de um lado para o outro, de um lado para o outro, até sua mãe aparecer e, invariavelmente, tirá-la de lá pelas orelhas.

Sorriu de leve à memória enquanto abria o portão, arrancando dele um longo gemido. Há muitos anos que ninguém usava aquela passagem para deixar o casario. Seus pais sempre tinham preferido a lareira.

Andou alguns metros pelo jardim bem cuidado. Obra da mãe, certamente. Seu pai nunca tivera muito talento para aquele tipo de trabalho. Na verdade, nenhum dos dois tinha talento para tanto... Eram distraídos, desastrados... Mas sua mãe pelo menos tinha magia. Contava um ponto a favor dela. Fora que Andie era realmente muito boa com feitiços domésticos.

Coisa que a filha – definitivamente – não puxara.

Passando a mão pelos cabelos, que insistiam em se arrepiar com o vento frio que soprava pela estrada vazia, ela se apoiou no batente da porta, pronta para tocar a campainha. Entretanto, antes que pudesse fazê-lo, a maçaneta girou sozinha e a passagem se abriu com um clique baixo.

- Boa tarde, Nymphadora!

A jovem piscou os olhos, contrariada, enquanto entrava na casa, fechando a porta atrás de si. A mãe estava sentada numa poltrona, de frente para a tv, a varinha ainda levantada na direção da porta.

- Mãe, quantas vezes eu tenho que pedir...

- Não insista, querida, eu não vou chamá-la pelo sobrenome. – Andie respondeu, sem tirar os olhos da televisão – Sabe, eu não entendo esses trouxas... É claro e óbvio para mim que esses dois são animagos... Acho que eles estão conspirando contra o bispo.

Tonks aproximou-se da poltrona de Andrômeda, olhando por cima da cabeça da mãe.

- Que filme é esse? – ela perguntou, observando uma águia pairar sobre a cabeça de um cavaleiro a conversar com um monge.

- Hum... Lady alguma coisa... - Andrômeda apontou com o pé a caixa da fita no chão – Olhe ali, Nymphadora.

Reprimindo um bufo de raiva, a moça abaixou-se, sentando-se aos pés da mãe e puxando para si a caixa.

- "O feitiço de Áquila". Onde a senhora encontrou esse?

- Seu pai trouxe para mim da cidade ontem. – ela respondeu, voltando-se pela primeira vez para a filha – Que olheiras são essas? O que você anda fazendo, mocinha? Virando noites em batidas de novo?

Tonks não estava prestando atenção na mãe. No momento, seus olhos estavam presos no elegante cavaleiro, que acabara de se transformar em um lobo portentoso, de alvos caninos e olhos escuros.

Andrômeda observou a filha pular, desligando a televisão com um gesto brusco. A moça passou alguns instantes parada, ajoelhada no chão, respirando pesadamente. Passou a mão pelos cabelos que naquele dia estavam de um verde azulado - e voltou a se sentar, virando o rosto para a mãe.

- Eu estou com problemas.

Andrômeda suspirou.

- Deixe-me adivinhar... Tem a ver com o Lupin de novo, não é? – a morena levantou-se, exasperada, começando a caminhar ao longo da sala, sem olhar para a filha – Por Merlin, Nymphadora! Com tantos homens no mundo, por que você tinha que se apaixonar justamente por ele?

Os olhos da jovem se estreitaram em fúria.

- A senhora está dizendo isso por que ele é um lobisomem?

Parando de chofre, Andrômeda encarou a filha com os olhos ligeiramente arregalados.

- Mas é claro que não! De onde você tirou isso? Eu posso ser uma Black, Nymphadora, mas isso não significa... Nunca me passou pela cabeça... – deixando-se cair sentada novamente, a mulher suspirou, escondendo o rosto entre as mãos – Eu receio por você, Nym... Só isso. Mas conheço Remus, como conhecia James e Sirius. Ele não é uma pessoa fácil – ela voltou a levantar a cabeça – O que aconteceu desta vez?

Um meio sorriso apareceu nos lábios da jovem e ela mirou a mãe sonhadoramente.

- Bem, tudo começou mais ou menos semana retrasada... Uma batida a um cinema abandonado, alguns trouxas estavam sendo mantidos em cativeiro por comensais lá...

- Ouvi falar disso. Saiu no Profeta Diário. – Andrômeda respondeu, observando-a com atenção – Mas a notícia foi que o Ministério desbaratou todo o esquema... O que você e Remus podem ter a ver com a história?

Nymphadora arqueou a sobrancelha, os cabelos tomando agora um tom de lilás.

- Aqueles bundões do ministério não tiveram nada a ver com isso. – ela respondeu, mal humorada – Foram as investigações de Remus e Shacklebolt que nos levaram ao esconderijo. Eles só foram se mexer depois que os jornalistas chegaram, quando o pessoal da Ordem já tinha quase dado um jeito em tudo! Eu tive que escapar do Ministério para poder participar da batida!

- Bom saber em que tipo de fria a senhorita anda se metendo. – Andrômeda suspirou – Continue.

- Muito bem... Aconteceu um pequeno acidente durante a batida... Nada muito grave, a senhora não precisa se preocupar... E Remus me levou ao St. Mungus. E depois, ele me levou para o Largo Grimmauld.

- Quer dizer que a senhorita foi internada e não teve a dignidade de mandar uma coruja para sua mãe!

A moça revirou os olhos, já esperando por aquela ceninha. Mas a lembrança do que acontecera depois do hospital fez com que o ar sonhador voltasse para seus olhos. Andrômeda observou a filha em silêncio por alguns instantes antes de balançar a cabeça, suspirando.

O olhar de Nymphadora tornou-se quase sonhador. Andrômeda observou a filha em silêncio por alguns instantes antes de revirar os olhos.

- Hum... Eu acho que não quero saber o que aconteceu em Grimmauld Place...

- Mas, mamãe! Eu não acabei ainda!

Andrômeda arqueou a sobrancelha, num gesto muito parecido ao da filha quando exasperada, e cruzou os braços.

- Nymphadora, você poderia me poupar destes detalhes sórdidos?

Imediatamente, um rubor varreu as faces da jovem e ela se levantou.

- Mas esse é o problema! Não há detalhes sórdidos!

Os olhos da mulher mais velha se arregalaram.

- E você acha isso ruim?

- Claro que acho! Mãe, entenda de uma vez por todas... Não tem como eu me apaixonar por um coelho... Eu já gosto do lobo mau.

Andrômeda revirou os olhos.

- Obrigada pela imagem mental que você me fez formar neste instante. – ela suspirou – Muito bem. Então não aconteceu nada. Vocês continuam no mesmo ponto de sempre, aliás, em ponto algum.

- Também não. – Nymphadora voltou a suspirar, encarando a mãe – Ele cuidou de mim enquanto eu estive meio fraca para me levantar sozinha; e, por favor, não me interrompa, eu não tinha como mandar corujas para a senhora! E, bem... No dia da sopa, ele me beijou. Quer dizer, ele deu um pouco o braço a torcer, não? Ele admitiu, mesmo que sem palavras, que gosta de mim.

A mulher mais velha deu um meio sorriso.

- Remus sempre foi excepcionalmente fechado. Para ter conseguido abrir uma brecha no encouraçado dele, você deve ter realmente se esforçado. Mas o que significa "dia da sopa"?

- Só que ele fez sopa naquele dia. Ele cozinha muito bem, sabia? – ela sorriu de leve, mas logo sua face voltou a se fechar e ela desviou o olhar, fixando-os na janela aberta, por onde a noite podia ser vista, começando a mergulhar todo o mundo em sua colcha de escuridão – Ele passou mais ou menos uma semana um pouco mais receptivo à minha presença. E depois... Depois simplesmente voltou a se fechar. Ele evita ficar sozinho comigo, evita permanecer muito tempo na minha presença, evita até me dirigir a palavra. E eu tenho a impressão de que estou enlouquecendo aos poucos com isso!

Tonks terminou sua confissão com a voz ligeiramente embargada. Andrômeda observou os olhos azulados da filha brilharem ligeiramente até que a moça pigarreasse, conseguindo afinal controlar a vontade de chorar.

Nunca vira sua Nymphadora daquele jeito. Ela jamais se deixara abater por alguma dificuldade ou obstáculo. Desde criança, sempre fora esperta – um tanto desastrada – e muito segura do que queria. Por anos, a menina fora uma verdadeira fortaleza, avessa a relacionamentos sérios, quase um garoto em suas brincadeiras.

- Nym... Sente aqui. – a mulher pediu, abrindo espaço na poltrona para a filha.

A moça levantou-se, quase se arrastando até a mãe. Andrômeda abriu os braços, fazendo com que Nymphadora se aninhasse contra o corpo dela. Por alguns instantes, elas permaneceram em silêncio, enquanto a morena passava os dedos levemente pelos cabelos lilases da outra, numa carícia terna.

- Mãe... – Tonks chamou em uma voz fraca. Nunca se sentira tão fraca e fragilizada quanto naquele momento.

- Calma, pequena... Nós vamos resolver isso... – Andrômeda sorriu – Eu acho que tenho uma idéia. A bem da verdade, as situações eram até parecidas... Eu só preciso providenciar um chocolate quente e...

- Do que a senhora está falando? – ela levantou ligeiramente a cabeça, encarando os olhos escuros da mãe.

Andrômeda sorriu.

- Eu estou falando de sedução.


Caminhava sob a chuva, olhos semi-cerrados, sem se importar com a água fria que penetrava sob sua capa, seu colete, escorrendo pela pele pálida, parecendo disposta a congelá-lo.

Carros passavam acelerados ao seu redor e, uma ou duas vezes, motoristas nervosos tiveram que frear quase em cima dele. Isso, entretanto, não parecia muito importante.

Nada parecia importante, para dizer a verdade.

Com as mãos mergulhadas nos bolsos, ele continuava seu caminho, sem dar maior atenção aos outros passantes. Estava imerso em seus próprios pensamentos, imerso em suas lembranças, em suas dores.

Algumas vielas depois, estava junto a uma grande praça mal cuidada. Aquele já fora um bairro nobre da cidade – hoje era apenas mais um entre dezenas de outros. A lama espirrava em seus sapatos e na longa capa que usava para se proteger à medida que seus passos ecoavam contra ela.

Parou diante de uma porta quase despercebida entre as outras ao seu redor. Número 12. Com cuidado, tirou uma chave prateada do bolso, colocando-a na fechadura e girando duas vezes.

Tão logo entrou no hall, fechando a porta atrás de si, sentiu a diferença de temperatura. Lá dentro, o ar estava abafado, ligeiramente carregado. Por mais limpezas que fossem feitas naquela casa, ele duvidava que, algum dia, aquela mistura de mofo e de coisa guardada se fosse.

Tirando a capa e o casaco, ele dirigiu-se para as escadarias, subindo os degraus lentamente. O corredor que levava aos quartos estava silencioso. Estreitou os olhos. Geralmente, quando chegava àquela hora em casa, Tonks estava em seu quarto, ouvindo musica no último volume enquanto atualizava algum relatório.

Ela não estava de ronda aquela noite. Ele saberia. Mesmo porque, passara no Ministério aquela tarde para encontrar Shacklebolt e a moça não estava lá. Teria acontecido alguma coisa? Ela podia ter se sentido mal e voltado para o St. Mungus... A pancada que ela levara na cabeça fora extremamente violenta e, por alguns instantes, ele chegara a pensar que a perdera.

Sentindo o coração ligeiramente acelerado, ele empurrou a porta do quarto que ela costumava utilizar. Alguns pôsteres de bandas bruxas decoravam as paredes repintadas de lilás. Ele sorriu de leve. Aquela parecia ser a cor preferida dela. Uma série de barbantes estava amarrada na cabeceira da cama, de acordo com ela, um para cada coisa que ela precisava se lembrar, já que não tinha dedos suficientes para suprir sua falta de memória.

Por alguns instantes, ele apenas observou o aposento, recostado ao umbral da porta. Até uma voz grave interromper o curso de seus pensamentos.

- Ela foi visitar a mãe. – um instante de silêncio e a voz voltou a soar - Meus descendentes parecem não gostar muito desta casa.

Havia um certo tom de melancolia na voz sem corpo de Phineas Black. Remus levantou os olhos ambarinos, fixando-os na moldura vazia que permanecia num canto do quarto.

- Creio que nem mesmo você gostava deste lugar. – Remus respondeu numa voz cansada.

Não houve resposta. Meneando a cabeça, ele voltou a fechar cuidadosamente a porta do quarto de Tonks, dirigindo-se para o próprio aposento. Ele também modificara um pouco o cômodo para tornar-se mais agradável a ele. De maneira geral, Grimmauld Place era um lugar opressivo. Não gostava daquela casa, a última prisão daquele que fora um de seus melhores amigos. Mas alguém precisava ficar na sede da Ordem.

Sentou-se pesadamente na cama, que rangeu de leve com esse movimento. Passando as mãos pelo cabelo, fechou os olhos, escondendo o rosto em seguida.

A guerra estava se tornando cada dia mais violenta. Tinham atacado a Toca na semana retrasada. Sorte dos Weasley que Fleur tivesse começado a sentir as primeiras contrações de madrugada, pouco antes dos comensais chegarem.

Tinham destruído tudo. Não sobrara um único tijolo da alegre Toca. A fúria com que a casa tinha sido atacada não podia ser comparada nem mesmo com as últimas "festinhas" de comensais em vilarejos trouxas. Não fora um simples ataque, mas uma resposta. Uma resposta ao que quer que Harry, Ron e Mione estivessem fazendo àquelas alturas.

Estranhamente, aquilo não parecia importar tanto assim para ele. Como nada mais parecia importar. Ele sentia que estava chegando a um ponto em que sua vida já não fazia sentido algum.

Talvez tivesse sido daquela maneira que Sirius se sentira naquelas últimas semanas, antes da invasão do Departamento de Mistérios, antes do véu. Talvez James também tivesse sentido aquilo nos últimos dias em Godric's Hollow, tentando se convencer de que ficaria tudo bem com a esposa e com o filho.

Talvez Peter também se sentisse assim...

Com um suspiro, ele deixou o corpo cansado pender para trás. Deitado, observou o teto de madeira. Aqui e ali, ainda podia ver qualquer coisa que lembrava o antigo estado do aposento antes que ele tentasse consertar as coisas com um pouco de magia.

Nos últimos tempos, apenas uma coisa fazia com que ele reagisse, mesmo que timidamente. Ela costumava dormir no primeiro quarto daquele mesmo corredor, nunca tinha uma aparência muito constante, embora preferisse cabelos curtos lilases e os olhos pendendo entre o azul e o cinzento sombrio de todos os membros de sua família.

Nymphadora Tonks...

Ele não entendia exatamente o que sentia por ela. Só sabia que era impossível ficar impassível diante de uma bela moça de vinte e poucos anos que passava os dias repetindo que o queria, que precisava dele.

Mas se não a amava – ou se não tinha certeza do que sentia afinal por ela – não podia se deixar guiar apenas pelos próprios instintos. O lobo dizia para terminar com aquela tortura de uma vez por todas. O humano pedia que ele esperasse, que ela não merecia a maldição que ele carregava.

Ele tentava agir com o lado humano. Mas não era de ferro. Por vezes, acabava por ceder. E estava começando a ficar cada vez mais difícil controlar-se quando ela se pendurava em seu pescoço, roubando beijos e carícias.

Mais um suspiro. Remus voltou a se levantar, encarando uma estante junto à lareira que costumava aquecer o quarto. Tonks costumava dizer que aquele era seu pequeno altar. Alia havia fotos de todas as pessoas que tinham sido importantes para ele, um dia.

Numa moldura dourada e gasta, seus pais sorriam, embora um ar tristonho não deixasse de ser percebido nos olhos deles. Em outra, James, Sirius, Peter e ele, os quatro bem mais jovens, faziam uma guerra de bolas de neve.

Havia fotos de Lily com as outras colegas de turma - Marlene, Emmeline, Alice, Dorcas... Outra da formatura, com todos juntos. Uma do casamento de James e Lily, outra de Harry recém-nascido... Fotos de Dumbledore, Hagrid, McGonagall, e até uma do Natal de dois anos atrás, de Sirius com os Weasley, Harry e Hermione.

E, por fim, havia uma foto de Nymphadora entre Moody e Shacklebolt. Ele passou os dedos de leve pela face risonha da moça na fotografia. Fechando os olhos, lembrou-se do corpo dela estirado no chão, o corte na cabeça... Lembrou-se dos dias passados à cabeceira dela, enquanto ela estava inconsciente... De uma noite de sábado, duas semanas atrás, quando se deixara levar por aqueles olhos de tempestade, quando...

Meneou a cabeça. Aquilo não voltaria a se repetir. Não se dependesse exclusivamente de sua vontade.


Ted sentiu o habitual peso no fundo do estômago instantes antes de reabrir os olhos e sair pela lareira de sua casa, espanando as roupas da cinza e da fuligem.

Ouviu o som de risos abafados vindos da sala e sentiu um sorriso formar-se em seu próprio rosto enquanto abraçava contra o peito a sacola e a pasta de professor.

Nymphadora foi a primeira a perceber a chegada do pai. Levantando-se rapidamente e tomando cuidado com o mar de álbuns e velhos cadernos da mãe que agora estavam todos espalhados no chão, ela correu para ele, pendurando-se em seu pescoço enquanto lhe dava um beijo estalado no rosto.

- Olá, papai! Como está o senhor?

- Chegamos em Shakespeare hoje. – ele sorriu, trocando um olhar com a esposa, que continuava sentada com um velho álbum no colo – Aliás, falando nisso... "Eu te amo com tanto do meu coração que não me sobra coração para declarar coisa nenhuma".

O sorriso sumiu dos lábios da moça. Aquela era uma velha mania do pai, professor de literatura: cumprimentar todos sempre com uma citação. Geralmente, ele recebia uma citação de volta e corria a anotá-la no surrado caderno que sempre carregava em sua pasta.

Entretanto, preferiria que o pai não tivesse puxado logo uma citação sobre amor.

- "O amor é completamente cego, ligeiramente surdo, fala pelos cotovelos e, para completar, é meio retardado".

- De quem é essa? – Ted perguntou, olhando para a filha com curiosidade.

- Eu mesma. – ela respondeu, com um meio sorriso triste – Bem, agora que o senhor já chegou, acho que posso ir cuidar das minhas próprias coisas. Tenham uma boa noite.

Ela beijou o pai mais uma vez e acenou de leve para a mãe, aparatando em seguida.

- O que deu nessa menina? – ele perguntou, voltando-se para a esposa.

- Síndrome de amor platônico. – Andrômeda respondeu, meneando a cabeça enquanto se levantava – Trouxe mais algum filme para mim?

- Coppola. – ele respondeu simplesmente, entregando uma sacola de fitas para ela.

- Ted, eu amo você, sabia? – Andrômeda observou, com os olhos brilhantes.

O homem apenas sorriu.

- É, eu sei, querida. Eu sei...