Na sua estante - parte 3


Nymphadora correu sob a chuva por alguns instantes, sentido o paletó rapidamente se encharcando, e pregando-se à pele. Os olhos ardiam, mas ela não se daria chance de chorar por ele. Ela não se daria chance de chorar por homem nenhum no mundo.

Mesmo que fosse por um que sabia lavar, passar e cozinhar, que era incrivelmente fofo e...

- Agora chega, Tonks. – ela resmungou para si mesma – Por favor, preserve um pouco de dignidade e auto-estima.

Sem se importar com a tempestade ou com o vento que rugia ao seu redor, ela caminhava sem muita noção do caminho que fazia. Até sentir um par de braços apertarem-na pela cintura e um corpo quente encostar às suas costas.

- O que você pensa que está fazendo debaixo dessa chuva?

A moça sentiu o corpo gelar ao reconhecer o dono da voz. Livrando-se dos braços dele, ela girou os calcanhares, encarando Remus Lupin, ainda com o longo vestido em que ela transfigurara as roupas dele, olhando-a preocupado.

Tinham sorte da rua estar vazia. Seria realmente uma cena muito ridícula de se ver, ela vestida de homem e ele, de mulher. Ambos encharcados.

Fora que vinho, definitivamente, não era a cor de Remus.

Respirou fundo. Tinha que manter a mente fechada. Não ia cair de novo na toca do lobo. Não mesmo. De jeito nenhum.

- Estou me afastando de você. Não era isso que o excelentíssimo queria?

Remus fechou os olhos por alguns instantes e, no segundo seguinte, envolveu a cintura dela em um abraço apertado. Tonks sentiu o chão faltar sob seus pés enquanto ele mergulhava o rosto na curva do pescoço dela, a respiração quente fazendo com que todo seu corpo se contraísse.

Bem... Considerando que ela não chegara realmente a sair da "toca do lobo", visto que, que para esse tipo de coisa, de acordo com as citações de seu pai, apenas o tempo era remédio, podia cometer perjúrio, não?

- Não... Não é isso que você quer? – ela perguntou, numa voz mínima, também de olhos fechados, aos poucos relaxando em meio ao abraço dele.

Em vez de responder, ele endireitou o corpo, encarando-a. Tonks teve que erguer ligeiramente o rosto para encará-lo de volta, visto que ele era bem mais alto que ela. Havia duas pequenas cicatrizes aparentemente recentes na face do homem, uma sobre o nariz e outra no supercílio. Várias outras marcas, já embranquecidas pelo tempo, faziam companhia àquelas lembranças da última lua cheia.

- Não. Não é isso que eu quero. – ele respondeu firme, embora sua voz fosse quase um sussurro.

Ela piscou os olhos, ligeiramente incerta do que fazer. Geralmente era ela que tomava alguma atitude, mas naquele momento, tudo o que ela queria era ser a parte mais frágil da relação e deixar ele tomar as rédeas da situação.

Que se danasse o feminismo e a igualdade de sexos. Se ele continuasse a segurá-la daquela maneira, ela derreteria no segundo seguinte.

Perdida em seus pensamentos confusos, ela sentiu parte da chuva sobre seu rosto ser bloqueada pela face do homem à sua frente. Instante depois, os lábios mornos de Remus roçaram os seus. Ela fechou os olhos, segurando-o firmemente pela gola do vestido, aprofundando o beijo.

Remus respirou fundo, sentindo a chuva misturar-se ao gosto de Nymphadora, uma mistura de filé com biscoitos doces. Apertando-a mais fortemente pela cintura, ele inclinou o rosto, fazendo-a suspirar dentro do beijo.

O fôlego quase a abandonava quando ele se separou, embora sem soltá-la.

- Vamos voltar pra casa. – a voz dele estava rouca e havia qualquer coisa de indefinível nos olhos dele.

Ela assentiu, com um sorriso maroto nos lábios, antes de segui-lo. Na sala, Walburga Black voltara a se aquietar e seu retrato mantinha-se escondido atrás de cortinas rotas. Remus tirou o paletó dela, antes de, com a varinha, murmurar mais um feitiço secante nos dois.

- Você precisa se trocar. Ou vai acabar pegando um resfriado. E já passou tempo suficiente no St. Mungus, na minha opinião.

Sorrindo, ela voltou-se para as escadarias, correndo pelos degraus, sumindo no corredor. Ele meneou a cabeça e voltou a atenção para a cozinha, lembrando-se do bilhete do biscoito. Em seguida, observou novamente as escadas. E, lentamente, começou a subir.

Podia ouvir a voz alegre de Nymphadora ecoando já próximo ao quarto dela. A porta estava aberta e ele se encostou ao portal, sorrindo enquanto observava a porta entreaberta do banheiro. Pouco depois, ela voltou a aparecer, dessa vez enfiada em uma longa camisola de flanela azul com mangas bem mais longas que seus braços. Os cabelos estavam novamente lilases e os olhos tinham um certo brilho avermelhado nas pupilas.

Ele se perguntou se alguma vez conseguiria se acostumar amar uma pessoa que, a cada dia, dependendo do humor, alterava a própria aparência. A moça observou o sorriso dele ser substituído por uma feição mais séria, os olhos profundos fixos nela. Conhecia aquele semblante...

- Remus? – ela chamou, parando junto dele.

- Eu preferia que você se mostrasse... Como você realmente é. – ele pediu, passando as mãos pelos cabelos dela.

Quase que imediatamente, ela se transformou numa moça morena, de brilhantes olhos cor de tempestade. Ele sorriu tristemente e ela percebeu que, se não fizesse alguma coisa rápido, ele se afastaria de novo.

Fechando os olhos, ela segurou-o pelo braço, estendendo a mão dele sobre seu seio. Remus segurou a respiração, observando-a aturdido enquanto ela reabria as orbes cinzentas docemente.

- Remus... Eu não quero ser mais um retrato na sua estante. Eu não aceito que você só admita que me quer tanto quanto eu te quero quando está diante de um pedaço de papel sem vida. Eu quero que você me guarde aqui... – ela colocou a mão no peito dele, antes de apertar a mão dele contra o próprio seio – da mesma maneira que eu te tenho aqui.

Os olhos dele voltaram a expressar o brilho indefinido com o qual ela sempre se surpreendia. Com cuidado, Remus voltou a se aproximar, passando os braços pela cintura dela, trazendo-a para junto de si.

Mais um beijo. Dessa vez, mais calmo do que aquele que tinham trocado sob a chuva. Ela sentiu as mãos dele correrem sobre a camisola, antes de segurarem-na pela cintura firmemente, levantando-a do chão.

Riu, afastando-se dele quando ele a deitou na cama.

- Você ainda está com esse vestido idiota?

- Bem, receio que eu tenha que pagar por parte dos meus pecados até provar que tenho dignidade o suficiente para usar as calças. – ele sorriu, acariciando o rosto dela de leve – Eu amo você, Nymphadora.

Ela assentiu carinhosamente.

- Eu também amo você. Mesmo de saias.

Foi a vez dele rir. Ela se sentou na cama, puxando-o pelas mãos antes de se sentar às costas dele e, delicadamente, começar a abrir os botões do corpete do vestido, revelando a pele machucada do corpo de Remus. Beijando uma cicatriz no ombro dele, ela deixou o tecido escorregar pelo torso dele ao mesmo tempo em que se sentava no colo do ex-professor.

- Eu queria poder ajudar... Queria poder evitar tanta dor... – ela observou num murmúrio, passando os dedos de leve sobre uma das cicatrizes maiores no peito dele.

- Você já faz isso. – ele respondeu, segurando-a firmemente pela cintura – Só olhar para você já parece aliviar todas as dores que existem.

- Está me chamando de remédio, Remus? – ela riu – Você sabia que certos remédios viciam?

- Isso explicaria como chegamos a esse ponto, não? – ele murmurou, voltando a beijá-la, antes de escorregar os lábios pela curva do pescoço, ao mesmo tempo em que inclinava o corpo sobre o dela.

Incapaz de responder, ela abraçou-o pelo pescoço, enquanto as mãos dele se perdiam entre as dobras da camisola, logo em seguida insinuando-se sobre a pele. Remus fechou os olhos, ofegante, encostando a testa junto ao ombro de Tonks. Respirando fundo, ele beijou a linha do decote dela – uma, duas, três vezes, antes de puxar a barra do vestido até a cintura da auror.

Ela levantou os braços, permitindo que ele terminasse de despi-la, sentindo a pele quente dele contra a sua.

- Você nunca estará apenas na minha estante. – ele murmurou, encarando-a mais uma vez, respondendo ao que ela dissera poucos minutos antes – Eu prometo, nunca...

Tonks sorriu.

- Sempre. – ela sussurrou, antes de trazê-lo pela nuca, beijando-o mais uma vez.

.FIM.