Cotidiano Arc

Disclaimer: A série Harry Potter e seus personagens são propriedades da Warner e J.K. Rowling. Apenas os personagens originais são de minha autoria. E nada aqui tem fim lucrativo, foi feito apenas para o entretenimento.

NA: O que é um Arc? Pois bem, Arc é um conjunto de fics dentro de uma única fic. Cada capítulo é uma história independente, uma one-shot, que não se interliga. Por isso ler-se qualquer capítulo separado. Eu tive a idéia de fazer esse Arc da série Entre Extremos quando estava lendo a fic Lessons in Love da Blanche Malfoy. Os personagens dela: James & Lucius foram inspirados nos meus personagens: Day & Alexei. E cada vez que eu leio a fic dela fico com saudades dos meus garotos. Por isso, resolvi fazer esse Arc. Porém, as fics contêm várias histórias, de vários personagens diferentes. E, inicialmente, planejo escrever cinco histórias para o Arc, cada uma inspirada em uma música. Espero, realmente, que gostem da idéia. Beijos, Daphne.

Fic 1: Tem sido um longo caminho (Song: Long time coming – Oliver James)

Shipper: Day Potter & Alexei Yatcheslav

Resumo: Ágata Yatcheslav finalmente descobre o que seu irmão vê em Day Potter.


Tem Sido Um Longo Caminho

Everybody wants to be loved
Every once in a while
We all need someone to hold onto
Just like a helpless child, yeah
Can you whisper in my ear
Let me know it's alright

It's been a long time coming
Down this road
And now I know
What I've been waitin' for
And like a lonely highway
I'm tryin' to get home
Ooo, love's been a long time comin'

A casa estava em polvorosa. Por duas ou três vezes ele viu alguns empregados correrem de um lado para o outro, tentando dar os últimos retoques nas mesas e nos arranjos sobre elas. Perto do cercado branco dos jardins onde uma roseira de rosas vermelhas emaranhava-se na madeira trançada havia uma grande mesa coberta com uma toalha de renda e sobre ela havia duas coisas: um grosso e velho livro aberto e um orbe de cristal. Acima da mesa havia um arco coberto de lírios e em frente a ela estendia-se um longo tapete vermelho que formava um corredor por entre as cadeiras onde os convidados iriam sentar-se para presenciar a cerimônia.

Sua expressão se fechou e seu nariz deu uma torcida como se estivesse sentindo o cheiro de algo bem fedorento em vez do aroma agradável das flores do jardim. Tinha certeza que Ágata tinha feito isto de propósito, mancomunada com a mãe deles para poder marcar a data do casamento em um dia que ele com certeza usaria para estar em outro lugar. Havia sido tão complicado conseguir esta folga no meio do ano letivo e quanto ele sucedeu em convencer Dumbledore a deixar um substituto por ao menos um dia de aula, era arrastado para este inferno que se chamava "casamento" bem no dia do aniversário de vinte e três anos de Day.

- Alexei! – a voz estridente de sua irmã fez o professor enrijecer os ombros e amarrar ainda mais a cara, virando-se sobre os calcanhares para encarar furioso a mulher que descia as escadarias da mansão Yatcheslav em sua direção. – O que você ainda está fazendo vestido deste jeito? – ela fez uma expressão desgostosa ao ver o irmão caçula naquelas detestáveis roupas trouxas. Calça jeans, tênis e camiseta poderiam cair muito bem na figura atlética do rapaz, mas não em uma festa daquele porte.

- Ágata, você não precisa de mim aqui, então porque simplesmente eu não te dou os parabéns e me mando daqui? – tentou persuadir a mulher sabendo que seria uma tentativa inútil. Seus pais e irmãos praticamente o arrastaram de Hogwarts para aquela casa por causa do casamento. Todos dizendo de maneira explícita ou implícita que Alexei ainda tinha compromisso com a família por ser um Yatcheslav e que ele os devia depois de toda a confusão que arrumou. Confusão leia-se como o fato de ele ser gay e namorar um Potter.

- De jeito nenhum! – o ouvido do rapaz zumbiu diante do grito estridente que a mulher deu e ele sentiu ânsias de testar algumas de suas poções experimentais nela. Já teve que sofrer o martírio de, na noite anterior, deixar-se ser arrastado por Akim para um bar celebrar a despedida de solteiro do noivo, um rico e bem sucedido empresário bruxo italiano que Ágata conheceu em uma das várias festas que a Bruxa Semanal dava na editora da revista. Parece que o homem era um dos anunciantes da publicação. E, é claro, era um nome perfeito para se associar e assim elevar a família Yatcheslav as boas graças da comunidade mágica.

Às vezes Alexei tinha vontade de gritar para todo mundo: "Eu estou namorando um Potter, quão bem influente isso pode ser?" Por Deus, era o filho do salvador do mundo mágico! Porém, a única coisa que os outros viam eram dois garotos em uma relação que não era considerada muito natural. Ou ao menos era isso o que seus pais viam e Ágata via. Akim, por outro lado, era neutro nessa história e as vezes, quando Alexei era mais novo, tentava defender o irmão. Mas depois que o ex-sonserino se tornou maior de idade e independente o homem achou que era hora do professor lutar suas próprias batalhas, o que Alexei agradeceu imensamente. Não gostava de ser paparicado por ninguém, salve, é claro, por Day.

Ágata também não era muito de torcer o nariz para o namorado do irmão caçula e na verdade ela pensaria diferente se não sofresse tanto a influência das opiniões de seus pais, principalmente da mãe deles. Era a única menina da família e, por isso, tinha que ter sempre alguém do seu lado de uma maneira irritantemente dependente. Era inteligente, mas, algumas vezes, um pouco lenta para captar as coisas. Não gostava de Day, tratava-o de modo friamente polido, mas claramente não o aprovava. Também não soltava comentário com ofensas subentendidas para ele, como o pai deles fazia, mas preferia se manter indiferente. Akim dizia que o problema da irmã deles era ciúme. Alexei era o caçula, sempre seria o caçula, com o qual ela sempre se sentiu mais próxima e por isso não gostava da idéia de dividir a atenção dele com outra pessoa, ainda mais com outro homem.

Kolya já era um caso a parte. Cada vez que ele olhava para Day ele via Harry Potter, o homem responsável por seu pai ter apodrecido na prisão. Alexei não entendia como o seu pai conseguia sentir desprezo por um Potter pelo fato de Ian ter caído sozinho no fundo do poço depois que Voldemort foi morto e, ao mesmo tempo, sentir desprezo por Ian por ter afundado o nome da família na lama por causa das suas associações. O que ele esperava? Que se Voldemort estivesse vivo isso faria as pessoas lhe lançarem olhares menos tortos quando passavam por eles na rua? Aquele sujeito estava fadado a fracassar, por Merlin, havia sido derrotado por um bebê de um ano. O que o levaria a pensar que conseguiria vencer um bruxo graduado? Akim, novamente com as suas palavras sábias (o que o assustava às vezes), dizia que o problema de Kolya era o orgulho. O patriarca dos Yatcheslav não gostava da idéia de que o seu filho caçula não era mais dependente dele como os outros eram. Akim havia se casado, mas morava em uma das propriedades da família com a esposa e a filha de um ano. Ágata estava prestes a se casar e viveria em uma propriedade do marido que ficava perto da mansão Yatcheslav. Mas e quanto a Alexei?

Alexei passava metade do ano em Hogwarts e quando tinha férias ou ia se refugiar na casa da família Potter, ou no apartamento que o casal possuía em Hogsmeade, ou sumia com o namorado pelo mundo, aproveitando o pouco tempo livre que eles tinham antes de Day embarcar novamente em algum porta-aviões e ele ter que voltar para o castelo e encarar aquelas pestes chamadas alunos. Vivia do seu salário em conjunto com o salário do piloto, nunca tinha procurado os pais para pedir qualquer ajuda e de uma maneira inconsciente tentava ao máximo evitar a sua família, aparecendo vez o outra na mansão em ocasiões extremamente especiais ou mandando cartões festivos e presentes de aniversário via coruja. Afastava-se dia-a-dia do que um dia foi a sua vida e parecia que seus familiares não estavam gostando disso e culpavam o garoto Potter por causa desse rompimento nos laços, fazendo-os buscar qualquer desculpa para arrastar o professor de volta para "casa". E a desculpa da vez era o casamento de Ágata.

- Eu não sou nem o padrinho! – ainda tentou inutilmente argumentar. – As pessoas não vão sentir a minha falta!

- Não! – Ágata bateu o pé como uma criança mimada. – Você é uma peça importante nessa festa, tem que estar presente no meu casamento. Vai sair em todas as mídias, Alexei, o que os outros irão dizer quando souberem que o meu irmão recusou-se a vir ao meu casamento? Você não protestou tanto quando foi a vez do Akim. – emburrou consideravelmente, cruzando os braços sobre os peitos. Seu rosto arredondado pareceu inflar diante da petulância e seus cabelos dourados estavam quase se soltando do elaborado penteado de tanto que ela balançava a cabeça. Alexei ficou surpreso como uma ex-lufa-lufa conseguia agir de maneira tão mimada. Contudo, Ágata ainda conservava a ingenuidade que a colocou nesta casa e com certeza suas colocações não seriam nada perto da astúcia sonserina de Lex.

- Para quê? Para pousarmos para as fotos como uma grande família feliz e eu ter que ler novamente na coluna social "Quando Alexei Yatcheslav irá deixar o jovem Day Potter procurar uma esposa aceitável para ele e encontrar a sua também"? E depois ter que ler as baboseiras que a mamãe fala sobre ainda ter a esperança de que essa fase da minha vida encerre logo? Você não pode ser tão inocente assim Ágata! – fez um gesto largo com a mão, seu rosto ficando avermelhado diante da ignorância da irmã. – Por que você acha que a nossa mãe escolheu logo esse dia para o casamento? Porque com certeza ela sabe que hoje é o aniversário do Day e assim arrumaria um belo motivo para gerar uma confusão entre nós. Como eu vou explicar para o meu namorado que não pude comparecer ao aniversário dele porque tive que ser arrastado para o casamento da minha irmã a força! – sabia que estava sendo cruel com as palavras, mas acontece que ele estava irritado. Não gostava de ficar naquela casa mais tempo que o necessário e por anos desejou ir embora dela. Agora que tinha conseguido, era obrigado sempre a voltar por um motivo ou por outro.

- Por que tudo para você é aquele garoto Potter? – rebateu a mulher igualmente irritada. Tudo na vida de Alexei agora era o Potter. Era Day isso, Day aquilo. Não entendia se aquilo era amor ou obsessão. – Por que você simplesmente não pode tirar um dia da sua tão atarefada vida para passar com a sua família? Nós te criamos Alexei, nós estamos ao seu lado desde que você nasceu e esse menino Day, o que ele fez por você até hoje além de te arrumar problemas? Se não gosta dos comentários que os jornais lançam contra vocês, não deveriam ter começado isso tudo! Então agüenta! E vai vestir a maldita da roupa de gala. – ordenou em um tom de ponto final e rodou sobre os saltos, voltando agitada para dentro da mansão. Alexei soltou um urro de raiva e retirou a varinha de seu bolso, explodindo o arranjo de flores da mesa mais próxima. Alguns empregados olharam para ele com expressões iradas por destruir o seu trabalho, mas o rapaz apenas retribuiu com um olhar gélido e entrou na mansão como um furacão.

Bateu a porta de seu antigo quarto, lançando um olhar de desprezo para as roupas de gala estendidas impecavelmente sobre a cama. Tinha vontade de tacar fogo nelas, mas rebelar-se dessa maneira não iria livrá-lo da situação em que estava no momento. Dois meses, tinha passado dois meses sem ver Day e agora que o jovem aportava pela primeira vez depois de todo esse tempo, logo em um dia especial como o seu aniversário, teria que ficar longe dele. Havia mandado cartas para a Sra. Potter explicando o motivo de sua ausência na festa que a família do piloto estava preparando para os gêmeos, pois sabia que Dallas conseguiria acalmar qualquer anseio do filho. Mas, enquanto isso, ele ficaria ali, preso naquele casamento se sentido totalmente um peixe fora d'água e odiando cada momento.

Em sua suíte, Ágata tremeu ao ouvir o estrondo que a porta do quarto de Alexei fez e soltou um longo suspiro, vendo pelo reflexo do espelho da penteadeira a cabeleireira ajeitando novamente as suas madeixas claras. Ainda não conseguia compreender o que Day Potter tinha. Por que ele era tão especial, o que o fazia prender a atenção do irmão caçula e o fazer esquecer todas as suas responsabilidades como um Yatcheslav? Era a função deles preservar o legado da família, trazê-la novamente para dentro dos bons círculos da sociedade. O processo já tinha começado com Kolya quando ele se casou com a mãe deles, Darya, e depois foi Akim e agora era ela. Nada mais natural Alexei ser o próximo da lista. Mas Lex nunca fez nada de acordo com as regras mesmo. Entrara para a Sonserina quando todos de sua família fizeram de tudo para se manter longe daquela casa que foi a desgraça de seu avô e se apaixonou por um Potter, que foi um dos responsáveis por revelar ao mundo o fato de Ian ser um Comensal da Morte.

Voltou seus olhos âmbares para a grande janela de seu quarto onde o sol da tarde iluminava com intensidade os preparativos nos jardins. Sempre tinha tratado o garoto Potter com uma polidez distante, pois não via nada de diferente no rapaz. Ele era pequeno demais para um homem, tinha os cabelos negros e meio desarrumados, os olhos eram estranhamente violetas e sempre parecia um pouco incomodado por estar na presença da família Yatcheslav e sempre procurando Alexei com os olhos pelo salão, como se quisesse agarrar o homem e sumir com ele dali. Nunca parou para conversar com ele mais do que duas frases e sempre o considerou um pouco aculturado, pois nunca tinha um assunto interessante. Ou ao menos fingia não ter apenas para não permanecer muito na companhia dela.

A cabeleireira terminou o seu trabalho e Ágata ergueu-se da cadeira acolchoada, caminhando para trás de um biombo e permitindo que as empregadas a ajudassem a colocar o seu belíssimo vestido de noiva. Já pronta à mulher sentou-se na beirada da cama, dispensando com um gesto de mão todas as pessoas que estavam em seu quarto e pôs-se a esperar. Sabia que estava adiantada para uma noiva, mas gostava de ter tudo organizado antes da hora para assim estar preparada para qualquer imprevisto. Levantou-se da cama e caminhou até a bancada que estava em seu quarto e olhou mais uma vez os funcionários do bufett dar os últimos retoques na decoração. As portas da mansão abriram-se sob a sua janela e delas saiu Alexei, belamente vestido em seu traje de gala. Sorriu um pouco ao ver o irmão e seus olhos o acompanharam até uma das mesas onde ele puxou uma cadeira e sentou-se, apoiando a cabeça sobre uma das mãos em uma pose miserável. Franziu as finas sobrancelhas por causa disso. Lex não parecia realmente feliz. E isso tudo era por casa daquele menino? Deu um relance para o relógio caro na parede de seu quarto e mordeu o lábio inferior, decidindo o que fazer. Com um suspiro resignado desaparatou.


Deixou a sua bolsa de viagem cair com um baque no chão e os seus olhos violetas rodaram pelo ambiente a sua volta, inspirando profundamente o cheiro de limpeza que estava naquele lugar. Sorriu abertamente, deixando o seu corpo cair no macio sofá de couro e esticando-se sobre ele como um gato preguiçoso. Suspirou, agarrando uma das almofadas e a abraçando contra o peito apertado, soltando outro suspiro ao sentir o cheiro de Alexei nela. O professor tinha a irritante mania de usar a mesa de café da sala para corrigir deveres dos alunos nos finais de semana e Day cansou de ter que sair no meio da madrugada da cama e vir recolher o ex-sonserino que estava adormecido no sofá.

- Você parece feliz de estar em casa. – o piloto arregalou os olhos e num pulo saiu do sofá, largando a almofada sobre ele e olhando aterrorizado para a pessoa que entrava na sala, saída recentemente da cozinha.

- MÃE! – seu coração veio à boca de susto. Desde quando a sua mãe tinha a chave da sua casa? A idéia era completamente assustadora e bizarra. Sentiu um arrepio descer a espinha só de pensar nisso e Dallas riu diante da reação do filho. – O que você está fazendo aqui? – perguntou chocado e a mulher gargalhou mais ainda.

- Bancando a coruja-correio. – outra voz preencheu a sala e o jovem arregalou os olhos. Faye acabava de sair da cozinha e sentava-se displicente no sofá. Por um momento ele sentiu ânsias de segurar no braço da irmã e arrancá-la dali num puxão. Aquele sofá não era lá muito imaculado e a menina só tinha nove anos, se soubesse o que já tinha acontecido em cima daquele couro não teria sentado nele. Sentia como se estivesse denegrindo Faye de uma maneira indireta. – O que foi? – perguntou quando viu o olhar nervoso de Day sobre si e esse deu um sorriso sem graça, balançando as mãos em uma negativa.

- Nada. Coruja-correio? – tentou mudar de assunto, voltando a sua atenção para Dallas que fez uma careta condoída.

- Alexei me contatou esta manhã e disse que, infelizmente, não poderia comparecer no jantar que estávamos planejando em dar pelo seu aniversário e o de Hannah. Parece que a irmã vai casar e a mãe dele o arrastou para casa. – Day segurou-se para não fazer uma careta de desagrado à menção da sogra. Sempre havia aquela tradição de que elas eram o demônio encarnado e ele nunca conseguia entender os seus amigos quando eles reclamavam das mães de suas namoradas ou namorados. Isso até que ele conheceu a mãe do seu. Darya Yatcheslav simplesmente fazia parte do fã-clube "Nós odiamos o Potter!", o que ao lado do fã-clube "Nós amamos o Potter", tinha um número considerável de integrantes para fazer comparações.

- Hum. – foi tudo o que ele respondeu a essa notícia e recolheu a sua bolsa, caminhando a passos rápidos em direção ao seu quarto, abrindo a porta desse largamente e jogando a mochila com força sobre a cama de casal. Dallas e Faye estavam rapidamente no seu encalço e entrando atrás dele no aposento.

- Foi inesperado, Day! – a mulher tentou justificar para o filho e Day deu um relance sobre o ombro, tentando entender porque a sua mãe estava tentando arrumar desculpas para Alexei. Não era a missão dela fazer isso. Parecia até que ela tinha medo que qualquer conflito entre o casal fosse gerar o mesmo desastre que gerou há nove anos atrás quando Day quase colocou o estádio de Hogwarts abaixo.

- Eu sei que foi inesperado. – tranqüilizou o rapaz, abrindo os primeiro botões do seu uniforme de piloto naval. – E sei que Lex deve ter protestado muito antes de ir para a mansão Yatcheslav, mas não deixa de ser frustrante o fato de que tínhamos planos para este dia e que eu estava ansioso em revê-lo depois de dois meses. Eu sei que a Sra. Yatcheslav vai tentar mantê-lo mais tempo lá depois do casamento e tentar convencê-lo a voltar a sua antiga vida. – escarneceu, já imaginando os discursos que Darya estaria dando ao filho sobre arrumar uma boa esposa e continuar com o nome Yatcheslav.

- Quem se importa? – Faye resmungou, entrando no quarto e jogando-se sobre o colchão macio da cama. Day enrijeceu novamente ao ver a irmã ali sobre o lugar mais sagrado da casa. Dava-lhe nos nervos ver outra pessoa sobre o local que, de modo piegas, era o "ninho de amor" do casal. Sem contar que se o sofá viu coisas indecorosas, a cama já era pervertida por gerações. – Ele com certeza, no momento, deve estar arrumando um modo de se livrar daquele ninho de cobras. – finalizou e soltou uma risadinha zombeteira diante do trocadilho. Uma cobra tentando fugir do ninho de cobras. Day balançou a cabeça exasperado, não precisava ser um gênio para saber em qual casa essa menina acabaria quando entrasse em Hogwarts. Ela não tinha o gênio quente que Hannah possuía, mas continha a malícia característica da irmã mais velha. Más influências da cantora e de Alexei, que adorava Faye e a carregava sob a sua asa como uma aprendiz. Os dois juntos eram terríveis e Day temia ainda mais o dia em que eles começassem a conviver diariamente em Hogwarts. A escola tremeria nas bases com aqueles dois, com certeza.

- Eu me importo. – Day respondeu num sussurro quase inaudível, deixando o blazer do seu uniforme deslizar pelos seus ombros e começou a afrouxar a gravata azul marinho. Dallas lançou um olhar piedoso para o filho e depois mirou a sua caçula, que rolou os olhos e soltou um bufo ao interpretar o pedido silencioso da mãe de sair do quarto. Indignada ela foi para a sala para deixar os dois adultos conversarem melhor.

- Querido, eu sei que isso o chateia, mas por mais que Alexei queira ele não pode simplesmente cortar todos os laços com a família dele. Eu tentei uma vez e não deu certo, se lembra? – disse a mulher e Day meneou a cabeça positivamente, compreendendo o que ela queria dizer. Falava sobre Amélia e a reaproximação dela com Dallas e o fato de, hoje, Evan ser o presidente das Empresas Winford. – Dê tempo ao tempo e você vai ver que tudo… - mas o que ela pretendia dizer foi cortado quando a campainha soou estridente pelo apartamento. Ambos se entreolharam e antes que pudessem chegar propriamente na sala, Faye já tinha aberto a porta para o visitante.

A menina arregalou os olhos e a boca ao ver a mulher na porta da casa e depois de alguns segundos de choque começou a rir histericamente, largando a maçaneta da porta e voltando para dentro da sala, deixando seu corpo cair no sofá enquanto ele tremia por causa dos risos. Dallas fez uma cara de espanto, não entendendo nada da situação e Day torceu o rosto em uma careta ao reconhecer a figura na sua porta.

- Ágata. – disse com uma voz arrastada e Faye parou de rir, mirando o irmão com olhos largos e Dallas virou-se para o filho totalmente surpresa. Só tinha ouvido esse tradicional tom arrastado em um tipo de pessoa em toda a sua vida: sonserinos. Era a marca registrada deles, era o modo deles de expressar o seu desprezo por alguém. E, até onde ela se lembrava, seu filho fora um perfeito grifinório. Harry teria um treco se pudesse ver Day agora. Com certeza ficaria reclamando por dias em como Alexei corrompeu o garoto.

- Potter. – ela retribuiu o cumprimento friamente, olhando para as duas outras pessoas que estavam com Day na casa. Uma ela reconheceu como a mãe do menino e a outra ela não sabia dizer quem era, embora visse semelhanças entre a criança, a mulher e Day. Sem esperar ser convidada ela entrou no apartamento, envolvendo as várias saias do seu vestido de noiva com as mãos para poder evitar pisar nas barras. Com extrema segurança aprofundou-se na casa até chegar ao quarto do seu irmão. Day levou um choque ao ver mulher entrar sem ser convidada e sumir apartamento adentro, mas quando ouviu o barulho de portas batendo rapidamente acordou e correu atrás da maluca.

- O que você está fazendo? – sibilou para a noiva que revirava o armário deles. Ágata olhou por cima do ombro para o rapaz e sentiu seu coração dar um pequeno pulo com a visão que se presenciou na sua frente. Estava tão concentrada na missão que veio cumprir aqui que nem dia dado um relance ao jovem. Mas, agora que o via direito, conseguia compreender melhor os motivos de Alexei.

A luz do sol do entardecer entrava pelas grandes janelas do quarto e pareciam refletir o rapaz na soleira da porta. A camisa branca do uniforme quase justa ao corpo, a gravata balançando preguiçosa pelos ombros largos fazendo companhia a calça azul marinho e os sapatos bem lustrados formavam um grande conjunto e o deixava estranhamente sedutor. Os cabelos negros e curtos em contraste com a luz pareciam obter mechas douradas e os olhos brilhavam mais que o normal diante da luz natural. Lembrava de uma vez ter ouvido o irmão comentar como o namorado ficava atraente de uniforme, mas nunca tinha compreendido o que ele quis dizer, pois não sabia o porquê Potter usava uniforme e quando descobriu não fazia a mínima idéia de como eram as vestimentas da marinha para imaginá-lo nelas. Agora sabia como era e conseguia visualizá-lo nelas e sabia que ele deveria ficar muito… Corou diante desses pensamentos e voltou a sua atenção para o armário.

- Você não tem vestes de gala não? – resmungou, colocou as mãos sobre a cintura fina marcada pelo corpete que formava a parte superior do vestido e virou-se para encarar o cunhado que estava com os olhos largos.

- Parece que vocês têm um problema para resolver. – a voz de Dallas soou atrás de Day. – Vou voltar para casa e dizer que você não vai comparecer ao jantar. – o rapaz olhou horrorizado para a mãe. Como assim? Dallas apenas deu um sorriso misterioso para ele e depois lançou um olhar sábio para Ágata, segurando firmemente na mão de Faye e com um aceno de despedida desaparatando do apartamento.

- E então? – Ágata virou-se bruscamente para encarar Day, batendo os pés firmemente no chão com as mãos sobre os quadris. O rapaz pareceu sair do seu estupor finalmente e lhe lançou um olhar irado.

- Você enlouqueceu de vez Yatcheslav! – rosnou e cruzou o quarto como um raio, passando por ela e fechando as portas do armário com um estrondo. – O que deu em você para aparecer do nada na minha casa, invadir o meu quarto e mexer nas minhas coisas? – exigiu furioso com o rosto ficando vermelho a cada minuto. A única pessoa da família de Alexei que já tinha estado naquele apartamento fora Akim e esse era o único parente do namorado que ele tolerava, pois era sempre educado com ele. Não era muito afetuoso, coisa que ele percebeu ser da própria personalidade do homem, mas era gentil ao seu modo e não ficava olhando Day como se sempre estivesse o repreendendo de uma maneira ou de outra. Como Ágata o olhava ou Darya e, o pior de todos, Kolya.

- Esta também é a casa do meu irmão, o quarto do meu irmão, as coisas do meu irmão! – rebateu firme e petulante e Day sentiu vontade de arrancá-la dali pelos cabelos bem arrumados. Ela era tão irritante quanto Alexei era na época de escola e totalmente intolerável. Era uma mulher de quase trinta anos na cara que se comportava como uma menina mimada de quinze anos quando não conseguia a roupa da moda que queria. Ainda não podia crer que essa era a mesma mulher que era editora da famosa Bruxa Semanal.

- Não deste lado do armário! – retrucou, apontando ferozmente para a porta do armário onde ele guardava os seus pertences e que Ágata estava remexendo minutos atrás.

- Você tem ou não tem um traje de gala? – voltou ao assunto inicial, pois estava perdendo muito tempo com aquela discussão infrutífera. Day cruzou os braços sobre o peito e a encarou firmemente.

- Pra que quer saber? – perguntou desconfiado e a mulher soltou um bufo deselegante.

- Porque eu não posso permitir que você entre no meu casamento vestido desse jeito! – e apontou para o uniforme o qual ele tinha despido a metade. – E não! Não me olhe com essa cara de espanto, eu vim aqui sim para te buscar para o casamento. Talvez assim Alexei desfaça a cara de enterro. – reiterou ao ver a expressão confusa do rapaz.

- Então eu sinto muito minha cara, mas se você não gosta das minhas roupas vai ter que conviver com elas, pois todos os meus trajes de gala são trajes oficiais. – provocou, erguendo uma sobrancelha. Óbvio que tinha outros trajes de gala que não fossem trajes da marinha, mas eram trouxas e com certeza Ágata não permitiria que ele usasse esse tipo de roupa em seu casamento perfeitamente bruxo. Ela soltou um resmungo e novamente começou a revirar as suas coisas. Day tentou impedi-la, mas a mulher o afastou com um empurrão e minutos depois de procura saiu de dentro do armário com algumas peças de roupas que lhe pareceram adequadas a ocasião, as jogando para um jovem chocado, caído sobre a cama.

- Agora vá se arrumar porque não temos muito tempo. – ordenou e o puxou pelo braço, o guiando até o banheiro acoplado ao quarto e fechando a porta no rosto do garoto surpreso. Ágata voltou para o quarto, sentando-se elegantemente na beirada da cama e deu um sorriso de triunfo quando ouviu o barulho do chuveiro ser ligado. Agora, era só esperar.

Vinte minutos depois um Day arrumado saía do banheiro e sentava-se ao lado da mulher na cama, começando a calçar os seus sapatos enquanto de rabo de olho observava todos os movimentos da noiva. Terminou a sua tarefa e ergueu o corpo, passando as mãos nos cabelos curtos e molhados e os arrepiando intensamente. Ágata deu mais um sorriso. Certo, agora ela admitia o que o irmão via fisicamente no namorado. O rapaz era realmente bonito, mais do que ela se lembrava, mas ainda sim não conseguia compreender o que ele vira na personalidade.

- Ótimo, e agora? – perguntou arrogante, cruzando os braços sobre o peito e empinando o nariz em uma postura que a mulher sabia era marca registrada do seu irmão. Piscou seus grandes olhos âmbares e deu mais um sorriso ao ver a influência que Alexei exercia no namorado. Pensava que era uma via de mão única, pensava que apenas Day influenciava o jovem russo, mas parecia que não era bem assim. O ex-grifinório, por outro lado, já estava ficando irritado com aqueles sorrisos da mulher e o fato de que ela não falava nada, apenas ficava olhando para ele com aquele maldito olhar avaliador como se o estivesse julgando.

- E agora nós partiremos. Uma noiva se atrasar dez minutos é elegante. Se atrasar uma hora é totalmente falta de decoro. – respondeu alegremente, segurando no braço dele e o erguendo da cama. Antes que Day tivesse tempo de protestar qualquer coisa eles já tinham desaparatado.


Darya perambulava pelo quarto impaciente, olhando vez ou outra de maneira atravessada para as empregadas que tentavam acalmar a mulher. Seu corpo robusto e rosto redondo pareciam inflar ainda mais de raiva. Havia aparecido vinte minutos mais cedo no quarto da filha para saber como estavam as coisas e quase teve um ataque ao ver que a noiva não estava onde deveria estar, e ninguém sabia para onde ela tinha ido.

- Quando ela retornar… - resmungou em um tom ameaçador. Ágata era uma mulher crescida, mas às vezes tendia a agir como uma menina irresponsável.

O som de estalos ecoou no quarto e a senhora virou-se bruscamente com as palavras na ponta da língua para poder repreender a sua filha irresponsável. Seus olhos castanhos estreitaram-se em desagrado quando viu que, junto com ela, havia um rapaz, um rapaz que ela daria toda a sua fortuna para manter o mais longe o possível da sua família. E, principalmente, do seu filho caçula. Seu olhar desceu do rosto bonito de Day para as mãos entrelaçadas dos dois jovens adultos. Ágata deu um puxão na mão dele e levou o piloto em direção a janela, ignorando o olhar assassino de sua mãe.

- Ah, ele continua da mesma maneira que o deixei. – comentou animada, apontando para um Alexei que estava na mesma mesa em que sentou mais cedo, acompanhado por alguns parentes que tagarelavam a sua volta e os quais ele ignorava veementemente. Virou-se com um sorriso largo para o jovem ainda extremamente confuso diante das atitudes doidas de sua cunhada. Ela estava totalmente diferente de como normalmente agia. Talvez fosse o casamento que tenha melhorado o humor dela ou talvez ela tenha adquirido algum senso de humanidade neste meio tempo, vai entender. Loucos não se contrariam, não é mesmo?

- Ágata por que você está fazendo… - ainda tentou compreender, ignorando a expressão azeda de sua sogra que abriu a boca para soltar um comentário desdenhoso, mas um olhar firme da filha a fez se calar. Darya também não estava entendendo nada. Ágata tinha sumido no dia do casamento para ir à casa de Alexei e buscar aquele fedelho? Por quê?

- Eu não sei o que Lex vê em você – começou a mulher, ajeitando o seu véu displicente enquanto mirava o irmão miserável nos jardins. – E eu te trouxe aqui para descobrir. – completou, alisando com as palmas das mãos as saias de seu vestido. – Você já esteve na mansão, sabe o caminho. Então, fora, fora! – o dispensou com um aceno de mão e Day ainda a olhou por um bom tempo antes de dar de ombros e sair às pressas do quarto. Assim que a porta fechou-se atrás do rapaz, Darya Yatcheslav abriu a boca para soltar uma lista de comentários ácidos, mas uma ordem de Ágata a calou. Não queria ouvir o tom azedo de sua mãe no dia do seu casamento, pois estava de muito bom humor e nada estragaria isso.

Alexei cruzou os braços sobre a mesa, escondendo o rosto sobre eles e ignorando o tagarelar de suas tias. Todas as três estavam dispostas a arrancar de sua pessoa qualquer detalhe sobre a sua tão polêmica relação com o herdeiro dos Potter, sempre soltando um comentário ou outro sobre quando ele iria se casar e ter filhos.

- Até onde sei, Day não tem sistema reprodutivo capaz de comportar uma criança. – respondeu atravessado e voltou a ignorá-las, ainda mais quando o tom delas aumentou por causa da resposta malcriada, todas querendo repreendê-lo ao mesmo tempo. Era o inferno. Ele estava no inferno e ainda não entendia o que o fazia ainda ficar ali e aturar aquela papagaiada toda. Depois de alguns minutos de reclamações atrás de reclamações, tudo ficou quieto e as suas orelhas doloridas quase agradeceram pelo silêncio que finalmente surgiu na mesa. Alexei soltou um suspiro satisfeito, não erguendo a cabeça para ver se o motivo do silêncio era porque elas tinham ido embora ou simplesmente calado a boca por livre e espontânea vontade, apenas relaxou mais os ombros e tentou esquecer por um breve momento que estava ali. Sentiu uma presença atrás de si, mas não se virou para ver quem era, pois com certeza deveria ser mais um parente com o qual ele não estava disposto a lidar.

- Surpresa. – uma voz rouca sussurrou em seu ouvido. Uma voz deliciosamente familiar.

Num rompante Alexei ergueu-se da sua cadeira como se tivesse levado um choque intenso no corpo e se virou com os olhos largos na direção da pessoa que tinha acabado de chegar, seus cabelos longos e castanhos caindo sobre os olhos que agora brilhavam e refletiam intensamente o pôr-do-sol e um sorriso começou a brotar lentamente em seus lábios rosados. Na sua frente estava Day vestido maravilhosamente com um conjunto de blazer e calça negros, combinando com os sapatos, e a camisa de seda violeta escura, quase azul, realçavam mais ainda os olhos exóticos. As mãos nos bolsos da calça lhe davam uma postura relaxada e o sorriso de perfeitos dentes brancos parecia iluminar o jardim mais do que as luzes das fadinhas que começavam a surgir com o cair da noite.

- O que faz aqui? – perguntou com uma voz quase sumida, esticando o braço hesitante, como se ele fosse algum tipo de visão. As pontas de seus dedos tocaram no medalhão do amor eterno que pendia no pescoço do rapaz e o acariciou de modo delicado. O medalhão que Day jamais tirou desde o dia que o ganhou, o mesmo medalhão que Kolya costumava olhar com desprezo quando descobriu que o caçula tinha dado uma lembrança da sua mãe ao namorado.

- Maluquice é mal de família. – Day respondeu divertido, colocando uma mão suavemente sobre aquela que segurava e ajeitava o medalhão sobre o seu peito. – Sua irmã apareceu lá em casa e me arrastou até aqui, me convidando para o casamento, disse que talvez assim eu melhorasse o seu humor. – Alexei compartilhou o sorriso, dando um relance por cima do ombro para uma das bancadas da casa onde ele viu Ágata testemunhando toda a cena. Deu um sorriso mais largo ainda para a mulher, que deu um aceno positivo de cabeça para ele como resposta.

- Ela não poderia estar mais certa. – sussurrou antes de dar um puxão suave na jóia e fazendo Day se aproximar dele a passos lentos. – Feliz aniversário meu amor. – murmurou antes de beijá-lo suavemente em frente a todos naquele jardim.

Da janela de seu quarto Ágata observou cada movimento, prestou atenção em cada palavra dita, cada gesto de corpo. Viu quando Potter apareceu nos jardins e cumprimentou seu irmão. Viu quando Alexei pareceu mudar da água para o vinho, a postura caída e deprimida deu lugar a um homem vivaz e sorridente e a aura melancólica que o envolvia parecia ter se iluminado como em uma manhã ensolarada de verão. Era impressionante como apenas uma pessoa conseguia fazer o sisudo Lex mudar totalmente. Observou a conversa dos dois, o toque suave do ex-sonserino na jóia que o piloto sempre carregava, a troca de sorrisos, de carícias quase imperceptíveis e, por fim, o beijo. Era suave, breve, mas para um espectador ele era extremamente revelador. Quase pode tocar os sentimentos emanados naquele simples beijo, quase pode sentir o amor, o companheirismo, a devoção compartilhados naquele simples gesto. Eram perfeitos. E, finalmente, ela conseguia entender o que Alexei tinha visto no jovem Day e para ela, enquanto o rapaz fizesse o seu irmão sorrir, já lhe bastava para aceitá-lo como mais um membro da família.

Fim