Fic 4: Canção de Ninar (Song: Lullaby - Creed)

Shipper: Nenhum

Resumo: A primeira lembrança que ela tinha da mulher não envolvia sorrisos e abraços típicos de avó e o seu relacionamento com os anos não tornou-se melhor com a mesma, mas isso não muda o fato de que um modo ou de outro, Amélia Winford marcou a vida de Dallas para sempre.


Canção de Ninar

Hush my love now don't you cry
Everything will be all right
Close your eyes and drift in dream
Rest in peaceful sleep

If there's one thing I hope
I showed you
Hope I showed you

A primeira lembrança que Dallas tinha da avó era da mulher lhe chamando a atenção em um dos milhares de jantares da alta roda da sociedade do qual participou ao longo dos anos. Ela tinha apenas três anos de idade e mesmo assim a voz dura de Amélia lhe dizendo para sentar com as costas retas, joelhos juntos, colocar o guardanapo estendido no colo, não apoiar os cotovelos na mesa, cortar a comida em pedaços pequenos e degustá-la em mínimas porções ficou incrustado em sua mente por anos. Mesmo depois quando saiu de sob o teto da mansão Winford e foi para Hogwarts, cada vez que se sentava à mesa da Sonserina lembrava-se do tom seco da mulher e rapidamente aprumava-se quando percebia que estava ficando com uma postura desleixada.

Por anos, durante toda a sua infância, ou ao menos nos primeiros dez anos que passou na convivência da avó, ela temeu a mulher. Temia cada olhada atravessada, cada beliscão como punição por uma gafe em algum evento importante, cada sermão recebido que no fim apenas a reduzia as lágrimas. Por anos achou que a mulher a qual chamava de grandmère não se assemelhava em nada com as bondosas senhoras que cozinhavam nos finais de semana para os netos biscoitos com gotas de chocolate que costumava ver nos desenhos. Na verdade ela estava mais para a madrasta malvada da Branca de Neve do que qualquer outra coisa. E por anos desejou sair das garras dela, tendo o seu desejo concedido no dia em que uma coruja adentrou a janela da copa da casa e anunciou para todos que ela era uma bruxa.

Dallas tinha que confessar que o principal motivo do afastamento das duas tinha sido ela própria do que as atitudes de Amélia, visto que os anos na Sonserina a ensinaram a defender-se da postura amedrontadora da mulher. A menina que crescia e amadurecia não tinha mais papas na língua e os gritos de sua avó não a faziam chorar, nem mesmo derramar uma lágrima, mas a atitude fria e indiferente da senhora fazia. Apesar dos pesares, a sra. Winford ainda era da família, ainda a amava e foi por este mesmo motivo que no dia que a patriarca dos Winford bateu em sua porta depois de vinte anos, ela a aceitou em sua casa e concordou em ouvi-la, apenas para mais tarde receber a bomba:

A poderosa e inabalável Amélia Winford estava morrendo. A idade que parecia fugir atemorizada das vistas da empresária agora finalmente tinha criado coragem de alcançá-la e envolvê-la em seus braços cruéis e vingativos. A doença a estava consumindo aos poucos e não foram raras as vezes que em visita Dallas vira o sempre pulso firme de sua grandmère tremer ao levar a boca uma simples xícara de chá e fazia a bruxa pensar se ela não estava sendo punida por todas as suas atitudes. Entretanto, quando retornava para casa e repousava a cabeça no travesseiro a noite, a boticária costumava se perguntar: sendo punida pelo quê? Amélia apenas teve que adaptar-se a um mundo que na sua juventude era extremamente machista e saber ser firme para ser a esposa mais que perfeita do falecido Sr. Winford.

E eram nestes momentos de reflexão que Dallas recordava-se da sua segunda lembrança em relação a avó. Uma que por anos ficou escondida no fundo de sua mente, afogada por todas as memórias ruins que tinha de Amélia. A menina tinha apenas cinco anos quando em uma noite típica de Londres, fria e chuvosa, ela viu luz e ouviu sons vindos do velho escritório de seu avó. Tímida e com medo de levar uma bronca, a garotinha empurrou a pesada porta de carvalho gerando apenas uma pequena brecha que a permitiu ver o que acontecia dentro do aposento. Os relâmpagos que caíam sobre a cidade a faziam pular de susto, a lembrando o porquê de ter acordado a procura de seu pai e não o encontrado e, no momento, eles iluminavam com força a sala que tinha apenas a lareira acesa clareando o ambiente.

Um velho gramofone rodava um antigo disco sobre uma mesa de madeira polida, uma música que a jovem reconheceu ser da década de vinte. A figura de sua avó estava encostada contra o largo piano de calda que parecia contrastar imensamente com o clima sóbrio daquele escritório e ela segurava na mão uma taça de vinho tinto enquanto cantarolava de acordo com o ritmo suave da música. Na outra mão livre havia uma moldura e, curiosa, Dallas tentou inclinar-se mais um pouco para dentro da sala para ver de quem era a foto. E foi neste gesto que ela foi descoberta. Em questão de segundos os olhos escuros de Amélia recaíram sobre a neta que encolheu-se pronta para receber o esporro que com certeza estava por vir pelo fato de estar fora da cama. Por isso, surpreendeu-se quando tudo o que a mulher fez foi acenar para a menina para que ela entrasse de vez no aposento.

Hesitante, Dallas caminhou a passos lentos em direção ao grande sofá da sala, seus pés desnudos e quase cobertos pela grande camisola roçavam suavemente no caro tapete do lugar. Num pulo ela sentou-se sobre as fofas almofadas e observou atenta Amélia depositar a moldura sobre o tampo do piano e caminhar elegante até a garotinha, sentando-se ao seu lado.

- Conheci seu avô quando tocava essa música. - murmurou de repente, surpreendendo Dallas diante da suavidade na voz dela. - Era o rapaz mais belo do salão, fazia todas as meninas suspirarem. - disse com um sorriso brotando no rosto e girando levemente a taça de vinho, passando o braço livre sobre os ombros magros da neta. - Winford era um nome de prestígio tanto naquela época como é hoje e todas queriam ser parte desta família. Gosto de dizer que tive sorte. - continuou enquanto a música ainda soava ao fundo. - Rupert me pediu em casamento também ao som desta música. No fim, tornou-se a nossa música. - relatou e a garota desviou o olhar do rosto sereno da avó para a moldura sobre o piano onde na foto havia um homem alto, ombros largos, rosto de barba espessa e olhos firmes. Vestia um fraque que Dallas assumiu ser preto visto que a foto era descolorida e segurava nos braços uma versão mais jovem de Amélia belamente vestida em um traje de noiva. - Você tem os olhos dele. - declarou depois de um momento de silêncio.

- A senhora chorou quando ele morreu? - Dallas atreveu-se a perguntar em uma voz mínima. Agora entendia parcialmente a sessão nostalgia pela qual a mulher estava passando. Era o aniversário de morte de seu avô. Dez anos faziam que ele havia falecido e pelas histórias que ouvira de seu pai, gostaria de ter conhecido o homem. Ele parecia ser o tipo de pessoa que sairia como o vovô de desenhos animados. E, às vezes, a menina se perguntava se ele ainda estivesse vivo Amélia seria um pouco diferente, um pouco menos fria.

- Não! - respondeu firme e sem encarar a menina. - Winfords são pessoas fortes mesmo diante de uma grande adversidade. Rupert jamais toleraria um gesto de fraqueza de minha parte. A minha força era o que ele mais admirava e eu jamais iria desapontá-lo, mesmo em seu funeral. - falou seca, erguendo-se do sofá em um gesto fluído e encaminhando-se até o piano, tomando mais um gole de seu vinho. - Mas venha, quero que você aprenda essa música. Venha! - ordenou e hesitante Dallas também levantou-se para logo depois acomodar-se no banco do piano com a avó ao seu lado que prontamente começou a lhe ensinar os acordes da canção que marcara a sua vida.

Agora, trinta e cinco anos depois, novamente Londres estava tendo mais um de seus típicos dias frios e chuvosos. Uma canção era cantada por uma jovem com voz de soprano enquanto o padre lentamente dizia as suas últimas palavras de despedida à Amélia Winford. Baixinho e para não interromper a cerimônia, Dallas cantarolava a música sob a respiração junto com a mulher enquanto vagarosamente os funcionários do cemitério deslizavam o caixão de Amélia para dentro da cova que residia ao lado da de Rupert Winford. Assim que o padre disse a última frase que consistia em um "descanse em paz", as pessoas começaram a se disperçar e os coveiros a preencher o buraco cobrindo o caixão de terra.

Dallas ainda permaneceu no mesmo lugar mesmo com o cemitério esvaziando completamente. Harry, ao seu lado, segurava o grande guarda-chuva que os cobria enquanto abraçava a esposa pela cintura e mirava seu rosto com intensidade esperando alguma coisa, qualquer coisa. Sabia que o relacionamento da amada não havia sido dos melhores com a avó, mas nos últimos anos ambas tinham chegado a um entendimento e Potter sabia o quanto a mulher ainda era importante para a boticária, mesmo depois de todas as brigas e desentendimentos.

- Dallas? O cortejo está partindo. Ainda temos que receber os convidados. - falou em um sussurro e a mulher mirou olhos secos e impassíveis no marido.

- Vá na frente, eu tenho que fazer algo. - pediu e Harry hesitou um pouco antes de entregar o guarda-chuva a ela e afastar-se da mulher a caminho do carro. Dallas ainda observou quieta os funcionários do cemitério jogarem o último punhado de terra sobre o caixão de sua avó até que eles finalmente partiram, a deixando sozinha. Somente ela e a lápide branca de mármore.

- You and I, said goodbye I thought I'd die 300 flowers - começou a cantar em uma voz quase sumida, seus olhos cravados na lápide. Essa fora a canção de seus avós, a canção que os fez se conhecerem, que embalou seus momentos românticos, que Amélia a ensinou na única noite em que ela deixou de lado a pose de empresária sem consideração e foi apenas a sua grandmére. - I've sitting here for hours, can't seem to make up my mind - continuou e antes mesmo de chegar no segundo verso sentiu a sua voz engasgar e sua garganta começar a fechar. Os seus olhos ardiam e ela os esfregou com força esperando que o que quer que a estivesse incomodando sumisse neste gesto. - You and I, second chance, home town romance... - sem aviso as lágrimas começaram a cair e entre soluços e lágrimas ela continuou a música até que esta terminasse.

Sorriu logo em seguida, pensando em como mal havia sido enterrada Amélia já deveria estar revirando no túmulo por causa de seu choro. "Winfords são pessoas fortes mesmo diante de grandes adversidades", era o que ela sempre dizia cada vez que Dallas ameaçava cair em prantos. Gargalhou, sua risada sendo levada pelo vendo e abafada pela chuva.

- Eu sinto muito Amélia. - disse ainda com um sorriso, secando bruscamente as lágrimas. - Mas agora eu sou uma Potter. - completou ainda em um tom divertido para depois ficar subitamente séria. - Adeus grandmère. - desejou e erguendo os ombros em postura firme e confiante, virou-se rapidamente, tomando o mesmo caminho que Harry seguiu mais cedo e apagando de toda a sua mente qualquer lembrança ruim que tivesse da mulher. A partir de agora iria armazenar apenas as memórias boas, mesmo que essas fossem poucas, mas eram o suficiente para ela guardar com extremo carinho até o fim de seus dias.

Fim