Tudo começou com uma "carícia incomum".

Era algo inocente, claro. Uma brincadeira. Na verdade, foi considerado apenas como mais um modo de demonstrar amor fraterno; nada além disso.

Kanon era apenas um garoto; contava com dezesseis anos de idade, mas todos os seus colegas já haviam experimentado do fruto proibido do Amor, ao menos através de um beijo. E ele... bom, ele se calava quando os assuntos eram esses, portanto na maior parte do tempo, já que os rapazes nessa idade só falam nisso.

Como dizer que nunca provara do Amor numa rodinha e não ser vítima de zombaria pesada?

Já estava reparando há algum tempo que as meninas olhavam-no de maneira diferente. Ele, no fundo, sentia-se lisonjeado. Mas verdadeiro interesse por elas não tinha. Tentava até; queria estar no mesmo patamar que os outros garotos, ter uma namoradinha para exibir por aí. Mas não sentia i real /i vontade de ter algum contato romântico com uma delas.

- Será que estou esperando algum tipo "ideal" de mulher me atrair? - pensava ele. Não; já havia moças bem bonitas e simpáticas nos ambientes que ele freqüentava. E nenhuma lhe despertara algum interesse.

Sentiu até medo. Nos grupinhos, seus colegas caçoavam daqueles que pareciam "não gostar de mulher"; chamavam-nos das coisas mais repugnantes possíveis. E se Kanon fosse um deles? Havia ouvido falar que a pessoa já nascia com a sexualidade decidida; não havia como escolher. Descobria-se apenas, quando a fatídica hora chegava.

- Não devo ser assim. Afinal, se não senti atração por mulheres, também não sinto por homens. Será que tenho vocação pra ser padre?

Nessas horas, ria consigo próprio.

Um dia resolveu ir conversar sobre esse assunto com seu irmão. Quem sabe ele não saberia melhor como lidar com aquilo?

Kanon e Saga eram gêmeos idênticos, mas na personalidade eram bem diferentes. O primeiro era indolente e irresponsável, ligava apenas para o "agora", era muito irreverente e gostava de bolar aula com freqüência. Saga já era o "adulto da casa": tirava notas boas, não faltava às aulas, gostava de ler e era bastante reservado com relação a "panelinhas".

Com efeito, quando Kanon entrou no quarto, Saga estava lendo um livro.

- Ei Saga, está ocupado?

O gêmeo levantou os olhos do livro, meio surpreso.

- Não muto. Por que?

- É que... eu queria te perguntar uma coisa.

- O quê? - nessa hora Saga fechou o livro e marcou a página que estava lendo com o indicador.

- Já beijou alguma menina na boca?

- P-por que pergunta? - ele ergue o livro outra vez, tentando esconder o rosto que estava levemente corado.

- Ah, todos os rapazes da nossa idade já fizeram isso. Só queria saber.

- Não me interessam as conversinhas que sua turma tem. Mas... Kanon... se souberem que... que eu nunca beijei... é capaz de começarem a me perseguir. Nem falo muito com eles, pra não ter confusão.

- Então você nunca beijou?

- Não... mais fique quieto, hein!

Kanon sentiu uma estranha alegria ao ouvir aquilo. Era como se pudesse realmente compartilhar de sua condição com alguém, sem medo.

- Eu também não, Saga.

O mais responsável dos dois olhou o outro com surpresa.

- Como não! O teu pessoal não aceita gente assim!

- Não conto nada sobre mim. Ultimamente tenho até me afastado deles...

- Mesmo? Confesso que acho bom; aquele pessoal não presta pra você.

Ambos ficam em silêncio por um tempo.

- Não se interessa por beijar, Saga? Não tem curiosidade?

- Não. - Saga já quase voltara à sua leitura. Kanon sorriu.

- Também, só liga pra livros...

- E você? Já deveria ter se interessado por mulheres. Por que não beijou ainda?

- Hum... não sei. Talvez seja porque... bem, eu... ah, deixa pra lá.

- Diz, vai!

- Eu... nunca senti nada! Por ninguém. Só isso.

-... nenhuma vontade de aproximar seus lábios, nem coisa do tipo?

- Não...

- Pois eu também não.

- Estamos quites então.

Eles sorriram juntos. Nesse momento, um "clique" estalou no coração de ambos, como se finalmente vissem um ponto em comum entre eles no quesito comportamental. Era muito bom ter alguém em quem confiar.

Daquela hora em diante, Kanon começou a olhar para seu irmão de um jeito diferente. Antes, ele sempre estivera ali ao seu lado. Mas agora era como se houvesse algo de muito especial em Saga.

Passou também a pensar sobre como era fantástico eles seres idênticos na aparência; em como foram apenas um só no ventre de sua mãe; em como eles eram bem mais do que simples irmãos por conta disso.

Naquela noite, por algo que ainda desconhecia, Kanon não teve facilidade para dormir. Talvez fosse melhor esquecer aquela coisa de beijo! Era provável que esse fosse justamente o motivo de sua inquietação.

No dia seguinte, como que por coincidência, a tal "turminha" com a qual Kanon andava começou a pegar no seu pé:

- E aí Kanon! O famoso come-quieto, não fala nada das minas pra gente... qual é a tua? - disse um deles.

- Ahn... é que... vocês não conhecem elas!

- São daonde? - perguntou outro.

- Hum... são... da cidade da minha mãe. Ela... nos leva lá, a mim e Saga, de vez em quando.

- Então é só i de vez em quando /i que você cata uma mina! Hahahahaha, muito legal! Aí cara, quero ver você catar é uma daqui, na nossa frente, pra ver se é homem.

- Não preciso provar nada pra ninguém, muito menos pra vocês!

- Olha ele! Tá arregando! Tem medo de não saber beijar a menina direito? Ou não gosta da fruta?

- Não interessa!

- Quantas garotas já beijou?

- Eu... eu... não lembro!

- Ih, tô achando que não foi é nenhuma! Ne-nhu-ma! Hahahahahahaha, maricas!

- Eu i não /i sou maricas, seu... seu idiota! Vê se te manca e pára de ficar aí pagando pau pras meninas ficarem com você, só pra dar uma de pegador!

E sem pensar, Kanon saiu correndo da roda, que havia ficado em silêncio perante o comportamento inusitado do "amigo".

- Ele vai ver só - disse o rapaz provocado por Kanon - Vou encher o saco dele até vê-lo beijando uma garota!

Enquanto isso, Kanon pulava o muro da escola e voltava para a classe. Não devia ter bolado aula de novo. Não naquele dia.

- Irmão!

- Saga!

A visão de seu gêmeo fora um bálsamo para o ânimo conturbado de Kanon. Correu para abraçá-lo, uma inexplicável vontade de fazê-lo explodindo no peito, quando Saga começou a lhe aplicar mais um sermão, dentre muitos anteriores:

- Faltando de novo! Já te falei pra parar de fazer isso.

- Eu... me desculpe! Estou ferrado mesmo. Mas... você não está na sala de aula por quê?

- Fui ao banheiro. E você, como vai entrar agora? Está muito tarde já!

- Não sei. Acho que posso ficar aqui no pátio.

- Então fique e me espere.

- Saga... antes de volta... me dá um abraço?

- Hum... tudo bem. É estranho você pedir isso agora, mas... como negar?

O irmão o abraça, fazendo com que Kanon sentisse seu cheiro de perto, o contato estreito e precioso com aquele corpo tão igual ao seu. Teve vontade de enterrar a face no ombro dele e ficar ali para sempre, com a pessoa que, de repente, viu que amava mais que tudo.

Quando Saga largou0o, sorriu e lhe deu "Tchau", sentiu vontade de correr atrás, entrar na classe e declarar a todos: "Eu amo meu irmão!", enfim, de tê-lo consigo.

Olhava tão fixamente para seu gêmeo voltando à sala, que nem reparou a aproximação de Juliana, uma garota nova na escola.

- Olá, Kanon! Foi suspenso também?

- Ah! Oi, Juliana. Não, não fui. É que... bem, cheguei muito atrasado pra aula. Mas você, suspensa, se chegou por esses dias!

- É, bem... algumas garotas da minha classe andam me perseguindo... e eu acabei brigando feio com uma delas.

Juliana era italiana, e mesmo tendo ido para a Grécia, um país próximo e parecido com o seu em vários aspectos, não teve o perdão das moças gregas.

- Não ligue. Isso deve ser porque, além de novata, você é muito bonita... e mulheres em grupo, ainda mais invejosas... sabe como são.

- Acha mesmo que sou bonita! Puxa, muito obrigada!

- Não tem de quê.

A menina parecia realmente feliz por Kanon tê-la admirado. Porém, não era pra menos que ele o fazia: ela era alta, esguia, com a pele alva um pouco corada pelo sol, os cabelos lisos e loiros caindo em sua face, encobrindo um pouco os olhos esmeraldinos.

- Es... escuta Kanon... você também é muito bonito, sabia...

- E-eu? Mas ora, eu...

- Sim. Você até parece mais velho... como aqueles rapazes que já estão na faculdade. Seu cabelo castanho-claro é lindo... seus olhos azuis...

A moça se aproximava do rapaz de forma a poder contemplá-lo melhor.

- Kanon... você... me deixa... beijá-lo?

O garoto estacou. Realmente, se beijasse Juliana os meninos da turma não o incomodariam mais. Podia até torná-la sua namorada com o tempo, caso as coisas andassem bem. Seria ótimo para os dois: para ele, por ter estabelecida sua fama de "homem", além de andar por aí com uma garota bonita. E para ela, que através dele seria inclusa socialmente no colégio.

No entanto, tais coisas passavam apenas por sua mente, não por seu coração. Não tinha vontade i alguma /i de beijar a boca daquela garota, por mais que ela fosse bela e todo o resto. Mesmo assim, provar um beijo que fosse não faria exatamente mal...

Ela foi se acercando dele, não esperando por sua resposta. Os lábios quase se encostavam, enquanto os olhos de Juliana se cerravam.

No último instante, porém, Kanon lembrou-se da conversa com seu irmão no dia anterior. Se ele beijasse a moça, os dois não estariam mais em condições iguais. Seria como traí-lo, afinal. O rosto de Saga imperava em sua mente, ofuscando por completo o de Juliana.

- Não! - ele bradou um momento antes do beijo acontecer, virando o rosto.

A moça se surpreendeu:

- Não... não quer me beijar?

- Desculpe, mas... eu já tenho compromisso. Não gostairia de trair alguém, nem de enganar uma garota legal como você.

A italiana parecia um pouco cabisbaixa.

- É claro. Um cara como você, Kanon... como não teria namorada? Por que fui me iludir?

Ambos ficaram em silêncio, constrangidos por um pouco de tempo.

- Eu... não pense que sou uma daquelas que vivem beijando todo mundo. Se fiz isso, é porque já te observava desde quando cheguei. E acho que estou gostando de você... mas já que é comprometido, deixa pra lá. Sinto muito por ter sido tão direta.

- ...tudo bem! Não há problema.

- Podemos ser amigos independente disso?

- Claro!

No entanto, logo em breve ela sairia de perto de Kanon e iria até o banheiro feminino e não voltaria até o sinal do final das aulas bater. Naquele meio-tempo, o gêmeo de Saga ficou pensando se não havia sido bobo em não beijá-la. Mas se tranqüilizou afinal, pois havia seguido a sua verdadeira vontade.

Quando Saga saiu da sala, Kanon pôde contemplar os olhos azuis dele, iguais aos seus próprios, e saber que havia feito a coisa certa. Deu o braço a seu irmão e foram saindo, quando a italiana avistou Kanon e se despediu calorosamente dele. Assim que ela foi embora, Saga indagou dele:

- Essa garota está a fim de você?

- Acho que está...

- E você é a fim dela?

- Não...

- Por que não a beijou quando ela pediu?

- Como sabe disso?

- Sento perto da janela, e vi tudo o que aconteceu pelas frestas.

- Então... todo mundo viu?

- Não; apenas quem pudesse estar atento aos vãos da persiana. E acho que apenas eu faço esse tipo de coisa.

Os dois riram.

- Sério agora, mano, por que não beijou a menina?

- Não tive vontade.

- Não! Uma garota linda daquelas!

- Acho que i você /i é quem está a fim dela, Saga.

- Não, não estou.

- Beijaria ela? Pode se passar por mim, dizer que mudou de idéia...

- Não beijaria. Para mim ela é bonita como um pôr-do-sol, ou uma bela paisagem. Não se beija uma paisagem na boca, sim?

Risos novamente.

- Mas Kanon, por que disse a ela que tem compromisso, quando na verdade não tem? Ou tem e está mentindo pra mim?

- Não! Eu não tenho mesmo. É que... bom, se você estranhou por eu não ter beijado a Juliana, imagine o que ela não pensaria caso eu dissesse que não tenho vontade?

- Talvez ela pensasse que você a acha feia, ou que não gosta dela por ela ser de fora...

- É incrível como a gente é forçado a querer beijar todas as garotas pra não ser xingado! Eu lá tenho obrigação!

- Concordo com você. Por isso não gosto de "turminhas"; elas sempre fazem regras que, se a pessoa não cumprir, tá fora. Então eu já me excluo antes.

Kanon ouvia a seu irmão com aprovação. Era divertido andar nos bandos, mas... nunca podia ser ele mesmo quando estava com os outros rapazes. Ou tinha de mentir, ou de esconder. Com Saga sempre fora o contrário: seu irmão o aceitava do jeito que ele era, sem reservas. Era ótimo ter um amigo assim!

Quando chegaram em casa, viram que seus pais haviam saído. Saga estava com bastante calor, e decidiu tomar um banho. Assim que o viu tirar a blusa, Kanon sentiu algo estranho, uma descarga de emoção percorrê-lo de uma maneira que nunca experimentara antes. No início pensou que era por causa da recente comoção, a qual talvez o deixasse mais sensível a impressões tais como ver que era igual a seu irmão no corpo. Mas não era isso; já o vira sem roupa inúmeras vezes; por que só agora tal estranha sensação acontecia?

Ele nem pensou muito sobre o assunto, pois aquilo era delicioso, e não queria se apartar de si tão cedo. Devagar, foi até Saga, que estava de costas, e o chamou tocando em seu ombro.

No íntimo, Saga estava contente por saber que Kanon e Juliana não tinham nada. Quando, ao observá-los da janela da sala, viu que a menina se aproximava para beijar seu irmão, seu tão querido e precioso irmão, foi como se uma adaga perfurasse seu coração. Então era assim: uma garota chegava, roubava a atenção dele, fazia com que ele se apaixonasse, ficasse bobo por ela, de quatro mesmo, e se afastasse de todos, inclusive de si, enfraquecendo ou mesmo quebrando um vínculo tão antigo. Afinal, ele e Kanon não se conheceram: saíram um de dentro do outro, duplicando a si próprios, fazendo parte de um único todo. Daí uma estranha vinha e destruía tudo isso.

Na hora em que Kanon negou o beijo, Saga pôde respirar. Apesar de ter tentado agir com bom humor e tranqüilidade no fim da aula, ao perguntar se o irmão tinha mesmo algo com ela, sentia-se mal só de pensar na possibilidade de ele ter alguém.

Ao perceber o toque no ombro, Saga virou-se para trás e se deparou com o olhar fixo e perdido de seu gêmeo. Nunca o vira daquela maneira, mas era bom, de certa forma.

- Saga...

- Sim?

- Eu... é... eu quero te falar uma coisa.

- Pode dizer.

- Promete que não me xinga?

- Claro que não vou xingar! Mas que coisa!

- É que... hoje, quando eu estava com os rapazes... eles ficaram me pressionando pra eu dizer se já havia beijado ou não.

- Sei. E isso te incentivou a querer beijar Juliana, mesmo sem sentir vontade, só pra não ser diferente dos outros.

- Pois é... ainda bem que, no fim das contas, não cedi.

- Bom mesmo! E olha, você faz o que quiser da sua vida. Mas não é legal ficar anulando sua identidade por um pessoal assim. Seja você mesmo, e terá menos amigos, porém todos verdadeiros.

A eloqüência de Saga, precoce porém justificada pelo estudo que ele tinha, fascinava Kanon cada vez mais. No estado de êxtase inexplicável no qual ele se encontrava, porém, mal ouvia o que seu irmão dizia. Apenas contemplava aquele rosto radiante, os cabelos longos que desciam pelos ombros, os lábios bem desenhados. E de repente soube o que era a vontade de beijar alguém.

- Saga... eu... quero te dizer uma coisa, que você talvez considere absurda.

- O quê?

- Eu... quero dar o meu primeiro beijo.

Saga ficou inquieto. Seu gêmeo estava mesmo determinado a levar aquilo adiante.

- Quer mesmo beijar sem ter vontade?

- É... que eu descobri uma pessoa que eu quero ,mesmo, beijar.

- Mesmo? Quem?

Kanon se calou, hesitando.

- Pode falar pra mim, mano. – Saga continuou – Não há segredos entre nós, certo?

- Não...

- Então diga.

- É... olha, eu... não quero beijar nenhuma garota, porque... elas vão sair por aí dizendo que eu não sei beijar, que não tenho experiência, que... bem, você sabe. Então... quero beijar alguém em quem confie bastante, e que... que nunca tenha feito isso também.

- Conhece alguém assim?

- Conheço. Você.

Ele se surpreendeu com a declaração, sobressaltado. Era certo que irmãos não se beijam na boca. Mas aquela era uma relação de confiança; por que não trocarem um carinho, mesmo que incomum, com ele? E era verdade: eles podiam confiar um no outro, como em ninguém mais, para fazer aquilo.

Ao ver seu gêmeo se assustando, Kanon corou e pensou que ia ouvir alguma reprovação pesada.

- Olha Saga, eu... tudo bem, eu não... eu não gosto de homem, tá ouvindo! Apenas não quero arriscar com as meninas lá fora!

- Não tem problema. Nós somos irmãos; por que não tentar?

- Mas... eu pensei que por sermos irmãos... seria pior ainda!

- Claro que não. O amor fraterno pode ser demonstrado de várias formas. Quem podedizer que esta não é uma delas?

Os dois sorriram de uma maneira plena, e logo em seguida os rostos se aproximaram como se um ímã os atraísse. Um instante antes das bocas se tocarem, os gêmeos se surpreenderam em como não havia nervosismo, nem incerteza, nem medo por ser a primeira vez. Era como se ambos tivessem nascido para vivenciar aquele momento, tão natural, tão espontâneo, nem forçar absolutamente nada. Simplesmente aconteceu.

Ao sentir a textura macia e suave dos lábios um do outro, ambos sentiram uma energia forte passar através deles. Seus corações batiam depressa, de amor. Logo, as bocas se entreabriram levemente, enquanto os lábios experimentavam um ao outro em movimentos que não eram previamente calculados. Ora se beijavam, ora mordiscavam de leve, ora buscavam alguma outra parte inexplorada.

As pernas de ambos estavam fracas, bambas, a respiração mais forte, os gemidos contidos na garganta. O coração flutuava, numa alegria imensa. Uma corrente elétrica passava por seus corpos, que não hesitaram em se aproximar até ficarem colados.

Kanon começou a deslizar as mãos pelo tronco nu de seu irmão, aproximando-o de si, sentindo o peito dele subir e descer em contato com o seu. A pele de Saga estava quente; suas mãos, levemente trêmulas pela emoção, abraçaram seu gêmeo pela cintura. Seu rosto pendeu um pouco pro lado, encaixando melhor com o do outro, para que os dentes não se arranhassem, e ambos foram deslizando vagarosamente as línguas para dentro da boca que beijavam.

Logo, elas se encontraram. Eram idênticas: tinham a mesma textura, o mesmo tamanho, o mesmo doce sabor. Exploravam-se mutuamente, tentando descobrir o máximo possível sobre a outra boca.

Kanon sentia que ia explodir de emoção. Colocou uma de suas mãos na nuca do irmão, aprofundando o contato e fazendo com que, acidentalmente, os dentes se chocassem de leve. Nada disso prejudicou o beijo; apenas o tornou mais delicioso do que já estava.

Saga sentia seu baixo ventre pulsar. Isso nunca lhe havia acontecido antes. Quem diria que seria com seu irmão?

Eles continuaram o beijo por algum tempo, não querendo se separar. Sentiam que suas almas não apenas se encontravam, mas se fundiam, fazendo dos dois uma só essência.

Aos poucos, as línguas se desentrelaçaram e os lábios se separaram, mas não sem antes Kanon dar uma última e leve mordiscada no lábio inferior de Saga. Logo após, os olhos, antes cerrados, se abriram e contemplaram a sua parte igual. Estavam ainda atordoados pelo momento mágico que haviam acabado de vivenciar. Ficaram em silêncio, apenas se olhando, sentindo o coração ainda bater.

Foi Kanon quem finalmente quebrou o silêncio:

- E... então, o que achou?

Saga encostou em seu próprio lábio com o dedo inferior antes de responder.

- Foi muito bom. Eu nunca havia dado tanta atenção a beijos, mas agora que sei como é...

O outro gêmeo ficou feliz, mas acabou sentindo uma pontada de desânimo.

- Vai testar com as garotas daqui em diante?

- Não. Duvido que com uma delas seja tão bom quanto foi entre nós dois.

Kanon sorriu. E logo em seguida riu, para quase gargalhar na seqüência. Sentia-se melhor do que nunca. Tirou o braço de Saga de sua cintura e passou a quase correr pela sala, não sem parar de rir. Quando parou, olhou para Saga e o abraçou, deitando a cabeça em seu ombro.

- Foi bom sim. Foi maravilhoso. Foi tudo que sempre quis pra mim. Eu te amo, Saga!

Ficaram juntos até a hora em que Saga resolveu voltar ao banho, do qual havia até se esquecido.

Kanon se jogou no sofá da sala, pensativo. E se eles estivessem sendo conduzidos a algo que não podiam controlar? Por que sentira-se tão bem em beijar seu próprio irmão? Não sabia as respostas, mas também não se importava muito com elas. Apenas achava que aquilo tudo era fantástico, e que seu primeiro beijo jamais poderia ter sido melhor.

Foi assim, com uma carícia pueril e inocente, que tudo começou.