Nenhuma Lealdade no Luar

escrito por Ariadne

traduzido por FerPotter

beta-read por BastetAzazis

Resumo: Porque certos segredos não foram feitos para permanecer enterrados.

N.A.: O título desta história foi tirado da fic da Anastasia "Animated Night". Não preciso nem dizer que tudo o que você reconhecer pertence à J.K. Rowling. Se eu vi alguma coisa é porque estou sobre os ombros de um gigante. Meus agradecimentos, como sempre, à Anastasia e às colaboradoras do OWL. Minha gratidão à Ferporcel, pela tradução generosa e cuidadosa, e à BastetAzazis, por betar.


Capítulo 1: Leviatã

O vento sacudia os topos dos pinheiros no canto mais escuro da Floresta Proibida, e pela maior parte do dia ela os observara pelos painéis da janela da biblioteca; seus olhos distraídos pelo movimento distante que chamava seus pensamentos para longe, longe de sua pesquisa, das redações que estava corrigindo, e finalmente, do seu controle consciente.

Ela tivera que se esforçar para se concentrar, para focar, para terminar seu trabalho. Enquanto os raios decrescentes do sol poente desapareciam, iluminando de baixo apenas os galhos mais altos, ela pôs a pena de lado e suspirou, soprando uma mecha solta de cabelo para longe dos olhos.

Vinte e dois anos.

Vinte e dois anos atrás ela estivera com Harry em Godric's Hollow quando Voldemort caiu. Vinte e dois anos atrás ela retornara à Hogwarts para completar seus estudos, passando seus NIEMs com notas que não surpreenderam ninguém. Vinte e dois anos atrás ela aceitara a oferta da Diretora para preencher o posto vago pela Profa. Sinistra, que fora desmascarada como uma das integrantes do círculo íntimo de Voldemort enquanto corpo dela jazia, imóvel, ao lado dos corpos dos Malfoy e dos Lestrange, para ser removido e descartado pelos Inomináveis, cujo trabalho era... é, bem. Ela sabia mais sobre aquilo do que queria saber.

Eles todos sabiam, é claro; ela mais que a maioria.

Talvez.

Porque há vinte e dois anos, ela assumira a responsabilidade do saber, do segredo, e da lealdade.

Por vinte e dois anos, ela mantivera seu segredo guardado para que não abalasse as estruturas do mundo bruxo.

Porque há vinte e dois anos, Harry falhara. Fora dela o golpe que derrubara Voldemort.

No seu pânico – com Rony abatido, a Ordem dizimada, alguns imobilizados, impotentes a não ser pelos olhos desvairados e penetrantes, observando Harry se esforçar enquanto Voldemort lutava para controlar a mente dele, a única separação restante da alma dele incrustada, estrangulada na cicatriz com a qual fizera Harry à sua própria imagem.

Porque Harry vivera muito tempo sob sua maldição – a maldição enigmática da Magia das Trevas mais sombria, a maldição mundana de ser o Menino-Que-Sobreviveu – para ser capaz, para ser supostamente capaz, de expulsá-lo completamente.

Porque Harry não podia, no final, derrotar a si mesmo, e quando seus olhos perderam o foco e seus joelhos dobraram, quando ele começou a oscilar...

Em pânico, sua varinha moveu-se sozinha, e era a sua voz– baixa, inaudível – a voz na sua mente falara, e tinha sido ela quem matara Voldemort.

Ela não fazia idéia de como fizera aquilo.

A profecia fora insignificante. Os Inomináveis não sabiam o que fazer.

Havia, é claro, uma maneira de encobrir a verdade; e ela retornara obediente para Hogwarts, vestindo mais uma vez as vestes da sua Casa, colocando nelas o distintivo de Monitora Chefe, literalmente as trocando no dia da sua formatura por vestes de professora, com os oficiais do Ministério assentindo que aprovavam.

Por vinte e dois anos, ela desempenhara seu papel – o cérebro do Trio de Ouro, a última apoiadora do Harry a sobreviver, a desolada jovem namorada de Rony Weasley – tão trágico, tão jovem – em silêncio.

Pergaminhos esquecidos a sua frente, ela olhava para a luz poente nas árvores sacudidas pelo vento até que percebeu que o que via era seu próprio rosto, banhado na luz da lamparina, refletido, distorcido, na janela pesada.

Os ecos de vinte e dois anos de silêncio a pressionavam do teto abobadado, como se os ossos do castelo o tirassem dos fundamentos de rocha, como se suas raízes, crescendo infinitamente através do tempo, levassem a profunda vastidão da eternidade até o presente para oprimi-la, pesada, suspensa para cair...

Ela balançou a cabeça. Sentira este peso antes, nas inumeráveis noites passadas rabiscando com tinta escarlate seus incontáveis comentários precisos nas margens de livros pessoais de pesquisa, em infindáveis pergaminhos de alunos.

E ela sempre deixara isso de lado, banindo com um gesto impaciente, suas mãos completando o movimento ao colocar a mecha cacheada de cabelo atrás da orelha.

A Profa. Hermione Granger sempre tinha uma mancha de tinta escarlate perto da orelha. Todos notavam, é claro. Mas ninguém – nem mesmo os alunos do primeiro ano mais descuidados – dizia uma palavra a esse respeito.

Porque o humor da Profa. Granger era curto, incendiário, e famoso.

A Profa. Hermione Granger era a pessoa mais temida de Hogwarts.

E ninguém sabia por quê.

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– Professora? – Quando Hermione colocou o resto de seus pertences na bolsa, a voz da bibliotecária – amarga, educada – cortou seu silêncio.

Hermione levantou os olhos rispidamente. – O que foi, Ana?

Como sempre, Ana Abbott retraiu-se com a pausa com que a professora sempre pontuava a falta de título formal dela. Entrelaçando as mãos nas costas como se ainda fosse uma aluna, ela deu um pequeno passo para trás e baixou o queixo. – Eu só queria... queria saber...

Os olhos de Hermione brilharam perigosamente. – Se eu estava de saída?

Ana olhou para o teto. – Si-.

Hermione a interrompeu. – Obviamente – disse, levantando-se e colocando a bolsa no ombro. Ela passou pela outra mulher como se lhe outorgasse menos atenção que a uma das muitas estátuas de Hogwarts.

Assim que a porta da biblioteca fechara atrás da capa da professora, Ana suspirou e pensou:

– Ela era sempre tão legal na escola. – Ana tivera o mesmo pensamento todas as noites desde que substituíra Madame Pince quinze anos antes.

Se a professora soubesse do lamento perene de Ana, não teria dito nada.

Não em voz alta.

Mas algo nos seus olhos teriam confirmado a suspeita semi-consciente de Ana de que ela não estava à altura dela.

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Os passos de Hermione ecoavam com finalidade eficiente nos corredores de pedra enquanto fazia o caminho para seu quarto. O Barão Sangrento entrou no seu caminho, mas ela passou por ele, sem ver, insensível ao frio que sempre acompanhava o contato com qualquer um dos muitos fantasmas do castelo.

Haviam mais deles agora.

A última jornada do Expresso de Hogwarts já era lenda – o casco gasto e pretejado de sua máquina antes carmesim brilhante arrastando sua cauda quebrada para morrer há meia légua da Estação de Hogsmeade; as formas perplexas e translúcidas dos poucos estudantes cujos pais permitiram embarcar emergindo horas depois da névoa das Terras Altas, estupidamente obedecendo aos últimos impulsos de vida – chegar ao castelo, a última fortaleza segura.

O ataque ao trem foi o catalisador final para Harry. O confronto em Godric's Hollow ocorrera menos de uma quinzena depois que receberam a notícia da diretora, que tinha fechado a escola e dedicara uma ala inteira dela para a educação de seus antigos alunos. – Para facilitar a transição deles – ela dissera.

O Frei Gorducho mostrara sua aprovação assentindo com sua longa cabeça, e tomara residência com eles. Alguns deles sumiram, dissolvendo parcialmente em caminhos de névoa estacionária que os alunos instintivamente sabiam ter que evitar quando a escola reabriu no ano seguinte.

Impetuosa pelo castelo com suas vestes formais de professora roçando duro ao redor de seus passos rápidos, a professora não pensou naquela época, nem nos primeiros sete anos depois da guerra, que todas as turmas eram menores do que deveriam ter sido e algumas passavam sem nem ser ministradas. Mas o castelo já estava cheio há algum tempo desde então, e ela nunca admitiu a nostalgia dos tempos onde havia menos quebradores de regras e menos redações para corrigir. Somente sozinha, bem tarde da noite, seus pensamentos se voltavam para os tempos idos, e, mesmo então, somente nos momentos sombrios antes de dormir, quando estava bem além de saber seu próprio nome.

Era a sua hora favorita do dia.

Nesta noite seus olhos e mente eram levados às árvores, vislumbradas por janelas, por entre arcadas de colunas, iluminadas por trás pela lua nascente, os topos delas ainda balançando sombriamente, silenciosas, somente os galhos mais altos das árvores mais altas, sempre os primeiros a roubar a luz do céu, a sentir o vento, precursores da noite e das tempestades.

Nesta noite o vento estava acelerando, e, de onde não sabia mais seu nome, sob seus sonhos, esta noite ela sentiu ele se acelerar.