escrito por Ariadne

traduzido por Ferporcel

beta-read por BastetAzazis

Capítulo 13: Com Quem Está Quieta

Resumo A noite anterior, e a manhã seguinte (Parte I).

N.A.: Muito obrigada à FerPorcel, Anastasia, docmara e indigofeathers, por várias razões.


Ele imaginou se era assim que Potter se sentira quando ela tirara um pedaço da alma do melhor amigo dele e enfiara em sua cicatriz.

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Na sua prateleira no escritório de Minerva, o Chapéu Seletor escorregou alguns centímetros para o lado. Se ele soubesse como aparatar para Hogsmeade, o teria feito.


Como as coisas eram, ele encolheu sua aba sobre os olhos e rezou por uma manhã.

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Severo se mexeu desconfortavelmente no degrau, e dos seus braços, Hermione ergueu os olhos para ele.

Falando baixo para evitar fazer eco, ele perguntou:

– Você vai conseguir dormir? – Sua voz soava estranhamente frágil aos seus ouvidos.

Ela assentiu com a cabeça, o rosto retomando o semblante apertado que os alunos tanto temiam.

Ele fingiu não notar.

– Boa noite, então – disse, assentindo abruptamente.

Hermione observou a forma que se afastava descer nas sombras.

– Boa noite – disse calmamente.

A voz dela ecoou na escadaria e na mente dele. Quando alcançou o final da escada, ele mais sentiu que a ouviu acrescentar:

— Bons sonhos.

Ele bateu a porta da escadaria, forte, atrás de si.

E os ecos da batida cresceram em intensidade enquanto viajaram escada acima até onde Hermione estava parada, imóvel.

Sem saber por que, quando os ecos a banharam, Hermione sorriu.

A pequena fantasminha estava sentada afagando a cabeça imóvel do dragão com um dedo triste e vagaroso. Na meia-luz, o filme sobre os olhos dele era da mesma cor que ela.

As tochas tremeluziram, anunciando movimento no final do corredor, mas a pequena fantasminha não ergueu os olhos.

Um par de pesadas botas pretas apareceram na sua linha de visão, o couro vincado com a familiaridade do longo uso.

O couro rangia quando os saltos se erguiam do chão, e mãos longas e pálidas envolveram o pó de obsidiana no chão. Depois eles esperaram.

Severo olhou calmamente nos olhos suplicantes e pálidos da pequena fantasminha até que ela assentiu e recolheu o dedo, afastando-se depressa, rodopiando uma trilha de pó numa espiral pequena e em tufos com o bafo da sua retirada.

A fantasma observou enquanto o dragão se reformava, o pó coalescendo num vislumbre de asas e, escama por escama, a cauda longa e sinuosa tomou forma, os últimos grãos de pó formando a pontinha, que estava dobrada sobre o focinho.

Ela olhou de relance para o homem vestido de preto diante dela e sorriu.

Ele não sorriu de volta.

Ela olhou para baixo e viu que o filme permanecera sobre os pequenos olhinhos do dragão.

Com o filme cobrindo os olhos, ele não parecia nem um pouco que estava dormindo.

Seus olhos fecharam apertados enquanto virou a cabeça para o lado. Uma de suas longas tranças escorregou para frente, esfregando a cabeça do dragão.

Ela não fez nenhum som, mas deslizou corredor acima, onde pareceu ser absorvida pelas sombras.

A boca de Severo endureceu, mas suas mãos se fecharam gentilmente ao redor da figura de obsidiana.

— Eu não tenho esse milagre em mim — murmurou, entrando nos seus aposentos.

Papoula continuava sua vigília solitária no leito de morte de Slughorn.

Quando viu o ramo de flor secar, ela se afastou num salto, derrubando a cadeira.

As mãos com que endireitou a cadeira estavam frias e úmidas, mas firmando a boca numa linha fina, ela se sentou, determinada de que nenhum paciente aos seus cuidados deveria fazer a passagem sem testemunha.

Ela desistira de tentar entender os resultados conflitantes que seus exames periódicos do imóvel Slughorn continuavam produzindo. Ele estava tanto vivo quanto não vivo.

Ela não podia explicar isso.

A um ponto que ela nem sabia que existia, estava aliviada por tal explicação estar além da sua responsabilidade.

Em outro, que estava completamente ciente, ela tremia, e não conseguia por nada fazer parar.

Somente duas pessoas no castelo dormiram tranquilamente naquela noite; todas as outras que podiam dormir o fizeram inquietamente, suas horas perturbadas por sonhos de um vento obscuro por árvores ainda mais obscuras, de um tremor baixo, quase baixo demais para se registrar, bem, bem fundo no subsolo.

Os dois que dormiam tranquilamente sentiram apenas um ronronar intenso e retumbante, e foram envoltos em seus braços, confortados, dormindo calmamente, seguramente, sob a canção de ninar calmante do vento.

Quando Hermione acordou na manhã seguinte, ela mesma fez a cama automaticamente, como não o fazia em vinte e dois anos.

A elfa doméstica chegou com o chá, e ela estava sentada escovando o cabelo. Hermione levantou os olhos quando uma xícara apareceu ao seu lado.

— Obrigada — ela disse.

Piscando rapidamente, a elfa doméstica guinchou:

— De nada, Professora, Senhorita.

Hermione não disse mais nada, e o elfo doméstico correu com passos miúdos até a cama e a escalou para trocar a fronha.

Os olhos da elfa doméstica se arregalaram. Abanando as orelhas em confusão, ela passou a mão sobre sua brancura intocada, prístina como neve recentemente espalhada pelo vento.

Por toda a Bretanha, xícaras tiniram, utensílios ressoaram, enquanto orelhas abanavam, sacudiam, e batiam.

Nem uma bruxa ou bruxo pensou em questionar esse gaguejar momentâneo no progresso habitualmente sereno de suas rotinas matinais.

Não há como entender os elfos domésticos. Criaturas estranhas.

Úteis, entretanto.

Quase como um só, bruxas e bruxos pegaram seus Profetas Diários, e sorriram, vendo Harry Potter, com o braço ao redor de sua bela esposa, sorrindo quase que timidamente da primeira página, suas três filhas alegres rindo ao redor dele.

Ele anunciara sua aposentadoria do quadribol, e sua candidatura para o Ministério.

Bruxas e bruxos por toda a Bretanha suspiraram alegremente, seguros da eleição bem sucedida dele antes mesmo dele concorrer.

Era tão certo quanto seus chás matinais.

Dois elfos domésticos colocaram uma barulhenta bandeja de chá numa mesa baixa diante do fogo no escritório da diretora, e quando Severo se inclinou para aceitar a xícara que Minerva serviu, ele sentiu uma faca pontiaguda e ardente em seu quadril – e a memória, o calor da vontade da Hermione sob suas mãos urgentes enrubesceu sua pele. Ajeitando-se em seu assento, a sensação do couro na cadeira de madeira varreu o cabelo dela por e através da sua mente. A dor aguda em seu quadril diminuiu para um latejo moroso, e ele se reconfortou na cadeira, o seu sorriso enigmático escondido atrás da xícara erguida.

Se aquilo era para ser o legado do toque deles, que fosse.

— Você disse que precisava de informações adicionais, Severo? — Minerva não dormira bem, e seu tom refletia a dor morosa que se alojara atrás dos olhos.

Severo assentiu com a cabeça, colocando a xícara cuidadosamente na mesa de canto.

— Alguém morreu no castelo desde a guerra?

Sabendo que ela não receberia nenhuma explicação para essas últimas perguntas aparentemente aleatórias, Minerva nem se importou em pedir por uma.

— Sim, Argos Filch faleceu alguns anos atrás.

Algo palpitou nos olhos de Severo, e Minerva teve a impressão passageira de que alguma coisa em sua resposta o irritara.

— E a Hermione? Ela estava residente então? — ele perguntou.

O tom meio entediado dele não fez a diretora acreditar que a pergunta dele era casual. Minerva manuseou seu anel, pensando.

— Não… Acredito que ela estava em Londres, cuidando dos bens dos pais.

— Ah — Severo observou, soando satisfeito. — O primeiro, então. Não é de se admirar…

A dor na têmpora de Minerva ficou mais opressora quando sua conversa com o antigo colega pareceu tomar a direção usual de obscuridade enrolada.

— Severo, vou assumir que sua pergunta foi pertinente, e perguntar — ela disse, o seu tom ficando mais agudo com exasperação auspiciosa — qual a relevância disso.

Um sorriso vagaroso se espalhou pelo rosto do Severo.

— Não é óbvio, Minerva?

— Claro que não é óbvio, Snape, ou eu não teria lhe perguntado — Minerva repreendeu —, um fato que você está enlouquecedoramente ciente. — Seu anel tiniu contra a xícara.

O Barão Sangrento flutuou pelo teto e pairou ali.

Por razões que ela não entendia completamente, a aparição do fantasma da Sonserina lhe caiu como um presságio particularmente em boa hora e perturbadoramente apto – do que, ela não fazia idéia. Mas a irritou, e ela teve que se forçar a soltar o ar.

— Não morreu mais ninguém enquanto ela estava aqui? — Severo perguntava.

Ela fungou.

— Como lhe disse, não.

— Está absolutamente certa disso?

— Absolutamente. Severo, não consigo ver–

— Sim, Minerva, você consegue. E aí mora sua resposta.

Sorrindo com malícia, ele esticou uma perna coberta em couro diante dele, perversamente apreciando a sensibilidade de seu quadril – a dor, o ato de escondê-la, a despistada bem sucedida, e, acima de tudo, a memória de contundi-lo contra o degrau. Ah, sim — ele sussurrou intimamente. Que assim seja, Hermione. Sem perder um compasso na conversa em voz alta, ele continuou:

— É auto-explicativo, na verdade.

Minerva escarneceu, exasperada, e Severo completou:

— Sua professora de Aritmancia foi mais além no entendimento dos mecanismos da alma humana que qualquer um antes dela.

Alguma coisa ressoou nas vizinhanças do teto, e Minerva olhou de relance para cima para ver o Barão assentindo vagarosamente. Através dele, ela viu um vislumbre de luz nos óculos do Alvo.

— Os mecanismos da alma — Severo dizia, novamente colocando sua xícara na mesa baixa —, mas não seus propósitos. Ah, não. Ela se cegou a seus propósitos. — Ele descansou uma mão na perna, correndo os dedos no couro dobrado no joelho. O couro aquecia entre seus dedos.

— E você sabe qual é o propósito da alma, Severo? — Alvo perguntou secamente de cima.

— Alguém de nós sabe, inteiramente? — Severo retrucou, mas o Barão já estava falando.

— É, em grande parte, conexão — ele disse, flutuando entre as vigas elevadas do teto abobadado.

Todos os olhos na sala procuraram o Barão e o seguiram quando ele desceu, continuando:

— É por isso que ela, cega para a alma como está, pode me ver por último de todos. Estou morto por mais tempo; portanto segue que minha alma é a menos… substancial, por falta de uma palavra melhor.

Minerva não disse nada, a sua mente correndo para encaixar os vários mistérios do comportamento da Hermione nas possibilidades sugeridas por essas novas informações. Mas nenhum parecia caber, e ela apertou as sobrancelhas, franzindo a testa.

— Ela não consegue ver uma alma sem querer quebrá-la, Minerva — Severo disse calmamente. — Ela não sabe, conscientemente, que esse é o impulso dela, mas não deixa de ser um fato. Ela se cegou deliberadamente aos fantasmas, em primeiro e principalmente, àqueles que ela conheceu como pessoas vivas.

— E no momento da morte, a alma está no auge da vulnerabilidade — Minerva disse vagarosamente. E enquanto dizia aquilo, soube que era verdade, e água gelada correu em suas veias, apressando-se para sua dor de cabeça para apunhalar de dentro, bem entre os olhos. Ela empalideceu, e engasgou: — Horácio… — Ela se virou para Severo, os olhos arregalados, incapaz de completar o raciocínio, muito menos dar-lhe vazão em voz alta.

— A vulnerabilidade dele foi o que despertou as... — Severo hesitou — ... as ações dela.

— O que ela tem contra o Horácio? — Minerva perguntou, as suas mãos subindo desamparadamente pelo colo, apenas para cair. O anel que usava deslizou até o meio do nó de seu dedo, e ela fechou a mão em punho para pará-lo. A pedra dele caiu pesadamente para dentro de sua palma.

Os olhos de Severo pegaram o pequeno movimento, e os cantos de seus lábios se comprimiram.

— Você deveria mandar ajustar, Minerva, antes que o perca.

O Barão pairou silenciosamente.

— É para ele se ajustar magicamente para servir ao Diretor de Hogwarts — ela murmurou. — Eu não consigo pensar em por que… — Balançando-se, ela voltou ao presente tópico. — No que quer que a personalidade externa dela tenha se tornado, Severo, não posso aceitar que a Hermione faria isso a um colega... a ninguém.

— A Hermione que um dia conheceu, não, claro que não. Mas me diga, ou ao menos se pergunte, quão bem você realmente a conhece agora?

As palavras de Severo soaram, um desafio comedido, no ar.

Minerva abaixou o olhar, e moveu a pedra de um lado para o outro entre os dedos.

— Ela quebrou a alma do Horácio, Minerva. Inconscientemente.

Sem tirar os olhos do anel, Minerva perguntou:

— Por quê?

— Sem perguntar a ela, não podemos saber; mesmo assim, que explicação ela poderia dar que carregasse qualquer semelhança com a verdade? Suponho que as ações dela se originaram, em parte, na pura, inconsciente e imoral curiosidade, testando a teoria dela fora dos confins que sua mente consciente e civilizada julga aceitável.

Os olhos da Minerva se estreitaram, mas ela não disse nada.

Seus próprios olhos se aprofundaram. A falta de resposta dela para a parte mais palatável da sua explicação não era um bom sinal para o futuro da professora de Aritmancia.

— Além disso — Severo começou, mas Minerva interrompeu:

— Tem mais?

— Além disso — Severo repetiu, sua voz mais baixa demandando a atenção de Minerva —, ela não tem defesa contra a tentação das Artes das Trevas. A tentação é simplesmente forte demais para ela, não instruída como está, resistir.

Ainda girando a pedra, tentando enxergar além da dor de cabeça, Minerva perdeu a acusação no tom dele.

Entretanto, um som acima confirmou que a acusação tinha pousado precisamente onde ele tinha mirado.

Minerva finalmente balançou a cabeça.

— Confesso, Severo, que não entendo o que você diz sobre tentação.

— Não — ele concordou, calmamente demais.

Levantando os olhos em alarme, Minerva de repente perguntou:

— Ela pode ser detida?

— Eu já a deti.

A diretora lhe dispensou um olhar cético.

— Seja lá o que fez, Severo, não foi efetivo. A Papoula me diz...

O som do punho do Severo estalando a mesa levou o escritório da diretora a um silêncio mortal. Com os olhos presos ao rosto chocado da Minerva, ele falou cuidadosamente:

— Eu a deti. Mas "deter" não significa "cessar".

A diretora não recuou. Igualmente cuidadosa, ela disse uma palavra:

— Como?

O olhar nos olhos dele a avisou para não perguntar.

— Como? — ela exigiu, toda a força da personalidade dela enchendo sua voz.

Para a consternação dela, Severo deu um riso curto sombriamente.

— A Ordem não existe mais, Minerva. Não estou mais sob o seu comando.

Minerva se ergueu inflexivelmente, e os olhos dela se encheram de gelo.

— Você pode trazer isso a um fim, então? Um razoável?

Os lábios de Severo se encheram com aço quente enquanto se levantou, e ele focou intimamente na dor, antes de responder:

— Muito melhor que ela acabe com isso ela mesma, razoável ou não.

Um bufo suave do retrato do Dumbledore.

Com um olhar gélido ao retrato, Severo lançou suas palavras para cima.

— Um dia, Alvo, eu estava disposto, até ávido, a morrer pela sua Ordem. Mas sua falta de visão a sentenciou a algo muito pior que a morte redentora que nós dois acreditamos que era o meu destino. Ela resistiu, sozinha, a uma tentação pior do que qualquer uma que jamais conheceu, por vinte e dois anos. Eu sei o que ela tem agüentado, melhor do que ela mesma. Como a moldou. Enlaçou-a. Ela sacrificou a inocência para preservar o mundo, Alvo. Para todos, exceto ela mesma.

Alvo suspirou.

— Tristemente, às vezes as coisas são assim. Mas o que ela fez foi além do imperdoável, Severo, e...

Severo olhou para o retrato em cheio, os seus olhos brilhando perigosamente.

— Sim. Pragmático da parte dela, não foi?

— A Hermione salvou o mundo? — Minerva interpôs.

O antigo espião não se virou para responder, ainda fixando o retrato sob seu olhar incessante.

— O jovem Weasley deu a espada a ela; ela a usou. E, diferentemente do seu menino herói, Alvo, ela ao menos teve bom senso suficiente para ficar quieta com relação às ações que ela não pode explicar.

— Ninguém acreditaria nela — Minerva disse calmamente. — Eu mesma mal acredito.

— Não mesmo — Alvo concordou. — Mas mesmo assim, a lealdade dela ao nosso mundo deveria contudo...

A voz de Severo cortou polidamente qualquer complemento que Alvo estava para acrescentar.

— Muito bonito, Alvo. Mas eu lhe garanto, a lealdade dela não é para o "nosso" mundo.

Alvo piscou, a boca ainda aberta para falar.

— E por que deveria ser? — Severo continuou, antes que o retrato pudesse recuperar a razão. — Qualquer mágica que nosso mundo tenha para os nascidos trouxas não existe mais para ela, substituída por um mundo de conveniência e burocracia no qual ela, dentre todos, pode ver que não passa de uma conspiração de cegueira. Não, Alvo. Eu me refiro à lealdade dela ao Potter.

Minerva brincou com as mãos, e o raspar das vestes duras dela chamou a atenção de Severo.

— Potter? — A conversa fora mais uma vez além da compreensão.

Ele se virou para ela.

— Você mesma disse que os problemas dela com os Weasley começaram com o casamento.

— Sim, mas...

— Minerva. Pense.

Mas o rosto dela estava em branco.

— As crianças, Minerva. As crianças.

O olhar de início de compreensão no rosto da Minerva era quase privado demais para assistir. O Barão se suspirou para fora através da parede do escritório.

— Sua pergunta sobre os N.I.E.M.s da Gina? — Minerva arriscou.

— Sim. Ela não tinha nenhum problema com a garota quando ainda era Ginevra Weasley.

— E... e a Lílian Potter… a filha dela. Ai... ai, meu...

Severo assentiu com a cabeça uma vez, categoricamente, depois exigiu:

— Você sabe como as almas funcionam, Minerva?

— Ela… ela não pode acreditar… que… — Minerva vacilou, incapaz de se fazer dizer o que pensava.

Severo deu as costas para ela, uma silhueta negra contra fragmentos de luz entrando obliquamente pela janela.

— Ela não sabe no que acreditar, Minerva. Como poderia? Ela sabe que o Lorde das Trevas habitou a mente do Harry através de uma Horcrux, mas apenas enquanto ainda tinha o próprio corpo, a própria consciência. Você sabe quanta consciência reside em uma alma? Você sabe, Alvo? Como um fragmento de alma funciona quando seu corpo morreu?

Silêncio.

Abrindo as palmas das mãos num pedido zombeteiro, ele perguntou:

— Por obséquio, esclareça... e deixe-nos pôr um fim no tormento dela.

Mais silêncio.

— Vocês não sabem, então? Muito menos a Hermione, que tem vivido com a questão por vinte anos. E não é como se ela, ou qualquer um, pudesse perguntar para a única pessoa no mundo que pode ter uma resposta. Como a pergunta deveria ser formulada? "Quando está tocando sua esposa, Potter, você pode dizer se o seu melhor amigo está assistindo? Ele pode sentir, Potter, quando você faz amor com a irmã dele?"

— Chega! — Alvo bradou.

Minerva estava sentada em chocado silêncio no eco da fúria de Alvo, a pele ao redor dos seus olhos ficando mais pálida.

— Você está louco.

Os olhos de Severo penetraram sem dó o retrato acima.

— Eu não. Mas ela talvez esteja. E se é assim que aqueles que deveriam ser os mais próximos a ela pensam, então eu, por minha parte, não a culpo se estiver.

Minerva desviou o olhar, para as mãos no colo, para o anel de ofício largo demais para o seu dedo. Ela tocou a pedra e disse calmamente:

— Ela deve deixar o castelo, Severo. Antes dos alunos voltarem.

O lábio de Severo se curvou.

— Não pode correr o risco de ter um perigo em potencial desses na equipe, Minerva?

Olhando fixamente para ele com olhos arregalados, levou um tempo para a Minerva encontrar a voz. Quando encontrou, estava vazia.

— Minha primeira responsabilidade é com a escola e seus alunos — mas os olhos dela se enchiam de uma ciência inegável, e, fechando-os antes que ele pudesse ver o que a castigaria mais tarde, em particular, concluiu: —, como bem sabe.

Severo soltou o ar; ele vislumbrara o retorno da consciência dela. Seu tom estava estranhamente gentil quando ele retorquiu:

— É claro; os inocentes devem ser protegidos a qualquer custo… todos menos um. Não faz mal que tudo o que mudou foi que você não está mais cega ao desespero dela. Não, Minerva — ele disse, quando Minerva começou a protestar —, sua lealdade está perfeitamente colocada dentro dos limites estritos da sua responsabilidade. Mas quem, eu lhe pergunto, quem irá ser leal à Hermione? Você? O Ministério?

Algo em seu tom trouxe os olhos de Minerva aos dele, e neles ela encontrou a resposta a sua pergunta.

Severo assentiu uma vez com a cabeça, finalmente, antes de deixar o escritório dela, fechando a porta calmamente atrás de si.

Apesar do sentimento triste pesando em seu peito, sua boca se contraiu. Ela não podia evitar.

Mas então o julgamento de Alvo caiu suavemente da parede:

— Aquele menino nunca precisou de uma causa.

— Você deveria saber, Alvo. Você usou isso muito bem. — Ainda ardendo do tapa da verdade que não enxergara por mais de vinte anos, a diretora de Hogwarts falou rispidamente, mais rispidamente do que falara em toda sua vida.

Quando Alvo começou a protestar, ela ergueu a mão.

— Agora não, Alvo. Pelo amor de Merlin, agora não.

Sentindo-se dispensado pela primeira vez desde a derrota de Grindelwald, Alvo Dumbledore olhou para a Floresta Proibida e descobriu que não tinha nada a dizer.

Nada mesmo.


Nota de fonte: A fala da Minerva "Você deveria saber... Você usou isso muito bem." é uma citação quase exata do conto de Ernest Hemingway "The Sea Change".