Segredos

Parte II

O silêncio da noite no avião era quebrado de vez em quando por um sussurro ou resmungo de passageiros que não encontravam uma posição quase confortável para sentar-se. Agradecia calado à possibilidade de viajar em classe executiva e não na lata de sardinha que era o conglomerado de pessoas na parte mais barata. A pequena criança que crescera em um invólucro de algodão deitada em meu colo jamais adormeceria num lugar tão rudimentar.

Sorri de maneira inconsciente ao mirá-la. Abraçada ao cachorrinho de pelúcia, Sophie deveria estar no sétimo sono. Não pude evitar a comparação com um pequeno anjo, dado o vestido azul claro de mangas compridas que ela usava e os cabelos loiros soltos e um pouco enrolados. A visão era agradável, diferente da imagem perturbadora da jovem a seu lado.

Desde que a havia conhecido, sempre considerei Camilie uma pessoa bem fora do normal, mas vê-la dormindo de boca aberta, salivando pelo canto dos lábios pintados de vermelho desbotado, com as roupas indecentes amassadas e sem os sapatos era assustador. Com sorte talvez ela decidisse que meu apartamento era bagunçado demais para ela e procuraria um hotel ou coisa parecida para ficar. Pelos céus, aquela criatura não podia dormir sob o mesmo teto que eu nem uma noite a mais.

Acho que acabei caindo no sono também, já que as próximas quatro horas até a aterrissagem passaram rápido. Fui desperto do jeito menos usual, ou para mim pelo menos, quando Sophie sussurrou algo em meu ouvido que não pude entender a princípio.

– Já estamos chegando – repetiu em tom mínimo –... Papai.

O vocativo me fez cócegas na orelha e sorri para a pequena. Quase havia me esquecido do acordo entre nós. A pessoa do outro lado torceu no nariz e resmungou algo sobre detestar o cinto de segurança. Ignorei o mau humor nada contagiante dela assim que a criança ansiosa segurou a minha mão.

– Chegamos? – indagou assim que o avião fez contato com o solo.

– Sim, daqui a pouco vamos descer.

– Que demora... – reclamou Camilie – Ainda temos que pegar as malas e passar pela imigração, que droga...

– Nem acredito que já chegamos! – continuou a menina de modo a cortar o que sua irmã mais velha dizia – Quando vamos ao Kaleido Stage?

– Amanhã – respondi – A peça só começa daqui a dois dias, mas parece que há um show paralelo para crianças...

– Para crianças, Yu? Que chatice, não quero...

– Que legal! – interrompeu Sophie – Vamos ver a Sora lá? Eu quero muito conhecê-la!

– Claro, posso te apresentar...

Camilie continuou com seus comentários tediosos durante todo o processo entre o desembarque até o ponto de táxi. Acomodei três malas pesadas no carro amarelo e me sentei no banco do passageiro, indicando ao motorista meu endereço. Imaginava que o apartamento estivesse quase em ordem, já que havia contratado uma companhia de faxina para que o limpassem uma vez por mês, mas mantive viva a esperança de que minha hóspede nada bem vinda decidisse ficar em outro lugar.

Esperança frustrada, Camilie considerou o lugar um "ambiente muito maduro". Dado o horário, pedi uma pizza e as ajudei a acomodar-se num quarto vazio. A mais velha insistia que gostaria de dormir comigo e recusei veementemente a sugestão. Comemos sem muita vontade e, logo após uma ligação rápida para a mãe informando que haviam chegado bem, elas dormiam de novo, a grande diferença de horário entre a Califórnia e a França afetando-as. Eu, como já era costume, não tinha a mínima vontade de fechar os olhos. A ansiedade que me vinha ao olhar pela janela, ver a lona colorida do Kaleido Stage coberta de luzes no meio do mar e saber que dois quilômetros à frente da mesma avenida estava Layla era demasiada para permitir o sono.

Naquela noite considerei ligar para ela e dizer que havia chegado, mas decidi-me por fazer-lhe uma surpresa no dia seguinte. Mal sabia eu que a surpresa seria minha...

Para cortar uma história longa e desagradável, Camilie invadiu meu quarto três vezes naquela noite: uma com a desculpa de não saber onde era o banheiro, depois por estar com sede e por último porque tivera um pesadelo e não queria ficar sozinha. Minha paciência já se exauria e acabei por desistir de vez de ficar deitado. Saí para a sacada para admirar a paisagem.

Os postes da rua eram as únicas fontes de luz da cidade, enquanto que no mar o circo brilhava de maneira ofuscante. Ocorreram-me imagens da primeira vez que o vira assim, se não me enganava fora com meu pai. Apesar de não ter idéia do que estávamos fazendo ou se estávamos conversando, a única coisa que me lembrava com nitidez era de estar sentado sobre os ombros dele e de sentir-me muito bem, muito querido.

A segunda vez que estive ali de noite fora muitos anos depois, numa situação completamente diferente. Naquele verão foi organizado o primeiro e último Kaleido Stage's Summer Camp, o qual garantiu a mim e a Layla nossas entradas dois anos depois. Conheci-a naquela época, uma jovem linda de quatorze anos, radiante e simpática, uma pela qual me apaixonei a primeira vista, que namorei por um mês depois do término do acampamento e que quase nada tinha em comum com a Layla que voltei a encontrar vinte e quatro meses depois. Nunca consegui arrancar-lhe o porquê da mudança assustadora, ou descobrir por que a custava tanto me tocar fora do palco ou por que tremia quando a beijei uma noite. Não me cabia que a jovem doce que gostava de andar de mãos dadas não quisesse mais me olhar nos olhos, pelo menos até o ano seguinte, quando finalmente fi-la ceder à tentação de um ósculo.

Algum tempo depois, a chegada de Sora deu-me muitas memórias a colecionar, nas quais eu, Layla, meu carro e o Kaleido Stage noturno éramos protagonistas. Com o perdão da ironia, nunca me vi tão próximo e tão distante do objeto de meu afeto, uma vez que só eu era capaz de aliviar-lhe as tensões cotidianas e ela jamais chegaria perto de ajudar a cicatrizar a ferida feita pela morte de meu pai e que ela aprofundara com seu distanciamento.

Depois? Fatos que eu gostaria que não fossem, erros que se pudesse voltar atrás nunca cometeria e minha fuga da realidade para a redoma de vidro francesa em que me encontrava havia quase um dia atrás. Um dia? Estava sem noção horária alguma para contar as horas, e para falar a verdade tudo aquilo parecia tão distante que sequer parecia haver existido por completo. Os dois meses que havia passado lá pareciam haver se resumido nas duas semanas em que um pequeno anjinho entrou em minha vida para curar o que nem o tempo, nem a mocinha de óculos, nem o doutor diplomado e nem mesmo Layla puderam: meu coração.

Como que pegando sua deixa, senti uma mão pequenina puxando de leve a minha para chamar atenção e dei com os olhos claros na luz tênue. Sophie tinha o aspecto de alguém que acabava de acordar involuntariamente de um sono de cinco minutos. Ajoelhei-me à frente dela e fui abraçado com murmúrios de "Sonho ruim", "Não me deixe sozinha", "Não quero a Camilie" e "Estou com medo, papai". Peguei-a no colo e a levei a meu quarto, onde deitamos ambos e tentei acalmá-la para que voltasse a dormir. Eu também, não estou certo se antes ou depois dela, adormeci um tanto calmo, podia-se dizer aliviado. Tinha a impressão de que aquela menina, pequena, indefesa e de aparência angelical, seria minha fonte de coragem e força para enfrentar o dia incerto que seria o seguinte. Nele, teria de conversar a fundo com Layla e, eu suspeitava, com Leon.

Não considero relevante detalhar a crise histérica com a qual fui acordado no fim da manhã seguinte, uma vez que dizer que a responsável foi Camilie é suficiente. Ignorei-a ao máximo que pude, tarefa não tão impossível como soava graças à inquietação monumental de Sophie. "Vamos ao Kaleido Stage, vamos ao Kaleido Stage!" ela cantarolava durante o almoço e depois no caminho para o circo. Era algo que dava gosto de ver.

Estacionei o veículo e, quando a pequena estava descendo, tropeçou, caindo de joelhos no asfalto.

– Sophie – acudi-a – Está bem? Machucou?

– Hm... – gemeu – Acho que estou bem...

Pude ver que a mancha vermelha que se formava estaria roxa em breve e, por menor que fosse, deixou-me preocupado. Acho que já mencionei antes, mas talvez nunca pontue o suficiente o quão grande era o poder daquela menina sobre mim. Logo, quando a frase seguinte foi feita, nada pude dizer contra.

– Papai, me leva de cavalinho?

Agachei-me para que ela subisse sobre meus ombros, e assim o fez. Vi Camilie revirar os olhos e dizer algo que soava como "Vou indo na frente", mas não me deixei afetar pelo desdém que tinha na voz. A menina menor riu quando fiz que ia deixá-la cair, depois lhe comprei um algodão doce e lhe prometi um balão mais tarde.

Várias crianças corriam ao nosso redor e escutei uma ou outra dizendo "Aquele não é o príncipe da Cinderela?", mas logo mudavam de idéia ou decidiam que, como eu não estava no show, não havia porque me interceptar ou pedir autógrafo, ou assim quis acreditar. Verdade seja dita, estava aproveitando demais a situação para me preocupar com o que os outros pensavam dela. Afinal, haviam sido poucas as vezes em que pude apreciar um espetáculo como parte do público, e saber que se tratava de uma peça divertida e simples me animava ainda mais. Sentia que nada poderia estragar aquele momento.

Já perto da entrada para área onde assistiríamos ao show, encostada a uma parede, estava uma figura que ansiara a ver durante muito tempo: Layla. Pude ver que havia mudado pouco desde nosso último encontro dias depois da apresentação da Técnica Fantástica: estava um tanto mais morena, com faixas no braço que pareciam dar uma volta por todo o peito, já que eram visíveis pelo decote mínimo da blusa, e levava o cabelo num rabo de cavalo, prática não muito habitual dela.

Apesar da aparência, ela tinha o semblante preocupado e ao mesmo tempo sorridente ao ver-me, quase perdida ou sem saber como devia agir. Sophie pediu-me para descer e, assim que pisou no chão, correu para os braços da moça à nossa frente.

– Ms. Layla! – a pequena exclamou – Que bom te ver!

Não pude identificar porque, mas algo na cena e nos olhos úmidos de minha parceira mexeu comigo, como se um delicado equilíbrio tivesse sido perturbado por instantes.

– Vai ver o show com a gente?

– Vou, Sophie.

– Que legal!

Entre a euforia infantil e a simpatia quase melancólica da outra, senti que algo estava estranho na situação. Parecia um reencontro, como se ambas já se conhecessem há longa data. Talvez perguntasse isto mais tarde para uma das duas, mas na hora não tive tempo, uma vez que, para minha surpresa, Layla sorriu-me e me cumprimentou com um beijo no rosto. Retribui o gesto sem entender muito (ela nunca se permitia tais familiaridades) e logo fomos os três para nossos lugares na platéia, onde uma certa moça nos esperava de mau humor. Camilie jogou um "Oi" sem vontade alguma para nossa acompanhante e não trocou palavras com ninguém até o início do espetáculo.

Havia um período considerável que não ria como durante a peça. Não havia uma história definida, mas tudo de divertido que podia nomear estava lá, desde o malabarismo e a cama elástica, passando por uma incrível apresentação de diabolo por parte de Rosetta, até uma ponta cômica entre um Leon vestido em várias cores e uma Sora cor-de-rosa no trapézio. A acrobacia, devo adicionar, deixou bem claro o que já haviam me contado: o casal mais inimaginável de todos era uma realidade.

Uma vez havia escutado as circunstâncias sob as quais Sora decidira entrar no Kaleido Stage, e não pude deixar de identificá-las como iguais as de Sophie.

– Quero entrar no Kaleido Stage também! – declarou ao fim da peça depois de inúmeros "Legal!" e "Incrível!" – Será que eu posso?

– Quando tiver idade, pode tentar – disse-lhe enquanto saíamos.

– Podemos ver a Sora? Quero muito conhecê-la!

– Por aqui... – indiquei pressupondo que tinha permissão graças à companhia da produtora da peça.

A menina foi à frente e Camilie disse que nos esperaria no carro. Layla, andando a meu lado, parecia contente ainda um pouco sem ação.

– Faz tempo – começou – que não nos vemos...

– Só alguns meses.

– Mas foram o bastante para uma mudança – referiu-se a mim – Desde quando você usa camisetas?

– Ah, isso? – indiquei minha roupa – Não sei, tive vontade hoje. E você também está diferente – passei a mão de leve pelo cabelo preso – Fica bem assim.

– Obrigada – abaixou um pouco a cabeça.

– Como está o seu braço?

– Bem melhor, devo conseguir escrever de novo assim que tirar o curativo amanhã.

– Não sabia que era tão sério assim.

– Não é, mas a Dr. Kate insistiu que eu não o usasse em hipótese alguma.

– Entendo – fiz uma pausa ao entrarmos na construção e decidi tentar algo – Você e Sophie se deram muito bem.

–... Sim – sombreou os olhos com a franja – É uma menina adorável.

Para quem havia passado pouco mais de uma hora e meia com a criança pela primeira vez havia algo fora do normal.

– Leon me disse que queria conversar com você – ela mudou de assunto – Disse que era muito importante.

– Já imagino o que seja – suspirei – Ele tinha pressa, ou...?

– Na verdade, sim. Pediu que o encontrasse depois do show.

Chegamos à porta dos camarins. Layla colocou a mão sobre a maçaneta e se virou para mim.

– Levarei Sophie ver Sora – disse sem dar-me alternativa – Leon deve estar te esperando na sala ao lado.

Entraram as duas e pude ouvi-las conversando lá dentro. Encarei a outra porta, uma que agora era a de um artista a quem eu tinha arrepios só de pensar em encontrar. Fui poupado o trabalho de abri-la. Leon o fez antes.

– Ah, você está ai – falou como se já me esperasse há horas – Entre.

Obedeci. O lugar não havia mudado nada desde a época em que o chamava de meu, e fui convidado a sentar-me numa das duas cadeiras disponíveis.

– Ótima peça – cumprimentei – E adorei sua fantasia.

Ele demonstrou agrado.

– Foi idéia da Sora, assim como todo o resto – levantou a mão para exibir uma aliança prateada – Fofocas mais tarde, há algo que quero te contar...

Senti meu estômago se contorcendo. Ali vinham acusações verdadeiras que eu evitaria com todo prazer.

– Lembra-se de quando nos conhecemos antes do Festival? – não esperou resposta – Estou certo que se recorda de que minha irmã foi muito simpática para com você e Layla.

– Pois sim – disse com voz fraca – Até nos ofereceu uma sala para que pudéssemos treinar.

– Recordo também que você era uma pessoa pacífica, honesta e empenhada em ganhar, definição que não se enquadra nem um pouco com o que você me disse no telefone enquanto Sophie morria.

Eu havia dito que era culpa minha, e continuei achando que era, mesmo que não tivesse manifestado na hora. A verdade era que havia ligado para a jovem e pedido que me encontrasse no parque minutos antes do início das apresentações e ela, ao tentar voltar correndo, foi atropelada e morreu no hospital.

O rapaz a minha frente pegou um maço de papéis sobre a mesa de maquilagens e o entregou a mim.

– Isso prova a sua inocência, Yuri – disse-me com tom de triunfo – Se estiver interessado, pode ficar com essa cópia.

– O que é isto?

– O relatório final de uma investigação de mais de três anos – respondeu cruzando os braços – Contratei uma equipe especializada em investigar mortes suspeitas para averiguar a de Sophie.

– Morte suspeita?

– O motorista abandonou o carro assim que passou por cima dela e nunca mais reclamou o veículo, e minha irmã foi atropelada ao atravessar uma faixa de pedestres numa rua interditada para o Festival. Achei que era suficiente para tomar ações legais.

As informações eram associadas com certa dificuldade. Um assassinato? Fazia pouco sentido. Sophie não era famosa, nem era melhor que muitos outros competidores, ou tinha qualquer inimigo que a quisesse fora da competição (além de mim, claro). Leon pareceu ignorar minhas dúvidas e prosseguiu.

– Mas o motivo por haver te chamado aqui é outro, e bem mais sério – continuou – Os detetives encontraram muito mais do que o assassino; descobriram uma conspiração que eu mesmo não acreditei existir, e da qual você e eu fomos vítimas.

– Não entendo – insisti – Uma conspiração? Não acha que está indo longe demais?

– Falo sério. O que tenho aqui são fatos que vão tão longe quanto a realidade permite. Yuri, o que vou dizer agora é extremamente secreto e não posso dizer alto – puxou algumas folhas da pilha – Você se lembra quem pôs na sua cabeça que Sophie era uma ameaça para você e principalmente para Layla?

– Ninguém, você sabe que...

– Há alguém – insistiu – Não se lembra de haver conversado com Mr. Hamilton por telefone dias antes do acidente?

– Você grampeou conversas telefônicas?

– Claro que não, já disse que essa investigação está em processo há muito tempo, tempo suficiente para haver interrogado muita gente, pesquisado contas de hotéis e muitas listas telefônicas.

– Leon, acho que isso já é demais. Sim, conversei com Mr. Hamilton e falamos sobre ela, mas não acho...

– Pois acha errado – interrompeu-me – Ele te disse exatamente essas três linhas, não disse? – indicou um texto que confirmei já haver escutado – Isto foi escrito para que quem o lesse se considerasse ameaçado. Trata-se de uma técnica de mensagem subliminar.

– Sim, e daí?

– E daí que, lendo o texto mais a fundo, ele literalmente te induziu a fazer o que fez. O atropelamento também foi...

– Está me dizendo que o pai de Layla queria Sophie morta e me usou como ferramenta para tal?

– Estou – disse firme – O homem que a atropelou foi pago para fazê-lo, dinheiro este recebido de uma conta filiada aos hotéis Hamilton, e dessa mesma conta saíram outros pagamentos questionáveis...

Mostrou-me mais documentos. Constava que um antigo funcionário do Kaleido Stage havia recebido uma quantia exorbitante que, segundo Leon, pagava a sabotagem de um trampolim e o acidente que eliminara a mãe de Marion da competição pelo papel principal com Layla. Outro caso particular dizia que um garoto que dividira o quarto comigo durante o acampamento também recebera para não entrar no circo, e o mesmo acontecera com a companheira de quarto de minha namorada na época.

Também me apresentou outras provas, estas que me alarmaram. O presidente dos hotéis Hamilton na França havia morrido há oito anos e sua secretária (com o nome da mãe adotiva de Sophie) havia misteriosamente assumido o posto e passou a receber o dobro do salário que lhe cabia.

Não li tudo, escutei com atenção e encontrei dificuldade em aceitar os fatos. Mr. Hamilton havia pagado para que a filha subisse rápido na hierarquia circense, apesar de minhas dúvidas que ela chegaria onde estava por mérito próprio, enquanto Cynthia e Sophie foram riscadas do mapa. Mirei Leon num instante de indecisão.

– Layla sabe disso?

– Acho que não – disse para o meu alívio e desconforto – Creio que ela não tenha a menor idéia do que se passou.

– E o que pretende fazer agora?

– Não é óbvio? Vou denunciá-lo.

– E quanto a Layla?

– Quero que me faça um favor quanto a ela...

– Não está me dizendo que quer que eu conte a ela que o pai vai ser preso, está?

– Não só isso como também que explique os detalhes. Ela jamais acreditaria em mim se eu contasse e também correria o risco de ela dizer ao velho ainda hoje.

– Quando vai dar a denuncia?

– Amanhã. A posse da rede de hotéis foi passada para Layla ontem, quero aproveitar isso para que não haja envolvimento de outras pessoas ou crises que chamem a atenção.

Ele se levantou e curvou os cantos da boca na sombra de sorriso.

– Sei que não tivemos o melhor dos relacionamentos até agora – estendeu a mão para ajudar-me a levantar – Mas espero que já que os mal entendidos foram desfeitos, isto possa melhorar.

Mudado, pensei mais tarde e com os pensamentos em ordem, Leon estava mudado a ponto de não reconhecê-lo. Aceitei a ajuda ainda com a cabeça zunindo. Não tenho a menor idéia do que se seguiu, uma vez que estava tão imerso em mim mesmo que mal posso lembrar das próximas palavras que ouvi enquanto saíamos. Em minha cabeça só me vinham cenas com pai de Layla.

Nunca o achei uma pessoa muito simpática, pelo menos não para comigo. Quisera, as primeiras impressões são as que ficam, e nossas não foram boas nem de longe. Apesar de um pai ausente, ele também era super protetor e suponho que ver a filha única namorando não fosse muito agradável, muito menos atender ligações minhas. Chegamos num ponto em que ele simplesmente desligava quando percebia quem estava na linha.

Venhamos e convenhamos, por pior que ele fosse comigo e por mais que desejasse o melhor para a filha, custou-me muito acreditar que aquele homem seria capaz de encomendar assassinatos ou que me usasse para um deles. Resolvi que leria todo aquele contrato antes de falar com Layla. Talvez se me convencesse conseguira convencê-la também.

Meu locutor talvez tivesse percebido minha total desatenção, ou não pararia de falar de repente. Disse-me que já estava tarde e que deveria ir, pois tinha uma reunião para acertar os últimos detalhes da peça do próximo dia. Já no corredor encontramos com Sora, Layla e Sophie. Feita a apresentação de "minha enteada", como Leon a apelidou, o casal Kaleido Stage nos deixou.

– O meu balão, papai – a menina pediu-me – Você não esqueceu, não é?

– Não esqueci, mas acho que agora não estão mais vendendo.

– Ah, papai, mas você prometeu...

– Compro um amanhã, tudo bem?

– Tudo!

Vi que a mulher a meu lado empalidecera um pouco, mas o falatório da menina não me permitiu que perguntasse o qual era o problema.

Dos bastidores ao estacionamento fomos os três e ofereci a Layla uma carona para casa, convite recusado à vista de Camilie roncando no banco do passageiro.

– Mas de qualquer maneira seria impossível – disse-me – Vou ao escritório agora, ver se há algo mais faltando para a apresentação de amanhã.

– Tudo bem – formulei – O que acha de sairmos mais tarde? Há algo que gostaria de te dizer.

– Sobre...?

– Bem... – olhei de relance para trás, percebendo que Sophie prestava atenção no que eu dizia e decidi não comentar o assunto a ser tratado – Falo quando sairmos. As nove está bem?

–... Claro – tremeu a voz – Pode me buscar em casa? Eu também...

– Ah, não – interrompeu a menina já sentada no banco traseiro – Minha hora de dormir é antes disso!

– Sairemos amanhã – Layla prometeu a pequena – Podemos tomar sorvete, que tal?

– Papai vai junto?

– Vou – respondi – Mas hoje você fica em casa, está certo?

– Hm... Está bem.

Já ia entrar no carro quando minha mão foi pega e algumas palavras sussurradas em meu ouvido.

– Também tenho algo para te falar...

Senti um arrepio com o tom frio e triste, como se pretendesse contar-me algum crime hediondo. Talvez ela soubesse...

– Esteja pronta as nove – disse-lhe sem poder fazer o que realmente tinha vontade.

– Está bem.

Ganhei outro beijo na bochecha como despedida antes de colocar a chave na ignição. A menina menor fez algum comentário baixo que não pude escutar.

– O que foi?

– Eu te disse que ela ainda gosta de você! – comemorou.

Sorri para ela pelo retrovisor. Como era fácil para as crianças...

– Papai, não acha que eu consigo aquela acrobacia que a Sora fez hoje?

– Com treino, tenho certeza que consegue.

– Quero tentar, quero mesmo. Podemos vir mais cedo amanhã? Sora disse que eu podia ver a sala dos trapézios.

– Se Camilie estiver acordada até lá...

A francesa a meu lado, alheia a qualquer provocação, continuou a babar. Logo chegamos em casa e tomei um banho. Comecei a ler os papeis que me foram incumbidos enquanto Sophie e Camilie também se banhavam e se preparavam para dormir. Acostumar-se ao fuso-horário estava custando-lhes muito e afetando o humor da mais velha da pior maneira.

Coloquei uma camisa branca e uma calça bege, penteei os cabelos (prática não muito usual minha) e passei algum perfume por vaidade que não me é própria. Sentia-me um colegial tonto indo para o primeiro encontro ao olhar-me no espelho e dar com meus olhos claros e frios e aparência calma. Desabotoei os primeiros botões e baguncei os fios que arrumara a tanto custo, dando-me um quê de despreocupado. Hm, pensei, agora sim estava bom.

– Papai está muito bonito.

A figura pequenina e pálida de Sophie estava à porta vestida com uma camisola alva decorada com figuras de sóis sorridentes.

– Obrigado – virei-me para ela – Não quer jantar?

– Não, comi muito no almoço.

– E Camilie?

– Ah – fez uma careta – Já foi dormir, acho.

Estendeu os braços e a peguei no colo.

– Então já para a cama – fiz-lhe cócegas – Está ficando tarde.

Deitei-a em meu quarto e puxei as cobertas.

– Durma bem. Se acontecer alguma coisa ligue no celular. Já tem o número?

– Já... – espreguiçou-se – Papai, muito obrigada por hoje. Foi muito, muito legal ir ao Kaleido Stage com você e com...

Não terminou a frase de súbito e fingiu um bocejo. Eu tinha uma idéia do que ela estivera a ponto de dizer, mas não me manifestei. Dei-lhe um beijo na testa como despedida.

– Boa noite, Sophie.

– Boa noite, papai – respondeu com um sorriso sonolento – Diz pra mamãe que eu mandei um oi...

Sorri de maneira involuntária. Tive certeza de que a referência materna designava Layla.

Ser associado à figura paterna de Sophie, pensei enquanto fechava a porta, era algo com o que já havia me acostumado e que me parecia bem normal àquela altura. Portanto, ver-me com uma mulher que a tratava com carinho juntamente ao fato de que sua mãe adotiva era muito ausente eram ambos fatores condizentes com o apelidar Layla de "mamãe". Irônico, concluí. A semelhança física e de índole entre as duas era suficiente para que qualquer um as considerasse parentes à primeira vista.

Peguei minhas chaves e já estava indo embora quando uma voz fina e melosa me interceptou.

– Não vá, Yu. Agora que a pirralha dormiu podemos nos divertir...

Senti uma veia pulsando em minha testa.

– Pensei que você também estivesse dormindo.

– Quando posso ter você só pra mim? Nem dá...

– Vou sair agora e devo voltar bem tarde. Não me espere.

– Aaaaaahhh Yu...

Camilie pendurou-se em meu braço e respirei fundo. Se não saísse em cinco minutos chegaria atrasado.

– Conversamos amanhã. Agora tenho que...

– Vai sair com aquelazinha que se julga socialight? Que desperdício de tempo...

– Não fale assim de Layla – zanguei-me e sucedi em fazê-la soltar-me – Preciso ir.

– Acredite em mim – falou séria – Você não quer sair com uma mentirosa daquelas.

– Mentirosa?

A pose da jovem mudou. Deixou a coluna ereta, sorriu com malícia, os olhos um pouco fechados e as mãos na cintura, quase me desafiando.

– Caramba, como você é lerdo – passou a língua pelos dentes – Esquece essa daí, eu jamais esconderia uma coisa dessas de você...

– Do que está falando?

– Um beijo é igual a uma informação, mas se dormir comigo conto tudo que quiser e mais um pouco.

– Estou saindo, Camilie. Até mais tarde.

Bati a porta atrás de mim e a tranquei. Havia uma chave reserva do lado de dentro, mas duvidava que aquela criatura pudesse encontrá-la. Por Deus, o que fora aquilo? Inventar suspeitas sem fundo lógico como aquelas, que atitude baixa, e depois se oferecer sem o menor pudor... Livrar-me de Camilie estava subindo cada vez mais em minha lista de prioridades.

A um quarteirão do prédio, enquanto dirigia pelas ruas vazias, senti frio na base do estômago. O pensamento de explicar a Layla as atrocidades que acabara de ler já era assustador em si, e o pior era que ela também parecia querer dizer algo. Ocorreu-me que poderia ser o mesmo que eu queria falar-lhe e tive esperanças de que fosse. Se sim, eu seria poupado do martírio de informar a ela que o pai chefiava uma máfia para protegê-la, noticia que não a agradaria nem um pouco e que perigava destruir o já fraco relacionamento que tínhamos.

Desacelerei devagar em frente à casa grande. No portão de ferro me esperava uma jovem trajando um vestido e um bolero azuis-claros, longas madeixas loiras esvoaçantes e um sorriso apreensivo.

– Oi – ela disse sentando-se no banco de passageiro e dessa vez sem beijinhos.

– Oi – respondi por inércia – Quer ir a algum lugar ou só dar um volta?

– Vamos para a praia.

Acho que sorri, mas não estou certo. Não era a primeira vez que ela me pedia esse destino, e entre nós "ir para a praia" era o mesmo que "ir o mais longe possível" quando queríamos conversar. Abri todos os vidros do carro e em um silêncio leve caiu sobre nós enquanto as ruas nos levavam para um lugar que me atreveria a chamar de nosso santuário.

Mesmo que contadas nos dedos, jamais me esqueceria de todos os detalhes das vezes em que "fomos para a praia". Da primeira, como adolescentes sem carteira de motorista, fomos a pé. No início, como duas pessoas e, ao voltamos, como uma; e assim também foi da segunda e da terceira. A quarta, já de carro, foi dois anos depois, ao entrar dois e ao sair dois também, e da quinta vez beijei-a contra sua vontade. Depois não fomos mais. Havia só "voltas" vazias, Kaleido Stages noturnos e quietos, conversas sobre aquela novata que a irritava e coisas do gênero.

– Há algo que quero conversar com você – quebrei a quietude com cautela.

– Já sei do que se trata – interrompeu-me olhando pela janela para a costa – Mas quero que escute o que tenho a dizer primeiro.

Segurei a direção com mais força. Então ela sabia. O alívio esperado não veio, já que, se ela queria se explicar, talvez não achasse que o pai estava errado, ou pior, porque talvez não soubesse tudo. Essa possibilidade era ainda mais alarmante, mas Layla pareceu sequer notar meu desconforto e continuou o tópico:

– Posso me delongar ou você já está a par de todos os detalhes?

– Pode falar – disse-lhe com cautela. Talvez quem estivesse inventando coisas fosse Leon, pensei, e o que ela estava para me contar fosse como estava cansada de trabalhar no Kaleido Stage e na rede de hotéis da família ao mesmo tempo.

– Não sei muito bem como começar...

– Pelo começo é uma boa idéia – brinquei na tentativa de amenizar o clima que o assunto exigia e ganhei um riso fraco.

– De fato, pelo começo... Aqui está bem.

Estacionei numa vaga perto do calçadão vazio. À nossa frente o mar ia e vinha sobre a areia molhada de maneira quase carinhosa. Havia trazido duas latas de cerveja, mas estas foram recusadas. Peguei Layla pela mão enquanto atravessávamos a rua em direção à praia e não a soltei tão cedo. Sentamo-nos para apreciar a brisa noturna.

– Lembra de quando viemos aqui pela primeira vez? – perguntou com certo ar saudosista e um sorriso pequeno.

– Não há como esquecer – sorri. Ela tampouco parecia haver se esquecido – Lembro-me como se houvesse sido ontem.

– Por que foi bom ou...?

– Porque foi ótimo – respondi um tanto surpreendido pela pergunta – Para você não?

Ela mirava as ondas com um quê de solidão e, quem sabe, abandono. Estava subentendido que eu perguntava sobre nosso namoro inocente em sentimentos e maculado de ações, assunto difícil e quase nunca tocado depois de nossas estréias como profissionais. Ela suspirou ainda com aquele sorriso triste e ambíguo.

– Foi perfeito – sussurrou ao vento – Foi a melhor fase de minha vida, mesmo que...

–... Tenha acabado tão cedo?

Consultou a lua cheia e balançou a cabeça afirmativa.

– Falando assim parece até que você se arrepende.

Sei que meu comentário foi cruel, mas queria demais saber qual seria a réplica. Layla deixou mostrar que se ofendera, mas continuou a mirar o ambiente e a evitar meus olhos.

– Sabe, me arrependi uma vez – disse sincera para o mar – Mas foi só por uma hora e um pouco mais. Logo me recompus, repensei e decidi que me arrepender não mudaria nada, por isso...

– Sim?

Meus dedos e palma foram apertados com força e pude sentir que ela tinha as mãos frias apesar do sorriso característico de alguém que esconde os verdadeiros sentimentos.

– Por isso briguei com meu pai quando me disse que não deveria mais ver você, que não podíamos mais conversar e que eu deveria esquecer que você existia.

Esta última confissão foi feita para meus sapatos, de maneira falha e ao mesmo tempo corrida. Aquilo não estava nos documentos que eu lera naquele fim de tarde, mas serviria para incriminar Mr. Hamilton à cadeira elétrica considerando as próximas coisas que ouvi.

– Aquela carta dizendo que ia fazer um intercâmbio e que era melhor não nos vermos mais foi porque seu pai não queria que ficássemos juntos?

– Realmente fui para a França para cursar um colegial especial como escrevi na carta, mas não achei que devíamos terminar, fui obrigada a escrever aquilo.

Achei estar juntando dois mais dois e finalmente encontrando quatro. Aquela separação sem o menor motivo não havia sido por culpa minha.

– Bem – acariciei-lhe as costas da mão – Isto dissolve muitas dúvidas, mas ainda não entendo uma coisa ou duas...

Mirou-me com olhos claros à luz lunar demonstrando preocupação. Detive-me por um instante para admirá-la, tal era a aparência angelical que tinha. Hoje, já tentei inúmeras vezes pintar aquela cena comovente e maravilhosa na qual o azul dos olhos dela se misturavam ao som do mar e à maciez do tecido que vestia, falhando sempre em retratar a expressão sem preço que ela tinha. Naquela hora, no entanto, fiz a pergunta à qual ela menos temia e a qual não poderia ser respondida sem a primeira.

– Se não queria que terminássemos por que me evitou por dois anos quando nos reencontramos?

Ela voltou o olhar para o horizonte enegrecido pela noite quase sem estrelas, apagando metade de nossas pegadas na direção certa.

– Tentei te ligar várias vezes enquanto estava na França – sussurrou – Às vezes dava engano, outras você não atendia ou a linha caía...

Lembrei-me de um parágrafo do documento de acusação que dizia algo sobre controle de ligações telefônicas, mas deixei que continuasse.

–... Cheguei a um ponto em que a insistência de Camilie que você não me queria mais acabou me convencendo.

– Camilie? – interrompi-a – Camilie Baudelaire?

– Sim – disse-me como se fosse algo elementar – Desde os onze anos ela já era insuportável... Algum problema, Yuri?

Acho que minha expressão devia ser de extrema dúvida, ou talvez de alguém que começa a entender o desenho de um imenso quebra-cabeça. A moça da foto misteriosa que me fora mostrada na noite em que conheci Mm. Baudelaire era de fato Layla. E se Camilie tinha onze anos na época e dezoito atualmente, fazia sete anos. Mas Sophie tinha sete anos...

– Nenhum, nenhum – respondi tentando concluir meus pensamentos sem deixar que o silêncio viesse – Prossiga.

– Bem – continuou – Quando nos encontramos de novo no Kaleido Stage... Senti-me usada, quero dizer – respirou fundo ao tentar reformular a frase em vista de minha surpresa – Era como se você tivesse me abandonado numa hora difícil e voltado só quando tudo já estava de volta ao normal...

A associação dos fatos foi-me lenta, e Layla permaneceu quieta esperando-me. A resposta para a última pergunta ainda não feita girava em minha cabeça, e ao pensar na possibilidade surpreendi-me de o quão natural e impossível parecia. Num ato de teimosia, quis certificar-me.

– Antes de tudo – tentei seguir uma linha lógica – Por que seu pai te mandou para a França e exigiu que terminasse comigo?

Senti um dedão calejado acariciar as costas de minha mão enquanto as palavras que eu já esperava e não estava pronto para ouvir foram sussurradas à maresia.

– Porque não cairia bem que a herdeira dos Hotéis Hamilton – suspirou de um jeito triste – fosse mãe solteira aos quinze anos...

Congelei por instantes. Quem estava sem ação daquela vez era eu. Ela pendeu para o lado e não me delonguei em abraçá-la com todo o carinho que minha humanidade permitia.

– Layla... – exasperei-me com os olhos úmidos – Por que você... Como...

Não sei quem amparava a quem, mas perdi a contagem dos minutos ou horas que ela passou contando-me todos os detalhes da gravidez: sua descoberta, a sugestão de aborto por parte do avô da criança, a ida para o estrangeiro, a morte do pai de Camilie, os primeiros exames e, por fim, a escolha do nome. Layla havia se lembrado de que eu mencionara uma vez que achava a figura dos anjos fascinante e, já que Sophie significa face feminina de anjo, o nome havia sido escolhido quando lhe disseram que teria uma menina.

Por incrível que venha a parecer, abraçado à mulher que amo e repensando o assunto com calma enquanto ouvia a história, a paternidade de uma criança de sete anos não me era o absurdo que seria à maioria dos homens. Creio não estar me fazendo claro, talvez realmente não haja como dizer com clareza, mas achei que, desde o primeiro momento, sempre soubesse. Os olhos cor de gelo que me fitaram naquele dia eram os meus, não havia como negar, e tampouco se podia não enxergar a cópia perfeita das feições e de alguns hábitos (por Deus, até o estilo de trapézio) de Layla na garotinha.

Não sei a qual de nós as lágrimas vieram primeiro, ou mesmo se foram lágrimas, mas sei que com elas veio a chuva. Fomos obrigados a abandonar nosso posto de confissões para alojarmo-nos dentro do carro.

– Desculpe – disse-lhe assim que bateu a porta do banco de trás – Se eu soubesse antes...

– Não pegue o mérito todo para si – passou a mão pelo cabelo molhado com um sorriso – Somos ambos responsáveis por aquela menina.

– Foi isso que disse ao seu pai quando ele disse que ia me matar?

– Acredito que sim – riu breve – Ele não queria que você soubesse, porque tinha certeza de que você iria contra manter nossa filha em segredo...

– E sou contra – completei – Tem idéia de quão incrível é aquela menina? Não temos motivo para mantê-la em segredo.

– Agora, não temos mesmo – concluiu – Eu tinha planos de trazê-la de volta no próximo ano, quando seria efetivada a transferência de guarda de Mm. Baudelaire para mim, e também pretendia te contar, mas...

– Ficou com medo do que eu diria?

– Digamos que não havia condições com você do outro lado do Atlântico e com estado emocional abalado. Além do que, não é muito fácil contar a um homem de vinte e três anos que ele tem uma filha de sete – ironizou sem mirar-me e com rosas claras nas bochechas – Em pensar que você descobriu por aquela criatura que é a Camilie...

Admitir que eu havia sido lerdo o suficiente para não entender as indiretas de minha atual hóspede não foi uma idéia atraente no momento, talvez mais tarde, em algum dia e hora diferente quando riríamos juntos de toda aquela situação quase irreal. Eu era pai... Pai, repeti em pensamento para mim mesmo, pai...

– Mas... Yuri – chamou-me abraçando-me – Quando te contaram, e agora, mesmo sabendo de tudo, você se arrepende?

Mais uma vez senti que a pergunta era na verdade muito mais ampla do que parecia e que minha resposta influenciaria uma série de decisões importantes que seriam tomadas a partir daquele momento. Independente disso, a lembrança do sorriso dulcíssimo de Sophie chamando-me de papai não me deixou dúvidas.

– Claro que não.

Vi-a sorrir entre lágrimas e gotas de chuva, estas amparadas por meu polegar. Conscientizei-me da posição em que nos encontrávamos, envoltos nos braços um do outro, e a afaguei com um sorriso bobo nos lábios. À princípio fora um abraço confortante, mas, assim que nossos olhares perdidos e carentes se encontraram na penumbra da madrugada chuvosa, este evoluiu para um beijo.

Não foi algo estonteante, de tirar o fôlego, ou qualquer coisa do gênero. Foi um roçar de lábios leve, um prelúdio para algo maior, e prossegui beijando-a como se fosse a primeira vez. Acariciei-la a toques suaves enquanto ponderava que desventuras e infortúnios haveria passado uma adolescente grávida, só, hospedada num lugar que não lhe era amigável, renegada pelo pai e abandonada pelo namorado. Culpei a mim, depois ao pai dela, e em seguida conclui que minha falta de insistência era a culpada. Podia haver arrancado-lhe a verdade se tivesse insistido mais, sei que poderia... Mas também se podia alegar ignorância. Como eu deveria saber que se tratava de algo de calibre tão alto? Desisti do assunto a meio caminho. O que estava feito estava feito; o que restava era corrigir meus erros da forma que me fosse possível.

Quase em paralelo a meu julgamento, senti que algo identificável com a sensação de voltar para casa. A interação que dividia com Layla assemelhava-se com as que havíamos vivenciado quando estávamos verdadeiramente juntos. Tratava-se talvez de um sincronismo de emoções só antes experimentado no auge de nossas expressões de afeto, estas há longa data esquecidas e que agora pareciam voltar com força total.

Voltamos da praia como uma só pessoa da sexta vez, e por isso alegrei-me muito. Meu relógio indicava ser mais de uma da manhã quando iniciamos o calmo caminho de volta. Um véu fino imaculável parecia cobrir-nos enquanto circulávamos de janelas abertas ruas vazias molhadas de chuva com destino a meu apartamento, já que Layla usava o pretexto de querer ver a filha. Mais uma vez, eu enganava-me em pensar que nada poderia jamais nos perturbar.

Abrir a porta foi o primeiro sufoco, pois a fechadura fora quase destruída pelo lado de dentro pelas tentativas de Camilie de destrancá-la. Quando finalmente sucedi, um vulto enegrecido pela roupagem pendurou-se em meu pescoço e ensopou minha camisa já um pouco amassada.

– Yu! – Camilie esganiçou a voz de maneira irritante – Não deixa eles me pegarem!

Ia revirar os olhos (outro pesadelo inventado, pensei), mas o pigarreio de Layla às minhas costas deu-me um arrepio intenso demais para pensar em realizar tal ato.

– Ah, não, você de novo! – levantou o rosto para a visita – Vai embora, se eu morrer hoje a culpa é sua!

– Camilie – interrompi tentando livrar-me dela – Se me soltar agora podemos conversar, e fale baixo vai acordar Sophie...

– A culpa é toda sua – ignorou-me e me deu um soco sem força no peito – Boa idéia, traga a pirralha pra Cape Mary sem a autorização do Chefe... Quem ele está responsabilizando? Eu! Yu, o que eu faço?

Pareci haver ser atingido por um raio. O "Chefe", assim como lera naquela tarde, indicava Mr. Hamilton, assunto o qual eu me esquecera por completo durante nosso encontro. Mirei Layla de relance, mas ela parecia não haver entendido de quem travamos.

– Primeiro – disse à moça pendurada em mim – largue-me. Segundo, sente-se, vou buscar uma água com açúcar...

– Mas Yuri... – a loira questionou.

– Leve-a para sala, por favor, já volto.

Ela pareceu não gostar da idéia, mas fez como a havia instruído de qualquer maneira. Logo eu estava de volta com o copo d'água açucarada para as mãos trêmulas de Camilie.

– O que aconteceu enquanto estive fora? – perguntei sentando-me na mesinha de centro de frente para ela.

– Meu celular tocou... Era o Chefe e...

Soluçou e mais lágrimas vieram. Já imaginava o que ela havia escutado.

– Fique calma – empurrei-lhe o líquido – Te garanto que nada vai acontecer com você, com a sua mãe ou com Sophie...

– Yu... Me desculpa... Eu disse que tinha sido idéia sua e...

– Nem comigo – continuei – Estamos todos seguros, nada vai...

Tentei por quase meia hora fazê-la parar de soluçar, e durante todo o tempo Layla permaneceu calada e com olhar branco. Certo, noite romântica por água abaixo. A mais jovem das duas foi ao banheiro limpar o rosto e a outra se virou para mim com dúvida nos olhos.

– Pode me explicar agora o que está acontecendo?

A pergunta foi feita com calma e desconfiança. Respirei fundo, peguei o maço de papéis que estava jogado num canto do sofá e entreguei-o a ela.

– Acho difícil de entender – segurei-lhe as duas mãos – Mas tente acreditar na idéia inicial primeiro...

Com pausas e sem pressa, sem me importar se alguém ouviria, contei a ela tudo que Leon havia me contado, tudo que eu havia lido e fiz algumas conexões não muito claras à primeira leitura. Ela folheou o documento enquanto me escutava, os olhos fixos abaixo e creio que muito vidrados.

Ela negou, disse que era impossível e nada provável, e insisti que os papeis tinham a razão e não ela. Alarmou-se quando a informei que uma denuncia seria feita assim que se iniciasse o horário comercial e me contradisse mais. Camilie voltou e jogou a verdade sobre a estadia de Layla em sua casa.

– Papai estava doente, quase morrendo, e o Chefe prometeu o dar o cargo de presidente para a mamãe se ficássemos com você e com aquela pirralha!

Prosseguiu com acusações de "você arruinou a minha vida" cujo palavreado não me agradou nem um pouco. Lágrimas rolavam pela face alva de minha companheira enquanto engolia cada palavra ofensiva dirigida a ela, a verdade afundando cada vez mais um pouco em seu entendimento.

Camilie terminou seu discurso e correu para o quarto onde se hospedava, batendo a porta atrás de si. Quem tremia e chorava então era Layla, e de novo nada pude fazer além de ampará-la como me foi possível. Sabia que um abraço não consertaria nada, mas era o mínimo que eu podia fazer por ela e seus lamentos.

Ouvi o ruído baixo da porta de meu quarto abrindo-se para revelar uma Sophie sonolenta e um pouco assustada. Com o cachorrinho de pelúcia apertado contra o peito, andou devagar até nós.

– Papai... – disse cautelosa – O que aconteceu?

Conclui que entre todos os presentes no apartamento, aquela criança era a única que não carregava culpa da situação em que se encontravam todos e ainda assim era a que mais sofria. Layla limpou os olhos e abraçou a menina com carinho.

– Nada, Sophie – ela sussurrou – Agora que estamos juntos nada de mau vai acontecer...

– Mamãe...

Ajudei-a a levar a pequena para cama e acabamos deitando os três. Havia um pedido subentendido feito por todos de jamais deixarmo-nos sozinhos de novo, e prometi a mim mesmo que, daquela noite em diante, não abandonaria as duas graças que foram concedidas pelos Céus de ocasião alguma. Eram preciosas demais para que se perdessem de novo, não suportaria causar-lhes mais dano do que cruéis manipulações e segredos sem sentido haviam causado.

O dia amanheceu tão claro e ensolarado quanto o anterior. Nada poderia indicar que uma escolta policial acompanhava um certo Mr. Hamilton a um interrogatório, este que decretaria prisão preventiva até que as provas fosse averiguadas pelo Departamento de Polícia Internacional e outros órgãos parecidos.

Naquela manhã levei Camilie ao aeroporto. Durante a madrugada ela conseguira um vôo de volta para Paris que sairia no mesmo dia.

– Diga a sua mãe que não se preocupe – recomendei – Tudo se resolverá logo, presumo.

– A guarda de Sophie nunca foi nossa – assoprou a franja – Não há o que resolver, a pirralha é toda sua.

– Então a agradeça por mim por cuidar de minha filha todos esses anos, sim?

– Ela não cuidou, foi uma ou duas babás e depois o conservatório. De boa, só vou dizer que nos livramos de um peso nos ombros e que ela precisa arrumar um emprego novo antes que seja despedida – disse seca – Só sinto que não tenha dado certo entre nós...

– Não existe "nós", Camilie.

– Ah, Yu... – choramingou com um sorriso maroto – Você é chato demais mesmo...

Antes que eu pudesse replicar, ela agarrou-se a mim de novo, só que dessa vez não perdeu tempo em roubar um beijo de língua voraz. Tão rápido quanto veio, foi-se com pressa para o portão de embarque puxando a mala atrás de si e com um aceno bobo de mão.

Comprei uma garrafa d'água e um pacote de balas para bom hálito antes de fazer meu caminho de volta.

Dirigi para a casa de Layla (as balas já haviam se acabado quando cheguei), e já era esperado. Ambas mãe e filha entraram no carro e fomos os três para o Kaleido Stage fazer cumprir a promessa de Sora. A menina insistia que queria ver a mim e à minha parceira no trapézio também, ainda que Layla repetisse que mesmo com todos os movimentos do braço recuperados não se arriscaria.

Aproveitei a brecha dada pela criança olhando o mar pela janela para perguntar a Layla se estava preocupada. A resposta foi simples e sincera:

– Se tudo que você me disse ontem é verdade – suspirou – ele merece tudo que acontecer de agora em diante.

Senti muita amargura vinda dessas palavras acompanhando uma expressão desconfortável, mas o fato que a preocupava logo foi esquecido com que eu disse em seguida:

– Hei, este é nosso primeiro passeio em família.

O sorriso de Sophie se estendeu de uma orelha à outra e Layla, depois de o que pareceu ser um susto inicial, sorriu um sorriso pequeno.

Mais tarde ela me chamaria de maldoso pelo comentário. Verdade seja dita, tanto ela quanto eu estávamos sentindo-nos estranhos, um pouco fora do lugar e ao mesmo tempo no lugar certo, não acostumados às relações tão imediatas que deveríamos ter. Afinal, uma família do jeito que eu sugerira pressupunha pais que se amavam, tinha um relacionamento amoroso estável e uma filha que crescera amada por ambos os lados do casal, e nós três não nos encaixávamos em nada nessa definição. Até ontem eu achava que Layla não gostava de mim, até ontem ela achava que eu a havia traído, até ontem minha filha não me era nada além de uma boa menina que cruzara meu caminho por pura sorte, e até ontem o abismo triplo que nos separava era imenso. Não havia como concertar em uma noite todo o dano que manter segredos nos havia causado, e foi-se um tempo considerável até que a definição nos servisse.

Sophie, por outro lado, talvez jovem demais para compreender nosso desconforto, prossegui sem incomodar-se.

– Isso quer dizer – veio a vozinha do banco de trás – que posso ficar com vocês pra sempre?

– Claro que pode – respondemos em uníssono.

Tirei a atenção da estrada por um instante e quase não freei a tempo num sinal vermelho para trocar olhares com Layla. Respostas sincronizadas, pensei, talvez estivéssemos no caminho certo.

Chegamos e, mais uma vez, Sophie saiu à frente animada.

– O que acha – a jovem a meu lado começou – de levá-la para minha casa?

– Acho uma boa idéia – liguei o alarme do carro – Posso ir também?

–... Claro – respondeu-me um pouco rosa nas faces – E... – hesitou à princípio, mas logo sorriu e entrelaçou os dedos com os meus – Se quiser passar a noite, também não haverá problema algum.

A sugestão implícita foi-me uma surpresa, mas também um prazer aceitá-la sem sombra de dúvida.

– Ainda tenho minhas dúvidas – confessei enquanto cruzando a ponte – sobre nosso futuro – inclui a menina à nossa frente na referência.

– Também as tenho, mas...

Abracei-a pela cintura enquanto caminhávamos, oferecendo o conforto que ela precisava para terminar a frase.

– Vamos prometer – disse resoluta – nunca mais esconder algo um do outro, está bem?

– Sim – concordei – Já chega de segredos. Agora a única coisa que quero agora é saber sobre essa peça. Se há uma coisa que ainda não me contaram é sobre o que ela é.

Layla riu de leve à minha demonstração de negligência a assuntos difíceis e que teriam de ser discutidos num futuro próximo.

– É história de duas crianças que conversam com brinquedos – riu – Elas prometem abrir uma fábrica de presentes quando crescessem e a peça mostra a construção dessa fábrica no Pólo Norte.

– Nossa – passamos pelo cartaz da apresentação, este exibindo Sora com roupas natalinas, e não contive o comentário – Mal posso esperar para ver o Leon de Papai Noel...

Rimos ambos da imagem mental do conhecido Deus da Morte usando um gorro vermelho e uma barba postiça. Um chamado tirou-nos de nossa apreciação.

– Mamãe, Papai! – Sophie acenou pedindo pressa – Venham logo!

Num tom brincalhão que nem eu sabia ainda existir em mim, usei-me de nossas mãos unidas para puxar Layla correndo. Quase fi-la quebrar o salto do sapato, mas o riso até pouco reservado saiu-lhe livre e solto, como o de uma criança feliz em visitar o Kaleido Stage. Assim que a alcançamos, Sophie colocou-se entre nós, dando uma mão a cada um e sorrindo alegre.

Apesar das incertezas e dos medos que dar a mão àquela menina significavam, quando o fiz só pude imaginar alegrias e motivos de orgulho. Pude afirmar que o fazendo, estava aceitando responsabilidades mil e abraçando chances de ser feliz que nunca me haviam sido oferecidas. Estava exatamente onde deveria e onde sempre quis estar.