PHOENIX IN ASHES, PHOENIX REBORNING FÊNIX NAS CINZAS, FÊNIX RENASCENDO

O que fazer quando nada é estável? Quando os momentos em que penso estar bem mudam de tal forma que me deixam até sem ar? Isso é basicamente o que ocorre comigo, e sempre acho que acontece comigo. Claro, não deixo de dizer que passei ótimos momentos no Kaleido Star, mas sempre sofri e suei muito para conseguir atingir meus objetivos, sendo que nem sempre foram totalmente realizados. Isso é meio estranho de se pensar agora, já que atualmente minha vida está rotineira... E é isso que me preocupa. Toda vez que as coisas estão calmas demais, algo acontece. Qualquer acontecimento, portanto, deixa sempre vestígios para o futuro, próximo ou distante, e eu nunca sei como ou quando tornarão a aparecer. Por que, por exemplo, eu continuo sentindo que me falta algo? Por que realizar peças no Kaleido e na Broadway não me satisfazem mais? Por que, mesmo com Yuri, eu sinto que ainda falta alguma coisa para preencher o vazio que sinto? Essas perguntas tornam Leon-"obsessivo" Oswald e uma paralisia permantente problemas pequenos, ao meu ver... Mas por que isso agora...?

Pensava sobre tudo isso em pleno trabalho, coisa que jamais havia acontecido antes. Kalos já havia escolhido a nova peça. Não queria contar comigo ou com Sora, já que ambas estávamos cheias de afazeres, mas não se continha. Não tinha tempo de fazer novos testes para papéis principais, e mesmo que tivesse, sabia que a melhor escolha seria o "quarteto fantástico" para os papéis de protagonistas. Parecia até que Kalos se esquecera de que Leon não estaria ali para fazer um desses papéis...

Desviei-me rapidamente dos pensamentos quando ouvi a voz bem próxima de Cathy ecoar na minha mente, através de um grito abafado que não queria chamar atenção de todos. Não sabia como ela havia chegado tão perto de mim sem que eu notasse.

- Layla! - ela me chamou, junto de um cutucão, nada agradável por sinal - O que houve com você? Nunca foi de se distrair assim. Ultimamente anda muito estranha...

- ... Desculpe, Cathy. Desculpe - finalmente acordei de meus pensamentos. Quando percebi, estava no auditório do Kaleido Star, ouvindo Kalos falar sobre a nova peça. Olhei para cada um que estava à frente do palco; todos o escutavam atentamente, ansiosos. Eu estava ao lado esquerdo de Cathy e ao lado direito de Yuri, o qual me olhava de vez em quando, preocupado. Apesar disso, não disse nada. Felizmente, ele agora confia em mim e respeita meus pensamentos... Exceto quando são um tanto exagerados ou quando resolvem parecer duvidosos quanto à nossa confiança um no outro.

- Mia Guillem, como sempre, será a diretora da nova peça e Cathy Taymor será a produtora... - Kalos não parava de falar. Pela primeira vez, entediei-me naquela sala. Minha conduta não estava normal, especialmente depois que percebi meu tédio. Isso só podia significar que eu não estava contente com a minha atual situação. Algo novo precisava acontecer, caso contrário eu me veria na mesma situação em que estive há um tempo atrás, em plena estréia de "Phoenix", na Broadway. Perdida e deslocada do mundo, não tendo mais estradas para percorrer... Será que eu já não estou nesse nível novamente...?

Ela estava completamente perdida em pensamentos. Desde os recentes acontecimentos com Leon, ela estava mais distraída com as coisas. Agora, então, enquanto ouvíamos Kalos, nem se fala. Layla, o que há de errado com você? Tento decifrá-la, já que não me conta o que se passa na sua cabeça, mas é uma tarefa dificílima. E se ela estiver pensando nele...? Não... Prometi confiar nela, não é mesmo? Yuri, mantenha sua palavra, ou colocará tudo a perder... Tudo a perder...? Eu nem sei bem o que está ganho... Sei que a amo, mas não parece o suficiente para ela. Se ela não demonstra, então isso fica mais difícil. Também sei o quanto ela é reservada, mas estamos juntos ou não? Ela deveria conseguir se abrir comigo, mas tudo o que fez nas últimas semanas foi me evitar, com a desculpa que não queria que os vissem somente como um casal... Isso é ridículo, ao meu ver, mas tentar argumentar é pior do que não falar nada... Por enquanto, estou suportando... Mas por quanto tempo...?

Dei um leve suspiro enquanto ouvia Kalos. Sarah olhou-me estranhamente, mas fingi que não vi. Apenas olhava Layla de relance, de vez em quando. Ao contrário dela, eu parecia estar conseguindo ouvir Kalos e meus pensamentos ao mesmo tempo... Apenas parecia.

Dia longo e esquecível... Fui à Nova Iorque com Cathy, logo depois da longa e interminável palestra de Kalos, acertar alguns assuntos no teatro da Broadway. Enquanto eu não apresentava nenhuma peça, era produtora de outras que ali ocorriam. Era um trabalho novo e interessante, o qual eu comecei a fazer há poucas semanas atrás... Bem, até então, era interessante. Mas de nenhuma forma eu conseguia tirar aqueles mesmos pensamentos da cabeça, mesmo quando me distraía com o trabalho. E eles prevaleceram ao longo dos próximos dias, parecendo uma doença de longa duração. Por que esse vazio? Por quê?

Foi quando, ao ver uma figura muito familiar na calada da noite, em minha própria casa, essas dúvidas e esse vazio levemente esvaeceram-se. Não sei bem explicar o por quê, mas ao ver meu pai, esperando que eu chegasse em casa, senti algo indescritível, uma preocupação misturada com uma espécie de carência e... Felicidade? Bom, foi tudo que consegui descrever naquela hora.

- P-papai? O que faz aqui? - perguntei surpresa. Afinal de contas, ele era a última pessoa a qual eu esperaria ali.

- Olá... Layla. Por favor, queira se sentar. Tenho algo para lhe dizer.

Para ele ter vindo de Londres até aqui e me esperar a essa hora, tinha de ser importante, o que me preocupava ainda mais. Não tive escolha, a não ser me sentar no sofá, à frente do qual ele estava, e ouvi-lo.

- Vim aqui só para lhe mostrar os seus novos projetos - disse na maior calma e autoridade do mundo. Estranhei. Mostrar meus novos projetos? Que projetos? Eu não tinha feito novos testes há semanas, mesmo porque já estava trabalhando.

- Desculpe pai, mas acho que não entendi direito. Eu não...

- Eu mesmo assinei os contratos, já que se tratam de amigos meus. É importante e imprescindível que você faça esses filmes, pelo bem da Hamilton Foundation. Ambos serão gravados na Europa e simultaneamente, mas não se preocupe, eles terão horários sincronizados para não prejudicá-la. Além do que, você terá horas de diferença entre uma filmagem e outra, tanto para descansar quanto para ir à entrevistas, reuniões e, claro, jantares com os diretores e comigo.

Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Ele já havia decidido coisas sobre a minha vida profissional sem me consultar antes, mas elas nunca haviam me impedido de fazer o que eu queria, ainda mais quando se tratava em escolher entre o Kaleido ou os filmes os quais eu era obrigada a fazer. Tentar explicar a situação foi em vão.

- Papai, o Kaleido e a Broadway já...

- Layla, Layla! Esqueça o passado! - ele mudara da água para o vinho, só porque mencionei aquela palavra com 'K'. Nunca havia entendido direito por que ele sempre mudava quando eu a mencionava. Isso começou a acontecer depois que eu ganhei o Festival de Circo, sem mais nem menos. Enfim, hesitei ligeiramente quando ele mudou o tom de voz, mas mantive a calma, como sempre - Você foi brilhante no que já fez por lá, mas há de convir que você tem que crescer na sua carreira profissional. Nada melhor do que os filmes que eu seleciono para isso.

"Como pôde me dizer que eu fui brilhante no Kaleido Star, sendo que não assistiu a mais de um espetáculo meu?! Fui brilhante? Eu SOU brilhante! Kalos ainda precisa de mim, como acrobata, como produtora, como companheira de trabalho e idéias. E você não quer que eu cresça na minha carreira profissional porque 'só quer o melhor para mim'. Na verdade, só pensa nos negócios que provavelmente irão duplicar quando o nome Hamilton ficar mais conhecido ainda!". Pelo menos, era isso que eu queria ter dito a ele... Mas apenas fiz o contrário.

- Está certo... Farei isso...

- Ótimo - Ele sorriu triunfante, fitando-me. Ao longo da noite, explicou-me toda a minha agenda: o que eu deveria fazer, onde eu deveria ir, que vôos pegar... Só se esqueceu de mencionar a palavra "dormir" nesse meio-termo. No entanto, tive a impressão de ouvi-la ecoando na minha cabeça a cada minuto da madrugada que se passava. A única coisa que fiz, quando ele finalmente terminou sua "pequena" palestra, foi tirar os sapatos e despencar na cama. Depois disso, não me lembrei nem de ter me virado na cama ou sonhado com alguma coisa.

Agora... A única coisa que eu pensei antes de adormecer foi... Por que raios palestras resolveram me entediar assim?!