Disclaimer: Os personagens de Naruto não me pertencem.

Observação: esta é uma fic paralela tanto a Um Trago para a Rainha quanto a Moça de Casamento Marcado. Não é necessária a leitura de uma para o entendimento da outra.


Considerações necessárias: Esta fanfic basicamente não contém spoilers, uma vez que foi escrita logo no começo da publicação da saga do Pain.

Assim, tudo o que aconteceu durante e após a mesma deve ser desconsiderado para a melhor compreensão e ambientação desta história.


- Para o amor da minha vida, Jim Severo. -

Os Deuses estão Mortos

They say that I must learn to kill before I can feel safe.

But I, I'd rather kill myself than turn into their slave…

Canse somehow I just don't wanna stay and wait for a wonder.

(Eles dizem que eu devo aprender a matar antes que eu possa me sentir seguro.

Mas eu, eu prefiro me matar a me tornar o escravo deles.

De algum modo, eu apenas não quero ficar e esperar por um milagre.)

In The Shadows – The Rasmus

Capítulo Um: A Mais Escura Cor da Noite

O silêncio do quarto foi quebrado por um grito, depois outro.

Ensopada de suor, Tenten se sentou subitamente na cama, a colcha jogada no chão e os lençóis revirados, a camisola grudando na umidade do seu corpo.

A noite estava muito escura. Não podia ver a sua própria silhueta.

Ela olhou em volta, procurando uma arma com que se defender dos seus pesadelos.

Permaneceu desorientada por um segundo, assustada com todo aquele negrume, como se os seus pensamentos houvessem se concretizado por entre o breu.

Minutos depois, tornando a deitar a cabeça sobre o travesseiro, seus lábios se crisparam diante daquela busca mal-sucedida. E, quando o sono voltou a embalá-la para longe, gemeu, pois nele alguém gritava que ela era uma má menina.

OSDEUSES&OSDEUSES

O sol começava a nascer. Alguns primeiros raios surgiam por entre os prédios e as casas, discretos e praticamente imperceptíveis.

Não havia nuvens no céu, assim como ainda não havia transeuntes na rua.

A placa pendurada do lado de fora do Kakus balançava com a brisa, rangendo.

Dentro do estabelecimento, o balconista estava de costas, voltado para o fogão portátil, e o cheiro de bacon frito se alastrava pelo ambiente vazio.

Os saleiros e os porta-guardanapos já haviam sido espalhados pelas poucas mesas do lugar e os cardápios, como sempre, estavam empilhados perto do caixa-eletrônico.

Todas as manhãs, Tenten ia tomar o seu desjejum no Kakus. Mas, também em todas as manhãs, ela não chegava antes das seis e quarenta, pois acordava atrasada demais para fazê-lo.

Rock Lee estava, como sempre, começando a enfiar seus bolinhos-de-arroz goela abaixo quando ela entrava.

"Wah." Tenten irrompeu pela porta, espreguiçando-se. Vestia o seu uniforme ninja, porém estava descabelada e de chinelos e vinha resmungando, coisa com que o amigo já se habituara. "Eu nunca consigo dormir mais um... hfhmfmfmfmmm..." E, naquela hora da manhã, as suas sentenças sempre terminavam com frases inaudíveis.

Uma vez que a morena era uma negação na cozinha, Kakus era praticamente a sua geladeira. O pequeno estabelecimento ficava ao lado do seu prédio e, para a sua sorte, estava lá desde antes de se mudar.

O balconista e filho do dono do lugar, Makoto, era um moreno de tirar o fôlego que sempre lhe dava uma porção extra de bacon no desjejum.

Com os cabelos negros no delicioso corte masculino e os olhos cor de chocolate maliciosos, Tenten poderia dizer que gostava dele, do conjunto todo. Veja bem, não que ela estivesse apaixonada, mas que Makoto era bonito o suficiente para lhe tirar o fôlego.

Lee, que terminava de engolir o seu terceiro bolinho, sorriu ao vê-la.

"Tenten-chan!" Acenou efusivamente, chamando-a para se juntar a ele. "Eu já estava preocupado." Disse quando a viu deslizar pelo banco, sentando-se à sua frente. "Ia para o terceiro bolinho e você ainda não havia chegado."

"Tive pesadelos nesta noite. Quando acordei, ainda bati meu dedão do pé na cômoda." Resmungou ela.

Há três anos, a morena se encontrava com o antigo companheiro de time no Kakus, no mesmo horário, na mesma mesa.

Ambos aproveitavam o período matutino para discutir sobre as suas últimas missões e sobre a questão política da Vila (porque ninjas não fofocavam), tomando café e entupindo as artérias.

Tenten adorava aquilo: o cheiro revigorante de fritura pela manhã, alguém com quem discutir (discretamente, é claro) sobre o novo casal de Konoha do momento, a simples rotina fiel.

Tanto Lee como ela já estavam habituados a serem escalados para missões em grupo ou em dupla. A Hokage sabia que ambos trabalhavam em perfeita sincronia quando juntos, depois de todos aqueles anos com Gai. Era um padrão de todos os antigos times, na realidade.

Tinha as suas amigas e os seus segredos, mas Rock Lee era e sempre seria um de seus grandes confidentes, quiçá o maior, aquele com o qual poderia contar em qualquer momento, quando não queria simplesmente bater na porta de Hinata e jogar em cima dela problemas, sabendo que a Hyuuga tinha dez vezes mais que os seus.

"Hey, Tenten." Cumprimentou Makoto com a espátula, por detrás do balcão.

"Oi, amor." A morena deu-lhe o seu melhor sorriso matinal, soprando uma beijoca que teve o estalo repercutido pela cafeteria. "Você sempre amaina a minha raiva quando está vestido com este avental ridículo." Brincou, começando a rir.

"Vai debochando, vai. Mas e aí, o de sempre?"

"O de sempre."

Quando percebeu que os dois homens estavam ocupados demais para notá-la, ela soltou um pequenino suspiro, passando a mão pela têmpora esquerda, donde uma gotícula de suor tencionava despencar.

Sua cabeça, assim como o dedão do pé, estava latejando.

Desde que acordara, não tivera muito tempo para preocupar-se com analgésicos – não acreditava que houvesse tido, algum dia, algum remédio, de qualquer modo.

Apenas tomara um banho rápido, prendera os cabelos num coque que, àquela altura, já estava se soltando e enfiara os chinelos nos pés, louca por uma gordurosa fatia de bacon e a visão do seu traseiro preferido do país.

Era contra a política pessoal de Rock Lee ingerir gordura saturada ou frituras. De muito em muito, aceitava dividir com ela "o diabo do ovo frito" (palavras suas) que só Makoto sabia fazer: gema mole, bordas crocantes e pingando óleo. Mas eram raras aquelas ocasiões.

Tenten não tinha problemas em admitir que era exatamente o tipo de "pessoa gorda" por dentro.

Já ouvira de muita gente que os seus hábitos alimentares eram desastrosos e preocupantes e que devia começar a cuidar do colesterol. Entretanto, era impossível exigir de uma mulher ativa e com os hormônios descontrolados que seguisse uma dieta meticulosamente torturante. Simplesmente ia contra os seus princípios.

"Você tem algo programado para hoje?" Perguntou Lee, de repente.

"Eu vou passar às sete e meia na sala da Hokage para pegar a missão do dia." Tenten arqueou os ombros, puxando um guardanapo do porta-guardanapos e começando a fazer um origami com ele - um hábito que adquirira com o passar do tempo. "Por quê? Você tem?"

"Ganhei o dia de folga." Explicou, presenteando-a com um de seus sorrisos brilhantes.

Ela tentou retribuir a altura, mas os sorrisos brilhantes de Lee conseguiam ser ainda mais brilhantes do que os seus ovos de gema mole excessivamente gordurosos preferidos.

O moreno mordeu outro bolinho-de-arroz então, sem esperar por uma resposta, parecendo pensativo por um segundo.

"Legal." Disse Tenten mesmo assim, ao sair do torpor provocado pela onda branca intensa.

"Eu e Gai-sensei pretendemos escalar as montanhas plantando bananeira." Esclareceu ele, mostrando-lhe o dedão em sinal positivo.

"Hmm. Você tem certeza? Isso parece um pouco desgastante." Comentou a mulher, distraída.

Quando o sobrancelhudo entreabriu os lábios para poder reiterar os seus argumentos (com um discurso fervoroso em mente), Makoto já se aproximava da mesa, dentro de um avental cor de salmão com o nome do estabelecimento bordado caprichosamente em letras vermelhas, tirando completamente a atenção dela da conversa.

Ele segurava um prato, que por sinal exalava um cheiro delicioso, e sorria, aquele seu sorriso de tirar o fôlego.

Tenten o observou, tentando absorver por osmose um pouco daquela beleza humana quase comestível, tirando os braços de cima da mesa e afastando a tentativa ridícula - todas sempre eram ridículas - de origami para o lado, dando espaço para que o moreno colocasse as deliciosas fatias de bacon à sua frente, como fazia com todos os seus desjejuns.

"Seu pedido, princesa." Falou ele naquele instante, levemente absorto, virando-se então para Lee. "Você realmente vai escalar as montanhas plantando bananeira?" Perguntou-lhe. Havia o comum tom excitado em sua voz que a fez revirar os olhos.

"É claro! É preciso exercitar continuamente o seu fogo da juventude."

E Tenten começou a comer, ignorando-os.

Por mais que tentasse, era inevitável.

Makoto continuaria sendo adepto à filosofia de fogo da juventude cá, flor da juventude lá e blábláblá, acreditando piamente que aquilo, a convicção acirrada naquele poder e chama inesgotável, era tal qual uma religião.

Podia ser lindo e preparar o melhor café-da-manhã do qual Tenten já tomara conhecimento, mas ela jamais sairia com alguém que ouvia e apoiava as paixões de Lee.

Era uma pena, pensava, insatisfeita, enquanto tomava rumo para a sala da Hokage, já devidamente penteada e calçada.

Todos os caras interessantes que encontrava tinham algum tipo de problema.

Makoto era um tanto quanto idiota e Neji... Bem, Neji era um idiota quádruplo.

OSDEUSES&OSDEUSES

"Hinata?" Foi a primeira coisa que ela falou quando chegou à porta da sala da Godaime.

A jovem Hyuuga se encontrava escorada à parede, mordiscando o lábio e fitando o chão, parecendo pensativa. Os cabelos negros, que geralmente se encontravam soltos e caindo sobre os olhos, numa bem sucedida tentativa de escondê-la de tudo e de todos, estavam amarrados num rabo de cavalo, o que era totalmente atípico.

Tenten ficou surpresa.

Jamais vislumbrara Hinata sem aquela espessa franja em frente à face. Era a mesma coisa que vê-la sem os seus coques duplos.

Isso só acontecia quando estava se sentindo terrivelmente péssima e sem ânimo até mesmo para arrumar a porcaria do cabelo.

Se, por ventura, a Hyuuga estivesse se sentindo tão terrivelmente péssima e sem ânimo como ela se sentia em todos os inícios de mês, antes de descer a sua menstruação, seu estado quase catatônico só poderia ser revertido com uma caixa de bombons.

"Olá, Tenten-chan." Cumprimentou Hinata, envergonhada.

O rubor das bochechas dela parecia muito acentuado quando as pontas da franja não caíam sobre os olhos. E, pelo jeito como torceu o nariz ao reconhecer a amiga, não parecia estar esperando companhia.

Os lábios de Tenten se retorceram ao constatar que, após uma vasculha rápida dos seus bolsos, não havia nem mesmo um chocolate para que cedesse à Hinata.

Seus preferidos eram aqueles com recheio de framboesa (esses não dava a ninguém, a menos que fosse um alguém tão necessitado a ponto de estar deprimido demais para pentear os cabelos), mas os comera todos no último dia de tensão pessoal.

"Você vai pegar uma missão nesta manhã?" Indagou assim, postando-se ao seu lado.

"S-sim." Murmurou a Hyuuga, o rosto baixo na direção do chão.

Mesmo após todos aqueles anos, Hinata não ultrapassara o nível chuunin.

Neji havia dito, uma vez, que a prima estacaria por ali mesmo, pois já estava suficientemente satisfatório para ela o fato de ser mediana.

Tenten não concordara com aquela perspectiva conformista, porque acreditava que mesmo a mais acomodada pessoa deveria ambicionar por sucesso, e acabara mandando-o fechar a matraca e não se intrometer em decisões pessoais que não o concerniam – bem, não usara exatamente o termo "fechar a matraca", fora algo mais como "poderia ficar calado, por favor?".

As suas palavras, porém, não surtiram o menor efeito sobre o todo-poderoso gênio Hyuuga.

Por mais que ela detestasse aquele seu hábito, Neji ainda tinha a mania de menosprezar seres inferiores a ele – toda a humanidade, ou seja. E, é claro, aquela não era uma característica fácil de mudar.

Ela não esperava que ele repentinamente pudesse conter a boca podre e poupasse os ouvidos alheios daqueles comentários maliciosos. Mas o Hyuuga poderia ao menos tentar, ao invés de insistir em grasnar na sua cara.

Estava conformada (embora acreditasse que mesmo a mais acomodada pessoa deveria ambicionar por sucesso).

Diante de uma criatura tão irritante e prepotente quanto o seu bem-sucedido companheiro de time (na realidade, Neji não precisava ser sequer nomeado para ser reconhecido), ela não sabia como mantinha a calma. Simplesmente não lhe ocorria como era capaz de conter os próprios impulsos. Talvez mágica. Ou intervenção divina.

Enquanto o moreno era perfeitamente adorável quando silencioso, ao proferir uma única frase já se tornava o pior e mais cruel inimigo.

Perdera a conta de quantas vezes ouvira críticas sobre os seus hábitos alimentares. E admitia que às vezes todas as pessoas que a censuravam estavam certas, mas Tenten não aceitava ser criticada por um homem que gostava de tomar chá depois do treinamento - e também não poderia, se não quisesse perder todo o orgulho que ainda lhe restava.

Aquele hábito de Neji simplesmente quebrava todos os padrões até então estabelecidos na sociedade. Suco de frutas, energético, café, o que fosse, porém não chá. Chá é coisa de avós.

À lembrança, seus olhos se estreitaram em aborrecimento.

"É totalmente ridículo." Sussurrou para si mesma, cruzando os braços.

Hinata voltou a cabeça para fitá-la, mas não pôde escutar mais do que os "Mfmfmfmmm", que também caracterizavam o seu diálogo pós-despertar no Kakus.

Permaneceram ali por mais dois minutos, em um perfeito e harmônico silêncio, antes de Tenten se dirigir à outra.

"Por que você está com esse cabelo estranho, afinal?" Indagou antes que pudesse evitar. E se arrependeu meio segundo depois, ao ver a expressão horrorizada da amiga. "N-não!" Guinchou, tentando amenizar o estrago. "Não está feio, Hinata. Apenas diferente." Acentuou, dando-lhe um sorriso nervoso.

"M-meu cabelo acordou ruim h-ho-hoje." Sussurrou a Hyuuga, batendo a ponta dos dedos indicadores.

"Ohh." De repente Tenten se sentiu incrivelmente solidária. Era algo com o que se deparava quase sempre. "Eu sei bem como é isso." Falou, soltando um audível suspiro ao recordar-se de todos os minutos perdidos em frente ao espelho, tentando dar um jeito no maldito cabelo quando ele acordava total e completamente do avesso.

Nunca era uma tarefa fácil. E não existia nenhuma lógica que explicasse porque em alguns dias ele colaborava e em outros se rebelava.

"Hmm." Hinata não pareceu absolutamente nada mais convencida de que não estava ridícula ou apavorante. Apenas ficou calada.

Então novamente se encontraram em meio ao silêncio.

"Cadê o Neji?" Perguntou Tenten, de súbito.

Mas não houve tempo de receber uma resposta.

Shizune repentinamente enfiou a cabeça por uma fresta da porta, vinda de dentro da sala da Godaime, e disse que a Hokage estava esperando pela herdeira Hyuuga.

A outra morena permaneceu onde estava enquanto via Hinata se afastar, um tanto aborrecida.

Quando Hinata lançou-lhe um olhar de esguelha, antes de sumir atrás das portas duplas de mogno, percebeu a insatisfação da amiga pela sua falta de respostas e sorriu num pedido singelo e silencioso de desculpas. Mas Tenten já estava se espreguiçando, após deixar aqueles pensamentos de lado, e não lhe notou o gesto.

OSDEUSES&OSDEUSES

Dez horas, marcava o relógio.

Deixou as chaves da porta em cima do sofá, tirou os sapatos e seguiu pelo breu, tateando as paredes até achar o interruptor.

Quando se fez a luz, deparou-se com uma sala pequena, munida de dois sofás e alguns quadros – a maioria deles, presente de Lee.

Havia uma pilha de roupas perto da janela. Elas haviam voltado no dia anterior da lavanderia, mas Tenten simplesmente não tivera paciência para colocá-las no seu lugar, de modo que, quando estava procurando alguma roupa específica, ia direto ao saco com o emblema do local que as arranjava. Era algo com o qual se habituara depois das três primeiras vezes.

Tirou a blusa, ficando só de sutiã, e jogou-a no chão enquanto seguia até a mesa de centro.

"Tá na hora de ver essas correspondências." Disse a si mesma, sentando-se no sofá e pegando o bolo de cartas e envelopes que estavam espalhados pela pequena mesa.

Ver as cartas era a tarefa mais desagradável que existia, depois de cozinhar e limpar a casa.

Ela nunca recebia notícias de alguém, só cobranças.

Quando não cobranças, então propagandas. E, por sua vez, quando não eram até mesmo propagandas (que vinham às toneladas), eram notas escritas pelo vizinho do apartamento ao lado, reclamando de alguma coisa.

Havia uma cesta de vime no centro da sua mesa. Ela deixava que a correspondência acumulasse lá até o objeto estar praticamente transbordando e então fazia uma coleta seletiva.

Akeboshi, o vizinho tirano, mais uma vez mostrando as garras, pensou, amassando um de seus recados sem sequer lê-lo.

Hazumi Akeboshi era um velho ninja com mania de perseguição que insistia em dizer que Tenten era uma infiltrada da ANBU Ne naquele prédio. A sua tese era a de que ela estava planejando a melhor maneira implodi-lo e fazer tudo parecer um mero acidente, apenas para promover a anarquia em Konoha.

A morena realmente nunca dera atenção àquelas reclamações todas.

Recebera até então todo o tipo de recado, desde "Eu sei o que você fez no verão passado" a outros ainda piores, como "Estou esperando-a na orla da floresta, às 22h. Vida ou morte." Passara de trágico e irritante para algo incrivelmente cômico – isso é, na maioria das vezes, quando estava de bom humor. Lee já se disponibilizara a afrontá-lo, mas Lee poderia levar as coisas demasiadamente a sério.

Jogando no chão algumas propagandas, encontrou enfim algo de útil: um cartão de Sakura.

"O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (I Cor 13:7)

Haruno Sakura e Uchiha Sasuke

Convidam para a cerimônia de seu casamento

Tenten

A realizar-se dia vinte e três de novembro, no vilarejo da Folha, Konoha."

Ficou surpresa.

Nos últimos tempos andara tão ocupada com as infinitas missões que sequer tivera tempo para ver Sakura no Hospital Ide. E não fazia idéia de que os preparativos do casamento estavam assim adiantados.

Na última vez em que se encontraram para tomar um café na lanchonete preferida da amiga, a Haruno ainda estava atrás de um modelo perfeito de convite. Ela era sempre perfeccionista ao extremo.

Bem, e seus esforços valeram a pena, pensou Tenten, os olhos voltados para a frase inicial do belo cartão que segurava.

Em definitivo, o seu amor por aquele Uchiha tudo sofrera, esperara e suportara, como bem o afirmava.

Metade da Vila não acreditava que aquela junção algum dia enfim aconteceria. Mas aconteceria.

Recordou-se com desgosto de Makoto e de Neji: um praticamente sem cérebro e o outro com cérebro demais.

Desconfiava seriamente de que, se até agora não passara por todas as cenas românticas pelas quais Sakura passara, jamais o faria. Afinal, a coisa mais romântica que um homem já lhe fizera fora dar uma porção extra de bacon todas as manhãs.

Tal lembrança fez o seu estômago roncar e a tirou dos seus devaneios absurdamente principescos para que voltasse à dura realidade: solteira, solitária, sem dotes culinários.

Abandonando as correspondências, Tenten se ergueu do sofá num pulo gatuno e tomou rumo para o banheiro, atrás de um banho.

Podia ouvir gritos e ruídos vindos do apartamento ao lado.

"O velho deve estar novamente tentando enfiar uma maldita sonda na minha parede." Murmurou, soltando o fecho do sutiã e abrindo o chuveiro.

OSDEUSES&OSDEUSES

As gotas de água despencavam dos seus cabelos molhados quando Neji entrou no quarto. Elas faziam um "ping, ping" por sobre o silêncio, ininterruptas.

Abrindo o armário à procura de uma camiseta, ele enfiou a primeira que viu pela frente, sendo todas de cores neutras.

Sentou-se sobre a cama para que pudesse enrolar as faixas habituais em torno dos punhos e por entre os dedos, um hábito que trazia desde há muito, uma vez que não gostava de treinar ou lutar com as mãos desnudas.

O cômodo dava para o jardim dos Hyuuga.

Ele não ouvia o cricrilar dos grilos dali, embora soubesse que se faziam presentes.

A marca da família ramificada estava visível na sua testa. Neji não gostava nem mesmo de mostrá-la a si mesmo, pois o deixava consciente das suas limitações, as quais preferia ignorar.

Por mais que superasse todos os níveis imagináveis no ramo ninja, sempre perderia para o poder daquela figura desenhada na sua cabeça.

Ouviu batidas na porta. Ela foi aberta um segundo depois, antes mesmo que pudesse assimilá-las, e Tenten apareceu.

O moreno deixou as sobrancelhas se franzirem levemente em sinal de insatisfação à constatação.

Mesmo que passasse horas falando, porém, ela jamais esperaria que a recepcionasse devidamente. Não tinha paciência para tal. Ser impulsiva estava na sua natureza.

Os cabelos castanhos dela, como os seus, estavam umedecidos, embora presos nos coques habituais. Eram raras as vezes em que os deixava soltos para secarem com o vento.

"Por que você não espera que eu abra a porta?" Perguntou, friamente.

"Ora, eu não preciso mais fazer isso, né? Você entra na minha casa pela janela." Disse Tenten, sorrindo-lhe em ironia. "Eu pelo menos anuncio a minha chegada." Desdenhou, escorando-se no umbral, uma expressão de zombaria.

O Hyuuga simplesmente não se dignou a proferir uma resposta.

Sabia que ela estava certa. Mas, de uma maneira que preferia não questionar, se sentia com liberdade o suficiente para se abster das formalidades quando se tratavam da morena.

Ela nunca requisitava fazer valer o protocolo e aquilo levava Neji a se sentir estranhamente bem-vindo.

Silencioso, seguiu com o processo recém iniciado e terminou de enrolar as faixas em torno dos braços, do mesmo modo vagaroso e perfeccionista de sempre.

Tenten apenas permaneceu o observando, imóvel, como se não se aborrecesse por ser deliberadamente ignorada, tão hipnotizada estava por aquele semblante circunspecto que não a encarava.

Mordiscou o lábio, contendo a risadinha que queria escapar. Pois, a cada vez que o via, Neji estava mais sério.

Não fazia idéia de como o Hyuuga conseguia tal proeza.

Com o passar dos anos, o rosto masculino ganhou linhas duras e bem trabalhadas, que jamais expressavam alegria e que a encaravam com uma tranqüilidade que chegava a ser perturbadora. Todos os seus músculos se contraíam involuntariamente com a um olhar dele na sua direção.

"Deixe-me pentear o seu cabelo." Pediu, um pedido que mais soou uma afirmativa, abrindo o roupeiro para pegar a escova.

Neji estava acostumado com aqueles lapsos.

No que dizia respeito à sua vida, Tenten sabia de tudo. Até mesmo onde guardava cada peça de roupa e cada par de sapatos.

Não eram raras as vezes que a via mexer nas suas coisas, à procura de qualquer porcaria, sem pedir permissão, de modo que pouco a pouco acabou por se habituar à rotineira intromissão.

A morena tirou os calçados, subindo na cama e sentando-se atrás dele para poder penteá-lo.

Àquele gesto, Neji apenas ficou em silêncio, visto que não adiantaria erguer um protesto.

Seria muito mais difícil, aliás, se o fizesse, pois então teria de ouvir não só uma defesa de tese (porque ela, como todas as mulheres que conhecia, sempre estava certa), como também lhe renderia horas de aborrecimento feminino inútil.

Os dedos femininos eram longos e brejeiros. Volta e meia, Tenten deixava-os escorregar pela sua nuca, enquanto segurava-lhe os cabelos para delicadamente passar por eles a escova, com as cerdas que deslizavam por entre os fios castanhos, espalhando pelo cômodo o cheiro de xampu.

"É injusto você ter um cabelo melhor do que o meu." Reclamou ela, fazendo um bico de insatisfação.

"Não tenho culpa se você tem essa vassoura no lugar de cabelo." Respondeu Neji, deixando que um pequeno sorriso de ironia se formasse no canto da sua boca, sorriso esse que não foi notado.

"Idiota!"

Ela deslizou a escova com mais violência, numa óbvia tentativa de castigá-lo, e o gesto fez com que houvesse um puxão no seu couro cabeludo.

"Não faça isso." O Hyuuga crispou os lábios.

"Então não insulte o meu cabelo. Nem todos os seres humanos do mundo têm uma carga genética tão boa quanto a sua, está bem?" Resmungou Tenten, balançando levemente a cabeça ao sentir o perfume masculino invadir as suas narinas. "Recebeu o convite do casamento da Sakura?" Perguntou, numa voz que lhe pareceu estranha.

"Recebi."

Tenten continuou a penteá-lo em silêncio.

O corpo de Neji exalava uma fragrância agradável, como - ela não sabia distinguir ao certo – sabonete e talvez hortelã.

De todas as vezes em que o penteara, e que não foram poucas após todos aqueles anos, o fato de ele cheirar tão bem – e estar tão, tão perto - era um fator agravante à qualidade do seu serviço.

Quando em momentos o odiava profundamente pela sua língua ferina e sua quase total indiferença (não só em relação à sua pessoa, mas também a todas as outras coisas que os rodeava), noutras queria apenas deitar a cabeça no travesseiro da cama daquele Hyuuga, muito possivelmente o mais talentoso de todos, e ficar aspirando seu aroma delicioso até perder os sentidos. Era um perfume totalmente capaz de fazê-la sair de órbita.

Admitia que tais pensamentos e - por que não? - anseios eram profundamente idiotas e constrangedores.

Neji riria da sua cara se soubesse que, em algum momento, ela fora seduzida pelo rosto de barba-feita ou olhos de névoa que se estreitavam a cada sorriso que recebia.

"O que você veio fazer aqui?" Perguntou ele, despertando-a do seu enlevo.

"Ohh." E Tenten deu um sorrisinho sapeca, sabendo que a sua resposta faria com que aqueles lábios dolorosamente sensíveis se retorcessem em descontentamento. "Irei jantar aqui esta noite." Disse.

Neji não lhe deu resposta, mas ela simplesmente sabia que o moreno não estava satisfeito.

OSDEUSES&OSDEUSES

Tenten estava atirada no sofá, os olhos voltados para o teto, enquanto, como de praxe, Hinata tirava as roupas limpas do saco da lavanderia e, cuidadosa e meticulosamente, as ia colocando sobre a mesa de centro, dobradas com perfeição.

Uma das manias mais desagradáveis daquela herdeira Hyuuga, e que para Tenten era a mais latente visto o contraste entre as suas personalidades, era o fato de ser meticulosa em excesso.

Cada vez que ia visitá-la, Hinata arregaçava as mangas e começava a dobrar, limpar e espanar no meio da conversa, do seu jeito sutil que passava quase imperceptível.

No mínimo uma vez por semana, a amiga ia aparecia no seu apartamento e ambas ficavam comendo pipoca enquanto punham a fofoca em dia.

"Que missão você pegou ontem de manhã, Hinata?" Questionou Tenten, entediada.

"A Hokage-sama me destacou como dupla do Naruto-kun nas rondas noturnas." Havia um rubor de satisfação no rosto da Hyuuga quando ela segredou-lhe a missão, erguendo a cabeça daquele morro de roupas lavadas.

A outra franziu as sobrancelhas, tirando os pés da mesa de centro e sentando-se corretamente.

"Mas por que diabos a Hokage ia logo colocar o Naruto para rondar alguma coisa?" Perguntou, pensando que talvez pudesse haver algum problema interno na Vila.

"B-bem," Hinata corou e daquela vez não foi de exultação. "a Hokage-sama pediu para que eu ficasse de olho nele. Naruto-kun levou uma advertência por não seguir as ordens do superior em missão e agora está tendo essa... hmm, p-penalidade." Murmurou, após levar o que seria cerca de meio segundo para pensar numa palavra que se encaixasse na situação.

"Saquei." Tenten logo perdeu o interesse na conversa e voltou os olhos para o teto, a lâmpada da sala desligada, já que os raios de sol batiam diretamente na sua janela durante o ocaso. "O idiota está de molho." Resumiu toda aquela explicação estafante em uma simples sentença.

Sem receber uma resposta, visto que não havia, bocejou, espreguiçando-se.

Hinata, percebeu então, estava compenetrada demais organizando as suas roupas por, Deus, cor e tipo. Ela havia até mesmo dobrado as suas calcinhas, coisa que Tenten jamaisjamais, repito – se dignaria a fazer.

"Hey, Hinata, você realmente não precisa fazer isso." Sibilou, contendo a vontade de morder a língua.

"Nee, Tenten-chan, eu gosto."

A fisionomia do rosto da morena se modificou drasticamente diante daquela resposta pacífica, cordata como era digno de uma grande herdeira. E ela ficou logo pálida, mostra pura do seu horror, aquela aversão natural.

Estavam fora do seu entendimento os gostos excêntricos daquele tipo de pessoa.

Em meio àquele silêncio quase sepulcral, ouviram de repente gritos.

"O que é isso?" A Hyuuga deu um pulo do seu lugar, quase jogando a blusa preferida de Tenten pela janela.

"Ahh," Soltou Tenten num muxoxo, sem nem ao mesmo se mexer da posição em que estava. "é só o velho do apartamento ao lado tentando descobrir onde eu implantei a bomba." Explicou, como se o fato nada fosse.

OSDEUSES&OSDEUSES

Eram duas da madrugada quando ela despertou com um grito.

"Sua cadela safada!" Gritava Akeboshi pela janela. "Eu ainda vou te pegar, está me entendendo?"

Tenten rolou na cama, mal-humorada.

"Vá dormir, velho!" Berrou, tateando um calçado pelo chão para jogá-lo contra a parede, que dava exatamente no quarto do apartamento ao lado.