Capítulo Vinte e Um: Convalescença e Perfeição

Aquele não era um dos seus melhores dias. Estava cansada, nauseada e dolorida. Acordara com um terrível torcicolo e queria, mais do que todas as coisas do mundo, apenas poder ir para casa. Deitar na sua própria cama, sentir o cheiro das suas próprias cobertas, colocar uma roupa que cobrisse pelo menos o seu traseiro. Mas os seus desejos não estavam perto de serem atendidos.

Na realidade, ela acreditava que o último fato a ocorrer naquele universo seria alguém lhe dar a chance de sair correndo, desembestada, porta afora. Não que conseguisse, é claro.

Fechou os olhos ao sentir a cabeça latejar. Queria mesmo poder tirar uma soneca. Não fazia muito tempo desde que despertara, porém a quimioterapia a estava arrasando. Nunca vira a si mesma daquela maneira pálida. Não reconhecia a sua própria expressão no espelho. Era como estar no corpo de uma estranha.

Ouviu a voz de Sakura a conversar com Neji e deu um pequeno sorriso.

No último mês, muito pouco tivera do que se poderia chamar 'privacidade'. Todas as missões do Hyuuga haviam sido negligenciadas. Ele passava mais tempo ao seu lado do que alguém já passara e ela ainda se sentia desconfortável e um pouco embaraçada com aquela nova e constante companhia. Podia sentir o perfume masculino impregnado no quarto todo.

Durante vários anos da sua vida, acreditara lutar por uma causa perdida. Não sabia se tinha motivações, não se considerava apta a receber amor. As suas interações com o sexo oposto eram parcas e deficientes, como se sempre faltasse uma peça para encaixar na embreagem.

Levou muito tempo para descobrir que os sonhos que nutrira quando mais jovem, a respeito do cavalo branco e do príncipe Hyuuga Encantado, eram mais do que uma simples bobagem adolescente. Eram um desejo sincero do seu coração.

Há quase um mês e meio, convivia diariamente com o homem que era a personificação dos seus anseios mais profundos. E ele correspondia a todos eles com maestria.

O que quer que houvesse ocorrido no período em que estivera ausente, servira para transformar aquele insignificante relacionamento, baseado numa pura e óbvia interação sexual, num compromisso. Aquela era uma parte extraordinária. A pequena e esquecida pelo mundo Tenten havia encontrado um lar. Sem Akeboshi ou vizinhos bizarros.

"Tenten, você está pronta?" A morena ergueu os olhos para fitar a médica, que sorria.

Sakura, com a ajuda de algumas enfermeiras, havia trazido o aparelho ultra-som para o quarto. Com quase nove semanas, era a primeira vez que escutariam os batimentos do bebê. E o veriam. Embora não houvesse muita coisa para ser vista, afinal.

"Vamos lá." Concordou.

Sabia que aquele era um momento da verdade. O feto poderia estar morto, poderia não haver resistido ao tratamento. Mordeu o lábio à idéia. Queria a criança. Acostumara-se à idéia de imaginar a si mesma carregando a um neném. Um neném seu, com características suas e o seu sangue. Sonhara com isso uma ou duas vezes.

Ela e Neji nunca falaram sobre ele, sobre o seu filho. Era como um tabu. Existia um acordo silencioso de que evitariam criar demasiadas expectativas em cima de algo improvável de dar certo e o Hyuuga raramente tocava no assunto, para tentar afastá-la emocionalmente da gravidez, o que não queria dizer que Tenten não pensasse por si só e fantasiasse como qualquer mãe de primeira viagem. Nunca haviam verbalizado, mas ambos já estavam mais do que emocionalmente envolvidos. Eles já se consideravam pais.

O gel que Sakura colocava sobre sua barriga a despertou daqueles pensamentos e ela sorriu para o moreno, tranqüilizando-o.

"Pronto." A Uchiha pôs o receptáculo sobre a pele de Tenten. "Primeiro você ouvirá uma batida mais forte e compassada, que é a sua, e logo virão as batidas rápidas e frenéticas, que são as do bebê." Explicou, um segundo antes de ligar o aparelho.

Houve silêncio até que o som do coração de Tenten batendo dominou o ambiente. Então outro foi ouvido, vigoroso, e ela deu um pequeno riso de felicidade ao ver que o seu filho estava bem.

Os olhos de Neji estavam fixos na tela, o maxilar rígido. A morena sabia que o melhor era não pressioná-lo. Com o Hyuuga, tudo devia ser feito ao seu tempo. Sabia que ele estava feliz, pois estava ali, apertando a sua mão com força, quase sem se aperceber da pressão que exercia. Palavras não eram necessárias.

Exultante, Sakura os parabenizou.

"Você estava certa, Ten. Ele é uma criança forte." Sorriu-lhes, virando o rosto para o televisor. "Agora vamos ver como está o futuro bebê de vocês, papais." Ia deslizando o aparelho por sobre a barriga de Tenten, devagar. "Vejam, ali. Não dá pra vermuita coisa, mas já tem bracinhos e perninhas em desenvolvimento. Com oito semanas, os dedos estão formados e separados."

Cerca de meia hora depois, quando Sakura os deixou a sós, Tenten ainda pensava na pequena vida que crescia e se fortalecia dentro de si.

"Você está feliz?" Perguntou Neji, atraindo a sua atenção.

"Sim." Respondeu ela, sorrindo. Acomodou-se melhor na cama, sentindo o cansaço começar a dominá-la. Ajeitou a cabeça sobre o travesseiro, pensativa um instante. Ele estava sentado sobre a poltrona, ao seu lado. "Você já pensou num nome?" Questionou, mordiscando a ponta da unha do dedão, num gesto de curiosidade.

Neji hesitou. Tenten pôde ver na forma como desviou os orbes dos seus.

"Pode escolher o que a agradar." Ele disse, encolhendo os ombros.

"Diga-me o que pensou." Pediu Tenten, estendendo a mão para tocar na sua.

"Touya." Falou Neji então, sem mais resistências. Voltou o rosto para fitá-la, à procura das suas expressões, que eram sempre mais sinceras do que as suas palavras. Encontrou-a distraída, observando-o ainda que não o visse, parecendo meditar.

A quietude existente entre eles foi curta. A morena focalizou a face descorada e masculina, admirando os traços viris que a encantaram durante toda a infância e juventude, e o presenteou com um pequeno sorriso com os lábios pálidos.

"Touya. Sim, eu meio que gosto." Admitiu. "É lindo, Neji." Frisou.

Ele tinha a boca curvada quase imperceptivelmente. Se o seu neném fosse daquele modo maravilhoso, daquele modo adorável e perturbador, pensou Tenten, um instante deslumbrada com o brilho dos olhos dele, então irrevogavelmente seria uma mulher de muitas noras.

OSDEUSES&OSDEUSES

Neji coçou a cabeça, olhando para todas aquelas caixas no meio da sala da casa vazia. Tenten não estava apta para sair e decorá-la e ele tampouco tivera tempo para aquilo. Nunca fora bom com escolha de móveis ou cores.

A morena detestava o seu gosto clássico e ele próprio não considerava aquela uma das tarefas mais divertidas da sua vida. Já falara com a Yamanaka, que morava a cerca de duas quadras dali, e ela o ajudaria com as compras. Os poucos móveis do apartamento de Tenten não seriam o bastante para mobiliar aquela casa toda.

Mas não era aquilo que o preocupava, por hora. Eram mesmo as quatro caixas que o aguardavam, esperando para serem desembaladas. Eram os móveis para o bebê, recém chegados da loja.

Uma vez que ainda não sabiam o sexo, Tenten decidira fazer a decoração em amarelo. Ele ainda precisava aplicar o papel de parede que Sakura havia escolhido no quarto e sequer havia começado.

A caixa de ferramentas aos seus pés lhe dizia que teria um longo trabalho.

Ouviu a campainha soar, o que anunciava a chegada do seu reforço. Caminhando até a porta, abriu-a pela primeira vez para alguém que não fosse ele mesmo. Sasuke e Lee esperavam na soleira, o último muito excitado e sorridente.

"Bom dia, meu caro rival!" Foi adentrando, sem esperar por um convite. "Espero que esteja preparado para começar!" Bateu palmas.

O Uchiha, mais comedido, o seguiu, movendo a cabeça num suave cumprimento.

"Bonita casa." Elogiou, dando uma olhadela pela sala vazia. "Parece mesmo a cara da Tenten. Ela já viu?"

"Sakura não deixou que ela saísse do hospital." Neji se encaminhou para a primeira caixa, uma vez que Rock Lee - explodindo de energia - alegara necessitar conhecer os demais cômodos antes de iniciar o serviço. "Pedi a ajuda da Yamanaka para decorar. Ela sempre foi boa com todas essas bobagens femininas." Explicou. "Espero que você tenha o dia livre."

Sasuke se aproximou da outra caixa, abrindo-a.

"Claro, reservei toda a minha manhã e tarde para servir de ajudante de montagem." Disse simplesmente, pegando o manual daquilo que seria - bem mais tarde - o berço. "Espero que você tenha cerveja na geladeira." Olhou-o depois de dizer aquilo, arqueando uma sobrancelha, desconfiado. "Você tem geladeira, não tem?" Questionou, ao que o Hyuuga encolheu os ombros.

"Eu nem tenho lustres." E apontou para a lâmpada descoberta do teto.

Sasuke moveu a cabeça.

"Vamos torcer para que não fiquemos desitratados." Ironizou, começando a depositar as peças sobre o piso de tabuão. "Pois esse vai ser um longo dia." Rodou os olhos.

OSDEUSES&OSDEUSES

Tenten mordeu o lábio, observando o chumaço de cabelos em sua mão. Eles estavam compridos e chegavam ao meio das suas costas. Neji gostava daquele comprimento, dizia que era muito delicado e que combinava com ela. Mas cada vez com mais rapidez os fios caíam. Já nem os escovava mais. O volume começava a ficar reduzido.

Sabia que era apenas cabelo e que em breve cresceria novamente. Mas o cabelo era uma das suas maiores marcas de feminilidade. Não tinha seios grandes, não era esbelta como Ino ou voluptuosa como Sakura, tampouco possuía olhos claros que lembravam a pedras preciosas. Era apenas uma moça sem aparentes atrativos além do terrível hábito alimentar, das panturrilhas e bíceps fortes e com alta tolerância a álcool.

Parada em frente ao espelho do banheiro contíguo ao quarto, sentiu os orbes se encherem de lágrimas.

Sentou-se sobre a privada, escondendo o rosto entre as mãos, procurando se acalmar. Não estava sendo fácil aquele tratamento. Sakura garantia que estavam obtendo progressos, mas, embora pudesse ouvi-la, não sentia que nada se operava de diferente em si mesma. Ao contrário, pensou, pois em algumas manhãs parecia querer morrer.

Estava tão magra e cansada que os seus ossos pareciam gelatina. Nunca na vida ficara daquela maneira. Nunca fora frágil e fraca. E precisava sorrir e garantir que estava tudo bem, quando a verdade é que parecia que um moedor de carne diariamente aparecia e a destruía sem dó.

Jamais verbalizara o seu mal-estar, mas Neji sabia. Ele a conhecia. Doía-lhe deixá-lo preocupado. Não havia nada a ser feito, afinal.

Ouviu batidas suaves na porta e ergueu a cabeça. Ino estava parada à sua frente, um ar de riso no rosto corado, embora houvesse preocupação refletida nos olhos azuis.

"Olá!" Cumprimentou, balançando a mão. "Mau momento?" Questionou, fitando-a naquela posição.

"Não, tudo bem." Tenten se levantou, sem olhá-la. "Apenas um pouco cansada." Explicou, aproximando-se para poder abraçá-la. "É bom ver você." Disse com sinceridade, presenteando-a com um pequeno sorriso. "Está muito bem. O bebê parece enorme." Apontou para o estômago da loira quando tomou uma pequena distância.

Ino usava uma blusa justa por debaixo do grosso casaco e sua barriga de quatro meses começava a ficar visível.

"Sim." Ela pousou a mão protetoramente sobre a criança. "Sakura disse que será um bebê grande." Riu. "E você? Vamos sentar, vamos." Encaminhou-a para a cama. "Como está se sentindo hoje? A testuda me contou que vocês ouviram os batimentos do bebê há alguns dias."

"Ele está bem por enquanto." Respondeu a morena. "Mas eu não estou nada bem. Os enjôos estão me matando."

"Vai melhorar." Garantiu Ino, ajeitando-se sobre a poltrona. "Daqui eu vou encontrar os rapazes na sua nova casa." Bateu palmas, excitada. "Os móveis para o bebê chegaram e Neji, Sasuke e Lee começaram a montar. Irá ficar lindo, Tenten!"

Tenten sorriu, fracamente.

"Sim, eu sei que irá." Olhou para a janela, donde podia ver o sol meio escondido entre as nuvens. "Você pode cortar o meu cabelo?" Perguntou.

Ino pareceu surpresa por um instante com a proposta, depois assentiu.

"Se você quiser." Falou, baixinho. "Por quê? Está começando a cair?"

A outra anuiu, silenciosa por um instante.

"Quero apenas um corte curto. Não vou rapá-lo todo. Não quero assustar as pessoas." Deu uma risada sem vontade. "Eventualmente eles vão cair por completo, mas não vou antecipar esse momento. Desejo que seja natural." Enfiou a mão por entre os cabelos, cada vez mais ralos.

Cerca de meia hora depois, ela tornou a se mirar no pequeno espelho oferecido pela amiga, sentada numa cadeira de fronte para a janela de vidros cerrados. Era diferente ver a si mesma daquela maneira, pensou.

Ino fizera um corte masculino e bastante curto, mas que não lhe caía mal de todo. Embora estivesse muito mais pálida do que jamais fora, o novo estilo combinava com o moreno que ainda restava em sua face e os olhos castanhos que eram como rasgos cheios de cílios.

Respirou fundo, sem fitar as mechas escuras espalhadas pelo chão do quarto.

Ouviu Ino comentar qualquer coisa, porém não prestou atenção. Agradeceu a ela, mas não estava pronta para fazer comentários. Estendeu a mão, tocando nos fios curtos, sentindo todo o comprimento que agora lhes faltava. Foi como ter perdido tudo que havia de mulher em si, de uma vez só.

"Escute," a voz da loira a distraiu. "não se martirize, está bem?" Ela deu a volta na cadeira, se postando à sua frente. "Em alguns meses eles estarão compridos novamente. E tudo terá voltado ao normal. Eu gostei do corte, acentuou o seu rosto." Ergueu o queixo de Tenten com o dedo indicador, sorrindo. "Você é forte e batalhadora, essas são características muito mais memoráveis do que uma beleza vazia. E eu acho esses seus olhos magníficos."

"Eu vou ficar bem com isso, apenas preciso me acostumar." Garantiu Tenten, ficando de pé. Devolveu-lhe o espelho. "Agora eu acho que vou chamar a enfermeira e pedir uma gelatina. É o máximo de açúcar que a minha dieta me permite." Brincou, indo para a cama.

OSDEUSES&OSDEUSES

Aquele era um dia terrível das suas semanas terríveis.

Ela curvou o corpo na direção da bacia ao lado da sua cama, onde vomitou. Seus lábios estavam pálidos como a morte e havia enormes olheiras lhe marcando a face agora branca. Podia escutar os seus ouvidos zumbirem. Estava com dor de cabeça e extremamente cansada.

Desde cedo, Lee estivera ao seu lado. Tenten agradeceu silenciosamente quando Neji disse que iria sair. Ele, melhor do que ninguém, sabia o quão frustrada se sentia por se mostrar daquela maneira fraca e ignóbil. Às vezes, mesmo que o Hyuuga detestasse fazê-lo, ele lhe concedia com esforço alguma privacidade. Nessas horas, sabia que ele ia para a casa que a esperava.

Há três meses que Neji nada fazia além de servir como conselheiro de missões.

Às vezes também, no pequeno período de solidão que possuía, Tenten pensava que não era justo. Não era justo levá-lo consigo para o fundo do poço. Não era justo privá-lo das ocupações que gostava, da interação com os amigos, do treinamento, apenas para permanecer ali, silencioso. Não acreditava que valesse tudo aquilo.

Dos lábios do Hyuuga, porém, jamais saíra qualquer reclamação. Ao contrário, pois ele procurava distraí-la com conversas fúteis. Tenten sabia que Neji fazia um grande esforço para animá-la.

Mas estava cansada daquilo, farta daquele tratamento. Sakura não permitiria que saísse dali até os sete meses, quando fariam o parto do bebê por cesárea, se ele resistisse - é claro. Ela sempre sentia um arrepio de terror invadi-la quando pensava na hipótese de perdê-lo. Seu pequeno Touya.

"Pronto, pronto." Lee acariciava as suas costas e lhe estendeu uma toalha quando o acesso parou. "Quer um copo d'água, diva?" Ela confirmou, limpando a boca.

Em menos de um minuto já tinha o copo em mãos. Deu um pequeno gole, suspirando.

"Desculpe, Lee. Eu juro que não vomitei de propósito. Não acho o seu ritual de pentear a sobrancelha assim tão nojento." Brincou, a voz rouca.

Lee riu.

"Eu imaginei." Falou, tornando a se sentar na poltrona, pegando o tricô que fazia. "Então," franziu o cenho, fitando o trabalho recém-começado em mãos. Havia um novelo de lã verde numa sacola aos seus pés e as linhas já estavam nos pontos. "você acha que o pequeno Touya vai gostar de um par de calças ou um casaquinho?" Ergueu a cabeça, fitando-a com os seus enormes olhos negros curiosos e ansiosos.

Tenten sorriu.

"O que você quiser, querido." Respondeu, pousando o copo vazio sobre o criado-mudo, tornando a se deitar. Virou-se de lado para continuar a analisá-lo. "Irá ficar lindo."

"Foi Kakashi quem me ensinou." Comentou Lee, distraído. Então ele pareceu se recordar de algo e estendeu a mão, alcançando o pequeno controle ligado à parede, que chamava pelas enfermeiras. Apertou o botão. "Vamos esperar que alguém limpe tudo isso e pedir que nos tragam umas gelatinas. Eu gostei daquela de limão. Você pode me dar a sua escondido." Sugeriu.

Demorou apenas alguns minutos para que uma enfermeira adentrasse o quarto. Era pequena e de cabelos escuros, sem uma grande beleza, mas com lábios pequeninos e corados que pareciam torná-la deliciosa.

Como todas as demais enfermeiras, usava o traje típico, na cor rosa claro, e tinha um pequeno broche em forma de coração preso no bolso direito da camisa. Os olhos eram cor de mel e existia sempre em seu rosto uma expressão de docilidade.

Ela os cumprimentou com um leve sorriso e palavras gentis.

"Você pode me trazer gelatina de limão, Usagi?" Perguntou Tenten, vendo-a pegar o balde e levá-lo até o banheiro, a fim de esvaziá-lo e enxaguá-lo.

"Claro." Respondeu Usagi, assim que voltou. "Como está se sentindo?" Indagou, postando a mão sobre a sua testa quente. "Hm, está com um pouco de febre." Disse para si mesma.

"Como se estivesse morrendo." Falou Tenten, desanimada. "Mas vou sobreviver, eu acho." Mordeu o lábio, desconfortável com a idéia.

"Está certo. Vou trazer um remédio para enjôo. Vamos ver se a ajuda um pouco." A enfermeira deu a volta na cama, começando a se encaminhar para a saída do cômodo, quando fixou os olhos em Lee, que a observava, silencioso. "É você quem está tricotando, Lee-san?" Questionou, apontando para as agulhas e lã que repousavam sobre o colo do homem.

Rock Lee pigarreou e corou, surpreso por ela saber o seu nome.

"Er..." Engoliu em seco, dando-lhe um sorriso vacilante. "S-sim." Sua voz saiu tão baixa e fina que fez com que Tenten, ao seu lado, explodisse em gargalhadas. O riso da amiga pareceu despertá-lo do seu torpor. "É para o bebê da minha musa inspiradora." Falou com mais segurança então, desviando os orbes escuros para a morena, lançando-lhe um olhar repreensivo. "Calças, para manter o fogo da juventude dele sempre aceso!" Fez um sinal positivo com o polegar, provocando risos em Usagi.

"Sim," reiterou ela, simpática. "posso imaginar." Aproximou-se mais, levando a mão ao queixo, pensativa. Seu movimento fez com que Lee ruborizasse. "Creio que você errou um ponto." Apontou.

Então Usagi deu mais um pequeno sorriso e saiu do quarto, prometendo voltar em alguns instantes com alguns potes de gelatina de limão. O silêncio reinou por algum tempo depois que ela se foi, no qual Tenten desenhou um ar zombeteiro no rosto.

"Eu acho que você arranjou uma foda." Comentou.

Lee a olhou, chocado.

"Não diga essas palavras grosseiras, Tenten-chan." Repreendeu, o cenho franzido.

"Que seja." Balbuciou Tenten, remexendo-se na cama. "Acho que você devia convidá-la para tomar um café ou algo assim, quando Usagi voltar." Sugeriu. "Que eu saiba ela não tem namorado. E você também não tem." Encarou-o de mau-humor, como se o desafiando a dizer qualquer coisa referente a Uchiha Sakura.

Encolhendo os ombros, Lee parecia hesitar.

"Talvez não seja uma boa idéia." Fitava os próprios dedos, suspirando. "Ela parece tão bonita e eu... eu..."

"Ora, por favor," a voz da morena exprimia alguma raiva e muita impaciência. Ela sacudiu a mão, num gesto que claramente demonstrava o seu aborrecimento. "não seja patético." Repreendeu, os orbes estreitos. "Você tem quase vinte e cinco anos. Está na hora de parar com esses complexos estranhos e fazer esse fogo da juventude funcionar para alguma coisa."

Com aquelas palavras, Lee pareceu mais encorajado. Deu um sorriso para ninguém em especial.

"Sim." Anuiu, pensativo. "Você pode estar certa, Tenten-chan." Disse, animado. Cerrou o punho, erguendo-o no ar. "Com toda a enorme e poderosa chama que arde em meu peito, com toda a coragem da qual disponho, com todo o ardor do meu coração, eu, Rock Lee, vou convidar a bela dama, a maravilhosa Usagi, para sair!" Berrou a plenos pulmões.

"Eu adoraria, Lee-san." A voz delicada chegou aos seus ouvidos, fazendo-o congelar.

Imóvel, Lee apenas virou a cabeça, olhando por cima do ombro. A enfermeira se encontrava na porta recém aberta, carregando uma bandeja. Ela ria, parecendo se divertir.

OSDEUSES&OSDEUSES

O primeiro dia da primavera.

Tenten voltou o rosto para a janela, pensativa. Começava a fazer calor. Fazia um dia de sol, com ele todo exposto e reluzente no céu, como não viram durante o inverno.

Nunca gostara de frio. Sentia-se mais à vontade naquela estação do ano, quando todas as flores tornavam a florescer.

Ao seu lado, Neji lia alguns documentos da Vila. Pelo pouco que a morena sabia, o país estava envolvido numa guerra contra a Nuvem, mas não conseguira obter maiores detalhes. Todo o tipo de informação perturbadora lhe fora vetado por Sakura, pela sua segurança, embora ela acreditasse que Konoha estava com a vitória em mãos.

Podia ver da janela como a Vila estava mais vazia. Não havia desespero em rosto algum, como deveria ser comum na face dos perdedores, e a normalidade dos cidadãos a fazia relaxar.

Pousou a mão sobre a barriga. Estava já com quatro meses. A criança seguia bem, apesar de tudo.

Ela estava quase sem cabelos. Não gostava mais de se olhar no espelho. O corte masculino ainda disfarçava, mas, cada vez que passava a mão pela cabeça, eles pareciam mais ralos. Sakura não lhe garantira que acabaria por ficar careca. Às vezes alguns pacientes não apresentavam aquele sintoma. Mas Tenten estava certa de que iria.

"Tudo bem?" A pergunta de Neji a tirou dos seus pensamentos.

Voltando o rosto para o moreno, ela pensou em responder que sim, como fizera em todas as vezes que recebera aquele mesmo questionamento. Alguma coisa a impediu, porém. Um bolo desagradável subiu pela sua garganta. Não era a náusea com que já se habituara, era algo pior: era uma aterradora e incontrolável vontade de chorar.

Entreabriu os lábios, mas tudo o que pôde fazer foi ficar com eles abertos, sem ser capaz de pronunciar palavra alguma. Seus olhos se encheram de lágrimas, pondo Neji imediatamente na defensiva.

Ele lhe franziu o cenho, parecendo preocupado enquanto fechava as pastas que lia e as depositava em cima do criado-mudo, e tudo o que Tenten fez foi encará-lo com os orbes cor de chocolate brilhantes e marejados.

"O que foi?" A voz dele era atenciosa. Levantou-se, aproximando-se dela. "Você está com alguma dor?"

Mas Tenten não respondeu. As lágrimas começaram a despencar, uma por uma, até que ela estendeu os braços e foi agarrada por Neji. Escondeu o rosto no peito masculino, soluçando, sentindo os dedos calejados contra a sua nuca.

Não conseguia compreender como o tinha ao seu lado. Hyuuga Neji era um ícone naquele país. Qualquer moça gostaria de desposá-lo. Jovens muito mais belas do que ela, muito mais saudáveis, de boas famílias. Era o que Neji merecia. Ele era mais do que a perfeição personificada, ele compunha o cortejo inteiro dos seus sonhos e desejos mais profundos. Ele era o príncipe que metade das plebéias ambicionava.

Sabia que os seus pensamentos eram idiotas. Sempre enxergara o homem ao seu lado como um homem com defeitos, apesar da beleza imaculada.

Nunca fizera o tipo de mulher que rebaixava a si mesma. Esforçava-se para manter a sua confiança e auto-estima sempre num nível saudável. Mas já não entendia, por mais que buscasse respostas, porque ele continuava ao seu lado. Estava doente e pálida e tão feia. Havia dias em que mal conseguia pronunciar um agradecimento.

"P-por que você está comigo?" Perguntou, a voz baixa e soluçante. Estava aninhada no peito dele, os soluços constantes quase a fazendo soar incompreensível. "Por que você continua c-comigo?" Repetiu, uma vez que não obteve resposta. "Eu só sou uma órfã abandonada que s-sempre viveu de favor." Ela nunca falava sobre o seu passado. Ela nunca contara nada a ninguém, mesmo a Lee, seu maior confidente. "Ninguém n-nunca me quis."

Houve um longo silêncio entre ambos, onde apenas a respiração pesada de Tenten o interrompia.

"Você está mentindo." Falou Neji então, sério. Afastou-a de si, postando a mão sobre o queixo feminino, forçando-a a encará-lo. Limpou as lágrimas que abandonavam os seus olhos castanhos, dando-lhe um pequeno sorriso de canto. "Eu a quero."

Baixou o rosto até que os seus lábios se encostaram. O Hyuuga os acariciou, devagar, numa tentativa de acalmá-la. Viu as pálpebras de Tenten se fecharem, se rendendo àquela proximidade.

"E tenho várias justificativas para o fato de continuar ao seu lado." Continuou, baixinho. "Gosto da maneira como me afronta, mesmo que isso às vezes me irrite. A cor e o formato dos seus olhos me encantam. Seu cheiro me põe louco." Distribuiu pequenos beijos sobre a face delicada enquanto falava. "Você me mostrou todas as coisas que uma pessoa deve mostrar à outra: o amor, o prazer, a felicidade e a preocupação."

Capturou-lhe a boca com impetuosidade. Deslizou a língua de encontro à dela numa carícia lenta, fazendo-a estender os braços e enfiar os dedos entre os seus cabelos compridos, mantendo-o junto de si, à procura de uma maior aproximação. Um suspiro abandonou a garganta de Tenten, fazendo-o tremer.

Desceu as mãos para a cintura fina, apertando-a. Abandonou-lhe os lábios para descer para o queixo e pescoço. Podia ouvir a respiração quente contra o seu ouvido.

"Não creio que seria completo sem conhecê-la." Sussurrou Neji, mordendo-lhe o lóbulo.

Ela riu, fracamente, sem soltá-lo.

"Obrigada." Murmurou em resposta, escapando das carícias que recebia para que pudesse abraçá-lo. Ficou por um longo tempo sentindo o tórax dele se mover, ouvindo os seus batimentos cardíacos. "Esse foi o melhor primeiro dia de primavera que eu já tive." Falou, agarrada à sua camiseta.

OSDEUSES&OSDEUSES

Sakura estava excitada enquanto arrumava os aparelhos no quarto de Tenten com a ajuda de Usagi. Nos últimos tempos a médica vinha se mostrando excessivamente temperamental e aquilo surpreendia Tenten a cada dia que passava. Estava ciente, como toda Konoha o estava, dos problemas da Uchiha com o esposo, mas não acreditava que aquilo, tais distúrbios de personalidade, se valessem daquele motivo.

Embora estivesse preocupada com a amiga, não haviam tido muito tempo para conversar. Sakura era constantemente requisitada pelo hospital, de modo que não lhe restava muito tempo disponível. Havia assumido um número maior que o habitual de pacientes e atendia metade da ala de pediatria.

Após dois meses e alguns dias, o tratamento para leucemia havia avançado o primeiro estágio dos três que o compunham.

Sakura dissera já haverem atingido a remissão, uma vez que os exames não mais evidenciavam a presença de células leucêmicas. Geralmente, afirmara, o paciente já podia ir para casa naquele período, mas com o bebê em risco ela não podia lhe permitir um pouco de descanso.

Seria melhor estar sempre sob as vistas de algum especialista, caso ocorresse algum problema de última hora.

Mas Tenten estava certa de que Touya ficaria bem.

Naquele dia, completava o quinto mês de gravidez. Podia senti-lo chutar.

Conforme se desenvolvera a sua gestação, fora se sentindo cada vez mais ligada à criança. Ressonava quando o percebeu se mexer pela primeira vez e aquilo foi tão mágico que fez com que despertasse por completo. Desde então Touya se movia constantemente, impedindo-a de ter boas noites de sono, e passara, desde alguns dias, a responder a ruídos.

Estava ansiosa e nervosa para tê-lo junto de si. Toda vez que Neji falava, e quando o bebê estava acordado, Touya reagia com movimentos súbitos.

Aquela era a época em que a criança se acostumava com os sons que ouvia. A constante presença do pai por perto já o fazia ser capaz de reconhecê-lo. Assim como a de Lee, que aparecia no mínimo uma vez por dia para checar se Tenten ainda estava com a sua peruca verde luminosa.

Desde que perdera por completo os cabelos, Lee aparecera com aquela tal peruca de fios sintéticos compridos e uma franja.

Tenten nunca compreendeu porque chorou quando o viu entrar, tão preocupado com a sua auto-estima, mas percebeu que as lágrimas se tornaram um fator comum daí adiante.

O presente era como se fosse parte de si. Ela raramente o tirava. Até se habituara ao apelido que Naruto lhe dera, na vez em que viera vê-la, chamando-a de 'alienígena'.

Seus seios estavam maiores. Sakura já detectara neles a produção de leite materno. Tomava também um suplemento de vitaminas para garantir a saúde da criança.

No último ultrassom feito, não haviam podido distinguir o sexo, pois ele se encontrava com as pernas fechadas, mas Tenten estava certa de que era um garoto, assim como Neji. E assim procurava evitar qualquer expectativa ou preocupação de que o Hyuuga se decepcionasse se por ventura tivessem uma menina.

Naquele dia fariam uma nova tentativa.

"Oh!" Soltou Sakura logo depois da imagem de Touya ter aparecido na tela do monitor. "Ele hoje estava de bom humor." Sorria, vendo-o mexer o bracinho, levando-o à boca. "Que gracinha. Está dormindo." Disse-lhes. "Ali, vocês podem ver a cabeça e as pernas dobradas. Está virado de frente para nós."

"Ele está bem?" Questionou Neji, fitando-a. "Está saudável?"

"Sim." Sakura continuou a sorrir. "Tem um tamanho considerável para o período, portanto será um bebê grande. Não apresenta nenhuma anormalidade. É um bebê forte. Vocês devem estar orgulhosos deste pequeno milagre." Depois os mirou, primeiro um e depois o outro, um brilho maroto na face. "Parabéns. É um garotão."

Neji deu a Tenten um pequeno sorriso, como se estivesse muito convencido de si mesmo.

"Isso é ótimo." Falou então, parecendo se divertir. "Porque eu já tinha mandado todos os caras comprarem roupas azuis."

OSDEUSES&OSDEUSES

Estava no meio da madrugada e ela estava faminta. Mandara Neji dormir em casa, pois há uma semana que o tinha mal acomodado na poltrona ao lado da sua cama.

De acordo com Ino, todos os móveis já haviam sido comprados e montados na residência e só faltavam os pequenos detalhes finais, como objetos de decoração, que seriam deixados a encargo dela própria quando saísse do hospital.

Obtinha muitas visitas durante o dia. Afora Usagi, que passava um grande tempo ao seu lado, continuando o tricô que Lee desistira, a Yamanaka e Gai sempre apareciam quando podiam. Naruto viera uma ou duas vezes, quando por algum acaso vinha visitar Sakura no hospital, e Neji contava que estava em constante contado com Sasuke.

Pelo que o próprio lhe contava, o casamento do Uchiha com Sakura não andava bem, mas a amiga nunca falava a respeito daquilo e Tenten não se sentia à vontade para comentar.

Sentia falta de Hinata, que deixara o título ninja para trás e abandonara o país com um homem. A amiga não viera vê-la, mas a morena compreendia.

Estava feliz que a Hyuuga enfim houvesse encontrado a sua felicidade, embora a custo de muito sacrifício. Toda a família se encontrara chocada com o rumo dos acontecimentos por algum tempo, até que Hinata acabara por ser considerada como morta e esquecida. Aquela posição a enfureceu por algum tempo. Não era bom que se aborrecesse, contudo, e a ignorou.

Neji havia abandonado a sua posição e também a Hiashi e Tenten, que a princípio se mostrara preocupada com a notícia, acabou por se sentir aliviada. Detestava aquele homem.

A vida pessoal de muita gente em Konoha andava um pandemônio. Ninguém dizia nada para preocupá-la, mas Lee havia lhe dito que há muito tempo Gaara não punha os pés em Konoha. E Naruto andava sorumbático e sério, o total oposto da sua personalidade. Não podia imaginar o que estava ocorrendo fora daquela porta e isso a aborrecia.

Recém havia apertado o botão que chamava pelas enfermeiras quando Sakura entrou no cômodo, o rosto lavado de lágrimas.

"O que aconteceu?" Questionou Tenten imediatamente, preocupada.

"Estou grávida." Ela respondeu, soluçando enquanto se sentava na poltrona. Tinha a maquilagem borrada e os cabelos desajeitados. "Oh, meu Deus. Estou grávida." Repetiu num sussurro incrédulo, levando a mão à boca. "Já estou com quase um mês e eu... oh, meu Deus." Disse, esfregando o rosto.

"Parabéns." Congratulou Tenten, estendendo-lhe um lenço umedecido do pacote que Lee a presenteara. "Agora vamos, limpe as lágrimas. Conte-me o que está acontecendo. Relaxe, doçura."

"A-acho que vou me separar, Tenten." Respondeu Sakura, mordiscando o lábio, sem fitá-la. "Minha condição com Sasuke está impossível. E... e eu acho que não há mais volta."

"Para tudo no mundo há volta. Não seja dessa maneira desistente." Tenten a repreendeu, o cenho franzido. "Você lutou por isso, por esse casamento, por muitos anos, Sakura. Não pode desistir apenas porque tudo não é um conto de fadas. Você precisa continuar a ser forte e lutar."

"E-eu sei." A Uchiha fungou. "M-mas..."

Tenten sacudiu o braço, impaciente.

"Ora, vamos!" Sibilou. "Não pode desistir de Uchiha Sasuke como uma bobinha desiludida. Seja mulher. Domine-o. Não se deixe dominar. Você tem um filho para criar. Se não acha que vale a pena tentar, então pense que tudo vale por ele." Apontou para a barriga lisa dela, os lábios apertados. "Sempre foi o seu sonho, lembra? Uma família! Lute por esse sonho. Faça coisas de que se orgulhará mais tarde."

Houve um instante de silêncio, antes que Sakura se levantasse e corresse para o banheiro. Tenten a ouviu golfar e suspirou. Era sempre assim com aquela Uchiha. Ela sempre precisava ser posta contra a parede, para que afinal aprendesse a se movimentar por si só.

OSDEUSES&OSDEUSES

Nos últimos tempos, Neji acreditava que via Sasuke com freqüência. E podia compreender. Eles vinham se ajudando mutuamente desde que começaram a fazer missões juntos e o doujutsu que possuíam os mantinha em alta conta com a Hokage, mas o Uchiha era mais do que apenas um companheiro para missões. Era também um amigo.

Metade da Vila ainda não o via com bons olhos. Ele demorara um longo tempo para tornar a ser aceito, precisara pagar diversas penas, tivera toda a sua herança liquidada e cumpria mais missões do que qualquer um. Avançara rápido pelos postos ninja ao retornar para Konoha. Seu envolvimento com Sakura era esperado por toda a gente e ninguém se decepcionou. Em pouco tempo eles estavam casados, o que não queria dizer que estivessem felizes.

Nos últimos tempos, Neji havia ouvido falar muita coisa e sabia que Sasuke havia sido abandonado. Diziam que Sakura o estava traindo e agora morava com Naruto, mas aquilo tudo era falatório infundado. Eles sempre haviam sido um time e um par de irmãos que se ajudara quando Sasuke partira, e todos os ninjas que os conheciam acreditavam nisso.

Mas crer ou não nas fofocas não mudava o fato de que a senhora Uchiha deixara o esposo e o apartamento que dividiam.

Sasuke estava acomodado no sofá da nova casa de Neji. A sala tinha cores mais escuras e tudo combinava perfeitamente. Ino tinha um gosto impecável e, embora estivesse ocupada com a própria floricultura e a enorme barriga, sempre tinha tempo para aparecer e se oferecer a ajudá-lo no que quer que fosse. Ela pouco falava com Sasuke, mas era amigável, e Neji acreditava que aquela distância era algo em respeito à amiga - mulheres tinham uns hábitos estranhos.

Tenten estava naquela tarde na companhia do time de Kurenai, que fora visitá-la, e à noite Lee tinha se disponibilizado a dormir ao seu lado, pois queria conselhos e conversa.

Ela já estava no sexto mês de gestação e Sakura decidira fazer a cesárea no sétimo, para evitar complicações com a doença. Tenten estava estável e havia passado para o terceiro estágio da recuperação, a de manutenção, que consistia basicamente no término do tratamento agressivo e passava apenas para a conservação para evitar recaídas.

Em um mês, ele pensava nisso todas as noites, seria pai.

"Então," Sasuke empurrou com o pé o pacote que estava sobre a mesa de centro. Tinha uma cerveja na mão. Era já a quinta que estava tomando. "abre logo esse negócio. Tive de pedir ajuda pra uma vendedora e suportar todo o tipo de assédio só pra comprar um presente. Estou me sentindo uma bicha." Resmungou, tomando mais um gole, a voz meio mole.

"Não. É a Tenten quem abre os presentes." Reiterou Neji, pegando o copo que havia abandonado. "Então, você e a Sakura não fizeram as pazes." Comentou, distraído.

"Sakura acha que está bem com aquele imbecil." Havia voz na raiva de Sasuke ao se referir a Naruto. "E quer o divórcio. Mas se ela pensa que eu vou dar o divórcio para que possa ficar lá, bancando a esposa daquele..." Praguejou alto, enfiando a mão por entre os cabelos. "Devia tê-lo matado há muito tempo. Aquela irritante." Falou, esvaziando a lata.

Neji revirou os olhos.

"Não seja machão." Reiterou. "Você sabe como são as mulheres, Uchiha. Você sabe que elas precisam de atenção e de bobagens sentimentais. E, ao que me parece, você escolheu a mais sentimental de todas, portanto não pode reclamar. Teve tempo de voltar atrás e dizer não." O outro ficou em silêncio. Já estava meio alcoolizado. "Agora... preciso dizer que irá se desiludir se espera reconquistá-la sendo um bruto."

"Você está do meu lado ou do lado dela?" Rugiu Sasuke, de mau-humor, sem encará-lo.

"É óbvio que estou do seu lado." Respondeu Neji, encolhendo os ombros. "Mas faz parte do papel dos amigos revelarem a verdade quando necessário."

"Hunf. Que seja."

Eles ficaram calados e bebendo por algum tempo.

"Quero que você seja o padrinho do meu filho." Falou Neji, calmamente.

"Pensei que Lee fosse ser o padrinho." Respondeu Sasuke, arqueando a sobrancelha.

"Tenten disse que eu poderia escolher o padrinho. Não teria mesmo como escolher a madrinha, com minha alta interação com o sexo oposto." Ele encolheu os ombros mais uma vez. "E apenas diga 'sim' e cale a boca. Você está ficando irritante como a sua esposinha, Uchiha." Zombou, dando-lhe um pequeno sorriso cheio de malícia.

Sasuke bufou com a comparação, mas acabou por concordar.

Eles beberam até acabarem as latas do engradado, então Sasuke se despediu e se levantou, cerca de duas horas depois, indo para casa - ou 'o apartamento daquela cobra traiçoeira', como dizia. Nada na sua figura imponente denunciava que ele se encontrava embriagado, apenas o brilho levemente perdido dos olhos escuros e a boca mole.

Neji quase riu quando imaginou como Sakura se sentiria ao perceber que poderia pôr o marido daquela forma.

OSDEUSES&OSDEUSES

Tenten acordou com os ruídos provocados pela médica, que adentrava no quarto com pressa e animada.

A mulher seguiu até as cortinas, abrindo-as. Despertou também Neji, que estava com a cabeça encostada à poltrona, ressonando.

"É hoje, meus pacientes preferidos!" Disse, batendo palmas, excitada. "Vamos despertar, Tenten, amor. Uma enfermeira virá em alguns minutos checar os seus sinais e trazer o desjejum."

Bocejando, a morena a seguiu com os olhos.

"Sim." Falou, a voz mole. "Mas você precisava me acordar às..." Procurou o relógio sobre o criado-mudo: 7h da manhã. "às sete?" Indagou, enfadada e esfregando o rosto. "Achei que você tivesse marcado o parto para o início da tarde." Havia algum questionamento na sua frase, o qual foi ignorado pela Uchiha. "E Touya chutou a noite inteira. Pensei que ia me quebrar as costelas ou algo assim." Resmungou.

"Precisamos nos preparar desde já." Disse Sakura, distraída enquanto olhava a sua ficha. "Reservei a melhor incubadora para o meu afilhado e falei com a Tsunade-shishou, que estará lá para me dar todo o apoio. Mas Touya está com um bom peso para um bebê de sete meses e em pouco tempo terá atingido a maturidade dos órgãos."

Largando a prancheta, Sakura lhes destinou um sorriso brilhante.

"Agora eu vou deixá-los a sós para curtir as últimas horas antes que o meu príncipe venha ao mundo!" E saiu, saltitante.

Tenten ainda observou a porta em silêncio por alguns instantes.

"Talvez ela esteja mais ansiosa do que nós." Disse para Neji, sorrindo, um pouco cansada.

"Eu acho difícil." Confidenciou ele.

A morena sorriu, lançando os lençóis para o lado e pondo os pés para fora da cama.

"Está bem. Preciso escovar os dentes e tomar um banho, senão acabarei pegando no sono mais uma vez." Falou, tornando a soltar um bocejo. "Vá avisar Lee e Gai, Neji. Mas antes de sair, me dê aquela maldita peruca. Ela está começando a me dar dor de cabeça." Resmungou.

"Já disse a você que não me incomodo de ser o único a possuir cabelos nesse relacionamento." Zombou o Hyuuga, acompanhando-a até o banheiro. Estendeu o objeto despenteado, o qual ela agarrou ao mesmo tempo em que lhe lançava um olhar aborrecido. "Não fique assim, está bem?" Segurou o queixo feminino, puxando-a para um beijo. "Em breve tudo isso terá acabado e você poderá ir para casa com o nosso menino."

Aquelas palavras quebraram a resistência de Tenten, que riu e se afastou, girando a torneira e ligando o chuveiro.

"Eu mal posso esperar para ir para casa." E lhe lançou um olhar penetrante, que mostrava todo o seu desejo, antes de dar as costas e tirar a roupa para entrar debaixo d'água.

OSDEUSES&OSDEUSES

Ela ainda se sentia tonta e muito distante pela anestesia quando ouviu a voz de Sakura.

"O seu filho nasceu, querida."

OSDEUSES&OSDEUSES

Hyuuga Touya pesava dois quilos e setecentos gramas e chorou imediatamente após ser retirado do útero da mãe. Tinha uma vasta cabeleira escura e a pele era avermelhada e enrugada. Possuía os olhos do pai, o Byakugan.

Ele foi imediatamente levado para a incubadora, feitos os rituais de praxe após cada nascimento, desobstruindo narinas, limpando-o e vestindo-o.

O bebê agora dormia placidamente sobre a pequena almofada acolchoada, aquecido e alimentado por uma das enfermeiras. Vestia um pequeno conjunto verde, presente de Lee, e chupava o dedo.

Neji o olhava do vidro, percebendo o turbilhão de emoções invadi-lo. Sorria, ouvindo a voz encantada de Rock Lee ao seu lado, e pela primeira vez no mundo sentiu que não havia mais nada que pudesse torná-lo feliz.

Era o homem mais feliz daquele universo. E além.

FIM