Harry Potter™, personagens e lugares, não me pertencem.
AVISO; fanfic "Rated: Mature", não recomendada para menores de 16 anos por conter cenas e sexo, violência e linguagem imprópria.
SPOILERS; nenhum, até o livro 6. Foi escrita antes do lançamento do livro 7 – a história do mesmo não influencia nesta.

HALLELUJAH ¹

I.

O Assassino

Pelo preço que pagava pela estadia, as condições da hospedaria bruxa na qual passava as noites antes de pegar a balsa eram até mesmo boas. Um pequeno prédio de paredes descascadas à beira-mar com oito quartos e três hóspedes, sem baratas ou insetos estranhos – e principalmente, banheiros particulares. A velhinha dona do lugar cobrava apenas cinqüenta sicles por noite, e apesar de ter a aparência de uma bruxa-má, fazia biscoitos no café da manhã que eram muito bons.

Era um dia bonito demais para ir à Azkaban, e ela sabia disso. O mar estava tão claro e azul que se confundia com o céu na linha do horizonte. Mas eram ossos do ofício. Há três anos fazia este trajeto duas vezes por semana, para conversar com os prisioneiros. Havia algo de macabro em conversar com os mais temidos assassinos, estupradores e malfeitores do mundo bruxo, mas ela se sentia extremamente atraída pelo confuso, brilhante e sinistro labirinto de suas mentes. Sentia-se protagonista de um daqueles seriados criminais trouxas, tentando desvendar mistérios, quando ouvia os relatos de seus 'pacientes' e tentava, junto a eles, encontrar o motivo de seus atos.

Não conhecera Azkaban durante o tempo dos dementadores, apesar de ter tido encontros com eles durante seu terceiro ano em Hogwarts, e durante a Guerra. Daquele tempo, só havia restado as fotos, que ela também não costumava ver. Após a queda de Voldemort, uma verdadeira caçada a comensais da morte e aliados começou – a prisão fora reaberta, sob o comando do filho mais novo do diretor do Hospital St. Mungus. O Dr. Gerald Marris fizera acontecer em Azkaban uma verdadeira revolução, dando aos presos uma nova condição – até mesmo àqueles que foram sentenciados à prisão perpétua.

As celas agora eram mais confortáveis, deixando para trás o padrão de calabouço medieval que o lugar tinha antes. Os presos tinham direito a médicos e especialistas, além de um ou outro benefício. Mesmo assim, as medidas de segurança tinham aumentado em quase cem por cento: ninguém podia portar varinhas ou qualquer objeto mágico a menos que estivesse explicitamente autorizado, animais eram proibidos para evitar transformações de animagia, aparatação, chaves de portal ou lareiras eram estritamente proibidas não só na ilha, como na cidade mais próxima. Um raio de quilômetros em volta do lugar estava protegido por feitiços que impediriam que embarcações, aeronaves, vassouras, ou qualquer pessoa a nado se aproximasse ou se afastasse.

Ela vira neste lugar a oportunidade de continuar com o trabalho realizado durante a Guerra. Por dois anos seguidos após sua formação em Hogwarts, tinha sido psiquiatra do QG Auror, no Ministério da Magia. Fora interessante quando os 'heróis' tinham provações. Mas com o fim da batalha, tinha se tornado um trabalho burocrático e sem graça nenhuma, já que – tirando aqueles que tinham se traumatizado para sempre – nenhum mais tinha medos, temores, problemas.

Quando o Dr. Marris, reconhecendo seu bom trabalho no QG, a convidou para trabalhar em Azkaban, ela custou a aceitar. Entre os prisioneiros havia muitos nomes conhecidos, o que poderia causar certa rejeição em seu profissionalismo. Pensou muito durante o prazo dado pelo diretor para aceitar ou não a proposta. Passou noites em claro imaginando como seria completamente difícil tratar homens que ela conhecera na época de Hogwarts, ou familiares de amigos que tinham se aliado ao lado negro, entre outros.

Um dia, saiu para jantar com Harry e Gina, e explicou para eles a situação. Viu os olhos verdes dele ficarem sérios, mirarem a mão junto com a da esposa, como se fitasse a aliança de casamento deles no dedo fino dela. Ela, com seu rosto cheio de sardas que lembravam – e como lembravam, meu Deus – as de Rony, simplesmente acenou com a cabeça e disse que ambos a apoiariam para o que fosse necessário.

Enviou uma coruja ao Dr. Marris na manhã seguinte, dizendo que aceitaria o trabalho. Uma semana depois, o próprio diretor mostrou-a como pegar a balsa, apresentou-a a hospedaria na cidadezinha de Rosyth, na costa do Mar do Norte e disse que todas as estadias ali seriam pagas pela prisão. Deveria ficar ali de terça-feira para quarta-feira, e então para quinta-feira. Tinha as segundas, sextas, sábados e domingos livres.

Mas esses dias livres, normalmente, eram utilizados para analisar seus pacientes, usando o pensamento lógico para entender seus motivos. Alguns eram fáceis de diagnosticar, õceis de diagnosticar, tendo como razculpa o mzados para ariam para o que fosse necessla. aban, ela custou a aceitar.tendo como razões ambições extremas, algumas fobias, pequenos surtos psicológicos. Mas outros – como era o caso de Belatriz Lestrange, por exemplo – tinham problemas mais sérios, como sintomas de esquizofrenia, psicopatia, e mais uma série de distúrbios. Alguns tinham sido danificados pelo excesso da Maldição Imperius, outros pelo número de assassinatos que cometeram... E assim ia. Um prato cheio para qualquer psiquiatra.

Seu trabalho era impecável, como todo outro trabalho que tinha feito em sua vida, e digno de admiração. Tinha recebido uma série de elogios e prêmios por causa dele, e tinha muito orgulho disso. Ajudava bruxos considerados perdidos a se reerguerem e a voltar, talvez, para a sociedade, quando tinham condições. Só poderiam sair de Azkaban se um dia recebessem um documento com sua assinatura. Dra. Hermione Granger.

X—

A balsa atracou na ilha após quinze minutos de travessia no mar calmo. Hermione desceu, acenou para os guardas com a cabeça, e entrou pela grande porta de ferro e madeira. Sentia os saltos da sandália baterem no caminho de pedra, e parou na segunda porta feita do mesmo material que a primeira. Colocou uma mecha de cabelo castanho para trás da orelha, quando um homem enorme, de pele avermelhada do sol e vestes púrpuras se aproximou.

"Bom dia, srta. Granger" ele disse, um sorriso simpático no rosto queimado. Ela ajustou a postura, ficando com a coluna reta, e viu ele tirar a varinha de dentro das vestes. Um dos únicos que poderiam portar uma naquele lugar.

"Bom dia, Malcom", respondeu Hermione, retribuindo o sorriso "Parece que não vai chover nessa semana, hum?", ela disse. Observou o bruxo passar a varinha na frente de seu corpo, e abriu os braços para que fizesse o mesmo com as laterais. Ela, assim como Dr. Marris e qualquer outro eram revistados por Malcom ao entrar e sair de Azkaban, todas às vezes. Caso portasse algum objeto mágico ou poção não-autorizada, uma faísca vermelha sairia da ponta da varinha dele.

"Não, o tempo está incrivelmente bom nos últimos dias.", ele disse, terminando sua inspeção. Colocou a ponta da varinha na fechadura da porta. Ouviu-se o barulho de metal se chocando, e ela soube que os trincos estavam se abrindo "Estou até usando um feitiço para resfriamento interno", deu uma piscadinha, puxando a maçaneta para que a porta se abrisse.

"Talvez fosse mais fácil um ar-condicionado", comentou, rindo também. Ele fez uma cara um pouco confusa. Mesmo depois de tanto tempo convivendo no mundo da magia, ela se esquecia que eles não se utilizavam de coisas trouxas com freqüência. "Tenha um bom dia, Malcom", ela disse, entrando na fortaleza. Ele sorriu, balançando a cabeça negativamente por causa de algum pensamento, e fechou a porta assim que ela passou.

O corredor principal de Azkaban era um dos mais iluminados, devido ao vão que se estendia no teto, aberto em dias de sol como aquele. Seguindo o mesmo até o final, chegaria num amplo pátio onde alguns presos, sempre supervisionados por seguranças, podiam tomar sol e praticar algumas atividades físicas. Uma das portas levava até a sala de visitas, a outra até o alojamento dos carcereiros. A recepção, para visitantes, ficava num balcão no centro de tudo.

Hermione parou na frente de uma das portas, tocando-a com a palma da mão. Quando a mesma se abriu, ela entrou e se encarou no espelho. Não estava com uma aparência tão cansada hoje, e isso era bom. Significava as coisas, pouco a pouco, estavam melhorando. Sentiu um ligeiro frio na barriga quando o cubículo onde tinha entrado subiu alguns metros. Sua sala, assim como todos os outros consultórios médicos, ficava na ala esquerda do segundo andar. Era o andar mais iluminado e arejado, por causa das grandes janelas nas paredes de pedra. Graças a Deus. Ela não gostava muito de locais abafados.

Saiu do 'elevador', ainda prestando atenção no eco de seus saltos conforme caminhava pelo corredor de pedra. Havia seis portas naquele andar, três de cada lado. Na parede oposta ao elevador, um outro elevador, por onde traziam os prisioneiros para fazer as consultas. Ela foi até a segunda porta da parede da direita, onde se lia 'Dra. Hermione Granger', numa plaquinha de ouro velho, meio descascada. Respirou fundo. As placas dos outros consultórios eram polidas e reluzentes. Mas ela trouxera essa placa da outra sala, quando atendia os aurores. Fora um presente de Rony.

Entrou na sala, encontrando-a como sempre com as janelas abertas. A iluminação era tão forte que não precisaria acender as velas. Deixou a bolsa sobre a mesa, prendeu os cabelos castanhos e cacheados em um coque no alto da cabeça, e colocou sobre a roupa que usava – uma calça preta de malha fina e uma blusa branca de mangas curtas – o jaleco.

Seu consultório era simples, e bonito. Ela mesma o decorara. Não tinha trazido muitas coisas, porque não achava que precisaria impressionar os prisioneiros. Uma mesa de mogno polido, cadeiras grandes de couro marrom. Divã e poltrona, na outra extremidade, do mesmo material. Num armário, do lado oposto à janela, ficavam as poções, os arquivos e os equipamentos necessários, todos extremamente organizados. Não havia muitos enfeites. As únicas cores de verdade, naquele lugar, vinha da pequena escultura dourada sobre a mesa – uma bailarina que ganhara de Gina e Harry, dias após o jantar onde contara sobre a proposta de emprego – e dos cabelos vermelhos do bruxo no porta-retratos.

"Bom dia, meu amor", ela disse, tocando a face sorridente dele na foto. Tinha escolhido fazer um feitiço para paralisar aquela foto. Se tivesse que trabalhar observando ele se mexer, sorrir, mandar beijos, não conseguiria se concentrar. Dessa maneira, ele estaria sempre ali para cuidar dela, imóvel, sempre a alegrando com aquele sorriso lindo que esticava seu rosto sardento. Passou a mão pelo rosto. "Está um dia realmente maravilhoso. Se você estivesse aqui, provavelmente iria querer dar um mergulho no mar. Mas o feitiço te jogaria longe", ela deu uma risadinha, ainda deslizando o indicador pela bochecha clara dele.

Conversava com as fotos de Rony todos os dias (quando não em Azkaban, fazia isto em casa). Isso amenizava um pouco a falta que ele fazia. Queria sempre que ele estivesse a par de tudo que acontecia em sua vida. Para que, onde ele estivesse, pudesse olhar por ela e protegê-la de qualquer mal. Era o que ele faria, se estivesse ali. E o que fazia, não estando. Espreguiçou-se, buscando na bolsa os óculos de armação fina e escura. Colocou-os no rosto, puxando então a pasta que o Dr. Marris havia colocado sobre sua mesa, com as informações sobre os pacientes que iria atender hoje.

"Vou conversar com Julia Heiss, querido", ela disse, distraidamente para o porta-retratos, enquanto folheava as informações da moça de... Vinte e cinco anos que atenderia. "Ela foi condenada a cinqüenta anos por falsidade ideológica, e por... Ter aplicado a maldição Cruciatos no próprio irmão. Que beleza.", ela ergueu as sobrancelhas, pegando uma pena na gaveta e fazendo algumas observações no documento de Julia Heiss.

Deixou-o de lado, pegando o próximo. Pelo jeito, Marris tinha conseguido pacientes novos para hoje. Nunca tinha atendido Julia Heiss. Muito menos Theo Thompson, dezenove anos, prisão perpétua. Tinha massacrado duzentos e quinze trouxas na Estação de Metrô de Londres, e matado, entre eles, trinta e dois mestiços que estavam de férias na cidade. Também acusado de estupro a uma menina de doze anos, na invasão a Hogwarts. Comensal assumido. Possível psicopatia & personalidade criminosa. Ela anotou ao lado, colocando a ficha sobre a de Julia Heiss.

Hermione esticou o braço, puxando uma flechinha e escrevendo 'linha de segurança?' com uma letra meio inclinada. A linha de segurança era traçada pelo carcereiro que acompanhasse o prisioneiro até o consultório, se fosse pedida. Era colocada entre ela e o paciente, de forma que ele não conseguiria se aproximar, num surto de violência. Apenas ela poderia atravessar a linha. Com algumas pessoas, se sentia mais segura ao fazer isso. Mas evitava colocá-la, na maioria das vezes.

"Veja só", ela começou, dirigindo um olhar rápido para a foto de Rony antes de pegar a terceira e última ficha da pasta. Ele estava sorrindo, como sempre. Ela também esboçou um sorriso "Também vou conversar com..."

Hermione parou de falar.

Draco Lucius Malfoy, vinte e seis anos, condenado à prisão perpétua por utilização das maldições Cruciatos e Imperius em mais de duzentos bruxos e trouxas, por compactuação com Tom Marvolo Riddle como comensal da morte, tentativa de assassinato de Alvo Dumbledore, e pelo brutal assassinato de mais de cento e cinqüenta pessoas, incluindo os aurores Liam Houston e Ronald Weasley.

X—

Observou o relógio de pulso. Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito, cinqüenta e nove. O ponteiro maior andou um pouco. Outro minuto havia se passado. Entre um paciente e outro, eram quinze minutos. Estava com os olhos presos naquele relógio há dez.

Julia Heiss tinha cabelos loiros, mas eles eram cheios e cacheados, mais puxados para o castanho-claro. Falava meio encolhida, com os olhos baixos. A intoxicação por muito tempo de uso da Poção Polissuco – fingiu ser a noiva do irmão, empregado no Ministério, por quase um ano e meio, sendo que a mesma estava morta – tinha feito com que perdesse peso, e seus ossos eram tão proeminentes que ela parecia mais frágil que um pedaço de papel. Tendência incestuosa, depressão e princípio de anorexia por intoxicação. Violência moderada e estritamente passional. Ela tinha escrito na ficha de Heiss, quando a mesma saiu do local. A letra miúda e trêmula. Tudo coube em uma só linha.

Theo Thompson, pelo contrário, tinha grandes olhos negros, atentos a tudo, e espinhas no rosto. Apesar de ser um adolescente, pelo pouco tempo que conversaram – precisava aumentar meia hora na sessão dele – Hermione pôde perceber que tinha personalidade propensa a ações criminosas. De fato, parecia ter se divertido com o massacre no Metrô de Londres. Descrevera o mesmo como "Muitos trouxas no mesmo lugar. Isso me dá coceira", com uma risadinha intrigante. Voldemort tinha instalado nele uma fobia a trouxas, como em muitos outros bruxos da época. Os puros-sangues, como Theo, eram facilmente corrompidos pela mesma. Não tinham conversado sobre o estupro da menina: eram apenas duas horas de sessão, e Hermione achava melhor deixar este caso para mais tarde.

E em cinco minutos, conversaria com Draco Malfoy. O assassino de seu noivo, de seu melhor amigo, o assassino de sua vida. Se ele tivesse matado mil pessoas, não seria tão delicioso conversar com ele. Tratá-lo. Descobrir o que havia em sua mente doentia.

Quando tentava se lembrar do momento em que realmente vira Malfoy pela primeira vez, uma aula de Poções, ainda no primeiro ano, vinha em sua mente. Snape estava tentando ensiná-los a diferença entre as raízes sobre o balcão, e como poderiam produzir poções diferentes se misturadas aos mesmos ingredientes. Ele fez exatamente oito perguntas com o início "Alguém sabe...?" e "Alguém pode me dizer...?", e ela ergueu a mão direita todas às vezes. Ela e Malfoy. Como se estivessem em uma competição invisível sobre quem sabia mais o assunto.

Sendo Snape o mediador da disputa, favoreceu Malfoy, e ele respondeu – corretamente – sete perguntas. A última lhe foi dada como um presente, e era a mais difícil de todas. Mesmo assim, acertou. Ela era inteligente, e tentava provar isso para todos ali. Para Snape. Para Harry, Rony, e para o menino mimado de cabelos loiros, penteados para trás com gel.

Talvez tenha sido o momento mais próximo entre eles. Nunca tinha encostado nele, além do dia que lhe dera um merecido tapa na cara. Nunca tinham realmente conversado, trocado palavras gentis ou algo além de insultos. Nunca mais tinha ao menos pensado nele, depois de sua prisão. Sequer se lembrava que era o homem que havia matado Rony.

Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito, cinqüenta e nove. Mais uma vez, o ponteiro maior do relógio andou. Apenas dois minutos.

X—

Barba. Barba.

Ela vinha clara pelo contorno de seu rosto, se concentrando no queixo, embaixo do lábio inferior, unindo-se nas laterais com os pêlos que nasciam no buço, contornando o lábio superior. Um pouco mais escura que o cabelo, sem se estender pelas bochechas e maçãs-do-rosto, que eram lisas como todo o resto de sua pele extremamente branca.

Quem um dia diria que Draco Malfoy, a pessoa mais sem pêlos do universo quando adolescente, exibiria uma barba no rosto?

Os cabelos loiros, quase platinados, estavam bagunçados, como se não vissem um pente há dias, e se sustentassem por serem lisos e finos. Ele estava ao mesmo tempo magro e forte, os braços grudados na manga da camiseta branca de tecido pobre, mas as pernas escondidas nas calças largas azul-marinho que compunham o uniforme da prisão.

Percebeu seus lábios secos, um pouco rachados pela desidratação, e percebeu sua língua umedecendo-os de tempo em tempo. Viu também as manchas escuras, olheiras ligeiramente fundas abaixo de seus olhos e de seus cílios curtos. Ele não tinha rugas nos olhos, nem mesmo marcas. Provavelmente, por sorrir muito pouco.

Mas ela não teve coragem de encará-lo. De erguer os olhos e ver os dele diretamente. Os via pelo conjunto, os via cinzentos, meio azulados por serem muito claros e refletirem o céu lá fora. Mas não tinha realmente olhado para eles. Não se sentiria apta o suficiente para fazê-lo, pelo menos não por enquanto.

As mãos dele estavam juntas sobre o abdômen. Cruzadas, como se fossem se juntar e fazer uma prece. Mas ele não rezaria. Em um milhão de anos, não pediria uma única coisa a Deus, independente de seu desespero.

"Boa tarde, Sr. Malfoy", foi o que ela disse, olhando rapidamente para a ficha no pergaminho amarelado que tinha sobre a mesa. O Draco Malfoy da foto 3x4 estava parado e sério como o Draco Malfoy em sua frente. Piscando de vez em quando, respirando fundo às vezes.

"Granger", ele retribuiu com um aceno de cabeça. Tinha uma voz profunda e masculina, mas parecia usar uma espécie de indiferença no tom da mesma.

"Como vai?", ela folheou os dados criminais, passando os olhos pelos mesmos, sem ler realmente. Não precisava disso para saber que aquele era o assassino de Rony. Isso estava simplesmente gravado em sua mente.

"Bem. Você?", escutou ele se mexendo, ajustando o corpo na cadeira. Ela respirou fundo, levantando os olhos. Encarou seu rosto, mas não seus olhos.

"Muito bem, obrigada. Vou contar um pouco sobre o tratamento e você vai me dizer se concorda com os métodos e com os possíveis medicamentos que você possa tomar", ela empurrou um pergaminho e uma pena para o outro lado, a extremidade onde ele estava. O tinteiro se encontrava no centro da mesa. "Se concordar, deve assinar no lugar marcado com um x. Se não concordar, deve me explicar as razões e trabalharemos com modificações. Ou você pode procurar o Dr. Marris."

"Não tenho medo dele", ele segurou a pena, deslizando a parte macia e colorida entre os dedos da mão esquerda. Suas unhas eram curtas, um pouco tortas nos dedos grossos e compridos.

"O tratamento consiste em quinze sessões de duas horas cada, podendo ser o tempo modificado caso necessário. Você me verá todas as terças e quintas-feiras. Você deve confiar em mim", ela respirou fundo, visivelmente ciente de que confiança não seria algo que existiria entre eles "e me contar tudo, responder com sinceridade a todas as perguntas que eu fizer. Conversaremos sobre sua infância, sobre possíveis traumas ou abusos da infância e adolescência, sobre as razões que lhe levaram a cometer os delitos, e principalmente sobre seus sentimentos após a execução, e sobre os dias de hoje. Eu, então, traçarei uma análise dos fatos e através da mesma, resolveremos se você precisa ser medicado, e dependendo do resultado, decidiremos também qual será o seu futuro em Azkaban."

Seu futuro. Em Azkaban. Ela soltou o ar devagar pela boca após dizer essa frase, ajustando a ficha sobre a mesa perfeitamente reta, desamassando os cantos, e extremamente concentrada nisso de repente. Teria alguém futuro, condenado à prisão perpétua ali? Teria alguém alguma possibilidade de emprego, alguma chance, se saísse dali com uma estadia no currículo? Imaginava que não. Ainda mais alguém sem família. Sem dinheiro. Sem absolutamente nada, como Malfoy.

Depois da guerra, da morte de Lúcio, do suicídio de Narcisa, do incêndio na mansão Malfoy, Draco tinha menos do que ela. Menos do que qualquer outro. Draco, o menino irritado, que vivia mostrando os dentinhos para qualquer um que o contrariasse, o menino que quase cuspia em seu rosto ao dizer 'sangue-ruim nojenta', o menino que achava que realmente poderia dominar o mundo um dia, por seu nome e dinheiro, agora não era mais nada. Um simples prisioneiro de Azkaban. Um simples paciente.

Ele estava em suas mãos. Seu futuro, em Azkaban, dependia dela. E ela – foda-se a ética médica – faria de tudo para que fosse o futuro mais horrível que pudesse oferecê-lo. Faria de tudo para atingi-lo, do jeito que ele a atingira.

"Sabe, Granger", ele disse de repente. Seus devaneios em arrumar a ficha enquanto planejava o que aconteceria com Malfoy foram dissipados. Subiu os olhos, e eles irremediavelmente se encontraram com os dele. Olhos azuis e cinzentos normalmente eram descritos como 'cor de água'. Os de Draco Malfoy tinham cor de gelo. "Se me dissessem, há cinco anos atrás, que eu estaria sentado numa cadeira como seu paciente, eu faria isto."

Ela sentiu o rosto esquentar quando viu ele erguer a mão direita fechada, projetando apenas o dedo do meio no ar. As unhas tamborilaram na madeira da mesa, como se isso fosse descontar o pequeno acesso de raiva e vergonha que estava tendo.

"Você está sentado numa cadeira, é meu paciente, e vai assinar o papel e me respeitar.", ela retrucou imediatamente, os dentes cerrados e as unhas batendo cada vez mais forte na mesa "Portanto, coloque este dedo em algum lugar que lhe convenha e não repita mais isso, ou realmente vai conversar com o Dr. Marris."

Malfoy sorriu. Na realidade, um dos cantos de sua boca pálida se curvou para cima numa espécie de sorriso. Sarcástico, como todo resto de seu ser. Ele então abaixou a mão, abrindo todos os dedos da mesma, e voltou a segurar a pena entre os dedos. Ela era azul como as veias que apareciam no pulso dele.

"Não tenho medo de Marris, como já salientei.", ela viu ele puxar os termos do tratamento para perto, passando os olhos pelas letras escritas no mesmo. O sorriso já havia sumido dos lábios, mas parecia permanecer nos olhos dele, dando-os um brilho irônico. Ele respirou fundo, antes de molhar a ponta da pena no tinteiro. "Você não vai ser boazinha comigo só porque somos amigos, não é mesmo, Granger?"

Ela parou de tamborilar as unhas na mesa, estreitando os olhos castanhos feitos os de um gato.

"Com amigos como você, eu sou ainda melhor", respondeu, soltando devagar o ar pelo nariz.

O canto dos lábios dele novamente se contorceu num sorriso, e o barulho da pena arranhando o pergaminho no formato de sua assinatura foi a única coisa que eles escutaram.

Continua.


¹ Hallelujah significa "Aleluia". O termo significa, na realidade, "louvar a Deus". Para cristãos, é a palavra que demonstra maior devoção a Deus. É algo sagrado. No fim da história, a escolha do título será devidamente explicada. É também o nome de uma canção muito bonita, que em algum ponto será homenageada aqui.

Nota: Essa fanfic ainda está incompleta, e como estou em um ano de vestibular, provavelmente as atualizações não serão tão rápidas quanto gostaria que fossem. Eu não gosto de escrever fics longas justamente por causa disso, mas fazer o que, dessa vez a vontade foi maior que eu ;P

Talvez algumas coisas ainda pareçam um pouco non-sense, mas eu espero conseguir desenrolá-las conforme o tempo vai passando. Não pretendo enrolar muito nessa fanfic não, ela é bem direta.

Mesmo assim, só vou postar o já pronto capítulo 2 quando receber algumas reviews ;P Chantagem emocional eu também sei fazer!

Obrigada por toda a força que estão me dando lendo minhas outras fanfics D/Hr, isso realmente me estimula a escrever :) Espero que façam o mesmo com essa! Não vou mais demorar... Um beijo!

Vick