Harry Potter, personagens e lugares, não me pertencem.
AVISO: fanfic "Rated: Mature", não recomendada para menores de 16 anos por conter cenas de sexo, violência e linguagem imprópria.

HALLELUJAH

VII.

Papier Maché

Should I speak? Should I bother shaking hands?
Am I weak if I leave it as it stands?

Na última vez que pisara no asfalto da Oxford Street, ela estava deserta e a noite estava fria e seca. Harry Potter tinha acabado de derrotar o Lord das Trevas. As pessoas ainda tinham medo de sair de suas casas à noite – não o fariam até que todos os comensais da morte fossem capturados.

Draco não se escondera, nem mesmo tentara. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria atrás das grades de Azkaban. Caminhara de cabeça erguida por ali, entrando em um dos únicos pubs que ainda estava funcionando, para se encontrar com Cormac McLaggen e pelo menos tentar aliviar sua pena. Entre um gole de alguma bebida trouxa e outro, descobriu qual seria o preço que teria que pagar pela mudança da Causa Mortis de Houston e Weasley.

Quase quatro anos depois, a única coisa que permanecia igual era o frio. A noite não estava seca – havia neve para todos os lados – e a rua, definitivamente, não estava vazia. Pessoas se acotovelavam entre sacolas e enfeites para poder conseguir o último par de meias da loja e presentear seu amigo secreto de Natal.

Talvez não estivesse mais habituado com pessoas em grande quantidade, mas Londres lhe parecia a visão do inferno. E sinceramente, se sentia falta do silêncio da prisão, era porque a liberdade não lhe cabia mais.

Liberdade?

Se ainda estava em pé depois da quantidade de poções que Marris o fizera beber antes de sair da prisão, era por puro milagre. Ganhara alguns galeões para poder se hospedar em algum lugar, já que não tinha família, e mais uns sicles extras para "dar um presente para alguém, caso quisesse". Estava sendo rastreado, não tinha poderes mágicos, varinha ou dinheiro e, como se isso não bastasse, estava no meio de trouxas desesperados pela maior festa capitalista do mundo (que, honestamente, nada tinha a ver com Jesus ou com qualquer outro cara). Não sabia se podia chamar isso de liberdade.

Outra coisa não tinha mudado em quatro anos: o nome do pub. Twiggen's.

Entrou. O movimento da porta balançou um sininho e as poucas pessoas que estavam lá dentro viraram a cabeça para observá-lo. Homens, todos, com cigarros entre os lábios e expressões mal encaradas. Colocou ambas as mãos nos bolsos do casaco, sentindo as moedas com os dedos enluvados. Sicles nada valeriam naquele pub, e ele bem sabia disso. Foi até o balcão, sentando-se em um dos bancos livres. Um homem que fingia limpar um copo com um pano sujo e úmido se aproximou. Tinha rugas na testa, pouco cabelo, uma barriga saliente e, provavelmente, três filhos que o esperavam para a ceia de Natal.

"O que vai querer, senhor?", o homem perguntou. Draco pensou nas moedas bruxas que tinha no bolso. O que será que bebera da outra vez?

"Qualquer coisa que esquente", respondeu, após alguns segundos, tirando as luvas e colocando-as sobre o balcão. Deu um sorriso pequeno. O homem sorriu de volta, interpretando esse gesto como algo comum de um ser humano que reconhece o outro numa noite de Natal. Foi até uma das prateleiras com inúmeras garrafas e serviu um líquido transparente em um copo pequeno, enchendo até a metade.

O sininho balançou novamente antes que Draco sorvesse do primeiro gole da bebida. O homem de cabelos castanho-claros usava um jaleco branco por baixo do sobretudo de veludo marrom. Direcionou-se ao balcão, sentando-se no banco ao lado do de Draco. Os olhos se encontraram por alguns instantes.

"Malfoy, você não pára de me surpreender", ele disse, com um sorrisinho leve no canto dos lábios. Draco deixou um risinho sair pelo nariz e, finalmente, levou a bebida à boca. Um gosto forte de bebida alcoólica dançou por sua língua, queimando sua garganta ao atravessá-la.

"Você também não, McLaggen. Você também não."

McLaggen riu, pedindo ao balconista um Black Label duplo, fosse isso o que fosse "Vodka pura?", perguntou, observando o que Draco tinha no copo. Ele mexeu os ombros, num gesto indiferente.

"Se você diz", falou, bebendo mais um gole pequeno. Sentia as pontas dos dedos esquentarem conforme o álcool começava a correr por suas veias.

"Como um maníaco como você está fora da cadeia?"

Draco 'gostava' de poucas pessoas na vida. McLaggen era uma delas. Simples e direto. Nunca o enrolara em uma conversa sem fim para garantir seus interesses ou conseguir suas respostas. Se um dia abrisse uma empresa, com certeza o chamaria para ser sócio. Não havia no mundo alguém melhor para fazer negócios.

O legista recebeu sua bebida. Ao observar o copo, Draco percebeu que fora isso que bebera da outra vez. Black label duplo. Whisky, é claro. Precisava anotar essa informação.

McLaggen girou as pedrinhas de gelo dentro do copo enquanto esperava a resposta do loiro.

"Pelo mesmo motivo que um maníaco como você não está dentro dela. Ainda visita Lovegood na ala dos lunáticos?"

"Veja bem", o médico respondeu, tocando o canino com a ponta da língua. Deu um gole em seu whisky. "Uma credencial pode abrir muitas portas"

"Você é doente", Draco riu, bebendo mais um pouco da vodka. Era forte demais para beber devagar e, ao mesmo tempo, boa demais para beber em um único gole.

"Ela aprendeu a gostar do sexo. Não preciso mais sedá-la", McLaggen disse, utilizando um tom de voz normal, como se estivesse falando de algo muito comum. Mas Draco imaginava que ele não tinha medo porque, ali dentro, todos deviam ter um histórico policial de arrepiar.

"Como somos hipócritas, não é mesmo? Não tenho nada a ver com a sua vida, mas enfiei uma faca oito vezes no estômago de Houston por ter estuprado Parkinson", comentou, passando a língua pelos lábios, sentindo as rachaduras de frio na pele sensível dos mesmos arderem um pouco.

"E isso nunca foi reportado graças a quem?", McLaggen ergueu o copo, sorrindo. Draco balançou a cabeça, rindo também, e ergueu o próprio copo. Bateram as bordas dos copos num brinde.

"Eu sempre soube que mudar os relatórios seria eficiente. Se não fosse por isso Marris nunca me deixaria passar o Natal fora, já que Granger me condenaria ao beijo do dementador. Aposto que ela arranjaria um só para fazer isso".

O médico terminou rapidamente que restava de whisky em seu copo, deixando apenas as pedras de gelo.

"Houston não é nada. Se Hermione soubesse o que realmente aconteceu com Weasley, amigo, nem mesmo o beijo do dementador seria suficiente. Ela iria matá-lo com as próprias mãos."

Draco desviou o olhar, deixando a borda do copo próxima dos lábios.

Há um mês não falava com Granger. Na sessão seguinte ao dia em que quase fizeram sexo na mesa do consultório – quando ela chorou e ele a abraçou, aquela sensação estranha de culpa agarrando-se a seu peito – descobriu que seria tratado por Marris. De imediato pensou que ela tinha arranjado a transferência. Que finalmente percebera que não estava mais trabalhando quando ele chegava perto. Ficou com raiva, com um pouco de nojo, ficou extremamente chateado por alguns minutos.

Descobriu que era muito mais fácil ser tratado por Marris. Conseguia fingir e mentir com uma habilidade absurda que nunca tinha vindo totalmente à tona nas sessões com Granger. Principalmente porque o médico não tamborilava as unhas na mesa e, assim, ele conseguia se concentrar melhor no que estava dizendo. Lá pelo meio da sessão, sentiu-se à vontade para perguntar por que não seria mais tratado por Granger. Marris sorriu e disse que aquele era um procedimento normal: ele tratava todos os pacientes que seriam liberados por ele nos feriados para poder analisar a fundo seu comportamento. Granger tratava aqueles que ela liberava.

Sentiu-se estranhamente aliviado quando o médico disse isso. Da mesma forma que se sentiu aliviado por não haver nenhuma maneira de Granger descobrir o que realmente acontecera com Houston e Weasley.

"Onde Granger mora?", perguntou de repente, tomando o que restava de vodka no copo. McLaggen mexeu os ombros.

"Que eu saiba, num prédio azul na Queen Anne Street. Pelo menos foi lá que o jantar de noivado dela e de Weasley foi feito. Por quê?"

Draco continuou olhando para o outro lado "Só para saber", disse, cerrando o maxilar com força. Os pés inquietos. McLaggen se levantou, tirando notas de dinheiro trouxa do bolso e colocando sobre o balcão. Sentiu a mão dele em seu ombro.

"Paguei sua bebida. Não machuque Hermione, Malfoy", McLaggen bateu em seu ombro de leve, duas vezes.

Draco voltou o rosto para ele, piscando devagar "Não vou. Escuta, você pode me emprestar um pouco de dinheiro trouxa? O que der para um maço de cigarros e uma passagem de ônibus até o Caldeirão".

O legista riu, tirando do bolso mais três notas, dez libras cada uma. Entregou-as na mão de Draco.

"Feliz Natal, Malfoy".

X—


I've submerged and I've surfaced with the blame.
I guess I'm no good, I guess I'm insane.

Os cabelos negros chicotearam as costas quando ela lançou a cabeça para trás. Ela gemia alto, gemia muito. Gemidos excitavam, mas os dela eram exagerados. Não conseguia sentir prazer com eles. Não conseguia sentir nada além de nojo dela e de si mesmo.

Afundou os dedos em seu quadril e fechou os olhos. Fechando os olhos ficava mais fácil. Ele podia viajar para uma outra cama, onde afundaria o rosto em cabelos perfumados enquanto sussurraria palavras de amor e desejo.

Mas o amor e o desejo eram por outra. Por esta, não havia nada. Fazia pelo dinheiro. O sexo e os beijos eram conseqüências. O prazer carnal era conseqüência. Tornava-se algo mecânico, animal. Rápido, metódico, frio. Limpo.

O tremor no corpo quente e magro dela anunciava seu orgasmo – e a partir disso, ele sabia que não precisava se demorar mais. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes, e pronto. Um gemido saindo grosso do fundo de sua garganta, a voz mais masculina do que o normal. Soltou-a. Marcas vermelhas de dedos na pele branca de suas nádegas.

Ela abaixou os joelhos, deitando-se na cama de barriga para baixo, um sorrisinho nos lábios. A maquiagem nos olhos estava borrada. Manchas pretas do lápis de olho pelos travesseiros e lençóis do motel.

Ele se levantou e foi ao banheiro. Jogou o preservativo no lixo e ligou o chuveiro logo depois, testando a temperatura da água com a mão. Ainda estava gelada. Aproveitou para tirar a camiseta grudada do corpo. Nunca tirava todas as roupas para transar com ela, já que normalmente não tinham tempo para isso. Mas não fazia questão, também. Queria que ela sentisse e visse o mínimo possível de seu corpo.

Os cantos do espelho começaram a embaçar e ele soube que a água já estava quente. Assim que entrou debaixo do chuveiro e fechou a porta de vidro do box, ela também entrou no banheiro, o salto fino das botas fazendo seu passo parecer duas vezes mais pesado do que realmente era. As botas negras combinavam com seus cabelos e com a maquiagem de seus olhos. O resto de seu corpo nu era branco e combinava com o banheiro.

Observou-a através do vidro embaçado. Ela se inclinou para a pia, ainda exibindo marcas de dedos nos quadris. Passou a mão pelo espelho – provavelmente para poder limpá-lo e se enxergar – e logo começou a ajustar a maquiagem estragada.

"De quanto você vai precisar essa semana?", ela perguntou. Ele fechou os olhos para que o shampoo não entrasse neles.

"Cem", disse assim que a espuma em seus cabelos diminuiu.

Por um momento, tudo que havia entre eles era o som de água corrente. Ela saiu do banheiro. Não abrira os olhos ainda, mas escutara seus passos. Logo depois voltou. Quando ele terminou de lavar os cabelos, olhou-a. Agora estava de calcinha.

"Dou cento e cinqüenta se você me encontrar na quarta-feira"

Ele respirou fundo. "Cem está bom", disse, ao fechar o chuveiro. Abriu uma parte da porta para pegar a toalha e, após secar-se – ali dentro mesmo – enrolou-a em volta da cintura. Passou por ela para pegar uma toalha de rosto e secar os cabelos. Ela o abraçou, passando os braços por sua cintura, esfregando a bochecha e o nariz em suas costas.

"Dou duzentos se você me encontrar de novo nessa semana, amor", ela disse, respirando fundo. Ele cerrou o maxilar. Não encarou o espelho. Não tinha coragem de ver essa cena refletida em algum lugar.

"Só quero cem", falou, soltando-se do abraço e saindo do banheiro.

Vestiu-se rapidamente. Ela voltou para o quarto quando ele estava abotoando a capa e jogou-lhe a camiseta que tinha esquecido no banheiro. Todo o esforço para arrumar a maquiagem tinha sido, pelo visto, em vão, já que continuava borrada. Foi até a bolsa. A parte de trás de sua calcinha entrando em seu bumbum. Ele se perguntou se ela não estava com frio. Estava um frio dos diabos para ficar nua daquele jeito.

Sentou-se na cama e esperou. Quando ela foi até ele, carregava um saquinho de tecido bege cheio de moedas. Jogou o mesmo em seu colo e cruzou os braços na frente do corpo para esperá-lo contar. Olhou-a rapidamente, percebendo seus seios descobertos. Os mamilos duros mostravam que sim, ela estava com frio.

Dez moedas, dez galeões cada uma. Nunca o enganara antes.

"Está tudo certo", ele disse, guardando o saquinho no bolso interno da capa. Ela então deixou o corpo pender um pouco para frente, colocando-se entre as pernas dele, abraçando-o pela cabeça. Manteve os olhos abertos quando ela pressionou sua cabeça contra o peito dela e correu os dedos por seus cabelos, como se nada no mundo fosse mais importante do que isso. Meu Deus, aquela vadia estava se apaixonando por ele.

"Por que não quer me encontrar outra vez?", ela perguntou, dando um beijo em seus cabelos. Ele apoiou ambas as mãos em sua cintura, mas para afastá-la. Não para abraçá-la. Nunca para abraçá-la.

"É o nosso trato, não é?", ergueu os olhos, encarando os dela. Olhos de um castanho rico que lembrava a cor do chocolate "Uma vez por semana, cem galeões".

Ela levou as mãos a seu rosto, apertando-lhe com as unhas compridas e pintadas de vermelho. Abaixou um pouco o rosto, fazendo seu nariz tocar o dele.

"Você é minha prostituta, amor", ela disse, mordendo seu lábio inferior, puxando-o até que ele sentisse uma dor leve no mesmo. Desviou o olhar.

"Eu não sou seu amor", respondeu, sentindo as unhas dela tentando afundar em sua pele. Se o marcasse de algum jeito, ele a mataria ali mesmo. Não tinha pena nenhuma.

"Continua sendo minha prostituta", ela retrucou, sorrindo com o canto dos lábios. Lábios que aproximou dos dele, beijando-o devagar. Ele correspondeu com o mínimo de entusiasmo possível.

Levantou-se antes que ela tentasse enfiar a língua em sua boca. Embolou a blusa usada e suada que ela tinha lhe jogado, e pegou a varinha na mesa de cabeceira. Murmurou reducto, e a camiseta ficou do tamanho de uma roupa de boneca. Guardou-a no bolso junto com a varinha.

"Eu te aviso quando puder, semana que vem", ele falou, abrindo a porta do quarto. Ela não disse nada: apenas deixou-se cair na cama e mandou que ele fosse embora com um gesto. Melhor assim.

X—

Should I go if she calls out my name?
And if she bleeds, should I wipe up the stain?

A moça riu quando ele lhe entregou as trinta libras em troca de um maço de cigarros e um isqueiro. Usava um suéter cinza por cima de uma cacharrel branca e um gorro rosa-choque que cobria as orelhas, pompons de lã próximos ao pescoço. Continuou sério.

As bochechas dela ficaram da cor do gorro quando ela percebeu que ele não tinha achado engraçado. Olhou para baixo, juntando duas das notas de dez e entregando-as de volta. Draco ergueu as sobrancelhas.

"Não precisa disso?", perguntou, mostrando as duas notas. A moça sorriu, sem graça e fez que não com a cabeça. Ele piscou algumas vezes, confuso. Balançou os ombros, guardando as notas no bolso.

Ela lhe entregou uma cartela com três isqueiros de cores diferentes. Havia um verde, um azul e um vermelho. 'A Lufa-Lufa sempre fica de fora', pensou, com um sorrisinho no rosto, sem perceber o quão idiota tinha sido essa constatação.

"O senhor quer Carlton, Marlboro ou Free?", a moça perguntou. Draco mordeu a parte interna da bochecha. Nunca pensara que cigarros teriam marca. Ergueu as sobrancelhas, espiando as caixas diferentes que ela indicara. Qual seria a diferença entre elas?

"Marlboro", disse, enfim, após alguns segundos. A decisão tinha sido aleatória. Talvez porque fosse a marca que tinha menos caixas para vender, o que significava que vendera mais durante o dia e, por isso, deveria ser melhor.

Olhou em volta, enquanto ela abria a caixa registradora e pegava o troco. Bruxos também tinham padarias mas elas normalmente não eram assim, tão comerciais. A arte de fazer pães era passada de pai para filho e nem todos tinham acesso às poções especiais que eram misturadas à massa. Ter uma padaria era uma tradição familiar, um orgulho e nada era vendido em uma além de pães e bolos.

Mas a padaria trouxa – que estava deserta, quase fechando – não fazia jus ao nome. Draco não conseguia encontrar um único pão que parecesse ser artesanal. Todos estavam cortados em fatias iguais, embalados em plásticos coloridos e exibindo preços diferenciados marcados em etiquetas. Nos balcões vazios não havia nenhuma cesta cheia de pães, nem mesmo farelo. Naquela padaria, além dos pães embalados, havia apenas pacotes cilíndricos de bolachas doces, sacos de salgadinhos, garrafas cheias de um líquido escuro em cujo rótulo vermelho se lia Coca-Cola.

E atrás do cubículo onde a moça estava, além de cigarros e isqueiros, uma infinidade de pacotinhos coloridos. Push-pops, Skittles, Pixy Stix, BB bats, Snickers, Razzles, Mentos, Almond Joy e mais uma série de, ele imaginava, doces. Coisas que uma boa casa de pães bruxa nunca venderia.

A moça devolveu-lhe uma nota diferente das que McLaggen tinha dado e algumas moedas. Guardou o troco no bolso da capa, as moedas trouxas misturando-se aos sicles que ali já estavam. O maço de cigarros em uma mão e a cartela de isqueiros na outra.

"O senhor é estrangeiro?", ela perguntou, estranhamente animada. Talvez quisesse uma explicação que sua mente ridícula achasse plausível para as perguntas estranhas que ele fizera. Draco acenou com a cabeça e sorriu de leve "De onde?"

Ele respirou fundo. Não ficaria batendo papo com uma trouxa numa padaria da Queen Anne Street. Não mesmo.

"Alemanha", disse rapidamente. Foi o primeiro país que veio a sua mente "Boa noite". Saiu antes que ela respondesse e lhe desejasse um feliz Natal.

Andou poucos metros. Antes de entrar na padaria, já tinha avistado o prédio de Granger. O único prédio azul da rua. Tinha poucos andares. Dava para contar cinco janelas para cima e todos os apartamentos estavam com a luz acesa. O portão que o cercava, cujas barras o lembravam de Azkaban, era de ferro coberto por tinta preta, com lanças prateadas na ponta.

Observou a calçada. Estava úmida e tinha poucos espaços livres de neve. Desenrolou o cachecol negro do pescoço, dobrando-o e deixando-o no chão para que pudesse se sentar sobre ele, as costas contra as barras do portão. Mais cedo ou mais tarde, Granger sairia para passar o Natal com alguém e o encontraria ali.

Enfiou as mãos no bolso da capa, buscando as recentes aquisições. Com um pouco de dificuldade conseguiu abrir o maço de cigarros e tirar um de dentro. O isqueiro foi mais fácil. Pegou o verde. Velhos hábitos não mudam.

Acendeu o cigarro e puxou a fumaça com os lábios. Era mais forte do que a produzida pelos cigarros que ele mesmo confeccionava em Azkaban, com um gosto específico, mas era perfeito. Fechou os olhos, sentindo a fumaça contra a língua por alguns segundos, antes de puxá-la para o pulmão. Estava privado dos cigarros exatamente o mesmo tempo que estava privado de Granger.

Um vício levava ao outro. Sempre.

Draco soltou a fumaça em forma de anéis. Esticou as pernas, um sorriso leve aparecendo em seu rosto quando o círculo cinzento se dissolveu no ar frio. Ainda tinha dezenove cigarros no maço para fumar enquanto esperava por ela.

X—

And if I'm low, can I drown in this rain?
This is no good, this is insane.

Hermione prendeu o celular entre o ombro e a cabeça para poder segurá-lo. As mãos estavam ocupadas por tentar, ao mesmo tempo, segurar sacolas de presentes e trancar a porta do apartamento.

"Não, mamãe. Vou ao cemitério só no ano novo. Tenho andado muito ocupada, juro, e amanhã aquilo lá vai estar um caos".

Viver entre trouxas e bruxos era muito complicado. Precisava de papéis sulfite na casa, mas também de pergaminhos. De penas, tinteiros e canetas esferográficas. Mas acima de tudo, o que mais complicava sua vida era ter maneiras para se comunicar com ambos os lados. Seus pais – por mais que os ensinasse, pelo menos cinco vezes por ano – não sabiam usar a lareira para falar com ela. Comprou um celular. Assim era mais fácil.

"Vou tentar visitar vocês quando as festas acabarem, mamãe. Eu sei, eu sei. Merda!", exclamou, de repente, ao deixar cair no chão uma das sacolas quando conseguiu girar a chave. Sua mãe reclamou do palavrão do outro lado. Por que ela simplesmente não ligava mais tarde? Tinha combinado de ir para a casa de Harry às oito da noite. Já eram nove e meia e nem tinha saído de casa! "Desculpe, é que as sacolas caíram", falou, abaixando-se para pegá-las "Estou um pouco afobada aqui".

Poderia simplesmente aparatar para o lado de fora se permitissem aparatação naquele prédio maldito. Mas depois da guerra, o Ministério estava com tanto medo de uma possível revolta de comensais que obrigou todas as moradias bruxas a proibirem aparatação dentro e em volta das mesmas. A revolta de comensais nunca veio, mas a lei permaneceu. Portanto, nada de aparatar diretamente para a casa de Harry. Seria tão mais fácil!

"Estou comendo direito, mamãe", Hermione largou a chave de casa dentro de uma das sacolas. A bolsa estava muito complicada no momento. Trocou o celular de orelha, sentindo uma dor leve no pescoço quando o dobrou para o outro lado. Alcançou a varinha no bolso do sobretudo, batendo com a ponta da mesma duas vezes na porta do elevador, murmurando o feitiço para que ele subisse "Não, foi só um feitiço que eu fiz. Estou entrando no elevador, o celular não vai mais pegar. Amo você e o papai. Ok. Feliz Natal também, mamãe. Beijos".

Hermione desligou, girando o pescoço. Conseguiu segurar todas as sacolas em uma única mão para alcançar a bolsa pendurada no ombro e guardar o celular. Foi o tempo para que o elevador chegasse.

Olhou-se no espelho. Tinha prendido os cabelos em um coque, simplesmente porque não tivera tempo de arrumá-los. O sobretudo era bege, de tecido grosso, fechado por uma faixa em volta da cintura. Não deixava o vestido de baixo à vista. Apenas as botas pretas de couro fosco e salto fino, que iam até um pouco antes dos joelhos.

Arrumou os brincos. Eram grandes, prateados e brilhantes. Tinham sido presente de Cormac – ele enviara pelo correio logo de manhã. Estava acostumada a receber presentes dele e sempre retribuía. Não costumavam se encontrar em festas de Natal, já que Harry nunca gostara dele, mas era um bom amigo, uma pessoa confiável, apesar de seu jeito insuportável.

Maquiara-se pouco, como sempre. Os olhos adornados por lápis e delineador preto, e apenas um pouco de sombra prateada para iluminá-los. O gloss deixava os lábios brilhantes, mas era transparente. Toda vez que saíam para algum lugar e ela passava isto, Rony vinha com um guardanapo para limpar seus lábios.

"Assim fica ruim te beijar", ele dizia, rindo. Ela passava novamente algum tempo depois. Ele reclamava, mas a beijava mesmo assim, ficando com os lábios melados quando terminavam. E era ela quem pegava o guardanapo para limpá-los.

Térreo. A porta abriu. Saiu do elevador, caminhando até a portaria. Apoiou as sacolas no chão, abaixando-se para pegar a chave que jogara dentro de uma delas. Quando encontrou, guardou-a na bolsa, aproveitando para pegar o par de luvas de lã preta e colocar. Sabia que seu prédio era velho e mal cuidado pelo lado de fora, mas o hall de entrada era formidável. Os elfos domésticos faziam um trabalho impecável por ali. O tapete vermelho e verde tinha a cara do bom velhinho, que acenava e ria, mas reclamava quando alguém pisava nele.

Gilly era o elfo que cuidava da portaria. Usava um gorro e um casaco vermelho e logo apareceu correndo para ajudá-la. Hermione sorriu para ele.

"Feliz Natal, Gilly", disse, pegando uma das sacolas da mão dele. Tirou de dentro dela um presentinho pequeno, embrulhado em verde. Deixou em cima da mesa da portaria "Não são roupas, querido. Só uma lembrancinha para você".

Gilly fez uma enorme reverência, o nariz pontudo quase atingindo o chão "Muito obrigado, senhorita, muito obrigado! Gilly vai dar um para a senhorita também, vai sim! Para que árvore esses presentes vão, senhorita?"

"Casa dos Potter, Gilly", Hermione respondeu carinhosamente. Elfos, com sua magia diferenciada, podiam aparatar e desaparatar livremente. Isso facilitava muito na maioria das vezes. Gilly sorriu, reverenciando-a mais uma vez. Hermione sabia que ele se sentia extasiado em ir até a casa de Harry Potter para colocar os presentes sob a árvore. Fez um carinho rápido na cabeça dele. Com um estalar de dedos, Gilly sumiu com todas as sacolas.

Hermione ajustou a bolsa no ombro, saindo do prédio. Teria que andar até a esquina, perto da padaria, para poder aparatar com segurança. Assim que abriu a porta, um vento gelado cortou a pele de seu rosto e sua nuca descoberta. Segurou as lapelas do sobretudo, deixando-o mais próximo do corpo. A pele toda arrepiou.

Havia neve nas calçadas. Sentiu os saltos das botas afundarem na mesma, dificultando seus passos. Ainda bem que não precisava caminhar muito.

Passou pelos portões. A rua estava vazia, úmida e cheirava à fumaça de cigarro. Fechou os olhos rapidamente. Aquele cheiro a levava diretamente de volta para Azkaban, para Malfoy. Deus, fazia quase um mês que não falava com ele. Tinha usado esse tempo para pôr as coisas no lugar. Para compreender tudo que estava dando de errado, para analisá-lo profissionalmente e pessoalmente.

Foi utilizando seu lado racional – o que realmente funcionava bem em sua mente – que ela percebeu que era tudo mais simples do que parecia ser. Pesquisou tudo que pôde sobre Liam Houston nos arquivos d'O Profeta, os quais Gina tinha lhe dado acesso. Ele era muito parecido com Rony: puro sangue, mas de família pobre. Tivera alguns desvios de comportamento durante a juventude, em Hogwarts, pequenos furtos como penas e livros da biblioteca. Isso tudo passava quase despercebido por todos. Era inteligente e, por isso mesmo, conseguiu passar nos testes práticos para se tornar auror. Foi quando conheceu Harry. Falhou na primeira parte do teste escrito. Harry, com pena, pediu que Gina o ajudasse a treinar suas dissertações. Foi quando ele se apaixonou por ela.

Liam tinha sido de grande ajuda durante os tempos da Guerra. Vigiara impecavelmente os bancos que guardavam as fortunas bruxas – e a maioria das famílias que as possuíam tinha passado para o lado de Voldemort. Alguns, como os Parkinson e os Zabini, conseguiram manter suas fortunas intactas por alegarem não estarem de nenhum lado mas, com o fim da guerra, faliram rapidamente. O único dinheiro que sumira dos bancos durante os turnos de Liam fora o dos Malfoy.

Mas Hermione entendia isso, talvez porque soubesse que Rony faria uma coisa semelhante se tivesse um pouco menos de amor. Ora, o que não poderia ser melhor que dinheiro para impressionar a pessoa que amava? Tanto que, depois que a grande quantia fora aplicada na conta de Liam, os boatos de que ele estava se encontrando com Gina começaram a surgir. Poderia ter dado certo, afinal.

Hermione não podia ter certeza de que Gina nunca traíra Harry. Ela dizia que era tudo mentira, mas os relatos eram inquestionáveis. Não foi uma única pessoa que vira eles juntos por aí, às vezes de mãos dadas, e não foi uma única vez em que o nome de ambos esteve listado em motéis.

Se Liam tinha roubado a fortuna de Malfoy, Hermione entendia muito bem o porque de Draco querer matá-lo. Os Malfoy podem ter sido uma das famílias mais tenebrosas do mundo bruxo, mas seu dinheiro era seu império. E Draco, como único herdeiro daquele trabalho de séculos, tinha direito de pôr as mãos nesse império antes dos outros. Era até de se admirar que o tivesse matado de forma tão rápida e limpa.

Ajustou os dedos dentro das luvas, respirando o cheiro de fumaça que já ia se perdendo com o frio do ar. Engraçado como o cheiro mentolado de Malfoy parecia acompanhar qualquer coisa que lembrasse ele, como se ele estivesse parado atrás dela.

Virou-se, observando o prédio. Franziu as sobrancelhas ao perceber um homem sentado sobre um cachecol na frente do portão, como um mendigo. O coração pareceu parar de bater de repente e ela sentiu uma tremenda falta de ar quando percebeu que era Malfoy. Os cabelos úmidos e revoltos, lábios secos e rachados, a barba rala e loira por suas bochechas coradas do frio, queixo e buço. Um montinho de cinco ou seis cigarros apagados na neve ao lado dele.

Ele tinha as pernas espaçadas e os joelhos dobrados. Os antebraços estavam apoiados nos joelhos. Segurava outro cigarro aceso, que já estava no final. As pontas dos dedos arroxeadas. Ele correu os olhos por todo seu corpo até chegar em seu rosto, demorando-se ali. Uma expressão delicada de surpresa tomou conta das feições dele. Hermione prendeu a respiração.

"Malfoy", ela disse, um pouco nervosa. Não sabia o que fazer. Não sabia se devia ir até ele, ajoelhar e cobrir suas mãos para que não acabassem congelando, ou se devia simplesmente como conseguira seu endereço "Meu Deus, o que você está fazendo aqui?!", foi o que saiu. Malfoy continuava paralisado, os olhos cinzentos estreitos perante a ela. Hermione estremeceu quando ele finalmente fez algo: apagou o cigarro junto aos outros e levantou-se com um pouco de dificuldade. O cachecol estava cheio de neve grudada na lã.

Ele mexeu o pescoço. Hermione ouviu o mesmo estalar. Ele deixou o cachecol no ombro e enfiou as mãos dentro dos bolsos. Ela escutou o som de moedas batendo umas nas outras. "Final...", ele começou. A voz saiu rouca e fraca. Provavelmente a garganta estava seca pela quantidade absurda de cigarros que tinha fumado. Pigarreou "Finalmente você apareceu. Achei que ia congelar aqui", ele disse. A voz estava mais forte, mas continuava rouca.

"Como assim?!", Hermione deu um passo para frente, aproximando-se um pouco. De tudo que estava esperando, encontrar Malfoy na porta de seu prédio era a última coisa que viria a sua mente. "Desde quando está aqui? Está uns três graus abaixo de zero! Você deve estar congelando!"

Ele sorriu. Passou a língua pelos lábios secos e pálidos. As costas ainda contra as barras negras do portão de ferro "Duas horas? Três?", mexeu os ombros num gesto indiferente. Hermione sentiu a mão suar dentro das luvas. Ele tossiu um pouco. Parecia doente e faminto "Ainda bem que cigarros existem, ou eu estaria congelado"

"Meu Deus", ela passou a mão pelo próprio pescoço, sentindo a lã da luva ao mesmo tempo macia e áspera contra sua pele "O que você quer? Você... Você precisa de dinheiro? Marris não te deu nenhum? Eu...", ela levou a mão à bolsa imediatamente, abrindo o zíper da mesma.

Ela sentiu um choque quando ele parou sua mão com a dele, pousando os dedos em seu pulso. Ergueu os olhos, encarando os dele. Piscou devagar algumas vezes. Ele fechou a mão em torno do seu pulso. Mas não a segurou com força como das outras vezes. Não tentou marcar sua pele com os dedos.

Hermione respirou fundo. Malfoy deixou a mão escorregar para baixo, até chegar na mão dela. O coração bateu forte quando sentiu ele entrelaçar os dedos nos seus.

"Não quero dinheiro. Só vim desejar feliz Natal", ele disse, então, depois de intermináveis segundos de silêncio. Os dedos escorregaram entre os dele e logo as mãos estavam separadas novamente. Ela não conseguia desviar os olhos dos dele. Estivera tão longe por todo esse tempo, que... Que sentia falta desse olhar. Sentia falta desse cheiro.

Ela entreabriu os lábios, soltando devagar o ar pela boca. Nuvens de vapor formaram-se de seu hálito. Malfoy esticou a mão. Fechou os olhos devagar quando sentiu a ponta gelada dos dedos dele tocar seu rosto. Estivera tão absorta no alívio que fora descobrir que ele tinha sido rápido e tinha tido um motivo plausível para matar Liam que quase se esquecia do mais importante: havia Rony também. Ele não estava ali, indo para a casa de Harry com ela, quem sabe com um bebê no colo, por causa do homem que tocava seu rosto naquele exato momento.

Mexeu um pouco a cabeça, afastando o rosto da mão dele. Os olhos abriram, as pálpebras descobrindo a íris castanha. Sentia a respiração pesada e alterada. Piscou algumas vezes, sentindo os olhos umedecerem. Sorriu de leve. Os lábios apenas se curvaram um pouco nos cantos. Não foi o maior sorriso que deu na vida, nem o mais feliz, mas foi verdadeiro.

"Feliz Natal, Malfoy".

Ele continuou sério. Mas Hermione entendia. Malfoy não era uma dessas pessoas que sorri sem uma base irônica para fazer isso. Apesar de tudo, apesar de ter feito tudo que fez, ele era uma das pessoas mais sinceras que conhecera. Não fingiria amor ou felicidade, pena ou culpa. Quando não sentia, não demonstrava. Era simples assim.

Ele levou uma mão até a nuca, num gesto quase de menino. O sorriso dela aumentou um pouco, mas os olhos ainda estavam úmidos. Precisava ir logo. Os presentes já deviam estar sob a árvore dos Potter e logo Harry ficaria preocupado em descobrir onde ela estava.

"Aonde está hospedado, Malfoy?", ela perguntou, ao ver que ele não conseguia falar nada. Ele escondeu novamente as mãos nos bolsos e olhou para o lado, para a padaria na esquina. As portas da mesma já estavam fechadas.

"No Caldeirão. Onde mais, não é mesmo? O velho Tom é o único que aceita um presidiário sem família", ele soltou um risinho pelo nariz. Hermione sentiu uma ponta de pena dele. Ele era mais sozinho que ela. Ela não tinha Rony, mas tinha os amigos, os pais. E por mais impenetrável que Malfoy fosse, ela sabia que 'saudade' não era uma coisa superficial. Era uma dor que se instalava nas últimas camadas da pele, entranhada em cada uma das fibras do corpo.

"Pelo menos lá a comida é boa", ela disse. Umedeceu os lábios, sentindo o gosto gorduroso do gloss na língua. Pensou em Rony, reclamando desse gosto. Será que Malfoy também não gostaria?

"Pelo menos", ele concordou com a cabeça. Continuou olhando para o lado, como se houvesse algo muito importante naquela padaria. Ou como se estivesse inseguro para olhar diretamente para ela "Vai para a casa de seus pais?", ele perguntou, de repente.

Hermione balançou a cabeça negativamente, acompanhando a fala "Vou para a casa de Harry esse ano".

"Entendi", ele disse, olhando para baixo agora, encarando os próprios sapatos "Entendi", repetiu. E Hermione faria qualquer coisa para entender o que estava se passando na mente dele naquele momento. Mas nunca tinha tentado Leglimência. Não seria agora, de repente, que conseguiria.

"E eu preciso ir. Eu te convidaria, mas..."

Malfoy riu, mostrando os dentes perfeitos, a cabeça ainda baixa. Hermione não pôde deixar de sentir uma onda de calor subir pelo corpo até o rosto. Era uma das únicas vezes que via ele rir assim, de verdade. E ele ficava perfeito. Simplesmente perfeito.

Ele passou a mão pelos olhos.

"Espero que você tenha uma boa festa, Granger", disse. Voltou a buscar a mão dela, abrindo seus dedos enluvados. Hermione viu ele depositar um isqueiro vermelho no centro da palma de sua mão "Tchau".

Malfoy atravessou a rua sem mais nenhuma palavra e seguiu pela calçada, indo na direção contrária da padaria. Hermione franziu as sobrancelhas, curiosa, observando o isqueiro em sua mão. Era um desses isqueiros baratos, que vinham em cartelas. Sempre em três cores. Azul, verde e vermelho. Corvinal, Sonserina e Grifinória.

Uma das lágrimas que umedecia os olhos desde que ele tocara seu rosto caiu.

X—

And I hate when you say
that I never fight for you.

Entrou no quarto e, imediatamente, olhou-se no espelho. Os cabelos escorriam ruivos pelos ombros sardentos. A tatuagem de estrela no pulso, a aliança de noivado no anelar direito, olhos castanhos de cílios longos.

Tirou as vestes, observando o próprio corpo, mais esguio do que o normal. Havia algumas marcas dos dedos dele, principalmente nos quadris e seios, onde ele apertara com mais força. Era bom preservar essas marcas.

Foi até a cama, pegando a bolsa. O ouro estava todo na conta de Liam. Quando ele morresse, seria ainda mais fácil de controlar as coisas. Se Narcisa soubesse aquele dinheiro nunca chegaria nas mãos de Draco, que eles não fugiriam nem ficariam juntos, provavelmente a mataria.

Era incrível como ainda vendiam besteiras Hogsmeade, mesmo com a guerra acontecendo, mesmo com Voldemort tomando o ministério. E o pior: incrível como as lojas continuavam funcionando no horário normal. A Zonko's já não existia mais, mas a franquia das Gemialidades Weasley ainda funcionava. Mesmo com a morte de um dos gêmeos – quem tomara as rédeas da loja ao lado de Fred fora Percy, por mais incrível que isso parecesse – ainda havia alguns fregueses que mantinham a loja aberta e davam um pouco de dinheiro aos membros restantes da família Weasley. Pouquíssimo dinheiro, é claro.

Alguns artigos eram até úteis, como o pó escurecedor instantâneo do Peru, que o próprio Draco já tinha utilizado no sexto ano, ou até mesmo balas que forjavam uma morte perfeita por vinte e quatro horas. Outros eram desnecessários: mini-pufes, e etc. Mas ela não comprara nada do estilo. Tinha pacotes de docinhos que faziam cortes e hematomas aparecerem pelo corpo.

Abriu todos os pacotes e comeu os doces. Eram gostosos. As embalagens diziam que, acompanhados de um copo de água, os efeitos eram mais rápidos – 'roxos e arranhões que duram dias em menos de dois minutos!'.

Soltou um risinho pelo nariz. Poderia haver algo mais idiota? Caminhou nua até a geladeira pequena do quarto de hotel. Pegou uma das garrafinhas de água e abriu-a, bebendo seu conteúdo rapidamente. Não percebera como estava com sede até esse momento.

Tirou a aliança do dedo e abandonou-a ao lado da garrafinha vazia. Esperou alguns minutos e depois caminhou até o espelho, observando. Manchas roxas enormes apareceram em seu abdômen, na parte interna de sua coxa, em seus seios, pescoço e em volta de seu olho. Arranhões em sua bochecha esquerda, joelhos, cotovelos e pulsos. Sorriu. Agora era só esperar o efeito da poção passar e procurar por Draco no Caldeirão.

X—

Sometimes you breathe
all over my scar.

Gui, Fred, Percy, Gina e Arthur. A família Weasley inteira reunida ali, naquela sala. A cada Natal seus cabelos flamejantes pareciam menos vivos.

O Sr. Weasley conversava com o filho mais velho, um copo de vinho na mão, um sorriso no rosto. Mas Hermione tinha a impressão de que seus sorrisos nunca mais seriam verdadeiros, não depois de perder seus filhos e sua esposa. E que toda a felicidade que tentava esbanjar ao passar o Natal na casa de Harry era falsa.

Os outros quatro pareciam bem. Todos tinham suas famílias. Gui e Fleur tinham dois filhos, Percy e Penélope, três. Já Fred e Angelina tinham apenas um, a quem chamaram de Jorge. A única sem filhos era Gina, mas já avisara o pai e os irmãos que ela e Harry estavam "encomendando" um. Hermione sorriu junto com os outros, bateu palmas e tudo mais, quando a cunhada disse isso. Mas não deixou de imaginar como seria triste ver o filho deles e saber que nunca teria um.

As crianças corriam pela casa. Havia outras pessoas ali também. Neville e sua esposa, que estava grávida de cinco meses. Dino Thomas com uma noiva que era trouxa e estava maravilhada com todas as coisas que a mágica podia fazer. Simas Finnegan e seus dois filhos loiros (ele era divorciado). E mais uma infinidade de pessoas que se reuniam quase todos os anos ali, na casa de Harry, na noite de Natal.

Luna Lovegood estava internada no St. Mungus desde o fim da guerra. Ninguém sabia o motivo exato, mas estivera bem perturbada – muito mais do que o normal – depois que a guerra acabou. Machucava-se sozinha e dizia coisas sem sentido. Neville costumava visitá-la também, quando ia ver os pais.

Há mais de uma hora, Hermione estava encostada no parapeito da janela. Estava nevando lá fora. Em vinte minutos seria meia-noite e, então, ela deveria se juntar aos outros para abrirem os presentes, entregá-los, receber alguns. Sorriria, fingiria que estava feliz, fingiria que não era a única pessoa naquela casa que não era solitária e triste. Seria conveniente e simpática. Seria a Hermione de sempre.

O gás do isqueiro vermelho ia acabar logo, pois ela não parava de acendê-lo e apagá-lo, sucessivamente. E ninguém se aproximara para perguntar por que estava com um isqueiro na mão, se estava fumando, ou até mesmo "o que é isso? Um deluminador?". Ninguém percebera que estava quieta, no mesmo lugar, há tanto tempo. Nem mesmo Harry, que no momento ensinava as crianças como montar nas vassourinhas de brinquedo que elas tinham levado.

Respirou fundo, encostando a testa no vidro da janela. Acendeu e apagou o isqueiro mais uma vez. Ela sabia que não pertencia mais àquele mundo. Que não pertencia mais à vida daquelas pessoas. Amava-os, é claro, e muito. Queria o bem de todos eles. Mas não podia mais simplesmente passar Natais felizes ao seu lado. Tinham tão pouco em comum. Tirando o Sr. Weasley, ela tinha certeza que ninguém ali se sentira como ela se sentia naquele momento: sozinha e perdida.

E o mais, o mais doloroso, era aceitar que a pessoa que a deixara daquele jeito era o único que poderia compreender o que ela estava vivendo. Malfoy. Sozinho e perdido, assim como ela.

Soltou o ar pela boca, o hálito quente embaçando o vidro. Umedeceu os lábios e levantou-se, atravessando rapidamente a sala, até o hall de entrada da casa. Não podia ficar ali mais nenhum segundo. Não podia mais fingir que aquele isqueiro não significava nada, que encontrá-lo do lado de fora de seu prédio, congelado, esperando-lhe há mais de duas horas não significava nada, que tudo que tinham passado juntos era apenas uma loucura. Era uma loucura. Mas não parecia haver nada mais correto do que aquilo, naquele momento.

O sobretudo e a bolsa estavam pendurados no cabideiro próximo à porta. Colocou-os, guardando o isqueiro no bolso. O barulho de seus saltos ecoando no assoalho de madeira foi rápido quando ela caminhou em passos rápidos até Harry, interrompendo a brincadeira das crianças.

"Preciso ir embora", ela disse, de repente, fechando o sobretudo com um laço em volta da cintura. Harry piscou, os olhos verdes confusos embaixo da lente dos óculos. Ela não deu tempo para que ele perguntasse por quê. "Marris me ligou, é urgente"

"Mas é Natal! Você não pode trabalhar no Natal!", ele disse. As crianças prestavam atenção na conversa de ambos, olhando-os de baixo para cima, como se fossem gigantes. Hermione balançou a cabeça negativamente e segurou na mão de Harry, acariciando as costas da mesma com o polegar.

"Eu preciso fazer isso, Harry", ela disse, olhando-o nos olhos. E teve certeza que Harry entendeu alguma possível mensagem nas entrelinhas. Talvez achasse que era doloroso demais para ela ficar ali, sem Rony. Talvez estivesse certo. "Dê um beijo em todos por mim. Eu te amo".

Harry parecia um pouco chateado, mas sorriu quando ela lhe deu um beijo no rosto e um abraço rápido. Sentiu-o apertar sua mão com um pouco de força.

"Eu também, Mione."

X—

And you always end up
closer than close.

Meia-noite e dezessete. Era o que o antigo relógio de cuco pendurado na parede mostrava. Draco deu mais um gole na garrafa de cerveja amanteigada que comprara no bar embaixo da hospedaria, utilizando os últimos sicles que Marris lhe dera. Feliz Natal, mundo.

O Caldeirão Furado não estava lotado, mas também não estava vazio. Ele tinha a impressão de que aquele era o tipo de lugar que nunca ficava vazio, não importava a data ou hora. Nunca gostara muito dali – concentrava todo tipo de gente – mas tinha que admitir que o velho barman Tom tinha história para contar. Todos já tinham passado pelo Caldeirão alguma vez na vida.

Draco fizera maior uso do estabelecimento durante a guerra, quando Londres (e, conseqüentemente, o Beco Diagonal) estavam sob o controle do Lord das Trevas. Aqueles quartos tinham tomado condição de motel para os comensais. Mulheres diferentes, às vezes duas ao mesmo tempo, a maioria interessada por dinheiro e poder.

Aquele era um bom tempo. Um tempo em que nada no mundo poderia afetá-los, simplesmente porque eram donos do mundo. Podiam passar o dia inteiro com uma mulher em uma cama, acariciando sua pele macia e desmanchando seus cabelos em shampoo barato, prometendo qualquer coisa que quisessem prometer e, assim que a noite caísse, colocavam suas máscaras e capas e matavam quem estivesse em seu caminho. Podiam passar madrugadas recolhendo corpos e jogando-os em valas comuns, ou no Tâmisa, ou no lixo, e voltar para as camas de suas amantes logo pela manhã. Elas respirariam o cheiro da morte e se sentiriam enojadas – algumas, veja bem, excitadas – mas se você pagasse mais um nuque, tirariam aquele cheiro de sua pele com a língua.

Foi num quarto semelhante a esse que Draco estava quando Parkinson chegou, seu corpo esguio e branco manchado de violência – roxos, arranhões – e acolheu-se em seus braços para chorar, os cabelos negros úmidos e bagunçados. Foi quando ela disse, entre soluços, que Liam Houston, o auror, a estuprara quando a encontrou na Escócia, quando ela tentava abrir o cofre de seu pai e tirar um pouco de dinheiro. Um de seus principais assassinatos tinha sido totalmente planejado ali, no Caldeirão.

Mas agora os tempos eram outros, e não era mais essa a sua vida. Meia-noite e dezoito de um dia de Natal, beber cerveja amanteigada barata, encostar-se no parapeito de uma janela e observar a neve cair nas ruas tortas do Beco Diagonal, seu inconsciente e consciente mergulhado no perfume doce de uma sangue-ruim. Essa era sua nova vida.

O que poderia fazer? Poderia acender outro cigarro, meter a cara para fora da janela e fumar até que seus ossos estivessem divididos entre congelar-se e curtir a nicotina. Ou então poderia descer, sentar-se ao lado das pessoas que estavam vivendo seu Natal com Tom, o barman, jogar xadrez bruxo e ouvir piadas sem graça. Ainda melhor: poderia aparecer na festa de Natal de Potter e arrancar sua doutora de lá de dentro.

Sua doutora.

Draco abriu outra cerveja. Ainda havia três em cima da escrivaninha. Bebeu um gole, sentindo o líquido esquentar seu corpo todo conforme ia se instalando em seu estômago, misturando-se à vodka que bebera com Cormac mais cedo. Não comera nada e, provavelmente, ficaria tonto. Mas não achava que isso seria uma coisa ruim.

Voltou ao parapeito da janela. Havia duas moças lá fora, andando em passos iguais e rindo alto. Usavam chapéus idênticos, mas luvas de cores diferentes. Pareciam meio bêbadas – de álcool ou de felicidade. Uma delas abriu a boca para pegar flocos de neve com a língua. A outra lançou a cabeça para trás, tentando fazer o mesmo, e deixou o chapéu cair. Tinha cabelos longos e dourados.

Draco soltou um risinho pelo nariz, imaginando porque tinha usado seus sicles em cerveja e não em mulheres. A resposta veio rápido, como se sua consciência estivesse de prontidão para murmurar em seu ouvido que ele não precisava pagar para ter uma mulher. Se quisesse mesmo, era só descer até aquela rua e falar com as moças. Traria as duas para o quarto.

A moça loira deitou-se no chão, os cabelos espalhando-se na neve, e começou a rir descontroladamente. A outra tirou o chapéu e sentou-se ao lado da amiga. Também era loira, mas os cabelos eram curtos e claros. Draco começou a achar aquilo interessante. Não tinha nada a perder, não é mesmo? Poderia descer lá e perguntar se elas não queriam companhia – era perigoso, afinal das contas, duas moças bonitas ficarem em uma rua vazia de madrugada.

Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu batidas na porta. Olhou no relógio: meia-noite e vinte e dois. Quem diabos queria caixinha de Natal uma hora dessas? Balançou a cabeça numa espécie de reprovação, dando uma última espiada nas loiras lá embaixo e foi até a porta, abrindo-a.

A garrafa quase escorregou de seus dedos.

X—

That's when I give in.

O coração de Hermione batia rápido e suas mãos estavam quentes e suadas. Tirou as luvas rapidamente, respirando fundo. Hesitou antes de realmente bater na porta. Mais de uma vez saiu de lá e voltou para a escada, a pele elétrica, o pescoço dando choques, para novamente ir até o quarto e ensaiar bater na porta.

Ao sair da casa de Harry, teve certeza absoluta de que iria para lá. Quando tentou aparatar, porém, foi incapaz de visualizar o Caldeirão. Suas mãos estavam trêmulas quando empunharam a varinha, e ela provavelmente deixaria um braço para trás se tentasse aparatar novamente. Havia duas opções: voltar para a casa de Harry, ou ir andando.

Enquanto caminhava, pensou muito na primeira opção. Era a mais lógica, a mais racional. Voltaria lá, falaria para o amigo que Marris tinha resolvido o problema sozinho, e ajudaria Gina com a louça depois que a festa acabasse. Como tinha feito todos os anos.

Quando percebeu, já estava perguntando ao barman em qual quarto Draco Malfoy estava hospedado. Muito bem, Hermione, muito bem. Uma bela maneira de mostrar que você realmente tem o controle dessa situação.

Merda, odiava tanto Malfoy por tê-la transformado em uma pessoa sarcástica. Odiava tanto que agora estava ali, na frente de seu quarto, imaginando se devia ou não bater em sua porta.

Não pensou em Rony. Pensar em Rony só complicaria as coisas. E não era como se ela estivesse pensando em Rony o tempo todo, não é mesmo? Hermione achava que, logo da primeira vez, se Malfoy não tivesse parado, não seria ela quem ia parar. Ia morrer de culpa e se martirizar, depois, mas não pararia. Não na nem um pouco sã consciência que estava comandando sua mente nos últimos tempos.

Bateu duas vezes na porta, sem força. Se ele não viesse abrir em um minuto, não bateria de novo. Seria uma espécie de luz divina que a mostraria o caminho certo a se seguir. Hermione passou o dedo do meio sobre o indicador e torceu silenciosamente para que ele não tivesse escutado aquelas batidas.

Mesmo assim, sentiu um alívio espetacular quando a maçaneta girou e ele abriu a porta, uma garrafa de cerveja na mão direita, os olhos prateados abertos em espanto.

Ele usava uma camisa fina e branca, cujos primeiros botões estavam abertos, deixando parte da pele de seu peito à mostra. A mesma calça negra de antes e – surpreendentemente – apenas meias nos pés. Seus cabelos estavam secos e revoltos, um redemoinho de pérola sobre uma estátua de mármore. Esculpido por Michelangelo ou algum renascentista genial.

Ele piscou algumas vezes, entreabrindo os lábios sempre secos e pálidos. Hermione amassou o bolinho de lã que as luvas formavam entre suas mãos, mordendo a parte interna da bochecha.

"Posso entrar?", ela perguntou, a voz baixa, indagando internamente de onde a coragem de falar tinha vindo. Malfoy ficou estático por alguns segundos, ainda observando-a como se ela fosse uma mentira, e então deu espaço com o corpo para que ela passasse. Hermione entrou. O quarto estava com uma temperatura morna por causa do feitiço de calefação. As roupas dele estavam jogadas em cima da cama, e cada fibra de tecido (lençóis, cortinas, toalhas) impregnada pelo cheiro do cigarro misturado ao cheiro ardido de formol e hortelã que vinha diretamente da pele dele.

Ouviu Malfoy fechar a porta atrás dela, enquanto olhava em volta. Sentiu que seus olhos estavam presos em sua nuca, como se tentassem penetrar sua pele, carne, ossos, e chegar em algum lugar que ela mesma não conhecia. Desenlaçou o sobretudo – estava quente demais ali dentro para permanecer tão agasalhada.

Ele respirava ruidosamente, e esse som era uma forma de medir o nervosismo em que ele também estava mergulhado: poderia saber se sua respiração compassasse ou acelerasse. Não estava no controle – disso tinha cada vez mais certeza – mas pelo menos, não deixaria que ele estivesse completamente.

Mas tudo isso pareceu bem inútil quando ela sentiu ele encaixar ambas as mãos em seus ombros, deslizando-as para baixo e puxando junto o casaco aberto até tirá-lo. O pescoço de Hermione voltou a dar choques, e ela teve certeza que o que roçara sua nuca fora a ponta dos cabelos dele.

"A festa de Potter estava tão ruim assim?", ele perguntou, aparecendo em sua frente segundos depois, pendurando o casaco dela na cadeira. Hermione passou a mão pelo próprio braço, sentindo-o arrepiado (mas não era por causa do frio). Sorriu de leve, evitando encará-lo.

"É mais ou menos a mesma coisa todos os anos"

Malfoy apoiou a própria garrafa de cerveja na escrivaninha, pegando uma fechada e tirando a tampa sem nenhum tipo de abridor. Homens gostavam de fazer isso, na maioria das vezes, mesmo que machucassem os dedos com o metal da tampa. Parecia realmente masculino.

Ele estendeu a garrafa recém-aberta para ela. Hermione observou-o encostar o quadril na escrivaninha, voltando a pegar a própria cerveja e bebendo-a. Deu um gole também. Há anos não bebia cerveja amanteigada.

O líquido esquentou seu corpo imediatamente e ela sentiu o rosto afoguear. As mangas da camisa de Malfoy estavam dobradas até o antebraço, deixando à mostra sua marca negra. Hermione desviou os olhos, bebendo mais um pouco, sentindo os olhos dele presos em seu rosto.

"E aquele seu gato? Quem fica com ele no Natal?", ele perguntou, de repente. Hermione franziu as sobrancelhas, voltando a olhá-lo, porque em um milhão de anos não pensaria que Malfoy lembraria da existência de Bichento.

"Bichento morreu há alguns anos", ela disse, a boca da garrafa próxima aos lábios. Bichento morrera antes de Rony. Poderia completar a frase com isso, mas seria algo ridículo, totalmente fora de questão.

"Entendi", Malfoy disse, apoiando a cerveja na mesa novamente e indo até a janela. Hermione viu que ele ficou um tempo observando algo do lado de fora. O maço de cigarros e o isqueiro verde estavam apoiados no parapeito da janela. Ele provavelmente estava sentado ali, antes de ela aparecer. Quando percebeu, estava dilacerando a ponta da língua com os dentes. O repentino gosto de sangue dentro da boca comprovava isso.

"Você jantou?", ela perguntou, apoiando as costas na parede, sem saber direito o que fazer, já que Malfoy estava completamente calado e interessado no que estava acontecendo no Beco Diagonal.

Ele fez que não com a cabeça "E você?"

"Também não", ela bebeu mais um pouco de cerveja, sentindo a ponta da língua arder um pouco por causa do corte. Ele umedeceu os lábios, fechando o vidro da janela.

"Está nevando bastante", ele comentou. Os sons do mundo lá fora pareciam mais distantes agora, com os vidros fechados. Um cachorro latindo em algum lugar, um bebê chorando com fome, os carros passando na parte da frente do Caldeirão.

Hermione ficou no mesmo lugar, sem nenhuma vontade de aproximar-se dele para ver a neve "Quem diria". Afinal, a Inglaterra era um país em que mais chovia do que nevava.

Ele balançou os ombros, fechando também as cortinas. O quarto ficou mais escuro, fracamente iluminado pelas velas em candelabros ao lado da porta.

Hermione mordeu o lábio inferior quando ele a encarou, os olhos esverdeados por causa da luz amarelada, estreitos feitos os de um gato. Desceu o olhar para o chão, observando as próprias botas.

"Você sabe que só vai sair daqui pela manhã, não sabe?", ele perguntou, de repente. Ela fechou os olhos, sentindo os joelhos fraquejarem. Toda a adrenalina que corria por suas veias pedia, urgia para que ela saísse correndo enquanto ainda era tempo.

Apoiou a garrafa em um móvel próximo e concordou com a cabeça.

Não percebeu quando ele preencheu a distância entre eles em poucos passos. Ele estava descalço, merda. Só abriu os olhos quando ele segurou seu rosto com força com uma das mãos, erguendo-o para que ela pudesse encará-lo.

"Responda", ele mandou.

Hermione sentiu as bochechas pressionadas pelos dedos dele. Era uma boneca, no momento. Uma boneca com a qual ele brincaria suavemente. E o pior: ela permitiria. Como se realmente fosse feita de pano.

"Eu sei", ela disse lentamente, os olhos fixos nos dele.

Houve um momento em que o silêncio entre eles foi tão grande que suas respirações tornaram-se quase palpáveis. Mas em questão de segundos Malfoy avançou a boca na sua com tanta força que seus dentes se chocaram. Ela sentiu que ele prendeu seu corpo contra a parede, enfiando a língua dentro de sua boca, beijando-a com desespero.

Ela correspondeu ao beijo com a mesma intensidade. O cheiro dele era uma mistura única de suor, fumaça, inverno, menta, pele, e quando ela segurou seus cabelos esse cheiro invadiu suas narinas e ferveu seu sangue. O cheiro dele estava em todos os lugares daquele quarto – mas assim, tão próximo, era tão bom que chegava a doer.

Ele deslizou as mãos para baixo, segurando na parte de trás de suas coxas, e sustentou todo o seu peso nos braços, segurando-a no colo. Ela abraçou a cintura dele com as pernas, enroscando os fios finos de seu cabelo nos dedos, a língua dele explorando sua boca como se não houvesse nada mais importante que isso naquele mundo.

Hermione sentiu as costas baterem na cama e quando a boca dele separou-se da dela, viajando para baixo, pelo seu pescoço, as mãos buscaram os botões da camisa dele com uma pressa descomunal, abrindo-os de qualquer jeito. Malfoy se afastou, respirando rápido, para tirar a camisa pelos ombros.

Ela deixou os olhos deitarem em seu peitoral e abdômen, as mãos pequenas deslizando pelos mesmos, sentindo os músculos ondularem sob a pele branca e final. Tocá-lo era como tocar papel. Ele tinha os olhos entreabertos, e respirava pela boca, atordoado, como se não soubesse, por um segundo, o que fazer.

Malfoy deslizou as mãos por seu corpo, passando pela curva dos seios, cintura e quadril, chegando nas coxas. Hermione mordeu os lábios quando ele abaixou o rosto para beijar-lhe novamente o pescoço e os ombros, deixando traços gelados de saliva por onde sua boca passava.

Seu rosto seguiu o caminho por entre seus seios. Ela sentiu que ele respirava pelas fibras de tecido do vestido quando seu rosto chegou na altura de sua barriga. Ele a mordeu, puxando o pano com os dentes, mas sem atingir a pele. Hermione abriu as pernas ligeiramente para acomodar o corpo dele entre elas.

Uma das mãos de Malfoy desceu por sua coxa até encontrar-se com o zíper de sua bota. Percebeu que ele estava de olhos fechados, o rosto encostado em sua barriga, respirando-a como se precisasse disso para viver. O coração bateu rápido, bombeando sangue morno para todos os seus vasos sangüíneos. Ele ergueu o corpo, ficando de joelhos entre suas pernas, se afastando para tirar as botas dela.

Ele agarrou suas coxas com ambas as mãos, observando o meio de suas pernas entreabertas. Hermione sentiu o rosto esquentar ao ver a expressão que as feições dele tomaram.

Ele sorriu com o canto da boca, abaixando o rosto. Deixou os lábios roçarem pela extensão de sua perna direita, passando pela panturrilha, joelho e subindo pela parte interna da coxa. Ergueu um pouco a saia soltinha de seu vestido preto, sugando a pele perto de sua virilha. Hermione segurou forte nos lençóis da cama, deixando os olhos bem fechados.

Malfoy apoiou uma das mãos entre suas pernas, alguns dedos fazendo movimentos circulares por cima do tecido fino de sua calcinha.

Ela soltou um gemido leve. Sentiu o sorriso dele contra sua pele. Riu um pouco, nervosa e envergonhada. Ele continuou tocando-a enquanto subia o rosto até deixá-lo na altura do seu, novamente beijando-lhe a boca de leve.

Hermione abriu os olhos ao sentir os cabelos dele roçarem sua testa. Encarou-o, apoiando uma mão no centro de seu peito, acompanhando o mesmo subir e descer enquanto ele respirava. Ele mordeu seu lábio inferior de leve, puxando-o entre os dentes, os olhos ainda abertos.

"Como eu te tiro dessa roupa?", ele perguntou de repente, a voz rouca e enfraquecida, enquanto as mãos buscavam alguma coisa no vestido que pudesse abri-lo. Hermione sorriu, abraçando-o pelo pescoço e forçando o corpo para cima, para poder sentar-se em seu colo.

Malfoy joelhou-se na cama, trazendo-a para perto pela cintura, seus quadris se encaixando quando ela se sentou. Levou as mãos até a nuca, um sorriso leve no rosto, soltando a parte do vestido que prendia ali.

Ele umedeceu os lábios quando encontrou o zíper nas costas do vestido, descendo-o devagar até abri-lo completamente. Hermione sentiu um arrepio subir por seu corpo quando a ponta dos dedos dele tocou a pele nua de suas costas, descendo pelo caminho de sua espinha dorsal.

Ela beijou-lhe o ombro devagar, sentindo a textura de sua pele com os lábios. Malfoy respirou fundo, deitando-se sobre ela novamente, puxando o vestido para baixo, para fora de seu corpo.

Ele massageou seus seios por cima do sutiã, voltando a beijá-la na boca.

Seus sentidos iam entrar em colapso. Não conseguiria sentir mais nenhum cheiro que não fosse o dele, não conseguiria deslizar os dedos por nenhuma outra pele. Não conseguiria olhar para olhos de outra cor ou ouvir a respiração de outro homem. E, principalmente, não conseguiria sentir outro gosto dançar por sua língua com tanta perfeição.

Malfoy ergueu suas costas, buscando o fecho de seu sutiã nelas. Hermione apoiou os cotovelos na cama, a boca se separando da dele com o movimento. Roçou os lábios úmidos em seu pescoço, seguindo a linha do mesmo até atingir o osso atrás de sua orelha.

Ele soltou o ar pela boca quando os dentes dela arranharam sua pele, ali.

"Draco", ela disse, baixinho. E dizer seu nome assim, tão de perto, foi como tomar um banho após um exercício físico intenso: delicioso "Você não vai parar dessa vez, não é?"

"Não"

A voz dele explodiu em seu ouvido, confundindo-se com um sussurro doce. Hermione voltou a buscar a boca dele com a sua, enquanto ele tirava de seus cabelos os grampos que os prendiam em um coque. Sentiu a maciez dos cachos esparramar-se pelos ombros. Seria insuportável se ele parasse hoje. Seria insuportável ter que fugir novamente.

Não queria pensar em como se sentiria quando acordasse pela manhã e percebesse que a pele branca do braço em volta de seu corpo não estava salpicada por sardas.

And you're taking,
and you're taking,
and you're taking me down…

And you, you always end up
much closer than close.
That's when I give in.

X—

Continua.


Música: Insane – Damien Rice (quem não conhece Damien Rice, conheça, por favor!)

Devo falar?
Devo me preocupar em apertar as mãos?
Sou fraco se deixar tudo como está?
Eu submergi
E emergi com a culpa.
Acho que não sou bom.
Acho que sou louco.

Devo ir se ela chamar meu nome?
E se ela sangrar, devo limpar a mancha?
E se eu estiver triste
Posso me afogar nesta chuva?
Isso não é bom.
Isso é loucura.

E eu odeio quando você diz
Que eu nunca luto por você.
Às vezes você respira sobre minha cicatriz.
E você sempre acaba
Mais perto que o 'perto'.
É aí que eu cedo.

E você está me levando para baixo...
E você sempre, sempre acaba
Muito mais perto que 'perto'
É aí que eu cedo.

Papier Maché papel maché, em francês. Por causa de outra música do Damien (I Remember), por causa do Natal e principalmente por ser algo tão belo e tão frágil.

Nota: meu Deus, tive ódio desse capítulo! Ele não terminava! Juro para vocês que nas últimas semanas eu escrevi todos os dias, bastante, e não terminava! ¬¬ Ai, ai. Mas tirando isso, eu gostei x) Ficou como eu queria que ficasse. Eu poderia ter ido mais além e descrito a primeira vez deles, mas ah, deixo isso para a imaginação de vocês ;) Bem mais interessante. Mas quem sabe eu me estendo qualquer dia e faço uma parte extra com essa cena, né?

Acho que além de ter sido decisivamente D/Hr, esse capítulo explicou bastante coisa, e confundiu algumas outras coisas xD Mas estamos no caminho certo.

Não vou prometer o capítulo para semana que vem, mas espero que demore no máximo o mesmo tempo que demorei para postar esse! E não fiquem mal acostumados porque esse capítulo foi bem maior do que o normal hahaha (teve 27 páginas. Normalmente os capítulos têm de 10 a 15 haha).

Vocês são absurdamente lindos:
Mari (odiei mais que o capítulo :) haha muito amor pra você também); Maia (Draco, Cormac, e eu no meio x); Aryana (já arranjei uma beta xD espero que goste desse cap. também); Matt (meu stalker preferido haha comparar o Draco ao Sawyer é uma grande, grande honra); Vivi Andrômeda (que review linda! Obrigada pelos elogios. Eu pretendo escrever um livro um dia, daqui a um tempo haha mas definitivamente, a história vai ser outra x); Ju (Que linda, você se emocionando Tava com saudades); Licca (se é perturbadora, missão cumprida xD brigada, licca); Nini (mudei seu conceito de R/Hr? Minha nossa! Haha e que bom que você está gostando tanto, apareça mais vezes por aqui!); Vickê (é, xará, eu quero o Draco também haha); Claudia (Hermione? Louca? Hahaha imagina, só um pouco! Haha obrigada); Fla (eu leio uma fic sua! xD que honra ter você aqui no meu humilde lar. Nem demorei tanto dessa vez, hein? Thanks); Isadora (volta pra mim haha); teen-girl (em setembro vou conhecer sua terra:D e não se desculpe de novo pelo seu jeito de falar, pelo amor de Deus! xD tadinho do Ron u.u mas enfim, obrigada! Continue por aqui!); Monalisa (não recebi seu e-mail! Postei no F&B. Achei tão complicado! u.u Mas o primeiro capítulo já está lá haha. Brigada!); Nina (o que seria de HP se não fossem as fics, né? Haha thanks pelos elogios, espero que goste desse); Isa Tinkerbell (não vou parar enquanto receber reviews lindas como essa xD); Estrela Vespertina (já te achei haha vou ler sua fic logo! Você é uma fofa! ); Doninha (aai, você chorou: que linda! Bom.. esse aqui foi maior que os outros haha. Compensei! Brigada); Li (Schwester, du bist ein schöner Stern in meiner Himmel. Liebe dich, immer. Danke für alles).

Mandinha, a beta: linda, obrigada pelo excelente trabalho! E sabe que qualquer força com a sua fic que precisar, é só me chamar, okay? Beijos!

E pra quem perguntou: passei em Relações Internacionais na PUC-SP! Lindo! Agora tenho que ler um livro por semana! Haha xD mas to amando.

Sem reviews, sem atualização! o/