Capítulo Dois: Aos olhos dele

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You're waiting for someone to put you together. You're waiting for someone to push you away.

(Você está esperando por alguém que lhe conserte. Você está esperando por alguém que lhe rejeite.)

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Havia pétalas despedaçadas dançando no ar. O sol não brilhava e as crianças brincavam de roda, sorrindo, mas não havia sorriso em seus lábios.

O vento carregava para longe as flores, arrancando-as com violência da terra.

Tenten estava em frente ao lago, observando-lhe a imensidão. Não havia chuva, mas havia raios. Eles coloriam o céu nublado, sem, no entanto, misturarem-se ao vento. Alguém gritou o seu nome por entre o barulho. Um corpo emergiu da água. Era Neji.

"Tenten." Disse ele e ela acordou.

Não havia ninguém no quarto. O vento balançava as cortinas.

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A mansão dos Hyuuga estava silenciosa e escura, como também estivera em todas as outras recordações que guardava dali. O piso de madeira, lustroso, rangia a cada passo.

Neji, embora não gostasse do ruído, não diminuiu a velocidade do caminhar.

O chefe do clã, Hiashi, exigira a sua presença ainda naquela manhã, fazendo-o abandonar Tenten e sua cama mais cedo do que normalmente tencionaria. O sol não havia nascido, pois eram apenas seis horas.

O cheiro do sabonete da morena estava em seu corpo, porém, Neji não gostava do perfume. Dissera várias vezes à ela para que comprasse produtos não-aromatizados, mas Tenten simplesmente perdia a solicitação em sua mente, forçando-o a ensaboar-se e tirar o aroma dela do seu corpo, após fazerem sexo, para substituí-lo por outro, que era ainda pior.

Ao abandoná-la naquela noite, ouvira seus murmúrios ininteligíveis. Há muitas noites ela não dormia tranqüila em seus braços e Neji não fazia idéia do porquê. Ademais, pensava consigo, não fazia realmente diferença.

Desde que deixaram de ser oficialmente um time, a via apenas durante as madrugadas, onde procurava nela seu calor e seus lábios. Ele já tivera diversas mulheres ao longo daqueles anos, porém, nenhuma delas o satisfaziam. Tenten, talvez por conhecê-lo, sabia como ele gostava que se encaminhassem os fatos: silenciosamente.

As outras, quebráveis, consideravam seus beijos contratos.

Sem exigências, pedidos ou lágrimas, Tenten tornara-se então a única mulher com quem se relacionava. E ele também a considerava exclusivamente sua, de modo a, mesmo sem oficializar um relacionamento, afastar os prováveis concorrentes.

No silêncio dos beijos e dos abraços que nada pediam, ele encontrava uma tristeza incompreensível. À todas as manhãs, quando se ia, ela permanecia postada sobre a cama, a nudez a chamá-lo de volta, e seus olhos não mais sorriam como sorriram nas primeiras noites.

Ao alcançar a porta ao fim do corredor, deu leve batidas sobre ela. "Pode entrar, Neji." Ouviu.

Hiashi o esperava, voltado para a janela já aberta, presenciando os primeiros e pequeninos raios de sol a fulgurarem no horizonte antes sombrio. "Pontual como sempre." Havia um leve sorriso na face velha dele ao encará-lo.

"O senhor queria falar comigo." A impassibilidade na voz de Neji fez com que o homem se voltasse completamente para o outro, os braços postados atrás das costas, na posição rígida com que ele o vira tantas vezes criticar ambas as filhas por suas fraquezas, mas jamais a ele por sua genialidade.

A cabeça de Hiashi se moveu, lentamente. "Hanabi vai se casar daqui a algumas semanas." Falou.

Desde que Hinata começara a se relacionar com Naruto, por mais que ele fosse um grande ninja, Hiashi renegara a futura herdeira da família, passando o título para a caçula, Hanabi, a quem manipulava como a uma boneca de pano. "Eu escolhi os Inuzuka, você já deve saber, o garoto, Kiba." disse, prova do seu poder persuasivo.

"Sim, senhor." Disse Neji.

"Aceita uma bebida, Neji?" indagou ele, ao caminhar até o pequeno bar no cômodo do escritório, servindo a ambos de uma dose de saquê. Sem, no entanto, esperar que o sobrinho aceitasse, ele enfiou-lhe o copo nas mãos, antes de saborear um gole.

Embora Neji achasse muito cedo para ingerir alcóolicos, agradeceu. "Obrigada, senhor." Falou, apenas por praxe, sem levar a bebida aos lábios.

Os olhos brancos de Hiashi não o observavam quando o velho sentou-se em uma poltrona. "Você sabe que eu acho a minha única filha fraca e inútil demais, apesar de todo o treinamento." Disse, como se estivesse amargurado diante dos fatos.

"Sim, senhor."

"Não pretendo deixar a um estranho o controle da nossa família, embora o rapaz seja de um bom clã. Quando você vai se casar, filho?" perguntou ele subitamente.

Neji não se viu pego de surpresa por aquela pergunta, como Hiashi talvez esperasse encontrá-lo. O outro apenas moveu sua cabeça num gesto que demonstrava claramente a indiferença diante daquela questão e, automaticamente, bebeu do copo um gole de saquê.

Na realidade, Neji jamais pensara em casamento ou filhos. Não havia carinho o suficiente em seu coração para uma criança e ele tampouco estava disposto a deparar-se com as responsabilidades de um casamento.

Nem mesmo na companhia de Tenten cogitava a hipótese.

Diante do seu silêncio, o patriarca do clã tomou sua resposta, mas Neji preferiu exteriorizá-la. "Não tão logo, senhor." Disse apenas, sem entrar em detalhes de motivos. Sua vida, assim pensava, não dizia respeito nem mesmo à única pessoa a quem se permitia ser pego em momentos de insanidade, cortado pelo desejo, e tampouco àquele homem que nada tinha de gentil.

"Imaginei." Não houve frieza naquelas palavras. "Eu não posso deixar o controle do clã nas mãos de um homem solteiro, Neji. Iria contra as nossas tradições, que dizem que uma mulher auxilia e apraz o marido."

Ele quase sorriu diante daquelas palavras.

Nem em seus mais delirantes sonhos desejaria o controle daquele clã maldito. Os Hyuuga, mesmo lhe atribuindo aquelas habilidades fantásticas, eram fruto do seu ódio. Seu único e mais profundo desejo era libertar-se daquela tirania, jamais controlá-la.

Velho e fraco, Hiashi não poderia governar por muito mais tempo. Neji sabia que ele estava desesperado à procura de um bom representante, uma vez que tivera apenas duas filhas de mãos fracas e uma mulher que se tornara infértil.

Uma pequena satisfação brotou em seu peito à idéia da extinção dos Hyuuga. "É uma pena, senhor." Disse.

A antipatia brilhava em seus olhos pérola, mas Hiashi não a percebeu. Ao retirar-se da sala, Neji pensou que, depois da discreta súplica do velho, jamais daria a ele a satisfação de vê-lo casado.

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O corpo de Tenten estava quente e úmido, o suor fazendo com que os cabelos castanhos se grudassem à testa, enquanto ela se aconchegava ao peito dele, exausta.

Ele não podia vislumbrar o brilho nostálgico dos seus olhos tom de ocre, mas permitiu que os braços pequenos rodeassem seu abdome, sentindo a respiração, que levemente ia passando de descompassada para cadenciada, fazendo cócegas sobre sua pele.

Por longos minutos, ambos permaneceram silenciosos, sentindo o frescor da noite em seus corpos, como sempre se permitiam sentir. "Lee vai ter um bebê." Ele ouviu-a falar, numa voz rouca.

Os dedos de Neji se embrenharam nos cabelos dela, procurando caminho por entre os fios. Ele recostou-se ao travesseiro, de modo que seu rosto ficou voltado para o teto, vislumbrando o branco pálido. "Eu não pretendo ter filhos." Confidenciou à ela, talvez porque a declaração lhe pareceu um pedido.

O moreno estava mortalmente sério em suas palavras.

Do terror e das más lembranças que guardava, preso àquele clã, ele não se arriscaria a pôr no mundo alguém que sofreria das mesmas conseqüências. A sua inaptidão como pai, se assim o quisesse, poderia ser contornada, mas um filho como membro secundário e descartável seria irreversível e até mesmo fatal. De pássaros com asas quebradas e ódio a cintilar no coração, já bastava ele.

Não lhe ocorrera que aquele poderia ser o sonho dela. Neji nunca parara para pensar no que Tenten desejava ou queria, ela simplesmente estava lá.

"E se eu dissesse estar esperando um bebê?" havia um pequeno traço de riso falso em sua voz.

"Eu deixaria você." Disse ele, sério.

Mas, pensou consigo, ele não apenas a deixaria, como a faria livrar-se daquela criança que futuramente se tornaria um empecilho e um fantoche.

A morena ficou calada pelo resto da noite e nem mesmo correspondeu às suas carícias. Ela permitiu-se ser beijada e violada, sem, no entanto, permitir que Neji, com seu sexo fácil, desse o fingido alívio que sempre lhe dava. Ele não poderia saber da crueldade das suas palavras, apenas da sinceridade brutal delas.

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"Eu quero que você seja o padrinho do meu filho."

Rock Lee fitava-o, ansiedade em sua face, as sobrancelhas espessas erguidas, como se esperasse que, com aquelas palavras, Neji fosse tomado por um súbito arroubo de felicidade.

Mas o Hyuuga permaneceu impassível, continuando a aplicar seus movimentos precisos num oponente invisível. "Não quero." Respondeu ele, sem voltar-lhe os olhos. Ouviu o ruído decepcionado do antigo companheiro de time, mas não deixou-se abalar por seu estúpido suspiro. "Não gosto de crianças." Disse, indiferente.

Ao sentar-se sobre um tronco de árvore anteriormente derrubado pelos punhos de Neji, Lee suspirou. Ele murmurava consigo sobre sua chama da juventude ter sido apagada diante de palavras tão frias. "Tenten-chan foi jantar comigo e Utada na quinta-feira." Disse à recordação da noite e franziu as sobrancelhas. "Ela estava muito triste e dispersa." Falou, como se pensasse em voz alta.

"A tristeza dela não é problema meu." Reiterou Neji, frio.

Subitamente, Rock Lee pareceu atônito. "Agora eu entendo, Neji, o porquê dela ser tão infeliz ao seu lado." Suspirou, quando conseguiu recobrar a voz.

Àquelas palavras, ele parou seus movimentos, mantendo os braços em posição, mas sem movê-los, e voltou-se para o outro, uma pequena indagação imperceptível em seus olhos. "Ela não está ao meu lado. Ela apenas aparece eventualmente em meu caminho." Respondeu apenas.

"Você vai perdê-la um dia."

"Ela não vai me deixar." Disse Neji.

Lee, ainda sentado sobre o tronco da árvore, riscou a areia com a ponta do pé, mostrando-se distraído. "Como você pode ter tanta certeza?" perguntou, uma pequena nota de desconfiança em sua voz, os olhos sem encará-lo.

Considerando aquele um questionamento inútil, o Hyuuga permaneceu em silêncio e treinando.

O sol estava baixando, denunciando o fim da tarde, e, com ele, o seu treino também se findava. A rigidez inflexível do seu treinamento muitas vezes era interrompida por missões de última hora ou por pessoas impertinentes, de modo que ele aprendera a deixá-lo apenas para uns poucos dias.

Ele não gostava do ruído ou do barulho provocado por possíveis companhias. Embora fosse difícil interromper sua concentração, até conversando, Neji considerava o silêncio como o principal influenciador ao rendimento dos treinos.

Lee, que seria incapaz de se julgar mero conhecedor das atitudes e sentimentos de alguém como o amigo, não fez menção de falar nada por algum tempo. "Tenten-chan era uma bela flor, mas belas flores não resistem ao inverno gelado e sem cor." Disse então, com seriedade em suas palavras. "E você é o inverno sem fim."

"Nem todos saem por aí ascendendo o lindo fogo da juventude." Existia um pouco de impaciência nas palavras ácidas do Hyuuga. "Por que você simplesmente não volta para a sua esposa fraca e inútil? Meu frio pode congelar o seu jardim."

O outro, que até então não se prontificara à acuidade lutuosa, estreitou seus olhos miúdos ao ouvir o escarnecimento sobre sua alusão à Tenten. "Você é um homem fraco, Hyuuga Neji." E ele sentiu-se digno a falar aquelas palavras, enquanto erguia-se da árvore caída.

"Você não sabe nada de fraquezas." Neji franziu as sobrancelhas. Mas Lee já havia se ido.

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"Eu não gosto da noite." Tenten sorriu, enquanto ambos voltavam para casa, após o treinamento, anos atrás.

O céu começava a escurecer, a lua minguante brilhante, e Neji não lhe respondeu, pois nem todos os seus comentários exigiam ou mereciam respostas imediatas. "Eu sempre tive um pouco de medo, sabe." Continuou ela.

Os cabelos de Tenten estavam bagunçados, embora em seus coques. "Quando eu era menor, mamãe costumava me abraçar até que eu dormisse." O sorriso nos lábios gentis da morena morreu, pouco a pouco. "Mas agora eu sou grande demais para isso." Disse, num murmúrio.

"Só porque você cresceu, não quer dizer que precise se livrar dos velhos hábitos." Falou Neji.

Ele não estava realmente prestando atenção no que ela falava. Depois de um tempo, a conversa de Tenten atingia o monólogo e o Hyuuga não se importava de deixá-la tagarelar, contanto que continuasse a ajudá-lo em seus treinos.

"Talvez você esteja certo." Ela novamente ria para ele.

Quando, como em todos os dias, Neji deixou-a na porta de casa, Tenten abriu e fechou o portão atrás de si. "Eu vou encontrar alguém para que me abrace nas noites escuras." Confidenciou ela, antes que o ele se afastasse. "Por favor, Neji, até lá, fique comigo." Tenten sorria.

Ele não concordou ou discordou daquelas palavras, apenas foi para casa.

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Depois de um tempo, Neji não mais vira aquela garota que costumava dialogar por horas a fio. A Tenten com quem dividia suas noites tornara-se uma mulher silenciosa como ele e Neji não soube dizer se aquilo era bom ou ruim.

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A noite estava fria.

Tenten tremeu ao sentir o vento gelado inundar o cômodo. "Você está com frio?" perguntou Neji.

"Sim." Respondeu ela, percebendo-o puxar o lençol para cobri-los. Seus olhos pestanejaram, suavemente, ao enrolar-se no tecido. Os lábios vermelhos curvaram-se no leve sorriso de agradecimento ao erguer a cabeça para encará-lo.

Sem retribuir o gesto, ele notou em seus movimentos a mesma nostalgia que sempre encontrava. "Apenas durma." Falou.

Quando a morena abraçou-se ao seu corpo, sem arroubos de brasa, Neji constatou-lhe a quentura e o perfume. Eram poucas as coisas das quais faziam-no recordar dos velhos tempos e essas, indubitavelmente, estavam relacionadas à Tenten.

Talvez ela houvesse sido uma bela flor. Talvez ela fosse uma boa mãe. Talvez ela fosse uma boa mulher. Mas aquelas eram dúvidas para as quais jamais teria certezas. Pois nem mesmo a volúpia, o ardor e a boca sensualmente persuasiva da silente Tenten fariam-no mudar suas crenças.

Neji admitiu que talvez Lee estivesse certo. Seus olhos perscrutaram o corpo dela, mas eram olhos que nada viam.

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You never did notice, but you still hide away. Now you're here and you don't know why.

(Você nunca notou, mas você ainda se esconde. Agora você está aqui e não sabe o porquê.)

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N/A: Então, povo, eu disse que NÃO ia demorar, mas acabei demorando. A fic já estava finalizada, só que outros problemas me afastaram temporariamente da área xD Perdoem essa humilde autora que vos fala, pois ela está arrependida da sua total negligência para com seus leitores. Peço sinceras desculpas.

Quando à fic, bemm, para aqueles que esperavam um final feliz: i'm sorry. O gênero da fic era drama, gente o-o O Sandman, se não me engano, reclamou da falta de felicidade das minhas fics, mas tudo depende da fic que tu pegar, amico 8D Eu não sou tão depressiva quanto pintam as minhas fics. A Moça e Nuances são claramente infelizes, porém, era a trama...xD Leia Um Trago e divirta-se ;D

Okay. Saindo da resposta ao comentário específico, agradeço a TODA galera que me incentivou e apoiou, cara, eu sou eternamente grata à receptividade de vocês. Continuem acompanhando minhas fics e dêem aquele GO que eu adoro ;3 Vocês são demais \o