Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo II- Esperanças

Três dias depois da partida de Miho Seiya ainda se encontrava desnorteado, desolado em meio a bagunça do seu quarto alugado nas proximidades do cais do porto. Há três dias tentava unir forças para voltar ao trabalho e encarar o senhor Kanamura e seus três dias de faltas sem justificativas.

— Ele vai me esfolar vivo — constatou, se esforçando para jogar as pernas para fora da cama. — Vivi para desafiar a morte e agora que a venci, vivo para sentir que morro a cada dia que se passa nessa vida inútil que levo. Merda!

Caminhou a passos lentos até a janela, a abriu e inspirou a brisa matinal carregada de maresia daquela manhã. Esticou os braços para o alto e soltou um bocejo. Seu quarto tinha uma vista privilegiada para a praia do ancoradouro, um lugar de clima sempre agradável. O dia estava bonito, o céu azul, cheio de gaivotas que bailavam no ar sobre os navios.

Por um instante Seiya sentiu seu ânimo reavivar. Porém, essa revitalização durou muito pouco, bastou inclinar-se para baixo e visualizou o seu senhoril, Mitsuro Ryuuzaki, caminhando de forma afoita em direção ao seu prédio. Estapeou a própria testa ao ter certeza do motivo.

— Merda, merda, merda. Esqueci que tinha que pegar um adiantamento do salário para pagar o aluguel.

Em questão de segundos o homem alcançou a entrada do quarto de Seiya.

— Seiya! Abra! — pedia e batia na porta. — Eu sei que está aí dentro! Faz três dias que não o vejo sair. Você não está indo trabalhar? Como vou receber o aluguel atrasado se você não trabalha!

"Merda ao quadrado! Tenho que fugir!"

Correu pelo quarto procurando roupas limpas. Achou a velha calça jeans desbotada embaixo da cama e a colocou por cima da única peça que vestia: uma cueca branca. Em seguida calçou os tênis All Star, vestiu a camisa vermelha e subiu no beiral da janela. Admirou a altura, em torno de uns cinquenta metros. Saltou. Deu uma pirueta no ar e pousou tranquilamente no chão.

Sorriu ao olhar para a entrada do seu apartamento e ver o quadril largo do seu senhoril que ainda o chamava.

"Vou conseguir o dinheiro e mais tarde falo com ele", planejou. Mas ao se erguer, bateu de frente com o carteiro.

— Ah! Merda de novo! — voltou a praguejar, estendendo a mão para ajudar o homem se levantar.

Depois de arrumar os óculos no rosto, empurrando-os com o dedo indicador, o homem aceitou a ajuda e foi puxado por Seiya.

— Foi mal.

Ele apenas assentiu, ainda olhando com desconfiança para Seiya e para janela de onde teve quase certeza que o vira saltar. Mas concluiu que havia visto coisas e então se dirigiu ao rapaz que agora amarrava os cadarços do tênis.

— Você o morador do 207?

— Eu — Seiya confirmou e se ergueu encarando feio o carteiro. — Não me diga que veio me trazer mais contas para pagar?

— Se não quer receber contas, não as faça, senhor. Mas desta vez vim trazer um telegrama. Pode assinar para mim, por favor? — ele empurrou de forma nada delicada a prancheta no peito do rapaz.

Seiya segurou a prancheta e a muito contragosto assinou o comprovante de entrega da correspondência, devolvendo em seguida a prancheta ao mensageiro.

Depois de entregar o envelope para Seiya, o homem o reverenciou e saiu.

— Obrigado, senhor. Tenha um bom dia — desejou, voltando a subir na bicicleta e seguir com suas entregas.

Seiya, por sua vez, olhou o envelope intrigado. Pelo que parecia não era notícias de Miho e nem dos amigos.

"Telegrama Urgente. Kanagawa Advocacia" — Seiyaleu em voz alta o remetente, então abriu a correspondência e leu a mensagem descrita no corpo da mesma: — "Caro senhor Ogowara, solicitamos sua presença com urgência, a partir do recebimento desta, na Rua: 67, prédio 12, no bairro de Arakawa. Nos horários de segunda a sextas-feira entre as oito e às dezoito horas. Tratar de assuntos do seu interesse. Agradeço a atenção. Dra. Erika Kanagawa". Hã? Que diabo é isso? Como assim assuntos do meu interesse?

— Aí está você, Seiya!

— Ahh! Esqueci o senhoril.

Ao perceber que não tinha mais como fugir do homem que descia as escadas afoito, Seiya o aguardou.

– Ohayo, Ryuuzaki-san. Com tem passado? Está um belo dia, né? — perguntou, forçando um escancarado e simpático sorriso.

— Vai ficar um belo dia quando decidir pagar o aluguel, Seiya! — O homem foi direito. — Está atrasado novamente. Pelo quarto mês consecutivo.

— Desculpe-me, Ryuuzaki-san. Mas eu já lhe expliquei a minha situação. Eu só estou pagando o senhor atrasado porque meus honorários estão saindo atrasados também.

— E o que eu tenho a ver com isso, Seiya? — perguntou o velho senhor, criando rugas na testa, demonstrando todo seu descontentamento. — Não é da minha conta se o seu patrão não está cumprindo com as obrigações dele. Eu só sei que eu tenho os meus compromissos e não posso deixar de honrá-los por causa de você ou do seu patrão inútil! — exclamou, suando muito. O dia prometia ser daqueles insuportavelmente quentes.

Seiya abaixou a cabeça, não tinha o que argumentar. Dando assim, brecha para que o senhoril continuasse com a bronca.

— E além do mais. Há dias que você não está indo trabalhar. Quem me garante que ainda está empregado? — o velho perguntou desconfiado, olhando o inquilino de cima embaixo.

— Não é nada disso, Ryuuzaki-san — Seiya retrucou, sério. Sentindo-se ofendido com o olhar acusador do senhoril. — Eu só tirei alguns dias de folga para resolver uns problemas particulares. Mas hoje mesmo estou voltando ao trabalho e vou pedir um adiantamento para pagá-lo.

— É bom mesmo, Seiya. Eu lhe darei um prazo até o fim de semana. Arranje o dinheiro do aluguel ou serei obrigado a despejá-lo! — O senhoril girou nos calcanhares e foi embora resmungando. — Esses jovens de hoje em dia... No meu tempo, meus pais me ensinaram a honrar com meus compromissos.

— Tenha um bom dia o senhor também — Seiya desejou, acenando com o telegrama na mão.

Então voltou a olhar a correspondência, em busca de alguma informação adicional.

— Assuntos do meu interesse?

Não a encontrando, amassou o papel e o empurrou para dentro do bolso da calça e então saiu.

— Primeiro: o trabalho!

...

No Cais, Seiya adentrou o escritório do chefe após bater na porta e pedir licença.

— Kanamura-san?

O homem respondeu com um gesto de mão para que o empregado se aproximasse e continuou falando ao telefone.

— Dois navios atrasados? Mas como vou descarregá-los em apenas um dia? — o homem perguntou, aumentando o tom de voz ao telefone. — Como assim o problema é meu? É claro que vou querer um adicional pelo serviço extra! Está bem, está certo. Vou ver o que posso fazer — concluiu, batendo o telefone. — Malditos fornecedores. Até parecem que querem ocupar o lugar de Deus! — esbravejou, dando uma pancada forte na escrivaninha que fez os papéis se espalharem sobre ela.

Seiya sorriu sem graça, constatando que entrara em má hora.

— O que você quer, Seiya? — perguntou o Sr. Kanamura de forma rabugenta. — Por que não está trabalhando lá fora? Por que está parado aqui na minha frente com esse sorriso de bobo da corte?

— Sabe... Kanamura-san... eu...

— Espere um pouco — o homem pediu, franzindo as sobrancelhas e erguendo a viseira rosa-choque para visualizar Seiya melhor. Então se lembrou de algo muito importante. — Agora que lembrei! Você não está vindo trabalhar faz três dias, não é mesmo?

— Eu tive que resolver uns problemas pessoais, Kanamura-san — Seiya emendou a justificativa rapidamente, dando alguns passos temerosos para trás.

— Problemas pessoais? — o chefe o arremedou, incrédulo. — Você some durante três dias e tem a cara-de-pau de me dar só essa justificativa? Que porcaria de problemas pessoais o quê, Seiya! Eu só não vou te mandar embora nesse exato momento por que acabou de chegar dois carregamentos atrasados e precisamos fazer a descarga dessas benditas mercadorias ontem! Por isso, declare-se um ser humano sortudo e saia já da minha frente! Ah! Vai fazer horas dobradas para pagar esses dias de faltas.

Seiya suspirou. Não que achasse que a bronca tivesse sido desmerecida, afinal, tinha ciência de suas faltas. Contudo, o tom de ironia usado pelo seu chefe poderia ter sido dispensado. Afinal, ele não era o melhor patrão do mundo. Sempre fizera horas extras e ele nunca lhe pagara um centavo por isso. Além disso, ele só pagava seus honorários atrasados, por ser menor e o único que não tinha um contrato.

Mas precisava do trabalho e bem pior do que isso é que precisava de um adiantamento para pagar seu senhoril.

— Kanamura-san?

O chefe, que havia voltado aos seus papeis na escrivaninha, franziu novamente o cenho ao perceber que o empregado ainda estava na sua sala.

— Você ainda está aqui, Seiya? Mesmo depois de eu ter lhe falado o tanto de serviço que temos para colocar em dia?

O adolescente engoliu em seco. Talvez não fosse o melhor momento para fazer aquela solicitação, mas precisava do dinheiro ou seria despejado. Desta forma, suspirou fundo e fez o pedido de uma vez.

— Eu-preciso-de-um-adiantamento-pra-pagar-meu-aluguel!

O chefe demorou alguns segundos até conseguir desmembrar a frase dita por Seiya e compreender o que ele queria.

— Será que eu entendi o que eu entendi, Seiya? — o homem quis ter certeza, fazendo a pergunta entre os dentes cerrados.

— Se o senhor entendeu que eu pedi um adiantamento, então está certo — Seiya explicou, inocente.

De repente, ele percebeu que havia mesmo feito uma besteira, pois a cabeça do chefe lhe pareceu uma chaleira cheia de água fervendo. Teve até a impressão de ver fumaça saindo pelas grandes orelhas e pelas narinas do homem.

— O quê você tem dentro dessa cabeça oca, Seiya?! — o homem gritou de forma assustadora, fazendo Seiya se sobressaltar com os olhos estatelados. — Como se atreve a me pedir dinheiro depois de três dias de faltas não justificadas!

Do lado de fora os colegas de trabalho de Seiya se aglomeravam próximos a porta.

— O que será que está acontecendo lá dentro?

— Eu vi o Seiya entrando — respondeu o que estava com o ouvido encostado na porta de madeira. — Ouvi a discussão desde o começo. O idiota do Seiya pediu adiantamento pro chefe mesmo depois de não ter justificado os três dias de falta.

— O quê?! — todos exclamaram, espantados.

— O Seiya é mesmo maluco.

— Silêncio — o rapaz que estava na porta pediu. — Acho que o Seiya está falando algo.

Do lado de dentro.

— Sabe de uma coisa, Kanamura-san? Não precisa mais gritar comigo — Seiya falou calmamente. — Eu é que me cansei de trabalhar para o senhor, de ser maltratado e ainda receber essa miséria de salário que sai sempre atrasado. Eu me demito — anunciou, dando as costas ao patrão.

— V- você o quê Seiya? — o velho senhor diminuiu o tom, totalmente descrente naquele pedido inusitado.

— Isso que o senhor ouviu. Estou pedindo demissão.

Seiya abriu a porta e saiu, fechando-a em um baque. Então, se deparou com os vários dos seus colegas do lado de fora, encarando-o com o ar de aparvalhados. Nem precisou perguntar o que eles estavam fazendo, era meio que óbvio. Estavam fazendo aquilo que sabiam melhor: cuidar da vida dos outros.

— O que aconteceu, Seiya?

— Ouvimos parte da gritaria.

— Voltem ao trabalho bando de preguiçosos! — esbravejou o senhor Kanamura após reabrir a porta, ainda mais nervoso devido a petulância de Seiya em pedir demissão. — Esse moleque não é mais colega de trabalho de vocês. Voltem ao serviço agora mesmo! Teremos que trabalhar dobrado porque está chegando dois navios atrasados para descarga — ele anunciou e em seguida voltou a se fechar dentro do escritório.

— É verdade isso, Seiya? — perguntou um dos rapazes, se aproximando do adolescente. — Digo, a parte da demissão, você pediu mesmo?

— Pois, é — Seiya afirmou e coçou a nuca, um pouco sem graça. — Me desculpem por deixá-los na mão logo agora que chegou mais serviço.

— Seiya, o problema não esse, cara. Como você vai sobreviver sem emprego? — perguntou Tanaka, o senhor que operava o guindaste, demonstrando uma real preocupação com o mais novo. Pois, apesar de o grupo usar Seiya como alvo de diversão, a maioria tinha uma simpatia grande por ele. Seiya era o mais disposto do grupo, o que sempre se dispunha a ajudar os colegas que estavam com os afazeres atrasados, tudo isso sem receber nada em troca.

— Eu vou dar um jeito, Tanaka-san — Seiya respondeu tranquilamente, dando de ombros.

Tanaka, que ainda parecia incrédulo, repousou a mão sobre um dos ombros de Seiya.

— Eu estou orgulhoso de você, garoto. É muito corajoso. Eu quero que meu filho cresça e seja como você um dia. Não é todos que arriscam chutar tudo para cima e recomeçar do zero. Mas você ainda é jovem. Tem uma vida inteira pela frente e essa decisão pode lhe trazer benefícios. Retome os estudos e procure um emprego digno. Eu estarei torcendo por você. Desculpe-me pelas brincadeiras. Se tiver passando dificuldades, a minha casa não é grande coisa, eu tenho três filhos para sustentar, mas você pode ficar lá até arranjar outro lugar.

— Obrigado, Tanaka-san — Seiya sorriu para o homem mais velho a sua frente. — Mas não se preocupe, não parece, mas eu sei me virar.

Então ele se voltou para os demais e se despediu.

— Tanaka-san, Natano, Hiei, Katsuya, eu sei que no fundo vocês me amam, podem confessar que vão sentir minha falta.

— Sai fora, Seiya! Eu gosto de garota com peitões.

— Eu prefiro as que têm belas pernas.

— Para mim, não sendo homem...

O grupo caiu na risada. Mas Okumura Katsuya se manteve sério, enquanto observava um a um dos colegas se despedirem de Seiya. Ele sentiu algo estranho lhe comprimir por dentro. Não gostava de Seiya, sempre achou que o adolescente era o empecilho que ofuscava seu brilhantismo perante o chefe. A pessoa que o atrapalhava subir de cargo por ficar se mostrando para o patrão. Mas nunca imaginou que se sentiria tão estranho com a partida dele. Cerrou os punhos, virou as costas e seguiu em direção oposta ao grupo.

— Espero que não volte nunca mais — foi a resposta dura dada por ele.

O senhor Tanaka tirou o boné e desaprovou o comentário do outro com um balançar de cabeça.

— Não fique chateado, no fundo ele gosta de você.

— Não tem problema, Tanaka-san. Eu preciso ir. Vejo vocês por aí!

— Venha nos visitar.

Seiya apenas acenou de longe. Não se sentia mal por estar deixando aquele emprego. Na verdade, se sentia até aliviado. Além disso, algo lhe dizia que aquele telegrama estranho que recebera lhe traria boas notícias.

...

Parou diante de um prédio comercial, do tipo que possuí várias galerias internas. Retirou o envelope amassado do bolso, conferiu mais uma vez o endereço e certifico que era ali mesmo o local indicado na correspondência. Na placa na parede encontrou o nome do escritório mencionado.

— Kanagawa Advocacia, terceiro andar.

Seiya adentrou o edifício e foi direto para o elevador. Ao chegar ao andar percebeu que existiam várias salas idênticas. Continuou caminhando pelo, lendo as descrições nas placas das portas até encontrar a que procurava.

— É aqui — disse, batendo na porta.

— Está aberta, pode entrar — ouviu uma voz feminina lhe informar.

— Com licença? — pediu, adentrando o lugar que não parecia ser maior que o seu quarto no cais.

Aproximou-se da jovem recepcionista de cabelos curtos e que usava óculos de aros grossos. Ao vê-lo a moça parou de digitar no computador e lhe sorriu simpaticamente.

— Bom dia. No que posso ajudá-lo?

— Bom dia. Eu vim falar com a doutora Kanagawa — Seiya informou, entregando para a recepcionista a correspondência que trazia em mãos.

Assim que a jovem averiguou o documento pediu para que o rapaz aguardasse enquanto ela fosse anunciá-lo e adentrou uma sala cuja a porta estava localizada ao lado esquerdo da sua escrivaninha.

— Com licença, Kanagawa-san — a secretária pediu ao adentrar a sala da advogada.

— Sim, Minoru-chan?

A advogada, Erika Kanagawa, era uma mulher ainda jovem, usava óculos gateados de aros claros que combinavam com seu conjunto composto por uma saia e um blazer rosa claro. Ela estava com os cabelos castanhos presos em um coque em cima da cabeça. Seu rosto era fino e delicado, que lhe concedia um ar elegante.

— Um dos rapazes da fundação Graad que convocamos via telegrama está aqui — a recepcionista a informou.

— Mesmo? Achei que eles demorariam mais para responder meu telegrama.

A moça se aproximou da mesa e estendeu para ela o telegrama amassado de Seiya.

— Este rapaz quem está aqui.

— "Seiya Ogowara" — a advogada leu, ajeitando os óculos no rosto, então, abriu um belo sorriso para empregada. — Isso é muito bom, Minoru-chan. Por favor, peça para que ele entre.

— Sim. Com licença.

A recepcionista voltou para a porta e dali mesmo pediu para que Seiya entrasse. Assim que ele se aproximou da entrada a secretária sentiu as bochechas esquentarem ao se voltar para a advogada e notá-la em uma posição não muito elegante: o traseiro empinado por estar procurando algo na última gaveta do arquivo de aço da sala. A secretária pigarreou, alertando a patroa para que se recompusesse.

— Sensei, aqui está o Ogowara-san.

— Oh, sim!

A advogada se reergueu um pouco desajeitada, trazendo consigo vários prontuários juntos ao peito; enquanto puxava a saia justa para baixo.

Seiya não teve tempo de mostrar-se constrangido ao ver sem querer as pernas bonitas da advogada, pois logo a mulher despejou os prontuários sobre a mesa e se voltou para ele, estendendo-lhe a mão direita e se apresentando.

— Erika Kanagawa, prazer em conhecê-lo, Ogowara-kun.

O adolescente correspondeu ao cumprimento um pouco sem graça. A advogada parecia ser uma mulher descontraída, tinha um belo sorriso, que mostrava os dentes brancos e bem cuidados. Ela transmitia algo terno, quase como se fosse uma conhecida de muito tempo.

— Prazer — ele foi mais sucinto e apertou a mão dela, mantendo seu sorriso receoso.

— Sente-se, por favor — a doutora pediu, desvencilhando-se do aperto de mão e apontando a cadeira diante da mesa dela. — Nos traga duas xícaras de café, por favor, Minoru-chan. Quer o seu com açúcar ou adoçante, Ogowara-kun?

— Não gosto de café, prefiro chá. Mas me chame só de Seiya, doutora. Não sou acostumado com formalidades.

— Certo. Mas só se você esquecer esse "doutora" e me chamar só de Erika.

— Combinado, Erika-san.

— Então, reformulando, Minoru-chan: um café com adoçante para mim e uma xícara de chá para o Seiya.

A secretária assentiu com um meneio de cabeça, então, deixou a sala.

— Recebeu o telegrama hoje?

— Hoje pela manhã — ele confirmou. — Estou curioso para saber do que se trata esse "assunto do meu interesse".

— Já vou lhe explicar tudo em detalhes.

A secretária interrompeu-os ao entrar na sala com a bandeja. Depois de servi-los, ela pediu licença e saiu fechando a porta.

— Tudo bem. Relaxe, Seiya. Garanto que não é nada de ruim. E para não deixá-lo mais ansioso, vamos direto ao ponto.

Mantendo o ar simpático no rosto, a doutora Kanagawa explicou a Seiya que trabalhava para uma instituição pública que tem como objetivo fiscalizar lares adotivos. Ela ainda disse que não era apenas uma advogada comum, mas sim, uma advogada assistencial, que tinha como trabalho prezar pelo bem estar de crianças e jovens reabilitados por casas de adoções.

De início, Seiya achou que a mulher lhe faria perguntas sobre as crianças do orfanato Starlight que pertencera a fundação Graad, contudo, conforme ela seguia com a explicação, percebeu que o assunto parecia ser outro. Juntou as sobrancelhas em determinado ponto da narração, onde ela falou que precisava acompanhar a reestruturação na sociedade de alguns alunos que não haviam tido baixas nos prontuários do referido lar adotivo.

— A senhorita está querendo dizer que existem crianças do Lar Starlight que estão passando por dificuldades?

A mulher deixou o sorriso de lado e mantendo o olhar fixo em Seiya afirmou.

— Exatamente.

Os olhos castanhos de Seiya dobraram de tamanho em surpresa. Havia algo de muito errado naquela informação. Saori jamais permitiria que o orfanato fosse fechado sem que todos os residentes do lugar fossem realocados. Também não compreendia porque aquela informação estava sendo dada à ele e não a Saori. Mas imaginou que talvez fosse devido ao fato dele ser próximo de Miho, quem sabe até estavam a procura dela e como não a encontraram resolveram chamá-lo por ser alguém próximo.

— Eu não entendo o que está acontecendo, Kanagawa-san, mas tenho certeza absoluta que a Miho cuidou de tudo antes de partir. Quem são as crianças que estão com problema? — Seiya queria mesmo saber, se ele pudesse ajudar, faria o possível.

Porém, a advogada não respondeu, apenas sustentou o olhar sobre o jovem, como se desta forma, conseguisse fazê-lo compreender o que ela queria dizer.

Enquanto esperava pela resposta, os olhos de Seiya vagaram do semblante sério da advogada para a mesa e os prontuários que ela tinha embaixo dos cotovelos. Lembrou-se então do telegrama "assuntos do seu interesse", era do seu interesse, não da Fundação, então, de repente, um estalo se fez em sua mente.

— Eu?

Finalmente a mulher relaxou seus ombros e encostou as costas na poltrona.

— Isso, Seiya, você.

Seiya entreabriu os lábios, deveria dar uma resposta, mas não soube o que dizer naquele momento; foi pego de surpresa. Então optou por permanecer em silêncio e esperar o restante da explicação.

— Escute, Seiya. Sei que deve estar achando isso muito estranho, principalmente pelo fato de você pensar que não era mais um residente do orfanato fechado há algum tempo. Porém, não há baixa no seu prontuário. Assim, como não há baixa em quatro outros prontuários que estão aqui comigo — ela abriu a primeira pasta sobre a mesa e após folhear algumas páginas, virou a pasta na direção do adolescente e indicou na ficha, na parte "anotações finais" uma única observação. — Leia — pediu.

"Residente encaminhado para Programa Experimental de Treinamento. Retorno previsto em seis anos" — Seiya ergueu os olhos para mulher.

— Você e mais dez residentes participaram deste tal "Programa experimental de Treinamento". Porém, apenas cinco rapazes retornaram e deram suas baixas no orfanato e hoje prestam serviços para Fundação. Mas você e outros quatro ainda não o fizeram.

Seiya mudou a expressão no seu rosto para uma de preocupação.

— Está querendo dizer que eu devo voltar para o orfanato?

— Não exatamente. Vocês já são adolescentes. Se não me engano entre 15 e 18 anos. Não tem tantas chances de serem adotados mais. O orfanato já não pode oferecer mais do que a própria vida fora dele pode proporcionar. Na verdade, o que pretendemos aqui é encaminhá-los de uma forma mais natural possível para uma vida normal. Fazer com que retomem os estudos, que morem em uma residência digna e recebam todo o apoio necessário para isso.

Novamente Seiya juntou as sobrancelhas em estranhamento ao ouvir todas aquelas informações. Apesar de não parecer, desconfiou que aquilo pudesse ter o dedo da Saori. Afinal, ele não tinha sido informado por ela, após sua volta da Grécia, que precisaria retornar para o orfanato para dar baixa em alguma coisa.

— Erika-san, por uma acaso não é a Senhorita Kido que está por trás disso, é?

— A dona da fundação Graad? A neta do falecido senhor Kido? Por que ela fiscalizaria irregularidades dentro da sua própria instituição? Não que ela venha a se negar regularizar as situações que apontarmos, mas no momento ela não deve nem saber sobre o nosso trabalho. Como eu disse, presto serviços para um órgão público do governo e esse é um processo, inicialmente, sigiloso.

— É que eu não estou entendendo onde a senhorita quer chegar, Erika-san. Se eu não vou voltar para o orfanato, qual é a importância dessa baixa? O que eu vou ganhar com isso?

— Seiya, a minha intenção é propor a Fundação Graad um acordo pelo descumprimento de algumas cláusulas na Lei dos Lares de adoção. Se o acordo não for aceito, vou entrar com um processo para que você e seus amigos sejam indenizados pelos danos sofridos por causa da instituição, principalmente por terem participado desse suspeito programa de treinamento.

— E que acordo seria esse?

— A residência aonde funcionou o orfanato Starlight já está alienada no nome de vocês, devido a uma cláusula da própria escritura do prédio. Então, eu iria apenas incluir no acordo a escritura definitiva em nome dos cinco, mais bolsas de estudos, incluindo universitário, e uma pequena mesada mensal para despesas básicas até vocês completarem a maior idade e começarem a trabalhar. Mas para isso, preciso primeiro do seu consentimento e dos outros quatro.

— Acho que isso não vai ser possível, Erika-san — Seiya alegou com um pesar tão intenso na voz e no semblante que fez advogada se preocupar.

— Porquê não? — ela o inquiriu, assustada ao percebê-lo tão encolhido e com o ar tão entristecido de repente. — Estou propondo para você uma possibilidade significativa de melhoria de vida.

Seiya havia entendido que tudo o que a advogada estava propondo fazer por ele, naquele instante, era muito bem-vindo. Aliás, não podia ter vindo em um momento mais oportuno, afinal, um lar para morar quando estava prestes a ser despejado e uma mesada quando estava prestes a passar fome por não ter emprego, era mais do que poderia desejar naquele instante. Entretanto, há muito tempo não tinha notícia dos seus amigos e, por isso, duvidava que eles aceitassem sair de onde estivessem para pleitearem aquele direito.

— Seiya?

— Erika-san, três desses "não-reabilitados" que a senhora mencionou e que precisam entrar em contato para levar adiante toda essa história, não moram mais no Japão — ele a informou, sentindo uma dor amarga apertar o peito. — Acho que para eles, pouco importa a escritura de uma residência velha.

A advogada deu um grande suspiro, principalmente, ao perceber a dor embutida nas palavras de Seiya. No fundo, ela sabia daquela possibilidade. Mas não podia desanimá-lo, não mais, do que ele aparentava estar.

— Isso, senhor Seiya, só iremos saber daqui alguns dias, quando seus amigos receberem os telegramas e me responderem, não é? No momento, só nos resta esperar. Mesmo assim, não desanime, eu vou levar o processo adiante, nem que nenhum deles esteja aqui, nem que seja só por você.

O adolescente arregalou os olhos mais uma vez e concordou com um menear de cabeça. Já que tinha esse direito, não tinha a intenção de desperdiçá-lo.

— Só posso agradecê-la. Tem mais alguma coisa?

— Por enquanto, não. Vamos nos despedir por aqui. Eu entrarei em contato com você em breve — ela concluiu, estendendo a mão para Seiya.

— Está bem — Seiya concordou, juntando sua mão com da advogada. – Obrigado novamente, doutora.

— É "Erika-san", esqueceu?

Seiya sorriu e assentiu.

— Está bem, Erika-san.

...

Seiya deixou o prédio ainda atordoado, tentando processar toda a informação que a advogada lhe passara. Certamente, aquela conversa o encheu de esperanças de rever os amigos e quem sabe, conviver novamente com eles. Mas, desde o fim da batalha em Elíseos e a liberação da função de cavaleiro que ele vinha se sentindo vazio, sem serventia, sem motivações.

"Será que a Miho sabia de tudo isso? ", ele se perguntou em pensamento, enquanto caminhava pelas ruas movimentadas do centro da cidade, tentando não esbarrar nas pessoas que andavam apressadas. Todos presos em sua própria rotina.

— Desculpe-me, senhor? — pediu um garoto, após trombar em Seiya e tirá-lo de suas divagações.

— Tubo bem. Adultos apressados não são incomuns, mas aonde uma criança vai com tanta pressa? — o moreno perguntou simpaticamente, apoiando um dos joelhos no chão para ficar da altura do garoto.

— Corta! Chouji-kun volte a posição inicial. Ei, idiota! — gritou uma voz em um megafone, referindo-se a Seiya — Saia daí. Está atrapalhando as gravações.

Seiya procurou o dono da voz e se assustou ao só então se dar conta das pessoas e equipamentos da televisão ao seu redor. Sem querer havia invadido uma cessão de filmagem.

— Merda! — praguejou. — Não foi minha intenção interromper. — justificou-se, ficando constrangido com tantos olhares em cima dele.

— Não se preocupe — o jovem ator chamou a atenção dele e sorrindo o confortou: — Isso acontece o tempo todo — garantiu, colocando as mãos atrás da cabeça e observando Seiya melhor. O pequeno parecia intrigado, como se visse algo familiar em Seiya. — Eu o conheço, senhor? Já fez alguma aparição na TV?

— Vamos meu jovem, saia daí! — insistiu o diretor no megafone. — Todos já retomaram suas posições? Câmeras apostas? Chouji-kun, volte paro o seu lugar.

— Estou indo.

— Eu tenho certeza que não — respondeu Seiya, mesmo que fosse uma mentira, afinal, o Torneio Galáctico havia sido televisionado para todo o globo. Afastou-se e acenou para o garoto. — Não vou atrapalhar mais o seu trabalho. Foi um prazer conhecê-lo, Chouji.

O menino retribuiu o aceno que Seiya lhe dava já de longe, para em seguida, voltar para a beirada da rua, onde havia parado a sua cena.

Seiya ficou acompanhando de longe, ao lado de outros curiosos, a gravação da cena. Após o diretor gritar "gravando" os atores, que já estavam apostos, refizeram os mesmos movimentos sincronizado anteriores a sua entrada imprevista. O ex-cavaleiro de Atena se espantou com a beleza daquela simultaneidade e de repente se lembrou de algo importante.

— É isso! — exclamou, chamando a atenção das pessoas ao seu lado. — Eu vou visitar o Shun. Se não me engano ele está morando aqui em Tóquio e trabalha em uma emissora de televisão aqui por perto. Talvez, ele já tenha recebido o telegrama.

Continua...