Os Garotos

Por Andréia Kennen

Capítulo VII - Reencontros – Parte II

Rozan, China.

— Não. Eu já disse que não, senhorita Schneider. Eu preciso repetir quantas vezes que o Vale não está à venda?

— Mas, Sr. Suynama, escute minha nova proposta pelo menos. É por uma boa causa!

— Não, senhorita. Minha resposta continuará sendo não! Eu sei muito bem que sua causa é nobre, mas não posso vender o Vale porque tem um valor sentimental envolvido, passar bem! — E bateu a porta na cara da mulher.

— Eu não vou desistir, Sr. Suynama! — gritou ela para porta fechada. — Está me ouvindo? Não vou. Se precisar de mais tempo para pensar, eu te darei o tempo que for.

Em seguida ela desceu as escadas abruptamente, ainda resmungando.

— Que cabeça dura, insolente, impertinente.

— Bom dia, senhorita Schneider.

— Bom dia, Lee. Como tem passado? — perguntou para o jovem mensageiro que vinha chegando. Ainda muito irritada, tentando alinhar o cabelo loiro para trás da orelha, ele havia se desprendido devido sua afobação.

— Eu estou bem, mas pelo que vejo, a senhorita não teve uma boa investida hoje novamente, não é?

— Ainda não, Lee. Mas não me dei por vencida. Tenho certeza que o vencerei pela insistência. Amanhã irei conseguir, você verá!

O menino sorriu e acenou para mulher loira que se afastava ainda reclamando. Há dias vinha presenciando a mesma cena, acompanhada sempre com as mesmas promessas. Mas precisava confessar que a senhorita estrangeira era bem determinada.

Subiu a escadaria que levava para entrada da residência e bateu na porta fechada.

— Vá embora, senhorita. Já dei minha resposta.

— Sou eu, Shiryu, Lee, trouxe suas correspondências.

O residente abriu somente uma brecha da porta, ainda desconfiado, mas assim que confirmou somente a presença do carteiro, abriu a porta.

— Desculpe-me, Lee. Achei que a senhorita Schneider tivesse te usando.

— Como você é mal, Shiryu.

— Já pedi desculpas. Entre, por favor.

— Obrigado — disse, abrindo um sorriso. — Com licença, estou entrando. — O menino entrou e acomodou-se no sofá. — Ela não desiste, não é mesmo? Eu a encontrei quando estava chegando, parecia bem irritada.

— É que eu tive que bater a porta na cara dela, sei que não foi muito educado da minha parte, mas é que já estou ficando impaciente com isso.

— Ela não conseguiu te fazer uma boa proposta ainda?

— Não brinque com isso, Lee. Não tem a menor graça. Eu já disse que não vou vender o templo do meu mestre. E eu nunca pensei que me daria tanto trabalho viver em um lugar tão pacífico. Sinceramente, estou começando a sentir falta dos meus amigos e do campo de batalha — concluiu. — Você aceita chá?

— Hm! Vou aceitar. Obrigado.

Enquanto Shiryu foi até a cozinha, o menino vasculhou a bolsa que havia colocado no colo e a qual carregava transpassada no peito. Logo o anfitrião retornou com uma bandeja e sobre ela um bule, duas xícaras e uma vasilha com biscoitos. Colocou tudo em cima da mesa no centro da sala e passou a servir o chá.

— Aqui estão suas correspondências. — O mensageiro estendeu os envelopes para Shiryu, no mesmo instante que Shiryu estendeu a xícara com chá para ele, os dois fizeram uma troca.

— Hm. Está muito bom.

— Pegue biscoitos também.

— Obrigado!

— Veja a pretensão daquela mulher, Lee? A maioria das correspondências está destinada a ela e a tal clínica.

— Pelo jeito ela tem confiança de que vai conseguir fazer negócio com você.

— E está muito enganada! — garantiu Shiryu, devolvendo ao garoto os envelopes que não estavam destinados a ele. Abriu a única carta que veio em seu nome. — Um telegrama do Japão?

— Notícia dos seus amigos?

— Infelizmente não. Uma tal de Advocacia Kanagawa. Que estranho — passou os olhos pela convocação e suspirou ao final. — Que droga. Estou sendo convocado para comparecer ao Japão. Era o que me faltava.

— Shiryu?

— Hm?

— Só por curiosidade, você chegou a analisar a proposta da Srta. Schneider?

— Eu não quero analisá-la, Lee.

— Sabe, Shiryu, as intenções da senhorita Schneider são realmente boas. Fiquei sabendo que ela teve uma irmã que faleceu por problemas depressivos e desde então ela se dedica a ajudar pessoas com o mesmo problema. Ela está querendo colocar em prática sua pesquisa de doutorado, a qual defende a ideia de que, ambientes naturais como esse, podem ajudar na recuperação dessas pessoas. Minha avó faz parte do programa dela. Não sei se você lembra, mas desde que meu avô e o papai morreram no acidente da montanha, a vovó começou a sofrer de depressão. A mamãe e eu não vemos a hora dela poder se tratar nessa clínica que senhorita Schneider quer abrir. Metade dos pacientes que serão tratados pelo programa são pessoas humildes e que não tem condições de pagar um tratamento caro — o menino concluiu, mostrando a ponta da língua e terminando de beber o chá. — Desculpe está me metendo. Sei que quer preservar o templo onde viveu com seu mestre e a senhorita Shunrei. Mas, acho que os dois ficariam muito felizes se soubessem que esse lindo lugar está servindo para um propósito nobre também.

Shiryu sentiu o peso daquelas palavras, abaixou a cabeça e encarou o liquido verde dentro da sua xícara.

— Bem, eu tinha ouvido falar sobre as intenções dela. Não com esses detalhes, é claro. Mas eu ainda não sei se eu consigo desfazer do único lugar que chamei de lar. Entenda, Lee, o que está em questão para mim não são valores materiais, são valores sentimentais.

— Mas você não precisaria se desfazer do templo, Shiryu. Por que não o aluga? Ou, quem sabe, um acordo de sociedade. Você nunca pensou nisso?

Shiryu parou por um instante e encarou aturdido aquele menino que deveria ter no máximo doze anos, e que tinha uma forma de pensar e falar mais madura do que ele próprio.

— Para ser sincero, eu nunca pensei em nada relacionado a esse assunto. Só a palavra "venda" já me tirava do sério. Porém, pensando por esse lado, você pode ter razão. Eu só vivo do que essa terra me fornece. Jamais pensei em ganhar dinheiro com ela.

— Sim. E você não estará se desfazendo do templo do seu mestre. Nem explorando essa terra, só estará "emprestando-a" para um bom propósito. E como recompensa terá algum ganho, esse ganho poderá ser revertido para algum benefício seu. Algo como retomar os estudos.

— Corre, Lee — Shiryu falou de repente. — Corre e alcance a senhorita Schneider para mim, você me fez mudar de ideia. Fora que, eu preciso mesmo voltar ao Japão.

— Sim!

O garoto saiu em disparada pela porta, para atender ao pedido do colega.

Shiryu ergueu-se, deixou a xícara de chá na bandeja e caminhou até o altar que ficava no canto da sala. Encarou com tristeza a foto do seu mestre e da sua amada em porta-retratos separados. Ambos falecerem na última batalha. Seu mestre rejuvenesceu para morrer ao lado dos companheiros dourados, na última missão como cavaleiro: derrubar o muro das lamentações em Elíseos. Sua irmã, amiga, e amada Shunrei, sem forças para voltar sozinha para casa depois de saber da sua morte e a do seu mestre, preferiu se entregar a dor. Ela rezou por sua volta à beira da cachoeira de Rozan dia e noite, incessantemente, debaixo de chuva e de sol, por isso fora abatida pela desnutrição e uma forte pneumonia, acabou falecendo depois de dias mal dormidos, sem comer e beber.

Shunrei jamais imaginaria que ele poderia voltar do pós-vida.

"Mestre, Shunrei, tomei uma decisão e espero que me perdoem. Vocês viveram por mim, agora é a minha de viver por vocês".

...

— Senhorita Schneider, espere! Senhorita Schneider!

A médica de nacionalidade russa, mas que crescera na China, parou para esperar o mensageiro que vinha gritando e correndo na sua direção.

— O que foi, Lee? Quer uma carona? Aquele brutamonte te expulsou também?

— Não, senhorita — negou ao parar diante dela, ofegante. — O Shiryu pediu para chamá-la. Disse que quer conversar sobre a sua proposta.

A mulher arregalou seus olhos claros e abriu um grande sorriso.

— Não está brincando comigo, né, Lee?

— Não sou do tipo que brinca com coisa séria, senhorita.

— O que estamos esperando então? Vamos voltar agora mesmo!

Fora a vez da mulher sair correndo de volta a residência.

— Ei, espere por mim, senhorita!

Os dois voltaram para a casa rapidamente. Era a primeira vez que a russa fora convidada a entrar, e o delicioso aroma de chá verde que adentrou suas narinas pareceu um convite de "boas vindas".

— Sentem-se, por favor — Shiryu pediu, educadamente, apontando o sofá. — Desculpe-me a indelicadeza de minutos atrás?

— Escute, Suynama, se estiver disposto a aceitar minha proposta de compra desse local, você pode me destratar o quanto desejar.

— Bem, eu ainda não disse que vou vender o templo — ele a informou, servindo uma xícara de chá e entregando nas mãos da médica, repondo o chá na xícara vazia de Lee.

— Mas, o Lee acabou de me dizer que você...

— Gostaria de conversar sobre a proposta — interrompeu a fala dela para completar. — Não significa que vou aceitá-la — complementou, servindo sua própria xícara e acomodando-se no sofá diante da mulher. — Estou aberto à negociação. Vamos "discutir" a sua proposta.

— Como assim? — ela o questionou, um tanto confusa. A princípio, sua proposta era bem generosa, não imaginava que o rapaz fosse ambicioso. Ou, talvez, fosse somente um joguete, para supervalorizar o lugar e fazê-la desistir. — Não gostou do preço que estou oferecendo?

— Antes de tudo, por favor, me chame somente de "Shiryu" — ele pediu com um sorriso sincero nos lábios.

— Certo, Shiryu. Faça-me então sua contraproposta.

— Eu já disse que esse lugar não tem preço que pague por ele, senhorita. Nenhum valor nesse mundo irá cobrir o valor emocional e as lembranças boas que aqui vivi. O Vale dos Cinco Picos não está mesmo à venda.

A médica pareceu murchar diante daquela informação.

— Eu não estou entendendo.

— Eu tenho uma contraproposta, sim, mas ela não é referente a valores. Graças ao Lee, que me fez pensar melhor no assunto, eu pensei em algo que pode ser bom para nós dois.

A médica não soube o que responder, olhou para os dois jovens e apenas esperou por aquela solução milagrosa.

— Eu posso ceder o lugar para que o use como clínica por um determinado período de tempo.

— Ah? Está me propondo um acordo de comodato?

— Se é esse o nome legal que se dá para essa situação, sim, é um acordo de comodato.

A médica suspirou, menos tensa. Era uma solução plausível, apesar de achar arriscado. Aquele acordo teria um tempo pré-determinado e depois desse período Shiryu poderia pedir de volta o templo e todo seu investimento seria perdido.

— Para falar a verdade, eu nunca pensei nisso, Shiryu. Pois terei que investir muito alto nesse lugar, na construção de quartos, banheiros, uma ala para terapia e sabe... todos os meus investimentos poderão ser perdidos no fim desse acordo.

— Bem, como eu disse, eu irei ceder o templo para seu propósito, não irei cobrar nada por isso a princípio. Basta apenas estipular o tempo necessário para que a clínica reembolse seus investimentos e dê o lucro que a senhorita deseja.

— Sabe, Shiryu, os meus propósitos não são ganhos materiais. Na verdade, minha família é bem abastada, e eu tenho uma herança bem significativa. O meu real intento é dar embasamento aos meus estudos. Eu pesquisei durante muito tempo e quando encontrei esse lugar, quando o vi com os meus próprios olhos, eu tive certeza que ele serviria para minha pesquisa. Então, o meu medo é somente que o nosso acordo acabe bem no meio do tratamento dos pacientes e eu tenha que remanejá-los de forma abrupta. Isso poderia até atrapalhar.

— Não sou o monstro que a senhorita está imaginando.

— Desculpe, estou apenas sendo realista da forma mais dura possível.

— Então, estipule o tempo necessário para sua pesquisa.

— Eu não tenho uma ideia de tempo adequado. Pode ser algo que dure dois, três anos, como ter a duração de dez, vinte, trinta anos. A doença mental é muito instável.

— Então, calcule um meio termo. Quando esse tempo acabar, não significa que eu irei voltar para cá, pedir o templo de volta e expulsar todos do nada.

— Espere, quando voltar? Significa que não estará aqui?

— Não.

— Desculpe-me se estou sendo invasiva, mas para onde pretende ir?

— Voltar para o Japão.

— Que surpresa.

— Estou sendo convocado para resolver assuntos os quais deixei pendente por lá. — Shiryu mostrou o telegrama entregue por Lee. — Depois disso, pensei em morar lá por um tempo. Rever meus amigos, concluir meus estudos e, quem sabe, fazer uma faculdade. Somente depois desse período eu voltaria para ver como as coisas estarão por aqui. Daqui uns sete ou oito anos. O que acha? É um bom período?

— Dez anos — ela contrapôs. — Eu levarei um ano ou mais com a construção do alojamento, depois disso, tem a contratação de funcionários, e por último a convocação de todos pacientes que participarão do programa.

Shiryu pareceu ponderar. Dez anos era muito tempo. Teria que fazer os três anos do ensino médio, depois teria quatro a cinco anos para concluir a faculdade. Gastaria em média de seis a oito anos com estudos, então, não estava fora da média.

— Estou de acordo — concluiu por fim. — Desde que eu não seja impedido de visitar o templo e até mesmo, passar um tempo aqui com os meus amigos, quando eu puder.

— Deixarei sua casa aqui como está e com alguém cuidando bem dela, para que venha quando bem quiser. Desde que não traga jovens arruaceiros para perturbar a paz.

— Não sou esse tipo de pessoa, senhorita Schneider.

— Chame-me de Elga. E você ainda é jovem. Irá conviver com outros da sua idade e ninguém garante que continuará sendo esse rapaz tão sensato — ela piscou um dos olhos e sorriu.

— Certo, Elga.

Shiryu ficou um tanto encabulado e sorriu de volta. Uma mulher sorrindo era quase como uma flor desabrochando, era impossível de não se admirar. Conseguiu até apreciar a beleza da médica pela primeira vez, ela tinha um belo corpo, os cabelos loiros, e olhos tão azuis quanto do amigo Hyoga.

Também não deixou de observar o sorrisinho malicioso que seu amigo Lee dava para eles.

— Bem, acho que estamos acordados por momento — ela demandou e levantou-se, devolvendo a xícara de chá na bandeja. — Que tal irmos a cidade a semana que vem, para deixarmos tudo registrado em cartório.

— Como quiser. — Shiryu levantou-se para acompanhá-la. — Não quer mesmo mais chá?

— Não, estou satisfeita. Obrigada, Shiryu — ela estendeu a mão para ele.

— Não por isso, Elga — ele correspondeu ao cumprimento, apanhando a mão dela na sua e selando o acordo com um firme aperto de mãos.

Lee pulou do sofá, sorrindo.

— Eu vou aceitar a carona agora.

— Certo, pequeno, vamos. Vou te pagar um belo almoço também.

— Sério?

— Claro. Merece até mais que isso.

— Obrigado, doutora! Tchau, Shiryu!

— Tchau, Lee. Bom almoço. Tchau, senho- ri-... digo, Elga.

Ela fez um meneio com cabeça, ainda com o sorriso brilhando em seus lábios e seguiu para porta.

— Até a semana que vem.

Shiryu acompanhou os dois até a saída. Depois que se foram, ele retornou para sala, acomodou-se no sofá e apanhou o telegrama do Japão, suspirando profunda e nostalgicamente.

— Finalmente irei revê-los. Seiya, Shun, amigos.

...

Seiya folheava a página de anúncios do jornal quando a campainha começou a tocar. Levantou-se de sobressalto, deixando o jornal de lado, já sabia de quem se tratava, naquela última semana seu senhoril o incomodava todos os dias naquele mesmo horário.

— Merda! — praguejou, crispando os punhos ao parar diante da porta. — Esse velho sabe ser pontual — comentou para si mesmo, segurando a maçaneta, hesitante. Mas sabia que se não o atendesse, o senhor Ryuuzaki iria fazer o maior escândalo. Por isso era obrigado a atendê-lo. Fechou os olhos, respirou fundo e abriu a porta, respondendo muito mal-humorado. — Escuta aqui, Ryuuzaki-san, eu já disse que vou arrumar o dinheiro do aluguel, me dê mais um tempo, por favor.

Após gritar isso, ele bateu a porta de forma estrondosa.

— Certo, agora, onde eu larguei o jornal mesmo?

A campainha voltou a tocar.

— Ah? — Largou os ombros. — Só nos meus sonhos ele iria se dar por vencido e ir embora sem me dar um sermão antes.

Voltou a abrir a porta.

— Certo, certo, Ryuuzaki-san, pode me dar a bronca do dia.

Mas aquela silhueta magra, a roupa em estilo chinês, o perfume agradável, sem o cheiro comum de cigarros, não poderia vir do seu senhoril. Ergueu a cabeça e sua boca se abriu ao deparar-se com aquela pessoa.

— É assim que você recebe um velho amigo, Seiya?

Não conseguiu responder de imediato, seus olhos marejaram e quando se deu conta, estava abraçado aquela figura imponente, de longos e sedosos cabelos negros, que se detivera na entrada da sua porta.

— Shiryu, Shiryu... Eu não estou sonhando? É você mesmo, não é?

— Seiya... — Shiryu sentiu lágrimas brotarem nas margens dos seus olhos e não resistiu correspondeu ao abraço. — Sim, sou eu mesmo, meu amigo. Por favor, não chore. É vergonhoso.

— Mas você também está chorando.

— Eu não estou.

— Está sim, Shiryu.

...

Na área residencial de Tóquio, a campainha do apartamento da família Kanamoro tocou.

— Já estou indo, estou indo.

Kallya saiu da cozinha e foi atender a porta. Imaginava ser o sindico ou algum vizinho, pois não houve anúncio de visitas pelo interfone.

— Sim? — ela perguntou, assim que abriu a porta, ficando um tanto surpresa com aquela pessoa de aparência deslumbrante e tão incomum. — Um estrangeiro?

— Ohayo — ele a cumprimentou, com meneio bem breve de cabeça. Seu tom de voz era grave e agradável. Além disso, ele parecia saber japonês. — Perdoe-me a intromissão, mas, por um acaso, é aqui que mora Shun Amamya?

— Ah? — Kallya franziu o cenho. Era um conhecido de Shun? Como nunca o vira antes? "Será que esse seria o famoso...?". — Sim, é aqui sim, por favor, entre — respondeu um tanto vacilante, abrindo caminho para que ele passasse e fechando a porta em seguida.

Só então Kallya notou que o rapaz trazia uma grande bagagem, como se tivesse acabado de chegar de viagem: uma mochila nas costas e duas sacolas grande nas mãos. Não podia estar enganada, certamente era ele.

— Eu acho que sei quem você é — assentiu ela, abrindo um grande sorriso para o homem loiro. — Eu vou apressar o Shun. Aguarde aqui um momento, por favor.

— Sim, mas...

A bela jovem que o atendeu saiu rapidamente. Não conseguia entender como ela poderia conhecê-lo, ser era a primeira vez que se viam. Apesar de imaginar que Shun talvez tivesse falado dele para ela.

No quarto, Shun estava se vestindo, quando Kallya invadiu sem bater, deixando-o constrangido. Havia acabado de sair do banho e estava somente com a roupa debaixo.

— Shun, você não vai acreditar em quem em está... — ela interrompeu a fala, ficando completamente ruborizada ao perceber o amigo somente de cueca. — Shun, o que é isso? — perguntou e ligeiramente virou de costas.

— Você é quem entrou sem bater, Kally-chan — justificou ele calmamente, vestindo a calça de moletom cinza que estava na cama e cobrindo o peito desnudo com uma camiseta branca. — Pronto, pode olhar.

— Desculpe-me? Eu entrei tão afobada que acabei me esquecendo de bater.

— Não tem problema. Quem está aí?

Ela virou-se para ele e abriu um grande sorriso.

— Eu acho que é o seu irmão.

— O Ikki? — Shun estranhou. Simplesmente não poderia ser, reconheceria a presença de Ikki a quilômetros de distância. Mas bastou se concentrar e mesmo o visitante tentando esconder seu cosmo, ele o reconheceu e sorriu. — Não é meu irmão, mas é um amigo querido.

Kallya franziu o cenho.

— Como tem certeza se ainda não o viu?

Shun sorriu, estreitando os olhos e inclinando a cabeça para o lado, daquele jeito fofo, que fazia Kallya ter vontade de apertar o amigo em seu peito até sufocá-lo.

— Eu apenas sinto.

— Você e esses poderes bizarros.

Os dois sorriram e ela o puxou pelo punho.

— Espere, Kally-chan. Eu ainda não penteei os cabelos.

Entraram na sala e ela apontou o visitante.

— Aí está ele.

Os dois amigos se encararam por um tempo, sorrisos leve permearam seus lábios, olhos brilharam por causa das lágrimas, sem dizer uma palavra, seguiram ao encontro um do outro e se abraçaram. Kallya apenas acompanhou em silêncio. Mas sentiu algo apertar seu estômago quando viu eles se separarem e o rapaz loiro segurar o rosto de Shun tão delicadamente entre suas mãos.

— Você está bem, Shun?

— Muito — respondeu sincero, abrindo um grande sorriso. — Melhor agora em revê-lo, meu amigo.

Hyoga sentiu seu coração disparar, amava desmedidamente aquele sorriso.

— E você, Hyoga?

— Agora estou melhor.

Kallya viu eles se afastarem, ainda sorrindo um para o outro, de um jeito que ela nunca vira Shun sorrir antes. Talvez, fora da mesma forma que ele sorriu quando reencontrou aquele outro rapaz, há alguns dias atrás, o simpático Seiya. Mas havia algo a mais com aquele ali, algo que ela não sabia identificar ainda.

— Kally-chan, esse é Hyoga Alexei Yukida — Shun apresentou o amigo formalmente. — Um dos amigos com quem convivi no orfanato. Ele é mestiço com russo. Hyoga, essa é Kallya Kanamoro, atriz e filha do diretor Soujiro Kanamoro, para quem eu trabalho.

A atriz saiu do transe momentâneo ao ver o amigo mestiço de Shun curvar o corpo para frente e responder apresentação da forma tradicional japonesa.

— Prazer em conhecê-la, senhorita Kanamoro. Obrigado por tomar conta tão bem do Shun.

— Não precisa de tanta formalidade. Só "Kallya" está bom, Yukida-kun — disse, sorrindo gentilmente para o rapaz loiro.

— Certo, Kallya. Então, por favor, é só "Hyoga" também.

— Certo, Hyoga. Mas... — Ela cruzou os braços, adotando uma pose pensativa por um instante. — Estou intrigada, tinha quase certeza que era o seu irmão, Shun. Afinal, você me disse que ele não se parece em nada com você e tem os olhos azuis.

— Mas eu disse que meu irmão tem os cabelos escuros.

— E uma marca muito particular — acrescentou Hyoga, apontando o dedo indicador para a região entre seus olhos — Uma cicatriz entre as sobrancelhas, bem aqui, que o deixa com uma expressão assustadora, bem estilo homem mal.

Shun meneou a cabeça negativamente, achando desnecessário os adjetivos "expressão assustadora" e "homem mal" ditos pelo amigo. Em contrapartida, a jovem atriz pareceu mais interessada.

— Parece que o Hyoga conhece seu irmão melhor que você, Shun.

Hyoga ficou envergonhado.

— É, parece que sim, Kally. E só em pensar que os dois já tiveram seus atritos no passado...

— Ei, esperem, não é assim também.

Os três deram uma grande e divertida risada. Em seguida, Kallya pediu para que se acomodassem na sala enquanto ela voltava para cozinha, disposta a preparar um grande banquete de almoço para a visita do amigo.

...

De volta ao quarto no Cais do Porto, Seiya havia explicado para Shiryu sobre o conteúdo do telegrama, a partida de Miho e como sua situação estava bem precária naquele momento. O amigo chinês, por sua vez, explicou sobre o acordo de comodato do templo de seu mestre e da sua intenção de terminar os estudos ali no Japão.

— Então, você está mesmo disposto a viver aqui, Shiryu?

— Sim. Pelo menos, até o tempo do acordo findar, daqui uns dez anos.

Seiya abriu um largo sorriso diante daquela informação. Shun havia acabado de ligar dando outra ótima notícia: Hyoga havia acabado de chegar no país e estava com ele, no apartamento do diretor Soujiro. Melhor do que isso, Hyoga também voltara com a intenção de ficar. Tudo estava caminhando de acordo com o plano que imaginara: o de viverem juntos como uma família na residência da antiga fundação. Porém, ainda restava uma peça muito importante daquele quebra-cabeça, a peça que certamente era um grande empecilho. Seu sorriso diluiu-se.

Restava Ikki, e se bem o conhecia, ele certamente não iria aparecer.

...

Diante da porta do apartamento dos Kanamoro, um novo visitante buscava reunir forças para tocar a campainha enquanto ouvia as conversas e risadas altas dentro do lugar.

— Eu não posso — determinou por fim, recolhendo a mão e crispando-a em punho. — Shun está morando em um lugar incrível. Eu não posso tirá-lo desse conforto para trazê-lo para viver uma vida miserável comigo. Eu não tenho nada para oferecer, mesmo depois de passar meses trabalhando como um louco na reconstrução da ilha de Khar. Eu jamais vou conseguir dar a vida digna que ele merece — finalizou, dando as costas para a porta do apartamento e encarando seriamente o elevador que acabara de abrir.

Kallya, que havia descido para comprar alguns ingredientes que estavam faltando para o almoço, seguiu de encontro aquele homem, que nunca vira por ali antes. Franziu o cenho com a aproximação dele. Ele tinha uma expressão mal-encarada, foi quando aquele detalhe praticamente saltou nas suas vistas, chamando atenção: olhos azuis gateados e uma cicatriz entre as sobrancelhas?

Ikki estava seguindo em direção ao elevador que ainda estava aberto, quando foi abordado pela garota que saíra dele.

— Espere, eu posso te ajudar?

— Não, obrigado, estou de saída — respondeu ele, rudemente.

— Espere! — ela pediu novamente, impedindo o estranho de seguir com aquele gesto ousado, de segurá-lo pelo braço. — Eu sei quem você é. Digo, agora eu sei que é você. Seu nome é Ikki Amamya, não é? Está procurando seu irmão, Shun Amamya, não é isso? Se for, está no lugar certo. Ele está morando no nosso apartamento e...

O elevador fechou. Ikki ficou irritado. Encarou aquela garota intrometida com um olhar feroz e puxou o braço de volta de maneira brusca. Havia sido descoberto, precisava agir rápido. Olhou ao redor e a única forma de escapar que encontrou foi uma janela no fim daquele corredor. Saiu correndo em direção à ela.

— Ei? O que foi? Espera! Aonde está... — ela arregalou os olhos e gritou com toda força em seus pulmões ao vê-lo ir de encontro com a janela fechada. — Nãooooooooo!

O grito de Kallya, o barulho do vidro estilhaçado e logo Shun e Hyoga apareceram, reconhecendo de imediato o cosmo que havia se ascendido.

— Para onde ele foi? — perguntou Shun para Kallya que estava em polvorosa agachada no chão, as mãos na cabeça, lágrimas transbordando dos olhos.

— Eu não sei o que aconteceu, Shun. De repente, ele pulou...

Mas mal Kallya terminou de explicar e Shun correu na direção da janela quebrada, apoiou o pé no parapeito, e não pensou duas vezes em atravessar a janela que ainda tinha resquícios de vidros em um salto.

— Hyoga, tome conta da Kally-chan, por favor!

— Espere, Shun, o que você vai...

— Kallya, olha para mim — Hyoga pediu, segurando-a pelos ombros e fazendo-a virar para ele. — Nós temos habilidades especiais. O Ikki não se jogou pela janela com a intenção de se machucar, ele está bem, acredite. E o Shun também vai ficar.

Mas a atriz só acreditaria vendo aquilo com seus próprios, então ela se levantou desajeitada e correu até a janela quebrada. Os vizinhos saíram para o corredor querendo entender o que era aquela algazarra.

— O que houve? Como essa janela se quebrou?

Kallya não conseguia acreditar naquilo. Não havia mesmo ninguém caído lá embaixo, e ao longe ela viu algo impressionante, parecia os cabelos e a roupa que Shun vestia, ele estava correndo sobre o teto das casas vizinhas. Mais ao longe, viu outro homem correndo da mesma forma, parecia Ikki. Logo eles despareceram de vistas.

Shun não havia mentido sobre aquela história de cavaleiros? Eles eram mesmo guerreiros que possuíam uma força sobre-humana?

...

Shun corria desesperadamente atrás do irmão, não entendia porque ele estava fugindo.

— Espere, Ikki! Por favor, espere! Ikkiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Viu quando o mais velho pulou em um beco, entre dois prédios grandes, sabia que aquele lugar era sem saída. Pulou na mesma direção e finalmente o encurralou. Ikki estava parado, respirando ofegante. Então, ele se rendeu, largou os ombros e se voltou para o caçula.

— Shun?

Seus olhares se encontraram.

— Ikki...

Os dois ficaram frente a frente, encarando-se paralisados. Permaneceram naquela postura por algum tempo, até que Ikki decidiu quebrar o silêncio.

— Você cresceu, Shun.

Continua...

Revisão e Suporte de roteiro: Naluza.

Escrito originalmente em: 09.07.2007

Versão revisada: 08.04.2015