Cap XIII – Imortal

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."

-

Eu nunca tinha sentido nada como aquilo antes. Nunca, nada. De verdade, nem parecido.

Era como ficar completamente acordado por dias, trancado no escuro e depois ver uma fresta de luz brilhante que bate dentro do seu olho e ilumina até a sua alma. Isso é mais ou menos o que eu acho que é o amor. E se não é, acho que serve como uma boa metáfora.

Talvez não seja, mas foi o que eu senti quando acordei de manhã e lembrei que se corresse talvez conseguisse ficar com Lily bastante tempo antes de dizer aos meus pais que moraria na biblioteca se eles não aceitassem se mudar. Moraria na soleira da porta dela até fazer dezoito anos e poder casar.

- Aonde você pensa que vai? – mamãe perguntou me parando na porta do apartamento. Olhei para ela com as sobrancelhas levantadas.

- Eu vou ver a Lily já que vocês acham que vão me levar embora hoje. – respondi me virando para sair outra vez.

- James, volte aqui. – ela falou com a voz anormalmente calma.

Girei nos calcanhares e escorei no batente da porta com pouco caso.

- Estou aqui.

- Seu pai saiu para resolver algumas coisas e eu preciso de ajuda aqui. Não vai sair não. Pode, por favor, me ajudar a fechar as malas e arrumar o quarto?

Suspirei e revirei os olhos, sem entender o porquê de tudo aquilo.

- Claro. – respondi contrariado, embora minha vontade fosse gritar 'não' com todas as minhas forças. - Claro que posso.

-

O quarto estava exatamente como estivera quando entramos nele pela primeira vez há pouco mais de duas semanas atrás. Limpo e com todas as almofadas nos lugares corretos, nada fora do lugar, pareci que ninguém havia estado ali, nunca.

Por que tínhamos que fazer aquilo? Não sei. Provavelmente para me irritar até a morte. Ou para me matar de desgosto.

Sentei na cama e tirei o trabalho da bolsa. Tinha me preocupado tanto em ficar perto de Lily não importando o que ela falava, que acabei tendo base para fazer do meu aglomerado de rabiscos o melhor trabalho sobre Shakespeare que McGonagal já vira. E mesmo sabendo que eu tiraria um A, não me importava com isso. Parecia sem sentido, comparar uma nota alta com a perda dela.

Mordi o lábio inferior e passei a mão pelo cabelo com nervosismo. Papai já deveria ter chegado para me liberar de assisti-los fazendo ritual das malas. Infelizmente as nossas malas.

Levantei da cama tão rápido como se tivesse levado um choque quando a porta se abriu e papai entrou. Sorriu amigavelmente para mim e eu retribui do jeito que consegui, com um sorriso enviesado.

Ele foi direto até mamãe e cochichou alguma coisa no ouvido dela.

- Pode ir, Jamie. – ela falou meio segundo depois, com um sorriso ofuscante.

Nem me despedi.

Lily estava me esperando na escada da biblioteca, como se nós tivéssemos marcado ali. Sentei ao lado dela e segurei sua mão, esperando que ela falasse alguma coisa, qualquer coisa.

- Eu vou sentir saudade de você. – ela murmurou sem me olhar, parecendo falar para ela mesma.

- Se você começar a se despedir eu vou achar que quer que eu vá embora mesmo. – murmurei em resposta, beijando os cabelos vermelhos dela.

- Tudo que é bom sempre acaba? – ela perguntou se virando para mim e olhando dentro dos meus olhos, como se desse jeito pudesse ler a minha alma e saber de tudo que se passava no meu coração.

- Espero que não. – comentei sorrindo levemente. – Lago? – perguntei levantando e estendendo a mão para ela.

- Eu te vi nadando lá há algum tempo... – ela falou como se tivesse se lembrado de repente. – Outro dia, não aquele em que a gente se falou.

Lembrei dos barulhos estranhos e da sensação de que era observado... Eu não estava errado afinal de contas. Estava sendo observado do mesmo jeito que a observara: escondido, com medo de que ela percebesse e pudesse me julgar por qualquer coisa.

- Eu também te vi, só que no dia em que a gente se falou. Quando eu cheguei você já estava lá. – confessei olhando para ela de soslaio. – Quer ir correndo?

- Claro. Assim chegamos mais rápido...

Demos as mãos e corremos, desviando dos poucos que passavam na rua, nos julgando dois loucos que não tinham mais o que fazer.

-

Era exatamente como no sonho.

A grama reluzia enquanto nós corríamos em direção ao lago brilhante totalmente vazio. Só tinha uma coisa errada. No sonho não acabaria nunca e no real acabaria daqui a algumas horas.

- Eu aprendi tanto com você nesses dias que nem se te ensinasse tudo que sei seria um pagamento bom o suficiente. – falei para meus pés. - E eu nem sei se eu sei coisas o suficiente. Nem se eu sei algo que você não sbae, na verdade.

- Eu também aprendi muitas coisas com você. – ela falou. Eu olhei cético para ela, com uma sobrancelha erguida. – É verdade! – ela continuou. – Eu aprendi a diferenciar um sentimento qualquer do amor.

- Amor... – murmurei sentindo uma pedra de gelo descer pelo meu estômago.

Lily colocou a mão sobre a boca outra vez com uma cara perplexa, assustada por ter dito aquilo em voz alta.

- Desculpa, não foi um comentário feliz.

- Não, foi sim. – assenti. – Porque é a verdade. Eu amo você. – falei beijando-a como se o mundo fosse acabar depois daquilo. Além de desejo, medo e desespero construiam o beijo. Medo de que tudo realmente acabasse e desespero por me imaginar longe dela. Parecia que nós ns conheciamos a anos, décadas, séculos.

- Espero que você consiga terminar o trabalho direito. – ela mudou de assunto andando para o píer e sentando em seguida, sem os sapatos para colocar os pés na água fresca.

- Eu posso te ligar se tiver duvidas? – questionei sentando também.

Eu teria a Internet, mas ela não substituiria o som da voz de Lily. Não seria a mesma coisa, nem de longe seria.

Tinha se tornado quase uma dependência psicológica ouvir as palavras dela. Uma coisa que meu corpo precisava bem mais que os beijos. E isso só poderia significar duas coisas: que eu a amava mesmo ou que eu tinha virado gay. E eu aposto todas as minhas fichas no número um.

- Claro. Pode vir me visitar também.

A cada segundo eu a visitaria nos meus sonhos.

- Claro! – assenti como se ela fosse louca por achar que eu não a visitaria. - Sempre que der, mesmo que eu tenha que fugir de casa.

Ela sorriu e me abraçou, bagunçando meu cabelo já bagunçado pelo vento.

Ficamos sentados ali por horas, a água tremendo por causa das batidas ocasionais dos pés de Lily e o sol tímido sobre nossas cabeças.

Nenhum soneto de Shakespeare conseguiria traduzir o que eu sentia no momento. Um sentimento de impotência por saber que eu iria embora e não ter como contornar isso. Não poderia fugir de casa e me esconder sob a janela dela, embora fosse um plano tecnicamente bom.

Queria ligar para Remus e Sirius, os fugitivos, e saber se eles não conseguiriam me ajudar, enrolando meus pais ou até mesmo tentando convencê-los a me deixar ficar. Mas era uma luta perdida.

O sol começou a se afastar, dando a entender que se esconderia em uma ou duas horas quando meu celular tocou em cima da madeira fria do píer e quase se precipitou para dentro do lago. Já tinha tocado uma quatro vezes quando Lily percebeu que eu não atenderia. Sorriu para mim e pegou o celular.

- Alô. Não, não é o James. Claro... Eu falo para ele sim. Tchau tchau. – e me devolveu o telefone como se costumasse atendê-lo sempre que eu estivesse ocupado. – Sua mãe pediu para você ir para o hotel. Vocês já vão... – ela completou, levantando com as sandálias na mão e saindo.

Tive ganas de arremessar o celular no lago.

- Me espera... – pedi indo atrás dela.

- Pra sempre. – ela assentiu sem se virar nem parar de andar.

- Não... Eu vou te levar em casa. – corrigi sorrindo e segurando-a pela mão.

- Não precisa. Você vai se atrasar. – falou com a voz firme, embora parecesse à beira das lágrimas. Me beijou uma última vez e se virou de novo, começando a andar vagarosamente para casa.

Chutei uma pedrinha no caminho e passei a mão pelo cabelo, tentando guardar cada milésimo de segundo que passei com Lily na minha memória, cada palavra, cada toque. O caminho para o hotel poderia ser feito em cinco minutos, mas parecia que alguma coisa não me deixava andar, me puxando para trás a cada passo. Demorei quase vinte minutos para alcançar a entrada do hotel, amaldiçoando o fim das férias como se fosse uma pessoa que matara as minhas esperanças mais profundas de viver feliz.

Entrei no carro e bati a porta com força, querendo estar do lado de fora acenando adeus para meus pais e não para a Lily. O fato de ela não ter deixado que eu a levasse em casa fazia meu coração doer ainda mais. A partir daquele instante, eu era só uma memória, uma lembrança que não ia voltar.

- Não tem geladeira em casa não? – meu pai perguntou todo sorridente, entrando no carro e dando a partida.

Não respondi e grudei o nariz na janela.

O carro fez o retorno e entrou no vilarejo pela avenida principal. Franzi minha testa levemente... Eu não sabia que tinha saída pelo outro lado, mas ok.

O caminho até a biblioteca que eu demorava quase vinte minutos para vencer a pé foi feito em pouco mais de cinco minutos. Cinco agonizantes minutos. Se a intenção do meu pai era passear pela cidade para me fazer entender o que eu estava deixando para trás e me fazer sentir pior do que eu estava sentindo, parabéns para ele, tinha conseguido com sucesso.

Viramos a direita na rua de Lily e papai freou com brusquidão de repente e tamborilou os dedos no volante, rindo da minha cara perplexa que ele encarava pelo retrovisor.

- Chegamos.

Pestanejei e olhei pela janela. A casa rosa da Lily estava bem ao lado de uma casa branca que tinha uma placa enorme de "vendida". Meu coração falhou uma batida e depois começou a bater desesperadamente.

Desci do carro e fiquei parado em êxtase contemplando a casa. Era um número antes da casa de Lily e era linda.

- Gostou? – mamãe perguntou colocando a mão no meu ombro com inocência. – Acho que você vai apreciar a vizinhança. – falou apontando para alguém que espiava pela janela.

A pessoa sumiu e de repente eu me vi abraçando uma massa de cabelos vermelhos cheirosos. Algumas lágrimas molharam a minha camisa, mas eu nem me importei, só continuei abraçando Lily como se a gente não se visse há séculos.

- Esperou muito? – perguntei depois de um beijo particularmente longo. Ela riu.

- Minutos agonizantes.

-

Depois de tudo,meus pais acabaram confessando que já queriam morar ali por muito tempo. E que eu era o único empecilho... Passado isso, mudança garantida. Mudamos alguns dias depois, com quase nada praticamente; já que papai brincou que deixaria a nossa outra casa inteira caso eu quisesse me mudar quando eu e Lily brigássemos.

O que não vai acontecer novamente, claro.

Passei os dias tentando convencer meus pais a deixarem o melhor quarto da casa para mim. Não à toa, claro, já que além de ser o melhor, ainda possuía a vista mais perfeita de todas. Não, não tinha a vista para o pôr-do-sol perfeito de Hogsmead. Muito menos para o nascer.

Tinha a vista privilegiada da janela da Lily.

-

Sentimentos são uma merda. Sim eles são.

São capazes de te tirar do chão com um simples olhar, um simples toque de carinho, um sorriso puro e até mesmo uma palavra doce.

São aquele tipo de coisa que te deixa feliz até mesmo quando deveria estar triste. Mais ou menos quando você ganha um presente horrível, mas só pelo fato da pessoa ter te dado um presente já foi como ganhar o dia.

É isso que os sentimentos são. Uma merda.

Mas alguém vive sem eles?

"Nem mesmo os amores mais verdadeiros são eternos... Mas todos eles são lembrados por quem amou."

Captivated by the way you look tonight the light is dancing in your eyes
Your sweet eyes ,
Times like these we'll never forget ,
Staying out to watch the sunset ,
I'm glad I shared this with you ,
You set me free ,
Showed me how good my life could be,
How did you happen to me?

There are no secrets to be told,
Nothing we don't already know,
We've got no fears of growing old ,
We've got no worries in the world .

No Worries

McFly

FIM

Ene/A: O fim de mais uma fic. OBRIGADA a quem acompanhou, comentou e gostou da fic. Vocês são muito importantes pra mim. /abraça/ Não esqueçam de comentar no ultimo capitulo, ok? Não fechem a janela sem dizer pelo menos 'que bom que acabou essa porcaria'.

ps: Eu vou postar uma fic nova "Desenhos, por J.P." e o primeiro capitulo de outra fic, "Banana Split". 'Desenhos' já está terminada, "Banana Split" tá com bloqueio, então me ajudem com ela, ok? Eu sei que confundi vocês com a Ene/A de "Sine Die", mas o que eu quis dizer é que eu comecei a escrever aquilo pra me livrar do fantasma do meu 'namoro' que havia terminado (exatamente pelo motivo que está na fic). Espero que vocês leiam as três fics e NÃO ME ABANDONEM!

OBRIGADA por terem acompanhado!

BEIJOS Corações!! Nos vemos em Sine Die, Desenhos,porJ.P. e Banana Split! Vou esperar por vocês!