At Your Side

Capítulo 64

Eu nunca prestei atenção às aulas de literatura na escola. Nem muito menos James. Ele costumava ficar sentado na primeira carteira, perto da janela, para ter uma visão panorâmica de Lily Evans. Eu, pelo contrário, ficava no fundão, jogando papel na cabeça da galera.

Eu lembro exatamente o dia em que ele me disse que gostava dela, que faria qualquer coisa para namorá-la, mesmo que tivesse que plantar bananeira para chamar atenção da garota que só o recebia com patadas e um monte de negativas. Eu fiquei meio chocado quando fiquei sabendo disso, pois James era tão mulherengo quanto eu.

Bem... James realmente investiu de todas as formas para chamar a atenção de Lily. Acho que o ápice do desespero em conquistar a ruivinha foi quando meu melhor amigo me informou que havia caído dentro da lixeira ao rever a garota da qual sempre foi apaixonado. E, por incrível que possa parecer, essa cena ridícula deu muito certo. Não é à toa que eles acabaram de se casar.

10 anos depois.

Ele estava diante do espelho, tentando ajustar os óculos novos no rosto. A armação era preta e grossa, mas as lentes eram a última atualização do grau que não parava de aumentar conforme ele ficava mais velho. Os óculos ficavam bem em seu rosto, mas dava uma súbita ânsia de vomito, algo que ele detestava quando se via diante de mais um par de lentes que tinha como falso objetivo ajustar sua visão. Conforme o tempo passava, mais o grau aumentava. Era anormal, como Petúnia gostava de dizer, mas a última vez que ignorou a necessidade de lentes novas, caiu da escada e ganhou de lembrança um braço fraturado.

Estranhando o novo grau das lentes, ele tirava e colocava os óculos de volta no rosto, com uma expressão nada feliz. Ele resmungou baixo, pois não tinha outro jeito para enxergar melhor se não fosse com os óculos. E ele não estava nem um pouco a fim de ter o braço engessado pela segunda vez. Ele encarou a armação do artefato como se fosse um bicho de sete cabeças. Não havia meio termo. Se optava por colocar os óculos, conseguia enxergar muito bem, se o tirava, tudo se tornava um borrão, sem possibilidade de definir o que estaria diante de seus olhos.

Soltando um muxoxo, ele colocou os óculos e não os tirou do rosto. Fitou sua figura no espelho e fez uma leve careta. Ele parecia àquelas crianças nerds dos seriados que costumava assistir com sua mãe. A única diferença é que ele não se dava tão bem nos estudos, pois passava metade do tempo envolvido em encrencas, sendo visitante constante da sala do diretor. Ele já perdera as contas de quantas vezes sua mãe havia ido até a escola, mas era mais forte que ele resolver as pendências no horário de aula ou no recreio.

Já conformado com os óculos, ele começou a duelar com os cabelos rebeldes. Com eles, também não havia meio termo. Os fios eram negros, espessos e não se aquietavam, por mais que tentasse. Nem gel era capaz de alinhá-los, pois, em poucos segundos, já estavam espetados para todos os lados. Por mais que desse tapas na cabeça ou forçasse o toque das mãos nos cabelos, afastando-o para os lados, os fios se mantinham insistentemente em pé, como se ele estivesse o tempo todo de cara com um tornado.

Com os cabelos e os óculos quase nos conformes, ele verificou se a roupa estava bem alinhada. Enquanto ajeitava a gola da camisa, ele conseguia ouvir barulho de conversa no andar de baixo e risadas escandalosas. Era fácil reconhecer a voz de Alice, sonhadora e bizarra, que lhe rendia risos que doía até nas costelas. Sempre que o encontrava, ela não perdia tempo em relatar histórias surreais, sem contar a mania de cantar e dançar, sozinha, sem a companhia de uma música. Ele se acostumou fácil à presença de Alice, ainda mais por passar bastante tempo na casa dos Longbottom enquanto seus pais estavam no trabalho.

A segunda voz que ouviu era de sua mãe. Ela ria alto, provavelmente, por causa de alguma história mirabolante de Alice, campeã em viajar na maionese. Um sorriso se esvaiu dos seus lábios, ainda com os olhos presos no espelho. Ele apurou o tilintar de pratos e copos, e a batida de uma melodia baixa. Pelas guitarras e baterias, deveria ser alguma banda de rock, gênero musical que Sirius gostava muito. Ele tinha uma boa audição, algo muito normal quando se é criança. Pelo menos, era o que seu pai dizia. Sua professora favorita afirmava que ele não era muito bom em fazer decorebas, mas era um bom observador, algo que o ajudava a tirar boas notas nas provas. Já o professor que mais odiava, falava que ele era tão burro quanto seu pai.

Ele nunca conseguia entender onde Snape queria chegar, mas nunca falou com sua mãe sobre isso.

Um sorriso brotou dos seus lábios quando os óculos escorregaram para a ponta do nariz. Ao olhar seu reflexo com mais cautela no espelho, achou que estava bem arrumado. Pelo menos, se sentia bem, algo que Remus sempre lhe dizia quando não fazia a mínima ideia do que vestir. Ele era desencanado com suas roupas, mas sempre aparecia elegante e a namorada dele não parecia se importar muito. Marcela sempre o elogiava, então, isso queria dizer que a roupa de Remus não importava. Então, a dele também não importava, pois ele era legal e sabia demonstrar afeto.

Sem saber muito o porquê, ele sorriu para o espelho e ergueu os dois polegares para seu reflexo, aprovando o visual. Os olhos verdes, vívidos e chamativos, brilharam devido à ansiedade que começou a sentir. A casa estava cheia, pois aconteceria uma pequena festa de aniversário e ele adorava esta data comemorativa. Os doces feitos pela sua mãe eram ótimos, os amigos da família sempre apareciam e desembrulhar os presentes sempre era a melhor parte. O dilema é que a festa não era sua, mas seu pai não o proibiria de abrir um pacote, só para ter a sensação de rasgar o papel de presente. Ainda mais se os embrulhos pertencerem à Alice, que sempre soltava uma exclamação indignada ao afirmar que levou horas para embalá-lo. O que era uma mentira de acordo com Frank, pois dona Augusta era quem gastava horas para empacotar os presentes perfeitamente.

Parecia que tinha demorado horas para se arrumar e admirou o fato da sua mãe ainda não ter surgido no batente na porta para saber se ele tinha se afogado na banheira ou qualquer coisa parecida. Ele gostava de demorar no banho e sempre saia a muito custo, quando sua pele já estava toda enrugada. Além de jogar videogame com Sirius e passar a outra parte do seu tempo na casa da família Weasley, era legal brincar com réplicas de super-heróis na banheira e fazer um combate imaginário na água, repleta de espuma.

Ele estava absorto em pensamentos quando foi atraído por passos pesados na escada. Pela pressa, sua mãe deveria ter mandado alguém para checar se ele havia sobrevivido a mais um duelo épico com seus brinquedos. Mesmo depois de 10 anos, sua mãe ainda o tratava como um bebê. Não que se importasse, pois adorava ser mimado, mas, às vezes, gostava de se sentir independente, como Sirius. Talvez, sua mãe tenha percebido isso, ao deixá-lo por bastante tempo sozinho para se aprontar.

A porta do seu quarto foi aberta com certa brutalidade. Um rosto redondo, com as bochechas rosadas por causa do esforço da subida, surgiu pela fresta. O garoto, rechonchudo e de olhos leitosos, aguardou alguns segundos para recuperar o fôlego para começar a falar.

- Sua mãe falou para você descer, Harry - o menino puxou o ar com dificuldade, segurando a garganta. Parecia que ele teria um ataque de asma.

- Ela até que demorou dessa vez - disse Harry, sorrindo, ao ver o estado do seu amigo.

- Ela quer que a gente coma alguma coisa antes de nos empanturrarmos de doces. Minha vó fez uma torta holandesa maravilhosa e eu não vejo a hora de comê-la.

Harry riu ao ver o garoto umedecendo os lábios com a língua, provavelmente imaginando o momento em que degustaria a torta. Antes de descer do banquinho que o sustentava, ele deu uma última olhada no espelho e passou as mãos pelo cabelo, na esperança que eles ficassem baixos com um passe de mágica. Desistente, ele colocou os dois pés no chão e se aproximou do garoto que ainda estava em transe pela torta holandesa.

- Vamos nessa!

Os dois meninos saíram do quarto e desceram as escadas na maior baderna. Eles brecaram o passo e pararam de rir ao verem uma figura feminina na ponta da escada, com as mãos na cintura e o cenho enrugado.

- O que eu disse sobre descer as escadas correndo? - perguntou Lily, com um tom de voz ameno.

- Para não fazer isso... - sussurrou Harry, coçando o dorso do nariz. - Porque eu quebrei o braço no mês passado e tudo mais.

- Exato! - ela foi até o garoto e lhe dera um beijo na testa. Ela ignorou a careta que Harry fez quando a ruiva bagunçou ainda mais seus cabelos. - Tomem cuidado com os degraus, especialmente você, Neville. Sua mãe ficará maluca se você cair. Sabemos que ela é ótima em fazer histerismo.

- Ok! - Neville meneou a cabeça positivamente, um pouco embaraçado.

Lily sorriu amorosa para o garoto e lhe deu um beijo no topo da cabeça. Neville era seu afilhado e ela compartilhava um afeto muito grande por ele.

- Vamos para a cozinha. Acho melhor vocês comerem alguma coisa antes de se entupirem de guloseimas. - Lily caminhava para a cozinha enquanto falava, com os garotos nos calcanhares. - Façam um esforço, ok?

Os meninos entraram na cozinha e ficaram com água na boca ao verem os doces coloridos, distribuídos em bandejas prateadas, sendo muito bem vigiadas por Marlene e Sirius. Harry e Neville ocuparam as cadeiras vazias da mesa, já que as demais estavam sob o comando de Alice e Frank, que enchiam dúzias de bexigas coloridas, amarrando as pontas em um extenso barbante.

Harry viu o bolo de aniversário do seu pai no centro da mesa, muito convidativo. Reconheceu o toque da mãe que ultimamente estava se saindo muito bem como confeiteira. Ela havia vendido alguns doces para a loja que tinha na vizinhança e começou a lhe dar uma mesada por bom comportamento com o dinheiro extra. Não que fosse um problema, como diria Sirius sobre o fato dos seus pais ganharem bem, mas James e Lily só queriam ensiná-lo o valor do dinheiro. Se se comportasse, receberia a mesada, caso contrário, ficaria sem. Ultimamente, ele não tinha visto a cor do dinheiro. Draco Malfoy era o grande culpado por isso.

Mesmo com toda a alegria que se encontrava no recinto, Harry podia ver que sua mãe estava preocupada e um pouco tensa. Ela estava na pia, decorando algo que não conseguia enxergar, mas podia jurar que suas mãos tremiam. Sem pensar duas vezes, ele se levantou e caminhou até a mulher, e tocou sua cintura, chamando a atenção dela.

- Mãe, quer ajuda?

Lily virou o rosto e afastou as madeixas vermelhas e onduladas de seu rosto. Ela olhou o filho, cujos olhos eram idênticos aos seus, e sentiu uma súbita vontade de abraçá-lo, como sempre acontecia quando estava perto dele. Harry não fazia ideia do quanto era amado e querido, mesmo que demonstrasse isso todos os dias. Mas a mulher achava que a demonstração de amor pelo filho nunca era o suficiente. O amor era tão grande que James e ela sempre debatiam o receio de mimar Harry demais, com medo de que ele se tornasse um filho desobediente e mal acostumado como o seu sobrinho, Duda. Mas, para a sorte deles, Harry se atentava aos limites do lar impostos por eles, mesmo que quebrasse inúmeras regras na escola, e era muito compreensivo e carinhoso.

- Não, querido! - Lily alisou o rosto dele com carinho. - Obrigada! Volte a se sentar com Neville para você jantar.

- Mãe...

Harry parou, apoiando as mãos pequenas na pia. Ele viu que sua mãe arrumava uma torta salgada que parecia tão gostosa quanto os doces.

- Papai vai adorar a festa.

Lily limpou as mãos no avental e esticou uma das mãos para Harry. Com um pouco de dificuldade, se agachou para ficar na altura dele.

- Eu sei que vai - sussurrou, ignorando completamente que seus amigos também estavam na cozinha. - Ele vai se sentir especial, mesmo que tenha aprendido a odiar festas de qualquer estilo. Do jeitinho certo, James vai voltar a amar seu aniversário, você vai ver.

- Mãe, eu não entendo por que o papai não gosta mais de festas. Festas são legais!

Havia coisas que Harry não sabia sobre a batalha de James contra o câncer. Ela sempre o considerou muito jovem para entender a gravidade de uma doença que quase lhe tirou o pai e seu marido. Por mais que o pesadelo tivesse acabado, Lily se pegava, às vezes, chorando escondida, mas eram lágrimas de felicidade e gratidão por ter conseguido chegar ao fim do túnel e abraçar a luz que tirou sua vida das trevas. O período de adaptação tinha sido o mais difícil do casal. James voltou para a casa, mas não era mais o mesmo. Era como se a parte mais feliz e bonita que existia nele se fechou para dentro, em alguma parte que Lily fazia um grande esforço para fazer brotar novamente, todos os dias.

A adaptação de James foi mais desconfortável que vê-lo condenado todos os dias a uma cama de hospital. Quando ele foi liberado, era como se ele tivesse nascido de novo. Lily se lembrava como se fosse ontem do momento em que receberam a notícia que James teve uma recuperação completa. A partir disso, ele reaprendeu a lidar de novo com sons, gostos e texturas, e a andar e a correr sozinho dentro da nova rotina. Seu marido sabia que estava curado, que deveria fazer consultas esporádicas, mas o trauma ainda estava enraizado dentro dele, mas diminuiu conforme os anos passaram.

Lily compreendeu esse processo difícil de James e não acatou quando o marido lhe pediu que não celebrasse certas datas, especialmente, seu aniversário. As lembranças que ele tinha desse dia não eram das melhores, pois, quando estava internado, todos lhe desejavam felicidades em clima de velório. Ela entendeu como deveria ser complicado para ele fingir que estava feliz sendo que não estava. Foi um processo de recuperação longo e cansativo, e já durava muito tempo. Decidir por uma festa surpresa de aniversário para James era o aviso que ela queria transmitir, para que aquele martírio dele terminasse.

O alicerce na recuperação de James havia sido Harry. Quando ele ainda era um bebê, James mal deixava Lily sair da cama no meio da noite para ver se ele estava bem quando chorava no meio da noite. Ela sabia que o marido queria poupá-la, pois ele se sentia na obrigação de assumir a casa e os cuidados com o filho por ter ficado ausente e não ter participado de nada enquanto estava no hospital. Como ele costumava dizer, ela cuidou de Harry por nove meses, para que o bebê se desenvolvesse de forma saudável para ser compatível e salvá-lo, então, nada mais justo do que ele assumir o restante.

James se empenhou no crescimento de Harry e no bem-estar de Lily. Sempre levava o filho para a escola – ignorando a presença de Snape – e sempre o buscava – querendo quebrar a cara de Snape. A novidade do seu ex-melhor amigo ser professor do seu filho era perturbadora, mas, no fundo, Lily sabia que ele jamais faria algo contra Harry e não faria nada além do seu dever de professor, mesmo que ainda odiasse James, especialmente Sirius, que também não perdia a oportunidade de buscar Harry na escola só para ter o prazer de desafiá-lo. Havia certas coisas que Lily preferia não colocar na mesa de discussão, pois ela ainda acreditava que em algum momento eles teriam que parar de se alfinetar.

Os Potter realmente haviam se tornado uma família pacata em uma vizinhança tediosa, com direito a pacote de salgadinho e latas de refrigerante espalhados pela casa, depois de um final de semana divertido. Devagar, a casa deles voltou a ter a sensação de ser realmente um lar de uma família que lutou até o último suspiro para estar ali, dez anos depois, prontos para enfrentar o que o destino colocasse como obstáculo.

James só não anulou as festas de Natal e Ano-Novo, pois marcava o período da remissão e o pedido de noivado que ele fez a ela. Em uma dessas celebrações, James e ela debateram sobre a omissão dos fatos que os perturbaram e quase os separaram dez anos atrás, e quando deveriam contar tudo isso para o filho. Harry já estava bem grandinho e poderia suportar que ele foi o responsável em salvar a vida do pai dele. O problema é que Lily e James não queriam tirar dele a inocência de uma criança, que não via defeitos na vida e que a achava maravilhosa. A vida era maravilhosa, pensou ela, segurando as mãos de Harry. A vida pregou a pior peça da sua existência, mas lhe deu um filho maravilhoso e o marido de volta. Lily não poderia ser mais grata pelos dois homens que eram a razão de mantê-la respirando.

- Harry, não é que ele não goste de festas... É só que ele teve um momento difícil na vida dele e prefere não relembrar.

- Que momento difícil?

Lily lhe ofereceu um sorriso e endireitou o corpo.

- Lembra-se quando te falei que o papai ficou muito doente?

Harry anuiu com a cabeça.

- Então, ele prefere não celebrar o aniversário para não recordar o quanto ele ficou muito mal por causa da doença - explicou, com a voz maternal. - Mas, independente disso, vamos tentar reanimá-lo, ok? Seu pai precisa celebrar o dia em que nasceu. O que aconteceu já não nos pertence mais - ela apertou a bochecha dele com gentileza - Agora, vá se sentar, que vou servir seu jantar.

Harry correu para se juntar a Neville. Lily apareceu logo em seguida, servindo os pratos prontos e aquecidos para os garotos que seguravam o garfo e a faca bastante empolgados. Depois, ela buscou a jarra de suco e os copos, colocando-os no centro da mesa.

- Está boa essa quantidade, Neville? - perguntou Lily em um tom de voz amoroso. Parou ao lado do garoto e acariciou de leve o cocuruto da cabeça dele.

- Está ótimo. - Neville ergueu a cabeça, o rosto corado pela animação da refeição. - Obrigado, tia Lily.

Ela sorriu. Um sorriso caloroso. O sorriso que comprovava que a maternidade realmente havia pegado Lily de jeito. Seus olhos logo se focaram em Harry, com uma ponta de orgulho escondida, que nascia toda vez que o observava. Ele já tinha dez anos de idade, mas agia como se tivesse bem mais. Talvez, o fato de amá-lo muito e estar sempre ao lado dele, o fez uma criança bastante madura para a idade. Ele a ajudava nos afazeres de casa, obedecia James e ela e, como qualquer garoto, se metia em encrenca na escola, exatamente como seu marido fazia quando era adolescente. Sem contar, que ele gostava de estar entre os pais e não tinha nem um pingo de vergonha de mostrar que era totalmente dependente deles.

Lily olhava para Harry, abobalhada. Ela tomou todo cuidado para que ele tivesse uma boa infância, que aproveitasse cada segundo de liberdade que tinha, mesmo que James e ela passassem um bom tempo dedicados ao trabalho e lutando contra os resquícios da depressão causados pelo câncer. Depois de ter dado à luz e aproveitado a licença maternidade, Alfardo a manteve no mesmo cargo, com um bônus adicional. Ao sentir que estava perdendo muito do crescimento de Harry, Lily pediu para fazer o trabalho em casa e, entre ser mãe e uma profissional, ela conseguiu manejar as duas vidas com muita tranquilidade.

Depois de muito tempo, Lily conseguiu encontrar a paz que tanto almejou para sua vida e, toda vez que olhava para Harry, era como se nada do que viveu anos atrás tivesse realmente acontecido. Depois de tanto tempo, a ruiva sentia a pura sensação de que finalmente estava livre e segura dentro do próprio lar.

No fundo, eu sempre soube que um dia Lily cederia. Ela podia me odiar na época da escola, mas tudo o que eu dizia a ela sobre James, de certa forma, eu sabia que a atraia. Ela sempre fazia aquela expressão pensativa, como se ponderasse, mas daí ela se lembrava de qual James estávamos falando e voltava a ficar na defensiva. Por mais que ela me xingasse e me desse tapas doloridos nas costas, eu sabia que um dia como este chegaria. O dia em que, finalmente, Lily diria sim a James Potter e daria início a formação de uma família que me terá como figurante, porque sou desses, bem oferecido.

A buzina a atraiu de imediato. Alice e Frank se apressaram para recolher as coisas da mesa e Lily caminhou até a janela, inclinando o corpo para confirmar quem chegara. Era James. Seus olhos fitaram a escuridão e sorriu ao notar que a noite estava linda, com céu limpo, sem previsão de chuva. A temperatura também estava excelente, pois logo o verão seria trocado pelo outono, a sua estação do ano favorita.

- Eu vou deixar a cozinha fechada. Remus vai chegar depois dos parabéns, pois ele está de plantão - explicou Lily, se afastando do peitoril da janela.

- Remus e sua agenda lotada. - Sirius resmungou, roubando um brigadeiro da bandeja. - Espero que ele fique rico para me pagar uma boa pensão. Afinal, ele era meu amante quando James não estava presente para atender minhas necessidades físicas.

- Sirius, que eu saiba, a amante que atendia suas necessidades era eu. - Lily apontou para si mesma, rindo.

- Lilica, eu sou seu amante quando você quiser. Agora que você parou de ser pata e, pelo visto, nem pretende mais ficar daquele jeito, só me ligar que te atendo, gatinha.

Sirius sentiu um tapa vindo de Marlene e riu ao se virar e ver a expressão fechada dela.

- Minha esposa está com ciúmes.

- Lily é minha amante e não sua, tolinho - ralhou Marlene, rindo.

- Que safadeza! - Alice falou, com as mãos na cintura, claramente segurando o riso. - Dando mau exemplo para as crianças.

- Gente, eu não tenho culpa se eu era um acompanhante pago nas horas vagas. - Sirius se defendeu, com uma expressão tediosa no rosto.

Marlene lhe deu um cutucão nas costelas, fazendo-o empinar o corpo. Ele ouviu a risada descontraída dela.

- Lene, meu amor, Remus sempre foi meu amante e a Lily também. James e eu tentamos, mas sempre curti os tímidos. - Sirius emoldurou o rosto dela entre as suas mãos. - Veja bem, eu estou casado com você. Minha mulher tímida.

- Mas eu nunca fui tímida - afirmou Marlene, com um sorriso maroto.

- Você se fingia de tímida para que eu acreditasse que você era santa - contradizeu Sirius.

- Você acha mesmo que eu faria isso?

- E não fez?

Marlene riu e deu um beijo rápido nos lábios de Sirius.

- Idiota! - exclamou ela, lançando um olhar ansioso para Lily. - O que você vai fazer para segurar o James?

- Eu vou levá-lo para o quarto. Ele vai demorar no banho e teremos tempo para nos prepararmos e surpreendê-lo. - Lily enrugou a testa, preocupada. - Só espero que ele não brigue com a gente por desafiar o plano dele em esnobar o aniversário para sempre.

- Certo! - exclamou Alice, com animação. - Enquanto isso, brincamos de bexiga.

Lily coçou o pescoço, não conseguindo disfarçar a preocupação que a dominou. E se James surtasse diante dos amigos? Fazia muito tempo que ele não fazia nada no seu aniversário e as felicitações sempre chegavam por mensagens de celular ou ligações curtas, pois todos não queriam provocar a ira do seu marido. Mas Lily estava cansada de tentar fazê-lo enxergar que o dia do nascimento dele era especial, um dia único e verdadeiro, que atraia as pessoas que ele mais amava e que sentia o mesmo por ele. Mesmo tendo certeza que a atitude era o certo a se fazer, ao olhar todas as bandejas cheias de doces e salgados, a ruiva sentiu que iria fraquejar.

- Lilica, relaxa!

A voz de Sirius a trouxe para a realidade, em nome dos velhos tempos.

- Ele não vai enlouquecer na nossa frente. James é preocupado com as aparências. - Sirius sorriu de canto, a fim de tranquilizá-la. - Mas depois ele vai querer brigar e você terá que ter jogo de cintura.

- Eu só queria que ele parasse de ignorar certas coisas que não tem mais nada a ver com a doença, sabe? - Lily disse. - Ele está bem e não tem mais sinais de depressão, ainda faz questão de se manter na terapia e toma os remédios, mas há certas coisas que ele não pode simplesmente abolir - ela parou para inalar um pouco de ar. - Harry veio me perguntar por que James não gosta de festas. O que eu falaria a ele?

- Harry está bem grandinho para entender certas coisas, Lilica. - Sirius afastou os cabelos de Lily dos ombros. - Ruiva, James te ama, eu já cansei de repetir isso. Eu sei que comentei da briga, mas ele seria incapaz de fazer isso. Ele pode dizer que foi uma atitude desnecessária e blá! blá! blá!. James nunca vai deixar de ser resmungão, mas, ao menos, você ultrapassou o limite. Ele vai reconhecer isso e vai respeitá-la mais do que já respeita.

Ela conseguiu sorrir e isso aliviou Sirius. No fundo, Lily sabia que o amigo tinha razão. Se James não gostasse da festa, ele reclamaria para ela e ninguém mais. Seu marido não era adepto a escândalos, especialmente, com os amigos presentes. Ele não iria pagar esse mico, por mais que ficasse chateado.

- Vou ir atrás dele, antes que ele apareça aqui na cozinha. - Lily se virou para os presentes. - Por favor, fiquem quietos, está bem?

Lily já estava prestes a sair da cozinha, quando duas mãos a tocou pela cintura.

- Mãe, eu quero ver o papai.

- Poxa, Harry, eu sou mais legal que seu pai. Você deveria ficar aqui comigo - retrucou Sirius, falsamente desgostoso.

Harry se levantou e sorriu para o padrinho.

- Você é demais tio Sirius, mas meu pai é mais - afirmou, todo orgulhoso.

- Estou perdendo o posto de importância até para a criançada. Preciso melhorar meu ranking, porque o negócio está feio. - Sirius meneou a cabeça negativamente, arrancando risadas bastante audíveis dos amigos.

- Shhh! James pode ouvir! - pediu Lily, acenando as mãos, para pedir que o tom da risada dos amigos abaixasse. - Vamos ver o papai.

Lily sentiu Harry pegar na mão dela com gentileza e a sensação de reconhecimento era muito boa. Juntos, eles caminharam para fora da cozinha e, com cuidado, ela fechou a porta para que James não fosse atraído para o local e estragasse a surpresa. Harry rumou até a porta de entrada e a abriu, saindo disparado pelo gramado à procura do pai, que não tinha saído do carro ainda. Não querendo quebrar o momento deles, a jovem se recostou no batente, sentindo o vento bagunçar seus cabelos e tocar seu rosto com suavidade. Um sorriso brotou nos seus lábios, natural, sem a responsabilidade de moldá-lo para agradar alguém. Lily ainda achava estranho sorrir, mas ela se habituou, assim como se aconchegou ao saber que James estaria o tempo inteiro ao lado dela, como deveria ter sido desde o começo.

Observando atentamente os dois pontinhos na porta da garagem, ela viu James sair do carro e fechar a porta. Com o passar do tempo, ele recuperou a massa corpórea e o brilho no rosto, que ficava mais intenso quando ele dava risada. Os cabelos nasceram lentamente, rebeldes e negros. Ao visualizá-lo de longe, se sentiu uma adolescente olhando para o garoto dos sonhos, torcendo para que ele a notasse e sorrisse para demonstrar que o interesse era correspondido. Ela não conteve um suspiro de garota boba apaixonada e riu sozinha. Por mais que tivessem se passado dez anos, James parecia o mesmo garoto que a irritava nos corredores da escola.

Ao ver o rosto de James, saudável, tranquilo, dócil, ela segurou o ar e sentiu o coração bater acelerado. Ela tinha a mesma sensação desde que ele se recuperou totalmente do câncer e voltou para casa. James passava horas no trabalho e, quando chegava, era como se eles tivessem ficado anos separados e sempre matavam as saudades um do outro, ficando o tempo inteiro grudados. Depois de muito tempo, Lily e James voltaram a ter as sensações boas que condiziam com a realidade da qual se encontravam, e não havia nada melhor que saber que o homem da sua vida ainda se mantinha ao lado dela, vivo, esperançoso, e rabugento quando lhe convinha.

- PAI!

O chamado de Harry a fez voltar à realidade. Ele parecia muito menor diante do pai, que o envolveu nos braços, pegando-o no colo.

- Meu garoto! - James jogou a bolsa transversal que sempre carregava no ombro e travou as portas do carro com a chave. - Como você está? - ele alisou a camisa de Harry e deu uma boa olhada no visual dele. - Uau! Você vai ser com a sua mãe? Não gosto nada de te ver todo arrumado. Sei que você é lindo que nem eu, mas namorar só com 18 anos.

Harry riu ajeitando os óculos do pai, que haviam escorregado para a ponta do nariz, como sempre acontecia com ele.

- Eu vou ao cinema com a mamãe - mentiu Harry, seguindo as instruções que sua mãe repassou dezenas de vezes com ele na parte da manhã. Ao perceber que seu pai parecia ter digerido a mentira, ele abriu um sorriso sapeca.

- E não pensaram em me convidar? - James alteou uma sobrancelha enquanto caminhava para a entrada da casa.

- Você quer ir com a gente?

- Agora vou me fazer de difícil porque eu tive que me oferecer para ir com vocês.

Harry riu e se pendurou no pescoço do pai, abraçando-o. Lily continuava parada na porta com os braços ao redor do corpo, com um sorriso satisfeito nos lábios. Ela ficava abismada com o fato de ver o filho crescer e ficar cada vez mais semelhante a James. Até a voz de Harry lembrava a voz do marido quando ele era criança. Era assustador, mas muito interessante. A única coisa que quebrava toda a fidelidade na fisionomia de Harry com relação ao pai eram os olhos verdes que eram iguais aos dela.

- Meu amor!

Lily sentia um calafrio percorrer sua espinha toda vez que James a chamava de seu amor. Era música para seus ouvidos e seu coração chegava sempre na garganta, fazendo-a ter dificuldade para respirar. Sorrindo, ela caminhou até James, tirando a bolsa do ombro dele e lhe dando um beijo carinhoso no rosto.

- Pensei que fosse chegar mais tarde - disse Lily acariciando o rosto de James.

- Hoje é sábado e eu não estava a fim de morrer dentro de uma sala de escritório. - James mordeu a bochecha de Lily, fazendo-a rir. - Ainda mais porque é final de semana e eu quero curtir minha família.

James impôs o final de semana em família como algo sagrado. Lily e ele não aboliram os encontros com os amigos, mas, sempre que podiam, os três saiam sem a companhia de outra pessoa para fazer qualquer coisa que desse na telha. Sob chuva ou sol escaldante, eles sempre estavam juntos, mesmo que gastassem o final de semana esparramados na grama, olhando para o céu, tentando adivinhar as constelações que as estrelas formavam. Mesmo trabalhando muito, James passava muito tempo com Harry e com a esposa. Ele adorava burlar o horário de almoço para estar com a mulher e o filho. Todo o tempo que havia perdido internado no hospital ele queria compensar, e não se sentia nem um pouco culpado ao isolar até mesmo Sirius para ter sua família só para ele.

- É, você está certo. - Lily alisou os cabelos dele, com carinho. Estavam um pouco longos, mas continuavam descomportados. - Harry e eu pensamos em ir ao cinema. Mas eu andei considerando outra coisa, um pouco mais interessante. O que acha? - ela olhou para Harry, a fim de dar continuidade ao fingimento.

- Hum... - Harry empurrou os óculos no rosto, fazendo Lily rir. Ele era um sósia de James. - Eu quero comer bolo. No shopping tem bolo, não tem?

- Ah! - Lily exclamou, se fingindo de desentendida. - Lá tem bolo sim, mas acho que podemos ir à doceria que tem aqui ao lado. Ouvi dizer que a nova sensação de lá é um bolo monstruoso de chocolate com nozes.

James olhou de um para o outro, sabendo muito bem onde eles queriam chegar com todo aquele papo de bolo. Ele poderia ter bloqueado a ideia de celebrar seu aniversário, mas sabia que aquele sábado correspondia ao dia em que nasceu. A data que vinha evitando desde que passou quase 4 anos dentro do hospital para sair ileso do câncer que o consumiu por completo e tirou todo o ânimo para celebrar até mesmo a Páscoa. A única data comemorativa que ele valorizava era o Natal, especialmente o Ano-novo, por ter sido a data que pediu Lily em casamento. Para James, não tinha mais sentido ter um aniversário, pois tinha perdido a graça.

- Quer comer bolo, Jay? - perguntou Lily, como não quer nada. Já poderia imaginar a reação dele e a sua resposta.

- Podemos comer bolo sim, mas eu ainda sou fã de um jantar bem bacana para nós três. O que acham?

- Vai ter bolo de sobremesa? - perguntou Harry com os olhos desejosos.

- Sim, vai, Harry. - James respondeu, rindo. Devagar, colocou o filho no chão e bagunçou ainda mais os cabelos dele. Depois se virou para Lily, abraçando-a pela cintura. - Como você está?

- Estou bem! - ela respondeu, se encaixando perfeitamente no corpo do marido. - Tentei adiantar um pouco do meu trabalho e consegui algo que você vai amar.

James a olhou cheio de curiosidade. Deu uma risada baixa ao ver os lábios de Lily se aproximarem da sua orelha.

- Esse final de semana sou toda sua. - Lily apoiou as mãos nos ombros de James e voltou ao campo de visão dele com um sorriso arteiro nos lábios.

- Ótimo! - ele alisou a testa, dando um pigarro. - Realmente preciso de um pouco de afeto da minha esposa. Se é que me entende.

O riso de Lily foi abafado pelos lábios de James de encontro aos seus. Ela o abraçou pela nuca, degustando daquele momento particular e tão único que fez os pelos dos seus braços se eriçarem. Ela amava James, de corpo e alma, e não havia sensação melhor de tê-lo em seus braços, são e salvo, e acima de tudo, feliz ao lado dela e do filho.

- Ew!

James e Lily se soltaram ao ver a expressão de nojo de Harry. A ruiva deslizou os dedos com cuidado pelo queixo de James e deu um beijo rápido nos lábios dele.

- Quando você me apresentar uma namorada, Harry, irei questionar essa expressão de nojo. - James disse com uma expressão marota.

- James! - Lily chamou sua atenção, rindo. - Você é um besta mesmo.

- Mas você me ama!

- Amo?

- Harry, sua mãe me ama, não ama?

Harry colocou o dedo indicador no canto da boca, falsamente pensativo.

- Ela ama, pai.

- Viu só? - James se virou para a esposa, lhe dando um beijo no pescoço. - Crianças são honestas.

- Eu não posso dizer que te amo o tempo todo, pois você voltou a ficar convencido.

- Eu sou demais, Lily, admita.

Lily se desvencilhou dele, emoldurando o rosto de James com as mãos.

- Uau! Você é demais, Potter.

James revirou os olhos ao ouvi-la chamá-lo pelo sobrenome.

- Evans, você sabe o efeito que isso causa. Vou ter que tirar as crianças da sala.

Lily riu e deu dois tapinhas de leve em cada ombro de James.

- Você é um idiota, mesmo!

- Harry, quando uma garota te tratar assim, é porque ela te ama muito.

Harry sorriu ao olhar para os pais abraçados.

- Eu pensei que isso era demonstração de ódio.

- Começa assim, mas depois melhora. - James puxou o filho com o braço livre, de forma a ter ele e a esposa em seu abraço.

- Vamos entrar! - Lily esticou a mão na direção de Harry. - Seu pai precisa de um banho antes de nos levar para um audacioso jantar.

- Posso ficar na casa da árvore?

- Pode sim! - Lily inclinou o corpo para dar um beijo no rosto do filho. - Eu o amo mais que seu pai. Só não conte a ele, está bem?

- Eu também a amo mais, mãe.

Harry pulou no pescoço de Lily, pegando-a de surpresa. Ela o envolveu em seus braços, percebendo o quanto ele continuava pequeno e indefeso, como se tivesse nascido ontem. Ela nunca pensou que ser mãe mudaria seu ponto de vista com relação a muitas coisas sobre a maternidade e, uma delas, era saber que tinha mais um alicerce para sorrir e chorar, sem um pingo de receio.

- Estou com ciúmes - resmungou James, de cara emburrada. - Como você pode amá-la mais que a mim?

- Ela tem cabelo ruivo, pai. De acordo com meu amigo Rony, ruivos são legais.

- Os Weasley andam infectando seu cérebro, isso sim - brincou James, dando um beijo no topo da cabeça do filho.

Lily se afastou de Harry, rindo. Ele deu alguns passos para trás e correu pelo jardim rumo a parte de trás da casa, onde James e ela haviam construído a casa da árvore. Uma casa bem parecida com a que ela tinha quando era criança. O lugar onde a história de Lily e James havia começado, com um relacionamento oficializado por meio da troca de barbantes.

- Ele está crescendo muito rápido - disse James, ao entrar na casa ao lado de Lily. - Ou eu estou ficando muito velho.

- Estamos ficando velhos, James - alertou Lily. - A única diferença é que uso creme anti-idade. Acho que você deveria fazer o mesmo.

- Engraçadinha!

James passou um braço pelo ombro dela e, juntos, entraram na casa e subiram as escadas. Lily ficou aliviada ao notar que os amigos realmente emudeceram, como se não estivessem ali, de maneira a não atrair a atenção de James para a cozinha. A ruiva voltou a ficar preocupada com a reação do marido com relação à festa surpresa que preparou, pois não sabia como ele reagiria. Como Sirius comentou, ele deixaria para reclamar depois e era ela quem ouviria. Sendo assim, preferiu se acalmar, pois ninguém saberia se ele tinha detestado a festa ou não.

Sabendo como ele aprendeu a repudiar sua data de nascimento, a ruiva optou por fazer um encontro pequeno, sem um pingo de estardalhaço. Claro que não poderia esperar que Sirius se controlasse, mas ele era o de menos. A escolha combinada com Alice e Marlene foram alguns comes e bebes para deixar o momento mais com cara de reunião entre amigos que uma festa surpresa de aniversário. Tudo bem que Lily tentou lutar com Alice contra as bexigas, mas pelo menos conseguiu manter as mãos da amiga ocupadas, mantendo-a longe do fogão, evitando uma explosão na cozinha. Convidar só os amigos também foi o ponto importante, pois se fizesse da festa surpresa um grande evento, Lily sabia que James não reagiria bem e, provavelmente, ficaria deslocado e desconfortável o resto da noite. E ela não queria isso.

Por mais que dissesse a James todos os dias o quanto era amado e o quanto era querido, o tempo não foi o suficiente para apagar certas mágoas e falhas que surgiram e se enraizaram no período em que eles enfrentaram o câncer. Lily continuava a fazer terapia com Natalie também, pois se habituou as consultas e havia muitas coisas dentro dela que ela queria compreender e melhorar, por ainda sentir uma pequena parcela de culpa e muita insegurança por crer que não havia cuidado de James como deveria, que não se comportou tão bem como o esperado e que não demonstrou o suficiente que o amava. Certas coisas não haviam mudado, mas a vida deles estava muito melhor.

James poderia não dizer em voz alta, mas havia resquícios do receio com relação à doença, morando dentro dele. Ele tinha medo que ela voltasse, o Dr. Jacob deixou muito clara essa possibilidade, mas o rapaz estava se cuidando e seu organismo estava muito bem para quem recebeu as células-tronco do filho anos atrás. Mas James ainda se continha sobre o fato de ter vencido, como se fosse pecado anunciar ao mundo que sobreviveu a tudo que a vida lhe dera de ruim. Desde que voltara para casa, ele aderiu ao mau hábito de não celebrar nada e ela respeitou a decisão, pois imaginava o quanto deveria machucar e como deveria ser complicado separar as lembranças do hospital, das sessões de quimioterapia e radioterapia da nova vida. Ele estava bem, mas, às vezes, era nítido que ainda desconfiava do poder do carma.

O casal entrou no quarto, ainda abraçados. Lily colocou a bolsa dele sobre a poltrona e James se afastou dela para se jogar na cama. Sentia-se exausto e seus olhos ardiam por causa de várias noites mal dormidas, para tentar dar conta do trabalho.

- Quer tomar banho de banheira? - perguntou Lily, se aprumando ao lado dele na cama.

- Isso é uma proposta indecente? - perguntou James, com um sorriso maroto nos lábios, todo esparramado na cama.

- Entenda como quiser, Sr. Potter - ela se deitou ao lado dele, de barriga para cima. - Estou disposta, sem compromissos.

James sorriu e apoiou um braço em torno da cintura de Lily, puxando-a para mais perto dele. Ela viu que aquele era o momento propício para abrir a discussão que evitava todos os anos, com muito sufoco.

- Jay, você precisa parar com esse problema de não comemorar seu aniversário. - Lily disse, com um pouco de receio. - Eu sei que você está travado em festejar qualquer coisa, mas precisamos soltar as amarras do passado. Eu não quero mais que nos privemos desses momentos, ainda mais pelo Harry. Parece até que vivemos no mesmo quadro, travados em um impasse que não existe mais. Não quero ser refém do que já passou.

- Minha esposa é poetiza. - James brincou, afundando o rosto na curva do pescoço de Lily. Cerrou os olhos e inalou o perfume floral dela. - Lils, você sabe que eu não curto aniversários.

- Mentira! - ela exclamou, com firmeza. - Você sempre amou seu aniversário. Todos os anos, você enfiava um convite das suas festinhas insanas no meu armário - relembrou, fazendo-o soltar uma risada rouca. - Jay, é sério...

James ergueu a cabeça e ficou com o nariz a poucos centímetros do rosto de Lily.

- Harry morre de vontade de te desejar parabéns e se oprime por saber que você não gosta - continuou. - Não acho saudável criar esse tabu. Não quero que ele odeie o aniversário, achando que é algo errado e triste. Ele é criança. Ele gosta de balões, música, de tocar bateira imaginária... E eu quero que continue assim até ele começar a se interessar por garotas.

James se apoiou pelo cotovelo, apoiando a cabeça na mão, com os olhos atentos no rosto sério da esposa. Mesmo daquele jeito, ela continuava linda, pensou ele, tocando o queixo dela de leve.

- Harry nunca teve problemas com o aniversário dele, Lily - a voz dele soou um pouco preocupada e Lily teve esperança que ele reconsiderasse esse papo de fugir do aniversário. - Lily, você acha que meu comportamento pode influenciar Harry a detestar certas coisas?

Lily o fitou e viu uma ruga se formar na sua testa. Ela também se apoiou pelos cotovelos, inclinando o tronco para ficar na altura de James.

- Ele está bem grandinho para entender certas coisas. - Lily enrugou a testa, pensativa, repetindo a fala de Sirius. - E nem ao menos contamos que ele salvou sua vida.

O coração de James ficava pequeno toda vez que se lembrava de que o filho havia salvado sua vida. Era romântico pensar que uma criança recém-nascida foi capaz de salvá-lo de uma doença que poderia matá-lo. O garoto que, há minutos atrás, estava em seus braços, pendurado em seu pescoço, foi o responsável em lhe dar uma nova chance de aproveitar a vida como deveria, de se redimir de muitas coisas, especialmente por ter deixado Lily sozinha, desprotegida, lidando com seus próprios demônios. O pequeno garoto que havia herdado sua genética realmente era o milagre da vida deles, e James sabia que teria que recompensar isso para sempre e de todas as maneiras possíveis.

- Ok! - James se sentou, esfregando os olhos cansados por debaixo dos óculos. - Vamos celebrar meu aniversário.

- Sério? - Lily também se sentou, os olhos brilhando de empolgação.

- Sério! - James concordou pegando uma mão dela. Tocou a aliança dourada, seu maior motivo de orgulho. - Vamos continuar a fazer as coisas certas. Pelo Harry.

- E por você, James - reiterou Lily, solidária. - Você precisa parar de se martirizar, da mesma forma que eu tento todos os dias. James, precisamos superar logo isso. Já se passaram dez anos. Acabou! Aquilo que enfrentamos não existe mais e estamos sendo cautelosos para que isso não se repita. Já sofremos demais, envelhecemos muito cedo e não podemos mais gastar nossa vida pensando no passado - ela engoliu em seco. - Estamos bem, casados, saudáveis e com uma criança linda. Acho que podemos nos permitir uma dose de diversão. Merecemos isso.

James tocou o rosto de Lily com gentileza e a trouxe para um beijo intenso, demorado. Ela tocou seus ombros, com as mãos gentis, enquanto impunha urgência naquele toque que sempre lhe fazia ter certeza de que estava viva. Toda vez que James a beijava era como se o gesto acontecesse pela primeira vez e era espantoso as maneiras diferentes como seu corpo reagia, mesmo que os lábios dele mantivessem o mesmo gosto e a mesma textura.

As mãos de James se apoiaram nas pernas de Lily e ele apalpou suas coxas. Ela suspirou por entre os lábios dele, puxando-o para mais perto. O toque dele sempre funcionava como uma corrente elétrica rumo ao seu cérebro, agitando-a por dentro. Seus dedos percorreram o colarinho da camisa do marido e desceram ao encalce dos botões. Os momentos de intimidade que costumavam ter eram sempre de madrugada, quando tinham certeza que Harry estava dormindo, mas aquele desejo que a dominava e deixava sua pele pegando fogo, a fez esquecer que havia visitas na casa e que o filho estava na casa da árvore. Era maravilhoso desejar James e saber que ele também a desejava da mesma forma.

James a puxou para mais perto, depositando as mãos quentes em sua pele por debaixo da blusa dela. O corpo dela arqueou ao toque e ela ofegou com os lábios ainda colados nos dele. Ela mordeu o lábio inferior de James, sabendo que era uma forma de incitá-lo, e o efeito da atitude foi o esperado, pois ele estava praticamente fazendo-a se deitar na cama, pronto para dar continuidade ao que estavam com tanta vontade de fazer.

Ao desabotoar o primeiro botão da camisa de James, Lily conseguiu apurar barulhos vindos da escada. Em menos de segundos, a porta do quarto se abriu, e eles se afastaram para ver quem era. Era Harry, com as bochechas rosadas, os olhos verdes brilhantes e a respiração descompassada.

- Mãe! Encontrei um gato na casa da árvore.

James apoiou a testa no ombro de Lily, soltando um muxoxo baixo de desaprovação. O gesto fez a ruiva rir, pois sabia muito bem o que aquele som queria dizer.

- Vou com você ver o gato. - Lily deu um beijo no rosto de James. - Tome um banho e vista uma roupa bem bonita, está bem?

- Sim, senhora! - James ergueu o rosto e deu um beijo rápido em Lily.

- Vamos, vamos, mãe! - Harry deu um saltinho, trocando o equilíbrio dos pés. Inquieto, voltou a descer correndo pelas escadas, deixando os pais sozinhos.

- Eu não acredito que ele cortou meu barato - resmungou James, com uma expressão divertida.

Lily se inclinou e deu um beijo na testa de James.

- Sirius me avisou que isso aconteceria. - Lily deu outra mordida no lábio inferior de James, sentindo o corpo dele estremecer. - Ele disse que, quando estivéssemos prontos para fazer algo mais selvagem, Harry surgiria para interromper. Foi praga do seu melhor amigo - ela riu, desalinhando o cabelo de James. - Mais tarde te dou o seu presente completo de aniversário, ok?

- Irei cobrar!

Lily sorriu e deixou James sozinho para que ele se arrumasse. Ele mal podia esperar o que o aguardava assim que descesse as escadas.

Para os que veem de longe, Lily e James aparentam ser apenas mais um casal apaixonado. Mas, desde os primórdios, houve muita luta. James e Lily cresceram juntos e se afastaram, pois os hormônios da adolescência e minha presença afetaram todo o processo deles ser como os Longbottom, um casal de longa data. Lily enfrentou os problemas dela, James os dele, mas o caminho de ambos não se cruzou, nem mesmo na formatura, o momento em que tive esperança que eles resolvessem as diferenças e ficassem juntos. Mas a lata de lixo mudou tudo...

- Bacana esse gato! - Neville disse, sentado ao lado de Harry.

- Eu quero ficar com ele, mas acho que meu pai não vai deixar.

- Ah! Deixam sim. Eu tenho uma chinchila e meu pai se diverte mais que eu.

- Chinchila? - Harry alteou uma sobrancelha. - Você tem um rato?

- Sim! É bacana!

Lily e Alice estavam paradas uma ao lado da outra, observando os filhos conversar, sentados no tapete da sala. Elas pareciam distantes, mas, por serem melhores amigas, sabiam que compartilhavam a mesma sensação de orgulho ao verem Harry e Neville em um diálogo infantil sobre animais de estimação. Isso fez a ruiva se lembrar do pequeno debate que tiveram quando ainda estavam grávidas, sobre as possibilidades dos seus filhos serem melhores amigos, assim como elas.

- Neville parece com Frank - disse Alice, de repente.

- Eu acho que ele se parece com você. O rosto redondo é todo seu.

Alice riu, depois fez uma careta.

- Harry é a cara do James. - Lily falou, observando o filho proteger o gato com os braços. - A única diferença é que ele é magrinho e James era um pouco mais cheinho quando era pequeno.

- Harry puxou suas canelas finas. - Alice empurrou Lily de leve nos ombros, fazendo-a retribuir.

- Eu era gorda quando era criança - retrucou Lily.

- Nananinanão! - Alice negou com o auxílio do dedo indicador. - Os meninos só sabiam falar das suas pernas.

Lily olhou para baixo, encarando as pernas, protegidas por um jeans apertado.

- Mas eu sou magrela!

- Entendeu o que eu quis dizer sobre canelas finas?

Lily riu e meneou a cabeça negativamente.

- Como anda a família Potter?

- Estamos bem! - Lily respondeu. - É estranho dizer isso, mas é a mais pura verdade. James está maravilhosamente bem.

- Isso é muito bom, Lily. - Alice anuiu, fitando a amiga por cima do ombro. - Ele vai reagir bem a festa. Pelo menos eu acho.

- James anda bem disposto a mudanças, mas tem que pedir com jeitinho. Foi fácil convencê-lo de que ele precisa voltar a celebrar o aniversário dele. Ele precisa se sentir especial, por mais que ele seja mais mimado que o Harry.

- Lily e seus homens.

Ambas riram baixo, voltando a focar a atenção em Harry e Neville.

- Eu disse que eles seriam melhores amigos - relembrou Alice. - Eles são uns lindos.

- É, eles são! - concordou Lily, com uma ponta discreta de orgulho.

- Você vai ficar com o gato?

- Pelo visto, acho que sim! - Lily esticou o pescoço, ao ver Marlene se aproximar.

- Desculpe interromper o momento de vocês, mas preciso contar algo muito importante. Preciso aproveitar que Sirius me largou.

Alice e Lily giraram nos calcanhares para poderem olhar para Marlene.

- Diga, Lenezinha - Alice puxou a amiga para mais perto.

- Vocês prometem segredo? Eu vou anunciar isso só mais tarde, para não ofuscar o aniversário do James. Mas eu preciso que minhas amigas saibam antes.

Alice e Lily se entreolharam, desconfiadas.

- O que aconteceu? - perguntou Lily com a testa enrugada. Sentiu os ombros ficarem menos tensos ao ver Marlene sorrir.

- Em breve, estarei compartilhando sensações da maternidade com vocês.

Alice e Lily inclinaram a cabeça para o lado, em um gesto automático de desentendimento.

- COMO É? - ambas indagaram em uníssono quando a ficha caiu.

- Eu estou grávida - sussurrou Marlene, sentindo as bochechas pegarem fogo.

- AH! MEU! DEUS!

Alice se jogou nos braços de Marlene e Lily fez o mesmo. Elas apertaram a garota que ficou no meio delas, ignorando a chegada de Frank e Sirius, que as observaram totalmente confusos.

- Mulheres! - resmungou Sirius, revirando os olhos.

- Mas, conte, quantos meses? - sussurrou Lily, tomando cuidado para que Sirius não escutasse.

- Dois meses!

- E não contou antes por quê?

- Porque eu estava meio receosa. - Marlene juntou as mãos, um pouco apreensiva. - Sabem como é, Sirius não reage muito bem com a possibilidade de viver no modo arco-íris. Eu ainda nem sei como contarei isso a ele.

- Own! - Lily e Alice abraçaram Marlene mais uma vez.

- Vocês são umas lindas. - Marlene apertou as duas amigas que a abraçavam. - E vocês serão as madrinhas mais lindas da criança.

- Não tenha dúvidas - concordou Lily, com um largo sorriso nos lábios. Ela olhou para o rosto afoito de Marlene e Alice, e sentiu a garganta fechar por alguns segundos. - Meninas, eu preciso lhes dizer uma coisa.

- Você está grávida de novo? - arriscou Alice, empolgada.

- Não! Pelo menos não que eu saiba - Lily mordeu o lábio. - Escutem, eu nunca fui verdadeira sobre meus sentimentos no decorrer da doença do James. Eu sei que vocês sabem disso, pois são minhas melhores amigas.

- Lily, independente disso. Você não era obrigada a nos informar sobre tudo o que acontecia - disse Alice, segurando uma das mãos de Lily.

- Eu sei, mas queria dizer que sou muito grata pela companhia de vocês duas, por terem sido tão boas, compreensivas e fiéis a mim em um momento tão difícil - ela inalou o ar com dificuldade. - Eu queria pedir desculpas por ter sido insensível ao largá-las de mão, como se não existissem. Não foi intencional é só que...

- Lily, cala a boca - ordenou Alice, meio indignada. - Você não tem nada que se desculpar. Eu sempre te amei, Marlene também, independente do que poderia acontecer nas nossas vidas. Eu jamais te julgaria por ter abrido mão da sua vida e das suas amizades para cuidar da pessoa que mais ama. Eu tenho orgulho de você, Lily. Eu te admiro. E, se algum dia Frank e eu nos encontrarmos em um problema tão ruim como o que você viveu, eu espero ser tão forte quanto você.

- Alice tem razão. - Marlene concordou. - Não te julgamos, Lily, apenas te admiramos. Eu não fui a pessoa mais presente no impasse entre James e você, pois cheguei depois e não tenho direito a dizer muita coisa. Mas, o tempo que convivemos juntas dentro da doença de James, nesta casa, lado a lado, eu vi o quanto você foi batalhadora e é totalmente justificável você ter se esquecido de nós pelo bem-estar da pessoa que sempre foi e sempre será parte de você.

- Você é o exemplo fiel de que lutar realmente vale a pena, Lily. Esqueça disso! - disse Alice, puxando a amiga pela mão. - Se te odiássemos, não estaríamos aqui.

- Nós te amamos, Lilynda.

Lily sorriu pelo canto dos lábios e engoliu uma súbita vontade de chorar. Por um momento, se lembrou de Emmeline e questionou onde ela poderia estar. Por mais que não se falassem mais, por ela ter sabotado seu relacionamento com James tantas vezes, ela poderia estar ali, compartilhando aquele momento com elas. A ruiva só esperava que ela estivesse bem, mesmo que Alice repetisse toda vez que se lembravam dela, que a loira merecia sofrer tudo em dobro.

- Eu também amo vocês.

Lily ergueu a cabeça ao ver a figura de James surgir no topo da escada. Ele olhou de um lado para o outro, completamente confuso. Naquele instante, a campainha também tocou e a ruiva se apressou a atender, pois sabia que era Remus.

- Feliz aniversário, James! - anunciou Sirius, de repente, erguendo uma garrafa de cerveja para o alto.

Mas a luta deles nem havia começado. Lily e James começaram a namorar, mas tiveram que enfrentar um pesadelo pessoal que os testaram de todas as formas possíveis e inimagináveis, que os fizeram tomar decisões duras que, tenho certeza, nem todos os casais tomariam. Eles começaram a namorar, algo que nos deixou surpresos e aliviados, pois esta missa tinha que terminar um dia. Daí, eles noivaram e agora estão aqui, diante de todas as pessoas como marido e mulher. Além de ser uma demonstração de amor, trata-se de um grande ato de coragem e uma afronta àqueles que nunca acreditaram no que eles sentem um pelo outro.

Eu não sei falar de amor. Não sou bom nisso. Se alguém me perguntasse o que é amar ou ser amado, eu olharia para o casal Potter e os indicaria como exemplo. Eles se amam. Não aquele amor obsessivo que te faz se sentir trancafiado, mas é aquele amor que te liberta, que te força a ser melhor... Que faz você querer que a pessoa ao seu lado se sinta querida e especial, mesmo que a tempestade aparente ser eterna. James é meu melhor amigo, o conheço desde criança, e sei o quanto ele sempre foi forte e o quanto sempre amou a Lily. E sei o quanto ele ainda luta para sobreviver e dar continuidade a uma história real, verdadeira e com sentimentos que deixam qualquer um com inveja.

- Então quer dizer que tudo estava planejado? - perguntou James, abraçado a Lily.

- Eu sou uma garota esperta - disse Lily toda pomposa. - Vai me dizer que não gostou?

- Tudo que você faz eu gosto.

- Vocês são muito mela cueca, nunca vi - comentou Sirius parado diante deles, com um sorriso malicioso nos lábios.

- Até parece que você não faz isso com a Marlene também.

- Não em público.

James e Lily riram. A ruiva se afastou do marido ao ver Harry correndo pela casa, um pouco tensa. Ele parecia que estava ligado na tomada, pois não parava de tropeçar nos pés ao encalço do gato, tendo Neville nos calcanhares.

- Vou pegar alguma coisa para beber - avisou Lily dando um beijo na bochecha de James. - Volto já!

James viu Lily se afastar e bebericou um gole da sua cerveja.

- 30 anos, então?

James riu enquanto engolia a cerveja.

- Na verdade são 17 anos - ele riu, divertido. - Quando você chega aos trinta, a idade diminui.

- Muito engraçado, James Potter, muito engraçado.

Sirius bebeu mais um gole de cerveja e observou o amigo.

- É estranho estar aqui, sabe? - começou James, olhando para o jardim. A porta da casa estava aberta e uma deliciosa brisa fazia daquela noite mais surreal que o normal. - Todos os dias em que acordo eu acho muito estranho estar aqui.

- Você é merecedor disso, James - afirmou Sirius, com seriedade. - Você lutou e brigou demais para estar aqui. Não é o momento para se sentir injustiçado. Você ganhou a garota que sempre quis e é um pai babão de um garoto que se parece comigo. James, você tem a vida que eu sempre quis ter.

- Hei! - James ergueu a mão, falsamente indignado. - Eu nunca pensei por esse lado. Harry realmente se parece com você. Você se aproveitou da minha mulher enquanto estava no hospital, não foi?

- Lily e eu vivíamos praticamente em uma praia de nudismo. Adorava esfregar as costas dela.

Eles gargalharam, parando para tomarem suas respectivas cervejas.

- Pode ser ridículo você ouvir isso, mas eu não sei o que seria da minha vida sem a Lily. Eu tento demonstrar todos os dias, desde que saí do hospital, o quanto sou grato por ela ter ficado, por ela ter persistido e não ter me abandonado. Para fazê-la ver o quanto a amo. Eu resisti a tudo isso por ela, Sirius. E, acredito, que é ela quem merece ser feliz, pois eu arranquei todas as coisas boas da vida dela, sem pedir licença.

- Tenho certeza que Lily pensa da mesma forma. - Sirius suspirou. - Agora, ao invés de vocês brigarem por amor, briguem para quem faz o outro mais feliz. O resultado será positivo, pois finalmente meu casal preferido confirmará que estão muito bem e eu poderei dormir em paz.

James anuiu com a cabeça e fitou o céu. Ele estava do jeito que Lily e Harry gostavam. Limpo, cheio de estrelas.

- Você também é feliz mesmo que não saiba, Sirius - disse James, fitando o amigo. - Você pode ser durão e tudo mais, mas Marlene lhe faz feliz. E eu espero que você tenha dito isso a ela pelo menos uma vez na sua vida.

Sirius sorriu de canto, um pouco encabulado.

- Eu jamais imaginei que estaria compartilhando um momento em família - ele deu um riso discreto, desacreditado. - Isso tudo aqui é familiar, James. Praticamente dez anos depois de todo aquele inferno que você viveu, de um longo período de superação e de adaptação, estamos aqui, reunidos com o casal impossível, comemorando seu aniversário, com direito a duas crianças correndo pela casa.

Ele finalizou a cerveja e continuou:

- Juro, James, eu idealizei muitas coisas na minha vida, mas não isso. Por mais bonito que pareça. E a sensação é estranha, pois eu faço parte disso. Minha família abriu mão de mim, nem sequer se preocupa em perguntar se estou vivo, e mesmo assim eu sobrevivi. Em parte, graças a você. Juro, James, se você não tivesse sobrevivido eu faria um atentado mundial.

- Eu não duvido. Você sempre foi o lado mais rebelde. - James riu com gosto.

- Nunca foi justo você ter ficado doente, James. - Sirius o observou, sem piscar. - Eu preferia ter ficado doente no seu lugar. Aceitaria de bom grado.

- Sirius, não me force a te dar um soco. - James ergueu o punho. - Voltei a fazer academia e tenho pleno condicionamento físico para fazer isso.

- Vou pular essa demonstração de afeto. Quando a velhice chega, é difícil recuperar certas feridas.

A conversa foi interrompida com a chegada de Remus. No topo da cabeça dele, havia um chapéu de aniversário e nas mãos, mais dois deles.

- A mulherada os convoca. - Remus estendeu os chapéus para os dois rapazes que não hesitaram em colocá-los na cabeça.

- Remus. - James chamou, assim que partiram juntos em direção à cozinha. - Obrigado por tudo. Pela força e pelo apoio lá no hospital. Eu sei que deveria ter dito isso antes, mas eu tinha que aceitar muitas coisas na minha nova vida e eu coloquei Lily e Harry em primeiro lugar - ele apertou o ombro do amigo. - Jamais pense que não sou agradecido pelo que você fez por mim. Por ter me suportado, especialmente.

Remus abraçou o amigo em um gesto de solidariedade.

- Não precisa agradecer, James. Você é meu melhor amigo e eu não teria feito nada diferente.

James anuiu e caminhou lado a lado com Sirius e Remus para o interior da cozinha. Ao ver Lily e Harry segurando seu bolo de aniversário, Alice segurando velas que pareciam pequenos fogos de artifício nas duas mãos, completamente empolgada ao lado de Marlene, James redescobriu o significado da amizade. Ele tinha uma esposa e um filho que o amavam, mas eram as pessoas presentes ali que davam sentido ao que Sirius queria dizer com familiaridade.

Enquanto eles cantavam os parabéns, seus olhos arderam, indicando que lágrimas se formavam ali. Mesmo contido, James fez uma prece silenciosa e agradeceu por tudo e todos por ter sobrevivido. Depois de muito tempo, ele percebeu que sua vida estava no eixo certo. Depois de tanto sofrimento, ele tinha todos os motivos para sorrir de novo e de maneira verdadeira.

Ao estar diante de Lily e Harry, ele fechou os olhos e fez um pedido silencioso, e assoprou a vela.

Eu posso dizer que conheço Lily melhor agora, devido aos meses que compartilhamos juntos e que foram suficientes para eu saber que ela é a mulher mais forte que conheci, que fraquejou diante do problema do marido por ser humana, por agir como louca por amar demais e por chegar ao limite por medo de perder. Perder, só a palavra em si, é dolorosa, pois ninguém está preparado para isso. Perder é uma palavra forte, mais forte que um soco na boca do estômago. Mas Lily e James optaram em arregaçar as mangas e se manterem dentro da batalha, por mais que ela pareça interminável.

Lily e James se amam. Um amor puro. Um amor que os uniu em uma situação que ninguém esperava, muito menos eu. Às vezes, me pergunto como duas pessoas tão boas foram submetidas a situações tão desconfortáveis e ainda terem a capacidade de se manterem juntos. Copiando um pouco o discurso do James que cansei de ouvi-lo repetir como um disco arranhado, Lily deu a maior prova de amor ao optar por ficar ao lado dele. Ela escolheu se manter ao lado do homem que ama. E James, por mais que você ache que não tenha retribuído, você o fez, se mantendo vivo.

Lily terminava de arrumar a bagunça da festa enquanto James recolhia os sacos de lixo para colocá-los do lado de fora da casa. Os amigos já haviam partido e eles fizeram questão em dispensá-los, sem que ninguém movesse o dedo para arrumar os resquícios da presença deles pelos cômodos da casa. O local só não estava entregue ao silêncio total, pois o barulho das garrafas e dos papéis ecoavam o tempo todo, e Lily e James sempre trocavam risos e carícias, aproveitando a ausência de Harry.

- Lily, onde eu coloco isso? - perguntou James erguendo uma bandeja de vidro. Ele quase jogou o objeto no lixo, por estar misturado com as coisas de papelão.

- Me dê aqui - ela foi até ele e pegou a bandeja. Ela ligou a torneira e a lavou, colocando-a no escorredor, enquanto ele lacrava os sacos de lixo. Olhando-o de soslaio, perguntou: - Gostou da festa?

- Gostei sua, bobinha. - James lhe deu um beijo no rosto, finalizando sua tarefa. - Você é muito sacana, sabia?

- Por que? - ela perguntou com uma expressão sapeca no rosto, se recostando na pia.

- Preparou todo o território para me surpreender. - James sorriu de canto, de maneira que seus olhos brilharam. - Você é linda e eu te amo.

Ela ofegou ao ouvir a declaração do marido.

- Entenda, James, você nunca encontrará uma esposa como eu - ela disse, com um tom convencido.

- Pior que não vou mesmo - lamentou, encolhendo os ombros. - Nem vou poder curtir uma amante... Triste isso.

Lily beliscou a cintura de James, fazendo-o dar um pulo para o lado. Ela pegou um dos sacos de lixo e o ajudou a levá-los para fora. A cozinha parecia intocável, como se ninguém tivesse passado por ali.

A brisa fresca da noite a tocou no rosto, fazendo-a cerrar os olhos. Ela ouviu o barulho da tampa da lata de lixo sendo aberta e fechada, trazendo James de volta para a porta dos fundos onde havia ficado parada. Em um pequeno tanque, ele lavou as mãos e ela foi até o marido fazer o mesmo.

- Cadê o Harry?

- Acho que ele está na casa da árvore. A luz está acessa.

- Ele vai querer mesmo o gato?

- Acho que o Harry precisa de um pouco de companhia e acho que um animal de estimação faria bem - disse Lily secando as mãos no jeans. - Só precisaremos levar o bichano ao veterinário.

James sacudiu as mãos para afastar a água e repetiu o mesmo gesto de Lily.

- Amanhã vemos isso! - James pegou a mão dela e a puxou para fora de casa. - Agora, vamos curtir nosso pequeno grande homem.

Eles correram pelo gramado até alcançarem a casa da árvore. Lily foi a primeira a subir, seguida por James. A ruiva encontrou Harry sentado na beirada, empacando a entrada, com um sorriso nos lábios ao ver a chegada dos pais. James se sentou do lado direito e Lily do lado esquerdo, deixando o filho entre eles. O gato estava nos braços do garoto e Lily não resistiu e fez um carinho rápido na cabeça do animal que pareceu ficar mais manhoso com o toque.

- Ele vai poder ficar? - perguntou Harry olhando da mãe para o pai. - Ele é bonzinho.

Lily olhou para James, como se ponderasse o impasse do qual se encontravam.

- Hum... Acho que um gato não seria uma boa ideia, Harry. - James coçou o dorso do nariz, vendo o rosto do filho murchar. - Eu acho uma excelente ideia. Não é Lils?

- Sim! - concordou a ruiva, apertando a bochecha do filho. - O gato é muito bem-vindo.

Harry abriu um sorriso maior, muito semelhante ao de James, de maneira que os olhos dele brilharam.

- Obrigado! - exclamou Harry com empolgação. - Prometo que cuidarei bem dele.

- Dele ou dela? - questionou James, pegando o gato dos braços de Harry. - Ah! É dele!

Lily riu passando um braço pelo ombro de Harry.

- Gostou da festa do seu pai?

- Foi demais! - Harry afirmou, erguendo o rosto para olhar para a mãe. - Comi muito também, não mais que o Neville, pois ele detonou os cupcakes, mas me sinto pesado.

- Quando você está com Neville, você sempre come demais - apontou James, rindo. Cuidadoso, colocou o gato de volta no colo de Harry. - Acho até bom, assim você engorda essas canelas finas.

Lily deu um cutucão em James, fazendo-o ficar na defensiva.

- O que eu disse?

- Eu sei que as canelas finas foi uma indireta para mim.

- Como você é boba, Lily Potter.

Ela riu, voltando a acariciar o topo da cabeça do gato.

- Mãe, pai, que tal se a gente dormir aqui hoje? - sugeriu Harry, arrumando os óculos no rosto. - Estou com preguiça de descer.

James olhou para dentro da casa da árvore. Quando pediu para que ela fosse construída, ele exigiu todos os detalhes da que existia no quintal do antigo lar dos Evans, por ter sido o local mais especial da sua infância. Mas a bagunça interna pertencia puramente a Harry, onde de um lado podia-se ver objetos novos e velhos, desorganizados e espalhados pelo chão de madeira. Do outro, era uma porção de réplicas de bonecos, mais organizados, por serem os brinquedos favoritos de Harry.

- O que acha, Lily? Passaremos frio na casa da árvore?

- Nem está tão frio assim.

Lily ficou em pé e limpou a parte de trás do jeans. Devagar, entrou na casa da árvore e foi até o baú que ficava nos fundos e tirou três sacos de dormir e três almofadas. James tinha incluído esse detalhe, justamente para momentos como aquele. Como uma boa mãe, ela esticou os três sacos no chão e colocou as almofadas. James e Harry assistiram, no aguardo, no batente da porta, olhando para a ruiva que ajustava tudo, meticulosamente.

- Sua mãe é um máximo - disse James, orgulhoso.

- Vocês dois são um máximo.

Lily riu para o filho e encontrou o olhar de James. A devoção que sentiam um pelo outro não precisava ser dita, bastava apenas demonstrar. Ela amava o homem que agora avançava com o filho deles para dentro da casa da árvore, tirando os sapatos, ajudando Harry a fazer o mesmo. O garoto não demorou a se enfiar dentro de um saco de dormir, liberando o gato de seus braços para que ele se acomodasse onde achasse melhor.

Antes de deitar, Lily desligou a lamparina e o lugar ficou entregue ao breu. Ela se juntou aos dois homens da sua vida, se aprumando no saco de dormir, ajeitando a cabeça na almofada. Ao olhar para o teto, aos poucos, os desenhos fluorescentes espalhados nele começaram a brilhar. Eram estrelas e luas. Já que não podiam ver o céu, podiam ao menos ter a sensação de que ele estava dentro da casa da árvore.

- Quer ouvir uma história antes de dormir, Harry? - sugeriu James, cruzando os braços atrás da cabeça para fazer de apoio.

- Eu quero! - a voz excitante de Harry aquecia o coração de Lily.

- Certo! - James pigarreou e silenciou por alguns instantes. Respirou fundo e organizou os pensamentos. - Era uma vez, um homem que tinha tudo para ser feliz na vida, mas acabou muito doente. Muito doente mesmo. Foi uma surpresa. Quando ele descobriu, ele achou que ninguém iria se importar, que ficaria sozinho, dentro de um quarto escuro, sem ninguém para ajudá-lo. De fato, algumas pessoas simplesmente o abandonaram por causa das escolhas que ele fez, especialmente quando decidiu lutar pela garota da qual sempre foi apaixonado desde criança. Mas, quando ele achou que tudo estava perdido, a garota estava ao lado dele. Ela era linda, Harry. Tinha incríveis olhos verdes, que faziam o coração dele parar toda vez que se via refletido neles.

Lily percebeu o que James queria contar a Harry e preferiu se manter quieta, embalada pela história que começou a mexer com seus sentimentos. Por mais que tivesse vivido aquilo, ouvir da perspectiva do marido era mais incômodo, pois se tratava da dor dele, das suas impressões particulares.

- Ela lhe deu todo o apoio para suportar a doença. - James parou, dando um suspiro. - Eles estavam apaixonados, Harry, muito apaixonados, e tinham medo de perder um ao outro. Mas depois de tantos altos e baixos, eles ficaram noivos e conseguiram se casar, mas ainda estavam com medo de terminarem aquela jornada separados.

Harry ouvia tudo muito atentamente, fazendo cafuné no gato que já ronrorava sob o saco de dormir.

- Ambos eram duas pessoas de extrema sorte, pois tinham amigos incríveis. - James continuou. - Na verdade, ambos ainda os têm. Eles foram o alicerce essencial para que ele e ela continuassem focados na luta contra a doença que parecia nunca ter fim. Era difícil acordar todos os dias e se ver no mesmo problema, mas eles tentavam, porque se amavam, e não conseguiam idealizar uma vida sem a existência do outro.

- Até que um dia, a garota da qual ele estava apaixonado, anunciou que esperava um bebê. Mas não era uma criança qualquer, Harry. Era uma criança com superpoderes que poderiam salvar o homem da fraqueza que o impedia de ser feliz e ter uma vida decente. - O tom de voz de James ficou mais empolgado e Lily sorriu, discretamente. - Eles tiveram medo de colocar toda a responsabilidade no bebê. Você sabe, Harry...

- Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

- Exato, já dizia o tio Ben. O Peter Parker aprendeu direitinho, não foi?

Eles riram com o comentário de James. Isso facilitou para que ele empurrasse os sentimentos ruins de lado e continuasse a contar a história real da vida dele e de Lily para Harry.

- Mesmo com superpoderes, ambos prometeram amar a criança, independente se o poder funcionasse. A criança era o milagre que precisavam e eles voltaram a ter esperança. Ambos se tornaram mais fortes e se uniram mais para superar os obstáculos que pareciam nunca ter fim.

- Qual era o poder dele, pai? - perguntou Harry, curioso, muito focado na história.

- A cura! - respondeu James, lançando um olhar discreto para Lily. - O bebê tinha o poder da cura, mas como ele era muito pequeno, esse poder ainda não estava desenvolvido.

Lily apertou a almofada e mergulhou o rosto nela. Queria chorar. Muito.

- O tempo passou, o bebê cresceu, e o casal continuou na luta. - James prosseguiu, alcançando os cabelos de Lily, alisando-os com carinho. - Um belo dia, quando eles brigavam pela milésima vez, o protetor do rapaz apareceu com uma grande notícia.

- O bebê conseguiu desenvolver o poder? - Harry perguntou, entusiasmado.

- Sim! - James sorriu, ainda acariciando os cabelos de Lily. - A criança iria curá-lo e ele voltaria a ser um homem saudável, com direito a uma vida longa ao lado da mulher que amava e da criança que não teve oportunidade de conhecer, nem mesmo quando ainda era um bebê.

James suspirou e ouviu Lily fungar o nariz. Ele sabia o quanto aquele assunto era delicado, mas como ela disse, a história precisava ser contada a Harry.

- O poder de cura da criança salvou o pai e lhe deu uma nova perspectiva de vida. Hoje, os três moram juntos, em uma casa pacata, com uma rotina tediosa, a ponto de dormirem em uma casa da árvore.

O silêncio foi conclusivo. Harry enrugou a testa, confuso, pois algo lhe dizia que a história que seu pai acabara de contar era parecida com o momento do qual viviam naquele instante.

- Essa criança com poder de cura é você, Harry. - Lily entrou na contação de história, chamando a atenção do filho. - Você é a criança com um poder especial que salvou seu pai. Você é nosso milagre Harry.

- Eu devo minha vida a você, Harry. - James sorriu, um pouco triste, mas era uma tristeza que foi superada pela alegria que o dominou ao olhar para a expressão chocada do filho. - Você é meu herói!

Harry ficou de boca aberta, com os olhos esbugalhados, chocado com a informação que acabara de receber.

- Eu sou um super-herói?

- Sim, você é. - Lily o puxou para perto, a fim de abraçá-lo. - E somos muito gratos a você.

James se aprumou para mais perto de Harry e Lily, envolvendo-os em seu único braço livre.

- Uau! Neville vai morrer de inveja quando eu contar a ele.

Lily e James riram com o comentário inocente de Harry.

- Eu quero uma capa para combinar. Quero ser igual ao Batman. - Harry enrugou a testa pensativo. - Acho que seria melhor eu ser como o Peter Parker, porque ele usa óculos.

James lhe deu um beijo demorado na testa.

- Ok! Providenciaremos uma capa para você ou a fantasia do Homem-Aranha, como preferir - disse James, fraternal. - Agora, tente dormir. Você se desgastou bastante hoje.

- Eu salvei meu pai, que maneiro.

Lily deu um beijo na bochecha de Harry e o aninhou em seus braços. Desde pequeno, ele sempre gostou de dormir enroscado a ela, e não tinha perdido o costume, até mesmo quando James tinha voltado para casa. Ele se encolhia em seus braços, com as pernas flexionadas, os braços encolhidos no peito, permitindo que ela o abraçasse por completo. A ruiva acariciou os cabelos do filho, ainda muito mexida com a história. Minutos depois, Harry estava entregue ao imaginário de seus sonhos, respirando devagar e pausadamente, sob a vigília dos pais, que estavam com as mãos unidas em torno do corpo do filho.

Lily e James trocaram um olhar de cumplicidade na escuridão. Ela conseguiu ler os lábios de James dizendo que a amava e ela retribuiu, em um sussurro honesto. Os dedos das mãos de ambos se entrelaçaram, unidos, fortes, apoiados na perspectiva de que a vida deles estava apenas começando, mesmo dez anos depois de tudo o que viveram e enfrentaram.

Sem obstáculos, sem dor, sem penitência. Apenas uma vida rotineira, com Harry se destrambelhando pela casa, pacotes de salgadinho no sofá e uma casa da árvore com estrelas particulares que iluminariam seus caminhos, para sempre.

Lily e James, vocês devem se orgulhar por terem um ao outro. A história de vocês não se encerra aqui. É apenas mais um capítulo de um grande livro, que só será finalizado quando um dos dois quiser. Como sei que é muito amor para apenas duas pessoas, sei que esta história durará para sempre. Com altos e baixos, vocês sempre serão as duas pessoas mais merecedoras de toda a felicidade e admiração que sinto neste momento.

Eu queria poder dizer mais coisas sobre o casal Potter neste discurso de casamento, mas todo mundo acompanhou a história deles. O início feliz, a queda e agora a tentativa de ressurreição. Eu sou uma das pessoas que mais torcem pela felicidade de vocês e, claro, mal posso esperar para ver meu afilhado nascer e correr pela casa, destrambelhado, com o jeito brincalhão de James com uma dose de autoridade de Lily.

Este não é o fim, é o começo. É um novo norte. Uma nova possibilidade. Como disse, nunca prestei atenção às aulas de literatura, mas aqui fica a minha deixa em nome do autor preferido de James Potter:

"Você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"

FIM!


N/A: cinco anos depois eu consigo terminar esta fanfic. É meio estranho, depois de tanto tempo, trocar o "em progresso" para "completa". Sendo honesta, nunca pensei que isso aconteceria, pois esta foi a história mais eterna da qual me envolvi dos pés a cabeça e jamais pensei, em hipótese alguma, que um dia a terminarei.

Como comentei dois capítulos atrás, At Your Side foi baseado, em partes, em uma história que eu vivi. Os motivos que sempre empacava e ficava meses sem atualizar, era porque ainda estava no meio do problema e eu tinha ficado realmente muito depressiva. Mas se eu fosse parar para contar o que eu vivi de 2007 até 2009, seria uma lambança de lágrimas e soluços que eu não estou pronta para reviver. Por isso, acredito que tão cedo relerei essa fanfic.

A fic em si teve altos e baixos, mas a vida é assim. Uma hora você está feliz e não outra você não está. Eu aprendi que felicidade é que nem tristeza. É um status. Uma hora você sente que é feliz e na outra você sente que é uma pessoa triste. Não tem meio termo. Felicidade não é duradoura, assim como a tristeza também não é. Daí entramos na questão das escolhas. Ou decidimos ficar tristes ou felizes.

Lily e James escolheram ser felizes e eu escolhi ser triste. Lily teve James ao alcance dela e, no meu caso, nada estava ao meu alcance. Por isso eu me senti na nítida obrigação de fazer com que Jily fosse um casal feliz. Sem contar que este último capítulo considero uma ode a Era dos Marotos, o que poderia ter acontecido se meus personagens favoritos não tivessem morrido na Guerra Bruxa. Minha visão é mais ou menos essa. Todos unidos, com crianças esparramadas pelo chão da sala. Algo saudável e merecido, apenas isso.

Foi difícil chegar até aqui, mas estou satisfeita. Meus ombros estão mais leves, pois finalizei uma fanfic que parecia impossível de ser finalizada. E eu a encerro com todas as glórias, pois foi por meio dela que evolui mais como escritora, melhorei bastante minha construção de história e me entreguei de verdade a uma história que não tinha um começo tolo, um meio engraçado e um final óbvio. Desculpe se torturei vocês demais, mas eu queria uma história tão profunda ao que aconteceu comigo. Eu sou uma pessoa intensa e acho que a personalidade que dei aos personagens da tia Jo precisava desse toque de intensidade, por mais que fosse insuportável ler tanto drama em tantas linhas.

Foi realmente uma lição de casa de cinco anos chegar até aqui. Eu tinha 22 anos quando comecei esta fic e agora tenho 26 (podem me chamar de velha, eu deixo hahahaha). Ela é minha história mimo, mas é daquelas que me deixa aterrorizada devido à veracidade de alguns fatos. E não teve um capítulo sequer que meus dedos não sagraram para ele ficar do jeito que eu queria, mesmo que terminasse o dia com mais de 30 páginas de Word para revisar duramente.

Eu espero que vocês tenham gostado da jornada de 64 capítulos. Espero que em algum momento eu tenha emocionado vocês, indignado, revoltado, feito vocês me xingarem... Acho que tudo isso faz parte, mas eu não matei nenhum dos protagonistas, vejam bem Hahahahahaah. Amei escrever as cenas do Harry e do Neville, duas crianças que ficaram órfãs, sem carinho de pai e mãe, e que mereciam estar no capítulo final da fic com menções honrosas aos Wesley, ao Snape e ao Draco Malfoy.


Vamos falar de reviews?

Ninha Souma: Viu só como nada deu errado? Hahahahahaah Tudo terminou bem, todo mundo feliz. Eu gosto da Lily com o Sirius. De uma forma bem estranha eles se entendem e eu gosto disso. Eles têm muitos problemas pessoais, do ponto de vista dos livros da Jo, e eu tbm acho que eles tinham um forte elo por causa disso. James era o amor da vida da Lily, mas acho que havia certas coisas que só mesmo Sirius para ouvir. Obrigada pela review, sua linda!

Carol Medeiros: Comoassem você odeia a Alice? Hahahaah Apesar que eu fui atrás de saber e acho que imagino até os motivos para isso Hahahahaha Passe mais vezes e odeie a Emmeline. Hahahahah

Fernanda Marinho: Eu tbm gosto do Sirius com a Marlene e acho que ele não seria capaz de desenvolver amor por ninguém. Ele é bastante frio e o nome Black nessas horas sempre fala um pouco mais alto. Mas se vc ler Inimigo Secreto, eu meio que quebrei as pernas dele por causa disso Hahahaha. Eu gosto da Lily e do Sirius juntos, aprendi a gostar. Nem tudo é briga e eu gosto de imaginar que, assim que James e Lily começaram a namorar, Sirius se tornou um elo essencial, que equilibrava os dois, por justamente ser imune a qualquer tipo de sentimento e ver certas coisas com mais clareza. Isso da parte dele é mto bom, eu gosto. Sobre o Epílogo é para vc escrever ou eu? Hahahahaha Pq se for vc, não tem problema algum. Distribuo créditos Hahahahaah

: Menine, pensei que vc tinha sido engolida Hahahahaha Eu sou uma chorona de alta categoria, amo chorar, e só meu notebook sabe o quanto chorei escrevendo esta fic. Agora que ela acabou, poderei me lembrar de te mandar os caps, pq tá tenso aqui tbm Hahahahahaha

7Miss7Butterfly7: Oie fofura! Eu ia pagar lenços de graça para a galera, pois se tivesse mais capítulos, sem dúvidas eles seriam mais chorosossssss, fatão! Hahahahaha Eu tentei colocar de tudo um pouco no capítulo mesmo, fico feliz de ter atingido isso, pois como era o antecessor do fim, tinha que ter aquela cara de novela Hahahahahahah E Inimigo Secreto logo mais volta a programação normal, aguarde...

Dafny: Masssssssssssss eu não quis te matar coisa NENHUMAAA! hAHAHAHAHAHAH Eu tinha que parar ali. Eu pensei em fazer o James assistir ao parto, mas eu fui pela logística dele não poder por estar doente e tudo mais. Tudo em hospital é proteção do paciente e resolvi cortar ali mesmo, pq daria timing perfeito pros 10 anos depois Hahahahahahaha ALÁ que o Harry salvou o James! Own!


Agradeço de verdade pelos 5 anos de paciência. Agradeço por quem começou a ler e desistiu. Quem começou e parou para continuar depois. Quem ainda persistiu até o final, junto comigo. Eu acho que uma das magias em escrever é não se importar com quantas reviews apareçam, mas a graça de se envolver em uma trama que tenha o intuito de encantar os leitores. Eu nunca me importei quando não tinha reviews e, mesmo assim, continuei a postar. Nunca dependi delas para ser honesta e nunca dependerei, pois nada disso influência no que eu penso, apesar que considero dicas de extrema relevâncias e algumas reviews conseguiram me fazer ver mudanças possíveis, antes que eu postasse um capítulo que todo mundo poderia odiar.

Nossa! Eu perdi as contas de quantos capítulos refiz. Se eu lhes dissesse que faria a Lily desistir do James, vocês acreditariam? Eu digitei esse capítulo. Era um acordo dela com Lorraine, pelo dinheiro para pagar o tratamento do James. Foi aí que Amos nasceu, agradeçam a ele Hahahhaha

Mas eu agradeço mesmo por terem lido, independente de deixar review ou não. Ler é o que importa. Seja ficwriter ou ficreader, o importante é dar continuidade a ficção de fã, só isso.

Para não dizer que largarei meu posto, estarei postando Inimigo Secreto. Ela é totalmente Hogwarts, sem carga emocional, mais brincalhona. Quem quiser me fazer uma visitinha por lá, pode ficar à vontade.

Quem quiser me seguir no twitter, pode tbm: stefslestrange. Eu gosto de tagarelar por lá e, às vezes, certos contatos bacanas depois que uma fic termina simplesmente acaba e eu fico #chatiada hahahahaahahah eu tenho Facebook tbm, quem quiser adicionar é só caçar Stefanny Lima, uma criatura de óculos vermelhos (quem não conseguir me achar, tenta o twitter, que tô quase sempre lá, mas deixa um aviso de quem se trata pra eu poder seguir de volta hahahaahha). Podemos tagarelar por lá tbm Hahahaha Sempre gosto de fazer amizades, quem quiser meu corpo, pode vir.

Bom, eu acho que é isso. Não posso dizer o quanto sou grata por terminar uma fic que parecia mais uma automutilação pessoal. Espero que tenham gostado de verdade também.

Grande beijo.

Stefs =]