Capitulo 2 – Os Últimos Ajustes

- Ainda demoras muito Sango? Cortar o cabelo não significa deixares-me careca! – Protestou, bufando em seguida de cansaço. Ela tinha perdido completamente a noção de há quanto tempo já estava ali, sentada naquela cadeira, virada para a janela do seu quarto. Segundo Sango, ali era o sítio com mais luz do quarto e dava para ver melhor o que ela estava fazendo. Na altura Rin achara uma boa ideia… mas agora, bem, agora ela já não achava mais.

- Estou quase a terminar! Pára de perguntar de segundo em segundo se eu já terminei! É chato! – Disse, continuando o seu trabalho – AI MEU DEUS – Gritou.

- Sango? – Perguntou receosa Rin – Sango o que aconteceu?

- Cortei um bocado que não devia de ter cortado!

- Estás a falar a sério? – Perguntou assustada Rin, virando-se rapidamente na cadeira de maneira a poder olhar de frente para a amiga.

Um levo sorriso brotou no rosto de Sango, e depois uma audível gargalhada irrompeu por todo o quarto.

- Devias de ter visto a tua cara! – Disse entre soluços e risadas.

- Qual é a piada Sango? Podes-me explicar? É que, ou alguma coisa me está a escapar, ou não há razão nenhuma para estares a rir!

- Eu não cortei nada errado. De facto, descobri que tenho aqui mais um talento! O cabelo ficou óptimo, perfeito, espectacular…

- Sim, sim, já percebi a ideia Sango… Isso quer dizer que já terminaste? Posso ir ver como ficou?

- Já terminei, sim. E claro que podes ir ver! Agora que estou a olhar bem para ti, quase que não te reconheço, o corte ficou muito bom mesmo.

Rin dirigiu-se até ao quarto de vestir que tinha no seu quarto, olhando-se ao espelho em seguida. Sango não tinha exagerado quando dissera que o corte estava muito bom. Ele estava muito bom, mesmo!

A princesa levou a mão ao cabelo curto, despenteando em seguida a franja que cobria a sua testa. Ela nunca tinha tido uma franja… Enquanto princesa, não lhe era permitido fazer franja, na verdade, não lhe era permitido fazer praticamente nada. Uma das suas aias, costumava dizer, "As mulheres puras emanam uma beleza natural, que nem com artifícios, uma mulher vulgar conseguirá". O irónico disso tudo é que lhe era permitido usar maquilhagem, não muito proeminente, mas definitivamente visível.

Um sorriso luminoso apareceu no rosto de Rin, ela estava realmente gostando desta ideia de poder fugir, de recomeçar uma nova vida… não havia nada melhor do que esta sensação de liberdade que sentia!

Olhou uma última vez para o espelho, respirou fundo e saiu do quarto de vestir, ainda havia muito coisa a fazer e pouco tempo para tantas tarefas.

- Gostaste do corte? – Perguntou Sango, quando viu Rin entrar novamente no quarto de dormir.

- Adorei Sango! – Respondeu quase correndo em direcção à amiga, abraçando-a fortemente em seguida. – Muito Obrigado! Eu não sei o que seria de mim se tu não existisses!

- Oh, por favor, não comeces com essas lamechices, senão daqui a pouco estamos as duas aqui a chorar que nem umas desalmadas!

- Tens razão Sango – disse, afastando-se.

- E agora Rin? O que estás a pensar fazer?

- Sango, eu sei que já me ajudaste muito hoje… e que bem, eu não sei como te agradecer por isso… mas eu vou precisar de outro favor teu.

- Tudo bem, sempre às ordens, diz-me o que queres.

- Eu preciso que tu me arranjes umas roupas do Kohaku.

- Umas roupas do Kohaku? Mas para que as queres?

- Sango, eu estive a pensar que talvez esta ideia de fugir seria muito arriscada, e mesmo com o cabelo curto, e os óculos de sol, as pessoas ainda me iriam reconhecer na rua…

- Vez! Vez! – Exclamou completamente desgovernada – Eu disse! Vez! Eu disse! Eu disse que isto era uma má ideia eu disse que…

- Sango! Acalma-te! Não me interrompas, deixa-me terminar de falar sim? – Sango murmurou um quase inaudível "sim" e Rin continuou a falar – Eu estava a pensar que talvez, talvez esse disfarce não fosse assim tão bom e que era melhor pensar em outra solução.

- E…?

- E… que o melhor era em me disfarçar de garoto!

Sango arregalou os olhos, abrindo a boca em seguida para falar, mas não conseguiu proferir nenhum som, estava completamente perplexa com a ideia de Rin.

- Isso é… isso é… é um… é uma… boa… boa ideia – conseguiu balbuciar, não escondendo que ainda estava atordoada e a processar o que ela acabara de dizer.

- Então…hm… arranjas-me as roupas que te pedi?

- Ah, sim…claro, claro.

Sango saiu do quarto praticamente a correr, voltando no minuto seguinte com umas quantas peças de roupa na mão.

Ela trouxera um pouco de tudo, camisas, camisas sociais, calças, sapatos, e até roupa interior masculina! Rin corou ao ver os boxers do irmão de Sango, era obvio que ela jamais iria vestir aquilo, era vergonhoso! E talvez… hm… pouco higiénico? Mesmo lavado e tudo mais… aquela peça de roupa parecia inútil, afinal, a roupa interior não é algo que se veja… certo? Ela poderia facilmente usar a sua.

- Muito Obrigado Sango! Se não fosses tu… se não fosses tu… não sei o que seria de mim.

- Essa frase é um sinal de despedida, estou certa?

- Definitivamente…

- Rin, como estás a pensar sair daqui? Os guardas não te vão reconhecer… Até que, que te conheço desde que nasceste e somos melhores amigas desde que nos recordamos, não te reconheço, mais ninguém irá!

- Obrigado Sango. Bem, eu estou a pensar fugir pela janela. Eu conheço os lugares onde não há guardas, por isso o mais seguro vai ser passar pelo jardim da porta principal. – Rin fez uma pausa e respirou fundo, agarrando em seguida um dos lençóis que estava em cima da cama – Ajudas-me a atar os lençóis uns aos outros? Quero fazer uma espécie de corda…

- Claro… Mas estás a pensar saltar pela janela? – Perguntou, ajudando a amiga a desfazer os lençóis anteriormente dobrados, e a dobrá-los

- Sim… é a melhor solução… além disso isto é um primeiro andar, mesmo que eu caia, o dano não será muito grande...

- Eu ainda acho que isto é uma loucura…

- Pronto! Já está! Agora vou atar isto à cama – disse passando os lençóis pela cama atando-os sabiamente. – Está na minha hora Sango…

- Vou ter saudades tuas Rin, eras a minha amiga…

- Sango isto não é um adeus, é um até já, eu prometo, prometo mesmo! Palavra de escuteira, que te dou noticias minhas!

- Prometes?

- Prometo – garantiu abraçando fortemente a amiga. Uma tenra lágrima desfilou pelo seu rosto, ela ia ter muitas saudades da amiga, Sango era a única pessoa que sempre tinha estado do seu lado… se não fosse ela, Rin não sabia como aguentaria os deus no castelo.

– Até logo Sango. Cuide-se – disse agarrando a corda, descendo de maneira astuta pela janela, como se estivesse a fazer escalada. A cama moveu-se um pouco do sítio onde estava, mas felizmente era suficientemente pesada para aguentar com o peso de Rin sem fazer um estardalhaço.

Sango observou da janela a amiga a correr cautelosamente pelo enorme jardim.

- Boa sorte Rin – murmurou Sango, deixando finalmente que a dor se manifestasse nas lágrimas que escorriam copiosamente pelo seu rosto.

Continua…